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Telescópios e Detectores Ópticos

Este documento fornece uma introdução sobre óptica geométrica, telescópios e detectores. 1. Discute conceitos básicos de óptica geométrica como lentes, espelhos, foco e ampliação. 2. Apresenta os principais tipos de telescópios ópticos, de rádio e de altas energias. 3. Descreve diferentes tipos de detectores como câmeras fotográficas, CCDs e bolômetros utilizados em astronomia.
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Telescópios e Detectores Ópticos

Este documento fornece uma introdução sobre óptica geométrica, telescópios e detectores. 1. Discute conceitos básicos de óptica geométrica como lentes, espelhos, foco e ampliação. 2. Apresenta os principais tipos de telescópios ópticos, de rádio e de altas energias. 3. Descreve diferentes tipos de detectores como câmeras fotográficas, CCDs e bolômetros utilizados em astronomia.
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Prof.

Renato Vangelino Junior Telescópios e Detectores

INFORMAÇÃO GERAL

Apresentação - Prof. Renato Vangelino Junior


- Manaus - Amazonas
- email: jrvangelino@[Link]

Agradecimento : Ao Professor Pedro Augusto pelo brilhante trabalho de execução e divulgação desta obra.

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Prof. Renato Vangelino Junior Telescópios e Detectores

“motivation is […] more important […] than inate ability”


(Scientific American, August 2006)

“it takes […] a decade of heavy labor to master any field”


(Scientific American, August 2006)

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Programa

1 ÓPTICA GEOMÉTRICA 3 DETECTORES


1.1 Geral 3.1 Máquina fotográfica
1.2 Lentes e aberrações 3.2 Detectores fotoeléctricos
1.3 Difracção 3.3 A matriz de células (CCD)
1.4 Auxiliares ópticos 3.4 A vídeo-câmera
1.5 Determinação experimental do f/número 3.5 A magnitude óptica limite do céu
1.6 Testes e correcções ópticas 3.6 Bolómetros e calorímetros
3.7 Contadores de fotões
2 TELESCÓPIOS
2.1 Ópticos (reflectores) 4 MONTAGENS
2.2 IV 4.1 Equatorial
2.3 Rádio e sub-mm 4.2 Altazimutal
2.4 Altas energias 4.3 Outras
4.4 Erros

5 REDUÇÃO de DADOS no ÓPTICO (CCD)


5.1 Definições
5.2 Redução de dados
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1 – ÓPTICA GEOMÉTRICA
1.1 Geral
Para uma lente/espelho objectiva de diâmetro (abertura) D e
distância focal fl temos o f/número (razão focal) dado por:

f = fl / D

Acoplada, num telescópio, a uma ocular de distância focal fo As oculares existem em dois tipos: de 1 1/4”
e diâmetro do temos: (1.25 polegadas) ou 2”, conforme o seu diâmetro.
O primeiro tipo é o mais popular, mas o segundo

Ampliação (angular) = fl / fo (≠ resolução!) permite campos de visão extraordinários .


(objectiva) (pupila)
(ocular)
O diâmetro da pupila da ocular é dado por:

d = D f o / fl

Este diâmetro deve ser ajustado ao da abertura de entrada do detector, de modo a não se perderem
fotões (e.g. se com uma ocular, deve andar à volta dos 8mm, o maior diâmetro da iris). Na pior das
4
hipóteses, a ampliação pode ser maior, mas nunca menor.
4
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A imagem formada não é, normalmente, como a orientação no céu:


frequentemente está invertida e do avesso.

O campo de visão é dado por:

 = do / fl

De uma forma mais geral, num detector de dimensão física a  b (seja


uma película fotográfica ou um chip de CCD) temos um campo de visão

ab = a  b / fl2

O campo de visão de um telescópio pode ser medido desligando os


motores e deixando uma estrela com  ~ 0º atravessar o campo de um
lado ao outro: o tempo que ela leva a atravessá-lo dá o tamanho do
campo.

Para detectores electrónicos, a ampliação angular tem uma expressão


e nome diferentes. O nome é explícito: escala de imagem (I),
simplesmente dado por
I = 1 / fl (rad/m)
5
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É a escala de imagem que dá a conversão directa de valores angulares (no céu) para lineares (no
detector).

De uma forma semelhante à ocular, o campo-de-visão  de cada pixel vai ser dado pela sua dimensão
do e define a resolução de uma CCD. Aplicado à CCD temos:

 = do / f l = I d o

Segue-se uma fórmula que nos dá a magnitude limite de um telescópio em função da sua abertura
efectiva (Def) – por exemplo, num reflector, devido à obstrução causada pelo secundário/espelho plano,
a redução de abertura pode chegar aos 50%.
mlim = 7.5 + 5 log Def(cm)

Esta fórmula dá valores mais favoráveis do que a simples comparação de “razões de diâmetros”.
Assim, um telescópio de 20cm detecta estrelas mais de quatro vezes mais fracas do que um de 10cm.

Quanto ao f/número, a vantagem principal de pequenos valores (os telescópios rápidos) é a de que as
exposições são mais curtas para o mesmo objecto (c.f. telescópios lentos). No entanto, o foco é mais
fácil de atingir com um f/número elevado.

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A zona de foco crítico é tanto maior quanto maior for o f/número.


Em m, esta zona é dada por ZF = 2.2 f 2. Na prática, felizmente, a
zona acaba por ser 10-30% maior. Um excelente focador eléctrico
deve ter movimentos tão finos quanto ZF / 2.

A colocação exacta na zona de foco crítico é especialmente


importante no caso de chips de CCDs.

É igualmente importante a localização dos filtros.


Devem ser colocados numa pupila (ou a do
telescópio ou a da ocular), para evitar aberrações
(feixes divergentes ou convergentes) – fl é o desvio
de foco, d a espessura do filtro e n o seu índice de
refracção: fl = d (n – 1) / n
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Na Figura abaixo apresenta-se um resumo de lentes e espelhos esféricos (aproximadamente válido


para parabolóides e hiperbolóides).

a) lente biconvexa: funciona como colimador, quando os raios fazem o percurso ao contrário;
b) espelho côncavo (e.g. parabolóide, esférico);
c) lente bicôncava (divergência a partir do foco);
d) espelho convexo (comum em telescópios Schmidt e Cassegrain). 8
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Os cinco tipos principais de oculares são:

Huygens: a imagem forma-se entre as duas lentes: não é ocular


para ampliações; campo aparente 35-40º.

Ramsden: a imagem forma-se fora do par de lentes, pelo que pode


ser usada para ampliação (sofre de alguma aberração cromática);
campo aparente 35º.

Kellner: tem lente correctiva para a acromaticidade; desenho simples


(ocular barata); campo aparente 40-45º.

Plössl: dois conjuntos acromáticos (quatro lentes); campo aparente

40-50º.

Erfle: três conjuntos acromáticos (seis lentes) ou dois acromáticos e


um simples (cinco lentes); grande campo aparente 70-85º; menos
eficiente.

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Quatro dos cinco tipos principais apresentados no texto e ainda


outros quatro também comuns (características). Os dois traços
verticais nesta e na Figura anterior representam o “field stop” visto
de Secção. A sua abertura é dada por 2fo tg(campo aparente/2).

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1.2 Lentes e aberrações


1.2.1 Refractores
Durante séculos, ainda dentro do domínio do refractor, só existiram dois tipos de “ópticas” para
telescópios. A galileana e a kepleriana.

O telescópio de Galileo usa uma lente biconvexa


(positiva) por objectiva e uma bicôncava (negativa)
por ocular. A imagem produzida é, assim, real (não
invertida). Neste exemplo o objecto tem dimensão
2OB e a imagem forma-se a um ângulo IM do eixo
óptico. Nomenclatura: f o ≡ fl (distância focal da
objectiva); fe ≡ fo (distância focal da ocular).

O telescópio de Kepler (modelo actual de telescópios


refractores) usa duas lentes biconvexas (positivas). A
grande vantagem é poder-se colocar um retículo no
plano focal. A imagem produzida é invertida (e
mantém-se assim para não aumentar as perdas de
luz). O exemplo e a nomenclatura são como acima.

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Os dois principais problemas de lentes são o de funcionarem como prismas (introduzindo a aberração
cromática) e o de serem pesadas (limitando o seu tamanho prático a 1m). Ainda, um vidro de grandes
dimensões pode levar anos em arrefecimento controlado de forma a ficar com um mínimo de qualidade
profissional (homogeneidade e transparência). Mas há mais: o vidro da lente absorve radiação UV pelo
que não é possível observar nesta banda do espectro electromagnético. Finalmente, o valor típico em
refractores é f/15, claramente desadequado para a observação de galáxias e outros objectos de baixo
brilho superficial.
Mas não há só desvantagens! A enorme estabilidade térmica e a excelente capacidade em a óptica
manter o seu alinhamento são vantagens exclusivas de refractores.

Chegou a hora de falar nos quatro tipos principais de aberrações, a começar pela já mencionada
aberração cromática.

1.2.2 Aberração cromática


Uma lente actua como um prisma separando
a luz incidente num pequeno espectro (uma
banda azul e uma vermelha vêem-se em cada
um dos lados de um objecto astronómico) – fl
depende do comprimento de onda.

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Solução 1: Historicamente, a primeira solução foi a


utilização de objectivas com fl ultra-longo (muito pouco
prática) – Huygens, Cassini (1680s).

O telescópio refractor de 63m de Cassini


(sem tubo, claro), instalado em Paris.

Solução 2: Usa-se uma lente dupla correctora, inventada


por Clairaut (1764), baseado na teoria de Hall (1729).
Esta solução reduz drasticamente o campo de visão e
mantém o violeta fora de foco.
Lente dupla correctora feita de dois tipos de
vidro (cada um com seu índice de
refracção). Temos n crown < nflint.

Solução 3: Usar um telescópio reflector (que não sofre de


aberração cromática).

Solução 4: Telescópio apocromático: usa duas lentes


correctoras de fluoreto de cálcio, levando todo o espectro
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visível ao foco (são muito caros).
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Índices de refracção
de vários tipos de
vidro.

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1.2.3 Aberração esférica


Superfícies esféricas não colocam no mesmo
foco raios paralelos. Esta aberração depende
apenas da abertura D (diâmetro da objectiva).

Solução: Usar uma superfície asférica (parábola,


hipérbole, etc.).

1.2.4 Coma

De nome idêntico a uma das componentes de um cometa, esta aberração


O aspecto global da
surge devido a cada “anel” da superfície da lente/espelho produzir o “seu” aberração comática
círculo de luz para um dado objecto astronómico. A área deste círculo é é a de um “cometa”.
proporcional à área do anel. Por definição, o efeito só existe quando há um
eixo e para raios de luz que não estejam neste.

Existem dois tipos de efeitos


de coma: a) coma “de campo”;
b) coma de descentragem.
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Solução 1: Usar uma superfície esférica, uma vez que


esta não tem eixo.

Solução 2: Usar f/número elevado (aproximação a uma


superfície esférica).

Solução 3: Usar correctores de coma (elementos


ópticos).

1.2.5 Astigmatismo
Um sistema óptico ideal (perfeito) é estigmático, no sentido
em que a imagem de um ponto é um ponto. Na vida real, no
entanto, como temos telescópios de abertura finita, o
melhor que se consegue fazer é obter imagens limitadas Dois exemplos de correctores de coma. Um
pela difracção (Secção 1.3) que transformam pontos em esquema óptico típico apresenta-se em cima.
discos (de Airy).
Uma fonte pontual, no entanto, pode aparecer elíptica devido ao sistema óptico utilizado. Tal acontece
sempre que a luz que incide oblíqua na lente/espelho é focada como em duas rectas perpendiculares
(e não num ponto). Este efeito depende do f/número.

Solução: Mudar o sistema óptico.


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1.3 Difracção
A maioria das estrelas deveriam ser pontos, como vistas pelos
telescópios de que dispomos. No entanto, por melhor que sejam as
condições atmosféricas (seeing) nunca as vemos mais pequenas
do que um disco (de Airy – 1835) que junta anéis (de difracção).
Este efeito, dito de difracção, é devido à utilização de uma abertura
finita e redonda, sendo ainda a luz enviada por um tubo (muitas
Um objecto pontual como visto por um
vezes) que provoca interferência daquela com ela mesma. Além
telescópio: o disco de Airy e anéis de
disso, todas as estruturas do próprio sistema óptico (e.g. as Fraunhofer. O disco (teórico) tem 84%
“aranhas” ou “cruzes” que seguram os espelhos secundários) da luz, o 1º anel 7%, o 2º anel 3%, etc.
adicionam mais efeitos difractivos.

As “cruzes” com que se vêm estrelas em


imagens são devidas a efeitos de
difracção dos apoios de elementos
ópticos (normalmente do secundário).

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Da esquerda para a direita a qualidade


do telescópio vai piorando no que
respeita ao contraste (gama dinâmica)
em imagens obtidas. Na imagem central
existe uma obstrução no telescópio
(secundário) de 35% ( = Dobs/D=0.35).

Ver [Link] para um excelente programa de simulação de efeitos de difracção e outros.

O primeiro problema óbvio que surge é na definição de resolução. Normalmente,


deveria ser a capacidade de separar dois objectos pontuais. Como tal não é possível,
fala-se na capacidade de separar dois discos. O problema, no entanto, é onde colocar
a “fronteira” entre um e outro. A convenção usual é considerar para definição de
resolução a distância angular entre o centro do disco de Airy e o primeiro mínimo (este
último está entre o disco de Airy e o primeiro anel – primeiro máximo), que também é a
definição do raio do disco de Airy. Esta é dada por (em função do comprimento de
onda e abertura D):

“(resolução)-1  ”R = 1.22  / D [limite de Rayleigh]

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Claramente não houve nenhuma base física para esta definição e, assim, a mesma tem de ser
interpretada com algum cuidado. Por exemplo, há quem considere uma outra definição mais “prática”,
usando para limite os 5% da intensidade central do disco de Airy:

(resolução)-1 D = 1.01  / D [limite de Dawes]

Este último resultado é idêntico ao obtido em telescópios Cassegrain com  = 0.5 (0 ≤  < 1); mais
típicos são valores em 0.15-0.30. De facto, a resolução é tanto melhor quanto maior for a obstrução,
sendo o preço a pagar o contraste que se perde. Para  → 1 chega-se ao valor limite de:

(resolução)-1  = 0.76  / D

Mais importante que a resolução é a concentração de luz no disco de Airy (quanta maior, melhor: maior
contraste – gama dinâmica). Numa óptica de má qualidade a maior parte da luz está nos anéis e não
no disco. Mais físico é, então, o critério de Strehl (1902) ou razão de intensidade de Strehl (abreviada
por razão de Strehl):
St = I / I0 = 1 – (2 / )2 Wrms2

com I0 e I a intensidade no centro do disco de Airy sem (com) aberrações de contribuição Wrms2 (em
variância estatística). Na prática, boa qualidade óptica existe sempre que as aberrações não retiram
mais de 20% de luz do disco de Airy (S t ≥ 0.80). Assim, podemos calcular qual o erro máximo para as
aberrações, em termos de “erros” na superfície: 19
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St = 0.80 = 1 – (2 / )2 Wrms2  (2 / )2 Wrms2 = 0.20  Wrms ≈  / 14


Logo, a superfície ideal deve ter um erro inferior a /14. Este erro inclui todas as aberrações, mesmo
a desfocagem. Por exemplo, estima-se a contribuição desta e da aberração esférica em /4 (cada).
A qualidade óptica de um telescópio depende, fundamentalmente, da qualidade do espelho/lente principal.
Num reflector, a superfície deve ter, então, um erro </8, idealmente </20 para uma qualidade superior.

O critério de Strehl só funciona nos “dois sentidos” até S t ≥ 0.50. A partir daqui deixa de ser possível
tirar o valor de Wrms2 a partir de St (mas não o contrário).

1.4 Auxiliares ópticos


A maioria dos auxiliares ópticos muda a distância focal do sistema óptico de observação.

É apenas na Astronomia Amadora que a distância focal do sistema pode ser a do telescópio. Na
Astronomia Profissional as correcções e os caminhos para a luz são tantos (entre espelhos,
colimadores, lentes, etc.) que o f/número final do sistema pode ser bem diferente do do telescópio.
1.4.1 Telecompressor ou Redutor Focal
O Redutor Focal ou Telecompressor é uma lente biconvexa
(positiva) que reduz o foco original de um espelho/lente (logo,
reduz o f/número) de um factor zRF. É colocado entre a ocular e a
restante óptica do telescópio. Só funciona em Schmidt-
Cassegrains, Maksutov-Cassegrains ou em espectrómetros. 20
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Um bom telecompressor tem vários elementos


ópticos. No caso deste esboço o telecompressor é
composto por dois dupletos acromáticos.

Os redutores focais são fornecidos com valores fixos (e.g. 0.7, 0.5, etc.). Alguns são zooms (e.g.
0.5 – 0.7) e, assim, dão uma enorme flexibilidade à produção de imagens. Pode-se, também,
artificialmente construir um zoom, colocando o redutor focal mais afastado da ocular do que a posição
base. No entanto, este efeito será sempre para baixo: zoom < 0.5. De facto, determina-se zRF por:

zRF = 1 – d / fRF

onde fRF é a distância focal do redutor e d a distância a que se coloca o mesmo do plano focal do
telescópio.

A redução focal tem um custo: também reduz o campo de visão efectivo do telescópio. Por vezes é
isto mesmo que se pretende: e.g. quando se pretende fazer imagens com uma CCD (usualmente de
campo pequeno; sempre bem mais pequeno que o do telescópio-ocular). O ideal é ajustar o campo
da mesma ao que vem do telescópio recorrendo a um telecompressor.

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Teoricamente há uma outra vantagem com a utilização de um redutor focal – a redução proporcional
do tempo de exposição como comparado com o original (telescópio sem redutor), T:

Tf = T zRF2
O valor mais típico, no entanto, aplica-se na prática pois o redutor focal raramente é quase-perfeito e
a cobertura do objecto observado no campo do telescópio raramente é eficiente:

Tf = 1.2 T zRF2
Em adição, nestes últimos casos a imagem pode não ser homogénea, tendo a sua parte central bem
mais brilhante do que os extremos do campo-de-visão.

Para super-reduções focais é, normalmente, preferível usar dois redutores em série do que um com
um valor de zRF muito baixo (e.g. é melhor acoplar dois de 0.5 do que usar um de 0.25). Isto é
devido aos efeitos ópticos indesejáveis que começam a aparecer com um super-redutor.
1.4.2 Teleconversor ou Lente Barlow
Uma lente Barlow (1828-33) ou Teleconversor aumenta fl (e o
f/número) de um factor zB. Consiste numa lente côncava (negativa)
que se utiliza entre a ocular e a restante óptica do telescópio. Como
para o redutor focal, mesmo que uma Barlow venha com um valor
fixo de ampliação (2, 3) é possível construir um zoom modificando
22
a sua distância na ocular (desta vez, a partir de 2 e 3,
respectivamente: há um limite inferior para o zoom).
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Uma boa Barlow tem vários elementos ópticos. No


caso deste esboço a Barlow é composta por dois
dupletos: um é acromático.

Agora o campo de visão fica mais reduzido, aumentamos o f/número e o tempo de exposição (de
forma semelhante ao que acontece com o telecompressor):

Tf ≥T zB2

Também de forma semelhante ao telecompressor, determinamos zB por:

zB = 1 + d / f B
onde fB é a distância focal da Barlow e d a distância a que se coloca a mesma do plano focal do
telescópio.
A Barlow, no entanto, não tem os problemas de heterogeneidade de brilho de campo do
telecompressor. Problemas podem advir da sua aplicação (quanto maior zB, pior) em telescópios de
f/número muito pequeno (devido à excessiva curvatura do cone de luz incidente no plano focal). Uma
boa forma de compensação é utilizar uma Barlow zB – 1 ou zB – 2 a uma distância do foco equivalente
a termos zB.
Também ao contrário dos telecompressores, uma Barlow funciona melhor sozinha do que em série
23
(e.g. é melhor uma de 4 do que juntar duas de 2).
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1.4.3 Ocular (projecção) – super-teleconversor


Uma ocular pode ser usada como um auxiliar óptico “super-
teleconversor”, permitindo chegar a valores efectivos de f/número
muito elevados (e.g. f/200). A ideia é colocar uma máquina
fotográfica ou CCD a uma certa distância da ocular e, assim, por
“projecção” da luz do objecto, ampliá-lo enormemente. Esta técnica
só funciona bem para objectos muito brilhantes (Sol, Lua) devido aos
enormes tempos de exposição exigidos para objectos fracos.

