Oliver? — disse o Sr. Brownlow. — Não é Tom White? — Não, senhor, Oliver Twist. — Singular nome — disse o velho.
Por que razão disse ao juiz que se chamava White? — Eu nunca disse isso — respondeu Oliver. Isto tinha ares tão de
mentira que o Sr. Brownlow lançou ao pequeno um olhar severo; mas não era possível duvidar da palavra dele; o
caráter da verdade estava impresso em todas as feições de Oliver. — Foi engano, naturalmente — disse o Sr. Brownlow.
Mas, posto que já não houvesse motivo para encarar fixamente a criança, voltou-lhe ao espírito a semelhança de Oliver
com um rosto conhecido e não pôde tirar os olhos do menino. — Espero que não esteja zangado comigo — disse Oliver
com olhos suplicantes. — Não, não — disse o velho. — Céus! Que vejo! Sra. Bedwin, olhe, olhe. E falando assim
apontava com o dedo o retrato colocado por cima da cabeça de Oliver e depois o rosto do pequeno; era a cópia viva do
retrato; os mesmos olhos, a mesma boca, as mesmas feições. Neste momento a semelhança era tal que todas as linhas
do rosto pareciam reproduzidas com maravilhosa precisão. Oliver ignorava a causa da exclamação súbita; não era tão
forte a comoção que ela lhe produziu e desmaiou. ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... 90 Quando o
Matreiro e seu digno camarada, mestre Bates, depois de se apropriarem ilegalmente do lenço do Sr. Brownlow, se
juntaram ao povo que perseguia Oliver, como dissemos, obedeceram a um sentimento louvável e meritório, o de
salvarem a respectiva pele. Como o respeito de liberdade individual é um dos privilégios de que mais se desvanece o
cidadão inglês, cuido que não será preciso observar que a fuga dos nossos jovens ratoneiros deve dar-lhes relevo no
espírito dos patriotas sinceros. A prova de que eles andaram como verdadeiros filósofos é que, apenas a atenção geral
se fixou toda sobre Oliver, deixaram eles de o perseguir e voltaram para casa pelo caminho mais curto. Depois de
percorrerem a toda a pressa um dédalo de ruas e becos, pararam de comum acordo, e apenas mestre Bates pôde
respirar, soltou um grito de alegria e uma tal gargalhada que caiu. — Por que te ris assim? — perguntou o Matreiro. —
Ah! Ah! Ah! — Não faça barulho — observou o Matreiro lançando à volta de si um olhar assustado. — Queres ser filado,
animal? — Não posso, não posso — disse Carlinhos. — Como ele corria, enfiando ruas e ruas, esbarrando nas paredes, e
eu cá com o lenço no bolso, a gritar: pega ladrão! Não posso! A viva imaginação do mestre Bates reproduziu aquela cena
com ares tão cômicos que ele continuou a rir e a rolar no chão. — Que dirá Fagin? — perguntou o Matreiro,
aproveitando um instante em que Bates tomava fôlego. — O que é? — disse Carlinhos. — Sim, que dirá ele? 91 — Que
poderá dizer? — perguntou Carlinhos, suspendendo o acesso de hilaridade, porque o tom do Matreiro era sério. — Que
poderá dizer? A única resposta que lhe deu o Sr. Dawkins (o Matreiro) foi assobiar, tirar o chapéu, sacudir a cabeça e
coçar a orelha. — Que quer dizer com isso? — perguntou-lhe Carlinhos. — Lá, rá, rá, lá, rá, rá — respondeu o Matreiro.
— Era uma explicação; mas pouco satisfatória. Mestre Bates repetiu a pergunta: — Que significa isso? O Matreiro não
respondeu, mas pôs o chapéu, levantou a aba da casaca, fez com a língua uma bola na face, beliscou a ponta do nariz,
muitas vezes, voltou as costas e entrou no pátio da casa. Mestre Bates foi atrás dele com ar pensativo. Alguns instantes
depois desta conversa, o amabilíssimo ancião prestava ouvidos para ver se ouvia rumor de passos na velha escada.
Estava ele assentado perto do fogão, diante de uma caçarola, tratando de fazer comida e tendo uma faca na mão.
Horrível sorriso lhe passou pelo rosto lívido, quando se voltou para escutar, inclinando o ouvido para a porta e volvendo
os olhos ferozes por baixo das sobrancelhas vermelhas. — Quem é? — disse ele mudando de cara. — São apenas dois.
