AO SABOR DO GÊNERO: UMA LEITURA DE “INICIADO DO
VENTO”, DE ANÍBAL MACHADO.
O fato é que cada escritor cria seus precursores. Seu trabalho modifica nossa concepção do
passado, como há de modificar o futuro.
(Jorge Luis Borges).
GONÇALVES, Gracia Regina1
RESUMO: O presente trabalho visa empreender uma leitura do conto “O iniciado do vento”,
publicado na obra A morte da porta estandarte e outras histórias (2002), de Anibal Machado,
calcada nos pressupostos dos estudos de gênero e sua injunção na constituição de
subjetividades. Acredito que o conto, ao apresentar uma trama de suspeição de envolvimento
afetivo entre duas personagens masculinas, propositalmente, procede a uma diluição de
fronteiras no nível da ética, estabelecendo uma tensão que permanece não resolvida,
antecipando, assim, posturas filosóficas relativas, em especial, à masculinidade, conforme
identificada e analisada por Elisabeth Badinter (1993) e, por extensão, a pressupostos
associados às categorias de gênero vistas, também, por tantos outros e outras, como Jane Flax
(1994) e Judith Butler (1993), como um construto social a ser desmistificado.
PALAVRAS-CHAVE: Anibal Machado, Estudos de gênero, Masculinidade, Conto moderno.
A constituição do olhar como o vilão que tende a configurar os sujeitos e suas
identidades está mais do que nunca presente em um texto que antecede, em décadas, a outros
de caráter pretensamente mais integrados ao contexto dos estudos de gênero. Trata-se de “O
iniciado do vento”, de Aníbal Machado, pertencente a sua coletânea A Morte da Porta
Estandarte e Outras Histórias (1959), mais conhecida pelo conto que lhe dá o título. Além
deste, outros como “O Piano”, traduzido para o inglês na antologia The World of the Short-
Story (1990) ou, ainda, “Viagem aos Seios de Duília” e “Tati, a Garota”, adaptados para a tela
do cinema, também ganharam largo reconhecimento do público.
1 Professora Associada IV da Universidade Federal de Viçosa. Atua principalmente nos seguintes temas:
Literatura e gênero; Pós-colonialismo; Literatura e ecocrítica.
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Contemplado tacitamente pela crítica, “O iniciado do vento” tem sido lido como
um confronto alegórico de duas eras – a da sociedade agrária versus a da urbanização
no Brasil de meados do século XX, conforme o faz Márcia Azevedo Coelho (2009), em sua
tese de doutoramento, na qual explora algumas vertentes que abordam a questão; por exemplo,
tratando-se de uma jornada de retorno do protagonista a um ponto cíclico de sua trajetória, esta
pode ser vista dentro de um plano mítico do herói em torno de sua superação. Outra possível
leitura, apresentada pela autora, apropria-se, via Todorov, do fantástico, enquanto estratégia de
camuflagem de tabus e estranhamentos de cunho social.
O presente trabalho visa empreender uma nova focalização deste texto literário calcada
nos pressupostos dos estudos de gênero e sua injunção na constituição de subjetividades, em
especial no que tange a parâmetros de masculinidade estabelecidos via-de-regra pelo senso-
comum. Acredito que o conto, ao apresentar uma trama de suspeição de envolvimento afetivo
entre duas personagens masculinas, propositalmente proceda a uma diluição de fronteiras no
nível do comportamento e da ética, estabelecendo uma tensão que permanece não resolvida,
antecipando, assim, posturas relativas, em especial, à masculinidade. À luz, especialmente, da
filósofa francesa Elisabeth Badinter (1993), este estudo busca evidenciar na narrativa de Aníbal
Machado a tônica da fluidez que caracterizaria este construto, ao mesmo tempo que a
associaria, sub-repticiamente, à representação deste fator pulsante no texto, a consolidação de
um imaginário masculino num país a emergir do passado.