A fórmula para calcular o factor de ampliação zo é dada por:

z o = d / fo – 1
onde fo é a distância focal da ocular e d a distância a que se projecta a
imagem no detector.

1.4.4 Star diagonal


Não amplia nem diminui a imagem mas é muito útil para alguns tipos
de telescópios (e.g. Cassegrain). Um “star diagonal” é um espelho a
90º (transmissão típica ~90%) que inverte a imagem do telescópio e
permite um fácil posicionamento do observador. 24
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1.4.5 Field flattener


Muitas vezes o “plano” focal não é plano (é convexo ou
côncavo) – e.g. primários esféricos. Piazzi Smyth (1874) foi o
primeiro a considerar este problema. Embora o olho compense
este efeito, uma CCD, por ser plana (chip), apresenta nas
extremidades do seu campo os objectos distorcidos (com
coma, normalmente). Usa-se, então, um “field flattener” para
compensar este efeito. O “field flattener” é afocal pelo que não
altera o f/número do sistema de forma significativa.
O principal efeito (coma) derivado
O “field flattener” é especialmente importante em telescópios de de um campo focal curvo.
grande campo como o Schmidt.
Conforme a distância focal fl do telescópio a corrigir e o índice de
refracção n do material do field flattener temos para o raio de curvatura
deste: r = fl (n – 1) / n

Field flattener

Um field flattener para um


25
telescópio profissional.
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1.4.6 Baffles

O objectivo das “baffles” em qualquer telescópio é o de


evitar que luz indesejada (especialmente reflexões) chegue
ao foco, já que esta seria uma importante fonte de erro na
produção da imagem final.
Solução de “baffles” num refractor...
Este problema é especialmente importante em tubos de
telescópios (reflexões internas) e não se resolve apenas com
uma pintura (interior) de preto.

Os telescópios reflectores modernos (Cassegrain) resolveram


o problema do tubo: já não o têm. No entanto, fotões de todo o
lado incidem no primário e no secundário (especialmente
neste, por ser côncavo).
… e num
Designs/focos mais complexos requerem outras soluções
Cassegrain.
(complexas).

A nível amador resolve-se o problema (refractores e reflectores) colocando um cilindro negro na


extremidade (frontal) do tubo com o máximo de extensão possível (até começar a interferir com o
campo do telescópio).

26
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1.5 Determinação experimental do f/número


Embora quase todos os telescópios venham com a indicação do seu f/número, há alguns que não o
fazem. Além disso, a utilização de equipamento óptico auxiliar altera o f/número, nem sempre de
forma exactamente conhecida (e.g. quando se usa uma Barlow a uma certa distância da sua
colocação “normal” no telescópio).
Seguem algumas técnicas para encontrar o f/número ou a distância focal (fl) do sistema óptico de
forma experimental.
1.5.1 Refractores
Um método directo, que dá uma boa ideia de fl, é, simplesmente, medir a distância entre o centro da
objectiva e o plano/superfície focal. Este(a) último(a) obtém-se, na prática, no local onde, a olho,
vemos a imagem de um objecto no “infinito” (sem ocular).
Claro que o diâmetro D é mais fácil de medir e, assim, chega-se ao f/número a partir de fl e D.

1.5.2 Newtoniano
O comprimento do tubo já dá uma ideia de fl. Com mais exactidão: fl = fl 1 + fl 2 onde fl 1 é a distância
do centro do espelho parabólico ao centro do espelho diagonal e fl 2 a distância desta ao plano focal.

Uma alternativa para medir fl directamente é olhar para o espelho parabólico só com um olho e
encontrar a distância d onde se vê bem focada a sua imagem. Temos: fl = d / 2. 27
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1.5.3 Cassegrain (e outros)


Não é nada fácil medir fl de um Cassegrain com uma régua. Usam-se outros métodos que, aliás,
podem ser utilizados para qualquer outro tipo de sistema óptico. Por exemplo:
i) Tirar uma imagem de um campo estelar a partir do qual se determina o campo de visão
 do telescópio (usando uma boa carta estelar).

ii) Escolher uma estrela com ≈ 0º, desligar o motor de ascenção recta (numa montagem
equatorial) e contar o tempo que a estrela leva a atravessar o campo – como cada quatro
minutos (3m59.3s, de facto), sobre o equador, a Terra roda 1º, tiramos o tamanho angular
do campo.

Agora é fácil, pois ou:

i) Conhecemos (medimos) o diâmetro do da ocular e tiramos fl = do /  ;

ii) ou conhecemos a escala no filme/CCD: medimos com uma régua o percurso p da estrela
durante a exposição e determinamos I =  / p = 1 / fl  fl = p / .

É claro que as técnicas aqui descritas para aplicação a um Cassegrain se aplicam também para
qualquer tipo de sistema óptico, por muitos auxiliares ópticos que o componham.

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1.6 Testes e correcções ópticas


Há vários testes a efectuar a um espelho principal de um telescópio reflector e à sua óptica em geral
de forma a determinar erros comuns na mesma (aberrações, etc.).

1.6.1 Colimação
A colimação consiste em alinhar a óptica do telescópio de
forma a funcionar como foi idealizado. Quando um
telescópio está descolimado o efeito que surge nos objectos
é muito semelhante à aberração comática.

Atinge-se colimação graças ao ajuste manual de


um ou mais de (normalmente) três parafusos que
se encontram na parte de trás do espelho
primário e que “distorcem” mais ou menos a sua
superfície de forma a obter o parabolóide mais
perfeito possível (se for o caso). Em Schmidt-
Cassegrains o ajuste é no espelho secundário.

29
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Na prática, este ajuste faz-se com os passos (nota: cada um dos passos repete-se até à estrela de
teste não sair mais do centro):
o) nunca usar um “star diagonal” (usar apenas oculares);

i) observar estrela alta no céu, levemente desfocada e centrada, a baixa ampliação (100-200×)
[ – recentrar];
ii) observar a mesma estrela (desfocada) com maior ampliação (400-600×) – recentrar;

iii) observar estrela brilhante a 40-60×, focada, e garantir que os anéis de difracção em torno
do disco de Airy apareçam uniformes, circulares e concêntricos no centro do campo de visão;
iv) Confirmar iii) com tanta ampliação quanto o seeing permitir.

A colimação de um newtoniano, para ser mais precisa, deve ser


feita durante o dia, observando o céu: espreita-se pelo suporte Diagonal

da ocular (sem a mesma) e vêem-se vários círculos


concêntricos – é esse o objectivo. Se não estão concêntricos diagonal

mexem-se os parafusos de colimação de forma a colocá-los


todos nessa posição, a menos do círculo do diagonal que pode
estar ligeiramente desalinhado.

Confirma-se a colimação usando os métodos nocturnos iii)-iv) acima.


30
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A razão (puramente
geométrica) do círculo
correspondente ao diagonal
Diagonal
mirror não ser concêntrico.

diagonal

1.6.2 Geometria de estrela desfocada (pupila)


Desfoca-se uma estrela (ligeiramente) e registam-se numa
CCD duas imagens: uma antes de foco (“para cá”) e outra
depois do foco (“para lá”). A distância destas posições ao
foco normal deve ser a mesma (de forma às imagens terem
o mesmo tamanho). As exposições devem ser de 30 a 60
segundos, conforme o seeing (quanto pior este, mais
longas aquelas). A precisão do método é, pelo menos,
seeing / 5. A importância das duas imagens: o erro
Este teste não pode ser feito com o olho pois o mesmo geométrico poder-se-ia confundir com
compensa facilmente as pequenas desfocagens envolvidas. coma (que, de facto, existe).
Além disso, o olho não permite que o método se torne
31
quantitativo.
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A) Medição da aberração esférica

Mais uma vez, é fundamental a obtenção de imagens “antes” (a) e “depois” (d) do foco. Assim, temos a
dimensão relativa da obstrução central em cada caso: Dobsa / Da e Dobsd / Dd. Os tamanhos não devem
diferir mais de 20% para as contas que seguem.
Vem, para a aberração esférica:
d = D / [ 8(1 – 2) fl ]

onde: D = Dobsd – Dobsa (Dd / Da)

B) Medição do vector de coma

Temos C dado em coordenadas polares por:

{|C|,} → {[(a – b)2/ 2 + (c – d)2/ 2]0.5, arctg[(c – d)/(a – b)]}

onde a, b, c, d são quantidades métricas ou angulares medidas


directamente nas imagens (faz-se média entre as duas).

Vem, agora: C  |C| / (1 – )

A quantidade C tanto pode vir em m como em arcseg,


conforme os valores usados para a, b, c, d. 32
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Conhecendo d e sendo esta desprezável podemos, simplesmente, estimar   (Dobsa / Da + Dobsd / Dd ) / 2.

Confirmada a existência de coma, há três formas usuais de a corrigir:

i) elevar o primário (ou a célula de apoio) no lado da extremidade do vector de coma;


ii) baixar o secundário no lado da extremidade do vector de coma;
iii) deslocar o secundário na mesma direcção da do vector de coma.

Uma potencial quarta forma não é nada prática e, por isso, não é utilizada: deslocar o primário na direcção
oposta à do vector de coma.

C) Medição do vector astigmatismo

A execução é de uma forma semelhante à coma mas usa-se apenas para as medições a forma exterior
da pupila (já que a obstrução não é tão sensível ao astigmatismo).

Vem: A = (a – b) / 2

onde a, b (a>b) são quantidades métricas ou angulares medidas


directamente nas imagens (faz-se média entre as duas). Se a
forma elíptica não é tão óbvia devem-se tirar quatro diâmetros
(dividindo a área em secções de 45º) e usar as médias.
A quantidade A tanto pode vir em m como em arcseg, 33
conforme os valores usados para a, b.
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1.6.3 Testes de interferência


Este tipo de testes destinam-se, quase exclusivamente, a telescópios em construção e não a telescópios
já operacionais (aos quais se pretendem fazer testes ópticos de rotina). Para aqueles “telescópios no
laboratório”, o advento das CCDs veio tornar os testes de interferência competitivos com outros métodos.
Como exemplo mostram-se vários padrões de interferência para as aberrações comuns.

1 – Lente/espelho perfeita/o: a) ideal; b) com inclinação;


c) com desfocagem; d) com inclinação e desfocagem.

2 – Aberração esférica: [sem/com inclinação]


a/d) foco paraxial; b/e) foco médio; c/f) foco marginal.

3 – Coma (foco paraxial): a figura destacada não tem


inclinação; as restantes têm-na em várias direcções.

34
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4 – Coma (com pequena desfocagem): a figura destacada


não tem inclinação; as restantes têm-na em várias direcções.

5 – Astigmatismo (foco Petzval): a figura destacada não tem


inclinação; as restantes têm-na em várias direcções.

6 – Astigmatismo (foco Sagittal): a figura destacada não tem


inclinação; as restantes têm-na em várias direcções.

35
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7 – Astigmatismo (melhor foco): a figura destacada não tem


inclinação; as restantes têm-na em várias direcções.

8 – Astigmatismo (foco tangencial): a figura destacada não


tem inclinação; as restantes têm-na em várias direcções.

9 – Aberrações combinadas: a) aberração esférica + coma;


b) aberração esférica + astigmatismo; c) coma + astigmatismo;
d) aberração esférica + coma + astigmatismo.

36
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A) Anéis de Newton

Este é o teste interferométrico mais simples. Utiliza uma fonte


estendida de luz monocromática, um “beam splitter” e duas
superfícies “essencialmente” em contacto que produzem padrões
de interferência de Newton (se for uma esfera contra um plano)
ou paralelos (e.g. plano contra plano – fazendo um pequeno
ângulo, com um pequeníssimo espaço de ar entre eles).

B) Twyman & Green

Este tipo de interferómetro “clássico” recorre a um LUPI


(LASER-Unequal-Path-Interferometer) e a uma CCD.

O laser é de CO2, operando no IV (10.6m).

O teste de superfícies asféricas precisa de um sistema extra


que “reproduza”, aproximadamente, a superfície a testar.

Interferómetro de Twyman & Green para o teste de:


a) Superfície esférica; b) superfície asférica. O “beam
37
diverger” permite uma boa cobertura em f/número (até f/1).
(CCD)
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C) Fizeau & Haidinger (D < 0.3m)

Estes são os dois testes interferométricos mais comuns.

C1) Fizeau
Este tipo de interferómetro é muito semelhante ao de Newton. A principal diferença é que o
espaçamento entre placas é muito maior – devido a isto tem de se usar um pequeníssimo buraco de
projecção e uma lente colimadora da luz monocromática. No caso da superfície a testar ser côncava, o
colimador dispensa-se.

38
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C2) Haidinger
Como no interferómetro de Newton, a fonte de luz
monocromática é estendida: usualmente o buraco de projecção é
bem maior do que na interferência de Fizeau. O perfil de
interferência é circular (como o de Newton).

1.6.4 Teste da “lâmina” (de-faca) de Foucault


Este é o teste mais sensível de todos (~25nm). O único problema é o facto de não ser quantitativo (é
feito a olho com uma ocular), a não ser que se recorra à difícil aquisição de fotometria precisa dos
objectos observados. Dependendo do seeing, é típico fazerem-se exposições de 30-60 seg depois da
luz ter passado pela “lâmina-de-faca”.
O objectivo do teste de Foucault é amplificar grandemente os defeitos
da óptica através das suas sombras. Isto consegue-se colocando um
pequeníssimo buraco no eixo óptico da lente/espelho a testar, que
deixa passar um fino raio de luz de uma fonte luminosa. A
reflexão/refracção da óptica é depois examinada graças à lâmina de
uma faca, ao colocar-se o olho por trás da mesma e, a pouco e
A aplicação do teste de Foucault a
pouco, deslocá-la sobre a pupila da lente/espelho: vê-se uma sombra
uma lente. A ponta-de-faca desloca-se
a passar. Se a superfície do espelho/lente escurece uniformemente, sobre a pupila da lente.
então é esférico. Caso contrário, é possível ver onde é que o mesmo
39
não está ainda esférico (e corrigir com polimento, por exemplo).
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1.6.5 Teste de Hartmann

Este teste foi originalmente desenvolvido para testar a


aberração esférica de lentes/espelhos, mas tem outras
utilidades. A sua componente principal é um ecrã (de
Hartmann) que é colocado no foco do espelho/lente a testar.
O ecrã tem buracos (sub-aberturas) de diâmetro fl/500 a
fl/200 distribuídos de forma concêntrica (em anéis) ou
A aplicação do teste de Foucault a um espelho.
rectangular (uniforme).
O teste de Hartmann recorre a estrelas que são expostas duas vezes: “antes” e “depois” do foco.
a) b)

Tiram-se duas exposições: Teste a um espelho parabólico:


“antes” e “depois” do foco. a) imagem “antes” do foco; b) imagem “depois” do foco.

Na versão mais recente (Shack-Hartmann, com lentículas), pode ser usado da mesma forma que o
40
teste interferométrico LUPI (Twyman-Green). Foi utilizado nos testes ao primário do NTT, por exemplo.
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1.6.6 Teste de curvatura de Roddier


À semelhança do teste da lâmina de Foucault, também para este é necessária fotometria precisa. Mas
este teste não compete com os testes interferométricos. A técnica consiste em medir a iluminação de
dois planos à mesma distância do foco (“antes” e “depois”). Havendo erros de curvatura, um plano tem
diferenças de iluminação em relação ao outro e deduzem-se, assim, as imperfeições do espelho/lente.
As duas exposições, “antes” e
“depois” do foco, podem ser
“vistas” também da pupila.

A detecção de imperfeições num


espelho com buraco central.

1.6.7 Esferómetro
Este é um aparelho, que pode ser em forma de barra curva, que se
utiliza para medir a precisão de determinada superfície. Além disso,
também mede o raio de curvatura e a asfericidade. Por exemplo, após o
desbaste do VLT usou-se um esferómetro (precisão 0.1m) para ajuizar
a sua forma (que estava correcta a menos de 1m). Esse esferómetro
tinha 1.64m de comprimento e utilizou-se sobre a superfície desbastada
do VLT de 0.82m em 0.82m (metade do seu comprimento). 41
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1.6.8 Espelhos convexos

É frequente ter de testar a óptica, por exemplo, do espelho secundário de um Schmidt-Cassegrain. Ora,
este espelho é convexo (hiperbólico) e nenhum dos testes anteriores é adequado para tal. Além disso, a
óptica deste espelho é, em si, complexa (e.g. nunca forma uma imagem real).

Só se pode testar a qualidade óptica de espelhos convexos (“peça” opaca) com recurso a meios ópticos
suplementares. Por exemplo, não se testa o secundário individualmente mas em operação no
telescópio. Diferenciam-se os defeitos do secundário dos da restante óptica:

i) após subtracção dos defeitos da “restante óptica” (previamente determinados por outros testes);

ii) pela comparação com um (ou mais) telescópio(s) absolutamente idêntico(s) e já testados (e
colimados, ao menos);

iii) recorrendo ao pentaprisma (Wetthauer & Brodhun 1920) – teste da aberração esférica e coma.

A técnica do pentaprisma: no foco do telescópio


Cassegrain coloca-se um pequeníssimo buraco (S)
que só deixa passar um finíssimo feixe de luz. O
pentaprisma (A) desloca-se sobre carris, analisando
todo o espelho, uma subabertura de cada vez.

42
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Quando a “peça” de um espelho convexo é feita de material vítreo de alta qualidade e se o mesmo é um
primário (por exemplo de um telescópio Ritchey-Chrétien), há formas directas de estudar a sua superfície:

i) graças à refracção através do espelho e utilizando “ray tracing” (de


feixes de luz), o percurso óptico dos mesmos indicará os defeitos
na superfície;

ii) olhando para o espelho por “trás”, fazem-se testes como para um
espelho parabólico (nota: a qualidade do material vítreo da “peça”
deve ser quase-perfeita).

43
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2 – TELESCÓPIOS
Galileo foi o primeiro cientista a usar telescópios
sistematicamente para o estudo da Astronomia (a
partir de 1609), tendo também pensado em reflectores
(Zucchi, 1616, fez o primeiro, sem sucesso).

Telescópio reflector tipo “front view”.

A invenção do telescópio é atribuída ao holandês Hans Lippershey (1608) enquanto o primeiro tratado
científico sobre o mesmo foi feito por Kepler (1611), com a consequente invenção da óptica kepleriana
em 1630. Descartes (1634-1637) e Schwarzschild (1905) completaram a teoria (especialmente este
último, no seu detalhado estudo sobre aberrações).

Herschel (1773-1789) é considerado por muitos o maior


construtor de telescópios de todos os tempos: permitiu um
“salto quântico” em abertura, mantendo a resolução do
telescópio de Galileo.

O mais bem sucedido telescópio de Herschel: reflector


“front view Newton type”; D=48cm, f l ≈ 6m. 44
44
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O maior dos telescópios de Herschel – um falhanço (mecânico e


reflectividade): “Great” reflector “front view”; D=1.2m, f l ≈ 12m.

William Parsons (Lord Rosse), na Irlanda (1839-45)


construiu o maior telescópio (reflector) por décadas –
permitiu a descoberta das galáxias espirais (“nébula”).

Seguiram-se alguns outros famosos como o de Lick


(Crossley 1906), o do [Link] 1.5m (Ritchey 1908,
1927), o primeiro telescópio RC – e ainda operacional.
E o do mesmo local de 2.5m que Hubble utilizou para
identificar Cefeides e descobrir a expansão do
Universo.

