Geraldo Vandré
Geraldo Pedrosa de Araújo Dias
Nascido em 12 de setembro de 1935
em João Pessoa, PB
Filho de Maria Martha Pedrosa
Dias e do otorrinolaringologista
José Vandregíselo.
Seu sobrenome artístico é uma
abreviação do sobrenome de seu pai.
Infância e Adolescência
Cercado de cultura popular e cânticos religiosos por todos os lados, Geraldo reforça
o sonho de um dia se tornar cantor profissional. A mãe sempre lhe dissera que ele
poderia ser o que bem entendesse, de jogador de futebol a cantor, desde que tirasse
o diploma universitário.
Por seu comportamento rebelde, é matriculado no colegial em um internato na Paraíba, no Ginásio São
José, em Nazaré da Mata, localizada na Zona da Mata Pernambucana, a 65 quilômetros do Recife e a
135 de João Pessoa, a pequena cidade é chamada de “terra do maracatu” em referência ao gênero
musical percussivo que nasceu das congadas, cerimônias de coroação de reis e rainhas de origem
africana.
Entre as aulas e as obrigações religiosas, o novo aluno se diverte ouvindo cantadores de feira, bandas
de música e prestando atenção nos autores de cordel. Tal influência poderá ser notada mais tarde em
suas composições, não apenas em algumas temáticas, mas principalmente no rigor das redondilhas e,
em alguns casos, no deslocamento da sílaba tônica na pauta melódica.
Sua primeira apresentação artística se dá justamente como aluno do internato. O diretor, padre João
Mota de Albuquerque, que mais tarde seria nomeado segundo bispo de Sobral (CE), pelo papa João
XXIII, promove um show para as missões religiosas. Geraldo e três de seus colegas são escolhidos
como atrações principais da quermesse e recebem o aplauso entusiasmado da pequena plateia.
Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1951 onde entrou para a Universidade do Estado de
Guanabara em 1957 no curso de direito se formando em 1961.
Participou da efervescência dos Grêmios universitários, da UNE e do CPC, que
abrigavam as atividades artísticas das esquerdas, ao lado Carlos Lyra com quem fez as
primeiras parcerias.
Lyra e Vandré
Carlos Lyra conta que o primeiro encontro entre os dois
aconteceu possivelmente em 1955, em sua casa, na Rua
Bolívar, em Copacabana, onde ele dava aulas de violão.
(Nuzzi, 2016)
Geraldo Vandré pretendia participar do Primeiro Festival
da Canção e pediu uma música para Carlos Lyra que lhe
entregou “Menina”. No mesmo ano Sylvia Telles gravou a
música. Tempos depois Vandré retornou dizendo que A música Aruanda foi gravada
havia ganhado o festival com a música. Seu nome artístico por Astrud no álbum “The
era Carlos Dias e depois mudou para Geraldo Dias. Shadow of You Smile” em
1965.
Vandré e Lyra, inspirados no filme Aruanda, dirigido por
Linduarte Noronha em 1960, que exibe uma comunidade
quilombola na Serra do Talhado, justamente na Paraíba,
compõe a música homônima que entrará no álbum “Hora
de Lutar”
A segunda – e última – parceria veio com Quem Quiser
Encontrar o Amor. Feita, segundo Lyra, do mesmo jeito
que Aruanda, com ele mostrando o tema e Vandré fazendo
a letra em seguida. “Geraldo era rápido, não levava pra
casa, não. Fazia ali, sentado do lado. (Nuzzi, 2016) Quem quiser encontrar o amor 1961
Baden e Vandré
Em 1961 a dupla compõe Fim de
tristeza, Nosso amor, Samba de
mudar, Se a tristeza chegar e
Rosa flor.
Mudou-se para São Paulo em 1961 e começa a conviver com uma patota de cantores liderada
pelo músico Paulo Cotrim. A turma se reúne numa pensão vizinha do Colégio Mackenzie, local
do primeiro grande show bossa-novista no qual ele se apresentará. O próprio Cotrim não
demora a inaugurar o Juão Sebastião Bar, na rua Major Sertório, 772, Vila Buarque. Com isso,
o ponto de encontro da rapaziada muda de endereço, tendo Baden Powell entre os
frequentadores mais assíduos. Testemunhando a explosão da bossa-nova, o jovem paraibano
também participa de reuniões na casa de amigos ligados ao movimento. Nesse tipo de
ambiente, em vez de cantar, ele prefere falar poemas. Baden fica impressionado com sua
performance. “Geraldo sempre falou bem, com aquela voz bonita. Ele recitava poemas de
Fernando Pessoa e de Vinicius de Moraes.
