Conteúdos e
Metodologias do Ensino
de Ciências Humanas
A Globalização e os Impactos Tecnológicos
na Sociedade Contemporânea
Sumário
Desenvolvimento do material A Globalização e os Impactos Tecnológicos na Sociedade
Marcio Simão de Vasconcellos e Antonio Lucio Avellar Santos Contemporânea
Para início de conversa… ................................................................................. 3
1ª Edição Objetivos .......................................................................................................... 3
Copyright © 2022, Afya.
1. Sociedade da Informação ........................................................................... 4
Nenhuma parte deste material poderá ser reproduzida,
transmitida e gravada, por qualquer meio eletrônico, 2. Ciberespaço e Cibercultura ....................................................................... 10
mecânico, por fotocópia e outros, sem a prévia
autorização, por escrito, da Afya. Referências ......................................................................................................... 13
Para início de conversa… Objetivos
O século XX foi marcado por uma série de acontecimentos que ▪ Valorizar o papel da informação para o desenvolvimento das Ciências
caracterizaram e ilustraram a crise enfrentada pela Modernidade. Humanas na modernidade.
Problemas econômicos, sociais e políticos afetaram toda a Europa ▪ Avaliar a importância cultural e o uso do ciberespaço como lugar de
e, com ela, o restante do mundo. As guerras mundiais revelaram uma construção e disseminação do conhecimento.
faceta terrível da raça humana: o ódio ao diferente revelou-se capaz de
destruir a vida no mundo.
Com isso, o otimismo racionalista oriundo do Positivismo deu lugar
a diversos questionamentos. Nesse cenário, houve um aumento
gigantesco da tecnologia aplicada à comunicação. A partir dos anos
1970, a internet se desenvolveu e, com ela, novas possibilidades
surgiram para a reflexão e a prática científica.
Neste capítulo, abordaremos esse momento histórico, contextualizando
essas descobertas e apresentando algumas de suas consequências
sobre a vida humana. Trataremos da sociedade da informação, bem
como do ciberespaço e da cibercultura, que tornam-se fundamentais
em nosso tempo. A partir dessa análise, conheceremos as implicações
dessas temáticas no âmbito da educação.
Conteúdos e Metodologias do Ensino de Ciências Humanas 3
1. Sociedade da Informação
Disse o peixe mais jovem, “eu procuro
é o grande Oceano!” E lá se foi nadando,
muito desapontado, a buscar noutra parte. (MELLO, 2003, p.22)
Para melhor compreendermos o papel da informação para o
desenvolvimento das Ciências Humanas e avaliar a importância e Em que pese essa dificuldade, é preciso refletir sobre o mundo em que
utilização de novas tecnologias na construção do conhecimento, é vivemos. O fato é que a cada dia mais somos cercados por um mundo
necessário descrever a sociedade na qual esses processos foram se em constante mutação. Talvez, uma das melhores áreas onde se possa
desenvolvendo. Contudo, não é tarefa fácil ou simples apresentar uma perceber o ritmo acelerado de tais mudanças seja a tecnologia. A corrida
descrição da sociedade contemporânea que dê conta de todas as suas espacial, por exemplo, iniciada em plena Guerra Fria, acabou produzindo
especificidades, possibilidades e desafios. De fato, uma vez que estamos novas tecnologias que prometem a exploração de planetas distantes. As
imersos nessa sociedade, torna-se muito difícil elaborar análises mudanças na prática da Medicina também foram intensas. Se, durante
meramente factuais sobre a realidade que nos cerca. Nossa proximidade a Idade Média os médicos eram impedidos pela religião de realizar
nos impede de ver com clareza e, em certo sentido, somos como o peixe autópsias em corpos humanos (uma vez que estes eram considerados
do poema de Anthony Mello: sagrados), hoje temos à disposição novas ferramentas para a prática
Por favor, por favor! médica, como Raios X, Ultrassom, Ressonância Magnética etc.
