Filosofia Social e Política, FLUL,
2024-2025
Estado, sociedade e política
em Rousseau
José Gomes
André
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778)
- Filósofo nascido em Genebra
- Obra vasta de Filosofia, Pedagogia e
Teoria da Cultura: Discurso sobre a
Origem e Fundamentos da
Desigualdade entre os Homens
(1756), Emílio (1762).
- Livro principal sobre ideias políticas:
O Contrato Social (1762).
Elogio do “estado de natureza”
“[...] vejo um animal alimentando-se debaixo dum carvalho,
matando a sede no primeiro riacho, encontrando a sua cama
junto da mesma árvore que lhe forneceu alimento e vendo
assim satisfeitas as suas necessidades. [...] A sua imaginação
nada lhe apresenta, o seu coração nada lhe pede. As suas
módicas necessidades encontram-se facilmente ao alcance
da mão [...]; errando pelas florestas sem indústria, sem
palavra, sem domicílio, sem guerra e sem ligações, sem
qualquer necessidade dos seus semelhantes, sem qualquer
desejo de os prejudicar, talvez mesmo sem nunca
reconhecer algum individualmente, o homem selvagem,
sujeito a poucas paixões, basta-se a si próprio [...]” [Rousseau,
Discurso sobre a Origem e Fundamentos da Desigualdade entre os
Homens, trad. Port., Europa-América, pp. 25, 35, 50.]
Crítica à “sociedade moderna”
“[...] o selvagem vive em si próprio; o homem sociável,
sempre fora de si, só vive da opinião dos outros e é por assim
dizer só do julgamento alheio que tira o sentimento da sua
própria existência. [...] reduzindo-se tudo a aparências, tudo se
torna fictício e representado; honra, amizade, virtude servem
apenas como razão para se engrandecerem; [...] [no estado
civil] só temos um exterior enganador e frívolo, honra sem
virtude, razão sem sabedoria, prazer sem felicidade. Mas não é
isso o estado natural do homem e só o espírito de sociedade e
a desigualdade que ela provoca mudam e alteram as nossas
inclinações naturais.”
[Rousseau, Discurso sobre a Origem e Fundamentos da Desigualdade
entre os Homens, trad. Port., Europa-América, p. 82]
Liberdade e igualdade
“Se se procurar em que é que consiste precisamente o maior
de todos os bens, que deve ser o fim de qualquer sistema de
legislação, concluir-se-á que ele se reduz a estes dois pontos
principais: a liberdade e a igualdade. A liberdade, porque
qualquer dependência particular é outra tanta força tirada do
corpo do Estado; a igualdade, porque a liberdade não pode
subsistir sem ela. [...] no que diz respeito à igualdade, não se
deve entender que os graus de poder e de riqueza sejam
absolutamente os mesmos, mas que, quanto ao poder, ele está
abaixo de qualquer violência e não se exerce nunca senão em
virtude da categoria e das leis e, quanto à riqueza, que nenhum
cidadão seja tão rico que possa comprar um outro e nenhum
tão pobre que seja constrangido a vender-se.” [Rousseau, O
Contrato Social (1762), Livro I, cap. XI, tr. port., Europa-América, p. 55]
O desafio do contrato social
“[...] os homens atingiram aquele ponto em que os obstáculos que
prejudicam a sua conservação no estado de natureza levam a
melhor, pela resistência, sobre as forças que cada indivíduo pode
empregar para se manter neste estado. Então esse estado
primitivo já não pode subsistir e o género humano pereceria se
não modificasse a sua maneira de ser. Ora, [os homens] não
dispõem de outro meio para se conservar que não seja o de
formarem, por agregação, uma soma de forças que possa levá-los
a vencer a resistência, de as por em jogo e de fazer que elas
actuem concordantemente. [...] «Encontrar uma forma de
associação que defenda e proteja com toda a força comum a
pessoa e os bens de cada associado e pela qual cada um, unindo-
se a todos, não obedeça, contudo, senão a si mesmo e permaneça
tão livre como antes.» É este o problema fundamental de que o
contrato social dá a solução.” [Rousseau, O Contrato Social (1762),
Livro I, cap. VI, trad. port. Europa-América, p. 21]
A essência do pacto social
“[...] porque cada um se dá a todos e não se dá a
ninguém, e como não há qualquer associado sobre o
qual não se adquira o mesmo direito que cada um lhe
cede sobre si mesmo, ganha-se o equivalente de tudo o
que se perde e mais força para se conservar o que se
tem. Se, portanto, afastarmos do pacto social o que não
é da sua essência, veremos que ele se reduz aos
seguintes termos: «Cada um de nós põe em comum a
sua pessoa e todo o seu poder sobre a suprema direcção
da vontade geral; e recebemos colectivamente cada
membro como parte indivisível do todo.»” [Rousseau, O
Contrato Social (1762), trad. port., Europa-América, p. 22.]