(Zuza Homem, A era dos festivais, 2013)
Seu primeiro disco profissional – um 78 rotações lançado pela RGE
– o letrista registra Quem quiser encontrar o amor (com Lyra) e
Sonho de amor e paz (de Baden e Vinicius). O single toca em várias
rádios, chamando atenção para o seu trabalho. “O sucesso dessas
músicas deveu-se muito à obstinação de Geraldo”
Contratado pela TV
Tupi de São Paulo
(1961)
Ainda em 1961, Geraldo é contratado pela TV Tupi de São Paulo para participar de um programa
produzido por Abelardo Figueiredo sob encomenda da Norton Publicidade. Na mesma ocasião,
acompanha Baden Powell numa viagem a Belo Horizonte. Quem vai ao encontro deles é o
compositor e pianista Pacífico Mascarenhas, que pouco depois formaria o grupo Sambacana com
os jovens Milton Nascimento e Wagner Tiso. Em Belo-horizontino, ele costuma passar férias em
Diamantina, onde o pai tem uma fábrica de tecidos.
Evento da Rodhia 1962
Théo de Barros, contrabaixista de trios das boates de São Paulo, conhecera Vandré numa daquelas
reuniões de sábado entre cantores e compositores, promovidas por Moracy do Vai e Franco Paulino em
casas particulares no final de 1962.
Em uma dessas festas na casa de Maricene Costa, Théo mostrou o "Menino das Laranjas" e Vandré foi o
primeiro a gravá-lo em 1964 com o quinteto do saxofonista Meireles, mas sem a desdobrada que estaria na
gravação posterior de Elis Regina, em arranjo de Paulo Moura.
Em 1966, no espetáculo Mulher, Este Super-Homem, montado para a Rhodia, Livio Rangan queria
enriquecer o show com um som tipicamente brasileiro, para contrastar com o mais que batido trio de piano,
baixo e bateria.
Assim nasceu a ideia de um grupo mais regional, arregimentado por Airto Moreira, que exploraria
percussão sem bateria, viola caipira com Heraldo do Monte e violão com Théo.
Livio batizou-os de Trio Novo, para tocar temas folclóricos com um tratamento mais sofisticado. Nas
viagens do show, enquanto estavam abertas as inscrições para o Festival da Record, Théo e Vandré, o
cantor do espetáculo, tiveram a ideia de compor uma música que fosse um perfeito reflexo do que o Trio
Novo tocava nos shows da Rhodia.
(Zuza Homem, A era dos festivais, 2013)
[Link]
A Hora e a Vez
de Augusto
Matraga (1963)
Ao fazer a pesquisa musical, Vandré descobre o universo da viola caipira no Sudeste e Centro-
Oeste do país. A música que mais chama atenção nesse contexto é justamente o tema de
abertura, Réquiem para Matraga, incluída no seu terceiro LP. Consta que a gravação da trilha
levou horas de estúdio devido ao perfeccionismo do compositor.
Apresentado em 1963 pela amiga comum Elsa Katuni, uma
boliviana que viera ao Brasil acompanhando o marido adido cultural,
Geraldo Vandré e Nilce Therezinha Cervone – que mais tarde
adotará o nome de Nilce Tranjan – começam logo a namorar.
Professora de filosofia formada pela USP, ela trabalha na
Cinemateca Nacional, no Rio de Janeiro. Nessa época atua na
montagem de Deus e o diabo na terra do sol, o clássico de Glauber
Rocha a ser lançado no ano seguinte, tornando-se um marco do
Cinema Novo. Graças a ela, o noivo conhece o cineasta Roberto
Santos, que não demora a lhe encomendar a trilha sonora do filme A
hora e vez de Augusto Matraga, no qual ele também seria figurante e
co-produtor.
(Santos, O homem que disse não, 2015)
Primeiro LP 1964
Gravou seu primeiro LP, "Geraldo Vandré", em 1964, com as músicas
"Fica Mal com Deus" e "Menino das Laranjas", entre outras.
Carlos Lyra, parceiro de Vandré em canções como "Quem Quiser
Encontrar Amor" e "Aruanda", gravadas por Lyra e por Vandré.
Os temas são desenvolvidos de maneira original, com muita criatividade. E
é na medida deste desenvolvimento que a moda de viola ganhou mais
condições de conquistar o público das cidades. O sentido universalista
deste tipo de moda de viola lhe deu condições, inclusive, de abrir uma faixa
maior do mercado consumidor, como aconteceu com as tentativas dos GERALDO VANDRÉ – AUDIO
autores de Bossa-Nova de voltar ao morro (por iniciativa de Lyra) ou ao FIDELITY,
samba-de-roda baiano (por iniciativa de Baden Powell).
