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DILEMAS 7 4 - Art5

O artigo analisa as práticas dos vendedores ambulantes no Complexo do Alemão após a implementação da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) em 2012. A pesquisa etnográfica destaca as dificuldades enfrentadas por esses trabalhadores, que não se encaixam no perfil de 'favelado empreendedor', e a luta por reconhecimento e permanência em suas atividades. A chegada da UPP e a construção do teleférico alteraram o espaço e as dinâmicas sociais, resultando em restrições para o comércio ambulante na região.

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DILEMAS 7 4 - Art5

O artigo analisa as práticas dos vendedores ambulantes no Complexo do Alemão após a implementação da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) em 2012. A pesquisa etnográfica destaca as dificuldades enfrentadas por esses trabalhadores, que não se encaixam no perfil de 'favelado empreendedor', e a luta por reconhecimento e permanência em suas atividades. A chegada da UPP e a construção do teleférico alteraram o espaço e as dinâmicas sociais, resultando em restrições para o comércio ambulante na região.

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Quando o trabalho é desordem:

POLÍCIA PACIFICADORA
DOSSIÊ UNIDADES DE
As demandas dos vendedores
ambulantes com a chegada da

CEVIS
UPP ao Complexo do Alemão
Wania Amélia Belchior Mesquita
Professora da Uenf

Este artigo trata de identificar e analisar as práticas The article When Work is Disorder: The Demands
de vendedores ambulantes do Complexo do of Street Vendors with the Arrival of the UPP in
Alemão, Zona Norte do Rio de Janeiro, a partir da the Complexo do Alemão identifies and investi-
implantação da Unidade de Polícia Pacificadora gates the practices of street vendors in the Complexo
(a inauguração da primeira UPP naquelas do Alemão, in the northern zone of Rio de Janeiro, fol-
favelas ocorreu em abril de 2012). Com base em lowing the implementation of the Pacification Police
experiência etnográfica, privilegiam-se algumas Unit (the first UPP was established in those favelas in
práticas de uso e regulação do espaço em uma April 2012). Based on ethnographic experience, some
das estações do teleférico daquelas favelas. No practices for using and regulating the space in one
decorrer das análises, é concedida especial atenção of the local cable car stations are prioritized. In the
às lutas dos ambulantes – que, de modo de geral, course of the analyses, special attention is given to
não conseguem se enquadrar no perfil do “favelado the street vendors’ struggles – who, as a rule, fail to be
empreendedor” – pelo reconhecimento e pela classed as “favela entrepreneurs” – for recognition and
permanência de suas atividades. permanence of their activities.
Palavras-chave: ambulantes, favela, polícia, UPP, cidadania Keywords: street vendors, favela, police, UPP, citizenship

Introdução Recebido em: 01/04/2014


Aprovado em: 18/06/2014

A
pesquisa aqui descrita, baseada em experiência
etnográfica, privilegiou a observação de eventos
singulares envolvendo as práticas de vendedores
ambulantes em uma das estações do teleférico do Com-
plexo do Alemão, Zona Norte do Rio de Janeiro, a partir
da chegada da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP).
No artigo é dada especial atenção às situações cotidianas
de copresença e coexistência (GOFFMAN, 1967, 1978,
2010) relacionadas ao uso e regulação do espaço. O tra-
balho de campo foi iniciado em julho de 2011, oito meses
depois da chegada da Força de Pacificação – Polícia Mili-
tar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ), Polícia Civil e
Forças Armadas – ao conjunto de favelas. A inauguração
da primeira UPP no local teve lugar em abril de 2012. No
decorrer desse período, estabeleci contatos diretos com
moradores e entrevistei 15 vendedores ambulantes e 20

DILEMAS: Revista de Estudos de Conflito e Controle Social - Vol. 7 - no 4 - OUT/NOV/DEZ 2014 - pp. 685-702 685
usuários do lugar. Posteriormente, dois membros da As-
sociação de Moradores da localidade foram entrevistados
e, na fase final da pesquisa, um agente da polícia con-
cedeu entrevista na sede da UPP Fazendinha. Algumas
informações foram obtidas por meio de conversas infor-
mais decorrentes das inúmeras vezes em que encontrei
com moradores na estação do teleférico e em eventos.
Mediante as mudanças sociais e econômicas da favela1,
propagadas nas intervenções governamentais, esses mo-
1 Neste texto, salvo quan-
do necessário, refiro-me ao radores criaram expectativas de inserção produtiva e de
complexo como “a favela”, melhoria de vida. Como trabalhadores da favela que, ao
no singular, seja quando
me referir ao Morro do Ale- longo da vida produtiva, vêm atuando como ambulantes,
mão especificamente seja esses vendedores sofreram restrição em relação ao uso do
quando a referência for a
outra comunidade do mes- espaço no entorno da estação do teleférico, sendo impe-
mo conjunto, seja ao tratar didos de exercer sua principal atividade de sobrevivên-
do próprio conjunto.
cia. Mesmo no espaço em que residem, eles passaram a
2 Entre 1960 e 1970, os fave-
lados eram percebidos como ser estigmatizados por não apresentarem as habilidades e
resultado de um processo competências valorizadas pelas agências governamentais
marcado pela marginalida-
de social, o que serviu como e não governamentais. De modo geral, esses comercian-
justificativa ideológica para tes não conseguem se enquadrar no perfil do “favelado
ações antifavela. Nesse con-
texto, emerge a política de empreendedor” que se tornou o foco de algumas ações de
remoção (realizadas pelo órgãos governamentais, ONGs e empresas privadas desde
governo estadual com finan-
ciamento federal), e a partir a chegada da UPP. A falta de “lugar” para eles, mesmo no
de críticas locais, nacionais interior da favela, torna-os destoantes da ordem que se
e internacionais às soluções
tradicionais para a questão pretende implantar nesse lugar.
da favela, entendida como Esse “não lugar” também é marcado pela “precarieda-
um problema, estabelece-se
uma política de intervenção de” da disposição legislativa municipal no 1.876, de 29 de
pública, visando à sua urba- junho de 1992, que dispõe sobre o comércio ambulante no
nização (VALLADARES, 2005).
Em 1960, Carlos Lacerda, município do Rio de Janeiro e, no caso dos moradores de
eleito primeiro governador favela (BORGES, 2014), amplia a história desses espaços
da Guanabara, estabeleceu o
decreto no 1.668, de 1963, que em termos das ações governamentais e da situação jurídi-
“visava controlar e taxar as ati- ca de garantia de acesso ao solo urbano2 (VALLADARES,
vidades comerciais no interior
das favelas, recusando-se, no 2000). Conforme análise de Borges (2014, p. 8), nessa lei
entanto, a legalizá-las (...). O municipal prevalece “o descompasso entre a legislação e o
artigo 1o do dito decreto es-
tabeleceu a solução jurídica reflexo nas práticas que pretende regular”. Segundo o au-
para o problema, afirmando tor, ela selecionou pessoas que entende “não possuir con-
que a licença de comércio ou-
torgada aos comerciantes é ‘a dições” de exercer a atividade comercial ordinária, seja por
título precário, pois trata-se de um período menor ou por um período maior”. Ademais, a
favelas’. Além disso, proibiu a
venda de álcool, atingindo di- “inclusão excludente” acaba impondo ao exercício do co-
retamente o principal produ-
to destes estabelecimentos”
mércio ambulante um caráter precário e de assistência a
(SOARES, 2014). pessoas desprovidas de alguma coisa (idem, p. 16).

