𝔒 𝔐𝔦𝔰𝔱é𝔯𝔦𝔬 𝔡𝔞 𝔓𝔯𝔦𝔫𝔠𝔢𝔰𝔞
Capítulo 1: O encontro
O sol nascia dourado sobre as torres de Fable Town, a
principal cidade dentre as várias outras cidadelas espalhadas
pelo vasto território, derramando luz morna sobre o coração
pulsante do Reino de Arcadia. A cidade era um verdadeiro
aglomerado de mundos. Nas ruas de paralelepípedos, ainda
úmidas pelo orvalho da madrugada, a manhã trazia o som de
mil línguas diferentes.
Elfos de passadas etéreas e elegantes cruzavam o caminho de
anões barbudos e ranzinzas que abriam suas oficinas com o
chiar de dobradiças pesadas; guerreiros humanos
caminhavam lado a lado com grandes ogros em busca de
aventuras, enquanto druidas da floresta cavalgavam feras
místicas com elegância natural, deixando um rastro de folhas
e terra por onde passavam. O cheiro adocicado de pão fresco
saindo dos fornos se misturava à fumaça acre das forjas
mágicas, e as falas de diferentes origens se juntavam em
quase uma sinfonia de caos que, aos poucos, encontrava sua
ordem.
No entanto, dentro do Salão Real, o contraste era absoluto. O
silêncio era pesado e solene, quebrado apenas pelo eco
distante de passos no mármore frio. A luz entrava filtrada
pelos vitrais coloridos, pintando o chão de tons rubros e
azuis. Quatro figuras distintas aguardavam diante do trono.
À frente, com a postura rígida de quem carrega o mundo nos
ombros, estava Logan Lafaard II. Ele era um rapaz de vinte
anos, vindo da humilde aldeia de Baldess, uma pequena vila
de cinquenta habitantes localizada a cem quilômetros ao
norte de Fable Town. Desde jovem, ele e sua família,
composta por seis pessoas, sempre foram muito pobres.
Enquanto aguardava, sentindo o ar frio do salão, Logan
lembrava de seu pai, também chamado Logan Lafaard. Seu
pai lutara na "Guerra Silenciosa" pelo rei Arthur I — pai de
Arthur II o atual rei — sob a bandeira de Arcadia, contra o
poderoso monarca Dorukk Balastaah e o seu grandioso reino
de Masted. O velho odiava guerras, pois perdera quatro
dedos da mão esquerda na batalha, o que o incapacitou.
Porém, foi assim que conheceu a mãe de Logan, uma
herbalista especialista em poções chamada Katalin Orsolya.
Ela era ótima com misturas curativas e ajudou Logan pai a
cicatrizar rapidamente seus ferimentos. Apaixonaram-se
entre bandagens e cheiro de ervas, casaram-se e tiveram
quatro filhos: Dante, Logan II, Natasha e Drika.
O pensamento em Dante trouxe um aperto ao peito. O irmão
mais velho saíra de casa aos vinte e cinco anos, pois almejava
riquezas e sentia que ali não seria ninguém na vida. Em um
determinado dia, pegou uma trouxa de roupas, três drakmas
e um pedaço de pão duro, e saiu na madrugada, sumindo na
neblina. Logan foi o único a vê-lo partir, e isso deixou um
buraco em seu coração.
Os anos passaram, Logan cresceu, aprendeu a arte da espada
com seu pai e, certo dia, livrou sua aldeia de um goblin que
roubava galinhas. Essa ação chamou a atenção do guarda
civil de Fable Town e o líder, Leonardo Cevit, um honrado
cavaleiro, o convocou. Aos dezesseis anos entrou na guarda e
treinou até os vinte. Recentemente, o rei Arthur II foi
pessoalmente à guarda e falou com o líder secretamente;
Logan foi convocado, sendo informado que o rei tinha uma
tarefa especial para ele. E assim chegava ao dia atual, onde
Logan se encontrava ajoelhado no piso duro diante de Sua
Majestade, esperando suas ordens, com esperança de que
pudesse atender às expectativas de sua alteza.
Um pouco afastada, exalando uma aura de frieza quase
palpável que parecia baixar a temperatura ao seu redor,
estava Elfehen. Para um humano desatento, ela parecia uma
jovem de vinte anos no auge da beleza, mas seus olhos
carregavam o peso de um seculo. A maga vinda de Lummos,
reino devastado por humanos há mais de cinquenta anos
atras, não disfarçava a repulsa que tinha pelo rei e seu
reinado, mesmo que não fora este que destruiu seu lar, mas o
ódio era visível em seu olhar penetrante.
Elfehen não falou sobre o seu passado ao rei, nem sobre seus
objetivos. Estabelecida em Fable Town há um mês, ela
buscava um livro de magia chamado "Couraça do Verdunn".
Segundo ela, continha os ensinamentos de aperfeiçoamento
de barreira do famoso Mago Elfo Arador Celeborn, conhecido
como líder dos dragões, pois estudara essas criaturas
durante seculos para criar magias de defesa. Ela perguntou a
todos os comerciantes de grimórios, pergaminhos e livros de
magia da cidade, inalando o cheiro de papel velho e tinta em
dezenas de lojas, mas não encontrou nada.
Certo dia, em sua estalagem, recebeu uma carta real
convocando-a. Chegando lá, o rei foi objetivo: disse que tinha
encontrado um livro que pertenceu a esse elfo magistral. Ele
mostrou o livro, encapado com couro de dragão escamoso e
com o símbolo do elfo feiticeiro no centro, símbolo que só
Elfehen conhecia. O rei disse que tentou abrir, mas era
encantado, e acreditava que só ela poderia fazê-lo, não só por
ser feiticeira e elfa, mas por outro motivo que ele não
revelou. Assim, ela aceitou. Lá estava a elfa, mantendo-se
apática, observando o salão com um desdém silencioso. Não
havia calor em seu olhar para os companheiros; estava ali
apenas pela promessa do grimório de magia rara, o único
preço capaz de comprar a lealdade de alguém que já vira
impérios nascerem e ruírem.
Do outro lado, uma massa compacta de músculos e barba
permanecia imóvel como uma rocha. Brudik Bakin, o ferreiro
de Fable Town, não proferia palavra. O anão era um ferreiro
mediano, não criava excelentes armaduras ou armas
encantadas magníficas, mas se destacava no conserto de
ferramentas, armas, armaduras e utilitários. Chegava a ser
cômico: "um anão que não faz armas", desdenhavam os
guerreiros entre risos nas tavernas.
Mas ele não se importava; em sua essência, não era ferreiro,
era um guerreiro. Brudik lutou há cem anos na batalha das
"Presas de Fogo", uma guerra travada entre os peregrinos de
Arcadia junto com os "Mercenários da Pedra Lascada" — o
bando de Brudik — para expulsar os dragões das terras do
reino. Nessa batalha, em meio ao fogo e cinzas, Brudik
perdeu seus amigos de bebedeira e luta, e lá deixara uma
parte sua: seu braço esquerdo, arrancado pelo rei dos
dragões, "Verdunn".
Brudik fitava o chão, soltando apenas um grunhido baixo —
"Urxhh" — quando alguém se aproximava demais. Ele não
tinha a língua cortada, mas a vida o deixara na maioria das
vezes em silêncio. O rei o convocou pois conhecia o anão
desde criança e afirmava que seu rosto permanecia quase o
mesmo; Arthur acreditava que a experiência de Brudik
ajudaria os aventureiros.
E, por fim, inquieta como uma tempestade prestes a desabar,
estava Lagerta Gertrud. Seus cabelos eram o motivo de sua
alcunha: a "Furiosa Flamejante". Era uma mulher que
aparentava ter mais de dois metros, morena, com pequenas
cicatrizes de cortes em seus braços, marcas de histórias
violentas. Era experiente em batalha; seu corpo dizia isso.
Bárbara das terras gélidas do Norte, do reino de Vikernes,
nasceu na cidade Grimsey, conhecida por formar bravos
guerreiros. Diziam que ela era filha do antigo rei Bjorn
Gertrud, que sofreu um golpe do próprio irmão. Erick
Gertrud matou o irmão e tomou a mãe de Lagerta como
esposa. Após sofrer na mão do tio, a menina fugiu de casa,
mas não antes de deixar uma marca profunda no rosto de
Erick, um rastro sangrento que ele não esquecera. Ela
cresceu fugindo do tio rei, escapou para Arcadia e fez seu
nome como mercenária solitária.
Agora com vinte e cinco anos, Lagerta ficou sabendo da
missão através de um panfleto amassado que mostrava uma
recompensa de 5.000 drakmas. Foi até o castelo e encontrou
uma fila de guerreiros. A bárbara bateu seu machado no
chão; o barulho metálico ecoou estrondoso à frente do
castelo, silenciando as conversas. Todos olharam para trás,
mas não encontraram o rosto de Lagerta; só a avistaram
quando olharam para cima e viram aquela montanha de
músculos bloqueando o sol. Em passos firmes e lentos, a
viking caminhou até a entrada. Os pequenos homens abriam
espaço como se um animal extinto, o alfa da matilha, tivesse
chegado. Eles sabiam que se mexessem, o enorme machado
seria a última coisa que veriam. Ela caminhou até a porta e
deu duas batidas: "toc", "toc". Uma pequena portinha se
abriu, mas o homem lá dentro só viu o torso de uma pessoa.
Lagerta se abaixou e mostrou o papel, assustando o guarda
com sua altura. E lá estava ela, não por dever ou magia, mas
pelas cinco mil drakmas prometidas e como esse dinheiro
ajudaria em sua vingança.
O som de passos lentos ecoou no mármore novamente. O Rei
Arthur II de Arcadia entrou. Ele parecia envelhecido, não
apenas pelos anos, mas pela angústia visível nas rugas
profundas de sua face. Sentou-se no trono, o veludo rangendo
levemente, sorriu e coçou sua barba branca. Olhou para os
quatro.
— Que grupo estranho, tão diferentes... — suspirou ele,
deixando a máscara real cair por um instante para revelar um
pai desesperado. — Guerreiro virtuoso...
Logan olhou para o rei com um olhar espirituoso, pronto para
demonstrar do que era capaz.
— Feiticeira erudita... — disse o rei.
A elfa não o reverenciava como o guerreiro; ela tinha um
motivo para estar ali, e apenas fitou e cerrou os olhos para o
rei, fria como gelo.
— Anão silencioso e velho amigo...
O anão se ajoelhou em reverência, a armadura tilintando.
— E Bárbara raivosa...
Lagerta, com desdém, se ajoelhou segurando seu longo
machado de dois cortes. Não gostava disso, mas lembrava da
época que era uma princesa e da etiqueta exigida pela sua
mãe.
A voz do rei tremeu levemente, ecoando pelas paredes de
pedra fria:
— Trago uma enorme responsabilidade a vocês. O destino do
mundo dependerá das decisões de vocês.
Arthur inclinou-se para frente, fitando Logan nos olhos.
Desceu de seu trono, caminhou até o herói e lhe entregou
uma carta lacrada com cera vermelha.
— Abra apenas quando encontrar a princesa.
Logan olhou sem entender o motivo, mas assentiu com a
cabeça positivamente. Após isso, o Rei percorreu o olhar por
Elfehen, Brudik e Lagerta.
— Não posso tomar essa decisão por vocês. Escutem uns aos
outros. Abracem seus destinos com razão. O mundo depende
de vocês... — O rei fez uma pausa, e sua voz baixou para um
sussurro suplicante. — E tragam conforto ao coração de um
pai cansado.
Todos se levantaram e se curvaram ao rei. Os guardas
abriram as enormes portas do castelo, deixando a luz do dia
invadir o recinto, e os quatro aventureiros se viraram e
caminharam até a saída, em um silêncio que incomodava.
Logan pensava: "Eles não irão bater palmas, jogar flores ou
algo do tipo?" A despedida não foi como Logan imaginava.
Todos olhavam o grupo e, olhando de costas, Logan viu o rei
com um olhar sério, mas com certa desconfiança. Esse olhar
ficou gravado em sua mente.
O grupo deixou o castelo, sentindo o calor do sol novamente.
Logan, antecipadamente, se projetou para frente e disse:
— Bom, antes de partirmos precisamos pegar alguns
suprimentos. Comida principalmente, algumas ferramentas.
O rei deixou trezentas drakmas para a gente comprar tudo!
De repente, Logan observou que estava falando sozinho.
Lagerta e Elfehen continuaram andando sem dar atenção, o
barulho de seus passos ignorando a liderança dele. Apenas
Brudik estava prestando atenção; o anão estendeu a mão
calejada com uma folha de papel, uma lista.
— Hmm, o que é isso? — disse Logan. — Uma lista, deixa eu
ver. — Ele pegou o papel. — Um pequeno caldeirão, colher de
madeira, cutelo, amassador, espremedor, copos, mochila de
viagem grande... É bastante coisa, né?
Brudik acenou com a cabeça positivamente, saiu andando e
apontou para a agitada área comercial da cidade. Logan
entendeu rapidamente.
— Ok, vamos lá. Acho que não vai dar pra comprar tudo,
então vou ter que usar minhas técnicas especiais de
pechinchamento da família Lafaard! — sorriu Logan, falando
consigo mesmo.
Após duas horas de negociações e caminhadas sob o sol que
subia, Logan chegou ao final dos muros da cidade onde seu
grupo o esperava. Eram nove da manhã. Elfehen esperava
sentada na grama, meditando de olhos fechados ao som do
vento; Lagerta estava escorada nas rochas da muralha,
impaciente, batendo o pé; e Brudik esperava Logan de pé.
Quando o anão o viu, correu rapidamente até Logan. "Eita,
pra um anão de pernas curtas ele é bem rapidinho", pensou
Logan. Brudik pegou a mochila e verificou os itens.
Logo, Brudik rosnou incomodado e olhou para Logan com um
olhar bravo. Logan se assustou.
— Olha, só deu para comprar metade, viu? Eu comprei a
mochila, o pequeno caldeirão, a colher e o amassador. O
resto não deu para comprar — explicou Logan, com um
sorriso amarelo.
Brudik foi até ele, pegou o papel da lista, esticou os braços e
mostrou furiosamente que, ao lado dos nomes dos objetos,
havia anotações minúsculas das lojas onde eles eram mais
baratos.
— Opa... eu não vi essa informação. Mas olha sobraram três
moedas!
Brudik rosnou, o som vibrando em seu peito, pegou a mochila
e foi andando. Os outros olharam com desdém e seguiram o
anão. Logan suspirou.
— Espera, como eu ia saber? Eu nunca falei com um anão
mudo, e os vendedores dessa cidade são bons, sorte de vocês
que sou melhor.
Logan apressou o passo e seguiu viagem junto aos novos
companheiros.
O grupo deixou os portões de Fable Town para trás,
adentrando a estrada de terra batida que levantava poeira a
cada passo. Caminharam e passaram pela aldeia que ficava
ao redor de Fable Town, a Town Village, onde camponeses
acenavam de longe, e continuaram andando passando pelo
famoso arco florido com margaridas "Alice", nome dado pelo
rei para homenagear a princesa. O aroma das flores
silvestres era intenso ali.
Logan caminhava à frente, segurando o mapa com as duas
mãos trêmulas. Ele o virava para a esquerda, depois para a
direita, franzia a testa e olhava para o horizonte, depois para
o papel novamente. O suor frio começava a escorrer por sua
nuca.
— O que acontece com você, idiota? Você vira esse mapa de
um lado para o outro! — berrou Lagerta, que vinha logo
atrás, impaciente. — Não é difícil! Por acaso você não sabe
nem ler um mapa?
Logan engoliu em seco, tentando manter a postura de líder.
— Humm, mas é claro que eu sei, so estou vendo o melhor
caminho para seguirmos! — mentiu ele. "Eu não faço a menor
ideia", pensou, o pânico crescendo. "Faltei em todas as aulas
de cartografia para ficar treinando esgrima no pátio e ainda
sim sou um péssimo esgrimista."
— Hahaha, você só pode estar brincando! — gargalhou a
bárbara, girando o machado na mão com uma facilidade
assustadora. — Um líder que não sabe ler mapas era só o que
me faltava. Como o rei escolheu você? Um garotinho que
ainda por cima é cego geograficamente.
Enquanto Logan ficava cada vez mais vermelho de vergonha,
Elfehen deslizou silenciosamente até ele, seus pés mal
tocando o chão.
— Permita-me — disse ela, com sua voz suave e fria.
Logan entregou o mapa como quem se livra de uma batata
quente. A elfa correu os olhos milenares pelo pergaminho por
dois segundos. Ela parou bruscamente. Todos pararam. O
vento pareceu cessar.
Elfehen olhou para trás, para o caminho de onde vieram, e
levantou um dedo pálido, apontando para a direção oposta.
— O caminho é para lá.
Os olhos de Lagerta quase saltaram das órbitas. O silêncio
durou um segundo antes da explosão.
— SEU... SEU BURRO! BASTARDO IDIOTA! ARRHHH! — A
voz dela espantou os pássaros das árvores, que voaram em
revoada. — VOCÊ FEZ A GENTE ANDAR MAIS DE DEZ
QUILÔMETROS! SEU INCOMPETENTE, SEU AMLÓÐI! EU
VOU TE MATAR, TE FATIAR E JOGAR SEUS PEDAÇOS PARA
OS LOBOS!
Logan correu para trás da elfa, usando-a como escudo
humano.
— Como eu ia saber? Eu sou espadachim, não navegador!
Lagerta sacou seu machado, o metal brilhando
ameaçadoramente, os olhos injetados de fúria assassina.
— Ah, você jura, seu guerreiro burro? — Ela avançou,
pisando forte.
— Bom a Elfehen já sabe a direção não é Elfehen, eu o líder
permitirei que leve o mapa! — Falou Logan, a voz aguda de
medo.
Com um suspiro de tédio, Elfehen ergueu seu cajado e
desenhou uma runa brilhante no ar, que pulsou com luz
azulada. O mundo girou, as cores se misturaram num borrão
nauseante e, num piscar de olhos, o cheiro de flores e o
silêncio do bosque sumiram, dando lugar ao barulho de
pessoas e ao cheiro forte de estrume e especiarias da cidade.
Eles estavam de volta aos portões de Fable Town.
— Voltamos para a cidade? Minha cabeça está girando... —
perguntou Logan, tonto e confuso, segurando o estômago.
— É uma magia de teletransporte em grupo — explicou
Elfehen, limpando a poeira invisível de seu manto impecável.
— Movi-nos para o último ponto seguro que marquei.
A elfa foi até um pequeno pino mágico preso na terra,
emanando uma luz fraca, e o arrancou.
— Mover quatro indivíduos gasta muita mana, pois vocês têm
tamanhos e pesos diferentes. Eu tive que supor o peso e
tamanho de vocês, o que não foi exato, e a falta de exatidão
atrapalha a eficiência. Tive que compensar a falta de precisão
com mais mana ainda, e a distância aumentou o custo. Gastei
um valor considerável de mana para corrigir sua burrice.
Agradeçam por estarmos na rota certa agora.
Lagerta, ainda segurando o machado, olhou para a elfa com
um respeito relutante, baixando a arma.
— Olha só... a elfinha até que é útil. Diferente de você,
guerreiro burro.
Ela ameaçou bater em Logan, que em uma reação de medo
correu para trás da elfa novamente. Brudik apenas observou
a cena, inexpressivo, coçando a barba.
— Vamos andando — ordenou Elfehen. — Temos muito
caminho para percorrer.
Todos avançaram. Elfehen segurava o mapa à frente, logo
atrás Lagerta com passos pesados, e lado a lado Brudik e
Logan.
— Essa moça me dá medo — sussurrou Logan para o anão. —
Ela me lembra o meu irmão Dante, sempre me dava um
cascudo quando eu estava errado e me xingava de burro
igualzinho ela faz. Só o que me faltava: embarcar em uma
aventura com uma versão feminina do meu irmão.
Logan disse isso com um olhar baixo e entediado. Brudik
apenas olhou de soslaio e sorriu.
A viagem recomeçou, agora na direção correta. Após duas
horas e meia perdidas Caminharam por mais quatro horas
seguidas, atravessando campos floridos e colinas íngremes
sob o sol escaldante da tarde. No meio do trajeto,
encontraram um comerciante desesperado cuja carroça
virara perto de um barranco perigoso.
— Por favor, me ajudem, por favores guerreiros! — gritava
ele, as mãos para o céu.
Todos passaram direto, não se importando com o homem
desesperado, menos um.
— Oi, o que aconteceu? — perguntou Logan, parando.
— Minha carroça caiu do desfiladeiro, olhe lá embaixo, você
irá vê-la.
Logan foi até a beirada e olhou. O vento soprava forte ali.
Realmente, lá embaixo, entre rochas pontiagudas, estava a
carroça estilhaçada.
— Herói, você consegue pelo menos pegar a minha bolsa? Ela
está com toda a minha renda que fiz vendendo os legumes.
Não tem importância deixar os restos dos legumes.
— Olha, olhando bem, parece meio alto, né? Meio arriscado...
— hesitou Logan, calculando a queda.
— Eu lhe dou dez drakmas!
— Opa, agora sim, meu chefe, quinze drakmas e negócio
fechado!
Logan tirou sua espada e parte de sua armadura para não
ficar muito pesado, o metal tilintando ao cair na grama.
Elfehen foi até Logan e disse, calma:
— Não acha melhor eu levitar a bolsa até aqui?
— Nah, vai ser moleza e não parece tão alto assim.
Lagerta se aproximou, a sombra dela cobrindo Logan. Olhou
para baixo, voltou e disse secamente:
— Quinze metros.
Logan gelou a espinha e suou frio instantaneamente.
— O QUÊ?! — gritou Logan.
— Tudo bem aí, aventureiros? — perguntou o comerciante lá
atrás.
— Tudo sim, só estamos vendo quem vai lá pegar, fique
tranquilo hahaha — sorriu Logan, com um olhar assustado
voltado para o grupo. — Quinze metros, isso é muito! Olha
essas rochas, esse lugar íngreme... Acho que mudei de ideia,
não vou mais não.
— Mas você prometeu ao comerciante. E outra, não será de
graça, ele irá pagar quinze drakmas — disse a elfa.
— O quê? Quinze drakmas? Pode deixar que eu mesmo vou,
fique aí guerreiro burro, eu vou — disse a bárbara,
interessada, dando um passo à frente.
— Nem pensar. Eu me interesso por esse valor. Quinze
drakmas dá para comprar uma "pedra roxa de contenção de
magia de Filfaar" — disse a elfa, os olhos brilhando com
cobiça acadêmica.
Todos olharam para ela com um olhar perdido.
— Que diabos é isso? — falou Logan.
A elfa começou a explicar, em tom professoral:
— Ah, que bom que perguntou. Olha, essa pedra tem como
princi...
