Capítulo 2
Meu lugar favorito
Quando eu tinha 6 anos, me alistei para a escola preparatória de guerreiros de
Arcádia. Não me alistei por vontade própria, e sim por necessidade. A escola
preparatória oferecia comida e educação para as crianças celestiais, e aquelas que se
destacassem recebiam um salário para continuar treinando. Aos 6 anos, me alistei por
desespero. Uma menina órfã e celestial, que ninguém iria ajudar.
Meu irmão se alistou logo depois de mim, quando percebeu que eu estava
engordando alguns quilos e voltando a ter uma aparência saudável. Todos os dias eu me
dedicava ao máximo para conseguir me destacar. Treinava até minhas pernas cederem e
estudava até minha cabeça começar a doer ou até as palavras do livro começarem a se
embolar.
Eu não brincava com as outras crianças. Não tinha tempo, não tinha forças. Mas
todos os dias, às 19h, quando estava voltando da escola, eu parava na praça e sentava
nos bancos, onde normalmente as mães se sentam para ver seus filhos brincarem. Meu
lugar favorito. Lá eu ficava vendo as outras crianças rirem e brincarem. Às vezes eu
sentia vontade de me juntar a elas; entretanto, sempre estava cansada demais.
Antes que eu pudesse perceber, já estava fazendo isso todos os dias. Acabou fazendo
parte da minha rotina. Nunca brincar, sempre observar. Aquele banco embaixo de uma
árvore de jabuticaba se tornou meu lugar preferido no mundo inteiro.
E é aqui que eu estou agora.
A votação já começou e, em poucas horas, teremos o resultado. Todas as famílias
irão para frente da TV acompanhar a transmissão ao vivo; todos os possíveis
selecionados irão para o salão principal. Um lugar onde não há para onde correr, não há
ninguém para nos socorrer. E todos os humanos irão aguardar ansiosamente, torcendo
para que seus favoritos sejam escolhidos.
– Sabia que você estaria aqui.
Olho para trás e vejo a Giovana, minha melhor amiga.
– Oi, Gina. — digo com um sorriso fraco no rosto.
– Você não deveria estar aqui sozinha. Seu irmão está procurando por você. Ele não
quer se atrasar para chegar no salão principal — diz Giovana calmamente.
– Não estou com pressa. — Eu não quero ir, quero me esconder, sumir.
– Isso é perceptível, mas você sabe que punem quem se atrasa. É melhor se apressar.
Além disso, eu escolhi um vestido lindo para você usar hoje na transmissão. A minha
capitã favorita tem que estar linda para aparecer na TV.
– Não é como se fosse novidade, eu já apareci na TV antes. — falo, enquanto me
lembro da última vez que apareci na TV, certamente não foi agradável.
– Verdade, mas foi para falar de guerra! Agora é totalmente diferente. — Gina diz
revirando os olhos com força.
– Os dois são tragédias.
– Antes você não era CAPITÃ – diz Giovana, impaciente.
Ela segura minha mão e começa a tentar me puxar.
– Vamos, Violetta, eu quero te deixar bem bonita. Você vai ficar parecendo uma
princesa!
Enquanto a Giovana me puxa, sinto meu corpo sendo arrastado para longe da única
parte do dia em que eu realmente respirava. A praça fica para trás e, junto dela, aquela
sensação de que, por alguns minutos, nada de inesperado poderia acontecer. Agora,
conforme seguimos para minha casa, percebo que tudo ao redor parece se preparar para
o mesmo destino inevitável que me aguarda.
Quando finalmente chegamos, Giovana já começa a mexer em vestidos, tecidos e
acessórios, como se estivesse determinada a transformar o caos dentro de mim em algo
apresentável.
– Eu estou ridícula, pareço um pavão! Que tipo de pessoa se arruma tanto para um
evento desses? – digo impaciente.
– Todo mundo, Violetta. Esse é um dos eventos mais importantes na vida de um
celestial! O primeiro ano participando da seleção.
– Isso é porque a vida da maioria dos celestiais é banal. —falo como se isso já não fosse
obvio.
– Silêncio. Você está linda e pronto!
Não é que eu ache que estou feia; só acho que é demais toda essa produção. Estou
usando um vestido rosa-claro, ele bate um pouco acima do meu joelho e é todo rodado.
Tem um bordado na parte da saia que me lembra ondas agitadas do mar; a parte de cima
é lisa, com um corte retangular que evidencia meus seios, e como se não fosse o
bastante, as costas são abertas. Abertas até demais.
A Giovana fez um coque com tranças no meu cabelo; alguns cachos fogem do coque,
não de uma forma desleixada, mas charmosa. O meu cabelo foi a única coisa que me
agradou. A Gina fez uma maquiagem leve em mim, apenas blush e gloss, mas eu ainda
sinto a sensação de estar suja.
Mal termino de respirar fundo e minha amiga já me empurra “gentilmente” para fora
de casa, repetindo que não podemos nos atrasar. O ar fresco que bate no meu rosto
deveria me acalmar, mas só deixa mais evidente o contraste entre quem eu pareço ser —
uma garota perfeitamente arrumada — e o turbilhão que se agita dentro de mim.
No caminho até o salão principal, observo as luzes, as pessoas apressadas, a
excitação dos humanos e o medo quase palpável dos celestiais. Cada passo parece ecoar
mais alto que o anterior, como se me avisasse que não há retorno possível.
;-;
Ao chegar no grande salão, vejo meu irmão no exato lugar onde ele disse que estaria.
Giovanni está impaciente: fica olhando para o relógio, ajeitando a gravata, passando a
mão no terno e batendo o pé esquerdo repetidamente no chão. Quando ele finalmente
nos vê, parece entrar em total euforia. Vem andando rapidamente em nossa direção,
quase derrubando as pessoas que estão no seu caminho.
– Finalmente vocês chegaram – ele dá um beijo na bochecha da Gina e me pega pelo
braço – vamos rápido, estamos atrasados, daqui a pouco vai começar a transmissão!
Giovanni me puxa para longe, e eu apenas olho para a Gina, que está parada
acenando em sinal de despedida. Ela ainda não tem idade para ser selecionada, por isso
fica em outro local. Olho para ela em desespero; ela apenas ri e em seguida some na
multidão.
Meu irmão me leva até nossos assentos, ajeita a gravata mais uma vez e então
finalmente olha para mim. Ele analisa o que estou vestindo. Primeiro olha para meu
salto branco e então vai subindo o olhar para o vestido, por fim chegando ao meu rosto.
– Você está adorável. A Giovana te ajudou a se arrumar?
Aceno positivamente com a cabeça.
– Ela fez um bom trabalho, realçou sua beleza. Você está parecendo um anjo, nem
parece que é uma soldada bem treinada que já tirou milhares de vidas. — Meu irmão
diz com um tom exagerado de sarcasmo as últimas palavras.
– Eu não matei muitas pessoas.
– Não diretamente. — Meu irmão diz. Eu reviro os olhos.
Reiner, o jornalista, finalmente sobe no palco e começa a falar:
– Atenção, meus queridos celestiais, a transmissão começará em 1 minuto. Peço que se
sentem e permaneçam em silêncio.
Está chegando o momento do anúncio dos azarados do ano. Agora entendo o
nervosismo do Giovanni, tudo isso é surreal. O clima fica pesado, as pessoas param de
falar, alguns rostos estão pálidos de medo. Ao longe, avisto Mabel e Viktor sentados.
Mabel aperta a mão do irmão e parece lhe dizer palavras de consolo. Olho para meu
irmão e penso se deveria fazer o mesmo, mas nada de bom me vem à cabeça para dizer.
Não consigo ver um lado positivo nessa situação.
Então a transmissão finalmente começa. No palco, Reiner entrevista os vencedores
dos últimos anos, alguns famosos humanos e ministros do grande conselho. É uma
grande enrolação até ele finalmente começar a falar sobre os escolhidos deste ano.
– Eu estou ansioso para saber quem foram os escolhidos deste ano! Você tem algum
palpite, Catharina? – Reiner pergunta à vencedora do ano anterior.
– Nenhum palpite, Reiner. Os ministros sempre conseguem nos surpreender com suas
escolhas! — A celestial responde com animação, falsa certamente.
– Isso é verdade, mas agora chega de enrolação, vamos começar a anunciar os
vencedores deste ano!
O jornalista vai para o meio do palco e uma assistente se aproxima dele com
envelopes, um para cada província de soldados. Nós temos 13 jurisdições: infantaria,
cavalaria, artilharia, engenharia, intendência, comunicações, material bélico, saúde,
administração, tecnologia da informação, paraquedistas, aviação e, por fim, o meu,
operações especiais.