Talvez esta faceta de complexidade, inerente às caracterizações da trama, explique a
receptividade relativamente menor da obra no período de sua publicação. Na narrativa, em
contexto de modernização do Brasil, acontece a justaposição de um engenheiro de estradas,
José Roberto, ou Zé Roberto, como vem a ser chamado, e Zeca da Curva, um menino do campo,
ingênuo e sonhador, uma versão moderna do beau-sauvage. O primeiro “José”, após sua
passagem pela cidadezinha do segundo, refúgio para o qual viera em busca de um clima de
repouso (insisto nos prenomes pois considero a coincidência fonética entre ambos um marco
significante de identificação mútua), vê-se, inusitadamente, tornar-se réu em um processo
penal envolvendo o garoto, que, misteriosamente, desaparecera. Obliterando-se a
possibilidade de uma factual relação homoafetiva, ainda um tabu para a época, é dada, no conto,
ênfase na equiparação dos dois perfis díspares que se aproximam, conduzindo o olhar para dois
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estratos sociais antagônicos, em termos de uma hegemonia ideológica, social e
econômica. Sobremaneira, a despeito do sim, a partir de provas meramente
circunstanciais levantadas no texto, ou do não, abrir-se-ia um espaço importante para
considerações da ordem discursiva, relativa ao descrédito de parâmetros essencialistas e
estereotipados no âmbito da interpretação de papéis em sociedade e da respectiva formação
de juízos de valor, previamente estabelecidos, em torno da concepção de uma, à época,
desejável masculinidade.
O que ora se pretende mostrar é o quanto carece de definição o campo da verdade,
atrelada, invariavelmente, segundo Foucault (1987), aos meandros do poder.
A fim de melhor discutir os aspectos pertinentes a esta proposta, faz-se necessário um
breve levantamento do contexto histórico que explicaria as condições de possibilidade da
produção desta trama.
Embora mantenha um padrão inclusive taxado de classicizante na representação do
campo e da cidade, Aníbal Machado faz perceber o trânsito, nem sempre harmônico entre duas
instâncias, desnudando o embate de visão de mundos neste período. O fenômeno dá mostras de
ressonância num estudo que faz José Miguel Wisnik (2002) ao traçar um panorama da pulsação
do país nos anos pós-construção de Brasília, no qual enfatiza uma febre de modernidade em
choque com condições ainda precárias de um país alicerçado numa aristocracia rural. Segundo
o autor:
O impacto de uma brasília contundentemente real e espantosamente inconsistente foi
acusado também, de modo próprio, em Visão do esplendor de Clarice Lispector e na
“Tropicalia” de Caetano Veloso. Esse impacto parece dizer que o Brasil está a toda
distância e nenhuma do moderno, e que Brasília faz isso visível como nunca, no ponto-
nó em que arcaico e moderno não aparecem em linha sucessiva, mas como pólos de
uma mesma corrente sincrônica (WISNIK, 2002, p. 178).
Esta discrepância pode ser ilustrada a partir do sistema jurídico, cujo aparato não se
mantém uniforme nas diversas localidades que abrangem as fronteiras para além dos grandes
centros da época. Wisnik (2002) retoma a questão ao identificar a falibilidade da aplicação das
leis devido a diversos fatores inerentes a cada qual destas localidades, por sua vez, sujeitas ao
frágil perfil educacional da população e, decorrente disto, à não conscientização da cidadania e
precariedade vigente das condições de mão-de-obra. Em suas palavras,
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Resumo do Brasil: a lei não faz sentido na formação ancestral brasileira, e,
sob pena de continuar a não fazê-lo ad aeternum, não estabelece e estabiliza
o simbólico – é regra ambivalente e arbitrária oscilando insidiosamente entre a
violência e a retórica. (WISNIK, 2002, p. 184).
A vulnerabilidade acima identificada no corpo da lei estender-se-á, em “O iniciado do
vento” (1959), à lei dos corpos; isto é, a partir de um fato misterioso, estabelece-se um processo
de desintegração da subjetividade do protagonista, baseada unicamente em um entendimento
de certa transgressão do código padrão de comportamento, o que incorreria na desqualificação
discursiva desta personagem enquanto genuinamente masculina. A um engenheiro, como o
referido José Roberto, se adequaria um perfil apolíneo, não afeito a considerações sensoriais ou
subjetivas, jamais se mostrando vulnerável, por exemplo, psicologicamente, ao impacto de uma
ventania, ou de uma brisa, ao que caberia tão somente uma abordagem dentro de um ponto de
vista fenomenológico, isto é, considerar-se tal como um mero fenômeno da natureza, nada mais.
