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Judith Butler e a Teoria do Gênero

aula sobre judith butler

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Judith Butler e o problema do

gênero
Antropologia e gênero
Profa. Heloisa Buarque de Almeida
Judith Butler
• Filosofia
• Univ. California Berkeley
• formação em filosofia, vai discutir “o saber”
• propõe uma crítica a certas noções do
pensamento ocidental
• será vista como “fundadora” da teoria queer
Problemas de gênero (1988)
• Discute o gênero a partir da reflexão sobre a identidade
“mulher”
• identidade “mulher” – não existe algo baseado no idem, na
igualdade, no idêntico. A imagem de uma identidade mulher
subsume outras diferenças. Faz essa discussão a partir da
proposta teórica de Foucault. (do segundo Foucault, o da
“genealogia” da Hist. da sexualidade vol I)
• Gênero – não há uma identidade fixa, uma “mulher”, ou um
“homem”, definido, dado, independente do lugar, do
contexto, da dinâmica social. Identidade é conjunturalmente
definida (e aqui podemos lembrar também que “a identidade”
nunca está acabada, é um processo constante)
Identidade
pode ser um ideal normativo, que busca regular uma
identidade feminina, como faz o próprio feminismo.
Assim como outros movimentos sociais o fazem, que
cristalizam identidades como “negro”, “gay”, lésbica. Mas
lembrem-se que essas cristalização de identidades é muito
mais forte no movimento norte-americano.
É depois de Butler que parecem pessoas que se definem
como “queer”, querendo escapar de uma definição de
identidade sexual – gay, bissexual, lésbica - , ao mesmo
tempo que negar a ordem heterossexual. (vem daqui tb a
ideia de não-binárie)
Identidade mulher
• - Propõe em termos políticos a noção de coalizão
(temporária) - não é mais possível pensar na política
feminista tradicional, dos anos 70, que falava em “a
mulher”. As coalizões são possíveis, porém temporárias,
dadas as inevitáveis diferenças entre as mulheres. Ou
seja, parte de seu problema vem também da própria
divisão interna do movimento feminista, que no caso
dos EUA, vem marcadamente pela diferença das
mulheres negras e lésbicas.
• intersecção com hierarquias de classe, raça/etnia,
sexualidade, etc.
• Homem e Mulher – são termos relacionais, não estáveis
• opõe a noção de sujeito transcendental a de sujeito
contextualizado (nesse sentido, insere-se numa corrente
que pode ser chamada de pós-moderna, ou mesmo pós-
estruturalista)
• Poder produz a estrutura binária do gênero, o que ela vê
acontecer nos escritos de Beauvoir e Sartre (e o sujeito
masculino do desejo, uma cultura masculinista em que a
mulher é o mistério, o “outro”)
• Pergunta-se então: “Que configuração de poder constrói o
sujeito e o Outro, essa relação binária entre “homens” e
“mulheres”, e a estabilidade interna destes termos?” (p. 8)
• Fala de Foucault e sua necessidade de fazer uma genealogia
para expor as categorias fundacionais de sexo, gênero e
desejo como um formação específica de poder.
Gênero
• “A crítica genealógica recusa-se a buscar as origens do
gênero, a verdade íntima do desejo feminino, uma
identidade sexual genuína ou autêntica que a repressão
impede de ver; em vez disso ela investiga as apostas
políticas que designam como origem e causa categorias
de identidade que, na verdade, são efeitos de
instituições, práticas e discursos cujos pontos de origem
são múltiplos e difusos. A tarefa dessa investigação é
centrar-se – e descentrar-se – nessas instituições
definidoras: o falogocentrismo e a heterossexualidade
compulsória.” (p. 9)
O texto se divide em 3 partes que fazem uma
genealogia crítica das categorias de gênero em 3
domínios discursivos diferentes

• Cap 1 – “Sujeitos do sexo/gênero/desejo”


• Cap 2 – “Proibição, Psicanálise, e a produção
da matriz heterossexual”
• Cap 3 – “Atos Corporais Subversivos”
• Conclusão – Da Paródia à Política
Sujeitos do sexo/gênero/desejo
• Considera o status da “mulher” como sujeito do
feminismo e da distinção entre sexo e gênero.
Desconstrói a noção de sexo como “natural”.
• Masculino / feminino – não estão colados em
corpos de homens e mulheres (pensar como os
sentidos e associação de masculino e feminino
circulam, como propõe Strathern).
• Critica e desconstrói o que chama de
“metafísica da substância”.
Proibição, Psicanálise, e a produção da
matriz heterossexual
• analisa alguns textos do estruturalismo, psicanálise
e feminismo quanto ao tabu do incesto como o
mecanismo que tenta reforçar identidades de
gênero internamente coerentes e discretas dentro
da estrutura heterossexual.
• Propõe (ou retoma, de certo modo) a noção de
matriz heterossexual – transpõe um dimorfismo
orgânico para um dimorfismo de gênero, e do
desejo, um matriz que supõe coerência entre sexo-
gênero-desejo.
Atos Corporais Subversivos
• discute Julia Kristeva, Foucault, Wittig e
propõe a sua noção de performatividade, de
gênero como um “ato” em construção.
REPETIÇÃO: Sinal de que a materialização
nunca está completa, os corpos nunca
completam totalmente as normas. Exemplos
das drag queens.
• Feminismo – assume que há alguma identidade (Mulher) que
não apenas inicia os interesses e objetivos do feminismo,
mas que tb é sujeito da representação política que se almeja.
Mas o sujeito mulher também se tornou problemático.
• (citando Foucault) O poder jurídico “produz” inevitavelmente
aquilo que ele diz apenas representar; a política deve tratar
desta função dual do poder: jurídica e produtiva. (p. 19)
• A crítica feminista precisa entender como a própria categoria
“mulheres”, sujeito do feminismo, é produzida e
constrangida pelas mesmas estruturas de poder através das
quais se busca a emancipação. [Ou seja, como a categoria
“mulher” foi construída pelo feminismo, supondo que estava
apenas representando “as mulheres”.] Pensar na construção
política do sujeito.
Pode não haver um sujeito que existe antes da
lei, esperando ser representado pela lei
• Há uma integridade ontológica do sujeito? Há uma suposição
de um estado natural, uma fábula fundante que é constitutiva
das estruturas jurídicas do liberalismo (p.20).
• Há uma imagem de um “antes” não-histórico, no qual se
constitui uma categoria ontológica do sujeito – ou seja, como
se houvesse uma pessoa, natural, que é dada antes da
cultura, ou da sociedade, e que todas juntas fazem então um
certo “contrato social” (em Lévi-Strauss, assim como em Freud
e Lacan)
• é a partir da noção de poder como na História da Sexualidade
do Foucault que ela vai pensar a teoria, inclusive a teoria
feminista. (é o que ela chama de “ficções fundacionistas”)
O termo “mulheres” denota uma identidade comum, mas desde
certo tipo de feminismo, sabe-se que essa categoria geral e
unificadora é problemática, GÊNERO NÃO EXISTE EM SI, FORA
DE OUTRAS INTERSECÇÕES