Disse um peixe do mar a um outro peixe:
Vivemos em um mundo agitado, acelerado; uma realidade que apresenta
“Você que deve ter mais experiência,
grandes desafios e também possibilidades. O mundo revela-se, às vezes,
talvez possa ajudar-me... Então me diga:
um lugar muito contraditório, injusto e violador da vida humana; mas,
Onde posso encontrar a coisa imensa
que chamam de Oceano? Em toda a parte
também, pode mostrar-se como um espaço de vida, de conquistas e
eu o venho buscando sem sucesso.” alegrias. É essa complexidade que precisamos avaliar.
Importa perceber que um mesmo elemento característico da pós-
“Mas é precisamente no Oceano
modernidade pode ser avaliado negativa ou positivamente. Por exemplo,
que você está nadando”, disse o outro.
pense sobre o processo de comunicação humana. A rapidez com que os
“Oh... isto? Mas é pura e simplesmente água!”
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meios de comunicação têm se desenvolvido é surpreendente. Aquilo que, Enfim, temos as múltiplas transformações que atingiram a sociedade
há décadas atrás, parecia ficção científica, hoje é realidade acessível a europeia desde o fim da Idade Média; a Revolução Inglesa e a
boa parte da população. Graças a esse avanço, podemos ter conversas em Francesa, ocorridas no século XVIII; e o surgimento e desenvolvimento
tempo real com várias pessoas em diferentes partes do mundo. Em certo do Capitalismo como forma de se pensar a sociedade em termos
sentido, a internet tornou o mundo menor, possibilitando novas formas socioeconômicos. Tudo isso contribuiu para a formação de nosso tempo.
de encontro e relacionamento. Tudo isso é muito positivo, contudo, esses
mesmos avanços nos processos de comunicação humana podem esconder Em todo esse processo de mudança social, econômica, política, cultural
a superficialidade dos relacionamentos construídos em redes sociais etc., a tecnologia se desenvolve numa velocidade cada vez mais
ou até mesmo negar o contato afetivo, a conversa “olho no olho”, sem impressionante. Aliás, é correto afirmar que vivemos na era da ciência e
intermediários tecnológicos. Eis aí o lado negativo de todo esse avanço. da informação. Obviamente, isso produz algumas consequências sobre
Isso pode ser reforçado por propostas que reforçam o individualismo, nossa percepção de mundo, como veremos adiante. A rapidez dessas
considerado como necessário à própria sobrevivência. inovações é tanta que a própria análise do tempo constitui tarefa
complexa.
‘‘ (vendeu
Em um dos maiores sucessos entre os popularíssimos livros de autoajuda
mais de cinco milhões de cópias desde sua publicação em 1987),
Melody Beattie adverte/aconselha seus leitores: “A maneira mais garantida de ‘‘ significativos
Grandes transformações vêm ocorrendo neste final de século, colocando
desafios para a humanidade. Tempo e espaço vêm, cada vez mais
enlouquecer é envolver-se com os assuntos de outras pessoas, e a maneira mais
claramente, deixando de ser apenas realidades reais, a priori, para se constituírem
rápida de tornar-se são e feliz é cuidar dos próprios.” O livro deve seu sucesso
em realidades virtuais que por sua vez, podem se concretizar transformando-se em
instantâneo ao título sugestivo (Codependent no More [Codependente nunca mais])
real-(iz)-ações. A física quântica, a informática, a microeletrônica, a biotecnologia,
que resume seu conteúdo: tentar resolver os problemas de outras pessoas nos
a micromecânica e os chamados novos materiais são articulados para constituir
torna dependentes [...] (BAUMAN, 2001, p.77)
’’ sistemas telemáticos e digitais que fazem a aldeia global de McLuhan deixar de
Embora essa mensagem apareça agradável, subsiste nela uma ameaça à ser um sonho. (FRÓES, 2000, p.283)
’’
própria vida em sociedade e àquilo que nos torna humanos: a compaixão O conceito de “aldeia global”, elaborado pelo sociólogo Herbert M.
pelo próximo. Com os olhos voltados apenas aos nossos próprios McLuhan, se refere à ideia de que os diversos avanços tecnológicos
interesses, nos desumanizamos progressivamente. auxiliam no processo de diminuir as distâncias, recriando, numa
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perspectiva mundial, o mesmo tipo de relações sociais que ocorrem do sujeito-objeto encontra-se num esgotamento que vai paulatinamente abrindo
numa aldeia. Dito de outra maneira: as novas tecnologias possibilitam espaço para outras epistemologias, mais complexas e inter-subjetivas.