De cada jurisdição é escolhido um celestial, podendo ser homem ou mulher. Todo
ano selecionam cinco distritos para selecionarem celestiais a mais. Este ano, os
escolhidos foram: infantaria, paraquedistas, intendência, artilharia e saúde. Como de
costume, Reiner começa anunciando os escolhidos das províncias que têm mais
participantes.
– Primeiramente, vamos começar pela infantaria, essa é minha jurisdição favorita!
Muitos dos vencedores vieram desse distrito! Inclusive nossa amada Catharina,
vencedora do ano passado!
Catharina levanta a mão brevemente e sorri.
– Então, vamos começar! Este ano não temos nenhuma senhorita da infantaria
participando, apenas três rapazes. O primeiro deles é conhecido por sua aparência de
galanteador e seu sorriso que faz o coração de todas as jovens amolecer. No último ano,
esse rapaz se destacou com sua incrível performance no campo de batalha, como líder
do maior batalhão que nosso exército já teve. E aí? Já sabem quem é? — O apresentador
diz enquanto se move de um lado para o outro no palco.
Impossível não saber. Um acontecimento tão recente como o maior batalhão que
Arcádia já teve não seria esquecido tão rápido. Algumas pessoas começam a cochichar;
vejo até umas garotas choramingarem.
– Apollo Miller, da infantaria. Venha até o palco.
Uma luz forte vai na direção de Apollo, que está se levantando e indo em direção ao
palco. Ele está ridiculamente bonito, como sempre; não é à toa que é conhecido por
amolecer o coração de qualquer mulher. Quando se aproxima do palco, ele olha para
trás, como se procurasse alguém. Passa a mão nos seus cabelos loiros demoradamente e
continua procurando esse alguém.
– Senhor Miller, venha até mim. Tenho certeza de que todos estão ansiosos para saber
quem serão os outros membros da infantaria escolhidos junto com você – diz Reiner.
Apollo parece decepcionado, mas não pelo fato de ter sido escolhido; parece ter
outra coisa o incomodando. Ele vai em direção ao jornalista em passos lentos, com as
mãos nos bolsos da calça e um olhar vazio. Quando finalmente sobe no palco, apenas
acena com a cabeça na direção de Reiner, que o repreende com o olhar. O correto seria
Apollo falar algumas palavras antes de ir para o local destinado aos escolhidos, que fica
mais ao fundo do palco, mas ele apenas passa reto pelo jornalista.
Reiner se recompõe rapidamente, e então, anuncia o próximo escolhido.
– Agora vamos para o segundo membro da infantaria escolhido. Esse eu tenho certeza
que todos vocês conhecem. Ele é muito conhecido por ser carismático e extrovertido.
Não tem como não amar esse garoto. Viktor Romanov, venha se juntar a nós.
Eu olho rapidamente para meu irmão antes mesmo do apresentador terminar de falar
o sobrenome de Viktor. Ele e meu irmão são melhores amigos. Giovanni está olhando
fixamente para onde os Romanov estão sentados, mas a expressão no seu rosto não é
como eu esperava. Meu irmão parece calmo, como se já esperasse por isso. Seu rosto
está abatido, mas sem nenhuma expressão de medo ou angústia. Talvez eles não fossem
tão amigos assim.
Olho para o local onde vi os Romanov sentados antes. Mabel está aos prantos,
segurando o braço do irmão com muita força e parece implorar para que ele não vá.
Viktor está em pé tentando se soltar da irmã, enquanto fala alguma coisa para ela.
Mirella, que está sentada ao lado de Mabel, a segura forte, fazendo com que a garota
finalmente solte o irmão.
Olho para cima, para o lugar onde os humanos ficam sentados. Eles estão felizes,
sorrindo enquanto comem e bebem. Os humanos estão se divertindo com o nosso
sofrimento. É óbvio — eles não correm o perigo de serem escolhidos ou de ouvirem o
nome de alguém querido sendo chamado.
Olho para trás, para o lugar onde os familiares e celestiais sem idade para participar
ficam. Eles estão em angústia, percebo isso em seus rostos.
– Jovem, como se sente em ser escolhido para participar dos jogos?
Eu me assusto com a pergunta de Reiner, que me tira de meus pensamentos,
fazendo-me virar para frente. Viktor parece paralisado; demora para responder.
– Confesso que não estava esperando, mas pretendo dar meu melhor para sair vitorioso.
– É assim que se faz, meu jovem – diz Reiner com um sorriso no rosto.
