Prólogo: O Primeiro Rasgo
Antes da Mana, não havia escuridão.
A escuridão ainda é algo.
Ela pressupõe espaço. Pressupõe ausência de luz dentro
de um limite.
Antes da Mana, não havia limite.
Havia o que jamais deveria ser descrito porque descrição
implica forma — e o que existia não possuía sequer o
direito de ser chamado de existência.
O Vácuo não era preto.
Não era frio.
Não era silêncio.
Era anterior a todos esses conceitos.
Se alguém pudesse percebê-lo, enlouqueceria ao tentar
compará-lo a qualquer coisa que conhecesse.
E então aconteceu.
Não um nascimento.
Não um milagre.
Um erro.
Algo que não deveria vibrar… vibrou.
Uma tensão microscópica rompeu a inércia absoluta.
E onde nada podia acontecer, algo aconteceu.
Um rasgo.
Minúsculo.
Mas definitivo.
Por ele, escorreu a primeira centelha de Mana.
Ela não explodiu.
Ela expandiu.
Como se respirasse pela primeira vez.
E ao respirar, empurrou o Vácuo.
Não com violência — mas com persistência.
Onde tocava, criava margem.
Onde se espalhava, estabelecia fronteira.
A primeira fronteira foi o tempo.
A segunda, o espaço.
A terceira, a matéria.
O Vácuo não reagiu com fúria.
Reagiu com compressão.
Tentou fechar o rasgo.
Tentou esmagar o fluxo nascente.
Mas a Mana já estava aprendendo.
Aprendendo a se dobrar.
Aprendendo a contornar.
Aprendendo a existir.
E do conflito entre pressão e expansão nasceu Ardorin.
Não como planeta sereno.
Mas como cicatriz viva.
Montanhas ergueram-se abruptamente, como ossos
rompendo carne cósmica. Oceanos surgiram da
condensação do conflito. Correntes de vento eram o som
da Mana raspando contra o que restava do Vácuo.
A terra pulsava.
Não havia paz.
Havia equilíbrio precário.
A Mana espalhou-se como veias luminosas sob a crosta
recém-formada.
Florestas brotaram em minutos eternos. Criaturas
surgiram, dissolveram-se, reaprenderam formas.
Ardorin era experimento constante.
Mas onde há expansão, há resposta.
O Vácuo não aceitava ser deslocado.
E da tensão contínua nasceu algo novo.
Não criação.
Não luz.
Mas digestão.
A Devorina.
Ela não era simples ausência.
Era fome estruturada.
Onde a Mana fluía, ela acumulava.
Onde a Mana criava, ela drenava.
Não destruía de imediato.
Secava.
Esvaziava significado antes de tocar matéria.
Primeiras plantas começaram a murchar sem razão.
Primeiros animais tornaram-se ocos, como se a alma
tivesse sido raspada de dentro.
Ardorin estava dividido.
Fluxo.
Fome.
Para impedir colapso imediato, a própria Mana reagiu
criando ancoragens.
Convergências conscientes.
Os primeiros Regentes.
Drakarym surgiu do núcleo flamejante da terra, seu
corpo envolto em fogo que não consumia, apenas
regulava.
Aeltharys nasceu do primeiro alvorecer estável, escamas
douradas refletindo equilíbrio térmico perfeito.
Saphyraen ergueu-se das marés internas, dominando
correntes invisíveis que mantinham continentes coesos.
Vaelgor emergiu das profundezas onde a pressão
esmagaria qualquer outra forma.
Zephyros condensou-se no topo das correntes
atmosféricas, senhor dos ventos que impediam
estagnação.
Eles não eram deuses.
Eram contrapesos.
Quando voavam, ajustavam o clima.
Quando dormiam, estabilizavam linhas de Mana.
Quando lutavam contra focos de Devorina, selavam
rachaduras.
Por eras incontáveis, funcionou.
Até que a Devorina deixou de ser apenas reação.
Ela começou a aprender.
Começou a concentrar-se.
Em cavernas profundas, surgiam manchas negras que
absorviam luz.
Em vales isolados, o ar tornava-se pesado demais para
respirar.
Em montanhas remotas, pedras começavam a rachar de
dentro para fora.
Os Regentes combatiam tudo.
Mas então veio o segundo rasgo.
E este foi diferente.
Ele não nasceu do atrito natural.
Ele foi forçado.
O céu do norte torceu-se.
As nuvens colapsaram como pulmões perfurados.
A pressão atmosférica despencou.
O ar foi sugado para um único ponto.
E dele emergiu algo que não era simplesmente criatura.
Era convergência de intenção faminta.
Vhar’Zyraeth.
Seu corpo era colossal, escamas negras entrecortadas
por veios roxo-incandescentes. Espinhos cresciam e se
quebravam para crescer novamente, mais duros. Asas
largas como muralhas, membranas rasgadas e
regeneradas no mesmo movimento.
Seus chifres retorciam-se como lâminas ancestrais.
Seus olhos não refletiam luz.
Eles absorviam.
Onde pousava, a Mana vacilava.
Onde respirava, o ar era comprimido até quase inexistir.
Ele não cuspia fogo.
Ele arrancava essência.
Drakarym foi o primeiro a atacar.
O impacto rasgou montanhas.
Mas quando suas garras atravessaram escamas negras,
o sangue que jorrou não caiu.
Foi absorvido de volta.
Espinhos quebrados cresceram mais espessos.
Aeltharys mergulhou como sol em queda.
A explosão iluminou continentes.
Vhar’Zyraeth emergiu da cratera maior.
Saphyraen ergueu muralhas oceânicas.
Vaelgor avançou pelas profundezas.
Zephyros desceu como lança viva.
Nada foi suficiente.
Porque ele se alimentava do próprio equilíbrio que
mantinham.
