O ancião lia com dificuldade por ser um pouco tarde, e estava de óculos escuros, tendo junto a si ouvindo-o
atentamente dois trabalhadores seus. Não precisamos dizer, pois o leitor já deve ter adivinhado que era o mesmo
arruinado no jogo e favorecido pela generosidade de Aníbal. Tinha chegado para ali havia poucos dias e estava tão
resignado e satisfeito com a sua vida nova que sentia grande prazer em ler os capítulos da história santa tendo ouvintes
a quem noutro tempo não daria tamanha honra. Tais são as nossas presunções que se torna às vezes necessário um
revés da fortuna ensinar aos egoístas que devemos ter em muita conta o infortúnio alheio; a incerteza do futuro é um
freio à malversação de uns e às vaidades de outros. A aproximação da noite interrompeu a leitura. O velho levantou-se
e estendendo a vista para a lagoa, disse: — Catonho, vai fugindo uma canoa... Será alguma das minhas? Catonho pegou
num remo, foi ao porto e empurrando para o canal uma canoa que estava à beira d’água, foi com ela ter à que fugia,
Mas, qual não foi a sua admiração e espanto ao vê-la com a verga que brada e suja de sangue? — Oh! esse negócio está
mau, “seu manjó”! a canoa está suja de sangue! disse Catonho ao voltar ao porto. O velho, ouvindo estas palavras,
enfiou um rocló e foi até o porto, onde já estava reunido a Catonho o outro companheiro. Lá chegando observou que,
apesar da chuva ter diminuído o efeito, ali se derramara sangue. Um pano grosso amontoado à proa estava quase tinto.
Levantando esse pano, encontrou sob ele uma “quimanga” (1). O velho abriu-a e dentro achou uma carta. Pegou a carta
e foi para casa com os seus; a frieza do tempo descolara o invólucro. Não era uma carta vulgar; a letra e o papel
denunciavam alguma cousa de especial e aristocrático. O velho leu-a para si apenas. Ao 33 terminar deu um grito de
horror. Era a carta de Alcina. Às quatro horas da tarde pouco mais ou menos afundara-se no “Calunga” o portador e
uma e meia horas depois a canoa do infeliz passava em Santa Rita à mercê das águas. Parece incrível? Vejamos: do
“Calunga” à ilha não é menos de três léguas. A canoa subiu o canal e foi ter à barra; não chegou a passar esta. Costeou a
Gibóia e seguiu pelo canal da Boca da Caixa. O vento era forte, o trânsito foi rápido. O sangue que nela havia era
proveniente da queda que o remeiro dera e na qual fendera o crânio — razão de sua morte súbita. Entretanto, não
havia quem soubesse explicar o misterioso acontecimento. A carta de Alcina foi parar às mãos do velho em Santa Rita e
a vida de Aníbal corria grave perigo. Com a leitura da carta, o velho contrariou-se imensamente. Os dois homens ficaram
aturdidos, embaraçados; a família do velho acudiu pressurosa e seguiu-se um grande pânico. Quando ele recobrou o
sangue frio, viu-se rodeado da esposa e dos filhos, quis falar mas não pôde. O coração pulsava-lhe desordenadamente e
um não sei que embargava-lhe a voz. É sempre má a impressão que nos causam as notícias de dramas sanguinários; e
quando o desfecho fatal deles recai sobre pessoas afeiçoadas a quem recebe a comunicação de acontecimentos tais,
não sabemos se haverá aí alguém capaz de resistir aos assomos do coração ferido de morte no que ele tem de mais
santo a amizade. É possível que a sanha de quem luta e a ambição da vitória petrifiquem os corações ainda os mais
insensíveis, isto no momento supremo do combate, porém a dor mais intensa se manifesta quando lamentamos as
sobrevindas desgraças. — Miseráveis! disse ele, depois de alguns minutos, assassinar 34 um homem de bem?!... Quem
serão os perversos que isto querem fazer? Oh! meu Deus! Dai-me coragem! Será tarde para salvar o pobre moço?!
