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O documento narra a morte trágica do alferes Aníbal de Alencastre, cercada de mistério e especulações, com amigos e autoridades expressando condolências. O doutor Benício, envolvido em intrigas e corrupção, tenta manipular a situação para benefício próprio, enquanto um inglês, Tompson, se recusa a participar de um esquema desonroso. A história revela a hipocrisia e a moralidade duvidosa de personagens que lidam com a morte e a honra de forma vil.
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O documento narra a morte trágica do alferes Aníbal de Alencastre, cercada de mistério e especulações, com amigos e autoridades expressando condolências. O doutor Benício, envolvido em intrigas e corrupção, tenta manipular a situação para benefício próprio, enquanto um inglês, Tompson, se recusa a participar de um esquema desonroso. A história revela a hipocrisia e a moralidade duvidosa de personagens que lidam com a morte e a honra de forma vil.
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Fatalidade! Dentre tantas vidas que estiveram em perigo finou-se a mais preciosa, diziam os amigos do moço inditoso.

As demonstrações de pesar foram profundas e gerais. O doutor Benício dirigiu uma carta aos colegas de armas do
distinto alferes manifestando as suas condolências por aquele prematuro acontecimento. Era o cúmulo da hipocrisia!
Uma folha política que então se publicava, es- tampou em suas colunas, dias depois, a seguinte local: “CADAVER —
Ontem, pela manhã, espalhou-se nesta cidade a notícia de que nos mangues fronteiros à povoação do Pontal da Barra
entre esta e o sítio Remédio, aparecera um cadáver, que fora conduzido para terra. Sendo certa, como está,
infelizmente, averiguada, a morte por submersão do oficial do exército, Aníbal de Alencastre, de saudosa memória,
muita gente correu ao lugar indicado; mas qual não foi o desgosto dessa gente ao presenciar o espetáculo tristonho de
uma ossada, à qual apenas aderiam fragmentos de carne pútrida? Nem ao menos as roupas foram encontra- das, apesar
mesmo de todas as diligências realizadas; pelo que não se reconheceu a identidade, embora a caveira apresentasse uns
dentes alvos e formosos, como eram os de Aníbal. São mui bem fundadas as razões que nos levam a acreditar ser o
cadáver do infeliz moço desde que não há notícia de outra morte no dia da tempestade caída sobre esta capital e da
qual tratamos no número passado deste jornal. Esses destroços humanos foram conduzidos para o cemitério e ali
enterrados.” Tudo estava perdido! Nada se podia esclarecer a respeito, tanto que a mesma folha, noutra local, dizia
ainda: vem: “INTERROGATÓRIO — De Alagoas nos escrevem: “Causou aqui geral sentimento a notícia da morte do
alferes 47 Aníbal de Alencastre que por alguns dias foi nosso hóspede, conquistando a simpatia dos habitantes desta
terra. “Ontem foram interrogados pela autoridade competente os dois remeiros que o conduziam para Maceió.
Depuseram ambos com a calma que só podem ter os inculpados, pelo que se evidencia que o sinistro foi inteiramente
casual. Graças a Deus devem dar os pobres homens por não terem sido também vítimas, o que não é admirável por
serem eles pescadores de profissão e conhecerem bem todos os pontos da nossa lagoa.” Eis aí, portanto, formada a
opinião pública, falsa opinião, pois que apesar de ser dito isto em letra redonda, numa folha importante, andava ali o
dedo do artimanhoso sr. dr. Benício. Nestas notícias arranjadas adrede estava a incógnita que ninguém podia descobrir.
Só a ação tardia do tempo é capaz de pôr em relevo fatos estupendos envolvidos em circunstâncias misteriosas. O
assassinato de Aníbal, se fosse real, estaria neste número. O barão, tendo as notícias acima, deu uma das gargalhadas
estúpidas de que ele tanto abusava. É incrível isto! Um homem ser humano que pensa e tem coração, mandar tirar a
vida a um seu semelhante somente porque teve este o arrojo de propor-se seu genro!? Concedemos que os
precedentes desse indivíduo, ou a sua obscuridade não se compadecessem com essa pretensão, ou, ainda, que um
capricho do barão, justificado mesmo, o levasse a não consentir na união conjugal de sua filha com tal homem;
aconselhavam a razão e as boas práticas medidas rigorosas até, um assassínio — nunca! O caminho a seguir era muito
diverso, porque nem mesmo o rigorismo faria desadorar o coração em que Aníbal erigira a ara santa de suas adorações.
