Capitulo 4
Por você
As pessoas passam por mim e nenhuma me cumprimenta; apenas me encaram. Estou parada do
lado de fora do salão principal, com o vestido amassado, descalça. Os saltos que deveriam estar nos
meus pés, eu os seguro, aperto-os com tanta força que sei que as marcas das minhas unhas vão ficar
ali. Nem tenho coragem de me olhar no espelho; minha maquiagem deve estar borrada, e consigo
sentir que o coque que a Giovana fez em mim já se desmanchou.
Observo as pessoas saindo do grande salão; a maioria parece feliz. O alívio de não terem sido
escolhidas, ou de nenhum familiar ter sido, está estampado em seus rostos. Vejo crianças saltitando
com seus vestidos lindos, coloridos e brilhantes demais para uma ocasião tão deplorável. Então me
lembro do que disse para a Gina sobre os celestiais se arrumarem tanto para esse momento: “Isso é
porque a vida da maioria dos celestiais é banal.”
Que hipocrisia. Aqui estou eu, sentindo-me banal… e usando um vestido lindo.
Devo estar aqui há mais de duas horas, eu acho. O salão principal começa a esvaziar. Mas isso
não faz diferença, não pretendo ir embora sem o meu irmão.
— Capitã Lombardine, que honra encontrá-la aqui.
A ministra da Saúde para ao meu lado. Ela me observa de cima a baixo, e parece gostar do que vê,
pois sorri, um sorriso que vai de orelha a orelha.
— Estou tão feliz por seu irmão ter sido escolhido! Tenho me dedicado, ao longo dos anos, para que
ele estivesse preparado para esse momento. Bom... na verdade, venho preparando vocês dois. É
realmente uma pena que você não tenha sido escolhida.
Não respondo à senhorita Rita. Apenas a encaro. Tenho medo de abrir a boca e dizer algo do que
me arrependerei... ou talvez nem me arrependa, mas certamente me traria consequências grandes
demais. A ministra percebe meu silêncio e franze o nariz, embora o sorriso permaneça colado ao seu
rosto.
— Deveria estar feliz. É uma pena que vocês, celestiais, sejam tão tolos a ponto de não perceber a
honra que é ser escolhido. Mas, já que não quer falar sobre isso, não tem problema. Tenho outra
coisa para te informar. Eu… nós, ministros, decidimos que você é a melhor pessoa para fazer a
segurança do baile.
O Baile é um evento que ocorre dois dias após o anúncio dos escolhidos. É quando os celestiais se
apresentam aos humanos, tentando agradá-los e, quem sabe, conseguir patrocínio. O evento é
ridiculamente restrito: só os humanos mais poderosos têm acesso e, é claro, os celestiais escolhidos.
Até a guarda é selecionada a dedo — normalmente soldados experientes e absolutamente confiáveis.
— Senhora, eu tenho apenas dois dias para organizar a segurança do evento. Diante da importância
dele, é muito pouco tempo — digo, tentando me livrar da responsabilidade.
— Acredito que você não tenha entendido o que quis dizer. Uma menina da sua idade jamais seria
escolhida para comandar um evento de tal importância. O comandante Sampaio está encarregado de
escalar os soldados, e ele escolheu você — diz a senhorita Rita, com desdém.
Que maravilha.
— Você deveria ir para casa. Seu irmão vai demorar para ser liberado com os outros escolhidos.
Ela não espera minha resposta. Apenas se vira e entra em um carro preto, que parte rapidamente.
Então eu fico aqui.
Sozinha.
Esperando meu irmão, que só Deus sabe quando vai sair.
Aproximo-me de um pilar, apoio as costas e sinto minhas pernas desabarem. Sento-me no chão
gelado. E fico ali. Esperando.
;-;
— Violeta?
Abro os olhos.
— Você ainda está aqui. Inacreditável… ou nem tanto.
A voz vem da minha esquerda. Reconheço na hora e, por isso mesmo, não respondo; apenas fecho os
olhos de novo.
— Que crueldade. Vai mesmo me ignorar, Capitã? Confesso que estou magoado. Especialmente
porque eu ia te contar que seu irmão acabou de sair do Salão principal.
Levanto num salto, e quase esbarro em Otto. Um dos escolhidos da intendência. Claro que seria.
— Onde ele está? — pergunto, sem rodeios.