Lado A: O menino das laranjas
(Théo de Barros), Berimbau (Baden
O caminho de Vandré resulta de um trabalho iniciado quando ele foi
Powell/Vinicius de Moraes),
chamado a compor as músicas do filme “A Hora e a Vez de Augusto Ninguém pode mais sofrer (Geraldo
Matraga”. No “Réquem para Matraga”, por exemplo, foi mantida a mesma Vandré/Luiz Roberto), Canção
linha de intrumentação usada no filme (viola, violão e triângulo). Os violões nordestina (Geraldo Vandré),
que se ouvem são de Heraldo e Théo, que ao lado de Airton (ritmo) formam Depois é só chorar (Geraldo
um trio – O Trio Novo – de rara unidade. O Arranjo de “Porta-Estandarte” Vandré), Samba em prelúdio
(música já gravada) foi simplificado por sugestão de Vandré. Neste disco, (Baden Powell/Vinicius de Moraes)
aparecem apenas dois violões e um coro misto, predominantemente Lado B: Fica mal com Deus
uníssono. Em “Quem quiser encontrar o amor” encontramos a gravação (Geraldo Vandré), Quem é homem
original feita com arranjo e violão de Baden, utilizando violão e flauta. não chora (Geraldo Vandré/Vera
Em 1979 a gravadora RGE/FERMATA incluiu a música “ Brasil), Tristeza de amar (Geraldo
Vandré/Luiz Roberto), Só por amor
Pra não dizer que não falei das flores” (Caminhando), gravado ao vivo no
(Baden Powell/Vinicius de Moraes),
Maracanãzinho durante o 3º Festival Internacional da Canção, cuja (Nuzzi, Canção Interronpida,2016)
Pequeno concerto que ficou canção
proibição impediu o seu lançamento desde o ano de 1968. (Geraldo Vandré), Você que não
vem (Geraldo Vandré)
Canção Nordestina
(LP Geraldo Vandré, 1964)
A importância mais desse trabalho é que ele revela
uma experiência nova e também pioneira de Geraldo
Vandré. Trate-se da utilização (pela primeira vez em
termos urbanos) de instrumentos autênticos
Canção Nordestina 1961 de moda de viola do Centro Sul do País.
O paraibano radicado no Rio de Janeiro Geraldo Vandré tinha
sido, a partir da composição Canção Nordestina, de 1963, um
dos primeiros compositores da geração ligada à Bossa Nova a
escandalizar os jovens universitários da época com essa heresia
da pesquisa de formas regionais brasileiras. Segundo
testemunho de contemporâneos, ao cantar sua Canção
Nordestina pela primeira vez em um show no Colégio Mackenzie
de São Paulo, a música que inaugurava o rompimento com os
esquemas do movimento foi recebida com uma exclamação por
parte de vários dos jovens estudantes filhos da alta classe média
paulista, que revela o seu espanto: “Mas isso não é Bossa
Hora de Lutar (1965)
Traz na capa versos iniciais de um soneto de Camões:
“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. O
disco marca uma mudança expressiva na carreira de
Vandré que, neste momento, via-se dentro de uma
conjuntura de Ditadura Civil Militar. A necessidade de
intensificação das temáticas sociais no repertório de
suas canções se fazia cada vez mais pulsante, o
próprio título do LP demarca bem esta necessidade:
“Hora de Lutar”. Isso significa que, diante do estado de
HORA DE LUTAR – CONTINENTAL, 1965
repressão implantado após o golpe de 1964, Vandré
buscou ampliar sua resistência por meio da música. Lado A: Hora de lutar (Geraldo Vandré), A
A capa do disco traz a imagem de capoeiras dançando maré encheu (Geraldo Vandré), Despedida de
Maria (Geraldo Vandré/Carlos Castilho), Dia
e lutando. Esse aspecto ressalta a capacidade de de festa (Moacir Santos/Geraldo Vandré),
articulação e de luta por parte das classes populares, Ladainha (Geraldo Vandré), Asa Branca (Luiz
Gonzaga/Humberto Teixeira) Lado B: Samba
além de expressar a cultura popular como um meio de
de mudar (Baden Powell/Geraldo Vandré),
resistência ao poder das classes dominantes. A Canta Maria (Geraldo Vandré/Erlon Chaves),
compreensão do posicionamento de Vandré diante da Aruanda (Carlos Lyra/Geraldo Vandré), Vou
caminhando (Geraldo Vandré), Canto do mar
conjuntura apresentada é potencializada pela análise
(Geraldo Vandré), Sonho de um Carnaval
das músicas presentes neste disco. (Chico Buarque de Hollanda)
5 Anos de Canção (1966)
Essa coletânea com as composições de Vandré
lançada em 1966, foi relançada após a liberação
pela censura da música “Para não dizer que não
falei de flores” em 1979.