A batalha durou dias.
Ou segundos.
O tempo tornou-se instável sob a tensão.
Quando terminou, nenhum Regente havia morrido.
Mas todos haviam sido enfraquecidos.
E Vhar’Zyraeth desapareceu.
Não destruído.
Recuando.
Aprendendo.
Ardorin nunca mais foi o mesmo.
Séculos se passaram.
Civilizações nasceram.
Religiões surgiram.
Algumas começaram a interpretar o fenômeno como
punição divina.
Outras como purificação.
Entre elas, surgia discretamente uma instituição que
aprenderia a manipular a fé: a Igreja.
Mas isso viria depois.
Muito depois.
Em uma vila nas Cordilheiras Cinzentas, um menino
acordou.
O cheiro estava errado.
Não fumaça comum.
Mas algo seco.
Como se o ar tivesse sido raspado.
Arthos Ringueril saiu da cabana.
As chamas nas casas não dançavam.
Elas puxavam calor.
As pessoas gritavam — mas o som parecia abafado, como
se o próprio espaço estivesse sendo comprimido.
Ele sentiu no peito.
Uma vibração estranha.
Não Mana.
Algo reagindo à falta dela.
Quando a sombra cruzou o céu, o mundo pareceu
diminuir.
Não escurecer.
Diminuir.
Casas começaram a rachar.
Pele tornou-se pálida e aderiu aos ossos.
Olhos afundaram.
Arthos tentou correr.
Sentiu o chão vibrar sob seus pés.
Quando a asa atravessou parcialmente a realidade —
como se algo maior estivesse do outro lado tentando
forçar passagem — ele viu.
Os olhos encontraram os dele.
E não houve medo imediato.
Houve reconhecimento.
Como se algo dentro do menino fosse compatível com
aquilo.
A pressão esmagou tudo.
Quando cessou, a vila estava intacta estruturalmente.
Mas morta.
Não carbonizada.
Esvaziada.
Corpos como cascas.
Arthos caiu de joelhos.
O silêncio era absoluto.
E dentro dele, algo ficou.
Não poder.
Não bênção.
Uma ausência.
Uma marca invisível.
Anos depois.
No alto das montanhas.
Um Arthos adulto observa o horizonte.
Ele sente novamente.
O padrão.
A vibração.
O início de outro rasgo.
O ar começa a rarear.
As aves fogem antes que qualquer som seja ouvido.
Sob a crosta de Ardorin, algo desperta.
Mais paciente.
Mais forte.
Mais consciente.
O primeiro rasgo foi acidente.
O segundo, desafio.
O terceiro…
Será inevitável.
E desta vez, não serão apenas Regentes que sangrarão.
Arthos fecha os olhos.
E pela primeira vez, sente que o Vácuo o observa de
volta.
Os Regentes não aceitaram a retirada de Vhar’Zyraeth
como vitória.
Sentiram o que havia acontecido.
Algo havia sido arrancado deles.
Não carne.
Não escamas.
Mas densidade de presença.
Drakarym pousou sobre uma cadeia de montanhas
recém-formadas. Sua respiração incendiou picos
inteiros. Ainda assim, o fogo parecia… menor.
Aeltharys pairou no alto, mas sua luz já não alcançava a
mesma distância.
Saphyraen mergulhou nos oceanos e percebeu que
correntes profundas estavam mais lentas.
Zephyros sentiu ventos falharem por frações de segundo.
Vaelgor, nas profundezas, encontrou algo novo.
Uma rachadura que não estava ali antes.
Não física.
Uma linha escura nas correntes de Mana.
A Devorina não era mais foco isolado.
Estava aprendendo a infiltrar.
E enquanto os pilares tentavam se recompor,
Vhar’Zyraeth observava.
Não do céu.
Não do solo.
Mas das falhas entre camadas da realidade.
Ele não precisava atacar novamente.
Agora ele sabia.
Sabia que podia enfraquecê-los.
Sabia que podia esperar.
E o tempo, em Ardorin, já existia.
Os primeiros povos começaram a surgir em eras
posteriores.
Humanos.
Élficos.
Anões.
Raças moldadas pela proximidade com linhas de Mana.
Alguns sentiam o fluxo.
Outros apenas o usavam sem compreender.
Surgiram estudiosos.
Surgiram sacerdotes.
E com eles, interpretações.
A Mana tornou-se bênção divina.
A Devorina, castigo.
Mas ninguém compreendia que ambas eram naturais ao
conflito primordial.
Uma ordem começou pequena.
Não militar.
Não política.
Teológica.
Pregavam que o mundo estava “impuro”.
Que o fluxo precisava ser controlado.
Que dragões eram excessos perigosos.
Essa ordem seria o embrião da futura Igreja.
Mas ainda era fraca.
Ainda era ignorante.
Ainda não sabia que um dia pisaria em terreno que não
entendia.
Décadas depois.
A vila nas Cordilheiras.
O céu naquela noite parecia comum.
Arthos Ringueril tinha dez anos.
O frio era típico da altitude.
Ele ajudava a carregar lenha quando sentiu.
Não ouviu primeiro.
Sentiu.
Como se o ar tivesse sido comprimido levemente.
Olhou para as árvores.
As folhas tremiam sem vento.
O fogo da forja crepitou — mas o calor diminuiu.
— Pai… — murmurou.
O homem não respondeu.
Estava olhando para o horizonte.
Algo escuro demais para ser nuvem movia-se contra o
padrão natural do céu.
Não era rápido.
Era pesado.
Como se cada batida de asa empurrasse o próprio
espaço.
O primeiro grito veio da extremidade da vila.
Não grito de dor.
De falta de ar.
As pessoas começaram a tossir.
Não fumaça.
Mas ausência.
Arthos viu uma galinha cair morta, penas intactas, olhos
fundos.