— O QUE ISSO TEM A VER?! — gritou Lagerta,
interrompendo com impaciência.
— Tá, olha, faremos o seguinte: "jokenpo" — sugeriu Logan,
levantando a mão.
— Hamm? — indagaram todos em uníssono.
— É um jogo que aprendi com uma mulher oriental. Um jogo
de mão onde só pode se jogar "papel", "pedra" ou "tesoura".
Papel você joga com a mão aberta, pedra você joga com a
mão toda fechada, e tesoura você deixa o indicador e o médio
levantados e fecha os outros dedos, lembrando uma tesoura.
Entenderam?
Após encerrar a explicação, Logan mostrou a todos os tipos
de mãos e explicou as regras de quem ganha de quem.
— Bom, estão prontos? — disse Logan. "Eu sou um gênio, eu
vou fazer de tudo para perder, não quero descer quinze
metros de altura para pegar quinze drakmas, mesmo que
sejam quinze drakmas", pensou Logan. — Vamos lá então: JO-
KEN... PÔ!
— Conseguimos dezoito drakmas com aquele comerciante! —
comemorou Logan, mancando levemente enquanto
caminhavam pelo bosque florido, já a trinta quilômetros da
cidade. O sol começava a baixar, pintando o céu de laranja.
— Eu poderia ter levitado toda a mercadoria — comentou
Elfehen, sem olhar para ele, a voz monótona. — E aquele
joguinho seu foi só para você levar as quinze drakmas,
espertinho.
— Eu sei,mas eu tinha que mostrar que foi difícil, valeu a
pena, ganhos ate três drakmas a mais— disse Logan. Mas a
verdade é que ele não queria ter ido. Todos eles não
entenderam o jogo; tiraram pedra e ele foi o único que tirou
papel. "Que azar!", pensava Logan enquanto lembrava da
empreitada dolorosa que tivera para descer e subir o
barranco, esfolando os joelhos nas pedras.
— Mas você não é muito atlético, hahaha! Você desceu como
um gatinho medroso. Nem isso, porque gato cai em pé; você,
ao contrário, caiu em cima do pé! Hahahahhihih — comentou
a elfa, permitindo-se uma risada rara.
Logan, com uma cara de sem graça, disse:
— Elfos têm senso de humor bem estranho.
— Sim, eu sei — retrucou a elfa. — Mas olha, se não tivesse
bancado o herói, não teria quebrado a perna e eu não teria
gasto mais uma vez minha mana com magias desnecessárias.
Logan sorriu, ignorando a bronca.
— E verdade. Mas no fundo você é boazinha, né?
Num gesto impensado, ele estendeu a mão e acariciou o topo
da cabeça de Elfehen, afagando seus longos cabelos
dourados.
A elfa congelou. Um calor inexplicável percorreu seu corpo,
uma sensação nostálgica que atingiu seu peito como uma
flecha certeira. Aquele toque... lembrava algo de muito tempo
atrás. Por um instante, a máscara de frieza caiu. Ela começou
a andar de forma rígida, quase desengonçada, tropeçando
nos próprios pés.
— Você está bem, Elfehen? — perguntou Logan, sorrindo.
Recuperando sua postura gélida, ela respondeu sem olhar
para trás:
— Sim, estou. E tire a mão da minha cabeça, guerreiro
atrapalhado.
Após mais algumas horas de caminhada a noite cai. Os heróis
se acolheram no Bosque Retorcido, famoso pelas árvores de
troncos contorcidos com folhagens escuras que pareciam
sussurrar ao vento. Encontraram uma clareira protegida e
Brudik, o ferreiro, assumiu o comando silencioso. Mesmo com
apenas uma mão, ele era incrivelmente rápido. Tirou o
pequeno caldeirão e os outros equipamentos de cozinha
comprados por Logan na cidade de manhã. O anão acenou
para Elfehen e apontou para baixo, para uma pilha de
madeira organizada por ele. A elfa fez um sinal rúnico rápido
com as mãos e uma pequena labareda saltou de seu cajado
até a madeira, acendendo a fogueira instantaneamente.
Brudik agradeceu acenando positivamente com a cabeça, o
fogo iluminando seu rosto marcado.
Logan montou sua tenda, Lagerta a dela, mas Elfehen olhava
para as estacas e tecidos com total confusão. Logan percebeu
e correu para ajudá-la.
— Uma Maga tão poderosa não sabe montar uma barraca?
Haha.
— Nunca me ensinaram isso na Universidade de magia —
admitiu ela, baixo, olhando para os lados. — Agradeço a
ajuda.
— Tudo bem-disse Logan, martelando uma estaca. — Mas
como você não sabe montar uma barraca? Seus pais não te
ensinaram? E como você viajou todo esse tempo? —
perguntou Logan, prendendo uma corda tesa.
— Nunca me ensinaram e na verdade eu nunca precisei
aprender. Quando viajo sozinha, eu coloco um saco de dormir
e monto isso. — Elfehen mostrou a Logan uma pedra pulsante
com uma runa mágica e continuou: — É uma runa de
Barreira de Nível I.
— O quê? De nível um? Runas de nível um são bem raro,
como você conseguiu isso? — disse Logan, surpreso, parando
o trabalho.
— Era do meu pai. Ele foi um grande mago, era especialista
em barreiras. Então eu apenas me deito e faço a barreira; ela
é impenetrável, tem grande defesa por ataques físicos e
defesa média para ataques mágicos e possui um raio de
cinquenta metros.
— Entendi, que incrível. Bom, eu tive dificuldades para
aprender quando criança, mas meu pai me ensinou com
paciência. Ele não foi um grande mago ou grande guerreiro,
porém ele me ensinou coisas básicas para eu me virar. Então
eu sei montar uma barraca, pescar, caçar com arco e flechas,
inclusive sou um ótimo atirador e sei realizar um excelente
nó. Meu pai não foi o melhor, mas fez o necessário para nos
criar, por isso sou grato.
A palavra "pai" ecoou na mente de Elfehen. O toque na
cabeça mais cedo... era isso. Lembrava o afeto de seu pai, a
quem não via há dois mil anos, antes da tragédia de Lummos.
Ela sorriu, um sorriso leve e raro à luz da fogueira,
permitindo-se sentir aquele breve calor humano.
Enquanto isso, Brudik caminhou até Lagerta. O anão
estendeu uma folha de papel e bateu na cintura da mulher de
mais de dois metros para chamar sua atenção.
— O que é isso? — perguntou ela, afiando uma faca.
Brudik balançou o papel. A mulher olhou e cerrou os olhos.
— Quer que eu vá atrás dessas coisas? — questionou a
bárbara.
— Uhum — assentiu Brudik com a cabeça.
— Humm. Anão folgado. Sua sorte é que eu já estava indo
caçar mesmo — resmungou ela. Levantou-se, a sombra
enorme projetada pelo fogo, pegou o machado e saiu
marchando com ar de superioridade para a escuridão da
mata. — Estou indo caçar!
Brudik começou o ritual. Colocou água no caldeirão,
adicionou ervas e temperos que tirou de bolsos secretos da
mochila e pegou algumas ervas presentes nos arredores. O
cheiro começou modesto, mas logo se tornou irresistível,
preenchendo a clareira.
— Uau, Brudik, que cheiro bom! Você adicionou erva da luz
da noite, não é? O cheiro dessa erva é bem forte, reconheci
de longe! — Logan se aproximou, salivando, e esticou o dedo
para provar o caldo.
PÁ!
Brudik acertou uma colherada de pau na mão do guerreiro
com precisão milimétrica.
— Auu! — gritou Logan, esfregando a mão.
Brudik fez um sinal negativo com o polegar e balbuciou sons
guturais:
— Hummm.
Logan olhou confuso para Elfehen, que se aproximara atraída
pelo aroma.
— O que foi? O que ele disse?
— Eu não sei — respondeu a elfa.
— Ué, mas você é uma elfa de mais de um seculo! —
provocou Logan.
— E o que isso tem a ver? Eu não falo "Anão Ranzinza".
Logan cerrou os olhos, sussurrando com deboche:
— Elfa poderosa o escambau, não entende a língua dos
anões... quem é o burro agora?
— O que você disse? — ela estreitou os olhos, faíscas mágicas
surgindo na ponta dos dedos.
— Nada!
Minutos depois, Lagerta surgiu das sombras carregando um
enorme Cervill nos ombros. Era uma espécie rara, um cervo
mágico de pelagem prateada cuja carne triplicava a
vitalidade. Brudik pegou o animal imediatamente.
— Aqui esta o mel que me pediu anão— Disse Lagerta
entregando o liquido dourado junto com o favo. Enquanto
Brudik cozinhava, Lagerta limpava o sangue do machado
com um pano velho.
— Nossa... — admirou-se Logan. — Como você caçou à noite
sem enxergar nada?
— Treinei durante anos para minha visão se acostumar com o
escuro — respondeu ela, orgulhosa, estufando o peito. — Sou
uma verdadeira guerreira, não um charlatão como você, herói
fraco.
— Nossa, foi so uma pergunta— Falou baixinho Logan
cabisbaixo com a resposta da mulher
Minutos depois, o jantar foi servido em tigelas de madeira.
— Pelos Deuses de Arcadia! — exclamou Logan na primeira
colherada quente. — Esse é o melhor ensopado da minha
humilde vida!
Elfehen provou e seus olhos brilharam, marejados pela
perfeição do tempero.
— Deveras... é um excelente ensopado. Obrigada, senhor
anão.
Lagerta comeu vorazmente, limpou a boca e, num momento
de distração, deixou escapar um sorriso genuíno.
— É muito bom mesmo, “Brud”.
O silêncio reinou na clareira. O crepitar do fogo parecia o
único som no mundo. Todos pararam de comer e olharam
fixamente para a bárbara.
— O que foi? Por que estão me encarando? — rosnou ela,
defensiva.
— Você chamou o Brudik de... "Brud"? — perguntou Logan,
incrédulo.
— O QUÊ?! NUNCA! EU NUNCA DIRIA UMA COISA DESSA!
Logan olhou para a elfa.
— Elfehen, por favor.
A maga girou o cajado, desenhando uma runa no vento que
capturou o eco do passado recente. A voz exata de Lagerta
ecoou no ar, límpida e clara: "É muito bom mesmo, Brud."
O rosto de Lagerta ficou tão vermelho quanto seus cabelos e
o sangue do cervo.
— Isso é magia dessa elfa bruxa! Eu nunca diria isso, seus
idiotas!
Ela virou de costas bruscamente, comendo sua comida com
uma raiva exagerada, as colheradas batendo forte na tigela.
Atrás dela, Logan e Elfehen riram baixinho. Até Brudik, o
silencioso, permitiu que um sorriso aparecesse por baixo da
barba espessa.
A meia-noite chegou trazendo um frio cortante. Brudik
dormia, seu ronco balançando a barba como se fosse vento
em uma cortina. Elfehen meditava flutuando a meio metro do
chão, envolta em um brilho suave, mantendo uma barreira
mágica de detecção num raio de duzentos metros.
Logan acordou para se aliviar e, ao voltar, ouviu murmúrios
vindos da tenda aberta de Lagerta. A "Furiosa Flamejante"
tremia, encolhida em posição fetal, sem coberta.
— Mamãe... por favor, fica comigo mais um pouco... —
sussurrava ela, com voz de criança, lágrimas escorrendo pelo
rosto marcado por batalhas. — Eu odeio ficar sozinha... seu
corpo é tão quentinho...