’’
o desenvolvimento de um tipo de percepção de mundo que aproxima A pós-modernidade se refere a um tempo de ausência de solidez
realidades distantes daquela experimentada pelo indivíduo. É como nas estruturas sociais, pois “engloba um mundo fragmentado e uma
se, por causa dos meios de comunicação, pudéssemos participar de multiplicidade de valores que se colocam uns ao lado dos outros. [...] Essa
experiências distantes geograficamente como se ocorressem na nossa fragmentação explica ao mesmo tempo a desordem e a perplexidade
frente. dos intelectuais diante da situação, não somente para pensar, mas para
O tempo em que vivemos pode receber diversas nomenclaturas: pós- agir sobre ela” (MAFFESOLI apud SILVA, 1993, p.133-134). O sociólogo
modernidade, hipermodernidade, capitalismo tardio etc. Os nomes são polonês Zygmunt Bauman também aborda essa questão, ressaltando o
variados, mas expressam uma mesma coletânea de características que caráter fluido da contemporaneidade; esta fluidez ou liquidez são “como
marcam nosso tempo. A dificuldade em definir o termo revela outra metáforas adequadas quando queremos captar a natureza da presente
característica da pós-modernidade: a fluidez dos conceitos. fase, nova de muitas maneiras, na história da modernidade” (BAUMAN,
2001, p.9). Ou ainda:
‘‘ Não há nada mais ambíguo do que o termo Pós-Modernidade. [...] Essa ambiguidade
constitui, entretanto a sua marca. Ela é o pós-moderno da Modernidade: indefinível,
fluido e inconsistente. Ninguém ousa definir a Pós-Modernidade. A tentativa de
‘‘ agora
Chegou a vez da liquefação dos padrões de dependência e interação. Eles são
maleáveis a um ponto que as gerações passadas não experimentaram e
definição é, por si só, uma atitude que contraria seus cânones (se é que existem). nem poderiam imaginar; mas, como todos os fluidos, eles não mantêm a forma
(BENEDETTI apud TRASFERETTI; GONÇALVES, 2003, p.53)
’’ por muito tempo. Dar-lhes forma é mais fácil que mantê-los nela. Os sólidos são
moldados para sempre. Manter os fluidos em uma forma requer muita atenção,
Além disso, podemos considerar a pós-modernidade como um período vigilância constante e esforço perpétuo – e mesmo assim o sucesso do esforço é
de crise da Modernidade, conforme afirma Rocha (2010, p.71): tudo menos inevitável. (BAUMAN, 2001, p.14-15)
’’
‘‘ sobre
O que a pós-modernidade traz a lume é que a modernidade, que se sustenta
as bases da razão autônoma – racionalização – e da ideia do progresso,
Tudo isso produz um tempo de paradoxos profundos que se revela
de várias formas. Por exemplo, a liberdade de escolha é limitada
está agonizando. Sua epistemologia construída sobre o hierarquizado princípio
pela recusa a escolher, pois sempre se deseja manter “portas abertas”
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para saídas de compromissos supostamente assumidos. Aliás, como Justamente por isso, esse período é extremamente rico para a reflexão
afirmamos acima, vivemos um período de relacionamentos superficiais, científica, lida, contudo, em outra perspectiva que não a lógica sujeito-
que podem ser desligados rapidamente, sem o ônus da proximidade. objeto de Descartes. A experiência subjetiva assume cada vez mais
enfaticamente um protagonismo na construção do saber. Como
O desejo crescente pela “novidade” torna as tecnologias ainda válidas
afirmamos na unidade anterior, isso não destrói a “verdade”, mas a
e importantes obsoletas. Celulares com mais de um ano de uso são
reinterpreta a partir de outros parâmetros, mais abertos ao diálogo e à
considerados “velhos” e precisam, sob o impacto da mídia e da lógica autocrítica construtiva.