A sombra cresceu.
Quando passou sobre a vila, não bloqueou o sol.
O sol ainda estava lá.
Mas parecia distante.
Como se estivesse sendo drenado.
As casas começaram a estalar.
Madeira ressecando de dentro para fora.
A mãe de Arthos tentou correr até ele.
Caiu.
Não queimada.
Mas esvaziada.
A pele colando nos ossos como pergaminho molhado
secando rápido demais.
Arthos correu até ela.
O toque foi frio.
Não frio térmico.
Frio de ausência.
E então o céu se partiu.
Não visivelmente.
Mas ele sentiu.
Uma asa atravessou parcialmente a realidade.
Gigantesca.
Espinhos crescendo e quebrando.
Escamas negras refletindo distorções.
E os olhos.
Quando Vhar’Zyraeth olhou para ele, o mundo ficou
silencioso.
Não havia som.
Não havia vento.
Só pressão.
Arthos tentou respirar.
O ar não obedecia.
E então algo aconteceu.
Algo dentro do menino respondeu.
Não Mana.
Algo que resistia à drenagem.
Uma falha no padrão.
Vhar’Zyraeth inclinou levemente a cabeça.
Curiosidade.
Pela primeira vez desde sua manifestação, algo não
estava sendo consumido.
O contato durou segundos.
Ou eternidade.
Então a asa recuou.
A pressão cessou.
O céu voltou.
Mas a vila estava morta.
Arthos caiu de joelhos.
Tocou o próprio peito.
Sentiu um vazio novo ali.
Como se uma parte tivesse sido retirada — e outra,
implantada.
Não poder.
Não chama.
Mas eco.
Um eco do Vácuo.
Anos depois.
Arthos adulto.
O vento frio das montanhas corta o rosto.
Ele sente o padrão novamente.
Mas agora entende melhor.
É como vibração antes de ruptura.
Como tensão antes de corda arrebentar.
Ele fecha os olhos.
Respira.
E percebe algo aterrador.
A Devorina não está apenas concentrada.
Ela está sendo guiada.
Há inteligência coordenando focos.
E isso significa apenas uma coisa.
Vhar’Zyraeth não está esperando.
Ele está preparando.
O ar fica pesado.
Uma fissura microscópica surge no horizonte.
O terceiro rasgo começa a nascer.
Arthos abre os olhos.
E desta vez, ele não é uma criança.
Desta vez, ele não cairá de joelhos.
Mas ele sabe.
Quando vier.
Não será apenas vila que morrerá.
Será continente.
Será linha de Mana.
Será Regente.
E talvez…
Ele próprio.
O Crepúsculo não é mais mito.
Ele é inevitável.
E Ardorin respira com dificuldade.
Capítulo 1: Tremor nas Montanhas
O vento nas Cordilheiras Cinzentas nunca era gentil.
Ele não soprava — ele raspava.
Arthos Ringueril, o homem que carregava no peito um
vazio que nunca cicatrizou, mantinha-se imóvel na beira
do precipício enquanto o vento puxava sua capa para
trás como se tentasse arrastá-lo para o abismo.
Abaixo, o vale parecia normal.
Normal demais.
Esse era o problema.
O silêncio não tinha pássaros.
O rio não refletia o céu com a mesma vibração.
E a terra… a terra estava pesada.
Arthos fechou os olhos.
Sentiu.
A vibração vinha de baixo.
Não um tremor físico.
Um desalinhamento.
Como se a Mana estivesse escorrendo para um ponto
invisível.
Ele apertou o punho.
A lâmina presa às suas costas — Fatalis — vibrou
levemente.
Não como alerta agressivo.
Mas como reconhecimento.
Algo estava fora de equilíbrio.
— Então começou de novo… — murmurou ele para o
vento.
O chão sob seus pés respondeu.
Um estalo seco percorreu a rocha.
Fendas finas começaram a se abrir, como veias expostas.
Arthos recuou um passo.
Sentiu o ar rarear.
O mesmo padrão da vila.
O mesmo peso invisível.
Mas desta vez ele não era uma criança.
Um ruído ecoou das árvores abaixo.
Passos leves.
Controlados.
Arthos não virou o rosto.
— Você sempre escolhe os lugares mais agradáveis pra
contemplar o fim do mundo? — disse uma voz feminina
atrás dele.
Ele reconheceria aquele tom mesmo no meio de uma
tempestade.
— Se eu disser que sim, você vai embora?
Nilaris surgiu da trilha estreita como se sempre tivesse
feito parte da montanha.
Traços ocidentais marcados, postura firme, olhar afiado
como a própria lâmina que carregava na cintura.
A katana Rios de Sangue repousava ali, silenciosa.
Mas viva.
O gato preto caminhava ao lado dela com naturalidade
absurda para a altitude.
Kirin não parecia afetado pelo frio.
Nem pelo peso no ar.
Seus olhos dourados analisaram Arthos.
Depois o vale.
— Está pior do que pensei — disse Nilaris, aproximando-
se.
— Está concentrado — respondeu Arthos.
Ela parou ao lado dele.
O vento fez seus cabelos escuros dançarem.
— Mana?
— Parte dela. O resto é outra coisa.
O gato avançou até a beira do penhasco.
Sentou-se.
E ficou olhando fixamente para um ponto no vale.
Arthos sentiu.
O ponto.
Exatamente onde o olhar do animal estava.
O solo ali parecia ligeiramente mais escuro.
Mas não pela sombra.
— Já viu isso antes? — perguntou ela.
Arthos demorou a responder.
— Vi quando tinha dez anos.
O silêncio entre eles ficou mais pesado que o vento.
Nilaris não perguntou detalhes.
Ela sabia quando não pressionar.
— Então é ele? — perguntou por fim.
Arthos não respondeu imediatamente.