Mesmo acostumada ao gelo do norte, a solidão a fazia sentir
frio naquela noite. Logan sentiu um aperto no peito. Em
silêncio, pisando na grama úmida, ele foi até sua tenda,
pegou seu próprio cobertor de lã e cobriu Lagerta com
cuidado. A respiração dela se acalmou quase
instantaneamente.
Ao se levantar, Logan notou um brilho na escuridão. Era o
olho único de Brudik, aberto, espiando à luz das brasas. O
anão viu o gesto, sorriu brevemente para o guerreiro, e
voltou a fechar o olho, retomando seu sono.
O sol já irradiava pelo bosque florido quando Logan
finalmente abriu os olhos, por volta das seis da manhã. Os
pássaros cantavam alto. Esticou-se em um longo bocejo,
notando com uma pontada de vergonha que o acampamento
já estava arrumado e seus companheiros prontos para partir.
Levantou-se rapidamente, apressando-se em guardar seus
pertences.
— Me desculpem, pessoal. Eu nunca fui bom em acordar
cedo, deve ser por que e a primeira vez que dormi longe de
casa.
Lagerta fixou seus olhos em Logan.
— Você tem um sono pesado, guerreiro burro. Antes que eu
me esqueça, toma. — Ela estendeu a mão, devolvendo a
coberta dobrada. Logan a pegou e agradeceu, mas hesitou.
— Ontem você estava falando sozinha, algo a respeito de sua
mãe.
O rosto da bárbara endureceu em uma máscara de fúria
intensa.
— Olha, Logan, agradeço pelo cobertor. Agradeço, mas não
volte a entrar na minha tenda, senão da próxima vez afiarei
meu machado com seu pescoço.
Logan sustentou o olhar furioso de Lagerta. Ele a encarou
fixamente, profundamente, como se estivesse lendo sua alma
e vasculhando seu passado doloroso. A fúria no semblante
dela começou a se desfazer, dando lugar a uma
vulnerabilidade esmagadora.
— Entendi — disse Logan, sem desviar o olhar. — Não irá se
repetir.
Ele se virou e caminhou em direção a Brudik. Lagerta desfez
sua carranca, permitindo que a tristeza voltasse a dominar
seus traços duros.
— Por que você age assim? — perguntou Elfehen, que surgiu
ali com passos furtivos, assustando Lagerta.
— O que você quer, bruxa elfa?
A maga desceu graciosamente do galho da árvore onde
estava sentada.
— Por que você se esconde através dessa máscara de fúria? É
visível que você não é assim.
Lagerta estacou. Baixou a cabeça e disse em voz alta, fugindo
da conversa:
— Estou indo caçar.
Brudik, antecipando, veio até ela com outra lista em papel.
Lagerta tentou ignorá-lo, mas o anão a seguiu, grunhindo seu
som característico e intraduzível.
— Arrghrrr!
— Tá bem, tá bem! Me dá isso aqui — Lagerta pegou o papel
de Brudik com brusquidão, pegou seu machado e saiu para a
selva.
Elfehen caminhou e se juntou a Logan e Brudik ao redor do
caldeirão fumegante do café da manhã.
— Eu entendo que ela não faz por maldisse, sei que há coisas
que ela não quer dizer, mas a vida a ensinou a ser assim,
quase de forma automática. Nem imagino o que precisou
passar para ficar assim—Afirmou Logan olhando para as
chamas.
Elfehen olhou para Logan, séria.
— E você, Guerreiro estupido— Logan torce o nariz com o
apelido— Você está sempre alegre e saltitante como um
gnomo que acaba de encontrar uma moeda. Acredito que
você também não seja assim.
Logan sorriu levemente emocionado, olhando para o fogo.
— Você é boa, Elfehen. De fato, eu não sou alegre o tempo
todo. Eu acho que não sou capaz de nos guiar para essa
aventura, na verdade eu não entendi o porquê do rei me
escolher para liderar essa missão.
— Então você acha que não deveria nos liderar, é isso? — A
elfa o provocou, mas havia curiosidade em seu tom. — Você é
um Guerreiro Real. Matou um troll aos dezesseis anos. Você é
um guerreiro.
Logan olhou para o chão, observando Brudik mexer o
caldeirão, o cheiro de mingau já ocupando o ar.
— É mentira. Eu não matei o troll.
Elfehen se assustou, parando de flutuar por um instante.
— Ele caiu numa armadilha, eu ainda me lembro... Foi
durante a Festa da Cevada que a aldeia realiza toda sexta-
feira à noite. Eu estava patrulhando, pois era o meu dia, e vi
esse troll invadindo as cercas da nossa aldeia e indo até o
grande celeiro. Empunhei minha espada e fui até o monstro.
Chegando lá, eu vi ele devorando todas as galinhas da forma
mais brutal, penas e sangue para todo lado. Eu gritei e o
monstro se levantou. Eu me assustei, pois a criatura era do
meu tamanho, era esguia e possuía garras enormes, estava
com a boca toda ensanguentada. Seus olhos negros e pálidos
olharam para mim. Nesse momento eu sabia que ia morrer,
mas ainda assim brandi minha espada e me preparei para
batalha. Mas ele era muito rápido e, num instante, saltou em
minha direção e sacou suas garras afiadas para meu rosto.
Eu defendi com minha espada, por um tris não rasgou minha
garganta. Meus braços estavam moles, meu corpo não
obedecia minha mente. Tudo que eu pensei foi em correr. Saí
em disparada e aquele bicho correu de forma quadrúpede
atrás de mim, bufando no meu calcanhar. O medo tomou
conta de mim, mas por incrível que pareça minha mente
ainda estava lúcida e, em instantes, eu lembrei da armadilha
de espinhos e um buraco que fizemos ao redor do galinheiro.
Corri até lá e vi a placa marcando a armadilha. O monstro já
estava na minha cola, dava para sentir sua presença podre.
Quando chegou na marcação, eu pulei. O monstro não sabia e
caiu no buraco. As estacas se fixaram em seu corpo e ele
morreu depois de perder muito sangue.
— Entendi — disse Elfehen. — Então Lagerta tinha razão,
você é um guerreiro charlatão.
Logan olhou para baixo, mas logo subiu o queixo com um
sorriso forçado.
— E você, Elfa maga, tem certeza de que não é sempre fria
assim?
Elfehen negou com a cabeça.
— Andei por tanto tempo pelo mundo que já esqueci minhas
melhores memórias. — Era uma meia-verdade; ela preferia
não se lembrar do passado de Lummos, sua terra natal
devastada pela guerra.
— Hum. Acho que você está mentindo, Elfehen. Doko, Doko, o
mentiroso. — Logan apontou o dedo para o nariz da elfa,
tocando a pontinha. Esse era parte de um conto antigo que as
mães contavam para seus filhos, sobre uma criança elfa que
mentia o tempo todo.
De repente, um lampejo violento de memória correu pela
mente de Elfehen. Uma lembrança que ela preferia deixar
trancada, pois doía mais que cortes. Uma menina idêntica a
ela, tocando seu nariz em um jardim ensolarado e dizendo:
"Você é uma mentirosa, irmã."
Lágrimas escorreram pelo seu rosto e caíram na grama.
Logan se assustou.
— O que houve, Elfehen? Eu falei alguma coisa?
A elfa olhou para ele, confusa, tocando o rosto molhado. "Que
estranho", pensou a maga. "Faz tanto tempo que não me
sinto assim."
De repente, um estrondo barulhento ecoou ao longe, fazendo
o chão tremer. Os três ficaram tensos e correram em direção
ao barulho. Atravessaram uma parte densa da floresta e
rapidamente observaram, ao longe, duas figuras em um
campo aberto.
Lá, Lagerta lutava contra um Reptidioss, uma fera mágica de
cinco metros de comprimento e três de altura, com uma pele
escamosa verde-escura e dentes afiados que gotejavam saliva
ácida.
— ESTÁ TUDO BEM, LAGERTA?! — exclamou Logan,
ofegante.
— Não, não está! — gritou ela, esquivando-se da cauda do
monstro que quebrou uma rocha ao meio. —Gnomos
ladrõezinhos roubaram meu machado enquanto eu colhia
ervas para o anão, correram para dentro dessa caverna.
Agora esse lagarto idiota não me deixa passar! Estou sem
meu machado, é perigoso me aproximar!
Logan observou o arranhão no braço de Lagerta. Ele
raciocinou rapidamente: "O sangue não coagulou; ele não
deve ter veneno."
— Rápido, guerreiro! Saque sua espada e acabe com ele
enquanto eu o distraio! — berrou a bárbara.
Nesse momento, Logan gelou. Seu corpo começou a suar frio,
suas mãos tremeram incontrolavelmente.
— E-eu... — Sua voz saiu trêmula, quase inaudível.
— Sim, imbecil! Você! Quem mais tem uma espada aqui? —
gritou Lagerta, rolando no chão para escapar de uma
mordida.
Logan não conseguia desembainhar a espada; o medo era
uma âncora pesada que o prendia ao chão.
Brudik, já acostumado, vendo a inação do líder, rapidamente
com um único braço desembainhou a espada de Logan da
cintura do rapaz e a lançou para a bárbara em batalha. A
lâmina girou no ar refletindo o sol. Lagerta a apanhou no ar
com um salto.
Zup!
— Nossa, que leve! — exclamou, sentindo o peso da arma
humana. — Mas vai servir.
Brudik sacou seu pequeno machado e correu para se juntar à
bárbara. Ele estava mais lento, desequilibrado pela perda do
braço e pela idade, mas avançou com determinação. Lagerta
investiu com a espada de Logan, aplicando tanta força que se
desequilibrou estava acostuma com anos do peso de seu
longo machado, girou em torno de si mesma com o ataque. O
Reptidioss aproveitou a distração, e sua cauda atingiu
Lagerta em cheio, arremessando-a contra uma árvore com
um baque seco.
Elfehen observava, os olhos varrendo o campo de batalha. Ela
tinha mais de mil magias, mas nenhuma para ataque direto.
"Qual eu uso? Não tenho nenhuma magia destrutiva? E se eu
transformar o chão em pântano? Arrghhr, eu nunca precisei
lutar, isso é ruim! Que tal um sonífero? Não, isso afetaria
Brudik... e se..." A maga entrava em um ciclo vicioso de
análise que a impedia de agir.
Logan, vendo a amiga ser atingida, gritava mentalmente para
seu corpo se mover, sentindo-se inútil. Ele estava lucido
perante a situação pensando em diversas possibilidades, mas
a covardia o sufocava como uma mão em sua garganta
deixando imóvel.
Lagerta se levantou, zonza e sangrando na cabeça, a dor nas
costas lancinante.
— Seu lagarto desgraçado, eu vou acabar com a sua vida! —
Ela correu, mas o chicote de escamas veio zunindo para
atingi-la novamente.
Zumm!
Tchâ!
Lagerta sorriu, os dentes sujos de sangue.
— Hahaha! Duas vezes? Acha que sou burra?
Ela colocou a espada na mão esquerda e bloqueou a cauda
com a mao direita com uma força surpreendente, com o
impacto rasgou o braço no processo. O monstro se assustou
com sua resistência.
Brudik viu a brecha. Levantou seu machado para o golpe e
rapidamente correu para lançar seu ataque na barriga do
monstro, já que era o único lugar que o anão alcançava.
Swish!
Mas o réptil percebeu sua malícia e recuou no último
instante, temendo o ataque.
— Urrgh! — grunhiu ele em frustração, o ataque pegando
apenas superficialmente.