• “Se alguém “é” um mulher, isso certamente não é tudo


que esse alguém é (...) porque o gênero nem sempre se
constituiu de maneira coerente ou consistente nos
diferentes contextos históricos, e porque o gênero
estabelece interseções com modalidades raciais,
classistas, étnicas, sexuais e regionais de identidades
discursivamente constituídas. Assim, tornou-se
impossível separar “gênero” das interseções políticas e
culturais que invariavelmente o produz e o mantém.” (p.
20, tradução minha)
• [intersecções – Mulheres em condições variadas, discussões
dentro do próprio feminismo, inclusive a partir da teoria que
ela vai enfocar: a lésbica.]
• Rebate a proposta de uma base universal para o feminismo –
opressão universal.
• A ideia de um patriarcado universal já está bem desacreditada,
mas uma concepção geral de “mulheres”, como genericamente
compartilhada, é bem mais difícil de deslocar…
• Ela sugere que a presumida universalidade e unidade do
sujeito do feminismo é efetivamente minada pelos
constrangimentos do discurso representacional em que
funciona. A insistência num sujeito estável do feminismo, como
uma categoria uniforme de mulheres, gera múltiplas recusas a
esta categoria.
Sexo e gênero
• Distinção entre sexo e gênero pretende afastar a idéia da
“biologia como destino” (p. 6), porque o gênero é
culturalmente construído.
• Se o gênero são os significados culturais assumidos pelo corpo
sexuado, não se pode dizer que ele “decorre” do sexo. (p. 24)
• Se gênero independe do sexo, então gênero se torna um
“artifício” (mas não algo livre, veremos abaixo) – homem e
masculino podem estar num corpo masculino, ou num corpo
feminino (idem para mulher e feminino)
• ROMPER COM A LÓGICA: Sexo está para o gênero, assim como
a natureza para a cultura. Pois o sexo é também culturalmente
construído. Na verdade, talvez ele sempre tenha sido gênero,
não há distinção entre sexo e gênero...
• SEXO já é uma categoria do gênero.
• Gênero é o meio cultural/discursivo pelo qual uma
“natureza sexuada” ou um “sexo natural” é produzido e
estabelecido como se fosse “pré-discursivo”, ou seja, como
se fosse anterior à cultura, como se fosse um superfície
neutra sobre a qual a cultura age. Essa produção do sexo
como se fosse pré-discursivo deve ser entendida como um
efeito do aparato de construção cultural que chamamos de
gênero. (p. 25)
• “Assim, como deve a noção de gênero ser reformulada,
para abranger as relações de poder que produzem o efeito
de um sexo pré-discursivo e ocultam, desse modo, a própria
operação da produção discursiva?” (p.26)
• ESSE É UM PONTO CENTRAL DO SEU RACIOCÍNIO:
não há um sexo natural, antes, pré-cultural, a
partir do qual o gênero é construído, que exista
fora dos discursos sobre a diferença sexual – como
vimos com Laqueur, discursos de saber poder,
como diria Foucault. Do mesmo modo, não há um
sujeito antes da cultura.
• Há um gênero que as pessoas possuem, ou um
atributo essencial do que a pessoa é?
• Fala da construção do gênero, citando Simone de Beauvoir,
pensando na idéia de construção, do determinismo e do espaço
para vontade/escolha pessoal, livre arbítrio.
• em “não se nasce mulher, torna-se mulher”, o gênero é
construído, mas há um agente implicado, um cogito que assume
ou se apropria desse gênero. Mas a construção permite escolha?
Quais os limites do gênero?
• Não se trata de escolha pessoal, claro, há limites que são
impostos pelos discursos culturais hegemônicos, baseados em
estruturas binárias que parecem ser a linguagem da
racionalidade universal. Há portanto constrangimentos marcados
pela linguagem. [ou poderíamos dizer, nos nossos termos, os
limites culturais, o que é visto como possível e aceitável, e o que
ela vai descrever noutro texto como “corpos abjetos”, que saem
da binariedade hegemônica aceitável, que saem da matriz
heterossexual]
• Algumas teóricas feministas dizem que o gênero é uma “relação”
(Scott), um conjunto de relações e, não um atributo individual.
Outras, a partir de Beauvoir, argumentam que somente o gênero
feminino é marcado, o masculino se funde com a pessoa universal
(neutra), que transcende seu corpo - ao passo que a mulher está
presa ao seu corpo, e marcada desta forma
• (discute Beauvoir e Irigaray, que fala da linguagem falogocêntrica, na qual as
mulheres são o irrepresentável.)
• Mencionando Joan Scott: teoria social do sujeito – ao invés de uma
concepção universal da pessoa, gênero como uma relação entre
sujeitos socialmente constituídos, em contextos especificáveis. (p.
29)
• Metafísica da substância – concepções humanistas do sujeito
tendem a presumir uma pessoa substantiva, portadora de atributos
essenciais e não essenciais. Gênero como um atributo da pessoa.
(ela quer se opor a uma noção de sujeito transcendental, e trata de
um sujeito contextualizado, constrangido pela cultura, mas também
em processo, nunca “acabado”).