— Ah. Então é assim que se ganha sua atenção. Interessante. E pensar que bastava pedir com
educação… ou talvez sorrir. Você fica ótima quando está irritada, já reparou?
— Onde está o meu irmão, Otto.
— Tão direta. Que charme desperdiçado. Alguém desavisado jamais imaginaria que por trás desse
rostinho adorável mora um temperamento tão… afiado.
— Otto.
— Certo, certo. Ele estava com Apollo e Viktor. Se não se mataram ainda, devem estar conversando
lá dentro.
Vejo Otto abrir a boca para dizer mais alguma coisa, mas não me importo. Saio correndo e entro
no Salão principal. Honestamente, não queria voltar aqui tão cedo… mas isso não importa, porque
assim que entro vejo meu irmão. Corro na direção dele.
— Viole... — meu irmão começa a pronunciar meu nome.
O impacto do abraço que dou faz com que ele se desequilibre e cambaleie para trás. Ele ri e me
envolve com força.
— Está tudo bem, Violetta — ele afirma. — Você deveria ter ido para casa. Deve estar cansada.
— Aham.
Olho para o lado e vejo Viktor me encarando.
— Oi para você também.
— Boa noite Viktor. — Percebo que Apollo também está ali. — Boa noite, Apollo.
— Boa noite, senhorita Lombardine. — Ele pega minha mão e deposita um beijo leve sobre ela.
De repente, me sinto envergonhada por ter vindo correndo abraçar meu irmão.
Giovanni parece se incomodar com algo, porque se despede dos garotos e pega a minha mão, que
até então Apollo segurava.
Agora estamos caminhando lentamente em direção à nossa casa. Nenhum de nós diz nada. Eu até
abro a boca para tentar falar, mas nenhuma palavra me vem à cabeça. Às vezes, lanço um olhar de
canto para o meu irmão e, assim como antes, ele parece tranquilo. Tento me inspirar na calma do
Giovanni, mas não sei como ele consegue. É como se toda a ansiedade que ele deveria estar sentindo
tivesse se concentrado em mim, como se eu sentisse por nós dois.
— Está tudo bem. — Giovanni não pergunta; ele afirma.
— Você está dizendo isso muitas vezes hoje. Estou começando a achar que é uma afirmação para
você mesmo, não para mim.
— Talvez você esteja certa. — Giovanni finalmente olha para mim. Eu sustento seu olhar.
— O que eu disse antes… sobre fugir… eu estava falando sério.
Meu irmão ergue o rosto para as estrelas acima de nós. Pisca várias vezes, como se tentasse conter as
lágrimas. E então sussurra:
— Eu sei, Violeta.
— Eu tenho dinheiro guardado. Bastante. Podemos ir para outro continente. Conheço pessoas que
poderiam criar identidades novas para nós e aí…
— E aí o quê, Violetta? Nós somos rostos conhecidos. Acha mesmo que isso vai dar certo? Que
ninguém vai reconhecer a gente? Que vamos conseguir viver uma vida normal? Nós somos
celestiais. Para qualquer lugar que formos, seremos tratados como escória. No exército, nós somos
respeitados, glorificados… mas você sabe como é a vida dos celestiais fora de Arcádia. Miserável!
— As palavras de Giovanni me rasgam por dentro.
— M-mas deve haver um jeito. Tem que haver… — sussurro.
— Você tem razão, existe um jeito. Eu ganhar. Vou ganhar esses jogos. E quando isso acontecer,
meu desejo como vencedor vai ser que você seja uma exceção. Você vai poder viver sua vida sem o
medo de ser escolhida.
— Mas a que custo? — minha voz sai mais alta do que eu queria.
— ISSO NÃO IMPORTA PRA VOCÊ! Esse é o meu problema. Só… deixa eu te ajudar. — meu
irmão olha para meus olhos com raiva e desespero.
— Deixa eu te ajudar. — falo em suplica.
— Violetta, você faz isso por mim sempre. Só me deixa cumprir meu papel como irmão mais velho.
Pelo menos uma vez, me deixa te ajudar.
— Giovanni… — sussurro. — Eu lhe imploro…
— Você me acha fraco?
— O quê? Claro que não! — respondo, surpresa.
— Então confie em mim. Eu vou ganhar. Por você. Por mamãe e papai.
Fim do capitulo 4