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Texto e Sentido

O documento discute a importância do uso apropriado da língua em diferentes contextos sociais, enfatizando que o conhecimento gramatical deve ser complementado por saberes sociocomunicativos e culturais. Exemplos ilustram como a interpretação de discursos depende do contexto situacional e discursivo, bem como do conhecimento compartilhado entre os interlocutores. A dinâmica da comunicação é influenciada por fatores como a intencionalidade do falante e a relação entre os participantes.

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Texto e Sentido

O documento discute a importância do uso apropriado da língua em diferentes contextos sociais, enfatizando que o conhecimento gramatical deve ser complementado por saberes sociocomunicativos e culturais. Exemplos ilustram como a interpretação de discursos depende do contexto situacional e discursivo, bem como do conhecimento compartilhado entre os interlocutores. A dinâmica da comunicação é influenciada por fatores como a intencionalidade do falante e a relação entre os participantes.

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Texto e sentido

Conhecer uma língua não se reduz ao conhecimento da gramática dessa língua.


É importante saber usar a língua de modo apropriado em múltiplos e diversos contextos
sociais, selecionando os recursos linguísticos que melhor se ajustam aos propósitos do
falante e à situação concreta da comunicação.
O produto efectivo do uso da língua pode ter uma extensão variável, em função das
situações concretas em que emerge e da intencionalidade comunicativa do falante.
Ex.1: Parabéns!
Ex.2: Dos 1,3 milhões de pessoas que vivem na pobreza no mundo, 70% são mulheres e
raparigas. São também estas que fazem parte do grupo que mais depressa tem vindo a
empobrecer, daí que o relatório tenha considerado o fenómeno como a “ feminização
global da pobreza”. As mulheres constituem metade da população mundial, mas só
detêm 1% da riqueza.
 Em ambos casos, estamos perante discursos ou textos:
 o primeiro, constituído por uma só palavra e realizado oralmente, cumpre uma
determinada função comunicativa: saudar o (a) aniversariante;
 O segundo, mais extenso, é um texto de imprensa, escrito, que visa dar
informações acerca da situação da mulher no mundo actualmente.
 Ambos os textos são relevantes nos respectivos contextos de produção/ recepção.
 Na produção do discurso ou texto, o locutor recorre ao seu conhecimento da
língua, um saber gramatical, mas mobiliza também os diferentes saberes, de
natureza sociocomunicativa e cultural, que relevam basicamente da necessidade
de adequar o discurso ao assunto de que se fala, aos objetivos da interação, ao
perfil do interlocutor, à especialidade da própria situação de comunicação.
 Ex.3: Tá-se bem, meu?
 No exemplo 3, há adequação como saudação, num contexto de conversa entre
adolescentes, e há total inadequação num contexto de exame oral, entre o aluno
e o professor.
 De igual modo, na interpretação de um discurso não envolve exclusivamente uma
descodificação do material linguístico, antes pressupõe um permanente processamento de
inferências, ancoradas num saber compartilhado que engloba conhecimento do mundo,
convenções sociocomunicativas e culturais, e ainda informação facultada pelo que foi dito
previamente ou disponibilizada pela situação concreta que preside à comunicação.
 Ex.4. Têm cachorros?
 Ex.5. O Pedro redige bem, foi sempre assíduo e pontual.
 O exemplo 4 é ambíguo, porque nele ocorre a palavra cachorro, que tem mais do que um
significado;
 No entanto, ao ser proferido num café, a ambiguidade desaparece: o empregado a quem o
enunciado é dirigido interpreta-o automaticamente, sem qualquer dificuldade, afetando a
palavra cachorro o único significado situacional relevante, o de pão quente com salsicha.
 Quanto ao exemplo 5, imagine-se que o enunciado corresponde ao fragmento mais
importante de uma carta de recomendação redigida por um antigo professor do Pedro, a
pedido deste último, que entretanto se está a candidatar a um lugar de programador
informático. É altamente plausível que a interpretação do exemplo 5 pela entidade
empregadora se faça por via inferencial e num sentido desfavorável para o candidato.
 Faz parte do nosso conhecimento do mundo que uma carta de recomendação para um
determinado emprego vale pelo peso que der ás qualidades do candidato para o
desempenho de uma função específica;
 Ora, uma carta de recomendação que apenas sublinha a capacidade de expressão
escrita, a assiduidade e pontualidade, sem mencionar aquilo que é de facto relevante
para o desempenho das funções em apreço – a competência em termos de
programação – implica que quem escreveu a carta de recomendação avalia
negativamente o candidato quanto a sua competência como informático.
 São, pois, diversos factores que regulam e condicionam a produção e interpretação de
um discurso ou texto.
 Desde logo, um discurso emerge num determinado contexto situacional, que envolve
prototipicamente dois participantes, um produtor e um receptor, localizados num
determinado espaço e num determinado tempo.
 A importância do contexto situacional manifesta-se de modo crucial na interpretação
dos dêiticos, expressões de referência variável, dependentes de quem fala ou escreve,