Enquanto assim falava, o velho era constantemente interrompido pela esposa, pelos filhos e pelos trabalhadores, todos
a uma voz interrogavam-no sobre o conteúdo da carta. — É preciso que me não demore, vamos à cidade de Alagoas,
rapazes; esta carta é um aviso que mandam ao senhor Aníbal. Há plano assentado de assassinarem esse belo rapaz e eu
não posso furtar-me ao dever de ser-lhe útil em tão doloroso transe. A esposa do velho, ouvindo tão triste nova, caiu
em penosa prostração. — Papai, não vá, papai! gritavam os filhos soluçando. Há momentos tão angustiosos na vida do
homem que podem ser apontados como o resumo de acerbas e longas agonias. Nunca se julgue mártir somente aquele
que por muito tempo sofreu, senão também o que padeceu menos demoradamente; é por isso que uma vida inteira
sacrificada a mortificantes padecimentos físicos não vale às vezes o peso de certos incômodos morais. Houve um
momento de reflexão. O velho pensou melhor sobre o caso estranho que se passava, e tratou primeiro de vigiar a
esposa. Urgia tomar uma providência e carecia para isso de calma. O leitor lembrar-se-á de que a vez primeira que
falamos no famigerado doutor Benício dissemos ser ele um homem capaz de tudo, por isso não admirar-se-ia de vê-lo
aceitar com a maior prontidão a proposta miserabilíssima do barão de Piragé no sentido de mandar assassinar um pobre
moço inofensivo que ele considerara, convidando-o para a reunião familiar ultimamente realizada em sua casa. Quando
o barão falou em dar cabo da vida preciosa de Aníbal, os olhos do doutor Benício brilharam como os de um tigre ao fitar
a sua presa; ele não era dedicado ao amigo até sujeitar-se desinte- 35 ressadamente ao desabafo de seus caprichos e
ruins paixões, mas lembrou-se da dívida de Tompson e de que era fácil arranjar uma “patota” que lhe desse a posse de
parte dela. Infelizmente, o mundo é cheio desses tipos infames que deviam habitar nas prisões onde expiassem os seus
crimes, prisões em que nem sempre se recolhem os mais culpados. É esse homem terrível — um monstro em forma
humana! — era apontado nas folhas políticas de sua parcialidade como protótipo de virtudes e honradez, ocupava
cargos de nomeação do governo e de eleição popular e nada se fazia, por assim dizer, sem a sua consulta prévia!
Ninguém melhor do que o doutor Benício estava certo de que Aníbal e Alcina amavam-se; ninguém melhor do que ele
sabia que não havia inconveniente no casamento desses dois jovens, porque se ela era rica e bela, ele era um militar
brioso, estimado por suas qualidades, recomendáveis por seu talento e que via desenrolar-se através de um futuro não
remoto a auréola fulgurante da posição elevada a que fazia jus o seu merecimento; mais o doutor não era homem que
se recusasse ao negócio mais vil do mundo quando para encarregar-se dele lhe ofereciam dinheiro! Que mal lhe
causaria, pois, entrar em ajuste com os malfeitores que de ordinário estavam ao seu serviço, acerca do assassínio d’um
homem, fosse este quem fosse? O barão lhe tinha aberto os cofres, a dívida de Tompson era um pouco avultada; como
desprezar tamanha gorjeta? O doutor Benício, voltando à casa no dia em que fora chamado pelo barão para tratar deste
negócio, deu-se pressa em tomar as convenientes medidas a fim de não falhar o seu plano. Aníbal, por coincidência
muito fatal, embarcara em Alagoas com destino a Maceió no mesmo dia tempestuoso em que se sucederam os
acontecimentos acima narrados. Má estrela guiara-o então. 36 Ele temeu a borrasca que se anunciou tremenda, mas
não podia retroceder na viagem por findar-se no dia vindouro a sua curta licença, e ser preciso apresentar-se no quartel
aos seus superiores. Escravo do dever, achava cousa difícil justificar-se d’uma falta mesmo involuntária. O temporal veio
muito a propósito colaborar com os mandatários do doutor Benício na obra iníqua por eles empreitada. Parece que a
natureza fizera timbre em favorecer àqueles malvados, proporcionando-lhes ocasião azada de praticar uma morte que
simuladamente atribuir-se-ia ao acaso. Aníbal embarcara em uma canoa de tolda de palhas de coqueiro, tolda cuja
comodidade era apenas a que oferecia a canoa de um banco a outro. Uma hora seguramente depois do embarque a
noite chegara trevosa. Uma vez na canoa ele meteu-se em seu capote de pano e não mais saiu da tolda para ver o
mundo. No silêncio imposto pelas eventualidades de viagem tão incômoda, não tinha ele pensamento algum que não
fosse reservado ao ente único a quem adorava na vida. Os trovões atroavam no espaço com o assombroso estrondo de
um cataclismo, e os relâmpagos in cessantes clareavam as palhas da tolda alumiando o interior da guarida flutuante do
viajor intrépido. Muito pouco havia adiantado a viagem; o tempo não estava de favorecer ninguém que em tal
emergência transitasse na lagoa. Os dois remeiros, trajando ambos roupa grossa, de algodão, e chapéu de grandes abas,
no princípio da viagem estavam pensativos, taciturnos. Depois, se foram tornando tagarelas, até que degeneraram em
praguejadores e incrédulos, amaldiçoando Deus e o mundo e afrontando com palavrões indecorosos a natureza
enfurecida. Aníbal, impaciente, sentou-se e ia perguntar a altura em que estavam, quando ouviu dizer: