JEAN PIAGET
(1896 – 1980)
A EPISTEMOLOGIA
GENÉTICA
BREVE HISTÓRIA
• Nasce em Neuchâtel (Suíça), em 1896 e morre em Genebra (Suíça) em 1980.
• 1907 (11 anos): primeiro artigo (Biologia) sobre um pardal albino (para deixar
de ser tratado como criança pelo bibliotecário e ter acesso à Biblioteca)
• Forma-se em Biologia (embriologia e moluscos), posteriormente interessa-se
pela aquisição do conhecimento humano: trabalhando, em 1919, com Binet
(Paris), aplicando testes de inteligência, observou que crianças da mesma
idade cometiam erros semelhantes em testes: padrões?
• Publica diversas obras a partir de suas observações de crianças e em 1950,
lança o livro Introdução à Epistemmologia Genática, com a sistematização da
sua teoria.
AS GRANDES QUESTÕES DE PIAGET
• Piaget não é pedagogo, não é psicólogo, e jamais formulou uma teoria de
aprendizagem. Busca o entendimento de como o conhecimento é construído,
e nesta perspectiva ele a tornase epistemólogo. A rigor, o que existe são
propostas pedagógicas que utilizam as idéias de Piaget como diretrizes para
uma metodologia de trabalho didático-pedagógica visando o processo de
ensino-aprendizagem.
• Como o ser humano elabora seus conhecimentos sobre a realidade, chegando
a construir, ao longo de sua história, sistemas com grande complexidade de
abstração (sujeito epistêmico)?
• Como nossos processos de pensamento mudam e evoluem ao
longo da vida?
• Como ocorre a aprendizagem de novos
conhecimentos?
METODOLOGIA DE PESQUISA
• Cria uma metodologia própria de pesquisa. Esta metodologia tem
uma abordagem qualitativa que agrega um conjunto de técnicas
de investigação.
• Três modos de trabalho: 1. A observação do comportamento
espontâneo da criança. 2. A observação do comportamento
provocado por uma situação experimental. 3. O diálogo
estabelecido entre o pesquisador e a criança.
• Esta perspectiva metodológica parte da premissa de que a própria
criança, suas interpretações, seus comentários e seus
questionamentos fornecem a chave para o entendimento do
pensamento infantil. A criança, e não as perguntas formuladas, é
a fonte primária de dados para o estudo de seu desenvolvimento
intelectual.
FATORES DO DESENVOLVIMENTO
MENTAL
• 1. CRESCIMENTO ORGÂNICO (Maturação)
• 2. EXERCÍCIO – EXPERÊNCIA ADQUIRIDA (experiência física e
experiência lógico-matemática)
• 3. INTERAÇÃO E TRANSMISSÕES SOCIAIS (linguagem, contatos
educacionais ou sociais)
• 4. EQUILIBRAÇÃO POR AUTO-REGULAÇÃO (PROCESSO
FORMADOR DAS ESTRUTURAS – MECANISMO INTERNO DO
CONSTRUTIVISMO)
DESENVOLVIMENTO, APRENDIZAGEM E
CONHECIMENTO
• Piaget se propõe a estudar a gênese do conhecimento centrado na ação
do sujeito, ou de como se dá o desenvolvimento de sua inteligência, esta
última é entendida não como a faculdade de saber, mas como um
conjunto de estruturas momentaneamente adaptadas - toda inteligência
é uma adaptação (PIAGET, a física 1982, p. 162).
• O que é aprendizagem:
• Primeiro, eu gostaria de esclarecer a diferença entre dois problemas: o problema do
desenvolvimento e o da aprendizagem. ...desenvolvimento é um processo que diz
respeito à totalidade das estruturas de conhecimento. Aprendizagem apresenta o caso
oposto. Em geral, a aprendizagem é provocada por situações provocadas por
psicólogos experimentais; ou por professores em relação a um tópico específico; ou
por uma situação externa. Em geral, é provocada e não espontânea. Além disso, é um
processo limitado limitado a um problema único ou a uma estrutura única. Assim, eu
penso que desenvolvimento explica aprendizagem, e esta opinião é contrária à
opinião amplamente difundida de que o desenvolvimento é uma soma de experiências
discretas de aprendizagem. (PIAGET, 1964, p. 176).
