aguardente que ele de quando em vez entornava na boca.
Eram muitos os espectadores — soldados, paisanos e
meretrizes. Um cabo de esquadra saracoteava no meio da casa, fazendo piruetas e levantando o pó do chão.
Terminando a glosa o sujeito da viola parou; o da garrafa já muito embriagado, bradou: — Viva o “cantadô”! — Vivô!!...
gritavam todos. — Mandem vir mais dela, disse o cabo, abrindo a patrona e tirando de dentro algumas moedas de
cobre. Um dos espectadores tomou o dinheiro e saiu para a taverna. O tocador a quem foi oferecida pelo ébrio uma
xícara com aguardente, antes de sorver esta ofereceu ao cabo, e ele recusando, disse: — Venha de lá! O tocador virou a
xícara na boca, engoliu o líquido alcoólico e abaixou a cabeça contraindo os grossos lábios. Ao levantar a vista
presenciou uma troca de olhares furtivos entre a mulher de trunfa e o cabo de esquadra. O seu parceiro de orgia traía-o
roubando-lhe o amor da “cantadeira”. — Esta mulher me pertence, “seo” cabo Chicó, e de homem não se “cassôa”,
disse o tocador dominado pelo ciúme. — Ora, Toledo, deixa-te disso. Antes de aqui chegares já eu conhecia a Delfina.
Delfina, dando expansão a seu gênio trivial, cantava zombeteiramente a seguinte quadra: “O amor que se despreza Não
se torna a procurar, Chinelo qu’eu já calcei No monturo pode andar.” Ainda bem Delfina não acabava o verso, Chicó
atirou-lhe uma tremenda bofetada, e ela foi ao chão. Nisto entra o indivíduo que fora comprar aguardente, gritando: 55
— A casa está cercada! Toledo puxou da faca que trazia à cinta por baixo do paletó e cravou no peito de Chicó. A
patrulha invadiu a casa de sabre em punho Toledo pondo-se nas pontas dos pés bradou: — Não me entrego! Matei o
alferes, matei o cabo, e matarei o soldado que me puser a mão. Os soldados avançaram e travou-se a luta. Depois de
um massacre horrível, Toledo deixou-se prender. Dois soldados ficaram mortalmente feridos; o assassino semimorto. O
sangue alagava o chão. A facada recebida pelo cabo Chicó acertara-lhe o coração; a morte fora repentina. Conduzido o
preso para a cadeia, fer-se vir uma padiola na qual levaram o cadáver da vítima de uma orgia fatal. Os outros indivíduos
presentes na ocasião evadiram-se todos, porque as praças concentrando suas forças na prisão de Toledo, deixaram fugir
os seus apaniguados. 56 IX RESSURREIÇÃO Morrer! oh! não! não vale a pena ter sofrido tanto para morrer agora... Se
nos fosse possível dar as verdadeiras cores ao quadro que vamos ligeiramente esboçar, o leitor teria ocasião de apreciar
o quanto foi tocante a cena passada nas trevas de uma noite tempestuosa quando Aníbal ao subir à canoa que o salvara
reconheceu o velho de óculos; e não era para menos. Aníbal tinha visto o espectro da morte estender-lhe os braços
hirtos, na escuridão das águas furiosas; devia, pois, sentir a doce consolação de quem estando moribundo, experimenta
melhoras consideráveis e salva-se. A consolação e o prazer de Aníbal foram maiores ainda, dizemos. Nada há mais
pavoroso do que a morte; os estertores d’um ser humano que expira dão a medida do quanto é horrível o momento
supremo da transição. O moribundo já não pode sentir os horrores da tremenda passagem da vida ao aniquilamento.
Quem jaz no leito da dor, sem esperanças da salvação, está resignado e a resignação é um alívio para os que sofrem.
Contudo as fogueiras da inquisição eram mais terríveis do que é hoje a guilhotina. Tendo corrido o risco iminente de
morrer afogado, o pobre Aníbal viu-se alegremente satisfeito, quando se julgou livre de perigo. Sentou-se no fundo da
canoa e ali deteve-se imóvel. O seu estado não permitia outra coisa. Tremia convulsivamente, os dentes ba- 57 tiam-lhe
uns nos outros, e o frio penetrava-lhe até a medula. Passadas as sensações dos primeiros momentos, repararam então
os remeiros que estavam em frente à Bica da Pedra. (1) Remaram com a máxima força e passaram com pressa esse
lugar, pois tinham urgente necessidade de sair das trevas em que estavam mergulhados. Afinal chegaram em frente à
ilha. Um trovão rugiu no espaço, e, mostrando a sua língua (2) desembestou das alturas incomensuráveis uma faísca
elétrica que, acertando na pedra, produziu um forte som metálico e foi sepultar no leito da lagoa. As águas elevavam-se,
no lugar onde a faísca se aprofundou, quase dois metros de altura, e ao caírem de novo em seu leito dir-se-ia o desabar
do universo num abismo. O choque que as águas sofreram, impeliu bruscamente a canoa, não obstante achar-se ela em
distância considerável, e atirou-a em terras da ilha. Todos saltaram estupefatos. Um dos remeiros caiu sem sentidos e o
major Sá pediu misericórdia. Depois dos vexames e contrariedades sobrevindas a momentos tão angustiosos os heróis
dessa incruenta e estranha batalha fizeram a pé o resto da viagem até a casa do major Sá No outro dia, Aníbal, que