Às 12 músicas do álbum original, no qual Vandré regravou canções
autorais que vinham se destacando desde o início dos anos 1960, a
coletânea de 1979 adicionou dois registros - um feito em estúdio
e outro captado ao vivo - de Pra não dizer que não falei das flores
(Caminhando), a canção lançada por Vandré em 1968 que logo foi
proibida por ter se transformado - aos olhos dos algozes do regime
militar instaurado no Brasil em 1964 - em explosiva arma popular
contra a ditadura. A liberação da música em 1979 motivou a edição
do disco naquele mesmo ano.
5 ANOS DE CANÇÃO – SOM MAIOR
Lado A: Porta estandarte (Geraldo Vandré/Fernando Lona), Depois é só chorar (Geraldo Vandré), Tristeza de amar (Geraldo
Vandré/Luiz Roberto), Réquiem para Matraga (Geraldo Vandré), Canção do breve amor (Geraldo Vandré/Alaíde Costa), Fica mal
com Deus (Geraldo Vandré) Lado B: Rosa flor (Baden Powell/Geraldo Vandré), Pequeno concerto que ficou canção (Geraldo
Vandré), Se a tristeza chegar (Baden Powell/Geraldo Vandré), Canção nordestina (Geraldo Vandré), Ninguém pode mais sofrer
(Geraldo Vandré/Luiz Roberto), Quem quiser encontrar o amor (Geraldo Vandré/Carlos Lyra)
Disparada (1966)
Vencedora do Festival da Canção da TV Record em
1966, junto com "A Banda", de Chico Buarque.
A melodia de Disparada é de Theo de Barros, que
musicou um poema de Geraldo Vandré. Quem
cantou a música no Festival foi Jair Rodrigues,
acompanhado pelo Trio Novo e pelo Trio Marayá.
O Trio Novo foi formado naquele mesmo 1966 e
era composto por Theo de Barros, Heraldo do
Monte e pelo jovem baterista e percussionista
Airto Moreira, que viria a se tornar um dos
maiores músicos do mundo. A eles se juntou, no
ano seguinte, Hermeto Pascoal e o nome mudou
para Quarteto Novo.
Aquilo era uma queixada de burro, que produziu
exatamente o som de chicote que os autores queriam e
Airto Moreira procurou muito. Após várias tentativas
frustradas de obter o som desejado com outros
materiais, Airto se lembrou que já ouvira um som
produzido por uma queixada de burro numa orquestra
espanhola, que podia dar certo. Descobriram um
percussionista em Santo André que tinha a tal queixada,
compraram-na e o resultado foi ótimo. Quem está
estalando a queixada no vídeo é o percussionista
Manini, que substituiu Airto Moreira no dia da final. (Nuzzi, Canção Interronpida,2016)
Disparada foi assim: eu conhecia o Vandré, que naquela época, 1966, morava
naquele prédio Redondo em frente ao Teatro de Arena (...), e nós estávamos trabalhando juntos,
no show da Rhodia. A Rhodia tinha um estande na FENIT e intercalava desfiles de moda com
shows musicais. Também musicais, porque tinha de tudo. O Vandré cantava e eu tocava, e tinha
um trio, o Trio Novo, que depois virou Quarteto Novo. Era moda o trio com aquela formação de
baixo, piano e bateria. Então nós fizemos o show da Rhodia em São Paulo e começamos a viajar
pelo Brasil. Um dia, ainda em São Paulo, o Vandré me chamou e me mostrou a letra de
Disparada e me perguntou se dava pra pôr música. Ai eu fiz a música e nós a inscrevemos no
Festival da Record e fomos classificados. Fizemos a primeira apresentação e fomos para Natal.