Necessidade de pensar intersecções diferenciais para além da
diferença sexual (p. 34)
Debates sobre essencialismo colocam noutra perspectiva a
questão da universalidade da identidade feminina e da opressão
masculina. Há uma categoria “mulheres” baseada em estruturas
transculturais de feminilidade, maternidade, sexualidade ou de
écriture feminine. E isso ela pretende discutir e problematizar,
questionando assim parte da teoria feminista, trazendo a questão
das intersecções das oposições de classe e raça.
Ao invés de se falar numa identidade feminina universal,
feminismo agora fala em coalizão (p. 35). Necessidade de uma
abordagem antifundacionista da política de coalizões. (p. 37)
Não há identidade de modo anterior à identidade de gênero, porque as “pessoas” só
são inteligíveis no gênero, em conformidade com os padrões reconhecidos de
inteligibilidade do gênero. (p. 37)
Em que medida as práticas regulatórias de formação e divisão do gênero constituem a
identidade, a coerência interna do sujeito, de fato, o status auto-idêntico da pessoa?
Em que medida a “identidade” é um ideal normativo ao invés de uma característica
descritiva da experiência?
Gêneros “inteligíveis” são aqueles que de algum modo instituem e mantêm relações de
coerência e continuidade entre sexo, gênero, prática sexual e desejo. (Matriz
heterossexual) (p. 38)
A noção de uma “verdade” do sexo (como diz Foucault) é produzida pelas práticas
regulatórias que promovem identidades coerentes. A heterossexualização do desejo
requer e institui a produção de uma oposição discreta e assimétrica entre feminino e
masculino, entendidos como atributos expressivos de ser mulher ou homem. (pp. 38-
39) Ou seja, para ela é isso que produz, requer, regula o gênero como uma oposição
binária.
matriz de inteligibilidade - matriz heterossexual
relacionada à heterossexualidade compulsória
Sexo – gênero – desejo (e prática sexual) – podem não ser coerentes.
Metafísica da substância – como se do sexo decorresse o gênero e o
desejo, como se fossem coerentes, exigindo para tanto uma
heterossexualidade estável e oposicional – ver p. 45
Mas, para deslocar a relação binária e a metafísica da substância, é preciso
pressupor que as categorias de masculino e feminino, mulher e homem,
são da mesma forma produzidas dentro da estrutura binária, como de
certa forma faz Foucault. (23) Foucault sugere que a categoria do sexo é
também construída através do modo historicamente específico de
sexualidade.
GÊNERO é produzido performativamente
O efeito substantivo do gênero é performativamente produzido e imposto pelas
práticas reguladoras da coerência do gênero
Gênero é sempre um feito [um fazer, um ato] mas não é obra de um sujeito que
existe antes desse fazer [fato, ato]. Não há uma identidade de gênero por trás ou
antes destas expressões de gênero, essa identidade é performaticamente
constituída.
A noção utópica de uma sexualidade liberta dos construtos heterossexuais, uma
sexualidade além do sexo, não reconhece as formas pelas quais as relações de
poder continuam a construir a sexualidade para as mulheres, mesmo nos termos
de uma heterossexualidade “liberada” ou do lesbianismo (p. 54) (sobre Irigaray e
Wittig)
Assim como o gênero, a sexualidade também é culturalmente construída -
portanto não há também uma sexualidade “livre”, antes, fora, ou além do poder.
gênero e sexualidade
Mesmo as convenções heterossexuais dentro de relações homossexuais
podem desnaturalizar as categorias de gênero
Várias identidades sexuais – homo, gays, etc. – permitem a
desnaturalização e a mobilização das categorias de gênero. A replicação
dos construtos heterossexuais em contextos não-hetero ressalta o status
de construção do “original heterossexual”
Estas configurações culturais de confusão do gênero operam como
espaços para intervenção, exposição, e deslocamento das reificações. Há
“repetições subversivas”, que questionam as “ficções reguladoras”.
Falar que o gênero é construído não é dizer que ele seja “artificial”
Mulher é um termo em processo, um tornar-se, um construção sem início
e fim.
Lévi-Strauss e Estruturas Elementares do Parentesco (cap. 2)
Mulher - objeto da troca que institui o parentesco/aliança; objeto de valor, dom,
termo de relação entre grupos de homens. As mulheres, na teoria de L-S, são lugar
da permuta patronímica (o nome do pai, de família)
Supõe uma lógica universal que estrutura as relações humanas.
Identidade masculina - troca de mulheres, mulheres como objeto de troca.
Reciprocidade se dá entre homens, heterossexualidade exogâmica instituída pelo
tabu, supõe não-reciprocidade entre os sexos.
Centralidade do tabu do incesto – produz heterossexaulidade exogâmica, lei que
proíbe incesto institui e regula a economia do parentesco.
Lévi-Strauss - naturalização da heterossexualidade e do agenciamento sexual