Finalmente, os maiores do mundo até tempos


recentes: [Link] (Hale), 1934-49, 5m (f/3.3),
pirex/alumínio; o do Cáucaso de 6m (1963-76).

O grande telescópio newtoniano de Lord Rosse


com superfície 68% cobre e 32% estanho –
espelho em “whiffle-tree”; D=1.8m, f l ≈ 16.5m.
45
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O venerável telescópio do [Link]; D=1.5m. O telescópio Hooker do [Link]; D=2.5m.


46
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O grande telescópio do
Cáucaso; D=6m, f/4.

O telescópio newtoniano de Lick com


superfície de vidro banhada a prata;
D=91cm, f/5.8.

A componente principal de um telescópio é a objectiva (lente – refractor – ou espelho – reflector). A sua


função principal é colectar o máximo possível de radiação e colocá-la num foco. Idealmente, implicará
também uma boa resolução angular no telescópio (várias vezes melhor que a do olho humano).
47
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2.1 Ópticos (reflectores)


No óptico inclui-se o UV, já que a única diferença é a necessidade de observação do UV por
telescópios no espaço (em satélites). Isto porque a camada de ozono não permite observações da
superfície da Terra. Assim, no geral, todas as técnicas aqui descritas no óptico são também aplicáveis
no [Link]ão
2.1.1
Conforme o tipo de foco, classificamos de forma diferente os tipos mais
comuns de telescópios (reflectores). O foco primário (ou principal) só
pode ser utilizado com detectores ou, então, em telescópios grandes
(onde um observador tem espaço para se alojar). Assim, o foco mais
comum é de outro tipo. No que segue detalhamos esses vários tipos de
foco.
O elemento principal de um telescópio reflector é o espelho parabólico (tendo sido Newton o primeiro a
usá-lo num telescópio). A grande vantagem deste é a inexistência de aberração cromática (se o mesmo
fosse esférico, surgiria aberração esférica), apesar do astigmatismo e coma (também presentes em
lentes). Entre as desvantagens contam-se: i) uma maior sensibilidade térmica; ii) a obrigatoriedade de
uma obstrução, redutora da abertura efectiva e podendo chegar a 50%; iii) manufactura mais exigente
(polimento), uma vez que /16 (rms) pode não ser suficiente (c.f. /4 em lentes).
As desvantagens (incluindo aberrações) podem corrigir-se mas sempre à custa do campo-de-visão
que, na prática, não passa de 1º. Nomeadamente, usam-se para os espelhos (i) métodos de
estabilidade térmica e (ii) f/número elevado. 48
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Antes de entrarmos no estudo detalhado de reflectores (vários focos) é boa hora para mencionar um
tipo atípico: o telescópio de espelho líquido (Liquid Mirror Telescope – LMT). Este consiste num
espelho de mercúrio (claro!) em rotação.

O LMT – British Columbia,


Canadá; D=2.7m, f/1.9.

O Large Zenith Telescope (LZT);


D=6m, f/1.5 (concluído em
2007).

49
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Os espelhos líquidos aproveitam-se da lei da gravidade para, em rotação, conseguirem uma forma
parabolóide (quase) perfeita. É uma técnica já conhecida desde meados do sé[Link]. A relação
principal é dada por:
fl = g / 22
onde g é a aceleração da gravidade no local e  a velocidade angular do espelho.

O grande problema neste tipo de telescópios é a exigência de um alinhamento perfeitamente horizontal,


uma vez que o mínimo erro origina uma onda progressiva sobre a superfície. Claro que  deve ser
super-estável (1:106), senão dará origem a outra onda. Os efeitos destas imperfeições (ondas) podem
ser atenuados com uma camada de glicerina sobre o mercúrio.

A) Newton

Newton (1668) foi o primeiro a construir um telescópio reflector. A


sua forma resolve o problema do foco primário colocando um
espelho plano a 45º – por vezes chamado de “espelho
secundário” (claro que, no fundo, o foco continua a ser o primário
– não há nenhum foco secundário). A sua montagem típica é a
equatorial.

Newton foi, também, o primeiro a inventar (publicar) o polimento com “pitch laps” (e Herschel foi
o primeiro a usar a forma de quadrado no “pitch”).
50
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B) Cassegrain

Cassegrain (1672) foi o primeiro a construir um


telescópio com este tipo de foco, recorrendo a um
espelho convexo (hiperbolóide) para secundário. Já
Mersenne (1636) tinha idealizado este tipo de
telescópio. A ideia é observar os objectos
astronómicos como se se utilizasse um refractor (já
que se “espreita” na direcção dos mesmos).
Curiosamente tem, de facto, óptica semelhante a um
telescópio galileano desfocado.

Graças à convexidade do secundário (já que o primário pode ser tão rápido quanto f/2), o f/número
do telescópio é grande (f/15 é típico): é bem maior do que em newtonianos típicos. É o tipo de foco
mais popular.

C) Coudé/Nasmyth

O foco Coudé (f/grande: f ≥ 50) foi construído de forma a que a


instrumentação estacionária (devido ao peso) pudesse receber a luz do
telescópio que está em movimento contínuo. Recorre a dois espelhos
planos a 45º e adapta o foco Cassegrain (já que usa um hiperbolóide
para secundário). 51
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O foco Nasmyth é semelhante ao Coudé mas enquanto


este se aplica a telescópios em montagens equatoriais, o
Nasmyth é utilizado em montagens altazimutais – há um
espelho plano a menos, pelo que f/15 é típico.

A vantagem do foco Nasmyth em


relação ao Cassegrain (VLT).

52
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D) Gregory
O foco de Gregory (1663) é quase exclusivo de telescópios
solares, uma vez que o intenso calor se concentra no foco
“verdadeiro”, fora do plano onde se faz a projecção, de facto
(assim, gera-se uma imagem solar “intermédia” que absorve
o calor intenso). É um tipo de foco que requer apenas um
telescópio curto e uma abertura modesta. Usa um espelho
secundário elipsoidal e tem uma óptica semelhante a um
kepleriano desfocado.

E) Ritchey-Chrétien

Muito semelhante à ideia original de Mersenne, o foco Ritchey-Chrétien (1910-1922) usa para espelho
principal um hiperbolóide com uma excentricidade muito próxima da parábola de Mersenne (e ~ 1).
Como num Cassegrain, o secundário é hiperbolóide. Estes telescópios conseguem estar isentos das
aberrações esférica e comática. Ainda, têm um campo maior que um Cassegrain. A desvantagem é a
dificuldade em fazê-los e o consequente alto preço que atingem.

2.1.2 O telescópio de grande campo (wide field)

Na sua forma mais básica (sem correcção da aberração


esférica), um telescópio de grande campo usa um primário
53
esférico. Não tem qualquer outra aberração.
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A) Bouwers
A correcção do telescópio de grande campo (de espelho esférico)
foi feita pela primeira vez por Bouwers que, ao introduzir uma lente
correctora, preferiu a aberração cromática à esférica. O telescópio
concêntrico de Bouwers é, assim, totalmente simétrico e tem um
campo potencial de 180º (a menos de “vignetting” causado pelo
“stop”). Este tipo de telescópio só tem utilidade para fotometria de
banda estreita (precisamente devido à cromaticidade).
B) Schmidt
Schmidt (1931) utilizou uma versão acromática do telescópio de
Bouwers, adicionando um corrector asférico de difícil construção
(porque elimina duas aberrações: a esférica e a cromática). Além
disso esse corrector (lente) garante um enorme campo de visão (e.g.
6.5º × 6.5º para o do [Link] que fez a POSS).

Perfis teóricos da lente


correctora de Schmidt.
54
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Há duas adaptações de telescópios Schmidt, conforme o foco:


Schmidt-Newton e Schmidt-Cassegrain. Quanto aos primeiros,
utilizam um espelho esférico para secundário. Os segundos
mantêm-no hiperbolóide – infelizmente isto leva a limitar a sua
utilização para D<1m (sob pena da aberração cromática se tornar
incorrigível). Nos primeiros o f/número é mais baixo do que nos
Num Schmidt-Newton, a distância focal
segundos. Ambos são telescópios catadióptricos: o foco atinge-se do primário (esférico) é dada por R/2
deslocando o primário (efectivamente alterando fl e o f/número); a com R o raio de curvatura.
grande vantagem é um foco com boa margem de manobra, ideal
para encontrar o foco de CCDs.

C) Maksutov
Um Schmidt-Cassegrain.

Em 1944, Maksutov recuperou a simplicidade do telescópio


de Bouwers e utilizou um menisco corrector (ar ~ 10). Este é
d r1
muito mais fácil e barato de fazer do que o corrector de
r2
Schmidt e ainda permite um tubo com ~1/3 do comprimento
do deste tipo de telescópios.

Temos para a distância focal do menisco (n é o índice de O menisco é mais bojudo no centro
(onde a espessura é d=r2-r1).
55
refracção):
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flmen = nr1r2 / [(n – 1)d]


A garantia de acromaticidade é dada por (d é variável, claro):

dflmen / dn = 0

Uma alternativa óptica foi proposta ainda pelo próprio Bouwers,


recorrendo a um espelho concêntrico (portanto, sem qualquer
diferença de espessura) mas feito de materiais vítreos diferentes
(e.g. BK3 e BK10, com uma pequeníssima diferença em índice
de refracção). Esta é uma solução mais cara, mas não tanto
como a de Schmidt.

Como para o telescópio Schmidt, também há uma versão


catadrióptica do telescópio Maksutov: o Maksutov-Cassegrain.
Este até se deveria chamar Bouwers-Cassegrain. É um
telescópio caro (embora quase exclusivo da Astronomia
amadora). Tem um tubo extremamente curto. O lado convexo do
menisco é aluminizado, servindo de espelho secundário.

56
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D) Três/quatro espelhos
Versões mais exóticas de telescópios, com recurso
a um espelho terciário (e mais) existem, embora
poucas versões práticas tenham sido construídas.
Baseado em ideias de Mersenne, Korsch (1972)
inventou dois tipos, com espelhos hiperbolóides
(todos) de e ~ 1 (garante estigmatismo).

Mais recentemente, Willstrop (1984) construiu um telescópio Mersenne-Schmidt e


Korsh (1986) o duplo-Cassegrain.

Um telescópio Mersenne-Schmidt.

O duplo-Cassegrain. Com uma


reflectividade >90% (prata), este
57
pode ser o modelo do futuro.
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2.1.3 Telescópios descentrados (Schiefspiegler)


O Schiefspiegler (≡ espelho oblíquo) é um tipo de telescópio bem mais
complexo (teoricamente) pois faz surgir termos de aberração de ordens
superiores.

Os primeiros telescópios descentrados foram construídos por Herschel


(“front view”). Kutter (1953, 1964) criou as versões modernas (com um
espelho esférico) e deu-lhes o nome alemão.
Muitos Schiefspiegler têm por espelho principal secções de
parabolóides, hiperbolóides ou esferas.
Aberrações: I) coma + astigmatismo;
Um bom exemplo é o rádio telescópio de Green Bank (GBT).
II) coma; III) astigmatismo.

O GBT é descentrado graças à sua


geometria: é uma secção de um
parabolóide bem maior.
58
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2.1.4 O círculo meridiano


O problema dos telescópios em montagens convencionais (equatoriais ou altazimutais – Cap.4) é a de
terem sempre de ser movimentados por um motor (no mínimo). Este facto, inevitavelmente, traz erros
que, infelizmente, são grandes o suficiente para não darem a possibilidade de medir a posição de
objectos celestes com muita precisão.

De forma a manter uma excelente capacidade astrométrica (que também permite medir a latitude e a
longitude do lugar), usam-se “Círculos Meridianos de Trânsito” que consistem em telescópios bem fixos
a um sólido eixo EW, deslocando-se apenas em altura (sobre o meridiano e vertical do lugar, no ponto
de “trânsito” dos objectos (a sul), onde têm altura máxima). Um sistema reticular no plano focal permite
a cronometragem exacta do trânsito de objectos astronómicos.

59
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O Meridiano de Greenwich (que dá o zero em longitude) foi definido de


forma (quasi-)arbitrária, devido à existência do “Círculo de Trânsito de Airy”
no Royal Observatory (em Greenwich Park, sul de Londres).

Há rádio telescópios que funcionam como círculos meridianos. Por


exemplo o MOST (Austrália) e o de Bologna: o eixo EW é fixo; olham para
o céu deslocando-se apenas em altura.

O Carlsberg Automatic Meridian


Circle (em La Palma) é um
importante instrumento astrométrico.

60
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2.1.5 O telescópio solar


Se o “seeing” é mau durante a noite, imagine-se durante o dia… Assim, o local onde se coloca um
telescópio solar deve ser estudado com muito cuidado. É típico escolhê-lo entre arvoredo, já que este
ajuda a estabilizar o ar em torno do observatório.

Um telescópio solar profissional consiste numa torre (20-50m de altura) com um espelho no topo que
segue o Sol (é motorizado) e reflecte a radiação deste por um longo tubo (isolado de turbulências) até
ao “laboratório solar”, no fundo de um poço. Aqui, está um espelho (usualmente côncavo, se for o
principal) num foco Gregory que, por sua vez, envia a imagem do Sol para um sistema óptico (que pode
ter outros espelhos e lentes) antes da sua projecção para análise e aquisição de exposições.
Alguns exemplos de telescópios solares encontram-se no [Link] (Califórnia), Novo México, Kitt
Peak e nas Canárias.

O telescópio solar McMath-Pierce


no Kitt Peak (o tubo inclinado é um
eixo polar; o espelho principal tem
fl ~ 82m).

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O telescópio solar THEMIS em


Tenerife (~2400m); fl ~15m.

O telescópio solar sueco


(adaptativo) em La Palma
(~2400m); D~1m (lente). 62
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2.2 Infra-vermelho
2.2.1 Na Terra
O grande problema das observações no IV é a constante existência de um ruído térmico de fundo, que
afecta as observações. O próprio telescópio, o observatório e a superfície da Terra em seu torno
emitem muito forte nos ~10m (pico da curva de Corpo Negro para T~300 K), de uma forma muito
irregular (espacio-temporalmente). Esta emissão é tão forte como ~10 6 vezes a emissão das mais
brilhantes fontes de IV do Universo.

A forma de remover o constante “ruído” é observar a fonte e um campo vazio (para subtracção deste
último), usualmente a menos de 1’. No caso do IV, deve haver uma rápida alternância entre estas
exposições, de tal forma que todos os telescópios IV possuem um espelho especial no plano focal (ou
o espelho secundário, se existente, pode fazer a função deste): oscila a ~10-100 Hz.

Além disso, todo o sistema é arrefecido criogenicamente, de forma a diminuir ao máximo o ruído.

Como mesmo em montanhas altas não se conseguem “janelas” para observar o IV longínquo (>25m),
usam-se ou observatórios no espaço ou aviões (Kuiper Airborne Observatory – KAO; Stratospheric
Observatory For Infrared Astronomy - SOFIA) de forma a fazê-lo.

Um dos mais emblemáticos telescópios de IV à superfície da Terra é o UKIRT (United Kingdom Infra-
Red Telescope), no Hawaii.
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O UKIRT tem 3.8m de diâmetro e


encontra-se no Hawaii (~4200m).

O KAO tinha 0.9m de diâmetro e foi


utilizado a ~14km de altitude até 1995.

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O SOFIA tem 2.5m de diâmetro e iniciará testes no final de 2008 para começar a ciência em 2009.

2.2.2 No espaço

O primeiro sério telescópio espacial de IV foi o IRAS. Este tinha os seus detectores arrefecidos com
hélio líquido (T~4K) e, assim, bateu recordes em sensibilidade: o ruído de fundo era ~10 12 menos do
que nos telescópios à superfície da Terra. Em menos de um ano revolucionou a Astronomia do IV
médio e longínquo (12, 24, 60 e 100m), com ~106 fontes catalogadas.

O telescópio IV espacial mais recente é o Sptizer.

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2.3 Rádio e sub-mm


2.3.1 Geral
Embora a antena típica de um rádio telescópio tenha uma forma parabólica (um pouco à imagem dos
telescópios ópticos reflectores), a primeira diferença importante é que muitas não são “cheias”: podem ter
“buracos”, dependendo do comprimento de onda da observação.

A segunda diferença, muito importante, é que os rádio telescópios devem estar “protegidos” da emissão
ruidosa da superfície da Terra (que também afecta o rádio, à semelhança do IV). Assim, a própria
antena serve de “escudo” mas, para tal, o f/número deve ser ~1 ou mesmo <1 (portanto, com a
distância focal inferior ao diâmetro da antena). A consequência é uma significativa aberração comática,
facilmente corrigível nos dados.

Quanto à colocação da “feed” (waveguide), esta ou é colocada no foco


principal ou num foco “tipo” Cassegrain (f/número < 1). Menos comum, mas
com a sua utilização a aumentar rapidamente, é a utilização de um foco
Cassegrain genuíno.

O rádio telescópio de Cambridge,


66
com f/<1 e D=32m.
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2.3.2 Telescópios (sub)milimétricos


Um relevante exemplo de rádio telescópio para a Astronomia do mm é o do
IRAM (Instituto de Rádio Astronomia Milimétrica) em Pico Veleta, Espanha:
um disco de fibra de carbono de 30m de diâmetro (rms ~ 0.1mm).
Mas o maior do mundo, no momento, é o mais recente (inaugurado em
Novembro de 2006) LMT (Large Millimeter Telescope), no México
(localizado a ~4600m de altitude).

O rádio telescópio milimétrico


do IRAM, com D=30m.

O maior rádio telescópio


milimétrico do mundo: o
LMT com D=50m.
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Quanto ao sub-mm, um primeiro exemplo é o APEX (Atacama


Pathfinder EXperiment), colocado no Chile (deserto de Atacama) e
que vai funcionar como “preparatório” para o ALMA (Atacama
Large Millimeter Array)…
O telescópio sub-milimétrico
APEX, com D=12m.

…que está num bom progresso, com as primeiras duas antenas-


protótipo tendo já realizado a primeira observação interferométrica
(Mar 2007) e várias já testadas. Três antenas de 12m já estão no
local do ALMA em testes.

Uma antena-protótipo
do ALMA (D=12m) em
Socorro (Novo México).

O ALMA (conceptual). Ficará


a ~5000m de altitude e será
inaugurado em 2012. Terá 54
antenas de 12m e 12 de 7m. 68
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Falemos, também, do JCMT (James Clerk Maxwell Telescope) que é um


dos expoentes da Astronomia do sub-mm mundial. Está localizado no
Hawaii.

O rádio telescópio
submilimétrico JCMT, D=15m.

Finalmente, um “clássico” já defunto, o SEST (Swedish-ESO


Submillimeter Telescope), que operou no Chile (La Silla) desde 1987
até recentemente. Em certo sentido era a “contra-parte” do JCMT no
hemisfério sul.

O rádio telescópio
submilimétrico SEST, D=15m.
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2.4 Altas energias


A separação entre raios X e raios é feita, convencionalmente, no valor energético da massa em repouso do
electrão (~0.5 MeV;  ~ 2pm). A ideia é que o par electrão-positrão se aniquile emitindo dois raios  (e não
X).
Quanto aos raios X, há uma separação entre “soft” e “hard” em 1 keV ( ~ 1nm).

2.4.1 Raios X
Até aos anos 70 a Astronomia de raios X foi explorada apenas por foguetes. Conseguiu-se, até aí, a
construção de um catálogo de 30 fontes.
O satélite Uhuru, operando em 2-20 keV, fez a primeira “survey” do céu (161 fontes).
Após mais alguns satélites europeus e americanos, o primeiro telescópio de raios X seguiu no
Einstein, lançado em 1978 (área efectiva ~50 a ~300 cm 2 correspondendo de E~3.5keV a E~2 keV).
Claro que o que passou à história como revolucionário nesta banda foi o ROSAT.

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Utilizando exclusivamente o limite de Rayleigh, parece que basta um telescópio de alguns mm a


alguns cm de diâmetro para obter resoluções de ~1” nos raios X/.

O primeiro problema, no entanto, surge na excessiva perfeição de um eventual espelho reflector: teria
de ter a superfície perfeita a menos de 1 Å! O segundo problema surge no facto de fotões tão
energéticos passarem “a direito” por um espelho convencional, só sendo “convencidos” a convergir num
foco se o ângulo de incidência/reflexão for pequeno (o que se consegue com uma óptica especial). Em
termos de refracção, não há nenhum material que consiga convergir num foco o grosso dos fotões em
raios X.
A primeira solução encontrada foi a colocação de um colimador
mecânico em frente ao foco do detector (que pode ser um contador
proporcional, por ex.). Aquele vai restringir os ângulos de incidência
dos fotões, passando a ser conhecida, então, a direcção do céu de
onde os fotões são originários.

A resolução aumenta com a utilização da reflexão em superfícies


metalizadas (incidência ≤1-10º) – desde os anos 50/60 que se utiliza
esta técnica. Uma das superfícies é um hiperbolóide, de forma a
manter um campo razoavelmente grande (~arcmin).

A área efectiva, no entanto, é diminuta. A forma de a aumentar


substancialmente é com a colocação de vários espelhos, de forma “paralela”.
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O telescópio de Wolter. H é uma superfície de


revolução hiperbolóide; P é uma superfície de
revolução parabolóide. Existem várias células
D concêntricas que aumentam a superfície colectora.
fl

Uma das soluções revolucionárias a ser pensada para o XEUS (X-ray


Evolving Universe Spectrometer) é a utilização de uma lente compacta e
leve, feita de material vítreo (com bismuto dominante) que atingirá
rms~10Å e terá uma resolução de alguns arcseg.

A revolucionária lente (protótipo) a utilizar


(possivelmente) pelo XEUS funcionará, de
facto, como uma convencional biconvexa.
Neste exemplo, o par tem D=6cm, f l=5m,
e=2×5mm. Ambas têm uma superfície
esférica, com raios de curvatura de 6.7m e
20m.

Ao microscópio, cada lente mostra a sua


constituição: fibras quadradas (ocas) de
10×10m2 em grupos de 55×55. O espaço 72
entre estes conjuntos será cheio de vidro.
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2.4.2 Raios 
Mais lenta a reagir, a Astronomia dos raios  teve como primeiros
satélites o SAS-II e COS-B nos anos 70 que eram, essencialmente,
camâras de bolhas (como em Física de Partículas).

Revolucionário foi o CGRO (lançado em 1991).

Um esboço do COS-B: os cintiladores


(detectores – PMT, fotomultiplicadores)
estão à volta da campânula e, ainda, na
zona B1, C, B2, E, D.

A revolucionária resolução do CGRO


(“Gamma Ray Observatory”).

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Só recentemente, com o Integral (já no espaço) e o Gamma-Ray Large Area Space Telescope
(GLAST), a lançar em Maio de 2008, se fez um avanço significativo. No caso do GLAST, já nos
aproximamos bem da ideia de um telescópio convencional.

O GLAST terá uma área efectiva de 9500 cm2 e observará na gama 0.020-300 GeV.

O GLAST tem quase o aspecto de um telescópio


convencional: “tubo” em cima (tracker – muitas folhas
de tungsténio) e “detector” (calorímetro) em baixo. Um
raio gama incidente gera um par positrão-electrão. As
folhas do tubo contêm detectores de silício que
identificam o percurso das partículas geradas.

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3 – DETECTORES
O primeiro detector astronómico foi, claro, o olho humano. E foi o único
disponível até bem “recentemente” (1840). Foi, entretanto, substituído
por uma imensa variedade de detectores (no óptico) que têm
equivalentes nas outras gamas do espectro electromagnético.
Um olho direito visto de cima. Temos
Os problemas principais do olho humano são a baixa sensibilidade
D=2-8mm (íris) e fl  2.5cm – mas
(apesar da gama dinâmica de 1:1010, 100 vezes melhor que as das
pode variar (músculos).
células sensíveis à cor), resolução ( ~ 1’ ) e estreita gama espectral:
as células sensíveis às cores têm 10m de separação e cobrem apenas
0.40-0.65m (três cores:pico ~ 430nm(B), 530nm(G), 560nm(R)). De
facto, o céu já foi explorado até à exaustão com o olho humano (nú) até
ao tempo dos gregos e via telescópio desde Galileo (1609).
Um outro problema óbvio que o olho tem, comparado com os outros detectores, é a incapacidade de
integração ao longo do tempo (o olho não faz exposições longas…). Assim, é muito limitado em relação
aos objectos que consegue detectar.

Mas os detectores têm, além dos limites próprios, limites externos como o brilho do céu nocturno
(magnitude limite – Secção 3.5) que não deixam ver objectos abaixo de determinado valor de brilho
superficial, por melhor que seja o detector.
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O design do detector e do analisador (o elemento que, de facto, mede o fluxo incidente) é, hoje em dia,
tão importante como o do próprio telescópio. Um detector tem dois modos de operação:
i) Modo imagem: a óptica do telescópio e detector devem estar perfeitamente alinhadas de forma
a obter imagens que, dentro do campo de visão do conjunto, estão perfeitamente focadas e não
apresentam aberrações.

ii) Modo fotométrico: neste modo determinam-se com o máximo de exactidão possível os brilhos
(aparentes) dos objectos observados.

Formalmente, a detecção é fotónica até  ~ 0.2mm (no sub-mm). A partir daqui o que se mede é o
campo eléctrico da onda incidente (e não se faz a “contagem” de fotões como acontece para bandas
mais energéticas).

A máquina fotográfica (1840) foi o primeiro detector (e no óptico) a substituir o olho humano. A preto-e-
branco, continua a ser o tipo de detector mais simples. Permitiu, pela primeira vez:

i) Registar imagens de uma forma não-ambígua. Deixou de ser fundamental confiar totalmente
nos astrónomos e nos desenhos que faziam (havia “provas” mais directas).
ii) Integrar imagens ao longo do tempo, detectando objectos muito mais fracos do que os
visíveis a olho nú.

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O grande problema da máquina fotográfica, que a levou a ser destronada pela CCD, é a sua incrível
ineficiência (só 0.1% dos fotões incidentes tornam um “grão” da emulsão escuro; só ao fim de 50 grãos
é que se forma uma imagem (ponto) detectável na chapa fotográfica – mínimo de 5 × 104 fotões para
formar uma imagem). Por comparação, o olho humano tem uma eficiência de 1%...

Nas últimas décadas, emulsões fotográficas especiais (“hypersensitized”) conseguiram atingir os 10%
de eficiência, nos limites do que é possível fazer com fotografia. A técnica envolve o aquecimento da
emulsão e a exposição da mesma a vários gases – a ideia é criar mais “buracos” na emulsão
disponíveis a acolherem fotões.

3.1 A máquina fotográfica


A grande vantagem da fotografia (sem igual até recentemente) é a sua capacidade de tirar imagens de
grandes campos (e.g. 6º × 6º num Schmidt) – as chapas podem chegar aos 50cm de lado
(correspondendo a ~1010 “pixeis”)! Outra vantagem é a de, intrinsecamente, ter melhor resolução que a
maioria das CCDs (tamanho do grão vs. tamanho do pixel).
As exposições fotográficas podem ser não guiadas (sem motor), o que implica que em longas
exposições aparecem os traços curvos de estrelas. Para muitos objectos bastam curtas exposições.
A exposição típica, no entanto, é guiada (mesmo que manualmente), com a máquina fotográfica
colocada no foco do telescópio ou montada “piggyback” no mesmo (Secção 4.3.2).
Também se fazem fotografias no modo afocal, apontando a máquina directamente à pupila da ocular
77
(as imagens são maiores do que no modo normal).
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3.1.1 A máquina em si
Qual o significado de DSLR e SLR

DSLR é um acrônimo em inglês (uma sigla) que resumidamente significa Digital Single Lens Reflex.

Digital = câmera digital, portanto esta sigla não se aplica às câmeras analógicas (que podem ser
chamadas apenas de SLR).
Single Lens = uma única lente montada ao corpo da câmera. Ela pode ser removida e substituída. A
câmera não tem uma lente separada apenas para o visor, e por isto o fotógrafo vê exatamente a
mesma imagem que vai ser projetada no sensor.
Reflex = a câmera tem um espelho móvel e um pentaprisma ou pentaespelho para refletir a imagem
projetada através da lente para o visor.
Portanto, a diferença é simples entre DSLR e SLR: SLR se aplica geralmente à câmeras analógicas
(de filme), enquanto DSLR é um termo que só pode ser utilizado para câmeras digitais.

O modelo de máquina mais popular é Digital Single


Lens Reflex (DSLR) que permite visualizar o que vai
ser fotografado. A esta podem-se acoplar lentes de
qualquer distância focal. Usualmente 50mm é a que
vem por defeito. Temos as de 16mm ou menos (“fish
eye”), as de 28-35mm (grande campo), as de 200-
600mm (grande ampliação) e as >600mm (as mais
caras).
O corpo de uma máquina DSLR.
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O que é uma câmera DSLR – Componentes internos


DSLR é um tipo de câmera digital, uma classificação recebida por diversas câmeras de muitos fabricantes
diferentes devido ao arranjo interno de seus elementos, como demonstrado na figura esquemática a seguir:

Onde:

1 – Diafragma

2 – Espelho

3 – Obturador

4 – Filtro de passagem baixa

5 – Sensor

6 – Despolido (tela despolida)

7 – Pentaprisma ou pentaespelho

8 – Visor analógico

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*Câmeras DSLR mais baratas costumam ter um pentaespelho e as mais caras costumam ser servidas
com um pentaprisma.

O despolido (item 6 da lista anterior) é uma peça fundamental para o funcionamento da câmera, e
apesar disso é desconhecido por muitos fotógrafos. A tela despolida, como também é conhecido, é
aonde a imagem que entra pela lente é focada enquanto o espelho está abaixado. Quando olha pelo
visor, o fotógrafo vê o reflexo desta imagem.

Uma das características mais relevantes das câmeras DSLR e SLR é permitir a troca de lentes. Por
causa disto, estas câmeras adequam-se melhor às necessidades pontuais do fotógrafo, tornando
possível a adaptação do mesmo corpo de câmera para fins distintos – como macrofotografia com lentes
de macro, ou fotografia de esportes com telefotos por exemplo.

É importante ressaltar que o encaixe das lentes nos corpos das câmeras DSLR e SLR é por meio de
interface específica de cada fabricante. Assim, por exemplo, fica impossível (sem um adaptador) utilizar
uma lente da Canon em uma câmera Nikon e vice-versa.
Apesar de câmeras mirrorless também permitirem a troca de lentes, elas não são chamadas de DSLR
por não possuírem o espelho interno. Além disso, a maioria das mirrorless não possui outros elementos
que todas as DSLR e SLR têm, como visor analógico e pentaprisma/pentaespelho.

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Como funciona uma DSLR passo a passo

Podemos dizer que câmeras DSLR têm três modos de operação distintos:

Antes de fotografar, enquanto o fotógrafo olha pelo visor;


Durante a fotografia, logo após o fotógrafo clicar o botão disparador;
Filmagem ou visualização através do visor digital.
Vamos tratar cada modo de operação separadamente, para facilitar o entendimento.

1 – Antes de fotografar

Enquanto o fotógrafo olha pelo visor e ajusta a composição da sua fotografia, a imagem visualizada é aquela
que passa por dentro da lente, reflete no espelho e no pentaprisma ou pentaespelho.

Neste momento, o espelho permanece abaixado e a fotometria ocorre no fotômetro existente dentro do corpo
da câmera.

Veja imagem ilustrativa a seguir:

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2 – Durante a fotografia

A animação abaixo demonstra, de forma resumida, como uma câmera Digital Single Lens Reflex (DSLR)
funciona quando uma fotografia é tirada.

A grande maioria das DSLR passa por todos os passos do processo descrito a seguir, desde que o botão
disparador é clicado até a imagem ser salva no cartão de memória. Tenha em mente que cada câmera reage
de uma forma e em seu próprio tempo, e possivelmente com uma sequência ligeiramente diferente.
A – O botão disparador é clicado;
B – A câmera faz a fotometria e ajusta alguns ou todos os parâmetros
existentes no triângulo de exposição (nos modos automático e
semiautomáticos apenas);
C – O espelho é levantado, deixando a luz passar para o obturador;
D – O diafragma da lente se fecha até alcançar a configuração de f/stop
definida pelo fotógrafo (ou pela própria câmera nos modos automático e
semiautomáticos);
E* – A cortina do obturador se abre, deixando a luz passar para o sensor;
F* – O sensor começa a captar luz e transformá-la em sinal analógico (eV);
G – O sinal analógico passa por uma conversão digital, para que a imagem
seja processada. Os pequenos volts se transformam em strings de dados
(1010100110001…);
H – A câmera detecta as cores e compara com 12 ou 18% cinza
(dependendo do modelo) e calcula o balanço de branco (quando está
configurada em modo de balanço de branco automático) e aplica na imagem;
I – A câmera faz correções de vinheta, redução de ruído e de aberrações
cromáticas (depende do modelo e configurações);
J – A fotografia é salva na memória interna da câmera (buffer ou flash), junto
com todas as suas informações de metadados e processamento aplicados a
ela;
K – A imagem é comprimida e salva em JPEG, Tiff ou RAW (ou qualquer
outro formato ou conjunto de formatos configurados na câmera);
L – A imagem é copiada para o cartão de memória, onde fica registrada e 82
acessível para transferência externa.
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3 – Durante filmagem ou visualização através do visor digital

Neste modo de operação, o sensor fica constantemente exposto à luz vinda de fora, que passa através da
lente. O diafragma é mantido na posição configurada, o espelho é retido levantado e a cortina do obturador
aberta.

E é por isso que, quando a câmera está operando desta forma, nenhuma luz vem da lente para o visor. O
espelho fica levantado e além de não refletir a luz que entra pela lente, ainda funciona como barreira da luz
que incide pelo visor e reflete no pentaprisma.

Uma SLR manual permite controlar: i) o tempo de


exposição (“inversos” em segundos no botão embaixo
à direita: B é “bolbo” – enquanto se mantiver carregado
o diafragma está aberto); ii) o f/número – abertura
(disco prateado); iii) a distância a que foca (disco
escuro

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Tamanhos de sensores

Outra possível classificação de câmeras DSLR é de


acordo com o tamanho de seus sensores. Enquanto
corpos de câmeras DSLR profissionais tendem a ter
sensores maiores (tamanho full frame ou de formato
médio), as DSLR de entrada e semiprofissionais têm
sensores de tamanhos menores, o que reduz seu custo
de produção e por isto o preço final de compra fica
mais competitivo.
A figura ao lado ilustra os tamanhos de sensores em
câmeras DSLR.

3.1.2 A emulsão fotográfica (efeito fotoquímico)


Não é simples nem é ainda totalmente compreendida a explicação química da formação de uma
imagem fotográfica numa emulsão. Esta consiste num composto com prata (e.g. AgBr ou AgCl) na
forma de grãos (tamanho ~m). O limite de detectabilidade deste está em  < 0.8m (mais sensíveis ao
azul), embora se possa atingir o IV e raios X graças a aditivos.

Os grãos organizam-se (separadamente) sobre um substracto


gelatinoso. Na Astronomia (e nos primórdios da fotografia) é
comum colocar o conjunto sobre um placa de vidro: a chapa
fotográfica.
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Fotões incidentes num grão excitam electrões que se deslocam até encontrar algum ião de prata,
formando prata neutra (usualmente, só 1 em 1000 é que encontra um ião), que escurece a emulsão. É a
prata que forma a imagem, após a utilização de um redutor.

O redutor inunda a emulsão com electrões, removendo os átomos de Br (ou Cl) que passam a
brometos (cloretos) solúveis em água e funciona mais rapidamente para os grãos já catalizados pela
luz. Também os restantes iões de prata passam a prata neutra. Assim, deve-se parar o processo a
determinado ponto, senão em vez de imagem (zonas branco-escuras) temos tudo escuro outra vez…

Para tal, usa-se uma solução levemente ácida (acética) assim que se vê formar a imagem (negativo –
zonas escuras são as que encontraram fotões com sucesso), parando o processo quando pH=6.8 (deita-
se fora toda a solução).

Finalmente, mergulha-se a emulsão num fixador (e.g. tiosulfato de sódio) que dissolve os restantes cristais
de AgBr (ou AgCl). Conclui-se com uma cuidada lavagem em água, de forma a retirar todos os solúveis.

Na prática este processo (revelação) amplifica os efeitos de um único átomo neutro de prata em 10 9, o que
quer dizer que é, de facto, uma “núvem” de átomos de prata que traduz a incidência de um único fotão e
que corresponde a um “pixel” – resolução. O grão da chapa fotográfica surge devido à formação de
núvens de átomos neutros sem a intervenção de fotões.

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A fotografia não tem uma resposta linear aos fotões incidentes (desvantagem). Temos:

d  log E = log (It) = log (Fin / Fout)


onde d é a densidade da imagem e E o “valor” da exposição (opacidade) que tem duas definições: uma
como o produto de I (energia incidente por unidade de área) por t (tempo de exposição); outra como a
razão do fluxo incidente (Fin) para o emergente (Fout), que é o inverso da transmissão.

A densidade é especialmente importante na utilização de máquinas para Automatic Plate Measurement


(APM). Estas recorrem a medições da densidade para, em tempo recorde, digitalizar toda a chapa.

O facto da fotografia ser não-linear implica que o tamanho das estrelas numa dada exposição não é
proporcional ao seu brilho (também dependendo da exposição) – a dita Lei da Reciprocidade é violada.

A curva característica de uma emulsão fotográfica. A


zona de linearidade é pequena (uma ordem de
grandeza apenas!) – exposição correcta – e
caracterizada por um declive  (≡ ISO). Note-se que a
densidade nunca é zero, implicando um “nevoeiro” de
fundo (de valor d=T).
O “golpe de misericórdia” na fotografia foi a lentidão com
que se obtinham resultados fotométricos a partir das
mesmas (recorrendo a micrometria unidimensional).
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3.2 Detectores fotoeléctricos


3.2.1 Princípios

Nos anos 20, mais de 40 anos depois da descoberta do efeito fotoeléctrico por Hertz, os primeiros
detectores fotoeléctricos foram experimentados na Astronomia. Mas só nos anos 50 a célula
fotoeléctrica ganhou implantação como detector. Para um fotão incidente de energia E  temos:

E= Ee-ligado + Ee-livre

Para um fotão ser detectado temos de ter E> Ee-ligado. A energia Ee-livre é proporcional, então, à energia
do fotão. Na prática, a célula fotoeléctrica tem uma superfície (foto-cátodo) com uma d.d.p. para um
ânodo, gerando uma corrente eléctrica constante. Cada fotão incidente vai aumentar essa corrente (ao
contribuir com mais um electrão) de forma linearmente proporcional à sua energia. Em metais,
Ee-ligado  1 eV pelo que a detecção por efeito fotoeléctrico se pode fazer no IV, no visível, no UV e nos
raios X.

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Usualmente prefere-se um semi-condutor para foto-cátodo (em vez de um metal) pois:

i) absorve o grosso dos fotões incidentes (em vez de os reflectir);


ii) tem poucos electrões térmicos livres e, assim, o efeito fotoeléctrico é mais desobstruído (há
bem mais fotoelectrões);
iii) a gama de energias envolvidas é menor: soltam-se electrões mais facilmente.

Utilizando um semi-condutor, teremos de acrescentar a “barreira de energia” Eb característica destes,


antes de o electrão ficar livre:

E= Ee-ligado + Eb + Ee-livre


As principais vantagens de um detector fotoeléctrico em relação à chapa fotográfica são:

i) Gama dinâmica mais larga: há muitos mais electrões numa célula fotoeléctrica do que grãos
numa chapa fotográfica. Assim, aquela custa mais a saturar e tem um comportamento mais linear
e mais preciso (contagem é quase fotão a fotão) do que esta. Conseguimos, assim, medir com
grande precisão o brilho de estrelas (m  0.01 mag, tipicamente).

ii) Eficiência quântica: Esta quantidade mede a razão de foto-electrões produzidos para a de
fotões incidentes (números médios). Dependendo do tipo de detector fotoeléctrico, a eficiência
está em 20-90%. No caso da fotografia a mesma é 0.1-10%.

88
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3.2.2 O foto-cátodo semicondutor


O foto-cátodo tem sido composto por vários materiais semi-condutores ao longo dos anos. Estes
existem em dois tipos principais: fotoemissores e fotocondutores. Os últimos detectam fotões devido a
um aumento de corrente no próprio material e usualmente devem ser bem arrefecidos (T ~ 4K, com
hélio líquido). Abaixo de ~200Å nenhum tem eficiência significativa.
Semicondutor Nome ("informal")  < limite (Å) Tipo Eficiência

Cs3Sb "antimoneto de césio" 6000 fotoemissor ~20%

(Cs)Na2KSb "antimoneto de
9000 fotoemissor ~20%
sódio/potássio cesiado"
PbS "sulfeto de chumbo" 2 ×104 fotocondutor <80%
InSb "antimoneto de índico" 6 ×104 fotocondutor <80%
Si silício 1 ×104 fotocondutor ~70%
~100 M
Essencialmente, CCDs no IV (Secção 3.3) utilizam o material dos
fotocondutores listado na tabela acima.

Como exemplo de funcionamento de fotocondutores ilustra-se o 10-100 G

caso do InSb. Quando no circuito ao lado não incide qualquer


fotão (em módulos):
ID= VP/ RD; VS= RFID
Com a incidência de N fotões/s (fluxo): O funcionamento do fotocondutor
InSb (eficiência quântica ). O circuito
89
ID= eN; VS= – RFeN permite detectar o fotão incidente
como uma d.d.p extra em V S.
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3.2.3 O tubo foto-multiplicador


Em certo sentido, a espantosa sensibilidade do detector fotoeléctrico (em que se detectam, quando
muito, uns “poucos” fotões por deslocamento de uns “poucos” electrões) coloca problemas de ordem
técnica na capacidade de detecção das fontes astronómicas mais fracas. Por comparação, o olho
humano (D pequeno; mlim~ 6 mag) detecta fontes que debitem, no mínimo, ~200 fotões/s. Ora, temos:

~100 e-/s ~ 2 × 10-17 C/s ~10-17 A


Assim, um elemento fundamental de um detector fotoeléctrico é o tubo foto-multiplicador (desenvolvido
nos anos 40-50). Este consegue amplificar o efeito de cada fotão incidente numa “explosão” de
electrões. Na prática, a relação de linearidade mantém-se.

O tubo foto-multiplicador típico. Após o embate de fotões


no fotocátodo os elementos principais são dínodos que
aceleram, entre cada conjunto, os electrões de forma a
fotões

que cada um emita uma cascata deles quando chega ao


dínodo seguinte. No final, no ânodo, regista-se uma
“explosão” electrónica que aparece na forma de um pulso.
-800 V
-1000 V -900 V 0V

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Dois outros tipos de foto-multiplicador

O objectivo é ter um ganho, por fotão, de 10 6–109


vezes em relação à resposta “normal” do material. É
que correntes de 10-11–10-8 A já são detectáveis em
circuitos electrónicos. Tipicamente são, depois,
ainda mais amplificadas no circuito interno do
detector.
Este ganho pode-se calcular a partir do número de
electrões (yi) que saem em cascata por cada um
incidente, em cada dínodo, num total de n:

G = y1y2y3…yn
É comum os dínodos serem semelhantes (mesmo valor y = yi para todos) pelo que fica:
G = yn
Uma importante fonte de erro que surge devido ao tubo foto-multiplicador é quando, esporadicamente, um
electrão é emitido deste termicamente (da região do fotocátodo). Vai também ser amplificado, apesar de
não ter surgido à custa de um fotão. A corrente correspondente pode ser 10 9–1010 vezes maior que a
causada por um fotoelectrão! Este tipo de emissão, inerente a qualquer detector fotoeléctrico, chama-se
“dark current” (corrente fantasma) e pode ser minimizada por arrefecimento do tubo foto-multiplicador.
91
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É claro que a emissão térmica electrónica também acontece nos dínodos, mas a cascata será menos
intensa (e tanto menos quanto mais perto estiver o respectivo dínodo do ânodo), pelo menos num
factor y1. Como a detecção final é feita por pulsos, é fácil ignorar todos aqueles que não correspondem
a um ganho G.

Um outro problema é a heterogeneidade da estrutura do fotocátodo que implica variações em


sensibilidade ao longo do mesmo. Uma forma de corrigir este efeito é fazer uma exposição de uma
fonte de luz uniforme (o céu no crepúsculo ou a cúpula do observatório) – “flat fielding” e dividir todas
as exposições “de imagem” por esta. Esta técnica tem uma espectacular vantagem na espectroscopia:
como, efectivamente, se remove a contribuição do céu nocturno com o “flat”, é possível obter espectros
de fontes muito fracas (como quasares e galáxias).

Historicamente, os foto-multiplicadores não eram muito mais eficientes que a fotografia (ficando-se
pelos < 5% de eficiência) e, assim, o seu uso foi quase exclusivo de eventos muito rápidos,
aproveitando a fantástica reposta temporal (1 ns).

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3.2.4 Produção de imagens (2D)


A) Intensificador de imagem
O tubo foto-multiplicador associado a uma única célula fotoeléctrica tem a enorme desvantagem de ser
essencialmente unidimensional como projectado no céu. Embora tendo revolucionado a precisão de
medição de grandezas aparentes, só o consegue fazer para uma estrela de cada vez.
É possível, com um imenso esforço, construir isofotos para galáxias e outros objectos estendidos.
Esta foi a razão principal para a fotografia se
ter mantido competitiva até se encontrar uma
forma de produzir imagens (2D) directamente
à custa de células fotoeléctricas.

A primeira evolução do tubo foto-


multiplicador foi feita nos anos 70,
com a introdução de um intensificador
de imagem (eficiência 20–30%).
Neste, os dínodos são substituídos
por um ecrã de fósforo para onde são
conduzidos os fotoelectrões por fibra
óptica.

93
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A imagem (2D) é preservada como na fotografia. De uma forma semelhante à de um ecrã de TV, campos
magnéticos deflectem os electrões que saem do fotocátodo e, consoante as suas energias
(correspondendo a 1-10000Å), espalham-nos bidimensionalmente no ecrã (a uma d.d.p. <100 kV em
relação ao fotocátodo) reproduzindo a original incidência 2D dos fotões – agora a cascata é de fotões no
ecrã fosforescente.

Para maior sensibilidade podem-se colocar vários

fotões
intensificadores de imagem em série.

Intensificadores de imagem em série: o ganho Cathode:


first stage
global típico é da ordem dos 10 7–108.

B) Detector “televisivo”
Uma alternativa é utilizar um detector televisivo de forma inversa à da TV: uma imagem 2D é lida linha
a linha (1D) por um feixe electrónico e depois a imagem total é reproduzida num ecrã com composição
dependente do design do sistema: Pb3O4 (vidicon), SiO2 (a ~170 K), KCl (a ~ 20ºC).

Existem dois problemas com este tipo de sistema:

i) Fraca resolução (pixeis ~30m), dez vezes pior que a de uma boa chapa fotográfica.

ii) Não-linearidade (o que não permite fotometria).

94
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C) O contador de fotões
Acoplando um intensificador de imagem a um detector televisivo consegue-se contar fotões, no sentido
em que cada fotão que chega implica uma cascata de electrões (pulso) característica. Este contador de
fotões é especialmente adequado para a espectroscopia de objectos fracos.

Um exemplo: o Image Photon Counting


System (IPCS), G ~107, com muitos adeptos

fotões
entre os anos 70 e os anos 90.

Cathode:
first stage

3.2.5 Detectores fotovoltaicos


De princípio muito semelhante ao detector fotoeléctrico, o detector fotovoltaico é especialmente
destinado a observações no IV médio e longínquo ( ~ 2–500 m); recorre a uma d.d.p. através do
mesmo. Usualmente é arrefecido com azoto (T ~ 77 K) ou hélio líquido (T ~ 4 K).

De forma semelhante ao que foi feito na Secção 3.2.2, sumariam-se na Tabela seguinte os principais
materiais usados como detectores fotovoltaicos.

95
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Material Nome ("informal")  (gama; m)

PbS "sulfeto de chumbo" ~2 - 5


InSb "antimoneto de índico" ~2 - 5
Si:Ga silício galiado ~5 - 18
Si:As silício arseniado ~5 - 24
Ge:Ga* germânio galiado ~5 - 12
:impuro com… (impurezas com baixas concentrações: <10-8 )
*É muito usado como bolómetro (Secção 3.6)

3.3 A matriz de células – CCD


3.3.1 Geral
Claro que a forma melhor de obter uma imagem bidimensional a partir de uma célula fotoeléctrica e
respectivo foto-multiplicador é combinando muitas (~10 6) numa matriz bidimensional rectangular ou
quadrada: no fundo um detector multi-canal onde cada célula tem o seu foto-multiplicador.

Tal só foi tecnologicamente factível (em larga escala) nos anos 80 com a construção das primeiras
CCDs (Charge-Coupled Device ou Charge-Coupling Device), embora tivessem sido idealizadas já em
1969 (quando se pensava utilizar os seus “chips” como memórias de computadores)! De facto, a
primeira imagem astronómica produzida com uma CCD (Urano) data de 1975.

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O elemento detector de uma CCD é um fotocondutor: um


único “chip” de silício dividido em muito pixeis (picture
elements), que são também foto-multiplicadores. O “chip” tem
uma área de alguns cm2 e uma espessura de ~0.3mm,
suficiente para que >60% dos fotões sejam absorvidos.

De facto, a eficiência quântica típica de uma CCD é de


~60-80% na gama 0.3-1.0 m, embora seja mais
sensível no vermelho (a eficiência desce para ~10% nos
comprimentos de onda mais curtos). No entanto, para

resolver este problema, basta:

i) tornar o “chip” mais fino;

ii) cobrir o “chip” com outras substâncias.

O comprimento de absorção ( ) é aquele onde 1/e


(63%) dos fotões são absorvidos. Note-se como
este aumenta rapidamente para os comprimentos
de onda mais longos (vermelho).

97
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a)

Usando “chips” finos de


CCD consegue-se uma
melhor eficiência no azul.

b)

Para detectar o UV, por exemplo, usam-se fósforos


orgânicos (e.g. coronene, lumogen) que transformam
esses fotões noutros de maior comprimento de onda,
facilmente detectáveis pela CCD.

a) a melhoria da eficiência quântica de uma CCD para os


comprimentos de onda mais curtos, graças a uma camada de
lumogen sobre o “chip” de silício;
b) para outra CCD, a comparação das melhorias para duas
coberturas, nos comprimentos de onda curtos.
98
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Comparação da eficiência quântica de


vários tipos de detectores no óptico.

Os dois tipos principais de pixeis (células fotoeléctricas) de


CCDs são o np e o MOS (Metal-Oxide-Semiconductor).
Impurezas intencionais no silício dão-lhe um excesso (tipo
n) ou défice (tipo p) de electrões de valência. Ao juntar estes
dois tipos cria-se um díodo de junção tipo np que mantém
afastados “buracos” e electrões (campo eléctrico).

Um fotão incidente desaloja um electrão criando um


“buraco”. Este vai-se “perder” no substrato de silício pelo que
uma corrente eléctrica surge (devida ao electrão).
Uma CCD-MOS.

O pixel de uma CCD funciona como um condensador: coloca-se a


porta metálica (Ee-ligado = 1.10-1.15 eV (T~300–100 K)) a um
potencial positivo, de forma a desviar para o consequente poço de
potencial todos os electrões livres existentes. Serve, também, este
poço de reserva para futuros electrões, produzidos por captura de
um fotão do IV próximo aos raios X (1.2 eV – 10 keV).
99
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O ruído de uma CCD pode ser apenas ~15 e-/pixel. A resposta temporal, no entanto, não é brilhante: ~ms.

A CCD é arrefecida para reduzir ao máximo a “dark current” (com origem em electrões térmicos).

O arrefecimento base é feito de forma termo-eléctrica (T ~ 40ºC) por um “arrefecedor de Peltier”.

Em CCDs profissionais segue-se o arrefecimento criogénico (azoto ou hélio líquido). A desvantagem é o


(ligeiro) aumento da energia de ionização do silício e consequente perda de sensibilidade no vermelho.

O funcionamento do “arrefecedor” de Peltier. Duas placas


metálicas (Bi2Te3) separadas por um semicondutor são o
núcleo do sistema. A extracção de calor recorre, depois,
aos electrões e aos “buracos”.

100
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O exemplo de um “arrefecedor” de Peltier


aplicado a um “chip” (cold plate).

Em CCDs, a “dark current” é gerada principalmente na


fronteira entre o silício e o isolamento (por baixo dos
eléctrodos). A sua intensidade segue a “Lei dos Díodos” (A, B
constantes):
I = A e-B/kT
É, assim, fundamental um bom arrefecimento
(T → 0 => I → 0).

O diagrama de um “arrefecedor” de Peltier


aplicado a um “chip” de CCD.

Os “chips” de CCD vêm em matrizes já padronizadas,


formato 4:3, com dimensões:
1/4” – 3.2mm × 2.4mm
1/3” – 4.8mm × 3.6mm
1/2” – 6.4mm × 4.8mm
2/3” – 8.8mm × 6.6mm
101
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Hoje em dia já se produzem rotineiramente “chips” com 4096 × 4096 pixeis com ~10-20m de lado.
Independentemente da abertura do telescópio onde a mesma está acoplada, é este tamanho físico
dos pixeis que define a resolução das imagens obtidas com a CCD. Os pixeis não se podem fazer
muito mais pequenos, à custa de uma drástica perda de sensibilidade. Mesmo assim, em muitos
“chips”, já se usam microlentes, uma para cada pixel, para aumentar ainda mais a já de si fantástica
sensibilidade de cada um.
Para compensar os pequenos campos-de-visão das CCDs é comum juntarem-se vários “chips” em
mosaicos (usualmente com pixeis grandes ~15m, de forma a maximizar o campo-de-visão). O
mosaico mais básico junta quatro “chips” num quadrado.

Um mosaico básico. O “chip” de CCD fora do


quadrado é usado para autoguiding (apenas).

Alguns mosaicos são verdadeiramente grandes. Ilustram-se


dois exemplos, um utilizado no CFHT e outro na SDSS.

102
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O MegaCam, um mosaico de 40 CCDs 2K×4.5K em utilização no


CFHT 3.6m (desde 2002).
Campo de visão: 1º × 1º. Resolução: 0.185”/pixel (~13.5m/pixel).

O mosaico de 30 CCDs utilizadas para produzir a Sloan Digital Sky


Survey (SDSS), com um telescópio de 2.5m. Notem-se os filtros
sobre cada CCD e a maneira como a survey é feita (fontes passam
segundo o eixo yy sobre os chips). Os pequenos “traços” em cima e
em baixo são CCDs para astrometria (a maioria) e focagem (e.g. 22).

103
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Na prática, é mais comum ter valores de seeing que “valem” alguns pixeis da CCD em projecção angular.
Por isso, de forma a optimizar a sensibilidade, as CCDs permitem operar em modos “binning” em que se
combinam pixeis 2 × 2 (quatro) ou 3 × 3 (nove). A sensibilidade melhora substancialmente (pois o “read
out” por pixel mantém-se) e a resolução não é comprometida (já que o seeing a limita).

No modo 1 × 1 a CCD tem uma gama dinâmica típica de 10 5:1. Isto deve ser comparado com os “míseros”
100:1, valor máximo possível para a fotografia. Claro que o aumento do número de pixeis com o “binning”
melhora a gama dinâmica de forma proporcional.

3.3.2 Detecção, leitura e conversão


A corrente gerada pelos fotoelectrões num pixel de CCD é lida, no conjunto (matriz), linha a linha, na
forma de uma distribuição de carga 1D, Q i(x). A velocidade de leitura (“read out”), é rápida em video-
câmaras (~MHz) mas lenta em CCDs arrefecidas (~kHz).

Q1(x)
Q2(x)
A leitura da matriz de uma CCD é feita linha a linha (de
Q3(x)
forma simultânea): cada uma tem a sua distribuição de
. . . . . . . . . . . . carga Qi(x), lida nos pixeis a azul (não utilizados para
imagem). Desta deduz-se a carga em cada pixel (logo, o
Qn(x) número de electrões; logo, o número de fotões).

104
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A transferência de pixel a pixel num sistema de três fases: “clocking


system” de três portas (~kHz). Perdem-se 0.001% dos electrões em
cada passagem.

Após o “read out”, vai ser lido em sequência (e.g. de Q n(x) para Q1(x)) o “chip” final o que vai permitir
deduzir, após micro-amplificação local com um FET (~0.5-4V/e-), qual a carga em cada pixel.
Passa-se, então, este valor analógico para digital, recorrendo a uma unidade básica (ADU ≡
Analogue-to-Digital Unit) dada pela sensibilidade da CCD: e.g. 1 ADU ~ 10e - (o valor mínimo
possível). 105
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O circuito típico para a geração de


valores em ADUs para cada pixel.

O ruído de “read out” é uma média de:

RADC ≡ A ADC (Analogue-to-Digital Conversion) tem um resultado discreto, com erros


estatísticos (de Poisson); e.g. lendo o mesmo pixel duas vezes temos valores diferentes!

Re ≡ Os electrões do circuito electrónico final trazem ruído ao processo completo de leitura

RT ≡ O “ruído” térmico do amplificador

106
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3.3.3 CCDs de futuro


Entre os muitos tipos de CCDs que existem, destacam-se aqui apenas dois por serem, realmente,
promissores.
Q1(y)
A) OTCCD
·
Nas OTCCD (Ortogonal Transfer CCD), o “read out” é feito
simultaneamente em duas direcções. ·
·
Cada pixel tem agora quatro portas. Estas têm uma forma e ·
uma disposição peculiares. P3 . . . . . . . . . . . .
P2

Q1(x)
P1
P4

As OTCCD têm perdas de fluxo ~3% superiores às CCDs normais. Estas são compensadas por uma
qualidade de imagem superior.

B) STJ
Formalmente, os “Superconducting Tunnel Junction” (STJ) não são CCDs. Incluem-se, muitas vezes,
junto com as CCDs devido à sua base também ser um semi-condutor: nióbio cristalino super-
arrefecido (T<1 K). Os STJs são díodos detectores de fotões. Têm uma eficiência de ~50% dos raios
X ao IV. 107
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3.3.4 Propriedades típicas


Na tabela seguinte resumem-se algumas propriedades típicas de CCDs (aplicadas a alguns
telescópios no Kitt Peak e como “chips” individuais).

CTE: eficiência de transferência electrónica de pixel para pixel (“clock transference efficiency”).
108
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3.3.5 CCDs fora do óptico/IV


Um “chip” de CCD com uma espessura de 0.3mm é, de facto, muito mais versátil do que apenas na
utilização óptica: pode observar comprimentos de onda tão curtos quanto 1Å (12.4 keV – hard X-
ray).
A capacidade de absorção
do silício nos raios X e UV.

A eficiência da
detecção de fotões
nos raios X com um
“chip” de CCD tem
um pico nos ~6Å.
Å

109
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A) UV (300-3000 Å)

Como já foi discutido (Secção 3.3.1), um dos métodos para detectar fotões no UV é com recurso a
uma cobertura do “chip” com um material adequado (eficiência 15-20%). Melhor era a utilização de
um chip “fino” (eficiência ~60%). Chega-se aos 70% de eficiência cobrindo toda a gama com recurso
a outros métodos menos convencionais: portos transparentes, “back illumination”, etc.