Logan, observando tudo, viu que mesmo superficialmente o
ataque abriu um corte profundo já que naquela região não
possuía escamas. Em seguida gritou, com sua voz falhando:
— BRUDIK! OLHA LÁ! A BARRIGA DELE!
Brudik olhou para o ventre do monstro e viu: o ataque de
raspão havia aberto um ferimento onde a pele era fina e sem
escamas. O sangue esguichava em um verde escuro.
— BRUDIK! A BARRIGA É O PONTO FRACO! NESSA
REGIÃO NÃO POSSUI ESCAMAS!
Brudik sorriu para Logan, depois para Lagerta, que estava de
joelhos, o braço ensanguentado. Ele assentiu, olhou para
Lagerta como se dissesse "Você está pronta para outra?".
Lagerta fechou os olhos, sorrindo. Ela se levantou, parecendo
uma montanha acordando de um sono profundo.
— Vamos lá, seu anão folgado!
Ela jogou a espada no chão, que Brudik pegou antes mesmo
dela tocar na superfície poeirenta.
Lagerta rugiu, um som primal:
— AHHAAARRRRRR!
A "Furiosa Flamejante" correu. Brudik correu logo em
seguida por trás da bárbara, usando-a como uma barreira
móvel. Enquanto corria, Lagerta escutou uma voz, um
sussurro em sua mente, uma memória feliz de seu pai:
"Dizem que quando um homem está perto da morte, ele
desperta um instinto de sobrevivência que traz poderes
sobrenaturais."
Ela correu em direção ao chicote de escamas. Freou
bruscamente, levantando uma nuvem de poeira, e recebeu o
impacto.
ZUMM!
TCHÂ!
O som foi ensurdecedor. Lá estava ela, a bárbara, segurando
a cauda grossa com os seus braços musculosos, os pés
afundando na terra. Seu rosto estava coberto de sangue e
suor, mas ela sorria.
— AGORA MORRE DE UMA VEZ, SEU LAGARTO
MISERÁVEL!
Rápido como o vento, Brudik passou por baixo das pernas da
guerreira e executou um corte vertical na barriga exposta do
monstro, da garganta ao tronco.
Splat!
Uma chuva de sangue quente caiu sobre o anão e o chão. O
Reptidioss cambaleou, soltou um guincho agudo, perdeu as
forças e desmoronou, criando uma nuvem de poeira, em
seguida formando uma enorme poça de sangue e entranhas.
Logan, maravilhado, sussurrou:
— Isso foi incrível.
Lagerta, ofegante, olhou para Brudik e estendeu a mão até o
anão.
— Mandou bem, Brud.
Brudik assentiu. Largou a espada e estendeu o braço único
para ela. Lagerta abaixou a palma da mão.
SLAPPP!
O som estridente selou uma amizade recém-formada no calor
da batalha.
Logan e Elfehen correram até eles.
— Vocês estão bem?! Lagerta, seu braço está horrível! —
disse Logan, preocupado.
A fúria de Lagerta ressurgiu, mais violenta que o monstro
que acabara de matar.
— POR QUE VOCÊS NÃO FIZERAM NADA, MERDA?! Nós
quase morremos aqui! Você deu uma diquinha fajuta, e a elfa
tonta ficou nas nuvens fazendo não sei o quê! Que tipo de
companheiros são vocês?! Como posso confiar minha vida a
dois retardados?! E você, líder, ficou paralisado, só faltou
urinar nas calças! Eu sabia... que... que...
Lagerta desmaiou devido à perda de sangue, caindo de cara
no chão com um baque surdo.
Logan, com o choque da realidade, pediu a Elfehen:
— Cuide dos ferimentos dela, por favor.
A elfa apenas assentiu, o rosto pálido. Ela sabia que fora
inútil, a mente cheia de alternativas bloqueando sua ação.
Usou o cajado para levitar Lagerta a um local confortável na
grama e começou a magia de cura, as mãos brilhando em
verde.
— E você, Brudik? Está bem? — perguntou Logan.
O anão assentiu, fadigado, limpando o sangue do rosto, mas
bem.
— Ótimo. Vamos até a caverna recuperar o machado de
Lagerta.
Uma hora depois, Logan e Brudik retornaram da caverna
úmida com o enorme machado da guerreira e um pequeno
baú velho, junto com algumas ervas medicinais que cresciam
nas pedras.
— O que é isso? — perguntou Elfehen, sem interromper a
cura.
— É um baú de tesouro — disse Logan. — Encontramos ao
lado de um cadáver com uma carta destinada a "meu filho
tolo, o meu maior tesouro". Como ela está?
— Os ferimentos graves foram curados. Estou usando uma
magia de sutura, é demorado. Os espinhos da cauda
deixaram cortes profundos, mas ela ficará bem.
— Que bom, eu peguei algumas ervas medicinais, irei fazer
uma pomada que aprendi com minha mãe. Irá ajudar a
cicatrizar de forma mais rápida os ferimentos dela. — Logan
estava triste e ainda se sentia culpado por não ter feito nada.
Logan estapeou o próprio rosto para afastar a tristeza.
— Bom, agora vamos ver o que há nesse baú! — disse ele,
forçando um tom alegre.
Elfehen e Brudik sorriram, mas confusos. O baú era pequeno.
Logan o abriu, as dobradiças rangendo, e a decepção foi
geral: um bonequinho de pano surrado, óculos antigos e um
tapa-olho.
— Ah, que decepção! O que vamos fazer com esse lixo? —
disse Logan, jogando os braços para cima.
— O tapa-olho — disse Elfehen, seus olhos brilhando ao
reconhecer a aura do objeto. — Isso não é um tapa-olho
comum. É um Supressor de Magia Antiga. Uma excelente
relíquia.
— Ótimo! Então dá para vender! — exclamou Logan.
— Não. Não vou vender. É raro, e eu não tenho um.
— Tá, mas quem achou fui eu!
Ambos se olharam, olharam para o tapa-olho, e Elfehen foi
mais rápida. Com um movimento imperceptível, ela conjurou
um pequeno feitiço e o tapa-olho flutuou para sua mão.
— Hahaha! Perdeu, herói burro! — disse Elfehen, saltitando
com sua nova conquista.
— Droga! — resmungou Logan, descontente.
Guardaram o baú e jantaram o assado da carne do
Reptidioss, feito por Brudik, que por sinal estava delicioso e
revigorante. Lagerta ainda dormia profundamente sob a luz
das estrelas.
À noite, Logan se levantou para urinar, ação essa que já
estava virando hábito. Ele ouviu Lagerta murmurar
novamente em seu sono agitado:
— Mamãe, fica mais um pouco... você é tão quentinha...
Logan foi até ela, levantou a coberta e olhou para o rosto
triste da guerreira implacável.
— Me desculpe, Lagerta. Eu não consegui reagir a tempo. Eu
sou um covarde e coloquei vocês em risco. Sei que não nos
conhecemos muito ainda, mas eu temo pela vida dos meus
companheiros. Vou me esforçar para ser o líder que vocês
merecem. Mesmo que lutar me dê muito medo.
Capítulo 2: A Vila das Masmorras
A luz implacável da manhã atravessava as copas das árvores,
ferindo os olhos de Logan, o Herói. O brilho súbito
interrompeu o seu sono profundo e ele, por instinto, cobriu o
rosto com a mão, tentando resgatar os últimos segundos de
escuridão. Então, como se um estalo elétrico percorresse sua
espinha, a memória do dever o atingiu. Ele saltou da manta,
levantando-se bruscamente como se tivesse sido ferroado por
uma abelha.
— Já levantei! Estou acordado! — exclamou o rapaz, a voz
ainda rouca, o cabelo um ninho de fios desarrumados e o
rastro de saliva seca marcando o canto da boca.
Ao redor, o acampamento já estava em movimento. Os
companheiros pausaram suas tarefas por um breve instante,
lançando lhe olhares carregados de desdém e silêncio, antes
de voltarem a dobrar lonas e organizar fardos. Logan sentiu o
peso daqueles olhares. O desânimo o atingiu enquanto
observava a poeira levantada pelos passos dos outros.
Droga, pensou ele, a vergonha subindo pelo pescoço. Ontem
mesmo eu tinha jurado que seria um líder melhor, mas não
consegui nem levantar cedo. Estou envergonhado... muito
envergonhado.
Engolindo o orgulho ferido, ele começou a juntar seus
pertences com movimentos desajeitados. O que Logan não
sabia, enquanto lutava contra o próprio desânimo, era que
aquele hábito o acompanharia como uma sombra: até o
último de seus dias, o bravo herói nunca conseguiria vencer a
batalha contra o despertar tardio.
No lado direito do acampamento, o sol começava a revelar os
detalhes da manhã. Lagerta ainda não havia se arrumado.
Seu cabelo era uma visão selvagem e fascinante: um
emaranhado de cachos vermelhos como fogo, uma massa
indomável onde não se via começo ou fim. Sob o reflexo solar,
sua pele alva parecia brilhar. Logan a observava de relance,
tentando ser invisível, mas a percepção da bárbara era
aguçada. No momento em que ela notou o olhar dele, o herói
se sobressaltou, desviando os olhos para um ponto qualquer
no horizonte.
Lagerta recolheu a coberta do chão, jogou-a sobre o braço e
caminhou com passos pesados até Logan.
— Obrigada — disse ela, a voz firme. — Di... dinada. E como
está seu braço e seus ferimentos? Está melhor? — Sim, está.
A bruxa elfa me disse que você me ajudou. Ela falou que você
tem um excelente conhecimento em ervas medicinais. —
Exato — Logan respondeu, ganhando um pouco de confiança
ao falar de seu ofício. — Minha mãe é uma alquimista,
especialista em poções. Eu não tinha muitos ingredientes
aqui, porém encontrei um pouco de erva-santa e mel e fiz
uma pomada que ajuda na cicatrização. — Vocês
recuperaram o meu machado também. Eu agradeço.
Para a surpresa de Logan, aquela massa de músculos de
quase dois metros de altura inclinou o tronco em uma
reverência formal. Era uma visão estranha; Lagerta podia ser
uma guerreira temível, mas não esquecera sua etiqueta de
princesa. Atrás deles, os outros membros do grupo
observavam com os olhos esbugalhados. Elfehen inclinou-se
para Brudik, o anão, e sussurrou:
— Essa é a coisa mais estranha que eu vi até o presente
momento. Brudik apenas balançou a cabeça positivamente,
em silêncio absoluto.
Lagerta virou-se para os demais, mantendo a postura. —
Agradeço, Bruxa Elfa, por me curar. E a você, "Brud", o bravo
anão, por ser meu companheiro de batalha.
“Brud”? Por que ela o chama assim? pensaram Logan e
Elfehen simultaneamente. A transição de Lagerta, que ia de
uma bárbara feroz a uma princesa cortês em segundos, era
desconcertante.
— Tá tudo bem, eu fiz apenas o suficiente — respondeu a
elfa, ainda desconfiada. Brudik apenas levantou o polegar e
exibiu um sorriso curto.
O clima de cortesia, porém, evaporou num piscar de olhos.
— Certo. Agora que fiz os devidos agradecimentos, vamos ao
que interessa!
Com uma força e velocidade descomunais, Lagerta
arremessou o cobertor pesado contra o rosto de Logan. O
rapaz foi ao chão com o impacto, assustado.
— Au! Mas o que foi isso? Está louca? — gritou ele.
Sem responder, Lagerta empunhou seu machado com uma
única mão. Com um golpe seco — Crack! — ela decepou o
tronco de uma árvore próxima. Todos paralisaram.