Para além, do mérito da relacionamento em si entre os dois protagonistas, contemplado em
estudos recentes como plausível, a partir da produção cinematográfica O menino e o vento, de
Carlos Hugo Christensen, considerada a pioneira nos interesses da causa LGBTQIA+, esta
questão ética e o horizonte de expectativas em torno do sujeito masculino, detonariam o conflito
motor da trama o qual, contrapondo duas matrizes discursivas, deixa a nu todo um grupo social
cuja voz se coloca, via ironia dramática, sob alvo de uma crítica atenta à formação da imagem
calcada no gênero e seus estereótipos. A análise desses dois protagonistas em questão traria,
portanto, à tona, a falibilidade do conceito de masculinidade, desestabilizando a crença em uma
idealização irredutível das características que este conceito abarcaria, considerando-se suas
especificidades, âmbito e contextos vários.
Nesse diapasão, recorremos a alguns estudos teóricos, como o de Elisabeth Badinter,
que disseca a identidade masculina em seu XY: sobre a identidade masculina (1993),
apresentando várias facetas, as quais fugiria ao nosso escopo explorar na íntegra; torna-se,
porém, interessante, ponderar como a autora elenca tipos excludentes que se distinguiriam por
“graus” de virilidade, desde o que chama de “homem-mole”, a exemplo daquele que “lava-
pratos”, ao “homem duro”, mais irascível, violento, que se teria por um ideal, uma pretensa
masculinidade plena. Colocando a ambos, naturalmente, sob rasura, ela propõe o “homem
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reconciliado”, um sujeito mais desvencilhado de convenções, uma visão, hoje, após
trinta anos da publicação se seu trabalho, mais palpável aos nossos olhos.
Isto posto, relativamente à trama de “O iniciado do vento”, deve-se realçar o caráter de
processo, prática, mesmo treino, que a teórica destaca ser necessário à constituição do sujeito
masculino, levantando de forma contundente um conjunto de rigorosas premissas que soam
como uma espécie de karma para o mesmo. Diz a autora:
Ser homem significa não ser feminino; não ser homossexual; não ser dócil,
dependente ou submisso; não ser efeminado na aparência física ou nos gestos; não ter
relações sexuais nem relações muito íntimas com outros homens; não ser impotente
com as mulheres (BADINTER, 1993, p.117).
Realçando o caráter aleatório que antevê na determinação das categorias binárias ela
ainda pondera: “Ser homem se diz mais no imperativo do que no indicativo. A ordem “seja
homem”, tão frequentemente ouvida, implica que isso não é tão evidente e que a virilidade não
é, talvez, tão natural quanto se pretende (BADINTER, 1993, p.3). Finalmente, ela resgata
Norman Mailer, quando este melancolicamente conclui que ser homem “é a batalha sem fim
de toda uma vida” (BADINTER, 1993, p.113).
Jane Flax (1994), por sua vez, destaca que:
Na perspectiva das relações sociais, homens e mulheres são ambos prisioneiros das
relações de gênero, embora de modos altamente diferenciados mas inter-relacionados.
O fato de que os homens pareçam ser e (em muitos casos) sejam os guardiães, ou pelo
menos os tutores, dentro de uma totalidade social, não nos devem cegar em relação à
extensão em que eles, igualmente, são governados pelas regras de gênero (FLAX,
1994, p. 227-228).
A partir dos argumentos acima, pode-se avaliar o que representaria para a sociedade
brasileira de meados do século, rural ou urbana, o homem que não se afirma enquanto
representante dos padrões vigentes; por outro lado, a volta nostálgica a um lugarejo paradisíaco,
parado no tempo, mescla expectativas: o reinado do concreto, obliterará para sempre a
percepção da natureza? A arquitetura rígida a se erigir na capital do futuro parece ter despertado
o inconsciente de Aníbal Machado; ele escreverá então para despertar sentidos latentes, ou
agonizantes?