do mercado, serem substituídos por modelos mais recentes. Novos
aplicativos criados hoje “aposentam” (ao menos na percepção de muitos) Nesse sentido, a pós-modernidade inaugura um período de grandes
desafios, mas também de ricas oportunidades. Aliás, para a Sociologia,
aplicativos desenvolvidos ontem. Carros em perfeito funcionamento são
esse tempo oferece uma imensa variedade de abordagens analíticas. De
desprezados por não serem novos. Essa realidade, em maior ou menor
fato, a Pós-Modernidade afeta diretamente a sociologia, pois traz à luz
grau, afeta o ser humano e suas relações. A lógica do mercado – que uma sociedade em novas formações, desvinculadas de uma autoridade
também tem afetado profundamente a pesquisa científica – conduz à universal ou um discurso unívoco; uma sociedade em certo sentido
acumulação da riqueza acima de qualquer outro valor. fragmentada, mas que produz novas formas de convívio social.
‘‘ social,
Quando a acumulação da riqueza passa a ser o objetivo maior de um grupo
a lógica econômica passa a ser o centro da vida e o principal critério de
‘‘ Oo provisório, o efêmero, o fútil e o temporário são mais expressivos que o eterno,
imutável, o integrado, o harmônico e o sublime. A mistura é melhor que a
discernimento para as questões morais. [...] O que não podemos esquecer é que pureza. É preciso levar a sério a sociedade que se reconhece nessa mudança
‘consumidor’ não é sinônimo de cidadão ou de ser humano. Consumidor é o ser de valores, “entendê-la por ‘dentro’ para poder fazer-lhe a crítica” [...] Descobrir
humano que tem dinheiro para entrar no mercado. Aqueles que não tem não uma nova forma de sociabilidade – a socialidade – naquilo que foi desdenhado
pela Modernidade: o diverso, o fragmentado, o efêmero, propõe Maffesoli. Para a
são consumidores e estão fora do mercado. As mercadorias não são destinadas à
sociologia, não bastam mais as teorias sacro-seculares que organizam e explicam
satisfação das necessidades e desejos da população, mas sim dos consumidores.
de cima as relações sociais. (BENEDETTI apud TRASFERETTI; GONÇALVES, 2003,
(MO SUNG; SILVA, 1995, p.56-59)
’’ p.69-70)
’’
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Essa percepção extraída da Sociologia afeta todas as demais tecnologias precisam estar a serviço do processo educacional, e não o
Ciências Humanas. A História, por exemplo, não mais busca construir contrário; é preciso saber utilizar as tecnologias a fim de desenvolver
metanarrativas, supostamente capazes de dar conta do todo, mas antes, no estudante não apenas conhecimento técnico, mas também valores
investiga os detalhes da história, as micronarrativas, os detalhes do éticos e humanos.
cotidiano.
‘‘ (2001),
O educador, pesquisador e desenvolvedor de jogos eletrônicos Marc Prensky
‘‘ sistematização
Sublinhar a singularidade de cada análise é questionar a possibilidade de uma
totalizante, e considerar como essencial ao problema a necessidade
cunhou as expressões “Nativos Digitais” - para os que nasceram depois de
1983 e “Imigrantes Digitais” - pais e professores que nasceram antes do ingresso
de uma discussão proporcionada a uma pluralidade de procedimentos científicos, das tecnologias digitais na vida em sociedade. Segundo o autor, em um mundo
de funções sociais e de convicções fundamentais. (CERTEAU, 1982, p.31).