E o barão não contente com a desgraça de que foi agente principal, ria-se da sorte do infeliz que julgava morto, atirando
blasfêmias à sua memória. 48 Entretanto, acreditando que o fato estava consumado, o doutor Benício explorava a sua
bolsa e tentava outros arranjos. É o caso: Pelas 2 horas da tarde de um dia útil, num escritório, em Jaraguá,
conversavam largamente o doutor Benício e o inglês Tompson. Este afagava a barba grisalha e com a nobre franqueza
que caracteriza os homens sérios, informava ao doutor o estado dos negócios, os quais, dizia, corriam mal. O doutor
ajeitava a conversação de modo a poder entrar no lance verdadeiro de suas maquinações. — O país, dizia ele, passa
atualmente por uma crise bem dolorosa. A lavoura definha, o comércio luta com as repetidas e fatais oscilações do
câmbio, e as artes e indústrias irão à garra, se não forem tomadas providências muito sábias e proveitosas. — O governo
lembra-se do comércio somente para tributá-lo, sr. doutor. Eu terei neste ano lucros minguadíssimos, o capital anda
quase todo em empréstimos, e a safra é pequena; pelo que vejo se vai embora o capital de meu negócio e é preciso pôr
em giro também o crédito. — Se quer fazer comigo um negócio, que lhe será fácil, ganhará com ele alguns contos de
réis. A menos que o senhor doutor esteja com vontade de galhofar... — Não, senhor; falo seriamente. — Pois bem,
faremos já o tal negócio. Proponha-o vossa senhoria. — O senhor quanto devia ao alferes Aníbal? — Noventa contos de
réis. — Parece-me que deveu mais, sim? — É verdade, porém ele mandou restituir de sua conta os vinte contos que
ganhei ao major Sá. — E se acaso alguém fizesse desaparecer os documentos que provam o resto da dívida, aceitaria o
senhor um acordo pagando a metade ou a terça parte dela? — Não! 49 — Não vejo melhor negócio do que, em vez de
pagar noventa contos, pagar, por exemplo, trinta ditos. — E o público, senhor doutor? — O público nada saberá. Desde
que os documentos vierem às suas mãos o senhor dar-lhes-á fim. Se quer combinar no que lhe digo, empenho minha
palavra em como darei conta dos títulos passados pelo senhor Tompson ao alferes Aníbal. O doutor falava com a
desfaçatez de quem está avesado à prática de infâmias. Tompson ficou vermelho como brasas, abaixou a vista e não
pôde mais encarar semelhante homem. O seu pensamento concentrou-se numa só ideia — repelir a indignidade e dizer
ao mundo quem era o doutor Benício, mas para isso eram necessárias as provas que ele não podia exibir; a sociedade
condena a quem quer que faça trapaças na sombra, sem indagar porventura a veracidade delas; a lei, a justiça não:
querem provas, atestados irrecusáveis. Limitou-se, pois, o sr. Tompson a dizer que não aceitava o negócio. A família de
Aníbal, se ele a tivesse, havia de aparecer, e no caso contrário entregaria o dinheiro a quem competisse e fosse de lei. O
doutor não esperava encontrar tanta honradez da parte desse estrangeiro com quem contava para ajudá-lo na prática
de uma ação negra; e cheio de grande surpresa esteve por um momento tomado de certo remorso meditando,
indeciso... O negociante inglês levantou-se e passeou pela sala visivelmente perturbado, e, virando-se para o doutor
Benício, encarou-o com altivez, franzindo o sobrolho. Estava indignado, e não era para menos. Cumpria desafrontar o
seu caráter ilibado que aquele homem tentou manchar. Acenando energicamente com as mãos, bradou no auge do seu
desapontamento: — Combinar com V.S. neste negócio seria indigno de mim. Onde fica minha honradez? 50 Enquanto
Tompson assim falava, o doutor fingia reparar para umas guias que estavam sobre a carteira, cinicamente, indiferente à
indignação que provocara; a corrupção de que era capaz não tinha limites. Outro homem menos traquejado em tais
vilezas coraria nessa triste ocasião; o doutor não. Quando um homem digno, levado por deplorável fraqueza, comete
erros, tenta, por exemplo, assassinar outro, sente a mão trêmula ao cravar o punhal, porém quando um facinoroso
aponta ao peito da vítima tem a mão firme, o golpe seguro. A reincidência nos crimes bárbaros torna o homem feroz. O
doutor Benício não era um criminoso vulgar. Na perpetração de seus delitos entrava por muito a frieza do cálculo.