686 DILEMAS Vol. 7 - no 4 - OUT/NOV/DEZ 2014 - pp. 685-702 Wania Amélia Belchior Mesquita
O Complexo do Alemão é formado por 15 favelas:
Itararé, Joaquim de Queiróz, Mourão Filho, Nova Brasília,
Morro das Palmeiras, Parque Alvorada, Relicário, Rua 1 pela
Ademas, Vila Matinha, Morro do Piancó, Morro do Adeus,
Morro da Baiana, Estrada do Itararé, Morro do Alemão e
Armando Sodré. A origem do complexo remonta à década
de 1920, no período do pós-guerra, quando um imigran-
te de origem polonesa chamado Leonard Kaczmarkiewicz
chegou ao Rio de Janeiro e adquiriu terras na Serra da Mise-
ricórdia, correspondente à região rural da Zona da Leopol-
dina. Em decorrência de suas características físicas – branco
e alto –, assim como do seu sotaque estrangeiro, os morado-
res do local passaram a se referir ao proprietário da fazenda
como o “alemão”. Posteriormente, uma das favelas passou a
ser denominada como Morro do Alemão (AGÊNCIA 21/
INSTITUTO DIALOG, 2010). No início da década de 1990,
o então prefeito do município do Rio de Janeiro delimitou a
29a Região Administrativa, do Alemão, apoiado pelo decre-
to no 6.011, de 4 de agosto de 1986.

O teleférico, a chegada da UPP e a mudança no


panorama da favela

A inauguração da estação do teleférico teve lugar em ju-


lho de 2011. A estrutura do equipamento, em suas diversas
estações, se coloca na paisagem do Complexo do Alemão de
forma pujante, mas a precariedade dos serviços públicos e
da infraestrutura em várias localidades ainda se faz presen-
te, mesmo após a intervenção do Programa de Aceleração
do Crescimento (PAC). Segundo os entrevistados, além da
remoção de moradores para os conjuntos habitacionais em
outras localidades da favela, observam-se déficit habitacional
e problemas de abastecimento de água, de saneamento e nos
serviços de correios ainda não solucionados. Ademais, muitas
das casas desapropriadas mas não demolidas passaram a ser
ocupadas por outros moradores da favela.
Palmeiras é a estação terminal do teleférico e possibilita
uma visão panorâmica do Complexo do Alemão. Segundo
seu planejamento, além de cumprir sua função como siste-
ma de transporte, ele também destina espaços para “equi-