(...) O Trio Novo havia se transformado no Quarteto Novo: era eu, que tocava violão e
contrabaixo, o Airto Moreira: percussão, Heraldo do Monte: viola e o Hermeto Pascoal, que
tocava piano. O Vandré foi o Mecenas do Quarteto Novo. Nós ficamos um ano acompanhando-o,
éramos exclusivos do Vandré, e daí aparecia convites de shows em todos os lugares. E todo
mundo queria gravar com a gente, se apresentar com a gente. (Theo Barros)
Marilu Santos, Pra não Esquecer Vandré, 2103
Breve análise de Disparada
(1966)
Após uma introdução instrumental vigorosa com viola e violão, que se incorpora à canção toda vez que
repetida, a melodia é exposta em andamento lento no esquema A-A-B, até o primeiro retorno da introdução.
Nesse momento, estala a queixada de burro anunciando a nova exposição a ritmo, num andamento próximo
ao de um rasqueado. O esquema é alterado, o motivo A é repetido quatro vezes antes de B, seguido
novamente do breve instrumental antes de partir para o final, arrematado com o Ia-laiá-la-ra-la-lá... Ao longo
dessa construção musical arrebatadora, a letra se abre como uma cortina para uma narrativa, que até pode
não agradar, concentrada no "boi" (o boiadeiro que veste a pele do boi líder depois que este morre,
induzindo a boiada a segui-lo), que por necessidade foi boiadeiro
e rei. A sequência se faz num verso inspirado, em que vê o mundo rodar nas patas de seu cavalo. Aí o
grande achado, a transição de gado - que se marca, tange, ferra, engorda e mata - para gente. Com gente é
diferente. O boiadeiro que já foi boi, rei, lugar-tenente de gado e de gente, agora é cavaleiro de um reino que
não tem rei. Uma canção épica que detonou os ouvidos brasileiros mais sensíveis para a desprestigiada
música sertaneja, com a força de um compositor visionário que, metaforicamente, induzia o código
revolucionário que a classe estudantil queria ouvir, a mensagem pela qual aguardava.
Programa Disparada 1967
Durante um mês, Vandré comandou o programa Disparada, na Rede Record, que tinha como intuito a
valorização das “raízes sertanejas da música brasileira”. Os meses de junho e julho foram bastante
conflituosos no que diz respeito à programação musical da TV Record, o programa O fino da Bossa havia
mudado de nome para simplesmente O fino, tendo a sua última gravação indicada para o dia dezenove de
junho de 1967, após uma série de tentativas para superar as dificuldades em relação à sua permanência no
ar. Na verdade, havia uma forte disputa em relação à crescente popularidade da Jovem Guarda e ao espaço
que o programa Jovens tardes ganhava na Record.
Diante das diversas reações que buscavam convergir ou criticar as influências da música norte americana
sobre a música produzida no Brasil, Geraldo Vandré, que já vinha com um forte discurso em defesa das
raízes do regionalismo brasileiro, e que, na ocasião do dia dezessete de julho de 1967, subira numa
caminhonete da TV Record para defender e divulgar o programa Frente Única, fez declarações bastante
críticas em relação à edição do programa de vinte e quatro de julho, liderado por Gilberto Gil.
Quarteto novo (1967)
A ideia do Quarteto Novo começara a nascer no dia em que César Mariano, pianista do Sambalanço Trio, comunicou a seus
dois companheiros, Airto e Cleiber, que iria deixar o conjunto para se casar com Marisa Gata Mansa.
Decididos a continuar com o trio, os dois convidaram o pianista Hermeto Paschoal, que disse que aceitaria desde que se
mudasse o nome do grupo. Surgiu assim o Sambrasa Trio, que gravou um disco. Quando Livio Rangan desejou formar um
grupo instrumental para os shows da Rhodia, encomendou a tarefa a Geraldo Vandré, que por sua vez encarregou Airto de
montá-lo.
Com dois terços do Sambrasa Trio (ele e Hermeto) e mais Théo e Heraldo, o Quarteto Novo era exclusivo de Geraldo e
ensaiava diariamente.
Foi o grupo fixo do programa Disparada, gravado no Teatro Record Consolação a partir de meia-noite, avançando
madrugada adentro e com presença de pequeno público que entrava de graça e podia ficar quanto tempo quisesse.
Em vista disso, era esse o único musical da TV Record em que as tomadas não aprovadas deviam ser repetidas, o que
prolongava as gravações até o raiar do dia, fator determinante para o seu cancelamento em junho de 1967, menos de três
meses depois.
De serra, de terra e de mar (1967)
Porta Estandarte – single (1966)
Parceria de Vandré com o baiano Fernando Lona –
feita durante o Carnaval na cidade de Penápolis, interior
de São Paulo – conquista o primeiro lugar e abre novas
portas para o compositor paraibano. Trata-se de Porta
estandarte, marcha-rancho defendida por Airto Moreira
– do Sambalanço Trio – e pela cantora Valeniza Zagni
da Silva, que se apresenta com o nome artístico de
Tuca. A plateia ovaciona os vencedores.