masculino, pressupõe uma masculinidade heterossexual do sujeito do desejo -
construções discursivas não assumidas, mas que são pressupostos do modelo
estruturalista (semelhante ao que diz Gayle Rubin)
Algumas partes do corpo são valorizadas (pênis, vagina, seios) como focos de
prazer porque correspondem ao ideal normativo de um corpo gender-specific.
Alguns prazeres servem as práticas legitimadoras de formação de identidade que
se dão dentro da matriz das normas de gênero. (108-109)
Cita o trabalho de Gayle Rubin como ainda que não de forma explícita, já fazendo
uma análise foucaultiana, que depois torna-se central no trabalho desta autora.
Foucault fala da lei produtiva sem postular um desejo original – o tabu do incesto
não reprime portanto uma disposição primária, mas cria a distinção entre
disposições “primárias” e “secundárias” – e esta distinção descreve e reproduz a
distinção entre heterossexualidade legítima e homossexualidade ilegítima (como
afirma Rubin).
Citando Rubin: O tabu do incesto pressupõe um tabu anterior (menos articulado)
sobre a homossexualidade. A proibição sobre certas uniões heterossexuais supõe
um tabu contra as uniões não-heterossexuais. Gênero não é apenas uma
identificação com um sexo, mas também acarreta que o desejo sexual seja
dirigido ao outro sexo.
Butler diz que se aplicarmos a crítica Foucaultiana, então a lei produz tanto
a heterossexualidade sancionada como a homossexualidade
transgressiva. (p.112) – Ambos são EFEITOS, em termos ontológicos e
temporais, posteriores à lei, e a ilusão de uma sexualidade anterior à lei é
criação da própria lei.
Portanto, o ensaio de Rubin mantém-se preso à distinção entre sexo e
gênero, sendo o primeiro anterior.
Sobre Foucault e A História da Sexualidade vol. 1, e seus 2 argumentos: (1)
a “lei” estruturalista pode ser compreendida como uma formação de
poder, uma configuração histórica específica, e (2) a lei pode ser vista como
produzindo ou gerando o desejo que, afirma-se, ela busca reprimir.
O desejo é produzido e proibido como um gesto simbólico ritual através do
qual o modelo jurídico exercita e consolida seu próprio poder.
A teoria psicanalítica reconhece a capacidade produtiva do tabu do
incesto. Neste contexto, não só se cria a heterossexualidade, mas a
homossexualidade emerge como um desejo que deve ser produzido para
permanecer reprimido. A heterossexualidade precisa, para se manter
intacta como forma social distinta, da concepção inteligível da
homossexualidade.
Assim, a bissexualidade não vem antes, não está fora do simbólico, mas é
uma construção de seu discurso constitutivo – o que se mantém como
“impensável” e “não dito” nos termos de uma forma cultural existente
não é necessariamente o que é excluído de sua matriz de inteligibilidade;
ao contrário, é o que é marginalizado nela. O “impensável” está portanto
totalmente dentro da cultura, mas totalmente excluído da cultura
dominante. (pp. 115 a 117 )
Problematiza como a biologia classifica os sexos através dos genes,
como os traços masculinos são vistos como “ativos” (cita Fausto-
Sterling).
Literatura sobre a determinação sexual – feminilidade é considerada
como ausência do fator masculino, ou presença “passiva” deste
fator. (158)
As pesquisas sobre determinação sexual são estruturadas e
orientadas por pressuposições culturais sobre o status relativos de
homens e mulheres, sobre a relação binária do gênero – assim
torna-se dificílimo distinguir o “sexo” do gênero. Linguagem da
biologia participa de outras linguagens. (160)
Gênero sem sexo
A categoria do sexo pertence a um sistema de heterossexualidade
compulsória, que opera através de um sistema de reprodução compulsória.
Para Wittig, masculino e feminino, macho e fêmea existem unicamente no
âmbito da matriz heterossexual, são termos naturalizados.
Mas isso leva a pensar que o sexo e gênero não precisam ser coerentes – a
categoria “mulher” não decorre necessariamente do corpo feminino. (163)
Distinção entre sexo e gênero – corpos sexuados podem dar ensejo a gêneros
diferentes – então o próprio gênero é uma espécie de devir ou atividade,
gênero não deve ser concebido como substantivo, mas como ação repetida e
incessante.
Gênero pode se proliferar para além dos limites binários impostos pelo
aspecto aparentemente binário do sexo. (163)
Inscrições corporais, subversões performativas
Categorias de sexo verdadeiro, gênero distinto e sexualidade – pontos de referência
estáveis para política feminista. Construtos de identidade como pontos de partida
epistemológicos para o feminismo.
Mary Douglas – Discursos sobre as fronteiras do corpo, como os limites do socialmente
hegemônico. Corpo simboliza sistemas delimitados, fronteiras representam as
fronteiras sociais ameaçadas. Por isso, poder e perigo.
Tabu do incesto e tabu anterior contra a homossexualidade – como “momentos
generativos da identidade de gênero, como as proibições que produzem a identidade
