Caminhavam com um passo tão vagaroso, e uns ares de basbaques ociosos, que Oliver começou a crer que eles
haviam
saído para enganar o velho judeu, e não para trabalhar. O Matreiro tinha o mau costume de tirar os bonés das crianças
que encontrava e deitá-los ao pátio que estivesse próximo; mestre Bates, pela sua parte, parecia ter uma noção
imperfeitíssima do direito de propriedade; bifava as batatas e cebolas que encontrava nas casas de quitanda e metia-as
na algibeira, as quais eram assaz largas e profundas. Oliver achava tudo isto muito malfeito e estava prestes a dizê-lo e a
voltar para casa, quando a sua atenção foi atraída para outro lado por causa de um movimento singular do Matreiro.
Vinham eles de uma passagem estreita a pouca distância de Clerkenwell, quando o Matreiro parou, pôs o dedo na boca
e fez recuar os seus companheiros com a maior circunspecção. — Que há? — perguntou Oliver. — Sio! — disse o
Matreiro. — Vês aquele patinho ali à porta do livreiro? — Sim, vejo ali um senhor, do outro lado da rua — disse Oliver.
— Vamos pregar-lhe a peça — disse o Matreiro. — Famoso achado! — acrescentou Carlinhos Bates. Oliver contemplou-
os com surpresa, mas não teve tempo de os interrogar, porque eles atravessaram a rua devagarinho e foram colocar-se
por trás do sujeito. Oliver acompanhou-os a alguns passos de distância e, não sabendo se devia seguir ou recuar, parou
e arregalou os olhos. O velho tinha um aspecto respeitável; trazia óculos de ouro. Vestia uma casaca verde-garrafa,
colete de veludo preto, calca branca e uma 71 bengala de bambu debaixo do braço. Tirara da loja um livro e lia-o com
tanta atenção como se estivesse em seu próprio gabinete. É provável que imaginasse estar lá, pois era evidente que ele
não via nem a cara do livreiro, nem a rua, nem os rapazes, nem o que quer que fosse, exceto o livro que ia lendo
absorto, voltando as páginas com mais vivo interesse. Quais não foram o horror e o medo de Oliver, colocado a alguns
passos atrás, quando viu o Matreiro mergulhar a mão na algibeira do velho, tirar um lenço, que deu a Carlinhos Bates,
depois fugir com o seu companheiro pela esquina da rua! Num rápido instante, a pobre criança compreendeu o mistério
dos lenços, dos relógios, das joias e da existência do judeu. Ficou dois segundos imóvel; fervia-lhe o sangue como se ele
estivesse em um braseiro; assustado e confuso e, sem saber o que fazia, deitou a correr. Mas no mesmo instante que
ele corria, o velho procurou o lenço no bolso e, não o achando, voltou-se rapidamente. Quando viu a criança a correr,
pensou naturalmente que era o ladrão, entrou a correr atrás dele, sem deixar o livro, e gritando: — Pega ladrão! Pega
ladrão! Não foi o velho o único a gritar contra o ladrão. O Matreiro e mestre Bates, para não atrair a atenção, correndo,
meteram-se do outro lado da esquina e apenas ouviram gritar pega ladrão e viram Oliver fugir, adivinharam o que se
passava, voltaram à outra rua e, como bons cidadãos, gritaram igualmente: — Pega ladrão! Pega ladrão! Posto que
Oliver tivesse sido educado por filósofos, não conhecia esta admirável máxima deles — que a conservação própria é a
primeira lei da natureza; se a conhecesse talvez estivesse preparado para o que acontecera; mas, na sua ignorância,
ficou mais assustado 72 com os gritos, correu ainda mais, sempre perseguido pelo velho e pelos dois rapazes. Pega
ladrão! Neste grito há um quê de mágico; o negociante deixa o balcão e o carroceiro, a carroça; o carniceiro abandona o
cepo, o padeiro, o cesto, o leiteiro, a celha, o moço de recados, o embrulho, o menino de escola, os brinquedos, o
calceteiro, a alavanca. Tudo corre em desordem, gritando, berrando, empurrando os que passam ao voltar às ruas,
excitando os cães e assuntando as galinhas. Ruas, praças, becos, todas repetem o mesmo grito: pega ladrão! Cem vezes
repetem esse grito, e o povo aumenta em cada canto. Vai seguindo sempre o mesmo povo, patinhando na lama ou
batendo com os pés na calçada; abrem-se as janelas, sai gente das casas, todos se precipitam. Quem está no teatro de
bonecos deixa Polichinelo e acompanha o povo, gritando todos: pega ladrão! Pega ladrão! O homem tem no coração a
paixão enraizada de perseguir alguém. Uma infeliz criança ofegante de cansaço, semimorta de medo, com o rosto
banhado de suor redobra os esforços para não ser pegada; mas todos correm mais, redobram os gritos, aumentam as
vaias. Pega ladrão! Dizem todos com regozijo. Ah! Prendam a pobre criança quando não seja senão por piedade. Está
preso enfim. Bela proeza! Lá está o pobre menino estendido no chão, o povo à roda dele, lutam uns com os outros para
verem melhor o criminoso. — Dê lugar! — Um pouco de ar! — Não vale a pena! — Onde está a pessoa roubada? — Está
aqui! 73 — Deixem passar este senhor! — Será este o pequeno? — É. Oliver estava no chão, coberto de lama e poeira,
deitando sangue pela boca, olhando com olhos pasmados para o povo, quando o velho apareceu e respondeu às
perguntas que lhe faziam com ansiedade. — Sim — disse ele —, receio que seja ele. — Receia! — murmurou o povo. —
Que bom coração. — Coitadinho! Feriu-se! — Não, senhor — diz um brutamontes. Fui eu que lhe despedi um soco, por
sinal que os dentes dele me cortaram a mão; fui eu que o prendi. Ao mesmo tempo levara a mão ao chapéu e sorria,
esperando receber alguma coisa em paga do trabalho; mas o velho olhou para ele com asco e olhou à roda de si como
se procurasse fugir daquele lugar; tê-lo-ia provavelmente feito e ocasionado assim nova perseguição, se um oficial de
polícia, a última pessoa que aparece nestas ocasiões, não tivesse passado por entre o povo e pegado na gola de Oliver.
— Vamos, levante-se! — disse ele. — Não fui eu, senhor; juro que não fui eu; foram os outros dois meninos; devem
estar por aí. Isto dizia Oliver torcendo as mãos com desespero