B) Raios X (1-300 Å)

No fundo, as técnicas utilizadas para a detecção nos raios X são uma extensão das utilizadas para a
detecção UV. Por exemplo, com “chips” finos conseguem-se valores de eficiência fantásticos, da
ordem dos >80% (todos os “soft X-ray” e boa parte dos “hard”): o silício absorve um electrão para
cada 3.65 eV de energia em raios X. Há apenas uma região onde não se passa dos 50% devido à
energia de ionização do silício (1.78 keV): nos 1-2 keV.

Uma das vantagens das CCDs nos raios X é o seu funcionamento como detector e espectrómetro:
basta fazer, para cada fotão, a contagem da quantidade de pares electrão-buraco produzidos no
silício (este número é proporcional è energia do fotão incidente).

110
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3.4 A vídeo-câmara
As actuais vídeo-câmaras têm como detector um “chip” de CCD. Assim, na essência, são CCDs
adaptadas a outro tipo de aplicação.
As vídeo-câmaras podem ser utilizadas no modo afocal (única hipótese para as vulgares) ou serem
ligadas no apoio de oculares de um telescópio (vídeo-câmaras específicas de Astronomia).
As câmaras vulgares não permitem controlo sobre o tempo de exposição de cada “frame”, que é
qualquer um na gama 1/25 a 1/10000 s, nem sobre o ganho (possuem Automatic Gain Control – AGC).
As câmaras astronómicas permitem controlar ambos: o tempo de exposição pode ser de segundos ou
minutos; o ganho permite reduzir o ruído, com o controlo do brilho da imagem (não aumenta
artificialmente o ruído do céu nocturno).
Uma das vantagens de um sistema vídeo é a possibilidade de produzir muitas imagens do mesmo
objecto que podem depois, por software, ser combinadas. Também se podem eliminar os “frames” mais
ruidosos e seleccionar os melhores, tomando a média destes ou a integração total. Ainda: entre 10000
“frames” de uma dada observação pode haver um espectacular, apanhando um instante em que a
atmosfera estava superestável e o seeing não era relevante. Curiosamente, as câmaras convencionais
são melhores para este trabalho, devido às suas curtíssimas exposições.
Entre as outras vantagens de um sistema vídeo contam-se o preço (económico), o conforto na
visualização (e.g. ecrã de TV) e a possibilidade de gravação (cassete vídeo).

A câmara ideal para a Astronomia é a preto e branco, já que as que existem a cores recorrem a chips a
preto-e-branco para produzir cor (logo, são menos sensíveis). 111
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Há dois sistemas de filtros para atribuir cor a uma imagem a


preto e branco. Um é o RGB, que implica perda de resolução
horizontal. O outro é o CMYG, que implica perda de resolução
global.

A sensibilidade luminosa de uma vídeo-câmara (sempre pior que a de uma CCD pois falta-lhe
arrefecimento) exprime-se em lux (luminous flux). Infelizmente, a sua definição e utilização não é
uniforme, variando de fabricante para fabricante. O consenso (média) é que 100 lux corresponde ao
nível de iluminação no exterior num dia com o céu coberto de nuvens.

3.4.1 A câmara convencional


A) Grande formato

Só os objectos astronómicos mais brilhantes podem ser


detectados com os curtos tempos de exposição dos “frames”
individuais. A única alternativa é a utilização de intensificadores
de imagem (Secção 3.2.4A) acoplados à câmara
A câmara convencional só pode
(transformando-a num detector televisivo – Secção 3.2.4B).
ser usada no modo afocal.

112
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Há algum controle sobre os tempos de exposição em câmaras convencionais: e.g. 1/25 é utilizado no
modo “nocturno” enquanto 1/1000 é o ideal para o modo “desporto” (especialmente motorizado).

As câmaras convencionais ideais para a Astronomia são as de vigilância (preto-e-branco).


Especialmente se forem de funcionamento remoto (pois adaptam-se facilmente a observações
astronómicas remotas).
As câmaras dedicadas para a Astronomia, sem AGC, devem ter uma sensibilidade <0.1 lux e
>2×105 pixeis.

B) Pequeno formato

Muito populares nos anos recentes, as webcams são também apropriadas para a Astronomia,
especialmente devido ao baixo preço. Outra vantagem é a facilidade e compatibilidade de ligação a
um PC (que lhes dá também corrente eléctrica). As preferidas para a Astronomia são as Philips
ToUCam Pro. Sumariam-se as características principais destas na tabela seguinte:

Philips
 
ToUCam ProII

peso 100g
CCD 640×480
sensibilidade 1 lux
adaptador
1 1/4"
p/ocular
imagem a
113
cores 24-bit
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3.4.2 Astro-vídeo câmaras


Claro que a vídeo-câmara ideal para a Astronomia é feita com essa intenção. Um bom exemplo é a da
UMa (AstroVid 2000):

AstroVid
 
2000
CCD 1/2"
pixel 9m
sensibilidade 0.02 lux
controlo de
gain√
sensibilidade
controlo de
shutter√
exposição
controlo de
gamma√
contraste

Um outro exemplo é a STV da SBIG. Tem


uma CCD arrefecida termoelectricamente.
Pode fazer exposições até 10 minutos!

114
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3.5 A magnitude óptica limite do céu


Por muito bom que seja o detector óptico há, infelizmente, sempre um limite de magnitude
inultrapassável: o “brilho” do céu nocturno que tem várias origens. Este problema é especialmente
relevante para as fontes mais fracas e dificulta imenso a precisão de medições fotométricas.

Um outro problema, que estudaremos a seguir, é o “ruído” (não só instrumental), independentemente


do brilho do céu nocturno que também coloca, na prática, um limite superior à magnitude mais alta
observável.

3.5.1 O brilho do céu nocturno


O céu nem é infinitamente escuro, nem tem uma distribuição de brilho uniforme. Os principais
contribuidores para o brilho de céu nocturno são (os primeiros três afectam apenas observatórios na
superfície da Terra, que não os espaciais):

i) A Lua e o Sol (fotões dispersos):


a) com Lua Cheia não é possível fazer fotometria de precisão; todos os observatórios
ópticos dividem o seu tempo (em função do ciclo lunar) em três partes:
¼ do ano é “dark time” (Lua Nova)
¼ do ano é “bright time” (Lua Cheia)
½ do ano é “grey time” (restante: quartos)
115
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b) o Sol envia fotões em quantidade significativa até valores bastante baixos de


altura (h > –18º); estes “curvam” com a atmosfera da Terra: o crepúsculo astronómico.
Usualmente este dura 1.5 a 2 hrs antes/depois do Sol nascer/pôr-se.

ii) Brilho atmosférico:


O vento solar e os raios cósmicos bombardeiam continuamente as camadas
superiores da atmosfera da Terra ionizando átomos e moléculas que depois emitem
radiação em riscas. Esta é visível à noite pois o campo magnético da Terra leva as partículas
“bombardeadas” para todo o lado. Os pólos da Terra são particularmente maus para
observações no visível devido às constantes auroras.

iii) Poluição luminosa:


a) este é um problema da civilização: se a iluminação pública e privada se vê do
espaço, então não está a cumprir bem a sua função (há desperdício de energia e destruição
do céu astronómico). Há comités em vários países (e.g. EUA, Inglaterra, Holanda) que já
conseguiram convencer algumas cidades a melhorar substancialmente a eficiência
da sua iluminação pública (estabelecendo, também, regras para a privada). O céu, nessas,
continua bem estrelado…

116
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117
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b) luz de aviões e a reflectida por satélites:


nem uma nem outra são previsíveis e são um
problema cada vez mais sério na Astronomia
profissional.

iv) Luz zodiacal:


Esta é radiação solar reflectida pela poeira
do Sistema Solar (daí aparecer de forma
proeminente em torno da eclíptica, onde
estão as 12 constelações do Zodíaco).

Luz zodiacal e o falso amanhecer (Paranal, Chile).


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v) Poeira interestelar:
A sua origem é semelhante à da luz zodiacal, mas agora envolvendo a radiação com
origem em outras estrelas que é reflectida na nossa direcção pelas poeiras do ISM.
Como a luz azul sofre mais este efeito que a vermelha, objectos distantes (especialmente
galácticos) vão ser sempre afectados por um “redenning” interestelar.

Como resultado, o brilho do céu nocturno fica nuns elevados 12–21 mag/arcsec 2, conforme há Lua
Cheia ou não. Claro que o brilho do céu pode ser subtraído por calibração em torno da fonte de
interesse mas nunca é conhecido com exactidão como um todo (não é homogéneo).

Há objectos que são pouco afectados pelo brilho do céu nocturno. Por exemplo, os planetas do
Sistema Solar. Além disso, se se pretende observar objectos mais “difíceis” (nebulosas e galáxias) há
filtros especiais para cortar uma boa parte da poluição luminosa (os chamados “filtros de rejeição
luminosa”).

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3.5.2 Ruído

O ruído (N), seja qual for a sua origem (ou origens), é aleatório e imprevisível. Afecta da mesma forma
o sinal (S), vindo do nosso objecto de interesse, e o “resto”. Assim, mesmo que tenhamos uma
magnitude limite do céu elevada, o ruído pode ser suficiente para impedir boas observações (e.g.
quando a razão-de-sinal-para-o-ruído S/N ~ 1). Usualmente exige-se S/N > 3 (3, que numa
gaussiana dá 99.7% de probabilidade de se incluir o sinal todo) embora em alguns contextos se
chegue aos 5/6 de exigência.

A forma prática de tentar extrair o ruído das observações é, sempre, observar também um “campo
vazio” próximo da nossa fonte de interesse.

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Como qualquer observação de uma fonte


inclui o ruído e o “fundo” na magnitude limite,
podemos subtrair este “fundo” e conhecer o
ruído se observarmos um “campo vazio” perto
da fonte. Tipicamente, o tempo de exposição
deve ser comparável ao que foi empregue na
fonte (especialmente quando esta é fraca).

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3.6 Bolómetros e calorímetros


3.6.1 Bolómetros (sub-mm)
O bolómetro começou por ser utilizado no IV mas hoje em dia já chegou aos sub-mm.

Na essência, um bolómetro é um instrumento que absorve radiação numa superfície “negra” e a


converte em calor. Nesse material negro mede-se ( é condutividade eléctrica):
T = Tmedição – Tanterior  

A superfície negra pode ser a de um cristal (e.g. germânio) ou de um gás. Neste último caso é um
electrão que é agitado termicamente e, por isso, se chama a este tipo Hot Electron Bolometer (HEB).
Nos anos 60 o germânio puro era o material preferido mas, a pouco e pouco, o germânio galiado
passou a ser mais popular (e.g. finais dos anos 70). Isto porque o mesmo tem uma excelente relação
entre a temperatura e a condutividade eléctrica:
T-2
Hoje em dia o silício também é usado, com a vantagem de se atingir a detecção no rádio. O material
mais usado nos sub-mm (e rádio), no entanto, é o InSb (> 0.5mm, < 600 GHz). O único problema
deste é a estreita largura de banda disponível (~1 MHz).

A técnica preferida para a implementação da detecção é a “quantum tunneling junction” SIS


(supercondutor-isolante-supercondutor).
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O bolómetro tem uma excelente eficiência quântica (~100%), embora tenha fracas resoluções
temporal (>50ms) e de temperatura. Bolómetros não arrefecidos têm por principal ruído as flutuações
térmicas da temperatura ambiente. O arrefecimento é, assim, fundamental (T~1-2 K com hélio líquido):
melhora a resolução temporal, além de diminuir o ruído.

O bolómetro tem uma estrutura semelhante à dos


“receivers” em rádio: um “feed horn” colecta a radiação
vinda do telescópio; um “mixer” junta-a com a de um
oscilador local. O “mixer” é, infelizmente, origem de
ruído (TN ~ 100 K). De seguida, o sinal passa por um
sistema de IFs, como em rádio.

Infelizmente, o ruído do “mixer” não pode ser muito mais reduzido pois o limite quântico não está
longe:
kT  h => T  4.8 – 48 K (100 – 1000 GHz)

Já na Astronomia do mm usam-se díodos, preferencialmente, para a detecção de fotões. Estes são de


três tipos:
- Schottky com barreira isolante: Au-GaAs
- Cliffton (de ~1 m de tamanho)
- Super-Schottky (supercondutor)
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Na tabela seguinte sintetizam-se, como exemplo, as características de três detectores de sub-mm:

Detector (mm)  (GHz) resolução canais largura IF TR (K) TS (K)


SIS - APEX 0.20-1.3 210-1500 61 kHz 16384 ~1 GHz ~4 100-200
SCUBA* 0.45, 0.85 350, 660 ~0.075 quântico
**
SCUBA-2 0.45, 0.85 350, 660 -0.012 quântico
APEX: Atacama Pathfinder Experiment
SCUBA: Submillimeter Common User Bolometer Array
*
Funcionou de 1995 a 2005 no JCMT
**
Funcionará a partir de 2008 no JCMT

O SCUBA continha 37 pixeis (ou bolómetros) para observações a


0.85mm (mostrado). Não mostrado, o SCUBA também tinha um
conjunto equivalente para observar a 0.45mm (91 bolómetros).
Estes permitiam um campo de visão máximo de ~4.3 arcmin 2.

O SCUBA-2 vai ter muitos mais “pixeis” (bolómetros). Para


cada uma das duas frequências terá um mosaico de quatro
“CCDs” de 40×32 “pixeis”. O total é de 5120 “pixeis” cada.
O campo-de-visão atingirá ~64 arcmin2.

Cada bolómetro do SCUBA-2 consiste numa liga de cobre-molibdénio: “Transition Edge


Sensor” (TES). Usam amplificação SQUID (Superconducting Quantum Interference Device). 124
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Também para o APEX (foco Cassegrain), há um recente bolómetro de sub-mm desenvolvido com o
nome de LABOCA (Large APEX BOlometer CAmera). Funciona em= 870±75m (FWHM) e opera a
0.29 K.

O LABOCA está instalado numa bolacha Uma imagem inicial do LABOCA (nebulosa de
de silício: cada quadrado que se vê é um Orion – “cabeça de cavalo”) – resolução 18.6”,
bolómetro (são, assim, 295 “pixeis”). comparada com uma obtida no visível com o VLT.
125
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3.6.2 Calorímetros (altas energias)


O princípio do calorímetro é exactamente o mesmo do bolómetro mas para altas energias
(especialmente raios ). O calorímetro detecta o pequeníssimo aumento de calor produzido por fotões
energéticos incidentes num sólido. Este deve ser de material o mais absorvente possível.

O exemplo do detector (protótipo) do satélite MEGA (Medium Cada calorímetro absorve um fotão e
Energy Gamma Ray Astronomy), para E < 50 MeV. Este mede a sua energia. Consiste numa
consiste na “câmara de recolha” (10 placas de silício de matriz de 10×12 “pixeis” de CsI:Tl.
0.5mm de espessura), que dá ~3º de resolução, e nos Fotodíodos detectam a cintilação no
“medidores” (24 calorímetros que a rodeiam). visível causada pelo impacto.
126
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3.7 Contadores de fotões


No caso de altas energias, precisamente devido a tal, os fotões agem muito mais como partículas do
que como ondas. Assim, todos os detectores para as bandas dos raios X aos raios  são, na essência,
contadores de fotões (e os fluxos vêm em contagens por segundo).
3.7.1 Raios X
A) Contador proporcional

Para energias abaixo de 20 keV (mas acima de ~10 eV, no UV) o detector principal é um contador
proporcional: um tubo de gás nobre com um fio condutor central (ânodo) ~2000 V acima da voltagem
das paredes do tubo; fotões (que entram por uma “janela”) ionizam átomos que libertam electrões
(criam-se pares electrão-ião) com energia suficiente para libertar mais electrões de outros átomos
antes de chegar ao fio central. Como num fotomultiplicador, surge uma cascata de electrões (até ~107)
que geram um pulso detectável no circuito electrónico. A voltagem do tubo é escolhida de forma a ter:

Ne-cascata  Nião-e(pares)  Efotão

O contador proporcional típico.


As divisões da janela são “fios
catódicos”.
127
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A eficiência na resposta espectral


de um contador proporcional de
argon com três tipos de janelas
para entrada dos fotões.

Assim, num contador proporcional, mede-se a energia dos fotões. De forma a medir a direcção dos
mesmos usa-se uma rede de fios (catódicos) que se transforma numa placa de micro-canais para
super-resolução (~1”).
Na tabela seguinte mostram-se várias combinações típicas janela/gás.

128
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A estas “baixas” energias, os raios cósmicos podem confundir


as detecções num contador proporcional. Usa-se, então, um
aparelho anti-coincidência em que raios cósmicos cintilam no
contacto com as paredes, enquanto os fotões não.

B) Cintilador

Para energias acima de 20 keV são necessários detectores de


estado sólido (cristais). Caso contrário, os fotões passam a
direito (de qualquer gás).
O clássico detector para tais fotões é um cintilador: o fotão
incidente ioniza um átomo na estrutura cristalina produzindo um
electrão energético que leva muitos electrões a formar uma
corrente eléctrica. Impurezas no cristal capturam alguns electrões
emitindo flashes de luz visível (“cintilação”). Um fotomultiplicador
detecta estes flashes.
O grande problema é a impossibilidade de saber a direcção do fotão incidente. Só com uma óptica
especial e/ou máscaras é que podemos ter uma ideia da direcção original do mesmo.

Na tabela seguinte sintetizam-se alguns tipos de cintiladores comuns:


129
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Material Nome ("informal") E (gama; keV) eficiência res. temporal

NaI:Tl iodeto de sódio (taliado) ~20 - 104 ~20% 0.24 s


CsI:Tl iodeto de césio (taliado) ~20 - 104 ~20% 0.45 s
4
Si:Li silício (litiado) ~20 - 10
4
Ge:Li germânio (litiado) ~20 - 10

Até 50 keV, o efeito dominante no contacto entre fotões e electrões é o fotoeléctrico. A partir daí
(incluindo todos os raios ), no entanto, o efeito Compton domina (fotões pontapeiam electrões).
3.7.2 Raios  Raios X (formalmente)

Cintiladores como os dos raios X detectam raios  até


10 MeV. O problema é que os raios  podem gerar pares
electrão-positrão tão energéticos que passam a direito no
cristal (esses fotões ficam, assim, sem possibilidade de
detecção). A única forma de garantir que todos estes são
também detectados é com recurso a um segundo detector.

Exemplos da detecção de fotões de


raios  de várias energias com um
cintilador de: a) NaI:Tl; b) Ge:Li.
130
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Para energias na gama 10 MeV a 100 GeV, a única solução para detectar fotões é recorrendo às
técnicas de Física de Partículas (câmara de bolhas, por vezes várias em cadeia): identifica-se o
percurso do gerado par electrão-positrão para deduzir a energia e direcção do respectivo fotão de
raios  responsável (agora, virtualmente sempre formam-se tais pares).

Os raios  mais energéticos (>50 GeV) são detectados à


superfície da Terra de uma forma indirecta: pela radiação
Čerenkov emitida pelos electrões de alta energia gerados
nos choques dos fotões com os átomos e moléculas da alta
atmosfera. Esta actua como um amplificador natural, cada
fotão originando até ~106 partículas.

A radiação Čerenkov é azul (visível) e surge devido ao


movimento superluminal da partícula no meio (atmosfera).
Usam-se redes de telescópios Čerenkov para aumentar a
probabilidade de detecção (pelo aumento da área efectiva,
que pode chegar a centenas de m2).

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O “telescópio” Čerenkov do Whipple


observatory (Arizona), D=10m. Detecta
raios  entre 100 GeV e 10 TeV.

A rede de “telescópios” Čerenkov


VERITAS (Very Energetic Radiation
Imaging Telescope Array System) do
Whipple observatory (Arizona), com
quatro de D=12m. Detectam raios 
entre 50 GeV e 50 TeV.

A rede de “telescópios” Čerenkov


HESS (High Energy Stereoscopic
System) na Namíbia, com quatro
D=19m (na fase 2 será colocado
um de 28m). Detectam raios  nos
~100 GeV.

132
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Os oito “telescópios” Čerenkov CLUE (Čerenkov Light Cada “caixa” contém um.