— O que há com vocês dois? — ela rosnou, voltando-se para
Logan. — Você primeiro, guerreiro burro! Se você tivesse
brandido sua espada e lutado ao nosso lado, o resultado seria
completamente diferente. Eu quase perdi a minha vida
ontem, se não fosse pelo anão folgado!
Brudik bufou, descontente com o novo apelido, mas Lagerta
não parou.
— Eu estaria morta! — gritou ela, furiosa. Logan apenas
olhava para ela, o descontentamento estampado no rosto,
mas acabou baixando a cabeça em um silêncio culpado.
Lagerta o encarava, as narinas inflamadas.
— Isso mesmo, Logan. Melhore da próxima vez. Agora vamos
arrumar tudo, comer e seguir viagem — Completou Elfehen.
— E você, Bruxa Elfa! — Lagerta girou o corpo para Elfehen,
que tentava se esquivar. — Você, a grande maga com mais de
um seculo, tem um acervo de mais de mil magias... E NÃO
LANÇOU UM UNICO FEITIÇO SEQUER! — Eu não sou uma
combatente! — retrucou a maga. — Eu não tenho feitiços de
ataque. Eu aprendi magia para não machucar ninguém! —
Ah, que maravilha! E como você pretende se defender,
donzela? E quando um monstro te atacar? Ou pior, e se um
outro mago te atacar? Suas barreiras são fortes o suficiente
para um mago treinado, hein?
A elfa abriu a boca, mas as palavras não vieram. Ela não
tinha resposta. Lagerta estreitou os olhos, percebendo a
hesitação.
— Olhem, eu quero confiar em vocês. Eu quero! Mas como
posso confiar em um guerreiro medroso que tem medo de
seus inimigos e uma elfa cagona que não usa magias
destrutivas?
— JÁ CHEGA! — o grito de Elfehen ecoou pela floresta. — Eu
não vou permitir que me chame disso! É inaceitável, eu não
tolero ser xingada! Eu tenho minhas questões para não usar
magia destrutiva, e você não tem direito de falar assim
comigo. Quem você pensa que é? Uma mulher amarga com a
vida, que só sabe gritar, bater e xingar as pessoas... Você
parece um ogro! Isso que você é!
Lagerta deu um passo à frente, um sorriso amargo nos lábios.
— Só agora que você percebeu, bruxa? Isso mesmo, eu sou
um ogro! Um ogro fedido que arrota e bebe muita cerveja!
Mas olhe só para você... fica aí fingindo que é perfeita, mas é
a mais fingida aqui. Com seu olhar distante e indiferente,
está sempre fugindo, não é mesmo? Escuta aqui, princesinha
mimada do caralho: eu preciso desse dinheiro! Eu TENHO
que ganhar esse dinheiro, a vida da minha mãe depende de
mim! E eu não vou deixar que dois idiotas acabem com essa
chance! Estou há anos reunindo moedas para vingar a minha
família e não vou deixar que nem um de vocês me atrapalhe,
entendeu, elfa de merda?
A respiração de Lagerta era ofegante, toda a sua raiva
despejada no ar úmido do bosque. Elfehen a encarava, as
duas separadas por cinco metros de uma tensão que quase
soltava faíscas. De repente, a elfa estendeu a mão. Seu cajado
voou do chão para sua palma, atraído como um ímã.
— Pra mim já chega. Não preciso disso — disse Elfehen. Com
um estalar de dedos, o mapa se materializou em sua mão. —
Pega, herói! — Ela lançou o pergaminho para Logan. —
Escuta aqui, bárbara indecente: você não me conhece. Então,
da próxima vez que nos encontrarmos, veja bem como fala!
A elfa apontou o dedo para cima. Lagerta seguiu o gesto com
o olhar e viu dois ovos de pássaros flutuando no ar. Elfehen
sorriu, estalou os dedos novamente e desapareceu em um
feixe de luz. No segundo seguinte, a gravidade retomou seu
papel.
Plack! Plack!
A gema e a clara escorreram pelos cachos ruivos de Lagerta,
pingando no chão seco. Logan e Brudik observavam a cena
em choque absoluto. O silêncio durou apenas o tempo de
Lagerta começar a tremer. Um ódio vulcânico subiu das suas
pernas até o topo da cabeça.
— AAAAARRRRRRRGHHHHHHHHH! EU TE MATO, SUA
BRUXAAAAAAAAAAA!
Após algumas horas de caminhada silenciosa, o trio
finalmente deixou para trás o Bosque Retorcido. E depois de
cem km de caminhada e três dias de viagem chegaram a uma
estrada de terra batida que levava ao vilarejo mais próximo:
Morella, a Aldeia das Masmorras, famosa pelas duas entradas
de calabouços que flanqueavam suas colinas.
Brudik liderava o caminho carregando o mapa, já que o líder
oficial não sabia ler. Atrás dele, Logan seguia com passos
cautelosos. Por último, vinha Lagerta. Seus cabelos estavam
úmidos de água fresca; ela tivera que lavá-los às pressas, e
por sorte, os dois companheiros a ajudaram.
Logan lembrou-se de como foi difícil acalmá-la horas atrás. —
Calma, Lagerta... — ele dizia, enquanto ela soluçava de raiva.
— Ela vai me pagar! Olha o que ela fez com meu cabelo, está
cheirando a ovo! — a bárbara chorava enquanto desabafava,
revelando uma vulnerabilidade que Logan nunca imaginara
ver sob aquela armadura de músculos.
Brudik ajudava a esfregar os cachos para tirar o cheiro ruim
enquanto estavam perto de um pequeno lago no bosque. A
água era turva, cheia de sapos e limo. Inicialmente, Lagerta
se recusara a tocar naquela água, mas Logan a convenceu:
ele usaria pedras quentes para purificar e aquecer a água
para ela. Foi o único jeito.
— Por que ela fez isso? Essa elfa é uma bruxa! Por que ela
tinha que mexer com o meu cabelo? — Lagerta fungava, a voz
misturando choro e indignação. — Ela é má... igual àquelas
bruxas dos livros de nariz grande. — Sim, ela foi muito má —
concordava Logan, esfregando os fios com paciência.
Após a lavagem, Logan preparou uma mistura especial com o
mel que sobrara da pomada, canela e alecrim. Aqueceu tudo
por trinta minutos e, após esfriar, aplicou o óleo natural no
cabelo de Lagerta — um segredo que aprendera com sua
mãe.
— Tem cheiro bom... cheiro de canela — disse ela, enquanto
devorava um bife para recuperar as energias. — Sim, é óleo
de canela. Agora, sente-se aqui.
Lagerta obedeceu, sentando-se em uma pedra plana. Logan
posicionou-se atrás dela e começou a trançar os cabelos
ruivos com uma habilidade inesperada. Enquanto trabalhava,
ele começou a cantar baixinho:
"Vento que corta, neve no chão, ela entregou sua vida na
mão. Lábios de mel, alma de fel, Ele partiu sob o manto do
céu."
A voz de Logan era suave, e a melodia parecia carregar um
peso antigo.
"Ouro roubado, barco no mar, ela ficou para a morte esperar.
Tranca de ferro, torre de dor, morreu a princesa e o falso
amor."
Lagerta fechou os olhos. Aquelas palavras evocavam
memórias profundas, transportando-a para anos atrás.
— Mamãe, por que a princesa morre nessa canção? —
perguntava a pequena Lagerta. — Ela foi ingênua, filha.
Acreditou que o homem a amava... e o amor nos deixa cegos.
Amar dói, mas também cura. — A mãe de Lagerta segurou
seu queixo, olhando no fundo de seus olhos. — Quando for
amar alguém, não se importe com a aparência ou com o que
ele tem, mas sim pelo jeito que ele te trata, tá bem? — Tá
bem, mamãe. Mas e se um goblin me tratar bem? Eu caso
com ele? — Hahaha! Bom, se ele for educado e te tratar
como uma flor delicada, sim, você pode casar com um goblin.
— Ata. Mas vou logo avisando que não vou beijá-lo. — Quem
sabe ele não vira um príncipe? — Humm... então ele vai
morrer como goblin.
— Eu já terminei aqui — a voz de Logan a trouxe de volta ao
presente.
Ele havia feito uma trança perfeita. Brudik olhava espantado
com a naturalidade do herói. Logan sorriu para o anão. — É
que eu fazia as tranças das minhas irmãs. Minha mãe
trabalhava fora, então eu cuidava do cabelo delas.
Lagerta levantou-se e enxugou as lágrimas que haviam
escapado de seus olhos. — Obrigada, Logan — agradeceu ela
com uma nova reverência. Ela pegou seu machado pesado de
duas lâminas e caminhou em direção à mochila.
— Espere um momento! — Logan gritou. Ela parou, os olhos
ainda marejados. Logan se aproximou. Com seus 1,70m de
altura, ele precisou esticar os braços para alcançar o nível da
orelha de Lagerta, que tinha dois metros. Ela se assustou
com a proximidade súbita.
— Ei... — ela começou a dizer, mas Logan foi mais rápido. Ele
colocou uma flor de pétalas vibrantes em sua orelha
esquerda. — Pronto. Achei que essa flor combinaria com você
assim que a vi. É a Flor Labareda. Ela nasce apenas em
lugares extremamente quentes, mas, por incrível que pareça,
emergiu nesse bosque úmido e frio. É estranho, não? Isso a
torna rara... então cuide bem dela.
Logan sorriu. Lagerta ficou estática, o coração acelerando.
Um frio desconhecido percorreu sua barriga e seu rosto
corou instantaneamente. Por um momento, aquele herói que
ela tanto desprezara pareceu... atraente. As palavras da mãe
ecoaram: "Ame alguém que te trate como uma flor delicada".
De repente, seu machado escapou de sua mão, caindo com
um estrondo
Bam!
levantando uma nuvem de poeira. O herói e o anão saltaram
de susto.
— Tudo bem, Lagerta? — Ah... eeee... hummm... sim! Tudo
sim! Tudo ótimo, hahaha! Quer dizer, eu tô ótima e você?
Tudo bem? — Ela recolheu o machado rapidamente, o rosto
ardendo de vergonha. — Melhor irmos, né? Tá tarde já... quer
dizer, tá cedo, mas tá tarde porque demoramos por causa do
cabelo, né? Hahaha... ai, ai, tá quente aqui, né?
Ela girou os calcanhares e saiu andando na frente, quase
correndo.
No caminho para a vila, Logan e Brudik observavam a
retaguarda de Lagerta. — Brudik, ela ficou estranha, não
acha? — cochichou Logan. Lá na frente, Lagerta cheirava o
próprio cabelo, sentindo o aroma de canela e alecrim.
Quando percebeu que Logan a olhava, ela desviou o olhar
com tanta pressa que seu corpo enrijeceu. Ela tropeçou no
próprio pé e caiu pesadamente no chão.
BOOM! — O impacto levantou poeira para todos os lados.
— Opa! Quase que eu caio! Hahaha... quase! — disse ela,
levantando-se num salto e espanando a roupa. Os dois
companheiros apenas sorriram sem graça e voltaram a olhar
para a estrada. — Eu disse... ela tá muito estranha — repetiu
Logan.
Finalmente, chegaram à entrada de Morella. Um grande arco
de madeira ostentava o nome: "A Vila das Masmorras". Ao
lado, um mural de avisos estava repleto de pergaminhos.
— Bom, gente, precisamos de dinheiro — Logan começou a
analisar as finanças. — Temos apenas dezoito drakmas.
Precisamos de cem para cada um para cruzar a Ponte do
Longo Rio e comprar suprimentos. Serão vinte dias de
viagem sem vilas próximas.