daquele (s) a quem se dirige o discurso ou texto e das coordenadas de espaço e de
tempo em que se desenrola a actividade comunicativa.
 Ex.6. Hoje, está aqui muito frio.
 Ex.7. Eu gostava saber quem te deu este livro.
 Só é possível atribuir uma referência a hoje e aqui no exemplo 6, se for possível saber em
que dia e em que local foi proferido o enunciado.
 No exemplo 7, eu e te apontam, respectivamente, para o locutor e para o interlocutor, e a
ocorrência do demonstrativo este implica que o livro em questão está presente no contexto
físico em que se desenrola a comunicação e próximo do locutor.
 A relevância do contexto situacional na interpretação dos discursos ou textos não se esgota
no fenômeno da dêixis.
 Veja o seguinte exemplo: EX. 8: Estás linda!
 Ao ser pronunciada, é normalmente interpretada como um elogio; mas pode expressar um
comentário irónico ou reprovador, quando, por exemplo é dita, com uma determinada
entoação, por uma mãe conservadora que vê a filha adolescente a aproximar-se com
madeixas vermelhas no cabelo. E como tal será interpretada no contexto situacional em
apreço.
 É importante saber que os participantes não são polos vazios de um circuito comunicativo: o
que dizem ou escrevem é sempre condicionado pela visão do mundo, pelas suas crenças
evalores, be, como pela relação que mantêm com aquele (s) a quem se dirigem. E a
actividade de recepção e interpretação também é igualmente condicionada pelo mesmo
conjunto de factores.
 O contexto situacional determina a existência de dois meios distintos de uso da língua: o
meio oral e o meio escrito. Também podemos fazer referência ao meio gestual.
 Para do contexto situacional, também temos o contexto discursivo, ou seja, o contexto
linguístico mais vasto em que se insere um determinado enunciado, deve ser tomado
em consideração na análise dos processos de produção e interpretação de um texto.
 Tais processos são sempre dinâmicos, na medida em que o modo como se desenvolve o
assunto sobre o qual se fala ou se escreve implica uma permanente articulação entre
informação nova e informação dada ou conhecida. Neste sentido, um texto implica
sempre um equilíbrio entre continuidade e progressão da informação, o que envolve
retoma de conteúdos já produzidos e integração de elementos cognitivos novos. Veja o
exemplo.
 Ex.9. É branco, tem olhos azuis e adora brincar.
 Descontextualizado, este enunciado é interpretado em função das palavras que nele
ocorrem e do modo como essas palavras se encontram associadas.
 Assim, o significado do exemplo 9 pode ser explicitado nos seguintes termos: existe
uma entidade do sexo masculino e essa entidade é branca, tem olhos azuis e adora
brincar.
 Trata-se de uma interpretação incompleta, já que não é possível atribuir uma referência
especifica ao sujeito, que pode ser uma pessoa ou um animal. Veja o exemplo seguinte.
 Ex.10. Os avós do João ofereceram-lhe um gato no Natal. [ - ] É branco, tem olhos azuis e
adora brincar.
 O contexto discursivo acrescentado faculta uma informação necessária para a interpretação
completa do exemplo. O sujeito pronominal nulo [-] de 3ª pessoa do singular, não realizado
lexicalmente, retoma o valor do sintagma nominal um gato, expresso no enunciado anterior.
Estabelece-se, assim, uma cadeia de referência entre o antecedente um gato e o pronome
não realizado [-]. O pronome nulo é, pois, anafórico, dado que a sua interpretação depende de
um antecedente discursivo.
 A importância do contexto discursivo é decisiva nos casos em que ocorrem no texto
expressões anafóricas. Mas ela é ainda decisiva na construção da estrutura temático-
informacional do texto, bem como na sequencialização coerente dos diferentes enunciados
que o compõem.
 Para além do contexto situacional e do contexto discursivo, não pode deixar de ser posto em
relevo, o papel do conhecimento implícito assumido pelos participantes.
 Engloba-se sob esta designação ampla quer conhecimento do mundo partilhado no seio da
comunidade quer conhecimento acerca do outro. Tal conhecimento interfere produção e
recepção do texto, supletivando informação não expressa.
 Tambem o conhecimento acerca do outro, ou seja, aquilo que o produtor do texto assume que
o interlocutor conhece, desempenha um papel de relevo no processo interpretativo. O grau de
explicitude de um discurso varia em função da maior ou menor interseção da base de
conhecimentos partilhados. Veja os exemplos:
 Ex.11. Fomos ontem à Feira Popular com os miúdos. Regalámo-nos com as farturas!
 Ex.12. A Maria está fechada no quarto com as persianas corridas. Tenho de ir à
farmácia comprar um analgésico forte.
 A interpretação do exemplo 11 convoca conhecimentos intersubjectivos e socializado,
ligado ás vivências especificas da comunidade, e, portanto, culturalmente
condicionado: é sabido que há farturas numa feira popular, pelo que não causa
qualquer estranheza o uso do sintagma nominal definido as farturas.
 No segundo exemplo (12), o falante assume que o interlocutor conhece a Maria e sabe
que ela fecha no quarto com as persianas corridas quando está com uma tremenda
enxqueca. Na ausência deste conhecimento, a sequencia causa estranheza, podendo
mesmo ser considerado incoerente.

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