Ultraviolet Experiment - italiano) nas Canárias (La Palma).


Detectam raios  nos ~TeV.

O problema estará, depois, em saber distinguir quais dos fotões de raios  correspondem a
determinada fonte galáctica ou extragalática e quais são raios cósmicos de origem (ainda) incerta…

Os raios  são energéticos demais para qualquer reflexão (mesmo com ângulos muito pequenos). A
implicação é que as resoluções conseguidas (~1º) são as piores em Astronomia. Mesmo assim, quanto
mais energético for um fotão  mais fácil é identificar a sua direcção (graças à do(s) respectivo(s)
electrão(ões) produzido(s)): o erro entre as direcções dos raios  originais e dos electrões produzidos é
~4º a ~30 MeV mas apenas ~0.2º a ~1 GeV. 133
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4 – MONTAGENS
Não há observação séria (profissional) feita sem uma montagem rígida para o telescópio (e
instrumentação). Aliás, mesmo que o telescópio não seja da melhor qualidade, é possível obter
imagens de alta qualidade com uma CCD logo que a montagem seja excelente.

O contrário já não é verdade: sem uma boa montagem, de pouco adianta a excelência da CCD e/ou
telescópio. Daí que é de esperar que uma montagem seja tão (ou mais) cara que o próprio telescópio.

4.1 Equatorial
4.1.1 Geral
A montagem equatorial evita o problema da rotação de campo. É a preferida para telescópios não
muito grandes, eventualmente recorrendo a um “wedge” para a transferir de uma montagem
altazimutal.

A montagem equatorial tem eixos paralelos ao sistema


equatorial celeste: o eixo polar aponta para um dos pólos
celestes (perto da estrela polar, no caso do Hemisfério Norte) e
coincide com o eixo óptico do telescópio. O eixo de declinação,
ortogonal ao polar, é de declinação constante, permitindo o
acompanhamento de objectos astronómicos com facilidade.

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Permite seguir objectos de uma forma simples, já que só um dos eixos precisa de rodar (o da
declinação). Basta um motor neste eixo, para Astronomia Amadora. A nível profissional, serão sempre
necessárias pequenas correcções a ambos os eixos (autoguiding) pelo que dois motores são
indispensáveis.
O problema principal desta montagem é a instabilidade gravítica (momentos elevados, etc.) devido ao
enorme peso dos telescópios profissionais.
A montagem equatorial pode ser implementada de
diversas formas. Na Astronomia Profissional, a
montagem em garfo é a preferida. O problema desta,
bem como de outras equatoriais, é que quando utilizada
com uma “wedge”, limita a declinação mais a sul que é
possível visualizar (devido à obstrução física ao
movimento do telescópio pela própria estrutura). Este
problema é especialmente notado nas zonas tropicais da
Terra (devido às baixas latitudes)

O INT 2.5m (La Palma) tem uma montagem em garfo que recorre a
um disco polar (o garfo está montado neste), cuja rotação dá um dos
movimentos. O eixo polar é ortogonal a este disco (faz 29º com a
horizontal). O eixo de declinação está entre os dois apoios do
telescópio: a sua rotação faz o outro movimento.
135
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A dificuldade em observar o céu abaixo de uma dada


declinação para os objectos astronómicos mais baixos
(também em altura).

Uma alternativa popular ao disco polar é a montagem


em ferradura (que faz a função do disco). Ilustra-se o
caso do AAT 3.9m. A vantagem da ferradura é o “dois
em um”, uma vez que o eixo de declinação a atravessa.

Uma ferradura também é


utilizada pelo rádio telescópio
de Green Bank (25m – VLBA).

Uma montagem equatorial alemã, por exemplo, já não tem


qualquer tipo de limitação física e é uma boa alternativa para tais
locais. Estudamo-la no que segue.
136
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4.1.2 A montagem alemã


A mais sólida, mais procurada (e mais cara…) montagem equatorial é a chamada alemã. Esta
coloca o tubo do telescópio descentrado da coluna do tripé, usando um contrapeso do outro lado,
para compensar. O acesso à ocular passa a ser fácil para qualquer posição do telescópio. Não há
qualquer restrição a pontos do céu para onde se pretenda apontar o telescópio.

O nome de “alemã” para a montagem talvez seja algo


injusto. De facto, foi usada pela primeira vez em 1826 num
refractor de 24 cm em Tartu, Estónia. O seu inventor era um
famoso alemão, nada mais nada menos que Joseph
Fraunhofer.
Devido ao tipo de montagem, a “alemã” pode ser vendida
separadamente e adaptar-se a uma variedade imensa de
telescópios. 137
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4.1.3 Paramount (rígida)


Num observatório (mesmo de nível amador) pretende-se
uma montagem que seja o mais estável possível.
Usualmente, isto implica perda de portabilidade, o que não
é um problema relevante. Um bom exemplo de uma
montagem rígida é a Paramount.

Montagens que não são tão rígidas usam truques para


que as vibrações não sejam um problema (e.g. borrachas
nas três extremidades do tripé). Há, ainda, discos
absorsores de vibração que se podem colocar em
qualquer tripé.

A montagem Paramount 1100.

138
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4.1.4 O alinhamento polar


Para se usufruir das vantagens da montagem equatorial é crucial que o eixo polar esteja bem alinhado
com o PNC (< 1’). Para tal, não basta alinhá-lo pela estrela polar, pois esta está a quase 1º daquele. Há
muitas técnicas para fazer o alinhamento polar. Falaremos só de algumas.
Antes de se proceder ao alinhamento polar é, obviamente, necessário ter a certeza que tudo o resto
está bem colocado: i) o “finder” em relação ao telescópio e este em relação à montagem (o erro deste
último alinhamento deve ser < 15’); ii) o telescópio colimado e a óptica a funcionar como deve ser.
Muitas montagens equatoriais permitem ajustar a sua inclinação à da latitude do lugar. Esta é uma
preciosa ajuda para encontrar mais facilmente a estrela polar (deslocando apenas o telescópio em
ascenção recta). É o primeiro ajuste a fazer.

A) Telescópio de alinhamento polar

Muitas montagens equatoriais trazem embutido no seu eixo polar um


telescópio (poucos cm de abertura) com retículo para o alinhamento polar.

139
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A técnica consiste em colocar a estrela polar do lado “correcto” do PNC (dependendo da hora, da data e
do local da observação), à distância angular tabelada (que no equinócio J2000.0 é de ~44’). Assumindo
tudo o resto bem alinhado, o alinhamento polar fica, assim, concluído.

Na falta de toda a informação descrita no texto, pode-se usar


uma técnica alternativa para efectuar o alinhamento polar:
centrando na estrela polar, fixa-se a declinação do telescópio
em 90º e desloca-se o mesmo rapidamente (fisicamente, se
tiver de ser) em ascensão recta – as estrelas marcam arcos
centrados no PNC.

Caso não exista telescópio de alinhamento polar, o telescópio principal terá de ser usado para tal (o tubo
tem de estar exactamente paralelo ao eixo polar). Usa-se, então, a sequência:
i) centra-se a polar com baixa ampliação e prende-se o eixo de declinação;
ii) roda-se o telescópio em torno do eixo polar: enquanto a estrela polar se deslocar, o eixo não
está bem alinhado;
iii) neste último caso ajusta-se (manualmente) a orientação da montagem e roda-se o eixo de
declinação;
iv) volta-se a i)-ii) até à estrela Polar não se deslocar;
140
v) usar uma carta estelar para centrar a montagem no PNC movendo-a fisicamente.
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B) Coordenadas da estrela polar

Devido ao movimento de “precessão dos equinócios” (com cerca de 25800 anos de período) a Terra
oscila como um pião em rotação, devido às influencias combinadas do Sol e da Lua. Assim, as
estrelas mais próximas do PNC e do PSC variam ao longo do tempo.

Precessão do pólo norte celeste. Precessão do pólo sul celeste.


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O recurso às coordenadas da estrela polar deve ser feito com muito


cuidado, pois a sua grande proximidade ao PNC faz com que, na prática,
a sua ascensão recta varie de uma forma bem mensurável, de ano para
ano: ~1.6min/ano. Temos:
2000 = 2h 31.5m 2000 = 89º 16’
que se usam como referência (todos os objectos a considerar devem ter
coordenadas no equinócio J2000.0). Então:

i) determinam-se as exactas coordenadas () da estrela polar para


a data (época) da observação: e.g 2007.3;

ii) dado o tempo sideral local, conhece-se o ângulo horário da estrela


polar (a partir de ); sabe-se onde apontar o telescópio para a
encontrar, assim que a altura do mesmo se coloca idêntica à latitude
do lugar;
iii) centra-se na estrela polar e ajustam-se os círculos graduados de
ascensão recta e declinação para as coordenadas desta; liga(m)-se
o(s) motor(es);

iv) desloca-se o eixo de declinação até ao respectivo círculo marcar 90º;

v) localiza-se, com o máximo de precisão, o PNC com a técnica da figura anterior. 142
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Os círculos graduados de ascensão recta (em baixo) e


declinação (topo) só têm utilidade numa montagem
equatorial. O de ascensão recta tem duas escalas,
conforme o observador se encontra no hemisfério norte
ou no sul. O de declinação também serve para dar a
altura numa montagem altazimutal.

143
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C) Estrelas auxiliares

Uma forma de mais rapidamente encontrar o PNC/Estrela Polar é apostando na geometria de ambos
no céu nocturno: esta está do lado de Cassiopeia em relação àquele – a Ursa Menor já fica “do lado de
lá” do PNC da perspectiva da Estrela Polar.

O objectivo é usar a estrela  da Ursa Menor


(Kochab) para construir uma “linha” de referência
 
  para fixar a ascensão recta (ideal em 2007-8; há
 30 anos era a Cas): deslocando o telescópio
em declinação deve-se ver esta e a Estrela
Polar. Quase exactamente pelo caminho, junto à
 Estrela Polar, fica o PNC. Assim, é fácil e preciso
 concluir o alinhamento (também feito por
 movimento físico do telescópio). Depois de um

 ajuste inicial, se se iterar o método uma ou duas

 vezes obtém-se super-precisão.

144
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D) Vaguear da estrela

Este método deixa uma estrela “passear” pelo campo e mede alguns parâmetros. Os passos são os
seguintes:

i) nivelar a base;

ii) escolher uma estrela brilhante perto do equador celeste e do meridiano do lugar (H ~ 0 h;  ~ 0º)
e centrá-la na ocular;

iii) observar a estrela até que se desloque para norte (ou sul); rodar o eixo polar (manualmente) de
forma a que o mesmo se aproxime mais do este (ou oeste);

iv) repetir iii) até ao movimento para norte ou para sul não ser visível durante 5 min;

v) escolher uma estrela brilhante perto do equador celeste e no vertical (este ou oeste):
 ~ 0º, AZ ~ 90º  AZ ~ 270º;

vi) olhando para leste: estrela desloca-se para norte (sul) → deslocar para baixo (cima) o eixo polar;

[olhando para oeste: estrela desloca-se para norte (sul) → deslocar para cima (baixo) o eixo polar]

vii) Repetir vi) até não ser visível qualquer movimento (norte ou sul) durante 5 min.

145
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4.2 Altazimutal
4.2.1 Geral
Por muitos truques que se usem, a montagem equatorial está sempre sujeita à nefasta influência da
gravidade. A partir do momento em que os avanços computacionais o permitiram (anos 80-90), a
montagem altazimutal tornou-se o padrão, não só na Astronomia profissional, mas também na
amadora.
A montagem altazimutal tem por base o sistema de coordenadas horizontal
local. A sua grande vantagem é a enorme estabilidade gravítica, já que um
dos eixos (o de azimute) é ortogonal à superfície da Terra, enquanto o outro
(o de altura) é paralelo à mesma.

A montagem altazimutal de rádio


Note-se que o “garfo” também é
telescópios consiste nuns carris circulares
utilizado, mas agora é como se o
para o movimento em azimute e num eixo
disco polar estivesse no chão.
de altura para o movimento elevatório.

É claro que, agora, é necessário que dois motores estejam


constantemente em funcionamento, um para cada eixo, a
velocidades diferentes. Ainda, é necessário compensar a rotação
de campo (e.g. com um “derotator”). A maior desvantagem é o
zénite e arredores (~graus) estarem, agora, inacessíveis.
146
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4.2.2 O Garfo
Uma das formas de montar um telescópio altazimutalmente é com recurso a um
garfo (também usado nas montagens equatoriais) que segura o tubo em cada
lado, suspenso no ar. É especialmente adequada para garantir um bom acesso
à ocular em telescópios Cassegrain. Evita a necessidade de contrapesos.
4.2.3 Dobsoniana
Popularizada por John Dobson (um famoso astrónomo amador americano), esta
é uma montagem altazimutal especialmente adequada a tubos muito grandes e
pesados (grandes aberturas) de foco Newtoniano. É muito simples e não
pressupõe a utilização de motores.

O Dobsoniano clássico. O disco azimutal


permite rodar o telescópio em azimute
enquanto o eixo de altura o permite fazer em
elevação.
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4.3 Outras
4.3.1 “Porta de celeiro”
Um tipo de montagem que começou por ser utilizada em
fotografia mas que já encontrou muitos adeptos na aplicação
telescópica é a “Barn-door mount” (“porta de celeiro”).

Na essência, a “barn-door” é uma montagem equatorial


adaptada: com apenas um pequeno motor ou controlo manual, 
é possível fazer exposições “guiadas”.
Uma trave colocada numa superfície horizontal
(ou aproveitada num celeiro!) é serrada com a
inclinação da latitude  do lugar: as dobradiças
são paralelas ao “eixo polar” da montagem. A
“porta” abre até 5º, permitindo “guiar” a
exposição durante 20 minutos.

Numa trave ao lado, serrada exactamente com a


mesma inclinação, pode-se colocar um pequeno
motor, para substituir o “guiding” manual.
148
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4.3.2 “Piggy back”


A “piggy back” não é bem uma montagem mas mais uma técnica. Está a cair em desuso, em conjunto
com a fotografia.

A “piggy back” aproveita a montagem motorizada de um


telescópio (equatorial – sem rotação de campo) para fazer
longas exposições de objectos astronómicos: a máquina
fotográfica é “encavalitada” (piggy back) no telescópio.

É claro que o telescópio deve ter um bom alinhamento com o resto da sua
montagem e estar bem alinhado pelo PNC.

A colocação da máquina “às cavalitas” do


telescópio deve ter em conta a lente a usar com
a mesma, de forma a que o próprio telescópio
não seja fotografado: usando lentes de grande
campo, a máquina deve estar mais na ponta do
tubo, o que pode exigir a utilização de
contrapesos extra na montagem.

Uma montagem “piggy back” comercial. 149


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4.3.3 Colunas (“pier”)


Um tipo de montagem altazimutal rígida é uma coluna (“pier”) de aço (ou cimento – ideal) em cima da qual
se coloca o telescópio (e.g. o “garfo” da montagem altazimutal). A coluna prende-se a um chão de
cimento, sendo o conjunto imune a vibrações (embora o aço seja propenso a estas, o cimento absorve-
as).

Coluna de cimento com montagem


equatorial Paramount em cima.

Uma coluna de aço.


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4.4 Erros
Qualquer montagem tem erros que surgem de
imperfeições dos motores e/ou da estrutura da
montagem.

4.4.1 Motores
O maior erro dos motores costuma estar associado ao
movimento em ascensão recta numa montagem
equatorial. O motor em declinação é muito mais preciso,
especialmente se se fez um bom alinhamento polar. As engrenagens de um motor de ascensão recta.

Os erros nos motores são periódicos


(P ~ 8 min em montagens
equatoriais), já que se relacionam
com erros de elementos circulares em
movimento (pequenas irregularidades
nas engrenagens): apresentam-se na
forma de “saltos”.

Exemplo: 26 minutos de
medição. Erro de ~15”. 151
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As melhores montagens têm erros ~2 – 5”. Exemplos:


Astro-Physics 1200, Paramount 1100.

A forma de corrigir os erros periódicos é, muitas vezes,


implementada computacionalmente. Ou funciona logo no hardware
(corrige-se no controlo computadorizado do telescópio) ou então é
subtraído no software (muito mais complexo e, logo, não preferida).

À técnica de correcção dos erros periódicos chama-se PEC (“periodic


error correction”). Um bom “guiding” corrige boa parte do problema.
A montagem Astro-Physics 1200.
4.4.2 Montagem
Os erros da montagem normalmente têm a ver com vibrações e flexões que ocorrem por influência
externa (vento, toques, veículos a passar, etc.) ou interna – imperfeições na própria montagem.

Os erros da montagem, sim, são preocupantes devido à sua imprevisibilidade e à dificuldade (ou
impossibilidade) da sua correcção.

Há regras práticas a cumprir que podem diminuir estes erros significativamente. Uma delas é a de
nunca fazer exposições logo a seguir ao telescópio ter iniciado o seguimento do objecto de interesse:
deve-se dar sempre uns minutos para a montagem estabilizar.

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5 – REDUÇÃO de DADOS no ÓPTICO (CCD)


“The only uniform CCD is a dead CCD”
(MacKay 1986)
“Para compreender o sinal, tem primeiro
que se compreender o ruído”

5.1 Definições
As unidades de dados analógicos (ADU) são valores convertidos directamente da corrente eléctrica
gerada pelos fotoelectrões, em cada pixel. A escala é arbitrária. Usualmente utiliza-se um factor de
conversão (ADC=ganho) que nos dá a relação entre ADU e fotoelectrões: a menos de calibrações e
correcções, recuperamos o número de fotoelectrões associado a cada pixel.

A noção de amostragem mínima é relevante para o estudo de objectos astronómicos com CCDs.
Usualmente, esta é dada pelo Teorema de Nyquist que, em termos práticos, implica que devemos ter
dois pixeis (1D) ou quatro (2D) a cobrir a FWHM do nosso objecto. Nem mais (“oversampling”), nem
menos (“undersampling”). Assim, num local com “seeing” 1.6”, devemos usar uma CCD com pixeis de
0.8” de lado.
153
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O armazenamento é, normalmente, feito no sistema 16-bit, pelo que temos uma gama de valores
entre 0 e 65535 (=216 – 1) para o fazer.

A saturação digital (e.g. “blooming”) acontece sempre que nalgum pixel o valor da escala ultrapasse
os 65535 (em 16-bit) – correspondente à saturação física por ultrapassagem da capacidade “full-well”
(usualmente entre ~85000 e ~350000 e-).

Cada CCD tem o seu próprio ganho (ADC) de forma a garantir o máximo
de linearidade possível antes da saturação. No caso desta CCD temos
que satura nos ~150000 e - e o ganho (ADC) vale 4.5e -/ADU (dado pelo
declive da recta). O sistema utilizado é 15-bit (2 15=32767 ADUs).