Ele começou a ler os anúncios: — "Mate alguns lobos próximo
ao vilarejo, oitenta drakmas. Procurar Afonso Druff na casa
de madeira..." Humm, quero evitar combate por agora.
Brudik lançou-lhe um olhar julgador. — Eu sei, eu sei! Mas
vamos procurar outro.
Enquanto os dois discutiam serviços, Lagerta se afastou para
a sombra de uma grande árvore. Sua mente, porém, estava
longe. Ela imaginava cenas heroicas: "Ó linda guerreira de
cabelos de chamas... aceite essa flor como prova do meu
amor, princesa guerreira!". Lagerta sorria sozinha, um
sorriso tímido ela tinha uma imaginação poderosa, fruto dos
contos de fada que sua mãe lhe contava na infância.
Enquanto ela divagava, uma pequena menina de cabelos
loiros platina e pés sujos cruzava a estrada. Ela vestia trapos
e equilibrava um balde de água na cabeça com extrema
concentração. Lagerta notou algo que a fez cerrar os olhos
com fúria: algemas pesadas prendiam os pés da criança.
A menina, focada em não derrubar o balde, não viu o homem
embriagado à sua frente. O choque foi inevitável. A água
derramou sobre o homem, que caiu sentado no chão, junto
com sua cerveja.
— Au..., mas o que... — a menina gaguejou, sentada no chão,
aterrorizada. O homem olhou para ela com puro ódio. — Me...
me perdoe, senhor! Eu não o vi! Por favor... eu estava
levando água para o meu mestre e... — Cala a porra da boca!
— gritou o bêbado se levantando do chão. — Meu senhor,
sinto muito! Se me deixar ir, eu prometo que não cruzo o seu
caminho novamente! — CALA A BOCA, SUA PUTA! — o grito
assustou a criança, que começou a tremer. — Por favor... eu
prometo que...
SLAAAPPP!
O som do tapa ecoou. Uma gota de sangue atingiu o chão
seco. A menina levou a mão ao rosto, as lágrimas escorrendo.
— Juro pelos Deuses que nunca mais apareço, não me
machuque mais, por favor! — implorou ela. — EU VOU TE
ENSINAR UMA LIÇÃO QUE SEU MESTRE NÃO TE
ENSINOU!
O homem levantou a mão para um segundo golpe, desta vez
com toda a força. A menina fechou os olhos, esperando a dor.
Zzzip!
Tudo ficou escuro para a criança. A menina ouviu gritos
distantes. Quando abriu os olhos vagarosamente, a cena era
de pesadelo.
— AAAAARRRHAA! A MINHA MÃO! SUA VAGABUNDA,
VOCÊ CORTOU A MINHA MÃO!
O homem gemia no chão, o sangue jorrando do pulso. Atrás
dele, Lagerta erguia-se como uma montanha inabalável. De
costas para a cena, ela limpou o sangue de seu machado com
um movimento brusco — o líquido escarlate voou no chão e
respingou no rosto da pequena escrava.
— SUA PUTA! EU VOU ACABAR COM VOCÊ! — O homem
sacou uma adaga com a mão restante e avançou num corte
horizontal.
Lagerta, apesar do tamanho, moveu-se com a velocidade de
um raio. Ela se esquivou e, com um movimento quase
invisível.
Zzzip!
Plaft!
A outra mão do homem caiu no chão. Ele só percebeu
quando o membro atingiu o solo.
— AAAARARAARRRHHHHHHAAAAAAAAA! MINHA MÃO,
PORRA! PELOS DEUSES! O homem caiu de joelhos enquanto
um lago de sangue se formava ao seu redor.
— Seu verme — disse Lagerta, limpando o machado nas
roupas do próprio homem.
Ela caminhou de volta para sua árvore, passando pela menina
que a olhava com uma mistura de medo e profunda
admiração. Lagerta voltou a cruzar os braços e fechou os
olhos, enquanto a multidão começava a se aglomerar em
volta do homem caído.
— Você viu isso, Brudik? — Logan estava estático. — São dez
metros da árvore até a garota... e em um instante ela
apareceu. Isso é incrível.
Logan olhou para a companheira com admiração. — Essa é a
força da Guerreira Flamejante.
— Tá bem, é melhor irmos antes que dê problema pra gente.
E Lagerta você exagerou com essa decapitação — disse
Logan, a voz baixa, enquanto arrancava o papel do quadro de
avisos. Lagerta apenas olhou de lado ignorando a fala de
Logan.
O heroi acenou para que Lagerta e Brudik o seguissem. Os
três avançaram pela entrada da cidade, abrindo caminho
entre a multidão que ainda cercava o homem ensanguentado
no chão. O ar em Morella parecia carregado; Logan sentia os
olhos dos moradores queimando em suas costas, uma mistura
ácida de medo e raiva.
— Forasteiros, só podia ser... — resmungou uma mulher de
avental sujo. — Eu conheço esse homem, é marido da
Petúnia. Ele bebe de vez em quando, mas é um bom homem!
— Como ele irá trabalhar agora sem as mãos? — questionou
outro, com a voz trêmula. — Olha o tamanho daquela
mulher... ela é violenta! Cortou as mãos do pobre coitado —
dizia um velho, apontando discretamente para o machado de
Lagerta. — Quero ver o que o xerife vai dizer.
Ao passar por eles, Lagerta não baixou a cabeça. Em vez
disso, acumulou saliva e cuspiu no chão seco, demonstrando
um desprezo silencioso que fez os murmúrios cessarem por
um instante.
Eles seguiram pela estrada principal. Logan observava as
casas simples, construídas com madeira bruta e telhados de
feno que pareciam prestes a ceder. O cenário lembrava seu
próprio vilarejo; até o cheiro de esterco misturado com a
poeira fina que seus calçados levantavam trazia uma
nostalgia indesejada. A terra sob seus pés era árida,
esturricada pela falta de umidade.
Contudo, algo na paisagem urbana começou a incomodar
Logan. Ele franziu a testa, olhando para as vielas e barracas
de comerciantes. Havia algo faltando.
— Que estranho... — murmurou ele, chamando a atenção dos
outros dois. — O que é estranho? — perguntou Lagerta, ainda
limpando os respingos de sangue seco em seu machado. —
Passamos por algumas casas e algumas vielas e não vi muitas
crianças. Contando com aquela menina da entrada, contei
apenas oito no total. E vocês viram quantos adultos tem por
aqui?
Após o herói levantar a questão, o silêncio caiu sobre o
grupo. Lagerta e Brudik começaram a observar ao redor,
percebendo que, de fato, a vila era um lugar de rostos
cansados e envelhecidos.
Enquanto caminhavam sob olhares curiosos e julgadores,
passaram diante de um estabelecimento que exalava o cheiro
de cevada fermentada. Uma placa balançava suavemente
com o vento, exibindo os dizeres: “Taverna um Tostão”.
— Hurm! — grunhiu Brudik, apontando com firmeza para a
entrada da taberna. — Eu sei, Brudik, mas primeiro temos
que nos acomodar em algum lugar e depois ir atrás da pessoa
do serviço — respondeu Logan.
O anão, emburrado, abaixou a cabeça. Seu estômago roncava
audivelmente, mas ele simplesmente aceitou seu destino,
arrastando as botas na terra.
— Será que vamos encontrar Elfehen aqui nessa vila? Estou
meio preocupado — disse Logan, o rosto assumindo uma
expressão de melancolia. — Hum! Quero ver se ela tem
coragem de aparecer na minha frente! — disparou Lagerta, a
raiva ainda latente. — E sabe o que é mais incrível? — Ela
parou por um segundo e farejou o ar. — Snif, snif... Eu ainda
sinto o cheiro de lavanda que essa elfa maldita exala, o cheiro
esta o tempo todo perto da gente. — Lagerta, não fale dessa
forma. Sei que ficou zangada, mas ela disse que tem seus
motivos para não ser hostil com suas magias. — Por que
defende ela? Se esse era o problema, por que não usou as
outras magias que ela sabe então? — falou Lagerta, já
impaciente. — Eu não sei... pode ser que foi a primeira vez
que entrou em um conflito ou algo assim — Logan tentou
racionalizar, mas sua voz perdeu a força. — Até eu congelei
na batalha, infelizmente. — Tsk.. que patético, vocês dois —
sentenciou Lagerta, friamente. — Eu sei. E isso teve grandes
consequências.
Logan abaixou o olhar, envergonhado, focando nas
bandagens que ele mesmo havia aplicado no braço de
Lagerta. — Mas eu vou melhorar, eu prometo.
Lagerta olhou para ele, pronta para lançar mais um
comentário ácido, mas se assustou com a mudança repentina.
O olhar de Logan brilhou com uma intensidade renovada, um
brilho de determinação que parecia cegar a bárbara. Por um
impulso de timidez, ela desviou o olhar, sentindo o rosto
esquentar.
— Me escuta, herói: fale menos e mostre mais. Só assim para
eu confiar em você.
Após caminharem por mais um tempo, subitamente, uma voz
infantil e aguda gritou atrás deles: — Heróis meu mestre
quer velos!
O trio girou simultaneamente. Era a menina da entrada. Sob
a luz do sol da vila, Logan notou detalhes que o sangue e a
poeira haviam escondido: a garotinha possuía olhos azuis
penetrantes, cor de céu de inverno, e uma pele pálida como
gelo que contrastava com a sujeira em seu rosto.
— Olha, a garota de antes! E aí, garotinha, você está bem? —
perguntou Logan, observando os farrapos que serviam de
roupa para ela. — Sim, estou sim! Graças à moça alta aí, eu
me livrei de um sacode legal, hihihi! — disse a garota, rindo
da própria desgraça com uma inocência trágica. — Entendi. E
que história é essa de seu mestre quer nos ver? — Logan se
agachou, ficando na altura da criança. — Eu contei para o
meu mestre o que aconteceu. Ele achou curioso e queria
conhecer minha salvadora, mas eu falei que ela estava em um
grupo. Então ele convidou a todos para encontrá-lo na
taverna logo atrás. — Entendi. E quem é seu mestre? — Meu
mestre dará todas as informações após encontrá-lo — afirmou
a menina com uma seriedade precoce.
Logan levantou-se e olhou para os companheiros. Lagerta
assentiu com um leve movimento de cabeça e Brudik fez o
mesmo, o pensamento claramente voltado para a comida da
taverna. — Tudo bem, vamos lá. — Ebaa! Então me sigam até
a taverna. A propósito, meu nome é Maria. E o de vocês?
— Bom, eu sou Logan, o Bravo Guerreiro — disse ele,
estufando o peito. Lagerta e Brudik cerraram os olhos em
julgamento imediato. — Tsk! Bravo guerreiro... mentiroso! —
debochou Lagerta baixinho. — Este é Brudik, o anão
experiente de batalha e um ótimo cozinheiro — continuou
Logan, ignorando-a. Brudik acenou com seu único braço. — E
essa é a brava e destemida Guerreira Flamejante, Lagerta—
E temos também a... Logan encerrou ao lembrar de Elfehen—
Bom somos só nos mesmo.
Os olhos de Maria brilharam. — Então seu nome é Lagerta!
Você é incrível! Você cortou as mãos daquele homem feio...
bem feito! Desta vez ele foi longe demais, bateu muito forte.
— Desta vez? — indagou Logan, confuso e preocupado.