’’ marcado por essas tecnologias, é fundamental preparar a geração dos “nativos
digitais”, não só para o uso das mídias e bom desempenho escolar, como também
A tecnologia desenvolvida, especialmente, a partir das últimas décadas
do século XX e início do século XXI, tem produzido profundas alterações
para os valores éticos e humanos. (PEREIRA, 2017, p.2)
’’
na forma como a sociedade se organiza. Essa percepção, obviamente, Do ponto de vista positivo, o uso dessas tecnologias pode ser um meio
também vale para a área educacional e para a pesquisa científica. A para criar aulas dinâmicas e atraentes, além de caracterizar as chamadas
metodologia da EAD, por exemplo, constitui uma modalidade de ensino metodologias ativas, utilizadas também no ensino a distância. Nesse
diretamente ligada às inovações tecnológicas como a internet e os caso, o uso de tecnologias coopera para a educação e formação do
novos meios de comunicação, possibilitando que a formação acadêmica educando, isto é, a tecnologia é aliada da produção do conhecimento
aconteça em qualquer lugar e horário, de acordo com as possibilidades por meio do diálogo entre docentes e discentes.
do estudante. Essas tecnologias são também trazidas para a sala de Nossa sociedade constitui um mundo globalizado. Na verdade, a
aula, em cursos presenciais. Nesse sentido, o uso de tecnologias em globalização é resultado direto do capitalismo que se desenvolveu
sala de aula representa ao mesmo tempo um espaço de desafios e na Modernidade. O conceito de globalização está intimamente ligado
oportunidades. O desafio consiste em aprender a utilizar tal metodologia ao processo de integração de processos econômicos, políticos, sociais
como forma de enriquecimento dos conteúdos apresentados e não e culturais, que ocorrem, especialmente, em virtude dos meios de
como mera ornamentação metodológica. Dito de outra forma: as novas comunicação. A globalização “não é um fenômeno contemporâneo, mas
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o reflexo das contínuas transformações nas relações produtivas entre Comunicação (TICs), uma vez que “estas, no contexto atual, são um de
pessoas e entre países, marcadas pela desigualdade socioeconômica, seus principais agentes, por possibilitarem o rápido contato entre locais
característica inerente ao próprio capitalismo” (ALMEIDA; MAGNONI, distantes” (ALMEIDA; MAGNONI, 2016, p.176).
2016, p.175). De fato, a globalização acaba revelando o tamanho dessa
O conceito de sociedade da informação se desenvolve a partir da
desigualdade, patrocinada e mantida pela lógica capitalista. Aliás, é
percepção de que o ser humano é único em sua criatividade. Ou seja,
preciso ressaltar que capitalismo e democracia não são sinônimos.
ele não pode ser substituído por máquinas ou computadores, por
conta: da capacidade de ter novas ideias e de interligar pensamentos
‘‘ desestimulada
A ação do Estado, enquanto promotor da redução das diferenças sociais, é
pelos capitalistas, na sua nova roupagem, o neoliberalismo, que e descobertas; da realização de análises criativas; e da possibilidade
emergiu após a II Guerra Mundial, quando os diversos países procuraram intervir de compreender o mundo por meio do pensamento racional. Em outras
na economia, de modo a mitigar os impactos da guerra para as populações palavras, tudo isso é exclusividade do ser humano. As diversas formas de
menos favorecidas, no modelo conhecido como Estado de Bem-Estar Social.
lidar com a informação construída pelo ser humano – criação, difusão,
Os neoliberais se insurgiram contra esse modelo e pregaram a retirada do
Estado da economia, recomendando, por intermédio de organismos mundiais,
distribuição, utilização etc. – tornam-se atividade sociocultural, mas
como o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o Banco Mundial, a privatização também econômica e política.