Fatalis vibrou novamente.
Mais forte.
Ele sentiu o frio percorrer seus ombros.
— Não totalmente. Mas é da mesma fome.
O chão do vale afundou repentinamente.
Não como desmoronamento natural.
Mas como se algo tivesse sido sugado por baixo.
Um círculo perfeito de terra colapsou.
Árvores deslizaram para dentro.
Sem explosão.
Sem poeira exagerada.
Apenas… absorção.
O ar ficou mais leve por um instante.
Depois mais pesado ainda.
Nilaris levou a mão à empunhadura.
— Eu odeio quando você está certo.
Arthos puxou Fatalis das costas.
A lâmina negra-azulada refletiu o céu de maneira errada.
Os veios prateados pulsaram como luar sobre gelo.
O peso aumentou em sua mão.
O desalinhamento estava crescendo.
Do interior da cratera recém-formada, algo se moveu.
Não uma criatura inteira.
Primeiro, um espinho emergiu do solo.
Branco.
Suave.
Depois outro.
Depois dezenas.
Crescendo como ossos atravessando carne.
Eles começaram a escurecer.
Endurecer.
Nilaris respirou fundo.
— Isso não é natural.
— Não — respondeu Arthos.
O primeiro rugido ecoou.
Não alto.
Mas profundo.
Como se viesse de muito abaixo.
As árvores ao redor começaram a secar.
Folhas caindo instantaneamente.
O vento cessou.
E então ele saiu.
Uma forma colossal começou a emergir da cratera.
Não completamente.
Mas o suficiente.
Escamas negras com reflexos roxo-alaranjados.
Espinhos crescendo e se quebrando para crescer
novamente.
Chifres retorcidos.
Olhos que não refletiam luz.
Absorviam.
O ar foi sugado violentamente para dentro da cratera.
Arthos fincou os pés na rocha.
Nilaris puxou a katana num único movimento.
Silencioso.
Perfeito.
— Ele não está inteiro — disse ela.
— Não precisa estar.
A criatura abriu parcialmente as asas.
A pressão aumentou.
Pedras começaram a se fragmentar ao redor.
Arthos sentiu o frio subir pelo braço.
Fatalis estava carregando.
Não por vontade dele.
Mas por necessidade.
— Se ele terminar de atravessar, o vale morre — disse
Arthos.
Nilaris inclinou a cabeça levemente.
— Então vamos cortar antes disso.
O gato Kirin arqueou o corpo.
Seus olhos brilharam.
E por um segundo, Arthos jurou ter visto o ar ao redor
do animal distorcer.
A criatura ergueu uma das patas dianteiras.
Massiva.
Espinhos já completamente negros.
E desceu contra a montanha.
O impacto partiu a rocha.
Arthos foi arremessado para trás.
Rolou.
Sentiu o gosto metálico subir pela garganta.
Levantou antes mesmo da poeira baixar.
Nilaris já estava avançando.
Rios de Sangue descreveu um arco perfeito no ar.
O corte foi silencioso.
Mas o efeito não.
A lâmina encontrou escama ainda em endurecimento.
Sangue negro espirrou.
Mas ao tocar o solo…
Foi absorvido de volta.
A escama começou a se regenerar.
Mais espessa.
A criatura virou a cabeça.
Focou nela.
Arthos correu.
Fatalis desceu com peso brutal.
A lâmina cravou-se entre dois espinhos ainda claros.
Um estalo percorreu a estrutura óssea.
O frio explodiu da espada.
Gelo se espalhou pela superfície da escama.
A criatura rugiu.
Agora alto.
A montanha respondeu.
Pedras despencaram.
O ar tornou-se quase impossível de respirar.
Nilaris deslizou para trás, limpando sangue da lâmina.
Mas uma gota escorreu do nariz dela.
Ela ignorou.
— Ele está testando — disse Arthos, forçando a lâmina
para dentro.
— Então vamos ensinar errado — respondeu ela.
A criatura abriu as mandíbulas.
Não fogo.
Um jato invisível de compressão.
Arthos sentiu o impacto antes de ver.
Foi esmagado contra a rocha.
O mundo ficou branco.
Por um segundo.
Silêncio.
Quando a visão voltou, ele estava de joelhos.
A lâmina ainda na mão.
Mas mais pesada.
Muito mais pesada.
O desalinhamento estava aumentando.
E então…
Uma flecha cortou o ar.
Precisa.
Silenciosa.
Ela atingiu diretamente o olho da criatura.
Não perfurou completamente.
Mas fez o suficiente.
O monstro recuou levemente.
Arthos reconheceu o padrão da energia que
acompanhava o disparo.
Disciplina.
Controle.
Altura estratégica.
Ele olhou para a encosta oposta.
Uma figura estava posicionada acima da linha da
cratera.
Arco longo em mãos.
Corda ainda vibrando.
Nileya de Arvandor havia chegado.
E a batalha estava apenas começando.
A flecha ainda vibrava no olho da criatura quando o
segundo disparo veio.
Mais alto.
Mais preciso.
A corda do arco cantou como um fio de aço tensionado
até o limite.
— Não fiquem parados olhando! — a voz ecoou da
encosta oposta. — Ele está ancorando no subsolo!
Arthos limpou o sangue do canto da boca.
— Está cedo demais pra você reclamar da vista, Nileya.
— Se você morrer agora, eu reclamo até no seu funeral.
Nilaris deslizou para o lado, evitando um estilhaço de
rocha que voou como lâmina.
— Ele está absorvendo o impacto — disse ela, olhos fixos
nas escamas regenerando. — Cada ataque fortalece as
áreas já endurecidas.
— Então atingimos antes que endureçam — respondeu
Arthos.
Fatalis vibrou violentamente.
O frio começou a subir pelo braço dele.
