Coco de roda: Brincadeira
dera e memória
História e elemento s do coco de roda
Dança e poesia afro-indígena-brasileira
• Dança, ritmo e poesia do Nordeste
• O Coco se manifesta em sua pluralidade, lugares como Paraíba e
Pernambuco.
• Dificuldade na nomenclatura: “Antes de mais nada convém notar que
como todas as nossas formas populares de conjunto das artes do
tempo, isto é cantos orquéstricos em que a música, a poesia e a dança
vivem intimamente ligadas, o coco anda por ai dando nome para muita
coisa distinta. Pelo emprego popular da palavra é meio difícil a gente
saber o que é coco bem. O mesmo se dá com ‘moda’, ‘samba’,
‘maxixe’, ‘tango’, ‘catira’ ou ‘cateretê’, ‘martelo’, ‘embolada’ e outras.
A poesia do coco
• : Na brincadeira do coco há ironia, há ambiguidade, há momentos de
crítica social, mas a construção dos versos e o sentido da poesia é
diferente.
Vai Tirar coco Manuel Vai tirar coco pra dançar Vai Tirar coco Manuel
Vai tirar coco pra dançar Vai Tirar coco Manuel Vai tirar coco pra
dançar Vai Tirar coco Vai tirar coco pra dançar Emanuel Vai tirar coco
Vai tirar coco pra dançar Emanuel Vai tirar co Vai tirar coco pra dançar
Coco, dança que se faz em roda
• Nos cocos dançados predomina o coletivo: Canto, instrumentos e
dança.
• Origens negras: Africanas, para uns, alagoana, para outros. São fortes
as marcas da cultura negra nos cocos, especialmente nos dançados: os
instrumentos utilizados, todos de percussão (ganzá, zabumba ou
bumbo, zambê, caixa ou tarol), o ritmo, a dança com umbigada ou
simulação de umbigada e o canto com estrofes seguidas de refrão
cantado pelo solista e pelos dançadores.
• Elementos compartilhados: Esses elementos aparecem também no
batuque, no samba-leno paulista, no jongo, no samba de partido alto,
no samba de roda da Bahia.
• Depois de inúmeras investigações, recolhi recentemente em Viçosa (Alagoas) uma
tradição que vem firmar definitivamente a origem negra do coco. Diz esta tradição
de que tomei conhecimento através de um velho proprietário do Distrito de Chã
Preta, que o coco foi inventado pelos negros dos Palmares [...] os negros sentavam-
se no chão, colocavam o duro coco seco sobre uma pedra e batiam com outra até
que ele rachasse. A grande quantidade de negros empenhada neste serviço
provocava nas pedras uma zuada enorme que se misturava com os seus
costumeiros alaridos. E em meio a estas barulhentas reuniões, alguns começavam a
cantar, outros levantavam-se e davam início a um forte sapateado e os demais
uniformizavam a pancada das pedras para acompanhar aquele estranho ritmo que
surgia. E os negros renovavam sempre a brincadeira e a coisa virou costume, pois a
quebra do coco terminava sempre em cantiga e em dança.”
- Vilela
Catalogando a manifestação, o trabalho de
pesquisa de Mário de Andrade de 1938
• As coletas da expedição no Estado da Paraíba superaram todas
expectativas: cerca de 30 gêneros folclóricos musicais, mais de 700
melodias gravadas distribuídas em aproximadamente 100 discos de várias
dimensões; mais de 500 fotografias; cerca de 10 filmes cinematográficos;
uma grande quantidade de objetos de fatura popular (ex-votos de madeira,
instrumentos musicais, vestimentas características, entre outros), além de
infinidade de anotações escritas pelos componentes da equipe.
• Os pesquisadores possuem uma posição unânime em afirmar qu o coco
possui origem alagoana, tendo daí s difundido por toda a região, sofrendo
aqui ali determinadas modificações quanto ao modo de apresentação, seja
com relação à dança ou canto.
Passado e presente, um jogo de memória
inovação
• Variações provocadas pelos diferentes contextos em que a prática é
realizada.
