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Alcina, isolada na água-furtada da casa do barão de Piragé, sofre profundamente após ser maltratada por seu pai, perdendo sua alegria e saúde. Enquanto reza por um portador de carta, ignora que ele já morreu, e seu amor por Aníbal a leva a enfrentar uma luta interna contra a dor e a desolação. A tempestade que atinge a região causa destruição, mas também traz a esperança de um novo começo após o caos.
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Alcina, isolada na água-furtada da casa do barão de Piragé, sofre profundamente após ser maltratada por seu pai, perdendo sua alegria e saúde. Enquanto reza por um portador de carta, ignora que ele já morreu, e seu amor por Aníbal a leva a enfrentar uma luta interna contra a dor e a desolação. A tempestade que atinge a região causa destruição, mas também traz a esperança de um novo começo após o caos.
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xemos o doutor Benício a conversar com o barão de Piragé, enquanto percorremos outros compartimentos da casa

deste último. Ao lado direito de quem entra na sala de jantar pelo corredor de que falamos, há uma porta fechada, o
que se observa pelos ferrolhos que ficam para o lado de fora; abrindo esta porta encontra-se uma escada: é estreita e
bastante inclinada. Conduz à água-furtada do prédio. De dia os raios do sol penetram por uma claraboia; à noite quem
nela sobe tem necessidade de luz. A água-furtada pelo verão era uma estufa; nesta noite, porém, estava fresca. Fora
este o lugar escolhido por Alcina para isolar-se do mundo, carpindo as dores cruciantes de seu padecer. Desde o dia em
que o senhor de Piragé a mal tratara da forma estúpida que o leitor conhece, nunca mais a faceta menina recobrara a
antiga viveza e alegria inerentes ao seu gênio prazenteiro. Aqueles róseos lábios nunca mais tiveram um sorriso; aquele
bondoso coração nunca mais palpitou de prazer. Os corações bem formados têm a delicadeza de um átomo. Este a
menor agitação produzida no ar leva-o de rojo pelas amplidões, aqueles — o mais pequeno choque mergulha-os sem dó
nas profundezas insondáveis do abismo que se chama — desolação. O senhor de Piragé quis sofrear bruscamente as
oscilações da corda sensível do coração de sua filha. Isto era impossível. Ninguém pode dar leis à natureza.
Estupidamente incitada ao sacrifício de sustar as suas emoções, e os seus êxtases, nas aras da conveniência, jamais o
fez: preferiu as mortificações do corpo, as macerações que fingem um impossível retraimento d’alma. Daí o seu
constante padecer. Ali, naquele inferno terrestre, passava noite e dia, tinha por companheira Lucrécia, por distração
alguns livros. Dir-se-ia uma jovem enclausurada nas torres de um castelo no tempo do feudalismo. 43 Nas celas de um
convento talvez sofresse menos. De quando em vez apresentava-se à mesa para almoçar ou jantar; o barão por sua vez
não lhe exigia este sacrifício. Contentava-se ele em trazer Alcina debaixo de grande vigilância; à noite trancava-a n’água-
furtada, de dia espionava a pobrezinha, temendo que ela tentasse alguma fuga. Não obstante ter mandado assassinar o
alferes Aníbal, o perverso tinha ainda essa tola precaução! À hora em que penetramos n’água-furtada, Alcina está de
joelhos diante de um oratório colocado sobre a única mesa existente neste acanhado recinto. A sua atitude é por si só
bastante enternecedora. Na tez alva e mimosa havia alguma coisa que denunciava a mística revelação de sua dor. Há
dores cruciantes que matam, e torturas horríveis que tornam o corpo insensível; a matéria adormece e o espírito
divaga. Desse esvoaçar da alma em torno dos mistérios resulta o medo que assombra, ou as concepções sublimes que
extasiam. Esta é a luta do espírito. Alcina tinha medo dos trovões que estavam no seu auge e rezava contrita, enquanto
Lucrécia queimava palhas bentas, as quais, segundo a crendice popular, têm o poder de abrandar as tempestades.
Terminando a oração, lembrou-se do portador enviado a Alagoas e pediu a Deus a sua benevolência e proteção para o
pobre que devia estar naquele momento sob a pressão dos elementos em fúria. O amor semeou no caminho que a
virgem seguia urzes ameaçadoras; era preciso estar alerta para que não lhe tocassem os espinhos. O menor descuido
podia ser-lhe fatal. Chegara a sua vez de lutar e sofrer, e nisto, disse alguém, consiste a vida. Quando uma virgem reza
contrita quem a vê deve sentir a mais 44 doce impressão. É um espetáculo menos do mundo que do céu. A virgem
rezando nunca pede senão em casos especiais. Vemo-la sempre levantar os olhos ao céu e enviar-lhe um sorriso, poucas
vezes uma prece. Nada mais natural porque dos anjos o céu não quer mais do que o sorriso. É dele que vi- vem as almas
benditas. A prece de Alcina foi ouvida, não em favor do desventurado portador da carta, pois este já tinha morrido, mas
em favor de Aníbal que ainda lutava com os malvados que o tentavam assassinar. Se a pobre menina adivinhasse esta
circunstância, qual não seria a sua dor? Pode ser que a grandeza de sua alma a fizesse forte e resoluta; a mulher que
ama enfrenta serenamente os desastres sugeridos no alvorecer de suas aspirações. Os seus esforços foram baldados e
os planos do doutor estavam em via de execução. Florescia o mal; o bem fora suplantado. Ali, naquela atitude divina,
banhada de lágrimas, com a fronte empalidecida pelo terror, o coração aflito e o espírito desassossegado, quem a visse
sentiria uma dessas comoções tristes, que pasmam. Tal era nesse momento a compaixão inspirada pela virgem
melancólica e enternecedora. E... oh! miseráveis criaturas! Sofria deste modo a vítima da estupidez e do egoísmo de um
pai desnaturado, cego pela deplorável avidez de riquezas, e poucos metros abaixo do lugar onde se passava essa
tristonha cena, os algozes banqueteavam-se antecipando juízos à segurança em que descansava o efeito de suas
temeridades! Regozijavam-se por verem que um capricho na natureza coadjuvava-os na perpetração de um crime
horroroso, como era o que estava premeditado e que por sua vez traria o aniquilamento daquela por cuja causa se
queria ceifar uma existência! Felizmente, acima da vontade dos homens está a vontade de Deus. A justiça divina vela
sempre pelos incautos. 45 VII TENTATIVA MALOGRADA O crime poderá alcançar esplendor temporal, mas nunca pode
conferir felicidade real. Walter Scott. Foram grandes os estragos causados pela tempestade; aqui e ali abateram casas e
choupanas, ficando os moradores expostos às intempéries. Árvores grandíssimas partiram-se pelos troncos e vieram ao
chão, produzindo estrondo em sua queda; os rios mais próximos da capital saíram dos respectivos leitos, alagaram os
campos e várzeas, arrastando com força impetuosa de suas correntes o que encontraram pelas margens. Na lagoa não
foram poucos os desastres. Canoeiros que vinham em demanda do porto da Levada a fim de venderem na manhã
seguinte o produto de suas lavouras, sofreram o emborcamento das canoas e perderam as mercadorias. Entretanto,
verificou-se o provérbio popular que diz: depois do temporal, vem a bonança. Quando as águas baixaram e as partes
alagadiças foram dando passagem a pé, o peixe aparecia em turbilhões e era facilmente apanhado. No dia imediato os
assassinos, julgando Aníbal morto, espalharam a notícia.

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