Romanov vai até Apollo, que lhe oferece um aperto de mão. Ambos parecem
conversar pelo olhar; não trocam palavras em voz alta, mas seus olhos dizem tudo.
Viktor se posiciona no palco e então olha em direção à plateia. Nossos olhares se
encontram. Eu fico paralisada. Eu deveria sorrir? Não, talvez pareça que estou caçoando
dele.
Eu não sei o que fazer. Talvez ele esteja esperando alguma reação minha, já que não
desvia o olhar, ou talvez esteja esperando que eu desvie primeiro. Fico sem saber o que
fazer, apenas continuo encarando aqueles olhos cor de mel.
– Violetta?
Olho na direção do meu irmão.
– Está tudo bem?
– Sim.
Volto a olhar para Viktor, mas ele já não está mais me olhando.
– Você está bem, irmão?
Ele não me responde.
O silêncio dele pesa mais do que qualquer palavra poderia. Mesmo assim, não temos
tempo para falar sobre isso — Reiner já chama o próximo nome, e o salão inteiro se
movimenta como se estivesse respirando em uníssono.
A cerimônia continua, lenta e cruel, como se estivesse saboreando cada segundo da
nossa angústia. Mais nomes são anunciados, mais vidas são arrancadas de seus lugares
seguros. E eu continuo ali, tentando manter o controle enquanto o medo se acomoda nos
meus ossos.
;-;
Isso parece não ter fim. Reiner continua falando o nome dos escolhidos; alguns vão
felizes até o palco, como se tivessem certeza de que vão ganhar. Outros parecem tão
nervosos ao ponto de desmaiar.
– Agora finalmente vamos falar do último participante do distrito da saúde, uma bela
moça. — O jornalista olha para a plateia com um olhar desafiador. — Será que vocês
têm algum palpite? Essa escolhida é uma garota extraordinária, que se destacou muito
no seu distrito, sendo reconhecida até mesmo pela ministra da saúde!
Essa foi uma péssima dica. A senhorita Rita, nos últimos dois anos, vem treinando
muitos celestiais para seu distrito. Todos altamente treinados e resilientes.
– Vamos lá, pessoal, eu quero palpites! – Reiner diz cantarolando.
Os humanos começam a gritar nomes. Reiner se diverte com a gritaria.
– Certo, certo, pelo visto vocês têm muitos palpites. Mas agora vamos descobrir se
algum de vocês acertou. Senhorita Mabel Romanov, venha se juntar a mim e ao seu
irmão.
Eu sinto um aperto no coração. Mabel já estava abatida antes porque seu irmão foi
escolhido, e agora ela terá que se juntar a ele. Então passo meu olhar pelos bancos,
tentando achá-la, mas falho miseravelmente. Aparentemente Reiner também falhou,
porque ele chama Mabel novamente:
– Senhorita Mabel Romanov?
Não demora muito para as pessoas começarem a cochichar entre si.
– Você viu para onde a Mabel foi? – pergunto ao meu irmão.
– Eu vi ela se levantando um pouco depois de o Viktor subir no palco, mas não prestei
atenção – meu irmão responde sem olhar para mim. Ele está passando os olhos por todo
o salão, imagino que tentando encontrá-la.
– Senhorita Mabel Romanov, venha até o palco.
Reiner agora está sem paciência; seu rosto deixa óbvio que ele está estressado. Hoje
certamente não é o dia dele. Felizmente, não demora muito até Mabel aparecer. Ela está
andando calmamente até o palco. Seu rosto está um pouco molhado e parece que tirou a
maquiagem às pressas, pois ainda há alguns vestígios no rosto. A Romanov não sorri,
não olha para ninguém; ela parece já ter aceitado.
Quando sobe no palco, Reiner não faz perguntas. É óbvio para todos que tenham
olhos que Mabel está abatida. Reiner é um pouco compreensivo e a deixa se juntar aos
outros sem importuná-la.
Pela primeira vez desde que a transmissão começou, minhas mãos soam. É como se
cada parte de mim gritasse para correr, para desaparecer. Ninguém vai me estender a
mão, mesmo que sinta pena. O medo de ser escolhida me devora inteira, como se
estivesse me arrancando de dentro para fora.
Olho para meu irmão e a ideia de vê-lo sendo chamado me destrói ainda mais.
Quero correr, pegar sua mão e fugir para longe.
Mas então percebo que não há para onde correr.
Fim do capitulo 2