de empresas estatais, a redução dos gastos públicos com saúde, educação e a
desregulamentação da economia, dentre outras medidas. Assim, o capitalismo ‘‘ No chamado mundo global, a rapidez com que a informação e o conhecimento se
disseminam traz significativas mudanças para as relações econômicas, políticas
(modo de produção fundado na economia de mercado, na propriedade privada
e sócio-culturais. Tal rapidez, porém, depende das condições que as tecnologias
dos meios de produção e no trabalho assalariado) e o neoliberalismo - ideário
de informação e comunicação proporcionam não só ao tráfego mas também à
político e econômico que defende a mínima intervenção do Estado no mercado
produção, ao armazenamento, ao acesso e à recuperação dessa informação e desse
de trabalho - foram responsáveis por acelerar ainda mais as profundas
conhecimento. Vista sob uma perspectiva mais pragmática, essas tecnologias
transformações econômicas e as desigualdades que caracterizam os processos
dão suporte à produção de um incomensurável volume de informações,
da Globalização. (ALMEIDA; MAGNONI, 2016, p.175)
’’ possibilitam uma enorme diversidade de alternativas para seu armazenamento e
Como fruto desse processo de globalização, desenvolveu-se um novo recuperação e fornecem ao fluxo da informação uma amplitude, uma intensidade
tipo de sociedade: a sociedade da informação. Esse fenômeno se e uma velocidade que não poderiam ser antecipadas sem conexão das redes
intensificou graças a utilização das novas Tecnologias de Informação e ’’
informacionais em superinfovias. (FRÓES, 2000, p.3)
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Dito de outra maneira: no mundo contemporâneo, o que move as relações Estados e das grandes empresas ou a tarefas pesadas de gerenciamento
humanas, tanto em nível individual como comunitário e institucional, é (folhas de pagamento etc.)” (LEVY, 1999, p.33). Na década de 1970, os
a informação. computadores pessoais começaram a ser vendidos em larga escala e
também aplicados à indústria.
‘‘ configuração
Observa-se, nessa perspectiva, a relevância da informação nessa nova
da sociedade. Essa informação, ao ser tratada, gera demandas que
movimentam, de forma veloz, capitais entre as empresas de diferentes países ‘‘ linhas
[...] abriram uma nova fase na automação da produção industrial: robótica,
de produção flexíveis, máquinas industriais com controles digitais
e regiões. A rapidez com a qual os capitais se deslocam em todo o mundo é etc. Presenciaram também o princípio da automação de alguns setores do
facilitada sobremaneira pela velocidade tecnológica com a qual a informação terciário (bancos, seguradoras). Desde então, a busca sistemática de ganhos
é processada. Todos esses processos relativos à sociedade informacional, os de produtividade por meio de várias formas de uso de aparelhos eletrônicos,
quais impulsionaram ainda mais a Globalização, trazem algumas consequências computadores e redes de comunicação de dados aos poucos foi tomando conta
’’
econômicas, políticas e sociais. (ALMEIDA; MAGNONI, 2016, p.176) do conjunto das atividades econômicas. Esta tendência continua em nossos dias.
’’
(LEVY, 1999, p.33)
2. Ciberespaço e Cibercultura As décadas de 1980 e 1990 experimentaram um aumento em progressão
geométrica da utilização dos computadores para outros fins, incluindo
Ciberespaço e Cibercultura são termos que se inter-relacionam. Ambos trabalho, mídias, televisão, cinema e lazer. A indústria de videogames
resultam das inovações tecnológicas aplicadas à comunicação entre se desenvolveu em um ritmo acelerado. Nesse meio tempo, ainda no
seres humanos, especialmente a internet. Para melhor compreender final da década de 1960, a World Wide Web (Internet) foi criada. Sua
esse fenômeno e suas implicações para a vida humana, é importante origem remonta ao auge da Guerra Fria e ao desejo dos militares
resgatar um pouco da história do surgimento dos computadores e da norte-americanos de desenvolver um sistema de comunicação seguro e
própria internet. confiável, que se mantivesse ativo mesmo no caso de ataques nucleares
soviéticos. A Arpanet – como era chamada – tinha a função de interligar
Por volta de 1945, os computadores eram máquinas grandes – os diferentes laboratórios de pesquisa dos Estados Unidos. A partir da
verdadeiras calculadoras gigantes – cuja utilização era reservada aos década de 1980, seu uso foi expandido para o ambiente acadêmico,
militares. “A informática servia aos cálculos científicos, às estatísticas dos
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primeiramente nos Estados Unidos e, posteriormente, em outros países um estilo de relacionamento quase independente dos lugares geográficos
como Suécia e Holanda, e seu nome foi oficialmente alterado para (telecomunicação, telepresença) e da coincidência dos tempos (comunicação
assíncrona). Não chega a ser uma novidade absoluta, uma vez que o telefone
internet. No final dessa década, ela passou a ser comercializada.