A vontade geral
“[...] a vontade geral é sempre recta e tende sempre para a
utilidade pública [...]; há muitas vezes grande diferença entre a
vontade de todos e a vontade geral; esta não olha a outra coisa
que não seja o bem comum, enquanto a outra olha ao interesse
privado e não é mais do que uma soma de vontades
particulares. [...] a vontade geral, para o ser verdadeiramente,
tem de o ser no seu objecto e na sua essência, tem de partir de
todos para se poder aplicar a todos e perder a sua rectidão
natural quando tende para a satisfação de qualquer objectivo
individual e determinado; [...] o que torna geral a vontade é
menos o número de vozes que a exprimem do que o interesse
comum que as une; porque, nesta instituição, cada qual se
submete necessariamente às condições que impõe aos outros
[...]” [Rousseau, O Contrato Social, trad. port., Europa-América, p. 33-36.]
A “paixão pela unidade”
“Quanto mais reinar a concordância nas assembleias, quer
dizer, quanto mais as opiniões se aproximarem da
unanimidade, tanto mais a vontade geral é dominante; mas
os debates longos, as discórdias, o tumulto, prenunciam o
ascendente dos interesses particulares e o declínio do Estado
[...]. Se, quando se faz o pacto social, se encontrarem
opositores, a sua oposição não invalida o contrato, apenas
impede que eles sejam incluídos nele, são estranhos entre os
cidadãos. Quando o Estado é instituído, o consentimento
está na residência. Habitar o território é submeter-se à
soberania. A partir deste contrato primitivo, a voz do maior
número obriga sempre todos os outros [...]”
[Rousseau, O Contrato Social (1762), trad. port., Europa-América, p. 105.]
A soberania é irrepresentável
“A soberania não pode ser representada pela mesma razão
por que não pode ser alienada. Ela consiste essencialmente
na vontade geral, e a vontade não se representa: ou é ela
própria ou é outra, não existe meio termo. Os deputados do
povo não são, portanto, nem podem ser, seus
representantes; são apenas seus comissários; não podem
tirar quaisquer conclusões definitivas. Qualquer lei que o
povo em pessoa não tenha ratificado, é nula, não é lei. [...]
Dado que a lei é a declaração da vontade geral, é claro que
no poder legislativo o povo não pode estar representado;
mas pode e deve estar no poder executivo, que não é senão
a força aplicada à lei.” [Rousseau, O Contrato Social (1762), trad.
port., Europa-América, pp. 94-95.]
A “religião civil”
“[...] importa bastante ao Estado que cada cidadão tenha uma
religião que o faça amar os seus deveres [...]. Existe portanto
uma profissão de fé puramente civil, de que cabe ao soberano
determinar os artigos, não precisamente como dogmas de
religião, mas como sentimentos de sociabilidade, sem os quais
é impossível ser-se bom cidadão ou um súbdito fiel. Sem
poder obrigar ninguém a acreditar neles, pode banir do Estado
qualquer pessoa que neles não acredite [...]. Os dogmas da
religião civil devem ser simples e em pequeno número,
enumerados com precisão, sem explicação nem comentário. A
existência da divindade, poderosa, inteligente e providente; a
vida futura, a felicidade dos justos, o castigo dos maus, a
santidade do contrato social e das leis, eis os dogmas
positivos.” [Rousseau, O Contrato Social (1762), trad. port., Europa-América,
p. 134-35.]