O mundo ao redor parecia mais lento.
Ele sentia o fluxo.
Sentia onde a Mana estava sendo sugada.
— Base do pescoço! — gritou ele.
Nilaris já estava em movimento.
Rios de Sangue deslizou da bainha em um único gesto.
Silêncio absoluto.
Ela cruzou o espaço como sombra viva.
O corte veio horizontal, preciso, pegando uma linha
ainda branca de espinhos em formação.
A lâmina entrou.
Sangue negro jorrou.
Não líquido comum.
Espesso.
Vibrando.
A terra onde caiu começou a secar instantaneamente.
Mas Nilaris já havia recuado.
Uma linha vermelha escorreu do nariz dela.
Depois outra, do canto da boca.
Ela cuspiu no chão.
— Ele está reagindo mais rápido.
A criatura abriu a mandíbula.
Desta vez não foi compressão.
Foi impacto direto.
Um salto brutal.
As patas dianteiras atingiram a encosta onde Nileya
estava posicionada.
A montanha explodiu em fragmentos.
Arthos sentiu o estômago afundar.
Mas antes que pudesse gritar, uma silhueta saltou para
outra formação rochosa, rolando e já encaixando outra
flecha.
Maestria de Loretta.
Quatro flechas foram disparadas quase
simultaneamente.
Elas convergiram no ar como se compartilhassem
intenção.
Três atingiram o tórax.
Uma cravou-se na junção da asa.
A criatura rugiu.
O som foi físico.
Arthos sentiu o tímpano vibrar dolorosamente.
Uma onda de pressão os jogou contra as rochas.
Ele tentou se levantar.
O mundo girou.
Sangue escorreu do nariz dele agora também.
Fatalis pesava mais.
Muito mais.
— Ele está quase inteiro! — gritou Nileya.
Arthos viu.
A parte do corpo ainda presa à cratera estava
diminuindo.
A terra ao redor estava sendo absorvida.
Não escavada.
Consumida.
— Se ele atravessar completamente, não é só o vale —
disse Arthos, a voz rouca.
— Então termina agora! — Nilaris avançou outra vez.
Mas a criatura mudou o padrão.
Um dos espinhos negros disparou como projétil.
Atravessou o ombro de Arthos.
Ele caiu de joelhos.
O frio da lâmina explodiu em resposta.
A dor veio depois.
Quente.
Profunda.
Ele agarrou o espinho e o arrancou.
Sangue caiu na rocha.
Não secou.
Mas o ar ao redor dele ficou mais pesado.
Fatalis reagiu.
A lâmina liberou uma onda de frio concentrado.
Gelo se espalhou pelo braço da criatura.
Rachaduras começaram a surgir.
— Agora! — gritou Arthos.
Nilaris surgiu pela lateral.
Rios de Sangue brilhou em vermelho profundo.
Ela executou três cortes sucessivos.
Empilhador de Cadáveres.
Lâminas de sangue e mana explodiram da trajetória da
katana, atingindo a mesma rachadura congelada.
A escama cedeu.
A carne exposta pulsou.
A criatura urrou.
Mas não recuou.
Ao contrário.
Ela forçou o restante do corpo para fora da cratera.
O solo afundou mais.
A montanha inteira tremeu.
Nileya deslizou para posição mais alta.
Seus olhos estavam vermelhos pelo esforço.
— Eu só tenho mais uma sequência dessas — disse ela
entre dentes.
— Use quando eu disser — respondeu Arthos.
— Desde quando eu obedeço você?
— Desde que quer continuar viva.
Um riso curto escapou dela.
Mesmo ali.
Mesmo sob aquilo.
A criatura ergueu as duas asas.
O ar foi sugado violentamente.
Arthos sentiu os pés escorregarem.
A pressão aumentou.
Rochas começaram a flutuar por frações de segundo
antes de serem puxadas.
— Ele está completando a ancoragem! — gritou Nileya.
O céu acima da criatura começou a distorcer.
Uma fissura real.
Não mais parcial.
Se aquilo abrisse completamente…
Arthos sentiu o vazio no peito reagir.
Não como dor.
Como eco.
Por um segundo, os olhos da criatura desviaram para
ele.
Reconhecimento.
De novo.
A centenas de metros dali, ocultos entre rochas mais
altas, três figuras observavam.
Capas brancas.
Símbolo dourado bordado no peito.
Um homem mais velho segurava um artefato cristalino
que vibrava.
— Confirmação — disse ele em tom contido. — A
manifestação é real.
— Devemos intervir? — perguntou uma voz mais jovem.
O homem apertou o cristal.
— Ainda não. Deixem que se desgastem.
Seus olhos pousaram em Arthos.
— Especialmente ele.
O cristal absorveu parte da energia do confronto.
Brilhou.
Depois escureceu levemente.
— O padrão no peito dele responde.
— Então é verdade?
O homem não respondeu.
Apenas observou.
A fissura acima da criatura se expandiu.
O ar começou a desaparecer.
Nilaris caiu de joelhos por um segundo.
Sangue escorreu mais forte agora.
— Eu consigo cortar… — ela murmurou. — Mas só uma
vez mais nesse nível.
Arthos respirou fundo.
O frio de Fatalis estava quase insuportável.
Suas mãos tremiam.
Mas ele não soltou.
— Nileya.
— Estou pronta.
— Quando eu cravar, você dispara.
— E você?
Ele olhou para a criatura.
Sentiu o vazio no peito pulsar.
— Eu seguro o resto.
Ele correu.
Cada passo parecia atravessar resistência invisível.
A criatura desceu a pata dianteira.
Arthos deslizou por baixo.
Saltou.
Fatalis desceu com tudo.
A lâmina cravou-se na junção entre pescoço e ombro.
O frio explodiu.
Gelo subiu como raízes.