já nos habituou a uma comunicação interativa. Com o correio (ou a escrita em
Por fim, o início dos anos 1990 marcou o surgimento de várias empresas geral), chegamos a ter uma tradição bastante antiga de comunicação recíproca,
assíncrona e a distância. Contudo, apenas as particularidades técnicas do
provedoras de acesso à internet. Segundo Levy (1999, p.34):
ciberespaço permitem que os membros de um grupo humano (que podem ser
‘‘ computadores
Sem que nenhuma instância dirigisse esse processo, as diferentes redes de
que se formaram desde o final dos anos 1970 se juntaram umas
tantos quantos se quiser) se coordenem, cooperem, alimentem e consultem uma
memória comum, e isto quase em tempo real, apesar da distribuição geográfica
às outras enquanto o número de pessoas e de computadores conectados à inter- e da diferença de horários. O que nos conduz diretamente à virtualização das
rede começou a crescer de forma exponencial.
’’ organizações que, com a ajuda das ferramentas da cibercultura, tornam-se cada
vez menos dependentes de lugares determinados, de horários de trabalho fixos
Isso, obviamente, trouxe modificações intensas nos modos de processar
a relação tecnologia-economia. Sobre isso, continua o autor:
’’
e de planejamentos a longo prazo. (LEVY, 1999, p.49)
O uso da internet e as suas consequências fizeram nascer uma
As tecnologias digitais surgiram, então, como a infraestrutura do ciberespaço, novo cibercultura. “A universalização da cibercultura propaga a copresença e a
espaço de comunicação, de sociabilidade, de organização e de transação, mas interação de quaisquer pontos do espaço físico, social ou informacional.
também novo mercado da informação e do conhecimento. (LEVY, 1999, p.34).
Neste sentido, ela é complementar a uma segunda tendência
O ciberespaço, então, pode ser definido como “o espaço de comunicação fundamental, a virtualização” (LEVY, 1999, p.47). Um mundo virtual
aberto pela interconexão mundial dos computadores e das memórias que, por estranho que possa parecer, é tão real quanto o concreto. É
dos computadores” (LEVY, 1999, p.92). Em outras palavras, é o espaço de preciso, aqui, lembrar como o conceito “virtual” é compreendido pela
intercomunicações e de realizações proporcionadas pela internet. Filosofia. Para esta ciência, virtual não é o oposto do real, mas sim, a
potencialidade do real. Uma semente, por exemplo, possui dentro de si
‘‘ iniciado
Assim, a comunicação continua, com o digital, um movimento de virtualização
há muito tempo pelas técnicas mais antigas, como a escrita, a gravação
uma árvore em potencial. Nesse sentido, essa árvore é virtual. Mas basta
que a semente seja plantada e cuidada, que uma árvore real irá surgir. A
de som e imagem, o rádio, a televisão e o telefone. O ciberespaço encoraja
árvore potencial presente na semente concretizou-se em realidade.
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estudantes inscritos nessa modalidade de ensino já correspondem a
‘‘ atualidade
Em filosofia o virtual não se opõe ao real mas sim ao atual: virtualidade e
são apenas dois modos diferentes da realidade. Se a produção da 21% do total do Ensino Superior do país (VAZ, 2019). Como qualquer
árvore está na essência do grão, então a virtualidade da árvore é bastante real processo, esse dado precisa ser analisado cuidadosamente. Por um
(sem que seja, ainda, atual). É virtual toda entidade “desterritorializada”, capaz lado, há muitos discentes que são beneficiados, uma vez que essas
de gerar diversas manifestações concretas em diferentes momentos e locais tecnologias aplicadas ao ensino possibilitam o acesso a um universo até
determinados, sem contudo estar ela mesma presa a um lugar ou tempo em
então desconhecido por muitos. Por outro lado, é também preciso evitar
particular. (LEVY, 1999, p.25)
’’ leituras mercadológicas da Educação que, em nome do lucro, aceitem
Esta noção de uma cibercultura gera uma integração de pensamentos, reduções da qualidade da educação oferecida. Obviamente, um caminho
inteligências e competências que fazem nascer novos conhecimentos ou outro dependerá das mentes e mãos responsáveis pela utilização das
compartilhados. Assim, “os suportes de inteligência coletiva do TICs no processo educacional, e não das TICs em si.