A única forma de evitar saturação numa CCD é fazendo


exposições mais curtas (exploratórias, se necessário).
Podem-se produzir imagens de objectos brilhantes
recorrendo à técnica da multi-exposição: muitas
exposições curtas que são, depois, combinadas
(“stacking”) para obter uma “equivalente” à intenção
original – para serem mesmo equivalentes têm de
totalizar mais ~20% do tempo original (para compensar o
maior ruído de “read out” relativo de cada uma).
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Algumas CCDs amadoras têm a perigosa capacidade de atingir


não-linearidade bem antes da saturação, nem sempre
informando sobre o seu valor nos detalhes técnicos ou
comerciais. Pode-se, inadvertidamente, destruir alguns pixeis de
CCD nestes
Quanto casos.
à apresentação de imagens de CCD para o tratamento de
Secção uni-dimensional de uma imagem
dados: infelizmente, os ecrãs de computador (e o olho humano) não
de CCD mostrando uma estrela saturada
separam muito mais do que 256 tonalidades diferentes de cinzento
(esquerda) e uma bem exposta.
(8-bit: 0 é preto e 255 é branco). Quando usadas em escala colorida,
no sistema RGB de três cores temos (256) 3 = 16 777 216, as “16
milhões de cores” mencionadas no software de PCs.
Voltando um pouco atrás, a ideia agora é conseguir encaixar as
“16 milhões de cores” no sistema típico de uma CCD (16-bit,
com 65536 ADUs), com uma correspondência tal em que 0
(R,G,B) é preto ou 0 ADU e 255 (R,G,B) é branco ou 65535
ADU.
Chama-se pseudo-cor à coloração obtida por transformação de
um sistema noutro e a técnica recorre a uma “look up table” (LUT).
Exemplo de uma LUT (topo) para passar de um sistema
8-bit para outro 8-bit. Passam-se “16 milhões de cores”
para 16-bit, mudando os valores dos eixos.
Em baixo ilustram-se vários efeitos de processamento de imagens
num sistema 8-bit (GL ≡ Gray Level).
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5.2 Redução de dados


5.2.1 Algoritmo
O objectivo da redução de dados obtidos com uma CCD é passar da imagem bruta (“raw”) para uma
imagem fidedigna do panorama astronómico observado: calibrada e com todas as correcções
necessárias implementadas de tal forma que todos os pixeis “válidos” têm uma intensidade (número
16-bit associado) directamente proporcional ao número de fotões incidente.
Há cinco passos principais para o fazer, a seguir apresentados em pormenor. Se as observações
utilizaram vários filtros, todos os passos devem ser feitos para cada filtro. Assim, por exemplo no
sistema Johnson UBVRI, teremos um total de 25 passos…
1) Remoção de maus pixeis → FRAME 1
2a) Subtracção do “bias” → FRAME 2
[ou][2b) Subtracção da “dark current” → FRAME 2]
3) Campo Uniforme (“flat fielding”) – erros finais → FRAME 3
4) Calibração fotométrica
5) Trabalho de cientista/artista

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1) Remoção de maus pixeis


Uma CCD tem sempre pixeis que, devido a erros de fabrico ou a defeitos que surgem mais tarde (por
acidentes de vária ordem), não funcionam.

Um outro problema são raios cósmicos ou partículas radioactivas de materiais próximos à CCD: estes,
tipicamente, causam eventos muito brilhantes (bem acima da mediana dos restantes que anda nos
milhares de electrões) e que ocupam alguns (poucos) pixeis adjacentes. Distinguem-se da emissão de
objectos astronómicos pontuais (e.g. estrelas) pelo que segue…
… ou então usando a técnica multi-exposição. Isto evita o acumular de muitos raios cósmicos no “chip”
e permite identificá-los claramente, pois a probabilidade de ocuparem o mesmo pixel de exposição
para exposição é quase zero.

Uma estrela ou outro objecto pontual (≡ não resolvido) ocupa círculos no “chip” da CCD. Estes são
devidos ou à difracção do telescópio ou ao seeing. No primeiro caso, até pode ser possível ver anéis
de difracção. Também no primeiro caso e quando não saturados, o seu perfil de luz corresponde a
uma função sinc-2D, a chamada “point spread function” (PSF).

Há software que localiza e remove os maus pixeis ou, então, interpola sobre os mesmos à custa dos
valores dos pixeis adjacentes.

FRAME 1 157
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2a) Subtracção do “bias”

O “bias” é um sinal de “offset” gerado por um led (flash)


intencionalmente introduzido após a ADC de forma a nunca
existirem valores negativos (em ADU) – estes poderiam surgir
devido ao ruído de “read out”. Tipicamente vale ~400 ADU.

O problema é que o “bias” varia ao longo do tempo e dos pixeis.


A forma comum de o remover é efectuar exposições de 0
segundos com a CCD fechada (BIAS FRAME). Assim, não há
fotoelectrões e tudo o que aparece é apenas ruído onde o “bias”
domina.
Podemos tirar o ruído de “read out” directamente do
“Bias Frame” pois:
RREAD  rms (BIAS)
Histograma de um “Bias Frame” com o número de pixeis vs. ADU
(como é norma, excluiram-se umas poucas linhas de pixeis mais
exteriores). O “bias offset” é dado por: <B>  1017 ADU. Como
se pode aproximar a distribuição por uma Gaussiana:
ADU ≡ FWHMADU  2 ADU. Como o ganho da CCD em causa é
de 5e-/ADU temos: RREAD  10e-. 158
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É típico fazerem-se várias exposições de “bias” ao longo da noite tomando depois as medianas dos
valores de todos os “Bias Frames” em cada pixel e produzindo um MASTER BIAS FRAME.

Temos, então: FRAME2 = FRAME1 – BIAS FRAME (MASTER)

FRAME 2

2b) Subtracção da “dark current” (CCDs amadoras)


Felizmente, este é um problema principalmente do IV ou de
CCDs ópticas “quentes”. Para CCDs à temperatura do azoto
líquido (T ~ 77 K), ou inferior, claro, o problema não é
significativo. No entanto, essa temperatura criogénica deve
manter-se constante (±0.1 K).

Valores experimentais e curva teórica para o valor da “dark


current” em função da temperatura. Temos que para T = 300 K
a “dark current” vale 2.5 × 104 e-/pix/s. Eg (eV) é a energia de
ionização do silício (material do “chip” da CCD).

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Comparação de dois “Dark Frames” obtidos a uma


temperatura de –32º C (esquerda) e de 0º C (direita).

Para eliminar a “dark current” fazem-se exposições tão longas (tdark) com a CCD fechada (FRAME A) como
a original (de imagem) com a CCD aberta (t). Ainda assim, no caso mais geral tdark ≠ t obtém-se, então:

DARK FRAME = FRAMEA / tdark (s-1)


Idealmente, como no caso do “bias”, tiramos vários “Dark Frames” para produzir um “Master” com as
medianas dos valores dos pixeis. Mas desta vez o “custo” em termos de tempo é severo e deve ser
ponderado. 160
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Um “Dark Frame” (de 180 seg) e respectivo histograma. Há dois conjuntos de


pixeis, um com média ~180 ADU e outro com média ~350 ADU. O primeiro
corresponde ao “bias” e o segundo a ruído térmico.

Finalmente, notando que um “Dark Frame” já inclui o “Bias” e que, por isso, 2b) é uma alternativa a 2a) vem:

FRAME2 = FRAME1 – t × (DARK FRAME)

FRAME 2 161
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3) Campo uniforme (“flat fielding”) – erros finais

A última correcção a fazer (antes de calibrar a imagem) é necessária para remover efeitos vários da
óptica do sistema (e.g. “vigneting” – objectos no limite do campo-de-visão, pó, etc.) e para compensar
as variações de sensibilidade na CCD, de pixel para pixel (em função de ).

Para corrigir todos estes defeitos, fazem-se exposições de fontes de


brilho uniforme que garantam uma elevada SNR. Por exemplo, do
interior da cúpula iluminada e desfocada; ou de um ecrã especial
dentro do observatório; ou de uma T-shirt que cobre a abertura do
telescópio (durante o dia: aponta-se para uma sombra ou para o
céu longe do Sol); ou do céu ao crepúsculo; para espectroscopia é
comum utilizarem-se flashes de projecção: ilumina-se
uniformemente a fenda do espectrógrafo com uma lâmpada de alta
intensidade (e.g. de quartzo).

Na Astronomia Profissional, a forma mais comum de produzir “Flat Fields” (FLAT FRAME) é à custa
de observações do crepúsculo. Isto porque, de facto, o céu de “background” é o mesmo e, assim, o
“espectro contínuo de fundo” é bem amostrado num “Flat” do crepúsculo. A região ideal para tirar
“Flats” no crepúsculo é ~13º a leste do zénite. Na prática, tenta-se que o brilho médio do “Flat” fique
nos 35-50% do valor de saturação da CCD. 162
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Mais uma vez, se as observações usarem vários filtros, ter-se-á


de fazer (ao menos) um “Flat” específico para cada um.

O FLAT FRAME é, então, um mapa da sensibilidade de cada pixel e


ainda dos defeitos globais no percurso óptico do sistema. O primeiro
passo é proceder como se se tratasse da observação em si:
remover a “dark current” (ou “bias”), criando um novo FLAT FRAME:

FLAT FRAME = FLAT FRAME – t × (DARK FRAME)

Agora, como já foi feito para o caso do BIAS FRAME, deveremos combinar várias exposições de
“Flats” num MASTER FLAT FRAME. A ideia é remover eventuais estrelas que tenham sido
acidentalmente capturadas na CCD: este “Master” deve ser homogéneo a menos de ~2%.

Finalmente, este “Flat” é normalizado dividindo o valor de cada pixel pelo da média global do conjunto
(MASTER FLAT FRAME NORMALIZADO). Agora, sim, produzimos a nossa imagem final, pré-calibração:

FRAME3 = FRAME2 / MASTER FLAT FRAME NORMALIZADO

FRAME 3
163
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Histograma do “Flat Frame” com o número de pixeis vs. ADU.


Assumindo uma distribuição Gaussiana com <F> de média e
ADU de dispersão temos que o ganho é dado por: G
= <F> / ADU2. Como neste caso <F> ~ 6900 ADU e ADU ~
300 ADU vem: G ~ 0.08 e-/ADU (uma excelente CCD).

Dados dois “Flats” (F1, F2) e dois “Bias” (B1, B2), podemos calcular de uma forma mais precisa o ganho (G)
e o ruído de “read out” (RREAD) de uma dada CCD, pois vem, após calcular as diferenças F 1 – F2 e B1 – B2:

G = [(<F1> + <F2>) – (<B1> + <B2>)] / [2F1 – F2 – 2B1 – B2]

RREAD = G B1 – B2 / √2

164
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4) Calibração fotométrica
Em primeiro lugar, determina-se o brilho (↔ magnitude aparente) dos objectos de interesse que se
encontram no FRAME3. Isto faz-se com a técnica de abertura, definindo uma zona circular em torno do
objecto (já que a PSF é circular) e medindo a quantidade de luz interior a esta. Adicionalmente, tem também
de se medir o “background” graças a uma coroa circular. Chama-se fotometria de abertura a esta técnica.

Exemplo de estrela em que se utiliza a técnica da fotometria de abertura: mede-se a quantidade de luz
(total de ADUs nos respectivos pixeis) presente num círculo de raio ~1.5 FWHM centrado nesta (ou outro
raio que maximize a SNR) – o padrão é dado pelas estrelas mais brilhantes não saturadas. Ainda, mede-
se a quantidade de luz numa coroa circular, também centrada na estrela, que inclua só “background” e,
pelo menos, três vezes os pixeis do círculo. Têm de se usar círculos e coroas circulares do mesmo
tamanho para todos os outros objectos. À direita apresenta-se um perfil unidimensional através da
estrela.
Tira-se o valor FM (do “background”) ou pela mediana ou pela média dos valores (ADU) na coroa circular.

Do valor B (em ADU) do brilho do objecto (total nos respectivos pixeis, em número npix), tiramos: 165
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Brilho (fotometria de abertura) = B – npix FM

Há rotinas (em software) que optimizam a escolha do raio a utilizar


na fotometria de abertura (a ideia é ter uma SNR o maior possível).
Um exemplo do “output” de tal software é apresentado aqui.

É fundamental que os círculos e coroas circulares estejam centrados


no centróide de cada objecto estelar (PSF) a ser medido.

O perfil de uma estrela, segundo duas


direcções ortogonais. Note-se que já
houve normalização (o valor máximo é
■ – m ; ∆ – m+0.3 ; □ – m+2.0 1).

166
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Idealmente, a calibração é feita graças a uma (ou, tipicamente, várias) estrela-padrão (não variável)
que exista no mesmo campo da CCD – assim, a extinção é igual à dos objectos de interesse.
Compara-se o brilho daquela com os destes. Chama-se fotometria diferencial a esta técnica.

Se se pretender fotometria absoluta, então tem de se recorrer a estrelas standard que têm as suas
magnitudes aparentes tabeladas com grande rigor em vários catálogos fotométricos (e.g. Bright Star
Catalogue – BSC, com ~9000 estrelas de mV < 6.5; Tycho (BV), com ~106 estrelas de mV < 10.5). Este
tipo de estrelas é pouco provável estar no mesmo campo da CCD de uma dada observação pelo que
requer uma observação específica (no entanto, costumam escolher-se as mais próximas). Também
servirá para dar uma ideia do valor da extinção interestelar (A) no momento da observação pois:

m = M + 5 log d – 5 + A

A extinção atmosférica é muito


menor que a interestelar e,
usualmente, não é considerada.

Em observações profissionais, é necessário corrigir os erros instrumentais nas magnitudes aparentes


medidas devido a usar-se equipamento diferente (incluindo filtros) daquele que estabeleceu o padrão
para as estrelas de referência. 167
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5) Trabalho de cientista/artista
Uma imagem calibrada não é, normalmente, a final.
A redução de dados só está completa quando se fez tudo o que era possível para optimizar a
imagem.
O tratamento final é, simplesmente, processamento de imagem, mas deve ser feito. Recorre a várias
tarefas de software.
Há muitos problemas com os “automatismos” de software para produzir imagens finais de “qualidade”
para a Astronomia. Por exemplo, os brilhos e contrastes saem sempre de tal forma errados que toda
e qualquer nebulosidade de baixo brilho superficial “desaparece”.

O mais importante (e óbvio) defeito a ser removido das imagens finais é o “blooming”.

O “blooming” é uma forma Só em CCDs “anti-blooming” o efeito não é tão


comum de saturação em CCDs. relevante (mas também existe, em muito menor
escala).

Este tipo de CCD evita o “blooming” ao colocar, entre as linhas de pixeis, elementos
de circuito que recolhem os electrões em excesso e os levam para o “lixo”. O preço a
pagar é a perda de 30% da área (logo sensibilidade) coberta por pixeis. Na prática,
este tipo de CCDs requer o dobro do tempo de exposição em relação às outras.

168
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O trabalho de redução de dados para a produção da imagem final resume-se, normalmente, ao


controlo do brilho e contraste da imagem de forma a que tudo o que é sinal apareça de forma óbvia.
A primeira análise que se faz da imagem é a do histograma dos valores dos pixeis. Por exemplo, no
sistema 16-bit, estes estarão entre 0 e 65535 ADU (inclusivé) mas haverá muitos em cada um dos
extremos (“mortos” ou saturados, conforme o caso). A informação sobre a linearidade da CCD deve
ser conhecida, de forma a que acima de um determinado valor (e.g. 40 000 ADU) todos os pixeis
sejam apagados ou ignorados.
À parte os pixeis “mortos” o histograma deve, depois, dar um “salto” até ao valor do “background”, na
prática idêntico ao “bias ± ruído”.

Neste exemplo (em que o sistema é o


8-bit), a única parte relevante para fazer
a imagem final é a B (gama). Na parte
C incluem-se todos os pixeis saturados
e no regime não-linear. Na parte A
estão os pixeis “mortos” e os de
“background” (a grande maioria, nesta
imagem).

169
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A gama é definida para os “pixeis de confiança”, os que serão utilizados para produzir a imagem.
Usualmente estes seriam todos os que não são “brancos” ou “pretos”, se o bias e a não-linearidade
não complicassem esta simples separação. Assim, se designarmos por “brancos” todos os pixeis
acima do valor onde a CCD começa a ser não-linear e por “pretos” todos os que valem < “bias” vem
que: gama = “branco”min – “preto”max

Assim, a análise do histograma permitirá estabelecer qual a gama de interesse para a produção da
imagem final, de forma a que o contraste seja, de facto, optimizado.

Segue-se um exemplo que concretiza o princípio de funcionamento deste processamento dos dados.

preto branco
Definição da gama: 0 ↔ 1550 ↔ 10500 ↔ 65535
gama

Veja-se como, neste exemplo, a gama final a usar é cerca de sete vezes menor que a inicial (16-bit).
Bastava um sistema 13-bit para a implementar correctamente.

As estrelas, por terem um elevado brilho superficial, não têm qualquer problema com gamas muito
largas. No entanto, para se verem na imagem final galáxias e nebulosas (de baixo brilho superficial), é
muito importante que se faça a restrição de gama como exemplificado acima. Aliás, até se pode ir
mais longe, sempre que necessário (é típico mexer mais no limite “branco” do que no “preto”).
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Exemplo de uma imagem em que a Nebulosa da Califórnia (NGC 1499) só


“aparece” quando se reduz substancialmente a gama original:
“preto”max = 1946, “branco”min = 5853 (gama = 3907). Passou-se a:
“preto”max = 2380, “branco”min = 3130 (gama = 650).

A simples análise de um histograma da imagem final pode dizer-nos muito sobre a mesma.

No exemplo seguinte, até cerca de 125 ADU temos o “background” do céu. Depois, os numerosos
“picos” que se vêm até aos valores máximos de ADU correspondem a estrelas individuais.
171
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5.2.2 Exemplos

Chegou a hora de concretizar em imagens todos os passos do processamento de dados, desde a fase
inicial de correcção, passando pela calibração e até à imagem final.

É claro que começamos sempre pela imagem bruta (“raw”).

Comecemos com dois exemplos produzidos durante as “Sextas Astronómicas” do Grupo de


Astronomia da UMa…
172
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Sirius e a Estrela Polar saturadas (campos 7.7’ × 5.1’ e 15’ × 10’). Foram observadas com o
MEADE 12” e o Mizar 4.5”, respectivamente (0.12 s) – CCD SBIG (T ~ –12ºC; T ~ +16ºC,
respectivamente). Os binnings foram 1×1 e 3×3. Em baixo os perfis respectivos.

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A Nebulosa de Orion (M42) com o MEADE 12” (campo 7.7’ × 5.1’) –


1 seg. A comparação é com uma imagem feita com um telescópio
de 20” em H (6 min = 10 × 30 s), processada – mesma CCD.

A nossa imagem, agora com uma


gama de apenas 90 ADUs.

174
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Passemos agora a um outro exemplo, onde vemos o “salto” da imagem “raw” à calibrada e à final.

175
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Finalmente, um exemplo com passos até à imagem pré-calibrada.

FRAME 1 (“raw”).

MASTER BIAS.

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MASTER FLAT.

FRAME 3 (imagem pré-calibração).

177
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5.2.3 Razão de sinal-para-o-ruído (SNR)


É fundamental o conhecimento da SNR e todos os artigos publicados com dados de CCD mencionam-na.

Só com a SNR se tem a noção da relevância dos dados: a SNR deve, no mínimo, valer 10 e considera-se
uma boa imagem quando vale mais do que 100.

A SNR pode calcular-se a partir da imagem como um todo, embora seja mais fácil fazê-lo apenas para a(s)
fonte(s) de interesse. A dita equação da CCD dá-nos o valor da SNR:
SNR = NTOT / [NTOT + npix (FM + RD + RREAD2)]0.5
onde:
NTOT ≡ número total de fotões (e.g. no perfil de uma estrela) = NTOT (ADU) × G = brilho (e-/s) × texp

npix ≡ número de pixeis na área de interesse

FM ≡ “background” (céu) em fotões/pixel = FM (ADU) × G

RD ≡ “Dark current” em e-/pixel

RREAD ≡ Ruído “read out” em e-/pixel

Para fontes brilhantes, NTOT >> npix (FM + RD + RREAD2), pelo que fica: SNR ≈ NTOT / √NTOT  √NTOT
Por definição, o desvio-padrão é tal que  = 1 / SNR. Usando um factor de conversão:
mag = 1.0857 / SNR
Finalmente, é comum também exprimir a SNR em decibéis: SNRdB = 10 log SNR 178
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Bibliografia

- Observational Astrophysics (1986), Léna, P., Springer

- Observational Astrophysics (1995), Smith, R.C., Camb. Univ. Press

- Reflecting Telescope Optics I (2004), Wilson, R.N., Springer

- Reflecting Telescope Optics II (1999), Wilson, R.N., Springer

-The New CCD Astronomy (2002), Wodasky, R.,New Astronomy Press

- Practical Astrophotography (2000), Charles, J.R., Springer

- How to use a computerized telescope (2002), Covington, M.A., Springer

- Handbook of CCD Astronomy (2000), Howell, S.B., Camb. Univ. Press

- Observing the Universe (2004), Norton, A.J., Camb. Univ. Press

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