Wania Amélia Belchior Mesquita DILEMAS Vol. 7 - no 4 - OUT/NOV/DEZ 2014 - pp. 685-702 687
pamentos de inserção social”, como serviços e lazer. Nela,
há espaço destinado à formação de um centro cultural ain-
3 Inaugurada em outubro
da sem uso, um auditório e uma biblioteca, inaugurada em
de 2012, a biblioteca conta parceria com o Serviço Social da Indústria (Sesi)3. Com a
com 1.200 livros, revistas e
gibis doados pela Academia inauguração do dispositivo, alguns moradores conceberam
Brasileira de Letras (ABL)
e funciona de terça-feira a
a possibilidade de iniciar a venda de alimentos e bebidas
sábado, das 10h às 19h. Os para seus usuários, moradores do complexo, da vizinhan-
frequentadores têm aces-
so a oito computadores. O ça, de outras localidades da cidade e do país e também os
Complexo do Alemão é a
11a favela a participar do
estrangeiros em visita à favela. Várias empresas externas ao
projeto Indústria do Conhe- conjunto de favelas passaram a atuar em serviços e merchan-
cimento, uma iniciativa da
Federação das Indústrias dising nas estações do teleférico4. Na área externa daquela
do Estado do Rio de Janeiro
(Firjan) em parceria com a
estação, há escorrega e balanço para crianças e bancos de ci-
ABL e que integra as ações mento e mesas para os usuários. Na área contígua, uma qua-
de educação do programa
Sesi Cidadania. dra esportiva gradeada e sem telhado é usada por crianças
4 Na estação Palmeiras há e jovens. Desde o segundo semestre de 2012, funciona uma
um quiosque de venda de
sorvetes da Kibon e um
escolinha de futebol sob a responsabilidade de um morador
caixa eletrônico do banco da vizinhança com apoio da UPP.
Bradesco. De acordo com
a identificação da Super- Para uma melhor contextualização das práticas dos
Via, as demais estações
são assim caracterizadas:
ambulantes após a chegada da UPP no Alemão, cabe a
Bonsucesso/Tim: a estação referência a alguns fatos noticiados em diversos veícu-
intermodal é integrada com
o meio de transporte fer- los de comunicação. Em novembro de 2010 o Batalhão
roviário e possui um posto
do RioCard para cadastra-
de Operações Policiais Especiais (Bope) e o de Cho-
mento dos moradores do que (BPChq) realizaram uma operação de ocupação
Complexo do Alemão usu-
ários do teleférico; Adeus: do Complexo do Alemão. Esse fato reflete a expressão
localizada no morro do
Adeus, onde antes só havia
que adquiriu a ideia de retomada do controle territo-
acesso por intermédio de rial, central na concepção das UPPs. Já havia 12 dessas
escadarias, conta com uma
agência do Banco do Brasil unidades na cidade do Rio de Janeiro quando começa-
e caixas eletrônicos da Cai-
xa Econômica Federal e do
ram a se suceder alguns episódios violentos, caracteri-
Bradesco); Baiana: abriga zados por assaltos a veículos e a queima dos mesmos em
um posto de orientação
urbanística e social da pre- diversos pontos da cidade (majoritariamente na Zona
feitura e um caixa eletrô-
nico da Caixa); Alemão/
Norte). Esses atos, noticiados pelo jornal O Globo, em
Kibon: nela estão situados o 26 de novembro de 2010, como o “Dia D da guerra ao
Centro de Referência da Ju-
ventude (CRJ), um posto de tráfico”, foram associados a ações comandadas por fac-
atendimento do Ministério
da Previdência Social e uma
ções criminosas em represália à instalação das UPPs na
agência dos Correios); e Ita- cidade. Nesse contexto, teve lugar uma operação espe-
raré/Natura: há um posto
do programa Educamais, do cial da PMERJ com o apoio da Marinha do Brasil. De
Sesi, e faz a integração com
um conjunto habitacional.
acordo com as informações da mídia, a operação consi-

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derava que a região era um dos pontos fortes do tráfico
na cidade e refúgio de traficantes de favelas vizinhas,
nas quais foram instaladas UPPs5. No final de novembro
de 2010, houve uma ação conjunta entre a PMERJ, a Polícia
Federal, a Polícia Civil e as Forças Armadas, que novamente
agiram em relação ao controle do território. A previsão era
de que o Exército permanecesse por mais um ano e meio na
região, até que fosse instalada uma UPP, em 2012. Em abril
daquele ano ocorreu a implantação de uma das primeiras 5 A operação foi televisio-
nada por diversas emisso-
sedes da UPP, na Fazendinha6. Posteriormente, outras três ras, que sugeriam que toda
unidades foram implementadas: Nova Brasília, Alemão e a cidade estava vivencian-
do um clima de tensão. O
Adeus/Baiana. De acordo com um entrevistado, membro da episódio foi apelidado de
UPP, o “setor de policiamento” é composto por policiais que “Tropa de Elite 3”, em refe-
rência aos filmes Tropa de
fazem a “guarda do teleférico” e outros que atuam à paisana Elite e Tropa de Elite 2. Uma
e na “base” da sede da UPP. Cerca de 200 policiais têm atua- cena marcante, documen-
tada por uma emissora que
ção diária. Destes, 12 são mulheres, metade do contingente filmava a ação, foi a de um
bando de aproximadamen-
é recém-formada e cerca de 80% passaram a atuar no Com- te 200 traficantes armados
plexo do Alemão após a implantação da UPP. fugindo da Vila Cruzeiro
em direção ao Complexo
Em julho de 2012, é construída, no entorno da estação do Alemão por uma es-
do teleférico das Palmeiras, uma das sedes da UPP, funcio- trada de terra ligando as
duas favelas. Essa cena per-
nando em um contêiner, abrangendo as favelas Palmeirinha, maneceu nos noticiários
Vila Matinha, Casinhas, Parque Alvorada, Relicário e Morro televisivo e impresso e foi
repetidamente veiculada,
das Palmeiras. inclusive pelos principais
jornais internacionais (CEC-
CHETTO, CORRÊA, FARIAS e
MESQUITA, 2012).
Os vendedores ambulantes e a negação de suas 6 De acordo com dados
práticas na estação do teleférico governamentais divulga-
dos, a sede (administrativa
e alojamento da tropa)
Os vendedores (oito mulheres e sete homens) moram no da UPP Fazendinha teve
um investimento de R$
entorno da estação Palmeiras. Cinco são migrantes nordes- 1,6 milhão e conta com
tinos e chegaram há cerca de dez anos ao Complexo do Ale- 320 policiais. Disponível
(on-line) em: [Link]
mão, alguns por falta de oportunidades de emprego e renda [Link]/web/imprensa/
onde viviam, devido a situações imprevistas, como perda de exibeconteudo?ar ticle -
-id=1000278 Segundo
empregos, morte do provedor da família e doença de fami- fonte do Jornal do Brasil,
liares. Esses moradores estão na faixa etária de 20 a 40 anos o investimento neces-
sário à construção da
e têm filhos (na maioria, crianças e adolescentes). Muitos vi- sede foi uma iniciativa do
venciaram situações de trabalhos irregulares ou desemprego. empresário Eike Batista.
Disponível (on-line) em:
As dificuldades de inserção profissional parecem uma quime- [Link]
ra, pois eles não possuem nenhuma qualificação profissional noticias/2012/07/09/na-
-inauguracao-de-upps-do-
e apresentam baixa escolaridade (quase a totalidade não con- -alemao-cabral-agradece-
cluiu o ensino fundamental). Se até a construção do telefé- -o-bilionario-eike-batista/

Wania Amélia Belchior Mesquita DILEMAS Vol. 7 - no 4 - OUT/NOV/DEZ 2014 - pp. 685-702 689
rico e a chegada da UPP eles viviam tentando minimizar as
dificuldades econômicas cotidianas, atualmente, a fim de ob-
ter alguma legitimidade na ocupação do espaço, eles buscam
potencializar os aspectos considerados positivos da atividade
de ambulantes e consideram suas ocupações indispensáveis à
existência social. Alguns desses vendedores estabeleceram na
localidade relações de amizade de uma vida inteira e contatos
diários. Extensos laços familiares permaneceram fortes, em
especial nos casos de emergências. Aliás, a maioria dos casa-
mentos ocorreu na vizinhança. A sociabilidade vicinal parece
a eles seu vínculo mais humanizado.
O interesse por iniciar as atividades de vendas no entor-
no da estação está fortemente associado ao local de residên-
cia. Precedentemente à instalação da UPP, alguns já desenvol-
viam essa atividade em outros pontos da favela que passaram
pelo processo de urbanização e provocaram os deslocamen-
tos de vendedores de rua. Outros, conforme mencionado an-
teriormente, viram a estação como oportunidade de ampliar
sua clientela7. Os ambulantes, que estiveram presentes desde
o início do funcionamento do teleférico, nutrem a expectativa
de permanecer no local. De modo geral, informam trajetórias
de interrupções de trabalho, enfatizando principalmente as
redes familiares e de sociabilidade por eles construídas e com
as quais podem contar em sua atividade na estação do telefé-
rico. Nesse sentido, há uma valorização dos vínculos históri-
cos entre as atividades comerciais e a sociabilidade como um
movimento de autoproteção social (RIBEIRO, 2004).
Uma moradora relatou estar desempregada e não ter o
dinheiro necessário para aquisição das mercadorias. Median-
te a dificuldade de obtenção de crédito bancário para iniciar o
trabalho, conseguiu o empréstimo com um membro da famí-
7 Por exemplo, há o caso lia também morador da localidade. Outra mencionou a ajuda
de um comerciante que
tinha um pequeno ponto financeira do marido e também a colaboração dele nas ativi-
de venda de lanches inte- dades nos finais de semana, quando está de folga do emprego
grado ao seu espaço de re-
sidência e que com o início como porteiro. Outros relatos referem-se à ajuda de familia-
da construção do teleférico res para a aquisição de materiais de construção das barracas,
iniciou obras de expansão.
Atualmente, esse é um dos equipamentos e utensílios. Também há casos de compartilha-
pontos mais próximos da mento do espaço de vendas com produtos diferentes por dois
estação com atendimento
diário. Nesse processo, o co- amigos ou membros da família. Uma ambulante construiu
merciante obteve registros sua barraca com o material retirado do terraço de sua casa,
formais das atividades junto
aos órgãos de fiscalização. adquirida com a indenização recebida por sua residência an-

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terior. Segundo ela, várias casas nas proximidades da estação
Palmeiras foram desapropriadas por conta das obras do PAC.
Na construção de suas trajetórias sociais como mora-
dores da localidade, as referências pessoais contam para a
“economia da rede proximal”, mesmo em um lugar em que
predomina a pobreza. Suas histórias de vida se conjugam com
os acontecimentos locais, sendo possível identificar as perma-
nências e transformações com que se confrontam no enfren-
tamento das situações cotidianas. Por outro lado, é possível
também compreender como determinados valores e práticas
podem ser traduzidos em ações de obtenção do “lugar para o
trabalho” como ambulantes, em um contexto de urbanização
seletiva e de controle e regulação institucional dos espaços.
No início do trabalho de campo, observei a frequente per-
manência de agentes do Exército na área externa à estação do
teleférico, assim como os ambulantes colocando seus isopores
com bebidas e alimentos à venda nas imediações da entrada
do local, atendendo ao fluxo de passageiros e visitantes. Antes
disso, alguns tinham suas barracas em uma área que os agen-
tes do projeto do meio de transporte consideraram apropria-
da para circulação e registros fotográficos do local, geralmente
realizados por visitantes e turistas. Na ocasião, eles foram co-
municados pelos agentes de segurança da SuperVia, empre-
sa responsável pelo empreendimento, da impossibilidade de
permanecerem com as vendas e sobre a programação de uma
operação do “choque de ordem da prefeitura” para retirada das
barracas. Os ambulantes disseram ter sido fundamental terem
contado com a solidariedade dos agentes de segurança porta-
dores da mensagem, também moradores do Complexo do Ale-
mão, pois puderam se precaver da perda de seus produtos.
Os comerciantes passaram então a negociar no entorno da
estação, onde há uma praça com espaço de recreação e brinque-
dos. Uma parte deles instalou barracas de tapume, outros coloca-
ram estruturas de ferro. Alguns se valeram de estratégias como a
aquisição de carrinhos, não estabelecendo pontos fixos, o que os
levou a driblar a proibição. Como meio de se desvincular da si-
tuação de irregularidade, buscaram a Associação de Moradores
como um canal de mediação para regularizar as atividades junto
à prefeitura. Em uma reunião, ficou “acertado” que não haveria
ampliação do número de ambulantes, como forma de controlar
a quantidade de barracas e de trabalhadores nos arredores da es-