ciberespaço multiplicam e colocam em sinergia as competências. Do
design à estratégia, os cenários são alimentados pelas simulações ‘‘ de
Ainda no âmbito da tecnologia, vale registrar que a utilização das tecnologias
informação e comunicação pode auxiliar nas práticas educacionais, na
e pelos dados colocados à disposição pelo universo digital” (LEVY, comunicação humana, na construção, na gestão e emprego da informação e
1999, p.50). Os diversos vínculos entre as comunidades virtuais na do conhecimento. Desta forma, um ensino que possibilite uma perspectiva
cibercultura alimentam a utilização da própria internet, ampliando suas interdisciplinar com o auxílio das tecnologias permite preparar o sujeito para
possibilidades e gerando processos de aproximação entre pessoas ao conviver e cooperar em uma sociedade cada vez mais globalizada, em que os
redor do mundo. conhecimentos segmentados tornam-se cada vez menos capazes de dar conta da
As consequências da cibercultura são muitas. Interessa-nos,
’’
realidade. (VILAÇA; ARAÚJO, 2016, p.219)
especialmente, as relacionadas ao âmbito da educação. Como afirmamos A cibercultura fornece ainda o ambiente ideal para a prática educacional
no início deste capítulo, o uso das TICs (Tecnologias de Informação e sob a lente da interdisciplinaridade. Ora, se o mundo virtual e o
Comunicação) tem gerado novos desafios e possibilidades em escolas e mundo real estão tão intimamente conectados, e se as fronteiras entre
universidades. A procura pelos cursos EAD tem aumentado sensivelmente indivíduos parecem desaparecer, ao menos virtualmente, por que as
nas últimas décadas. Segundo reportagem do site Educa Mais Brasil, os disciplinas ainda se manteriam presas dentro de seus próprios limites
Conteúdos e Metodologias do Ensino de Ciências Humanas 12
conteudistas? Nesse sentido, “é interessante lembrar das exigências do sem, contudo, abandonar o rigor metodológico em cada ciência. Busca-se
mundo atual e da importância da formação de sujeitos aptos a viverem uma percepção mais integradora, capaz de abarcar todas as dimensões
neste contexto globalizado, sem fragmentações ou alienação” (VILAÇA; da vida.
ARAÚJO, 2016, p.223).
Nesse momento histórico, a informação tornou-se algo vital.
Essa rejeição a um saber fragmentado, incapaz de fazer sentido ao Compartilhada por diversos meios de comunicação, e, mais
cotidiano das pessoas, deve se refletir no uso correto das TICs. Assim, é especificamente, por meio da internet, ela auxiliou a gerar um espaço
preciso ressaltar que apenas: virtual de compartilhamento de conteúdos diversos: o ciberespaço
que, por sua vez, gerou uma cibercultura. Tudo isso trouxe várias
‘‘ interdisciplinares.
A presença de dispositivos tecnológicos não assegura práticas pedagógicas
Infelizmente, por muitas vezes, os laboratórios de informática
consequências à sociedade e, mais especificamente, à educação.
são criados nas escolas, mas apenas funcionam em horários estabelecidos e
ficam a maior parte do tempo fechados. Em muitos casos, cria-se uma disciplina
de informática, isolada, com um professor e atividades específicas. (VILAÇA; Referências
ARAÚJO, 2016, p.230-231).
’’ ALMEIDA, L. L.; MAGNONI, M. G. M. (orgs.). Ciências humanas: Filosofia,
É preciso discernimento para saber utilizar-se desse rico universo da Geografia, História, Sociologia. Cadernos dos Cursinhos Pré-Universitários
cibercultura na educação. da UNESP. Volume 6. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2016.
Neste capítulo, analisamos conceitos muito importantes à educação, BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
como: a sociedade da informação, o ciberespaço e a cibercultura. Para CERTEAU, M. A escrita da História. Rio de Janeiro: Forense Universitária,
compreender tais conceitos, foi preciso apresentar algumas características 1982.
do nosso tempo, conhecido como pós-modernidade. Sua principal marca
FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática
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