Alguns princípios fundamentais da
Revolução Francesa correlacionados
com a obra de Rousseau
- triunfo da soberania popular
- a ideia de “unidade nacional”
- igualdade de direitos
- o lema “liberdade, igualdade, fraternidade”
- celebração da racionalidade do Estado
- anti-clericalismo
Algumas disposições constitucionais da
Revolução Francesa
Art.1.º Os homens nascem e são livres e iguais em direitos. As
distinções sociais só podem fundamentar-se na utilidade comum.
Art. 6.º A lei é a expressão da vontade geral. [...]. Todos os
cidadãos são iguais a seus olhos e admissíveis a todas as
dignidades, lugares e empregos públicos [...].
(Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, 1789)
Art. 4º A lei é a expressão livre e solene da vontade geral. Ela é a
mesma para todos, seja para proteger, seja para punir. Ela não
pode ordenar senão o que é justo e útil à sociedade. Ela não pode
defender aquilo que lhe é nocivo.
Art. 25º A soberania reside no povo; ela é una e indivisível,
imprescritível e inalienável. (Declaração dos Direitos do Homem e do
Cidadão, Constituição de 1793 ou Ano I)
Robespierre e a “religião civil”
“Aos olhos do legislador, tudo o que é útil ao mundo e
bom na prática é a verdade. A ideia do Ser Supremo e da
imortalidade da alma é um chamamento constante à
justiça: ela é, portanto, sociável e republicana. [...] O que
serve de suplemento à insuficiência da autoridade humana
é o sentimento religioso que imprime nas almas a ideia de
uma sanção conferida aos preceitos da moral por uma
potência superior ao homem. Desse modo, eu não conheço
nenhum legislador que se tenha alguma vez lembrado de
nacionalizar o ateísmo. ”
[Robespierre, “Sur les rapports des idées religieuses et morales avec les
principes républicains et sur les fêtes nationales” (7/05/1794), Discours
et Rapports à la Convention, Union Générale D’Éditions, 1965, p. 264.]
A necessidade de guias
“Por si próprio, o povo quer sempre o bem, mas nem sempre é
capaz de ver onde ele se encontra. A vontade geral está sempre
certa, mas o juízo que a guia nem sempre é esclarecido. É
necessário mostrar-lhe os objectos tal como eles são, apontar-
lhe o bom caminho que ela procura, guardá-la da sedução das
vontades particulares [...]. Os particulares vêem o bem que
afinal rejeitam, o público quer o bem que não vê. Todos têm
igualmente necessidade de guias. É preciso obrigar uns a
conformar as suas vontades à sua razão, e a outros ensinar a
conhecer o que querem. Então, do esclarecimento geral resulta
a união do entendimento e da vontade no corpo social; daí o
exacto concurso das partes, e enfim a maior força do todo. Eis
de onde nasce a necessidade de um legislador.” [Rousseau, O
Contrato Social (1762), trad. port., Europa-América, p. 43.]
Que espaço para o indivíduo?
“Numa legislação perfeita, a vontade particular ou
individual deve ser nula, [...] e, por consequência, a
vontade geral ou soberana, sempre dominante e a regra
única de todas as outras. [...] A vontade constante de todos
os membros do Estado é a vontade geral; é por ela que são
cidadãos e livres. [...] Quando, portanto, a opinião
contrária à minha vence, isso não prova outra coisa senão
que eu me tinha enganado e que o que eu pensava ser a
vontade geral não o era. Se a minha vontade particular
tivesse prevalecido, teria feito outra coisa diferente do que
tinha querido: era então que eu não seria livre.” [Rousseau, O
Contrato Social (1762), trad. port., Europa-América, p. 106.]