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Trbo

O documento explora a arbitrariedade da linguagem, distinguindo entre o arbitrário e o livre, e argumenta que a língua é um sistema dinâmico que articula pensamento e som. A diacronia é apresentada como uma série de mudanças pontuais que afetam o sistema linguístico, enquanto a redefinição contemporânea vê a língua como um Sistema Adaptativo Complexo. Além disso, discute a impossibilidade de simultaneidade na linguagem verbal, que impõe uma linearidade na expressão do pensamento.

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O documento explora a arbitrariedade da linguagem, distinguindo entre o arbitrário e o livre, e argumenta que a língua é um sistema dinâmico que articula pensamento e som. A diacronia é apresentada como uma série de mudanças pontuais que afetam o sistema linguístico, enquanto a redefinição contemporânea vê a língua como um Sistema Adaptativo Complexo. Além disso, discute a impossibilidade de simultaneidade na linguagem verbal, que impõe uma linearidade na expressão do pensamento.

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A Arbitrariedade Radical: O "Contrato Social" Invisível

Aprofundar a arbitrariedade exige distinguir entre o arbitrário e o livre. Embora o signo seja
arbitrário (sem razão lógica), ele não é livre para o falante.
* A Imutabilidade: O indivíduo não pode alterar o signo. Se eu decidir chamar uma "cadeira" de
"avião", não serei compreendido. O sistema é uma herança social que se impõe pela sua própria
massa e antiguidade.
* A Mutabilidade: Paradoxalmente, porque o signo é arbitrário, o tempo pode alterá-lo. Como
não há uma "âncora" natural prendendo o som ao conceito, a língua desliza. A palavra
latina calidus tornou-se "quente" em português. Essa mudança só é possível porque o laço
original era imotivado.

1 A Língua como "Articulus" (A Divisão do Caos)


Este ponto é o ápice do capítulo. Imagine o pensamento como uma massa de ar e o som como
uma massa de água. Sem a língua, seriam dois fluxos amorfos. O sistema de signos funciona
como a articulação entre essas duas massas.
* O Acto da Significação: Ocorre no momento em que o sistema de signos "recorta"
simultaneamente uma fatia de pensamento e uma fatia de som.
* A Conclusão Ontológica: A língua não é um meio de comunicação que transporta
pensamentos prontos; ela é a condição de possibilidade para que o pensamento se
torne distinto e comunicável. Fora do sistema de signos, o pensamento é apenas um murmúrio
confuso e inalcançável.

A Diacronia como Sucessão de Sincronias


A diacronia não é um sistema, mas uma série de eventos que alteram o sistema. Saussure
argumenta que a língua nunca muda em bloco; as mudanças são pontuais e afetam elementos
isolados:
* O Evento Diacrônico: Uma alteração fonética ou semântica ocorre. Inicialmente, ela é um fato
de parole (fala).
* A Reordenação Sistêmica: Quando essa mudança é absorvida pela langue (língua), o sistema
inteiro se reajusta para manter o equilíbrio das oposições. O valor de um signo muda porque o
"vizinho" mudou.
* A "Cegueira" da Evolução: A diacronia é acidental e assistemática. O sistema (sincronia) é que
é responsável por conferir sentido ao que restou após o impacto da mudança histórica.

Redefinição do Conceito de Sistema Linguístico


A linguística contemporânea tem progressivamente abandonado a concepção da língua como
um sistema estático de regras abstratas e invariáveis. Em seu lugar, ganha força a noção de
língua como um Sistema Adaptativo Complexo (SAC), isto é, um sistema dinâmico, sensível ao
uso, ao contexto e às interações sociais. Nessa perspectiva, a língua assemelha-se menos a um
tabuleiro de xadrez — com movimentos previamente definidos — e mais a um organismo vivo
ou a um ecossistema, no qual múltiplos elementos interagem, se ajustam e se transformam ao
longo do tempo.
Essa abordagem implica uma mudança epistemológica significativa: as estruturas linguísticas
deixam de ser vistas como entidades autônomas e passam a ser compreendidas como padrões
emergentes do uso social da linguagem. Três princípios fundamentais sustentam essa
redefinição:

Arbitrariedade Sistêmica: Além do Léxico


Muitas vezes, a arbitrariedade é reduzida à ideia de que "cada língua dá um nome diferente para
a mesma coisa" (ex: mar, sea, mer). Saussure vai além: a arbitrariedade é sistêmica.
Isso significa que a língua não apenas rotula conceitos pré-existentes na natureza; ela recorta a
realidade de forma arbitrária.
* Exemplo das cores: O espectro luminoso é contínuo, mas cada língua decide onde termina o
"azul" e começa o "verde". Algumas línguas possuem apenas três termos para cores, enquanto
outras possuem dezenas.
* Consequência: A língua não é uma nomenclatura. Ela é uma forma que organiza uma massa
amorfa de pensamento. O conceito (significado) é tão arbitrário quanto o som (significante).

A Impossibilidade de Simultaneidade
Na língua verbal, é impossível pronunciar dois elementos ao mesmo tempo para fundir seus
significados. Essa restrição física impõe uma "ditadura da sucessão":
* Limitação Biológica e Sistêmica: Nossa aparelhagem fonadora e nossa percepção auditiva são
lineares. Não podemos dizer "casa branca" sobrepondo as duas palavras; precisamos escolher
qual virá primeiro.
* O Contraste com o Pensamento: O pensamento pode ser multidimensional e simultâneo
(podemos visualizar uma casa e sua cor ao mesmo tempo), mas a língua nos obriga a "desfiar"
esse pensamento em uma linha única.

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