Wania Amélia Belchior Mesquita DILEMAS Vol. 7 - no 4 - OUT/NOV/DEZ 2014 - pp. 685-702 691
tação. Por isso, eles consideraram importante o uso de camisetas,
isopores e barracas com imagens e referências a suas atividades.
Passaram-se alguns meses e os ambulantes continu-
aram aguardando a decisão da prefeitura. Para alguns, na
ocasião a associação não tinha força política para reverter
o quadro, já que a antiga presidente era mais ativa, “cor-
ria atrás”. A referência à presidente anterior parece estar
associada a sua atuação junto ao PAC. Já o presidente da
Associação de Moradores na ocasião desse evento parecia
ser “mais devagar” e a cada dia informava aos vendedo-
res sobre a necessidade de “negociação”. Quando ocorreu
a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento
Sustentável, a Rio+20, no Rio de Janeiro, de 13 a 22 de ju-
nho de 2012, a informação chegou aos ambulantes pela As-
sociação de Moradores, que fez a divulgação no complexo,
informando que haveria programação em um sábado em
determinadas estações do teleférico. Na véspera dos even-
tos programados para a favela, os ambulantes e a Associa-
ção de Moradores se reuniram para definir como se daria
a presença dos primeiros no local, pois estavam previstos
shows musicais, apresentações de dança e a instalação de
quiosques de empresas, como a companhia de energia
elétrica, e também de ONGs e artesãos da Baixada Flumi-
nense, todos com seus espaços demarcados por barracas a
serem disponibilizadas pela prefeitura. Entretanto, como
forma de subsidiar gastos com apresentações e shows, fo-
ram cobrados dos ambulantes R$ 10 por barraca. Segundo
os vendedores, a arrecadação do dinheiro foi feita por uma
moradora envolvida na organização das atividades.
Passado o evento, as barracas e o palco foram desmon-
tados e os ambulantes continuaram com os problemas coti-
dianos em relação ao uso do espaço. Mais uma vez, foram
advertidos por agentes de segurança da SuperVia para se
retirarem, devido às atividades de inauguração da sede da
UPP na área contígua à estação Palmeiras. Do ponto de vis-
ta dos ambulantes, não havia problemas em permanecer no
lugar. Entretanto, na perspectiva dos agentes da empresa, o
local seria alvo da mídia e a aparência das barracas (“po-
bres”, “feias” e “sujas”) não se integrava à paisagem desejada
de um espaço ordenado. Segundo os ambulantes, durante a
construção da sede da UPP havia um boato de que a polícia,

692 DILEMAS Vol. 7 - no 4 - OUT/NOV/DEZ 2014 - pp. 685-702 Wania Amélia Belchior Mesquita
e não mais a prefeitura, impediria a presença deles no espa-
ço. Fato que, segundo eles, não se confirmou, cabendo mais
uma vez aos seguranças transmitirem a falsa informação
sobre a retirada das barracas e de mercadorias. Em determi-
nados casos, os ambulantes pernoitaram no local. Segundo
alguns relatos, isso ocorreu na véspera da inauguração.
No dia da solenidade de inauguração da UPP da Fa-
zendinha, os ambulantes, com receio de sofrer represálias e
expulsão pela polícia, não compareceram ao local de vendas
das suas mercadorias, retornando apenas no dia seguinte.
No cerne da questão havia o receio e a desconfiança do que
poderia acontecer, pois eles temiam vivenciar ações violen-
tas, a considerar as experiências conhecidas em termos das
abordagens e incursões da polícia na favela, frequentemente
percebidas pelos moradores como atos arbitrários.
Ao retomar as atividades, eles adotaram outro procedimen-
to. Buscaram colocar as barracas na parte inclinada do morro,
atrás das grades de delimitação do espaço externo à estação Pal-
meiras. Esse esforço ocorreu por entenderem que essa área não
está sob a gestão da SuperVia e tampouco pertence à prefeitu-
ra, pois foi “comprada pelo PAC”. Alguns demarcaram o espaço
com cercas de tapumes e outros colocaram faixas com informa-
ção sobre os produtos vendidos. As dificuldades em negociar
a permanência no espaço, em ter acesso às informações sobre
como proceder ou a quem recorrer e o desgaste ao longo desses
processos trouxeram muitos transtornos à vida desses morado-
res, tanto em termos de prejuízos materiais, com a interrupção
das atividades, quanto de planejamento de seus desdobramentos.
As regras e ordenamentos para o lugar restringem as ações
dos ambulantes e servem como justificativas legitimadoras de
interesses específicos da SuperVia e da UPP. Alguns deles rela-
taram que agentes da empresa mediaram a área de recreação
e informaram sobre a possibilidade de instalação de brinque-
dos equivalentes aos de parques com acesso pago. Tal fato ge-
rou um sentimento de indignação nos ambulantes. Segundo a
ordenação apresentada pelos agentes da SuperVia e da UPP e
pela Associação de Moradores, a área usada pelos vendedores
é pública e está sob responsabilidade da prefeitura, cabendo à
Secretaria Municipal de Habitação a regulação do uso. Para os
ambulantes e a Associação, há dificuldade para acessar os ca-
nais governamentais necessários à resolução do impasse. Se da