Habituado a tudo tornara-se insensível aos sofrimentos do próximo, demasiadamente pirrônio. Podia dizer como o
poeta português: — moralidade e honra é tudo pêta. Passados alguns minutos, olhou para o inglês com certo desprezo,
verificando se havia no rosto avermelhado do filho do velho país normando algum sinal que colaborasse com as palavras
sublimes que ele pronunciara — a sua honradez. O repentino abaixar de vista de Tompson significava a vergonha
causada pelo modo incerimonioso e fácil porque o doutor apresentara a proposta, mas ele não dera por isso. Tompson
prosseguiu: — Que um sevandija qualquer se abalançasse a vir oferecer-me vantagens em negócio incompatível com a
dignidade dos homens de brio — nada havia de admirar. Atiraria para longe de mim o infame! Porém um homem
considerado de alta posição político-social —baixar-se ao nível dos tratantes?!... Não posso aceitar este negócio. O
senhor doutor devia ser o primeiro a reconhecer que não devo manchar a reputação d’um moço tão digno, que tive a
honra de conhecer em casa de sua senhoria. Ainda mesmo que estivesse 51 de todo arruinado, me seria impossível
cometer tão grande vileza! O doutor desta vez corou, não de vergonha que não a tinha, mas de cólera; não concedia
que lhe exprobassem sua maneira de proceder. Daquele momento em diante o honrado senhor Tompson tinha pela
frente esse terrível inimigo, cuja ferocidade nem de leve podia avaliar. Os mais terríveis inimigos, não há dúvida, são os
gratuitos, principalmente quando, à semelhança das panteras, não atacam senão de emboscada. O doutor ouviu as
palavras de Tompson e não retorquiu. Despediu-se dele e sem remorsos do que lhe acontecera, saiu com o passo lento
dos indivíduos trapalhões e velhacos. Cínico em regra, tinha as manhas da raposa da fábula. Não deu o mínimo indício
da irascibilidade de seu caráter, mas jurou aos seus deuses vingar-se. 52 VIII REVELAÇÃO IMPORTANT
J á dissemos ao leitor o estado em que se achava a cidade na época a que nos referimos, portanto deve achar ele muito
natural a descrição que segue, inteiramente verdadeira. Todos os terrenos compreendidos entre a antiga rua do Apolo
(hoje Melo Morais) e o largo da Cotinguiba (hoje praça das Princesas) inclusive eram um matagal. A rua do Hospital
estava apenas em esboço. Daí para diante nada mais havia senão capoeira de murta, cajueiros, etc. Onde está edificado
o cemitério público, à margem da estrada do Trapiche da Barra, existia uma casa na qual residira depois o célebre major
Xavier — o mais terrível recrutador de que há memória nesta provincia de todos os militares que aqui aportaram
incumbidos de tão improba tarefa. Nessa estrada do Trapiche da Barra era perigoso o trânsito por causa de muitos
ladrões, em sua maior parte soldados desertores e escravos fugidos. Há aí quem se não lembre de um caboclo velho,
cangalho, a quem os meninos apelidavam de — alma do outro mundo — alcunha de que ele tanto se zangava? Provinha
esse apelido do seguinte fato que vamos narrar a propósito dos mistérios da estrada do Trapiche: 53 O indivíduo citado
fora praça do exército e ao dar baixa usou de um meio de vida que lhe rendia menos trabalhosamente. Consistia em
meter-se, à noite, num capote velho, munir-se de correntes, e outros objetos de tal jaez, indo esperar os transeuntes
pelas imediações do lugar onde mais tarde foi o cemitério dos coléricos, vulgarmente chamado de — Maria Preta. Era ali
o trânsito, como ainda hoje é, de pessoas que iam ao Pontal e Trapiche comprar peixe para revender na cidade. Ao
passarem elas no dito lugar saia-lhes ao encontro um vulto encapotado, arrastando correntes e falando fanhoso. Os
timoratos corriam e deixavam peixe, dinheiro e tudo quanto levavam. Alguém mais corajoso entendeu enfrentar um dia
a “alma”, e o fez, desmascarando o caboclo que desde então ficou com o apelido sobredito. Voltemos à nossa descrição.
A rua Voluntários da Pátria, antiga do Jogo, já existia, com a diferença de que não era espaçosa, como hoje: havia umas
casinhas desiguais pelo centro. Houve numa delas uma taverna defronte da qual habitava, num pardieiro, gente
suspeita. Era costume então os comandantes dos corpos de linha no louvável intuito de evitarem desordens, mandar
vigiar os soldados, proibindo-lhes ajuntarem-se nas tavernas e nos alcouces principalmente nos dias de recebimento de
soldo. Estamos em um desses dias. O taverneiro da rua do Jogo sortira a “bodega” com esmero, porque, apesar da
vigilância dos superiores, eram os soldados os seus melhores fregueses. Da rua do Jogo ao edifício do quartel é menos
de 200 metros. Às sete horas da noite o asilo de pândegas fronteiro à taverna estava em festas. Um indivíduo de mau
aspecto tocava baiano à viola, e uma mulher devassa, de cabelo penteado com trunfa, ajudava a cantar colcheias,
fazendo dueto. Mais outro indivíduo, trepado num estrado, acompanhava o som da viola com o tic-tac produzido pelo
contato da chave da porta na garrafa de

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