DESENVOLVIMENTO, APRENDIZAGEM E
CONHECIMENTO
• DESENVOLVIMENTO: processo essencial que dá suporte para cada nova
experiência de aprendizagem, isto é, cada aprendizagem ocorre como função do
desenvolvimento total, e não como um fator que o explica.
• APRENDIZAGEM NO SENTIDO RESTRITO: corresponde à maneira como a
aprendizagem é entendida no senso comum, é definida como aquela cujo
resultado (conhecimento ou desempenho) é adquirido em função da
experiência ...do tipo físico, do tipo lógico-matemático ou dos dois.
• APRENDIZAGEM NO SENTIDO AMPLO: corresponde à união das aprendizagens
(restritas) e dos processos de equilibração. Ocorre quando há uma aquisição de
conhecimento em função da experiência de forma mediata (pela ação do sujeito),
havendo, ao mesmo tempo, o processo de auto-regulação, onde o sujeito procura
ter sucesso na sua ação ou operação.
IMPORTANTE
• 1. Como, pelo processo de equilibração, o sujeito procura
adaptar a sua estrutura cognitiva à realidade circundante -
o que, em essência, significa o desenvolvimento mental -
quando ocorre a aprendizagem no sentido amplo, ela
tende a se confundir com o próprio desenvolvimento.
INTELIGÊNCIA COMO ADAPTAÇÃO
ADAPTAÇÃO,
entendida como processo,
é um ponto de equilíbrio
entre dois mecanismos
indissociáveis:
• A equilibração é o que completa e evidencia o caráter não-apriorístico
do desenvolvimento das estruturas mentais do indivíduo. A evolução
ocorre sempre na direção de um equilíbrio, mas sem um plano
preestabelecido, isto é, como o equilíbrio depende da ação do sujeito
ativo sobre os distúrbios externos e, ao mesmo tempo, da ação desses
sobre aquele. O que se pode observar é um ponto de equilíbrio e não o
ponto de equilíbrio. Processo ativo de auto-regulamentação.
EXEMPLO
• esquema ‘ave’: animal bípede,
com bico e penas, e que voa
• quando vemos um ave
desconhecida, simplesmente a
assimilamos ao nosso esquema
‘ave’
• se, no entanto, aquela ave se
comporta de forma muito
estranha, “não-ave”, por exemplo,
não voa, acontecerá a
acomodação e o esquema ‘ave’ é
modificado para incluir aquela ave
em particular
• esquema ‘ave’: animal bípede,
com bico e penas
O DESENVOLVIMENTO INTELECTUAL E
AFETIVO NA TEORIA DE PIAGET
• Dimensões indissociáveis
• Identificação de etapas constantes: estágios de desenvolvimento
• conhecimento é construído pelo sujeito, a partir das suas
interpretações do objeto, e ao longo do seu percurso de vida
ESTÁGIOS DE DESENVOLVIMENTO DE
PIAGET
• Quando interrogamos crianças de diferentes idades sobre os principais
fenômenos que as interessam espontaneamente, obtemos respostas bem
diferentes segundo o nível dos sujeitos interrogados. Nos pequenos,
encontramos todas as espécies de concepções, cuja importância diminui
consideravelmente com a idade: as coisas são dotadas de vida e de
intencionalidade, são capazes de movimentos próprios, e estes
movimentos destinam-se, ao mesmo tempo, a assegurar a harmonia do
mundo e servir ao homem. Nos grandes, não encontramos nada mais que
representações da ordem da causalidade adulta, salvo alguns traços dos
estágios anteriores. Entre os dois, de 8 a 11 anos mais ou menos,
encontramos, pelo contrário, várias formas de explicações intermediárias
entre o animismo artificialista dos menores e o mecanismo dos maiores; é
o caso particular de um dinamismo bastante sistemático, do qual várias
manifestações lembram a física de Aristóteles, e que prolonga a física da
criança enquanto prepara as ligações mais racionais. (PIAGET, 1982,
p.173-4)
ESTÁGIOS DE DESENVOLVIMENTO DE
PIAGET
CARACTERÍSTICAS:
• todo estágio representa um momento de
organização da inteligência, e é sempre
constante (sua ordem);
• cada estágio (fase / período / estádio) de
desenvolvimento se caracteriza por uma
estrutura original e anuncia (contém a base) os
estágios seguintes;
• todo estágio é composto de estruturas
organizadas a partir da interação organismo –
meio, que são integrativas.