A criatura tentou fechar as asas.
Nilaris apareceu como sombra final.
Um único corte vertical.
Rios de Sangue atravessou a área congelada.
A carne abriu.
E Nileya liberou sua última sequência.
Quatro flechas convergiram na ferida exposta.
A explosão não foi de fogo.
Foi de ruptura.
A fissura no céu tremeu.
Instável.
Por um segundo, parecia que iria se estabilizar.
Então algo puxou do outro lado.
A criatura começou a ser sugada de volta.
Mas antes de desaparecer completamente, seus olhos
fixaram Arthos.
E pela primeira vez, uma voz ecoou.
Não no ar.
Dentro da mente dele.
“Você já carrega o rasgo.”
O mundo ficou branco.
A criatura foi arrastada para dentro da fissura.
O céu se fechou.
O vale ficou em silêncio.
Arthos caiu.
A montanha parou de tremer.
Mas o vazio no peito dele nunca pareceu tão acordado.
E, nas rochas distantes, o homem da capa branca sorriu
discretamente.
— Ele ouviu.
O Crepúsculo havia avançado um passo.
O silêncio após a ruptura foi pior que o rugido.
Nenhum vento.
Nenhum inseto.
Nenhuma ave.
A cratera ainda fumegava — não com fogo, mas com
ausência. O ar ali parecia mais fino, como se algo tivesse
sido raspado da própria atmosfera.
Arthos estava ajoelhado.
Fatalis ainda cravada na rocha para sustentá-lo.
Nilaris foi a primeira a se mover.
Ela respirava com dificuldade.
Um fio de sangue escorria do nariz, outro do canto da
boca. Ainda assim, caminhou até a borda da cratera.
Kirin já estava lá.
Imóvel.
O gato encarava o centro.
— Arthos… — disse ela, voz mais baixa.
Ele ergueu o rosto.
Sentiu antes de ver.
O padrão ainda vibrava.
Fraco.
Mas presente.
No centro da cratera, onde a criatura estivera
parcialmente ancorada, algo permanecia.
Não carne.
Não osso.
Um fragmento.
Um espinho.
Negro.
Maior que os outros.
Cravado verticalmente no solo como uma estaca
ritualística.
A superfície pulsava levemente.
Respirava.
Arthos se levantou, cada músculo protestando.
— Não toca ainda — alertou Nileya, descendo com
cuidado pela encosta. — A Mana ao redor disso está
distorcida.
Nilaris inclinou levemente a cabeça.
— Não é só Mana.
Arthos se aproximou devagar.
Quanto mais perto chegava, mais o vazio em seu peito
vibrava.
Não dor.
Reconhecimento.
Ele estendeu a mão.
O ar ficou mais frio.
Fatalis vibrou.
— Arthos — Nileya advertiu.
Mas ele já estava perto demais.
Seus dedos tocaram o espinho.
E o mundo se partiu.
Por um segundo, ele não estava mais ali.
Viu linhas de Mana sendo sugadas para pontos invisíveis
sob continentes.
Viu fissuras microscópicas surgindo em regiões
distantes.
Viu uma silhueta colossal observando de um plano entre
camadas.
E ouviu novamente:
“Você já carrega o rasgo.”
Ele arrancou a mão.
Caiu para trás.
Respiração irregular.
— O que você viu? — perguntou Nilaris, ajoelhando ao
lado dele.
Ele demorou a responder.
— Não foi derrota. Foi teste.
O espinho vibrou mais forte.
Rachaduras começaram a se espalhar pela superfície
negra.
Nileya recuou um passo.
— Ele deixou isso de propósito.
O espinho quebrou.
Mas não se desfez.
Ele se fragmentou em três partes menores.
Cada uma girando levemente no ar antes de cair.
O solo ao redor escureceu.
Não como queimado.
Como drenado.
Kirin rosnou baixo.
Arthos se levantou novamente.
— Precisamos destruir isso.
Ele ergueu Fatalis.
Mas antes que pudesse descer a lâmina—
Um aplauso ecoou atrás deles.
Lento.
Calculado.
— Impressionante.
Os três viraram ao mesmo tempo.
Na encosta superior, três figuras de capa branca
observavam.
Símbolo dourado bordado no peito.
A Igreja.
O homem ao centro desceu com passos seguros, como se
a montanha fosse chão plano.
Seus olhos analisavam Arthos, não a cratera.
— Poucos sobreviveriam a uma manifestação parcial
desse nível — continuou ele. — Menos ainda a
repeliriam.
Nilaris colocou-se levemente à frente de Arthos.
Rios de Sangue ainda manchada.
— Estavam assistindo?
— Observando — corrigiu o homem. — Avaliando riscos.
Nileya riu, sem humor.
— Avaliando enquanto o vale quase era apagado?
O homem ignorou.
Seus olhos fixaram-se no espinho fragmentado.
— Interessante… deixou resíduo físico.
Arthos sentiu o sangue esquentar.
— Vocês sabiam.
O homem inclinou a cabeça.
— Sabíamos que havia instabilidade. Não sabíamos que
você estaria aqui, Ringueril.
O sobrenome soou diferente.
Distante.
Calculado.
Arthos apertou o punho.
— Não use meu nome assim.
Um dos homens atrás do líder levou a mão
discretamente a um artefato pendurado no cinto.
Nilaris percebeu.
— Se vocês tentarem qualquer coisa…
— Estamos aqui para proteger o mundo — disse o líder,
finalmente encarando os três. — Diferente de vocês, não
reagimos apenas quando o caos já está presente.
— Engraçado — respondeu Nileya. — Porque parecia
exatamente isso.
O homem sorriu levemente.
Frio.
— Vocês interferiram em algo que ainda estava sob
observação.
Arthos sentiu o vazio no peito pulsar novamente.