• Realização da prática: Festejos populares ou eventos políticos.
• “O coco muitas vezes é um recado. Era um recado, né, que...
antigamente, eles não podiam... eles como escravos eles não podiam
desabafar com o senhor e eles desabafavam em lamentos. De noite,
em noites, eles ali brincando e eles desabafavam [...] É uma
brincadeira que vem dos negros, escravos, somos descendentes desse
povo e não podemos deixar cair a tradição.“
- Dona Lenira
Letras
Lengo tengo lengo tengo Negro rachar os pés
eu morro de trabalhar de tanto sapatear
de dia tô na enxada de dia tá no açoite
de noite tarrafear de noite pra batucar
Samba negro
branco não vem cá
se vier
pau há de levar
Letras
Já estou cansado porque o prefeito
de trabalhar no roçado não bota energia
mas estou desanimado Seu Aloisio
não vejo nada ir pra frente no Conde fez um turismo
Trabalhador botou praia de nudismo
não é pra ficar contente pros banhistas se banhar
que o Plano do Real Deu em Manchete
veio acabar com a gente de Norte para o Sul
Eu moro lá na Agrovila quem quiser ver gente nú
mora Pedro e João, vá em Tambaba olhar
José e Maria
só não tamos mais satisfeito(s)
CANTADORES, DANÇADORES E A
BRINCADEIRA
• Participantes periféricos: mestres e participantes morando em casebres de
taipa.
• Sem as garantias mínimas de cidadania é muito difícil ter autonomia para
desenvolver atividades culturais independentemente de interferências de
grupos de poder proprietários rurais e políticos.
• Novas gerações e o coco: “Dançadores e cantadores revelam-se magoados
por presenciarem a perda de interesse pela dança, tanto pelos mais velhos,
quanto pelos jovens. A dança muitas vezes é depreciada por quem não
integra o conjunto de dançadores e cantadores sendo considerada atividade
de "preto velho, sem vergonha, pobre e cachaceiro". Por isso, várias pessoas
que apreciam a dança e o canto afastam-se da manifestação com medo da
discriminação.”
CANTADORES, DANÇADORES E A
BRINCADEIRA
• Migração interna e elemento integrador e afirmação de identidade
cultural
• Rejeição da nova geração: “Quando participam das atividades
culturais populares como a brincadeira do coco, desenvolvidas nas
comunidades onde moram, muitos jovens reagem temendo, depois, a
ridicularização feita por colegas da escola. Aceitam participar de
apresentações públicas quando dançadores e cantadores são
caracterizados como grupo folclórico, o que possibilita, às vezes, ver
suas imagens veiculadas pela televisão.”
• Coco uma manifestação escondida pela ciranda?
CANTADORES, DANÇADORES E A
BRINCADEIRA
Quem são os brincantes: “Pode-se afirmar que a brincadeira do coco é
dança de minorias discriminadas, por diversas condições: pela etnia
(negros, índios e seus descendentes), pela situação econômica
(pobreza, às vezes extrema), pela escolaridade (iletrados ou semi-
alfabetizados), pelas profissões que exercem na sociedade (agricultores
com pequenas propriedades ou sem terra, assentados rurais,
pescadores, pedreiros, domésticas, copeiras de escolas).”
CULTURA, EXPERIÊNCIA,
SOLIDARIEDADE, MEMÓRIA
• Universo de oralidade em que experiência, solidariedade e alegria são
fundamentais.
• Experiência comunitária: “Essa alternância entre carência e
abundância, entre o que falta e o que sobra nem sempre resulta em
tensão explicitada pela palavra. Essa solidariedade muito grande,
fundada em vida comunitária com fortes laços de afetividade que se
constrói no dia-a-dia difícil, no mutirão cotidiano da vida em que
"uma mão lava a outra", é responsável pela força que supera as
dificuldades e refaz o ânimo através da alegria dos momentos festivos
em que se dança, em que se ri, em que se diverte para agüentar as
novas dificuldades de sempre”.