Wania Amélia Belchior Mesquita DILEMAS Vol. 7 - no 4 - OUT/NOV/DEZ 2014 - pp. 685-702 693
parte dos comerciantes informais busca-se articulação nas reu-
niões da entidade de representação comunitária, esta tenta uma
proximidade com os órgãos públicos visando à regularização
da situação dos vendedores. Inclusive com mediações de um
vereador morador da favela que tentaria agendar uma reunião
com órgãos governamentais e membros da Associação. Apesar
dos esforços, havia resistência por parte dos entes do governo.
A Associação de Moradores chegou a realizar um cadastro das
barracas e dos profissionais para apresentar na reunião.
Nesse contexto, os ambulantes permanecem irregulares
no uso do espaço e tentam se adequar às imprevisibilidades e
esforços de adequação. Uma moradora relatou ter conseguido
autorização do comandante da UPP para instalar uma cama
elástica de brinquedo ao lado da sede. Segundo ela, a autoriza-
ção decorreu de sua necessidade de obtenção de renda com a
atividade e por estar na área de gestão da unidade. Nesse caso
em particular, há o reconhecimento da autoridade policial e a
legitimidade do agente “comandante” em permitir o uso do es-
paço para tal atividade. Isso remete à “função compensatória
do Estado, portanto é vista como uma literal compensação da
desigualdade na administração dos conflitos em público e não
uma promoção da igualdade para que as partes administrem
seus conflitos em público” (KANT DE LIMA, 2004, p. 51). Di-
ferentemente das ações dos demais ambulantes, nesse caso foi
pedida diretamente a autorização da polícia, baseada em uma
lógica de subordinação-comando, e não em uma lógica de de-
manda formal de justiça. É notório que nesses lugares o Esta-
do é omisso em termos de regulação do espaço e a autorização
concedida remete ao poder dele “sobre um indivíduo que, sen-
do um vendedor ambulante, vê ampliada a relação assimétrica
a que está submetido por definição” (PIRES, 2010, p. 326). As-
sim, o uso do lugar por uma ambulante, ainda que eventual-
mente “autorizada, não concede garantias de um direito pleno
de estabelecimento naquele local” (BORGES, 2014, p. 21).
Do ponto de vista dos demais ambulantes, é necessário
o reconhecimento de suas necessidades, pois eles entendem
que a UPP estabelece suas ações e constrói uma unidade no
local em nome da ordem ou de uma lei que seleciona uns e
discrimina outros. Esses moradores demandam que o Esta-
do reconheça o exercício de suas atividades, considerando
que já se encontravam no lugar quando a UPP chegou.

694 DILEMAS Vol. 7 - no 4 - OUT/NOV/DEZ 2014 - pp. 685-702 Wania Amélia Belchior Mesquita
Falar em sentido de justiça é tratar de conjuntos mui-
to distintos de instituições e agências como a própria ação
de policias na localidade. Parece existir uma lógica oficial
diferente do ponto de vista dos moradores, que desenvol-
vem sua percepção com base nas experiências cotidianas,
inclusive aquelas com a polícia e as instituições do Estado.
Na falta de um árbitro para determinados conflitos locais,
procura-se a polícia. A sede da UPP é um equipamento que,
segundo os moradores, já foi buscado na tentativa de respal-
dar legalmente a resolução de conflitos envolvendo ambu-
lantes e outros moradores.
Um caso desse tipo de conflito ocorreu no segundo se-
mestre de 2012, quando os ambulantes já tinham instalado
as barracas e um deles deixou no local o isopor de uso diário
contendo refrigerantes e outras bebidas. Segundo os relatos
de moradores e de agente da UPP, alguns refrigerantes foram
retirados durante a noite e consumidos no local por adoles-
centes, que ainda levaram garrafas para casa. No momento
da ação, um jovem, filho de uma ambulante, passou pelo lo-
cal e comunicou o fato à mãe, e ela imediatamente acionou a
proprietária da barraca alvo dos adolescentes. A vendedora
constatou o “roubo” das bebidas e, juntamente com a colega
e outros ambulantes, foi até a sede da UPP, onde relataram o
ocorrido. Entretanto, os policias afirmaram que “não tinham
nada a fazer”. Segundo o agente entrevistado, os moradores
solicitaram o registo policial, o que não foi possível porque
o mesmo não foi efetivado no local. Após a insistência dos
moradores, buscou-se uma tentativa de resolução do conflito.
Os adolescentes foram identificados a partir da narrativa do
jovem testemunha, e os ambulantes e os policiais se dirigiram
a suas residências. O grupo comunicou o ocorrido aos pais e
responsáveis pelos adolescentes. Segundo uma moradora, a
situação foi muito difícil, pois uma das mães estava em perí-
odo de resguardo e ficou muito nervosa. Ela devolveu os re-
frigerantes que estavam em sua casa e pagou o que havia sido
consumido pelo filho, que não se encontrava no momento. Já
um outro pai, cujo filho estava em casa, encontrava-se desem-
pregado, mas se responsabilizou pelo pagamento de alguns
refrigerantes, o que ocorreu nas semanas seguintes. Em toda
essa situação, ainda que se tenha mobilizado os policiais, a
resolução do conflito se deu por meio da “justiça local” e não