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A provocação nos remete, mais detalhadamente, ao enredo do conto. Este se
desenvolve a partir da focalização do referido engenheiro, figura principal que, por
vezes assume a narrativa. Tendo em vista ter presenciado a morte de cinco operários em um
acidente de trabalho, não coincidentemente, na construção de uma ponte, José Roberto, pós-
trauma, escolhe um vilarejo como ambiente de repouso e, lá, estabelece uma amizade com Zeca
da Curva, nativo do lugar. Ao jovem, naturalmente, interessa o trabalho, e, então, passa a
desempenhar o papel de guia do engenheiro, numa insólita disposição de ambos de usufruírem
do fenômeno do vento contínuo que soprava no local. Conforme previamente investigado por
Zé Roberto, as condições geográficas da localidade propiciavam uma visibilidade ímpar do
fenômeno. Não surpreendentemente, o misterioso desaparecimento do menino, culmina com a
imputação de Zé Roberto de homicídio. A trama com colorações surrealistas chega, contudo, a
um desfecho favorável ao réu, mediante sua habilidade em lidar com as palavras e reverter a
opinião pública. O depoimento em primeira pessoa, uma autodefesa do engenheiro, o qual
dispensara qualquer advogado, talvez não surtisse tamanho efeito, caso não tivesse sido
acompanhado de uma cronometrada interferência do vento, que, como uma solução deus ex
machina, adentra o recinto no final do julgamento e desbarata as páginas do processo para a
comoção geral.
A consistência da leitura Coelho (2009), que, em várias instâncias, associa à rejeição do
mundo capitalista a adoção da prática de apreciação do vento, pode ser questionada ao se
vislumbrar por entre as brumas da crítica materialista a sugestiva marca do gênero.
Extremamente criteriosa, diga-se de passagem, a estudiosa evita, através de eufemismos,
paráfrases e outros recursos retóricos, a admissão de um latente veio homoerótico na relação
entre ambos. Contudo, quanto à retórica da argumentação de Zé Roberto, que dispõe, com
sucesso, de todas as suas fichas, ao trazer para a mesa o aspecto transcendental inerente à sua
percepção da natureza, por outro viés, e a despeito de sua própria fala, traz também a
reafirmação do livre-arbítrio, e a condenação, sim, à incapacidade de se pensar com isenção na
liberdade dos corpos. Nesse ponto, é oportuna a teorização de Judith Butler quando afirma que:
A categoria de sexo é, a princípio, normativa: é o que Foucault chama de ideal
regulador. Nesse sentido, então, sexo não somente funciona como uma norma, mas
também é uma parte de uma prática reguladora que produz os corpos que governa,
isso é, cujas forças reguladoras tornam-se claras como um tipo de poder produtivo, o
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poder para produzir – demarcar, circular, diferenciar – os corpos que
controla2 (BUTLER, 1993, p.1. Tradução nossa).
Seria, talvez, porém, de se questionar, na organização da coletânea, o lugar de fala do
autor, se o segundo lugar dado ao conto no sumário da antologia, não seria já uma forma sutil
de dar visibilidade à questão, qual uma semente sutilmente “jogada ao vento”?
A seguinte passagem descortina uma perspectiva contrária, a princípio, à audiência que
o ouve:
Preciso contar, Sr. Juiz, como se foi formando entre nós esse estado de espírito. Eram
encontros e diálogos quase diários em face e dentro mesmo das correntes de ar que
percorrem esta cidade, onde a vítima era tida como um vagabundo, fazedor de
biscates. Talvez um solitário e, por certo, um incompreendido. Eu trocava pela sua
intuição poética a minha experiência de adulto e meus vagos conhecimentos de
meteorologia.
A princípio cheguei a pensar que ele estivesse alimentando os meus caprichos, em
busca de gorjetas ou de qualquer proteção de minha parte. Depois…depois é que vim
a descobrir nele um verdadeiro iniciado do vento (MACHADO, 2002, p. 41-42).
Na dinâmica acima descrita há, paradoxalmente, uma sugestão aventada por Coelho, comum a
sociedades tribais, de um rito de passagem, o qual implicaria uma exacerbação de demonstração
de força para se fazer jus ao status de sujeito-homem. Numa linha mais histórica, ela qualifica,
porém, o arrebatamento de Zé Roberto como uma apologia à liberdade, em detrimento da
aceitação do trabalho enquanto força motriz da caracterização da personagem. De acordo com
a estudiosa,
Quando de volta ao hotel, entrou na sala de refeições, os poucos hóspedes que
jantavam, olham para o engenheiro de maneira recriminatória – ele já havia
encontrado o menino. Nessa passagem, havemos de ponderar que é a impressão de
José Roberto, talvez por ter junto à sensação de liberdade, o julgamento de uma ação
2 The category of “sex” is, from the start, normative; it is what Foucault has called a “regulatory ideal”. In this
sense, then, “sex” not only functions as a norm, but is part of a regulatory practice that produces the bodies it
governs, that is, whose regulatory force is made clear as a kind of productive power, the power to produce –
demarcate, circulate, differentiate – the bodies it controls .