Aconteceria alguma coisa? Atenção. 92 Os passos se aproximaram e foram ouvidos mais perto. Abriu-se a porta
lentamente. Entraram o Matreiro e Carlinhos e fecharam a porta. Oliver não vinha com eles. CAPÍTULO 13:
APRESENTAÇÃO DE ALGUNS PERSONAGENS NOVOS QUE NÃO SÃO ESTRANHOS A CERTOS PARTICULARES
INTERESSANTES DESTA HISTÓRIA — Onde está Oliver? — disse o judeu com furor e ameaça. — Que é feito dele? Os
jovens ratoneiros olharam para o patrão com ar de medo; depois olharam um para o outro com ar de atrapalhação e
não disseram palavra. — Que é feito de Oliver? — disse o judeu, segurando o Matreiro pela gola e ameaçando-o com
horríveis imprecações. — Fala ou eu te esgano! Fagin dizia isto com um modo tão sério que o Carlinhos Bates, já posto
de longe por causa das dúvidas, e receando que também ele fosse esganado, ajoelhou e soltou um grito agudo e
prolongado, combinação do urro de um touro e do som de uma trombeta. — Não falarás, demônio? — disse o judeu
com voz de trovão, sacudindo o Matreiro com força tal que era de admirar não lhe rasgasse a casaca. — Caiu na ratoeira
— disse o Matreiro. — Faça o favor de me deixar em paz. 93 E com um só movimento fugiu às mãos do velho, segurou
num garfo e apontou para o colete do amável ancião um golpe tal que se fosse despedido lhe faria perder a alegria por
um ou dois meses, ou talvez mais. Nesta ocorrência, o judeu recuou com mais agilidade do que era de esperar de um
velho e, travando de uma caneca de estanho, já se preparava para a atirar à cara do adversário; mas o Carlinhos Bates
atraiu a sua atenção com um berro e foi à cabeça dele que a caneca se dirigiu. — Que terremoto é este? — murmurou
de repente uma voz grossa. — Quem diabo me atirou isto à cara? Muito feliz fui em só me cair a cerveja, e não a caneca,
sem o que teria pano para mangas. Nunca pensei que um velhaco judeu pudesse deitar outra coisa que não água, e
ainda assim só com a intenção de defraudar a companhia das águas filtradas. Que há por cá, Fagin? Diabo! A minha
gravata está cheia de cerveja... Entra, animal! Que fazes lá fora? Entra! O homem que assim falava era um sólido
rapagão de 35 anos, vestido de paletó de veludo grosso, calções pardos, meias azuis, escondendo pernas roliças e
cheias, pernas que parecem incompletas quando não trazem alguma corrente. Trazia um chapéu escuro e à roda do
pescoço um lenço velho, com cujas pontas enxugava a cara; quando acabou de enxugar deixou ver uma cara vulgar,
barba por fazer, dois olhos sinistros, um dos quais tinha sinais de murro recente. — Vem cá! — gritou o bandido. Um
cão, com a cara ferida em vinte lugares, entrou rastejando no quarto. — Anda depressa. Tens vergonha de me obedecer
à vista de gente? Deita-te: bota abaixo. 94 Esta ordem foi acompanhada de um pontapé que deitou o cão para o outro
lado do quarto. O cão parecia acostumado a este tratamento; encolheu-se tranquilamente no canto, sem soltar um
grito, fechando e abrindo os olhos, vinte vezes por minuto, parecendo fazer a inspeção do quarto. — Com quem estavas
brigando? — disse o homem, assentando-se com ar resoluto. — Maltratas as crianças, velho avarento? Admirame que
eles te não deem cabo da pele; no lugar deles já eu tinha feito isso. Se eu tivesse sido teu discípulo, há muito que essa
farsa estaria representada e... Mas não; nem poderia vender a tua pele; quando muito meter-te-ia numa garrafa para
mostrar-te como um prodígio de fealdade; mas não há garrafas tamanhas. — Sio, sio, Sr. Sikes — disse o judeu
tremendo. — Não fale tão alto. — Não me chames senhor — respondeu o bandido. — É sinal de que tramas alguma
coisa. Sabes o meu nome, não? Eu não o desonrei nunca. — Está bom, Guilherme Sikes — disse o judeu com humildade
abjeta. — Pareces estar de mau humor. — Talvez — respondeu Sikes. — Parece-me que tu também estás fora dos eixos,
quando atiras canecas de cerveja à cara dos outros, salvo se se trata de coisa pior que ir dar uma denúncia de ti, e... —
Estás louco? — disse o judeu, puxando o homem pela manga e apontando para os rapazes. O Sr. Sikes contentou-se em
fazer um laço de corda e inclinou a cabeça sobre o ombro direito, pantomima que o judeu pareceu compreender
perfeitamente. Depois em termos de gíria, que usava muito, mas que é inútil citar porque seriam ininteligíveis ao leitor,
pediu um copo de licor. 95 — Mas não ponhas veneno — acrescentou ele, pondo o chapéu na mesa. Dizia isto
brincando; mas se pudesse ver o judeu morder os lábios com um infernal sorriso, dirigindo-se para o bufê, pensaria que
a precaução não era inútil e que o amável ancião podia ceder à vontade de aperfeiçoar a indústria do destilador. Depois
de ter engolido dois ou três copos de licor, o Sr. Sikes teve a bondade de prestar atenção aos jovens aprendizes; e esta
amabilidade produziu uma conversa em que se falou da causa e das circunstâncias da prisão de Oliver com a
modificação e ornatos que o Matreiro julgou oportuno fazer. — Tenho medo que ele dê com a língua nos dentes e nos
ponha em apuros. — É provável — disse Sikes com um sorriso malicioso. — Ficas em bons lençóis, Fagin. — E tenho
medo — acrescentou o judeu, sem dar atenção à interrupção e olhando para o seu interlocutor fixamente —, tenho
medo que, se a dança começar por nós, chegue também a outros; meu caro, a tua posição é pior do que a minha. O
homem estremeceu e voltou-se para o judeu com ar ameaçador; mas este abaixou a cabeça e seus olhos erraram ao
acaso no muro colocado em frente dele. Houve um longo silêncio; cada um dos membros daquela respeitável
associação parecia absorvido por suas próprias reflexões, sem excetuar o cão, que parecia meditar um ataque às pernas
da primeira pessoa que entrasse da rua. — É preciso que alguém vá à estação policial saber o que houve — disse o Sr.
Sikes, em voz mais baixa do que a que usara até então.