O espinho fragmentado vibrou.
— Ele deixou isso para trás — disse Arthos. — E vocês
querem.
— Claro que queremos — respondeu o homem,
finalmente abandonando o tom diplomático. — É prova.
É chave. É oportunidade.
Nilaris avançou meio passo.
— Não é de vocês.
O líder ergueu a mão.
Os dois agentes atrás dele puxaram bastões metálicos
que se abriram em estruturas com inscrições rúnicas.
O ar ao redor deles distorceu levemente.
Arthos reconheceu.
Não Mana pura.
Era manipulação.
Controle forçado.
— Vocês brincam com o que não entendem — disse ele.
— E você entende? — retrucou o líder. — Uma criança
que sobreviveu a um evento isolado não se torna
especialista em apocalipse.
O golpe veio rápido.
Um pulso rúnico disparou do bastão.
Arthos ergueu Fatalis instintivamente.
O impacto o lançou para trás.
O frio da lâmina reagiu, congelando parte da energia.
Nilaris já estava em movimento.
Rios de Sangue cortou o ar em diagonal.
Um dos agentes recuou tarde demais.
A lâmina atingiu o ombro dele.
O sangue que jorrou não foi absorvido.
Mas a expressão no rosto do homem mudou.
A dor foi imediata.
Intensa demais para um corte comum.
— Recuem! — gritou ele.
Nileya disparou uma flecha que atingiu o bastão do
segundo agente, desviando a trajetória do próximo pulso.
O líder manteve-se imóvel.
Observando.
Analisando Arthos.
— Interessante — murmurou ele.
Arthos avançou.
Fatalis descreveu um arco pesado.
O líder bloqueou com o próprio bastão rúnico.
A colisão gerou uma onda de ar comprimido.
Os dois ficaram frente a frente.
— Você carrega algo que não deveria existir — disse o
homem em tom baixo.
— E vocês tentam controlar o que não conseguem conter.
O espinho fragmentado começou a vibrar mais forte.
O chão tremeu novamente.
Todos sentiram.
Não a criatura.
Mas algo respondendo ao fragmento.
Kirin arqueou as costas.
Nilaris olhou para Arthos.
— Não é o fim.
Ele sabia.
O líder também sabia.
O homem recuou um passo.
— Isso não acabou, Ringueril. A Igreja não permitirá que
o mundo seja decidido por espadas errantes.
— Então parem de assistir e façam algo útil — respondeu
Nileya.
O líder fez um gesto.
Os agentes recuaram.
— Vamos nos ver novamente.
Eles desapareceram pela encosta como se nunca
tivessem estado ali.
O silêncio voltou.
Mas não era o mesmo silêncio.
Arthos respirou fundo.
Olhou para Nilaris.
Depois para Nileya.
Por alguns segundos, ninguém falou.
O vento voltou lentamente.
— Você quase morreu de novo — disse Nileya.
— Você também.
Ela deu um meio sorriso.
Nilaris limpou o sangue do rosto com o dorso da mão.
— Ele falou com você, não foi?
Arthos hesitou.
Depois assentiu.
— Disse que eu já carrego o rasgo.
O silêncio entre os três não era desconfortável.
Era pesado.
Compartilhado.
Nileya aproximou-se.
— Então a gente carrega junto agora.
Nilaris não disse nada.
Mas deu um leve toque no ombro dele.
Breve.
Suficiente.
Ao longe, o horizonte parecia normal.
Mas a terra sob seus pés ainda estava instável.
E no centro da cratera, os fragmentos do espinho
começaram a afundar lentamente no solo.
Como sementes.
O Crepúsculo não havia sido impedido.
Apenas atrasado.
E pela primeira vez desde a vila, Arthos não estava
sozinho diante da fome.
Mas ele sabia.
Isso era só o começo.
Capítulo 2: O Preço do Silêncio
A noite caiu sobre as Cordilheiras Cinzentas como um
véu pesado demais para ser ignorado.
O vale ainda exalava ausência.
A cratera havia se fechado parcialmente, mas o solo
permanecia escuro, drenado, como se a terra tivesse
perdido algo essencial.
Arthos mantinha-se sentado próximo a uma fogueira
pequena demais para o frio da altitude.
Fatalis estava apoiada ao lado dele.
A lâmina não vibrava mais.
Mas parecia mais densa.
Mais silenciosa.
Nileya dormia encostada em uma rocha, arco próximo às
mãos mesmo em repouso.
Nilaris permanecia acordada.
Kirin estava em seu colo.
O gato parecia comum sob a luz fraca.
Mas não piscava com frequência normal.
Ele observava a escuridão como se a escuridão pudesse
responder.
— Você nunca dorme depois de uma manifestação dessas
— disse Arthos, sem olhar para ela.
— Você também não.
Silêncio.
O vento cortava entre as pedras.
— Ele quase atravessou completamente — continuou
Arthos.
— Sim.
— E você quase morreu.
Ela não respondeu imediatamente.
Seus dedos deslizavam lentamente pela pelagem de
Kirin.
— Eu já morri uma vez — disse por fim.
Arthos virou o rosto.
Ela raramente falava sobre si.
— Não no sentido literal.
— Mas perto o suficiente.
Ela respirou fundo.
O ar frio saiu como névoa diante do rosto.
— Rios de Sangue não foi forjada para salvar ninguém.
O nome saiu baixo.
Como confissão.
— Foi criada em um colapso de Mana contaminada. Em
uma guerra que não devia ter acontecido.
Kirin ergueu levemente as orelhas.
— Eu não era a dona original dela.
Arthos permaneceu em silêncio.
— Havia um homem. Um caçador. Ele dizia lutar pelo
equilíbrio. Mas gostava do poder que vinha junto.
Os dedos dela apertaram levemente a pelagem do gato.