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da oficial, a do Estado. Não houve procedimentos legais, o ter-
ceiro imparcial responsável pela justiça. Ou seja, ainda que os
policiais estivessem presentes, o que prevaleceu foi o “acordo
informal”. De certo modo, não se conseguiu romper com a
forma como os problemas locais eram resolvidos, distante da
referência do direito.
No caso mencionado, a resistência inicial da polícia re-
forçou a visão de que seus agentes atuam de maneira arbi-
trária e são ineficazes em resolver os problemas enfrentados
pelos ambulantes. Há, por exemplo, o questionamento sobre
o uso de câmeras para monitorar o espaço no entorno do te-
leférico. Para os vendedores, se esses dispositivos não são ca-
pazes de coibir esse tipo de ação, ao menos deveriam auxiliar
na efetivação de um registro e em outros procedimentos. Se-
gundo um agente da UPP, as filmagens são captadas e concen-
tradas por uma central externa à favela. Para os moradores, o
sistema de controle possibilita inclusive a ausência dos poli-
ciais em alguns momentos. Nos “dias quentes”, é frequente os
policias permanecerem no interior da sede da UPP, supos-
tamente ausentes de suas funções de policiamento externo.
É nesse contexto dos dilemas enfrentados pelos moradores
e pela instituição policial que as práticas desenvolvidas, seus
significados e usos devem ser entendidos. Da mesma forma,
seria apressado identificar os possíveis avanços levados para a
localidade pela UPP e pelos procedimentos próprios de reso-
lução de conflitos8. De todo modo, cabe destacar a centralida-
de que a UPP passa a ocupar no espaço da área externa à es-
tação para os moradores, muito mais no sentido de segurança
dos visitantes do que deles próprios. Na situação de entrevis-
ta, o agente da UPP, mediante a análise do caso, mencionou
de imediato a questão da universalidade e da particularidade
em relação à imparcialidade. Contudo, é importante reco-
nhecer que essas reivindicações são parte de um conjunto de
ações dos membros da associação de moradores e de agentes
de ONGs, apresentados por si próprios como empenhados
em “ajudar” os ambulantes. O pressuposto orientador da ação
8 Segundo o agente da UPP, dessas organizações é que a garantia de permanência deles só
alguns moradores procuram ocorrerá na medida em que forem incluídos como agentes do
a sede a fim de conhecer os
procedimentos no caso de atual processo de empreendedorismo presente na localidade,
roubos a residências – que
passaram a ocorrer – e tam-
contemplando a particularidade das formas de atividade eco-
bém de comunicá-los. nômica voltada para o segmento em questão. Nesse sentido,

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os vendedores ambulantes são desqualificados socialmente,
pois se situam à margem das ações de “empreendedorismo da
favela” características de muitas ações em curso no Complexo
do Alemão, como: formação escolar, cursos de profissionali-
zação e qualificação, atividades de emprego e renda em par-
ceria com órgãos governamentais e a iniciativa privada, como
também a proliferação de programas para os jovens por

meio de música, lutas, cursos técnicos, cursos de idiomas, etc.


Com estas ações, pretende-se ocupar as crianças e os jovens de
forma a afastá-los da atração exercida pelo poder do tráfico e
formar uma nova geração com valores que deem sustentabili-
dade à pacificação (FLEURY, 2012, p.216).

O dilema da política de segurança e dos agentes nela en-


volvidos, no caso apresentado, é combinar o acesso às ações
programadas com interesses e iniciativas já estabelecidos na
localidade, em uma perspectiva de integrar determinados seg-
mentos da população da favela, considerando os direitos de
cidadania e rompendo estereótipos e acusações infundadas.
Diferentemente da análise de Queiroz e Lago (2001) sobre a di-
visão favela-bairro no Rio de Janeiro e a interpretação socioes-
pacial de suas diferenças, na qual os autores destacam que esta
representa não apenas as desigualdades materiais e de acesso
a bens públicos, mas também a separação e/ou inferioridade
simbolicamente a eles atribuída, no caso dos ambulantes do
Complexo do Alemão essa diferenciação se reforça nos espa-
ços da própria favela, sendo legitimada na seleção dos “mais
capazes”. Estes seriam os beneficiados nas intervenções sociais.
Os ambulantes a cada dia movimentam-se para per-
manecer no lugar e ser reconhecidos como “trabalhadores”
(ZALUAR, 1985), em detrimento de uma representação
como “bandidos” (MISSE, 2010). Atualmente, se estabele-
ceu uma fronteira entre o espaço público formalizado e o
outro espaço, não reconhecido ou ainda não formalizado,
mesmo com as intervenções do PAC e da UPP.
Conforme análise de Fleury (2012, p. 195), “a instalação
permanente de uma unidade policial foi considerada como con-
dição imprescindível para a integração desses territórios à cidade
formal, por meio da expansão da cidadania aos seus cidadãos”.
Contudo, a autora destaca que a intervenção social – operaciona-