O disco saiu pela Som/Maior, o selo nacional que
substituía a Audio Fidelity de Sidney Frey, e que depois
seria vendido à RGE, de José Scatena. "Porta
Estandarte" foi ainda gravada em 1966 por Dalva de
Oliveira, num compacto da Odeon que tinha no lado A
seu grande sucesso, "Máscara Negra".
Em 1969, a cantora Helena de Lima, acompanhada pela
Banda da Polícia Militar do Estado da Guanabara,
também gravou "Porta Estandarte", num LP da
Première. De todos os participantes do II Festival da
Excelsior, quem mais se beneficiou foi inegavelmente
Geraldo Vandré.
Canto Geral (1968)
“Nesse disco, a palavra “Geral” tem de mim somente uma
vontade muito grande de colocar-me sem pudores como
instrumento da comunicação, de tudo o que aprendi a ver,
ouvir, pensar e sentir a respeito do meu tempo, do meu lugar e
da gente que vive neles”.
CANTO GERAL é um registro, verdadeiro manifesto, do sentimento
popular nos anos de chumbo da ditadura militar. Numa época em que o
silêncio era a opção mais segura, que as metáforas eram a forma mais CANTO GERAL – ODEON, 1968
viável de expressão, o autor de “Pra não dizer que não falei das flores”, Lado A: Terra plana (Geraldo
Vandré), Companheira (Geraldo
ousou gritar alto e falar diretamente sobre liberdade, luta de classes, Vandré), Maria Rita (Geraldo
opressão. Era o ano do AI5, os direitos fundamentais se sepultavam Vandré), De serra, de terra e de
debaixo dos atos grotescos da repressão, falar de política, de democracia mar (Geraldo Vandré/Théo de
Barros e Hermeto Pascoal),
e igualdade em uma canção já era por demais ousado, quem diria, fazer Cantiga brava (Geraldo Vandré)
um disco inteiro temático sobre isso! O ponto de partida de Geraldo Lado B: Ventania – De como um
Vandré foi a obra homônima de Pablo Neruda, de 1950, no qual o poeta já homem perdeu seu cavalo e
continuou andando (Geraldo
se rebelava contra a opressão sofrida pelo povo Chileno e Latino
Vandré/Hilton Acioli), O plantador
americano. As sangrentas ditaduras militares patrocinadas pelas potencia (Geraldo Vandré/Hilton Acioli), João
norte americanas e europeias, eram a grande chaga dos povos latinos e Maria (Geraldo Vandré/Hilton
americanos, que apesar de sofrerem as penas do subdesenvolvimento Acioli), Arueira (Geraldo Vandré),
Guerrilheira (Geraldo Vandré/Hilton
ainda tinham sua liberdade e sua vida tolhidas por ditadores Acioli)
atrozes. (Castro, 2013)
Contra capa de Canto Geral
Após a gravação do LP Canto Geral (1968),
Vandré foi convidado pela TV Bandeirantes, de
São Paulo, para apresentar um programa que
levava o mesmo nome do disco, passando
posteriormente a se chamar Canto Permitido,
devido a ação da censura.
Show do
Maracanazinho
1968
“Para não dizer que não falei de flores”.
“A vida não se resume em festivais”, disse Geraldo Vandré no palco do
Maracanãzinho, diante de 20 mil pessoas que vaiavam a decisão do júri. A multidão
estava inconformada com a derrota de sua canção Caminhando (Para não dizer que
não falei das flores) para Sabiá, de Chico Buarque e Tom Jobim, interpretada por
Cynara e Cybele, do Quarteto em Cy.
A composição se tornou um hino de resistência do movimento estudantil que fazia
oposição à ditadura durante o governo militar, e foi censurada. O refrão "Vem, vamos
embora / Que esperar não é saber / Quem sabe faz a hora, / Não espera acontecer"
foi interpretado como uma chamada à luta armada contra os ditadores.
Autoexílio após A1-5 - 13 de dezembro de 1968
Após a promulgação do Ato Institucional nº5, Geraldo Vandré teve que deixar o país, dando início ao
seu exílio. Sua trajetória artística no Brasil, até novembro de 1968, foi marcada pela sua forte postura
diante da realidade e pela sua inquestionável capacidade de expressá-la por meio das canções. Sua
produção musical não finda com a sua saída às pressas do Brasil. Passando por países da América
Latina e da Europa, manteve extrema coerência e uma intensa produção.