• esse contínuo processo de desenvolvimento se
dá através do restabelecimento do equilíbrio
entre a estrutura precedente e a ação do meio,
sendo que essas estruturas se sucedem de
forma que cada uma assegura um equilíbrio
mais estável do que o anterior, em direção a
uma estrutura mais abrangente.
ETAPAS DE ORGANIZAÇÃO
INTELECTUAL
ESTÁGIO SENSÓRIO-MOTOR
• Caracteriza-se por uma inteligência sensório-motora, ou seja, ligada
à ação. Inicialmente sem linguagem, não há função simbólica, não
há representações que permitam evocar o objeto na ausência dele.
• A base desse período são as atividades reflexas. No contato com o
mundo o bebê interage, através da REAÇÃO CIRCULAR.
• adaptações dos modelos inatos de conduta
• modelos sensório-motores dos objetos, derivados das ações
realizadas com os mesmos objetos
• princípio de conservação dos objetos
• conhecimento privado, não-partilhado
• 1º sub-estágio: reflexos
• 2º sub-estágio: 1ºs hábitos
• 3º sub-estágio: transição reação circular
• 4º sub-estágio: inteligência prática
• 5º sub-estágio: inteligência prática
• 6º sub-estágio: marca a transição para o estágio
seguinte, interiorização da ação (antecipação)
ESTÁGIO PRÉ-OPERATÓRIO
• Caracteriza-se pelo aparecimento da representação
• pensamento simbólico: pensamento interiorizado, a partir
do surgimento da linguagem.
• Linguagem: representações pre-conceptuais
• Raciocínio por transdução, pré-lógico, de preconceito para preconceito
• Justaposição: reunião das partes sem as relacionar dentro de um todo
• Sincretismo: concentração no todo sem discriminar suas partes
• Centração: fixação em um aspecto com exclusão dos outros aspectos
• Representação estática
• Egocentrismo: distorção da realidade para satisfazer o ponto de vista
do indivíduo
FUNÇÃO SEMIÓTICA
• Construção ou emprego de significantes diferenciados e convencionais
(linguagem).
• ETAPAS DO APARECIMENTO DA FUNÇÃO SEMIÓTICA:
IMITAÇÃO DIFERENCIADA: principia na ausência de modelo
JOGO SIMBÓLICO: representação (faz de conta)
DESENHO: representação gráfica
IMAGEM MENTAL: imitação interiorizada
EVOCAÇÃO MENTAL: organização temporal do pensamento
interiorizado
A REPRESENTAÇÃO PRÉ-
OPERATÓRIA
• Se configura pela possibilidade de representação, pela capacidade
de pensar simbólica e abstratamente: é o momento crucial da
representação através da linguagem, da capacidade de representar
um objeto por meio de um símbolo, de uma imagem mental
(abstração).
• Segundo Piaget, existe inteligência antes da linguagem, mas não
existe o pensamento antes da linguagem: isto quer dizer: para que
exista linguagem é necessário que exista o pensamento e vice-
versa, pois ambos estão intrinsecamente relacionados, um não
existe sem o outro, a linguagem é solidária ao pensamento.
Esta menina está participando da clássica tarefa piagetiana, na qual o pesquisador
distribui iguais quantidades de líquido em dois béqueres idênticos, depois despeja-o de
um dos béqueres para um alto. Ainda no estágio pré-operatório, ela ainda não pode
conservar a quantidade de líquido, de modo que não reconhece que a mesma é
conservada, apesar das mudanças superficiais na aparência da quantidade. Na foto final,
a menina segura o béquer alto, afirmando que ele contém mais líquido do que o béquer
pequeno. Tão logo ela atinja o estágio de operações concretas, imediatamente
conservará a quantidade de líquido.
• PAPEL DA IMITAÇÃO: passagem para as condutas
representativas.
• Embora consiga representar, a criança nesta fase não tem
condições de descentrar-se, ou seja, ela é egocêntrica,
tendendo a ‘deformar’ a realidade de acordo com sua
percepção. Neste sentido, seu pensamento é INTUITIVO
(em oposição ao pensamento reflexivo da fase posterior).
Fase dos porquês
• Moral heterônoma. Submissão (ou não) às normas e leis
adultas. Neste período, impera o realismo moral: LEI ou
porque sim!
PERÍODO OPERATÓRIO-CONCRETO
À medida que a criança vai dominando a evocação
mental, progressivamente vai podendo descentrar-
se, ou seja, seu pensamento vai deixando de ser
intuitivo para ser tornar REFLEXIVO-OPERATÓRIO.
DESCENTRAÇÃO REVERSIBILIDADE
É capaz de refazer o caminho de volta da sua articulação de pensamento
Inversões reciprocidade
Surgimento das regras, da interiorização da moral: início da
autonomia.
A noção de dever está associada a noção de grupo (pares). Neste
período surge a noção de contexto: regra (o que é certo num
determinado contexto e momento, pode não ser certo em outros).
A criança no estágio operatório concreto:
• não apresenta problemas com conservação e
apresenta argumentos corretos para suas
respostas
• decisões lógicas ao invés de decisões
perceptuais
• desenvolve processos de pensamento lógico
(operações) que podem ser aplicadas a
problemas reais (concretos).
• acompanha as transformações e alcança a
reversibilidade das operações mentais
• menos egocêntrica e a fala é empregada com o
fim básico da comunicação FALA SOCIAL
• Operações lógicas são empregadas na solução
de problemas envolvendo objetos e fatos
concretos (reais, observáveis)
• ainda não aplicam a lógica a problemas
hipotéticos e verbais
AUTONOMIA X HETERONOMIA
PERÍODO OPERATÓRIO-FORMAL OU
ABSTRATO
• Caracteriza-se pelo aparecimento de hipóteses, ou seja, o sujeito
opera sobre proposições: capaz de inferir as conseqüências
necessárias de verdades possíveis, não necessariamente concretas.
ABSTRAÇÃO DA REALIDADE: INÍCIO DA PROBABILIDADE
• É capaz de estabelecer relações entre categorias distintas:
combinatória.
• Início da vida adulta: o adolescente, diante dessa nova possibilidade
de operar, radicaliza seu ponto de vista a ponto de deformar a
realidade em função de suas possibilidades: se vê como o único
capaz de pensar o mundo.
• O raciocínio hipotético-dedutivo
• deduzir conclusões a partir de hipóteses
• “todas as galinhas são azuis, Joãozinho é uma galinha, portanto
Joãozinho é azul”
• A<B e B<C, então A<C
• - adolescentes formulam hipóteses, experimentam, controlam
variáveis, registram efeitos, extraem conclusões etc.
• No operacional formal, vão de fatos específicos a conclusões
gerais.
Do ponto de vista emocional:
• O adolescente ainda manifesta um último tipo de egocentrismo: atribui grande
poder a si e ao próprio pensamento. Muitas vezes julga que somente ele está
certo.
• Sentimentos idealistas:
• Se é lógico é bom e correto
• Falta ainda uma apreciação completa do mundo
• Ele ainda não distingue entre o mundo lógico e o mundo real
• O desenvolvimento cognitivo e o afetivo caminham juntos ao longo de todo o
processo evolutivo do indivíduo.
• Muitos fatores devem ser levados em conta para compreendermos a “crise da
adolescência”. Entre eles, fatores intelectuais e afetivos.
• No entanto, há outros fatores que interferem nas manifestações e duração
da adolescência, tais como fatores culturais e sociais, que não são
contemplados pela teoria de Piaget.
Piaget e a Educação
• Ele não era um educador, como alguns pensam, e não fez uma teoria
ou proposta pedagógica.
• Ele foi um estudioso também na área da psicologia, cujas teorias dão
base de sustentação a diversos movimentos pedagógicos, inclusive os
que ocorreram anteriormente.
• Como enfatiza Piaget, a lógica, a moral, a linguagem e a compreensão
de regras sociais não são inatas, ou seja, pré-formadas na criança,
nem são impostas de fora para dentro, por pressão do meio. São
construídas por cada um dos indivíduos ao longo do processo de
desenvolvimento, processo este entendido como sucessão de estágios
que se diferenciam uns dos outros, por mudanças qualitativas.
• Para que o processo (assimilação-acomodação-adaptação) se efetive,
é importante considerar o principal objetivo da educação, que é a
autonomia, tanto intelectual como moral.
• Questão para discussão:
• 1) Relembrando a sua trajetória escolar,
que aspectos você pode identificar da
teoria de Piaget?