nas grades culturalmente inteligíveis de uma heterossexualidade idealizada e
compulsória. Essa produção disciplinar do gênero leva a efeito uma falsa estabilização
do gênero, no interesse da construção e regulação heterossexuais da sexualidade no
domínio reprodutor. A construção da coerência oculta as descontinuidades do gênero,
que grassam nos contextos heterossexuais, bissexuais, gays e lésbicos, nos quais o
gênero não decorre necessariamente do sexo, e o desejo, ou a sexualidade em geral,
não parece decorrer do gênero – nos quais, a rigor, nenhuma dessas dimensões de
corporeidade significante expressa ou reflete outra. (194)
Atos, gestos e desejo produzem o efeito de um núcleo ou substância interna –
produzem na superfície do corpo. Gestos e atuações são performativos, pois
representam uma suposta identidade ou essência que são fabricações.
O fato de o corpo com gênero ser marcado pelo performativo sugere que ele
não tem status ontológico separados dos vários atos que constituem sua
realidade. (194)
A verdade interna do gênero é uma fabricação – travesti, drag revelam esse
mecanismo de fabricação – ver citação à p. 195-6
Noção de uma identidade original ou primária do gênero é freqüentemente
parodiada nas práticas culturais do travestismo, da drag, e nas estilização das
identidades butch/femme das lésbicas.
Performance da drag brinca com a distinção entre a anatomia do performista
e o gênero que é performado. São 3 dimensões contingentes da corporeidade
significante: sexo anatômico, identidade de gênero e performance de gênero.
Ao imitar o gênero, a drag revela implicitamente a estrutura imitativa do
próprio gênero – assim como sua contingência. (196)
Imitações deslocam os significados originais. Não há uma identificação original
como causa determinante, a identidade de gênero pode ser reconhecida
como uma história pessoal/cultural de significados recebidos.
Gênero... como um estilo corporal, um “ato” por assim dizer, que tanto é
intencional como performativo, onde “performativo” sugere uma construção
dramática e contingente do sentido. (199)
“como estratégia de sobrevivência em sistemas compulsórios, o gênero é uma
performance com consequências claramente punitivas. (199)
“Os vários atos de gênero criam a idéia de gênero, e sem esses atos, não
haveria gênero algum, pois não há nenhuma “essência” que o gênero
expresse ou exteriorize, nem tampouco um ideal objetivo ao qual aspire, e
porque o gênero não é um dado da realidade.” (199)
Gênero como performatividade
Gênero não é uma identidade estável ou um lócus para ação, é uma identidade
tenuemente construída no tempo por meio de uma repetição estilizada de atos.
(200) (e não um modelo substancial de identidade) Há uma aparência de
substância que é uma identidade construída, uma realização performativa na qual
a plateia e os atores creem.
Gênero é uma norma que nunca pode ser completamente internalizada. (200)
Os atributos de gênero não são expressivos, mas performativos, constituem a
identidade que pretensamente expressariam ou revelariam.
“O fato de a realidade do gênero ser criada mediante performativdades sociais
contínuas significa que as próprias noções de sexo essencial e de masculinidade ou
feminilidade verdadeiras ou permanentes também são constituídas, como parte da
estratégia que oculta o caráter performativo do gênero e as possibilidades
performativas de proliferação das configurações de gênero fora das estruturas
restritivas da dominação masculinista e da heterossexualidade compulsória.” (201)
Conclusão: Da paródia à política

Relativização da noção de sujeito filosófico – não há para ela um “eu” que exista
antes da cultura, antes do discurso. Não há um sujeito transcendental, um “ego”
antes do contexto cultural em que se insere. Da noção de sujeito transcendental
decorre a noção típica da epistemologia ocidental do eu/outro, sujeito/objeto.
Se o sujeito é formado pelo discurso, ele também é formado marcado pelo seu
gênero. No entanto, Butler não quer afirmar que ele é totalmente determinado
ou constrangido pela cultura, já que o lugar de agência estaria nas
performatividades que deslocam o masculino e o feminino de corpos sexuados de
mulheres e homens.
Crítica ao raciocínio fundacionista da política de identidade – primeiro há uma
identidade para que os interesses políticos possam ser elaborados.
É preciso compreender a identidade como uma PRÁTICA SIGNIFICANTE.
Meu argumento é que não há necessidade de existir uma
“agente por trás do ato”, mas que o “agente” é
diversamente constituído no e através do ato. (205)

Desconstrói a ideia de sexo como base, sexo é gênero


Matriz heterossexual
Gênero como performatividade
Repetição das convenções de gênero através da
performatividade também transformam essas convenções.

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