Ainda em 1968, com o AI-5 (Ato
Institucional 5), Vandré foi obrigado
a exilar-se. Depois de passar dias
escondido na fazenda de Aracy de
Carvalho Guimarães Rosa, viúva do
escritor Guimarães Rosa, falecido
no ano anterior (setores da
imprensa afirmam que ele também
teria sido escondido pelo
governador de São Paulo Abreu
Sodré no Palácio dos
Bandeirantes), o compositor partiu
para o Chile e, de lá, para
a Argélia, Alemanha, Grécia, Áustri
a a, Bulgária e França. Voltou ao
Brasil em 1973, onde gravou
apresentações para o programa
de Flávio Cavalcanti e para
o Fantástico, da TV Globo, mas
foram censuradas. Até hoje, vive
em São Paulo e compõe
Assista o vídeo do
DOPS
Che - Single(1968)
Intepretação do Vandré e Trio Maraya
Elementos de músicas estrangeiras através de uma identidade
que é reforçada de reconhecimento de que o povo brasileiro é
latino-americano e por isso deve estar unido na luta contra o
imperialismo.
A música começa com um coro de lamentos. Após a introdução a
melodia tem um compasso mais acelerado, com uma mistura de
influências nordestinas e latino-americanas.
No Festival Universitário da Tupi, em
1968, Geraldo Vandré, junto com o Trio
Maraya, defendeu uma música de
Walter Franco chamada Não se queima
um sonho. Era uma alegoria a Che
Guevara que foi classificada na sua
eliminatória e depois sumiu na final do
Festival sem nenhuma explicação.
Geraldo
Vandré no
Chile (1969)
Durante seu autoexílio, Vandré grava
no Chile um single com as canções
“Caminhando” e a “Desacordonar”,
que tem uma temática muito
parecida com a de “Caminhando”,
uma melodia latina muito bem
marcada e cantada em espanhol. É
uma canção muito forte e a
interpretação de Vandré soa como
um grito de luta diante da situação
do povo latino americano, sua voz
bastante emocionada chega a dar a
impressão de choro em algumas
passagens. Novamente aparece na
letra da composição de Vandré, uma
reflexão onde a música surge como
expressão constituinte e constitutiva
BANCO BENVIRÁ EDIÇÕES,
GERALDO VANDRÉ NO CHILE, 1969 da realidade e clama por uma
Lado A: Desacordonar (Geraldo Vandré) transformação.
Lado B: Camiñando (Geraldo Vandré)
DAS TERRAS DE BENVIRÁ – PHILIPS, 1973
Lado A: Na terra como no céu (Geraldo Vandré), Das terras
de Benvirá (Geraldo Vandré), Vem, vem (Geraldo Vandré),
Canção primeira (Geraldo Vandré), De América (Geraldo
Vandré) Lado B: Sarabanda – A festa do lobisomem (Geraldo
Vandré), Maria, memória da minha canção (Geraldo Vandré),
Terras de Benvirá (1973) Bandeira branca (Geraldo Vandré)
Das Terras de Benvirá é o quinto e último álbum de estúdio do cantor. Foi gravado na França em 1970, época
em que o cantor ainda estava exilado, e lançado naquele país como um compacto simples, com o nome de "La
Passion Bresilienne“
Benvirá é o último trabalho fonográfico de Vandré. São quarenta e um minutos e cinquenta e sete segundos
distribuídos em oito faixas. Para o crítico Mauro Dias, de O Estado de S. Paulo, elas “trazem uma qualidade de
beleza sofrida poucas vezes encontrada na música brasileira”. Além do compositor, o disco reúne os músicos
Marcelo Melo, Murillo Alencar e Xico de Carinho – que aparece na ficha técnica como Kiko de Carinho. O trio
não demorou a ser chamado de Grupo Benvirá. “Sempre tive muita admiração pela obra de Vandré, pela força
do seu canto. Eu me entusiasmei em participar daquele trabalho. “Na época eu era um estudante em formação
acadêmica na Europa. Foi um trabalho freelance”, lembra, em 2014, o pernambucano Marcelo Melo.
De América
A canção traça um paralelo entre os países latino-americanos, evidenciando o
sofrimento que ultrapassa as fronteiras e atingem diferentes povos.
Bandeira Branca
Há nesta canção a evocação de povos indígenas de todo o continente americano.