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lizada sobretudo pelo programa UPP Social, do governo do esta-
do e da prefeitura da cidade do Rio de Janeiro – ocorre de forma
desigual no que tange à administração dos recursos: “Enquanto a
UPP tem um mandato claro em relação à ocupação policial para
enfrentar problemas de segurança, com recursos colocados a sua
disposição pelo poder público e empresariado, a UPP Social re-
vela flagrante debilidade institucional” (Idem, 2012, p. 200). Ade-
mais, a ligação entre a UPP Social e a unidade policial apresenta
9 Entre as ações da UPP So- estreitas relações com segmentos do empresariado, delimitando
cial encontra-se o Fórum. Por
meio dele visa-se à criação “um modelo novo de definição do social que se afasta das polí-
de canais de escuta e interlo- ticas e instituições tradicionalmente responsáveis pela garantia
cução social (fóruns, ouvido-
rias) e apoio a organizações dos direitos sociais da cidadania” (Ibidem).
e ações cidadãs desenvol- No Complexo do Alemão, as ações da UPP Social, pla-
vidas na localidade (HEN-
RIQUES e RAMOS, 2012). nejada para ser um canal de diálogo entre vários atores inter-
No Complexo do Alemão nos e externos à favela9, foram previstas em articulação com
ocorreu apenas um fórum,
em 1o de junho de 2012, e outros programas governamentais decorrentes do PAC10. No
de acordo com os ambu- caso da UPP Palmeiras, desde outubro de 2012 há ativida-
lantes não houve ampla di-
vulgação da atividade entre des desenvolvidas por policiais e voltadas para 48 crianças e
eles. Segundo informações adolescentes que participam de formação musical, reforço es-
governamentais, o fórum
ocorreu em uma praça com colar e lutas marciais. Para janeiro de 2013 estavam previstas
a participação de mais de atividades de fisioterapia para a população da localidade.
200 pessoas, dois dias de-
pois de ter sido instalada a A questão em foco é que o Estado e o mercado estão
quarta UPP no local. O even- na favela impondo seus padrões e dinâmicas, operando
to visou oficializar a atuação
do programa nas comunida- mudanças em diferentes situações. Isso pode significar que
des pacificadas. Disponível segmentos da população estejam às margens desse proces-
(on-line) em: [Link]
[Link]/web/imprensa/ so e das práticas referidas a determinados circuitos, fluxos e
exibeconteudo?ar ticle -
-id=864037
mediações do jogo de poder e relações de força. Esses mo-
radores do Complexo do Alemão se veem enredados nos
10 Mesmo antes da implan-
tação da UPP, o secretário de esforços incertos em busca do reconhecimento institucional
Assistência Social e Direitos de suas atividades como ambulantes e à margem de uma po-
Humanos Ricardo Henriques
sinalizava para a UPP Social. lítica de direito à cidade (LEFEBVRE, 1991).
Ele afirmou em entrevista:
“A UPP Social é uma política
de regularização da oferta
de serviços básicos, como Considerações finais
luz e gás, regularização do
serviço de coleta de lixo, mas
tem intervenções fortes que Os relatos dos ambulantes do Complexo do Alemão são
a gente está coordenando,
pensando estrategicamente, imbuídos de um senso de justiça do direito ao espaço para
para área de saúde, de edu- atuarem na favela, pois, como moradores, já exerciam suas
cação e emprego”. Disponí-
vel (on-line) em: [Link] atividades muito antes da chegada da UPP e dos empreen-
[Link]/2010/11/
upp-social-vai-abracar-o-
dimentos econômicos. Neste caso particular, a intenção das
-complexo-do-alemao/ políticas públicas que pretendem melhorias das condições

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de vida dos favelados é estimular a “modernização”, enten-
dida como racionalização mercantil, o que implica a intro-
dução de regulações jurídico-institucionais que impedem
ou dificultam a reprodução da “economia informal”, mais
intensiva no uso da força de trabalho e, portanto, menos
produtiva, porém também com exigências muito mais bai-
xas de acumulação prévia. Diferentemente do que se preco-
niza com a UPP Social, o braço direito do Estado se estende
aos moradores penalizando os mais despossuídos de capital,
como é inapelável no modo de produção capitalista. Nesses
termos, pode-se afirmar que a regulação oficial do espaço
atende prioritariamente aos interesses governamentais que
desconsiderem a possibilidade de os ambulantes exercerem
suas atividades. Nesse local de segregação, a polícia é perce-
bida como uma força ambígua, pois ao mesmo tempo que
serve para inibir o poder do tráfico e os tiroteios na fave-
la, também apresenta um caráter arbitrário e imprevisível
em suas condutas (MACHADO DA SILVA e LEITE, 2008).
Ao retirar desses sujeitos a possibilidade de gerar alguma
renda pelo próprio trabalho como ambulantes, o governo
demonstra a intenção de enfrentar a pobreza nesses luga-
res com repressão policial, instabilidade das ações da UPP e
parcas medidas assistenciais.

Wania Amélia Belchior Mesquita DILEMAS Vol. 7 - no 4 - OUT/NOV/DEZ 2014 - pp. 685-702 699
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Wania Amélia Belchior Mesquita DILEMAS Vol. 7 - no 4 - OUT/NOV/DEZ 2014 - pp. 685-702 701
RESUMEN: El objetivo del artículo Cuando el tra- WANIA AMÉLIA BELCHIOR MESQUITA (wamesquita
bajo es el trastorno: Las demandas de los ven- @[Link]) é professora da Universidade
dedores ambulantes con la llegada de la UPP Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf,
en el Complexo do Alemão es identificar y analizar Campos dos Goytacazes, Brasil) e pesquisadora do
las prácticas de los vendedores ambulantes en el Coletivo de Estudos sobre Violência e Sociabilidade
Complexo do Alemão, en la Zona Norte de Río de (Cevis), do Instituto de Estudos Sociais e Políticos
Janeiro, después de la implementación de la Unidad (Iesp) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
de Policía Pacificadora (La primera UPP en las fave- (Uerj). É doutora e mestre em sociologia pelo
las fue inaugurada en abril de 2012). Basado en la Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de
experiencia etnográfica, son privilegiadas algunas Janeiro (Iuperj, Brasil) e graduada (bacharelado e
prácticas de uso y regulación del espacio en una de licenciatura) em ciências sociais pela Universidade
las estaciones del teleférico. Durante el análisis, se da Federal Fluminense (UFF, Niterói, Brasil).
especial atención a las luchas por reconocimiento
y por permanencia de los vendedores ambulantes,
que, por lo general no se encajan en el perfil de “em-
presario de favela”.
Palabras clave: vendedores ambulantes, favela,
policía, UPP, ciudadanía

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