— Ele começou a usar demais. A lâmina bebeu demais.
O vento pareceu diminuir.
— Quando eu o enfrentei, ele já não era ele.
Arthos sentiu o peso nas palavras.
— Eu cortei.
Simples assim.
Sem drama.
Sem heroísmo.
— E quando a lâmina caiu no chão, Kirin estava ali.
Arthos franziu levemente o cenho.
— Ele era dele?
Ela assentiu.
— O homem tinha feito um pacto para proteger o animal.
Sabia que o caminho que estava seguindo o levaria à
morte.
O silêncio ficou mais denso.
— O pacto não podia ser quebrado.
— Então?
Ela olhou para Arthos.
Pela primeira vez naquela noite, havia algo vulnerável
ali.
— Alguém precisava assumir.
Arthos entendeu antes mesmo que ela terminasse.
— Você tomou o lugar.
— Eu aceitei o vínculo.
Ela desviou o olhar.
— A imortalidade de Kirin não é bênção. É ancoragem.
O gato encarou Arthos.
Seus olhos refletiam a fogueira de maneira estranha.
— Se eu cair de vez… ele não morre.
Arthos sentiu o frio subir pela espinha.
— O que ele faz?
— Ele mantém parte de mim presa aqui.
O vento voltou a soprar.
— E o preço?
Ela sorriu de lado.
Não era alegria.
— Cada vez que uso demais a lâmina, eu sinto o pacto
puxar. Como se algo tentasse me manter inteira à força.
Ela levantou a mão.
Pequeno tremor quase imperceptível.
— Um dia talvez ele precise escolher.
Arthos olhou para Kirin novamente.
O animal piscou lentamente.
— E você nunca falou isso pra ninguém.
— Não era necessário.
Silêncio compartilhado.
Nileya mexeu levemente durante o sono.
Muito distante dali.
Em uma câmara iluminada por cristais suspensos, a
Igreja reunia-se.
O homem que observara o confronto estava diante de um
círculo de figuras encapuzadas.
O fragmento do espinho, agora guardado dentro de uma
redoma translúcida, vibrava levemente sobre uma mesa
de pedra.
— A manifestação foi real — disse ele. — Parcial, mas
estável o suficiente para deixar resíduo físico.
— E o portador? — perguntou uma voz feminina.
— Confirmado. O padrão responde a ele.
Murmúrios espalharam-se.
— Ringueril precisa ser monitorado de perto —
continuou o homem. — Se o que carregam em seu peito
for realmente um eco do Rasgo original…
Ele deixou a frase incompleta.
— Então ele é chave — concluiu outro.
— Ou catalisador — corrigiu a mulher.
O fragmento vibrou mais forte.
Uma linha escura percorreu sua superfície.
— Não podemos permitir que forças errantes decidam o
destino de Ardorin — disse o homem. — A próxima
manifestação deve ocorrer sob nosso controle.
Silêncio pesado.
A decisão estava tomada.
No continente de Elyndor, a milhares de léguas dali, o
mar recuou.
Não como maré natural.
Como se estivesse sendo puxado.
Pescadores observavam confusos.
O fundo do oceano começou a expor formações que
jamais haviam visto a luz.
Peixes debatiam-se no lodo.
O ar tornou-se denso.
E no horizonte, uma linha escura surgiu sob a água.
Não sombra de nuvem.
Mas fissura líquida.
As ondas começaram a girar em torno de um ponto fixo.
Um redemoinho que não seguia lógica natural.
A Mana ali estava sendo sugada verticalmente.
Para baixo.
Profundamente.
Muito abaixo da crosta marinha.
Algo começava a ancorar-se novamente.
Mas desta vez não nas montanhas.
Nos abismos.
Nas Cordilheiras, o amanhecer chegou pálido.
Arthos tentou se levantar.
O mundo girou.
O braço direito falhou por um segundo.
Fatalis estava ao lado.
Mais pesada.
Ele tentou fechá-la na bainha.
Seus dedos tremiam.
Sangue seco ainda marcava a manga onde o espinho o
atravessara.
Nileya acordou ao ouvir o som metálico.
— Você está pior.
— Já estive.
Ela aproximou-se.
Os olhos estavam avermelhados.
— Você usou demais.
Ele não respondeu.
Mas o nariz começou a sangrar novamente.
Uma gota caiu na pedra.
Nilaris observava.
Silenciosa.
Ela própria sentia o gosto metálico na boca.
Rios de Sangue estava limpa visualmente.
Mas pesada.
Como se tivesse bebido demais.
Kirin saltou do colo dela.
Aproximou-se de Arthos.
Sentou-se.
E encostou levemente a cabeça na perna dele.
O tremor diminuiu por um instante.
Arthos percebeu.
Olhou para Nilaris.
Ela desviou o olhar.
— Não se acostume — disse ela.
Ele quase sorriu.
Mas o peso no peito voltou.
Algo estava errado.
Mais distante.
Mas crescendo.
Ele olhou para o horizonte.
O céu parecia claro.
Normal.
Mas o vazio dentro dele vibrava.
— Não acabou — murmurou.
Nileya ajustou o arco nas costas.
— Nunca acaba.
Arthos sentiu.
Não nas montanhas.
Mas além.
Muito além.
Outro ponto.
Outra ancoragem.
O Crepúsculo estava se espalhando.
E desta vez, não era isolado.
Era coordenado.
Ele fechou os olhos.
Respirou.
Sentiu a Mana ao redor.
Sentiu a ausência.
Sentiu o eco.
E percebeu algo aterrador.
Vhar’Zyraeth não estava apenas testando.
Estava mapeando.
E eles haviam sido marcados.
O vento soprou mais forte.
No fundo do oceano de Elyndor, a fissura abriu um pouco
mais.
E algo colossal começou a se mover nas profundezas.