adormecera fatigado, acordou cedo em casa do velho de óculos. Foi então que pensou seriamente no que lhe sucedera
na véspera; agradeceu ao major Sá a fineza de seus obséquios e a dedicação heroica que lhe havia dispensado. — Se
ontem tive o prazer de salvá-lo da morte, sobra razão ao senhor para me não agradecer, por isso que antes me salvou
também de morte aliás acabrunhadora e penosa — a morte moral. Dizendo estas palavras, o bom velho fez-lhe entrega
da carta achada na “quimanga”. Anibal leu-a e conheceu a letra de Alcina. As lágrimas caíram-lhe das pálpebras em
borbotões — compadecera- -se mais da ingênua moça que sofria imerecidamente por sua causa do que de si próprio. 58
Quis seguir imediatamente para Maceió, porém o major Sá não consentiu. — É bom que se demore, senhor Aníbal,
disse o velho, com a calma de um homem prudente. Não acho bom que se exponha às aventuras de viagem tão
arriscada, tendo inimigos que o desejam perder. Eu o acompanharei até Maceió. Aníbal não insistiu. O velho procurou
distrair o espírito do seu hóspede que devia estar profundamente preocupado com os inesperados acontecimentos. Era
impossível desfazer assim depressa a má impressão de semelhantes fatos. Aníbal esquecera-se de tudo, e até mesmo de
que vivia. No quinto dia as exigências do estômago lembraram-lhe isso. A fome despertou-o. Nesse dia o major Sá
recebeu jornais de Maceió e Aníbal leu a notícia de que já havia falecido!... Nada, porém, o perturbou. O seu caráter era
este. Nesse mesmo dia embarcaram Aníbal e o major Sá para Maceió. Durante a viagem nada sucedeu. Mas, logo ao
chegar ao porto da Levada as pessoas que conheciam o alferes Aníbal foram-se admirando de vê-lo. E ele fizera-se
aparentemente indiferente a tudo isto. Saltou e dirigiu-se para a rua na direção do quartel. Os dias de sofrimento que
passara em Santa Rita alteraram consideravelmente o seu físico. Magro e descorado parecia ter-se levantado do
túmulo. Os amigos que encontrava, abraçavam-no com efusão. Aqui, ali, mais adiante, nas esquinas, nos becos, nas
tavernas, nas lojas, formavam-se grupos para vê-lo passar. Alguns gaiatos chegavam a dizer em altas vozes —
ressuscitou! Outros ficavam tagarelando a respeito. Cada qual expunha, como lhe parecia, sua opinião. — É ele! dizia
um. — Não é! replicava outro. — Se não é ele, é a sua alma. 59 E no meio do assombro de uns e do contentamento de
outros Aníbal ganhava terreno até que chegou ao quartel. Aí não foi menor o espanto. O soldado que estava de
sentinela admirou-se por tal forma que deixou de fazer a continência do estilo. O quartel era no mesmo edifício em que
o é hoje. Ninguém ignora que esse prédio é uma obra que data do governo de Sebastião José de Mello Povoas, um dos
primeiros governa dores que teve esta província, quando foi separada da capitania de Pernambuco, em 1817. “A sua
frente é hoje elegante: mas é sempre uma obra nova assentada sobre uma obra velha”. (3) À porta do quartel o major
Sá despediu-se de Aníbal, e este transpôs os umbrais do edifício, subindo incontinente para o estado-maior. Os seus
colegas presentes receberam-no com pavor. Uns deixaram cair da mão a pena com que escreviam, outros levantaram-
se e quiseram correr. O comandante sentiu fugir-lhe o sangue. A inesperada aparição de Aníbal que todos tinham por
morto, causou-lhes justo assombro. Depois que ele falou foi arrefecendo o medo e acercaram-se dele os amigos. Aníbal
contou minuciosamente as peripécias por que passara, atribuindo tudo à embriaguez dos remeiros. Foi correto o seu
procedimento. Quais as provas que podia apresentar em sua defesa e com- prometedores dos criminosos? A carta de
Alcina? a carta por si só nada provava: era apenas um indício. Alegar a existência dela seria uma temeridade. Além disso,
Aníbal morreria satisfeito ainda que tivesse a certeza de que a carta era a sua salvação. Comprometer Alcina ante a
gravidade de uma denúncia não o faria ele jamais. Entretanto a declaração de Toledo na ocasião em que fora preso,
matei o alferes, causara sensação na cidade e era muito comentada por toda parte. Fizeram Aníbal sabedor desta
ocorrência. Interrogado se sabia o nome dos remeiros, respondeu que contratara a viagem com José Maracanã e que
este chamara por sua vez um fuão Toledo. 60 Toledo estava no cárcere e Maracanã — o ébrio — se evadira. Nesta curta
entrevista findou o pânico. Cada um tratou de seus afazeres e Aníbal retirou-se com parte de doente. (1) Há perto de
Santa Rita, do lado oposto, uma fonte d’água que nasce ao pé da colina. Dista uns vinte metros de uma grande pedra
que demora à margem da lagoa, daí o seu nome. Dizem que existiu nessa pedra uma inscrição atribuída aos holandeses
quando em 1633 invadiram esta província. Os moradores próximos que ali aguçavam seus instrumentos de lavoura,
extinguiram essa legenda. (2) O relâmpago, língua do trovão, lambia as trevas. Victor Hugo. “Os operários do Mar”. (3)
Dr. Espíndola — Geografia Alagoana