“Bandeira branca” não significa “se render” e sim conquistar a paz pela
solidariedade. Mostra vozes sufocadas, sussurros e vozes quase inaudíveis. O
ritmo é semelhante ao do coco de amnbolada
Sarabanda
É uma dança ou forma musical de origem espanhola, seu compasso é ternário,
resultando em um movimento acentuado e marcado pela diminuição do tempo.
Simplicidade estética
A estética adotada e o teor de suas canções são
comprometidas com a população. Vandré entende o
posicionamento cultural dentro de uma perspectiva de
campo de batalhas onde a construção é contínua por
uma comunicação que supere a monopolização dos
meios de controle da produção cultural
homogeneizantes. A relevância desse posicionamento
está no fortalecimento dos elementos populares no
sentido não massificado, mas como inflexão contrária
aos padrões de consumo estabelecidos pela classe
dominante.
A busca pela simplicidade harmônica se dava para
melhor propagação das mensagens.
Vandré fez grandes parcerias com exímios músicos e
aliou sua verve dramática com uma de suas mais fortes
características como artista, a expressividade.
Fabiana 1994
“Fabiana” não chegou a ser gravada.
Não que eu saiba. Foi apresentada
pelo Coral de Cadetes da FAB, nas
comemorações da Semana da Asa, em
São Paulo. Vandré tentou tirar o brevê
de aviador e foi reprovado no exame
psicológico. Desde então, passou a se
tratar num Hospital de Base. Tornou-se
amigo de oficias da Aeronáutica.
Ele diz que os militares de hoje nada
têm a ver com as Forças Armadas que
deram o golpe, em 1964. Nisso ele
tem razão. E também afirma que o
golpe não foi militar, mas civil-militar,
já que as Forças Armadas estavam
atendendo os apelos reacionários de
donas de casa, banqueiros, industriais,
fazendeiros e de uma parcela da
Igreja. E lembro aqui as pressões e o
apoio dos Estados Unidos. Acho que
ele tem razão também sobre isso.
Tenho me perguntado por que a
Comissão da Verdade não investigou
os empresários que financiaram a
repressão nos anos de chumbo.
Relação das
gravações em 78 rpm ODEON, 1967
Lado A: Arueira (Geraldo Vandré)
Lado B: João e Maria (Geraldo Vandré/Hilton Acioli)
ODEON, 1968
RGE, 1961 Lado A: Maria Rita (Geraldo Vandré)
Lado A: Quem quiser encontrar o amor (Geraldo Vandré/Carlos Lado B: Companheira (Geraldo Vandré)
Lyra)
Lado B: Sonho de amor e paz (Baden Powell/Vinicius de Moraes) SOM MAIOR/RGE, 1968
Lado A: Pra não dizer que não falei das flores –
AUDIO FIDELITY, 1962, COM ANA LÚCIA Caminhando (Geraldo Vandré)
Lado A: Samba em prelúdio (Baden Powell/Vinicius de Moraes) Lado B: Se a tristeza chegar (Geraldo Vandré/Baden
Lado B: Você que não vem (Geraldo Vandré) Powell)
AUDIO FIDELITY, 1963 VOGUE, FRANÇA, 1968
Lado A: Canção nordestina (Geraldo Vandré) Lado A: Che (Geraldo Vandré/Marconi Filho)
Lado B: Fica mal com Deus (Geraldo Vandré) Lado B: Porta estandarte (Fernando Lona/Geraldo Vandré)
PHILIPS, 1965 BANCO BENVIRÁ EDIÇÕES, GERALDO VANDRÉ NO
Lado A: Réquiem para Matraga (Geraldo Vandré) CHILE, 1969
Lado B: Fica mal com Deus (Geraldo Vandré) Lado A: Desacordonar (Geraldo Vandré)
Lado B: Camiñando (Geraldo Vandré)
DISCOS CHANTECLER, 1966
Lado A: Porta Estandarte, com Tuca (Geraldo Vandré/Fernando LE CHAT DU MONDE, FRANÇA, 1971
Lona) Lado A: Na terra como no céu (Geraldo Vandré)
Lado B: Você que não vem (Geraldo Vandré) Lado B: Benvirá (Geraldo Vandré)
RCA VICTOR, 1966 RGE, 1979
Lado A: Disparada (Geraldo Vandré/Théo de Barros) Lado A: Pra não dizer que não falei das flores –
Lado B: Canto aberto (Heraldo do Monte/Carlos Sodile/Geraldo Caminhando (Geraldo Vandré)
Vandré) Lado B: Fica mal com Deus (Geraldo Vandré)