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que, de certa forma o diferenciava do grupo, caracterizando-se assim como
uma forma de ruptura social (COELHO, 2009, p. 196).
O que se sente, embora de maneira tácita, neste caso, é que o deslumbramento desse ser
racional com um elemento da natureza tende a “feminilizá-lo”, embora o comentário vago
equacione sua atitude com um outro tipo de lampejo de “ruptura social”; assim, oblitera-se uma
componente no horizonte de expectativa dos adultos: se o deleite pueril do rapaz torna-o
“estranho” , aos que o assistem, torna-os preconceituosos, num viés típico, ligado à
interpretação e reação homofóbicas. O fato fortuito incompreendido vem a ser habilmente
desviado dessa lente através da bem fundamentada retórica de Zé Roberto, com seu sedutor
apelo a uma possível identificação mútua através “da arte”: uma “arte de se ver”.
Seria, talvez, portanto de se questionar, sobre a possível intencionalidade do autor, se o
mesmo, na organização da coletânea, ao determinar o segundo lugar ao conto no sumário desta,
não seria uma forma sutil de dar visibilidade à questão. Tal e qual uma semente sutilmente
“jogada ao vento”?
Adiando-se, porém, esta particularidade para uma futura reflexão, voltemos à tessitura
discursiva dos diálogos e dos perfis que compõem, na história, a gama da “cor local”. Acredito
que mais importante do que se apurar se houve alguma transgressão aos códigos lavrados da
época, deva-se destacar, lembrando Butler (1993), sob que condições de possibilidade ocorre a
aproximação dos dois protagonistas e a percepção da mesma; quais estereótipos atuam como
“pano de fundo” do problema, como também, pelo mesmo motivo, sob que limitações se
constitui o horizonte contextual daquelas pessoas, restritas em termos de seu tempo e espaço.
Desta feita, uma moeda de troca que contemplasse algo tão impalpável, como o vento,
como ilustra a passagem abaixo, soaria inviável:
A nossa intimidade, Sr. Juiz, foi assim crescendo à base de vento. Encontrávamo-nos
sempre. Um dia, eu subia a estrada que leva à colina de onde se avista a cidade e a ala
esquerda do hotel. Sobre as casas pairava a faixa de fumaça deixada pela locomotiva.
Eu caminhava devagar. Mais devagar vinha descendo o garoto.
(...)
Olhou entristecido para a cidade e depois para a paisagem:
- Ele hoje não veio…
Mas tarde, com certeza, respondi.
- O mundo fica sem graça, não é? Tudo parece fotografia.
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Circunvaguei a vista. Tudo parecia mesmo fotografia. Ar parado, árvores
imóveis, inalterável ainda a faixa de fumaça. Pensei comigo:
- Este garoto está hoje diferente… Fora de seu natural. É preciso ventar para que ele
comece a viver. (MACHADO, 2002, p. 46-47 ).
A atração daquele homem da cidade pelo campo é inserida na história através deste jogo
de sedução em que o vento, já agindo também como um protagonista – um agente, sopra aos
ouvidos do leitor. As instâncias de troca de saberes tornam-se assim recorrentes: o menino, que
nunca viu o mar, o enlevo de transpor barreiras, a sede do conhecimento, tomam lugar na
conversação entre ambos.
- Olha lá… Quer dizer que o vento está correndo muito alto, você está vendo?
- Estou, mas eu gosto é quando ele passa baixinho e vem brincar no capim.
- Com certeza está indo para o mar.
- Pro mar! Como é que sabe?
- Porque a costa atlântica é para aqueles lados…
Costa o quê?
(...)
E o que é que o vento vai fazer no mar?
Respondi que não sabia, mas achei melhor dizer qualquer coisa, dar largas à
imaginação do meu interlocutor.
- Ajudar os veleiros, respondi. Animar as águas, preparar os temporais. Você já viu o
mar?
Sua testa franziu-se. Era, creio, a segunda vez que lhe fazia tal pergunta e ele
desconversava. Passou a cismar. Depois, em tom de justificativa: – O maquinista
prometeu me levar escondido na máquina, mas mamãe disse que me bate, que se for,
ela não vai mais querer saber de mim.
Parou a cismar.
- Lá o vento corre à vontade, não é? Não tem parede, não tem morro, não tem nada
para atrapalhar… Assim, é fácil… (MACHADO, 2002, p. 43-44 ).
O estrato semântico em torno de ideias tais como a da liberdade e da alegria que
compartilhavam sugere uma interlocução autêntica, não se evidenciando aqui algum
mascaramento por parte da personagem narradora. Por sua vez, o texto de Aníbal Machado é
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rico de nuances para evidenciar, ora um julgamento vazio, uma nota dissonante, que
explora a constituição da personagem via discurso; e este arbítrio do logos, de deixar
que o texto fale por tantos outros constitui sua força.
Assim sendo, não se quer aqui negar o mérito da abordagem marxista que é totalmente
pertinente no contexto, mas entende-se como meritória a projeção de uma personagem através
da qual se possam vislumbrar rotas por mares não antes navegados, cuja ressonância se fará
sentir com o tempo.
O elemento discursivo, o qual surge, então, em diversos níveis, como ferramenta dupla
de caracterização e veiculação irônica, ao invés de expor Zé Roberto aos olhos do público,
designará, consistentemente, um certo modo de ver e pensar de uma audiência alienada, envolta
em preconceitos, visões estereotipadas, uma sociedade com “o poder para produzir – demarcar,
circular, diferenciar – os corpos que controla” (BUTLER, 1993, p.1. Tradução nossa). Um
perfeito exemplo desta assumpção aqui já mencionado, trazido à tona por Coelho, é o da reação
das pessoas ao Zé Roberto adentrar o recinto do hotel e sentir “junto à sensação de liberdade, o
julgamento de uma ação que, de certa forma o diferenciava do grupo”. Este mesmo
inconveniente se nota quando Zé Roberto comunica ao advogado da corte que prescindirá de
seus préstimos e este, ciente da má intenção de certas pessoas, também em extenso número que
nos foge exaurir, o amedronta, e enfaticamente o exorta a se preparar:
– Ninguém faz ideia do que seja a cadeia desta cidade! Ali não entra luz, a água mina
das paredes. Venta noite e dia! Ali só os ratos e vermes são felizes!…
Era uma advertência que o engenheiro achou declamatória e extemporânea. Pediu
desculpas ao advogado, estava cansado, precisava dormir, amanhã lhe diria qualquer
coisa.
– Mas defenda-se, disse o bacharel despedindo-se com uma emoção que o hóspede
não ficou sabendo se era sincera ou simulada (MACHADO, 2002, p. 29 ).
A reação do homem é um misto de alerta, interesse, ou mesmo simpatia: Zé Roberto
fará sua defesa na contra mão de um Brasil do progresso, da razão, e do preconceito.
Finalmente, com relação ao fantástico se contrapondo ao estereótipo, Coelho (2009) nos
revela uma faceta de sua utilização, como estratégia de abordagem de assuntos considerados
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tabus por certos autores, identificando uma necessidade de evasão do cerne do problema
através do inexplicável. A respeito disso, lê-se:
Ainda segundo Todorov o fantástico é um meio de combate contra a censura: ele
expõe, via de regra, tabus ou temas proibitivos em uma determinada coletividade.
Tomemos uma série de temas que provocam frequentemente a introdução de
elementos sobrenaturais, o incesto, o amor homossexual, o amor a vários, a necrofilia,
a sensualidade excessiva... Temos a impressão de ler uma lista de temas proibidos...
Além disso, ao lado da censura institucionalizada, existe outra, mais sutil e também
mais generalizada: a que reina na psique dos autores. A condenação de certos atos
pela sociedade provoca uma condenação que ocorre no próprio indivíduo, proibindo-
o de abordar certos temas tabus. O fantástico é um meio contra uma e outra censura:
os desencadeamentos sexuais serão mais bem aceitos por qualquer espécie de censura
se pudermos atribuí-los ao diabo. (TODOROV, 1992, p. 151 apud. COELHO, 2009,
p. 57).
O fantástico é, então, incorporado enquanto algo real na fala do engenheiro, o qual
assume para si a palavra, fato também contraditório, dada a sua formação. Ao que parece,
Aníbal Machado desconstrói também os estereótipos da subjetividade profissional e ideológica
da personagem, apresentando-o como um eloquente orador, confortável no manejo da retórica,
sabendo medir bem as palavras, equilibrando-se na corda-bamba do júri:
Senhor Juiz, sou engenheiro construtor de pontes. Procuro viver de coisas positivas e,
tanto quanto possível, explicáveis. Não cultivo a atração do abismo. E o absurdo me
aborrece. Se de meus pais herdei certa tendência para o sonho, eles próprios me
preveniam contra as ciladas da imaginação. Também não sou amador de fatos
estranhos da vida, posto que sempre aconteçam. Já disse que sou engenheiro
construtor de pontes. Sr. Juiz, há cerca de três meses desembarquei nesta cidade em
busca de repouso. Estava esgotado, precisava refazer as forças. (MACHADO, 2002,
p. 35, 36)
Nota-se na configuração que Zé Roberto faz de si mesmo um propósito de
humildemente convencer a audiência quanto à enunciação de sua verdade, ainda que
empreendendo uma reversão das próprias crenças, hábitos, valores. Contudo, não deve passar
despercebida a sua vulnerabilidade com relação ao acidente, contrariando a máxima do
“homem-duro”, o “que não chora”; e, que, de fato, irá de encontro à atitude dele. De uma fala
concreta e objetiva, ele passa a uma posição mais no nível do transcendental, como se pode ler
abaixo:
Se Vossa Excelência, senhor Juiz, não quiser admitir que além dos fatos habituais da
nossa vida cotidiana, outros há, íntimos que ocupam a parte maior de nosso ser; mas
que temos vergonha de confessar para não parecermos infantis ou loucos. São
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justamente os mais secretos que o senso comum se recusa a considerá-los
(MACHADO, 2002, p. 54).
A bem sucedida exposição do depoente faz-nos voltar às nuances que caracterizariam
ambos os Josés, o apolíneo e o dionisíaco, as quais se veem desbaratados: ao final, Zeca da
Curva é absorvido como Ícaro pela ansiedade em adentrar o mundo urbano, ao passo que José
Roberto, ao final da história, se rende a uma total abstração da natureza. Se o vento mostra-se,
em suma, como um anjo resgatador deste mundo idílico face ao senso comum, por outro lado,
a voz do patriarcado, alegorizada na figura de um “homem-da-lei”, tentando recolher em vão
as páginas do processo, ainda se faz presente, subjazendo ao inusitado cenário: “— Para mim,
vento é vento e nada mais... concluiu com melancolia o escrivão, acenando a cabeça”.
(MACHADO, 2002, p. 57).
Esta imagem do vento soprando as páginas do manuscrito, assim como as folhas do
jornal e todo tipo de material impresso, estaria relacionada ao questionamento da ordem social
e econômica estabelecida, bem como, em uma leitura contemporânea, também identitária de
gênero. O vento torna-se então um nível, uma projeção de verdade em si. Essa característica de
dinamismo e mudança é associada à ideia de relatividade das coisas, envolvendo personagens
e também leitores em torno de uma busca de um objeto impalpável, o qual não estaria nem lá,
nem cá; mas, como o próprio vento, em vários lugares, para além de nossa percepção.
Referências:
BADINTER, Elisabeth. XY: sobre a identidade masculina. Trad de Maria Ignez Duque Estrada.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1993.
BUTLER, Judith. Bodies That Matter. New York: Routledge, 1993.
COELHO, M. A. Entre a pedra e o vento: uma análise dos contos de Aníbal Machado. 2009.
238f. Tese (Doutorado em Literatura Brasileira) – Departamento de Letras Clássicas e
Vernáculas, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo,
São Paulo. 2009.
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ABSTRACT: The present analysis aims at a critical reading of Anibal Machado’s short story
“O iniciado do vento”, based on premises of gender, and its involvement in the constitution of
subjectivities. I believe that the story, as it presents a plot of suspicion in relation to a
presupposed affair between two male characters, deliberately causes an effacement of frontiers
on the level of ethics, establishing a tension which remains unresolved. That anticipates later
philosophical positions related, in especial, to masculinity, as identified and analysed by
Elisabeth Badinter, and by extension, to whichever purported category in the specter of gender
as approached by Jane Flax(1994) and Judith Butler (1993), among many, as a social
constructions to be demystified.
KEYWORDS: Anibal Machado, Gender Studies, Masculinity, Modern short-Story.
Gláuks: Revista de Letras e Artes- jul-dez,2022-ISSN: 2318-7131-vol.22, no 3 223