Ao chegarem ao pé da escada de madeira da taverna, a
menina parou. Ela se inclinou, puxou uma tábua solta e
retirou de lá uma pequena bolsa de moedas, guardando-a
com agilidade. Ela subiu os degraus e, antes de entrarem, fez
uma apresentação teatral: — Bem-vindos ao Um Tostão, o
melhor bar da cidade!
Ao abrir a porta, o grupo foi atingido por uma onda de calor,
cheiro de cerveja barata e suor humano. O chão de madeira
estava encardido de poeira e restos de comida. Homens
falavam alto e meretrizes sentavam-se em colos, buscando
seu sustento. Brudik inspirou profundamente; aquele cheiro
pegajoso trazia memórias de seus tempos com o bando de
mercenários “Pedra Lascada”. Logan, distraído, tropeçou em
uma madeira mal pregada logo na entrada. Lagerta, por sua
vez, segurou firme o cabo do machado, seus olhos mapeando
cada perigo no recinto.
— Ele está ali — apontou Maria.
No canto da sala, um homem estava sentado em uma
poltrona vermelha de entalhes finos. Ele conversava com
outros três sujeitos. Ao lado dele, um homem musculoso de
cabelos brancos montava guarda, ladeado por outros seis
subordinados três de cada lado da poltrona.
— Dez homens no total — sussurrou Lagerta, em alerta
máximo. Logan olhou para a escuridão dos cantos e percebeu
mais quatro vultos que ele ignorara inicialmente.
Enquanto caminhavam, a madeira rangia sob seus passos
como se protestasse. Eles pararam a três metros de distância
quando o homem grisalho estendeu a mão, sinalizando para
que esperassem. Por cima dos ombros dos seguranças,
puderam ouvir a conversa:
— Esse é meu preço, Olho de Peixe: dez mil drakmas. Tenho
certeza que será um excelente atrativo em seus bordéis —
disse o homem na poltrona. — Hum... ainda acho caro. Não
tenho todo esse valor ainda. Me dê mais alguns dias —
respondeu o interlocutor, um homem de olhar vítreo. — Que
seja, então. Volte quando tiver todo o valor.
O mestre de Maria acenou, expulsando os negociantes. Ao
passarem pelo grupo, o homem chamado Olho de Peixe
esbarrou propositalmente em Logan, fazendo o jovem dar um
passo para trás com a força do impacto. Ele não olhou para
Logan, mas sim para Maria, que sorria sem perceber o perigo
naquele olhar. — Desculpa aí, milady — disse o homem com
escárnio, antes de puxar o catarro com um ruído barulhento e
cuspir no chão da taverna.
— Não liguem para ele. Aproximem-se — chamou o homem
na poltrona.
Agora de perto, a figura revelava-se. Usava uma capa de
couro com capuz de pelagem espessa sobre uma camisa roxa
de seda fina, embora gasta. Colares e brincos de ouro
brilhavam sob a luz das velas. Logan reparou em um brasão
bordado: uma raposa. Ele é da nobreza... pensou o herói.
Alguma casa grande, mas não lembro de onde é essa raposa.
— Bom, antes de começar, peço que deixem meu guarda-
costas recolher suas armas. Não levem a mal, mas é só o
regulamento do lugar — disse o homem, sua voz aveludada
carregando uma autoridade implícita. — Nem pensar! —
exclamou Lagerta. — Você quer que eu fique desarmada em
um lugar cheio de homens com espada? — Sim, é exatamente
isso que eu quero. Como eu disse, não levem a mal, mas aqui
dentro da minha taverna as únicas armas em punho serão as
dos meus homens. Já tivemos problemas com armas
antigamente, então é melhor não arriscarmos de novo, não é
mesmo? — Eu vou dizer pela última vez: não vou te entregar
minha única forma de proteção! — contra-atacou Lagerta, os
olhos faiscando.
— Não vão? Tudo bem. Guardas! — gritou o nobre.
Imediatamente, os dez soldados entraram em posição de
ataque. O guarda-costas grisalho tencionou os músculos. O
bar mergulhou no silêncio; o barman parou de polir os copos
e o suor começou a escorrer pelo rosto dos soldados. Brudik
encarava o homem grisalho, reconhecendo nele um
adversário de verdade. Lagerta, porém, soltou uma risada
curta, notando a hesitação e a inexperiência dos outros
soldados.
— TODO MUNDO CALMA! — gritou Logan, posicionando-se
entre os dois lados. — Peço desculpas pela inconveniência,
mas eu reconheço seu brasão. É da Casa Luffos, a Casa da
Raposa. São grandes comerciantes de escravos estrangeiros.
Seu pai é o grande escravagista Dardany Luffos IV.
Logan, lembrando-se da etiqueta necessária diante de tal
poder, colocou o joelho no chão e curvou-se. — Me escute,
Sir. Peço desculpas, mas não podemos nos desarmar. Já
enfrentamos problemas e tememos por nossas vidas; ficar
sem uma arma é a mesma coisa que pedir para morrer.
O homem na poltrona permaneceu em silêncio, observando a
submissão de Logan. — Façamos o seguinte: desarme a mim
e a Brudik, o anão, e deixe o machado com nossa
companheira, pois ela é a nossa vanguarda. E quero lembrá-
lo, Sir, que não só salvamos sua propriedade — Logan
apontou para Maria — mas também sua renda.
O nobre se espantou levemente com a astúcia do rapaz e
abriu um sorriso malicioso. — Hahaha! Tudo bem, levante-se.
Você me convenceu, moleque. Certo, vou me apresentar. Meu
nome é...
BAM!
A porta da taverna foi escancarada violentamente. —
FLYTCH! — gritou um homem que marchava furioso para
dentro, seguido por cinco subordinados.
Ele parou diante do grupo, encarando Lagerta. O homem era
mais baixo que a bárbara, ostentava um bigode pontudo e
uma barbicha fina. Logan notou uma estrela dourada pregada
na vestimenta azul e uma luva curiosa na mão esquerda,
gravada com um símbolo desconhecido.
— Você, mulher, está presa por violência de grau 3 contra um
cidadão de Morella. Venha comigo pacificamente ou enfrente
a devida punição — disse ele, levando a mão ao cabo da
espada.
Lagerta olhou para a mão dele e depois para o seu rosto.
Diferente dos soldados de Flytch, este homem não suava.
Estava em alerta absoluto. — Por que você não tenta sacar
essa sua espada? — atiçou Lagerta, com um sorriso
desafiador. — Garanto que sua mão irá voar antes que
perceba que partiu.
— Xerife, que bagunça é essa? O que eu disse sobre... —
começou Flytch. — CALA A BOCA! — gritou o Xerife. — Estou
cansado dessa sua bagunça, Flytch! Estou com um homem
sangrando na curandeira e um povo assustado, tudo por sua
culpa! — Que saco... — bufou o nobre. — Essa mulher irá
para a prisão. Isso é um crime grave! — insistiu o oficial. —
Como eu já disse... por que você não tenta? — repetiu
Lagerta, debochada.
Flytch pegou seu copo de cerveja, levantou-se e começou a
circular a mesa até chegar ao Xerife. — Bom, vamos analisar
a situação. Essa mulher é minha contratada.
Lagerta e seus companheiros trocaram olhares confusos, mas
Flytch continuou, apontando para Maria: — A ação hostil que
ela teve foi apenas para proteger meu patrimônio, no caso,
Maria. Pelo que eu saiba, destruição de patrimônio alheio é
crime, não, Xerife? Detrimento de patrimônio, crime de grau
2, estou certo? Minha guarda apenas usou dos meios
necessários para proteger meu patrimônio. Então chegamos
a um impasse: você pode prender minha contratada, porém o
camponês bêbado terá que ressarcir o dano ao meu
patrimônio. E você sabe o quanto a genética do meu
patrimônio é rara, né, Xerife?
O Xerife calou-se. Ele sabia que o camponês não tinha onde
cair morto e jamais poderia pagar a indenização exigida por
um nobre da Casa Luffos. — Flytch, seu maldito... Certo,
deixa pra lá. Aplico a lei “olho por olho” — rosnou o oficial. —
Muito obrigado — agradeceu Flytch, erguendo o copo. —
Entretanto, todos os tratamentos do homem serão pagos por
você — concluiu o Xerife.
Flytch coçou a barba rala por um instante. — Fechado. —
Homens, vamos! — O Xerife girou nos calcanhares. Antes de
sair, lançou um olhar gelado para o grupo de Logan. — Estou
de olho em vocês.
— Ufa... — Flytch soprou, aliviado. — Oficiais sempre se
metendo. Bom, onde estávamos? — Quem era ele? —
perguntou Logan. — O Xerife de Morella, Sir Dario Drakin.
Ex-cavaleiro real do Reino Caído de Vanguard — revelou
Flytch.
Logan ficou surpreso. O homem parecia velho demais para
ser um cavaleiro lendário, mas agora sua postura fazia
sentido. — Bom, Gallaw, recolha as armas do anão e do
garoto. Deixe apenas o machado da alta guerreira. Não pense
que me esqueci — disse Flytch para Logan.
O homem musculoso, aproximou-se e recolheu os pertences
de Logan e Brudik. — Certo, vamos lá. Não foi a recepção
que eu queria, mas serei direto: preciso que realizem uma
tarefa para mim. Quero que exterminem uma gangue de
bandidos ao norte de Morella, após o Longo Rio. Quero que
tragam a cabeça do “Rei dos Ratos”, o líder deles. Irei pagar
cinco mil drakmas.
O valor fez os olhos dos heróis saltarem. Era uma fortuna.
Mas Logan logo sentiu o peso da própria insegurança. —
Olha, no momento não estamos procurando enfrentar
batalhas. Estamos mais interessados nesse serviço... — Logan
tirou o folheto do bolso: “Resgate uma relíquia mística na
Masmorra 2 de Morella. Prêmio: 2.000 drakmas.”
— Hum, entendo... e eu perdi muitos homens nessa
masmorra. Mais de vinte. Foi um massacre, não foi, Gallaw?
— Sim, mestre — respondeu o guarda, com um olhar vazio. —
Faremos o seguinte: amanhã realizarei um teste com vocês.
Se passarem, o serviço é de vocês. Por hoje, bebam o que
quiserem e comam até vomitarem. Por minha conta!
Mais tarde, o grupo estava reunido em uma mesa farta. Entre
risadas e gritos dos outros bêbados, os três tentavam
processar o dia. — O que acham que será esse teste? —
perguntou Logan. Brudik deu de ombros e fechou os olhos,
sem ideias. Lagerta entornou um copo de cerveja. — Se o
pagamento for de dois mil drakmas, é irrecusável, não
interessa o valor. — Isso que me pertuba, o valor é alto, mas
e quanto mais alto o valor maior o perigo? E se tivermos que
lutar? — Logan insistiu. — Se tivermos que lutar, que assim
seja, companheiro covarde! — zombou Lagerta, já sentindo o
efeito do álcool.
Brudik foi até o balcão e sinalizou dois dedos para o barman.
Pegou dois copos, deixou um na mesa e ofereceu o outro a
Gallaw, que estava sentado perto de Flytch. O nobre fez um
sinal para que o guarda aceitasse.
— Posso experimentar um gole? — pediu Maria para Logan.
— Nem pensar, você é só uma criança! Tome um suco de uva
— respondeu Logan, chamando o barman. — Deixe que ela
beba, pare de ser chato! — interveio Lagerta. — Escuta,
Maria: não deixe nenhum homem te dizer o que fazer! —
Quanto você já bebeu, Lagerta? — Logan perguntou,
preocupado com as canecas vazias acumuladas. — O
suficiente pra te aturar, hahaha!
Gallaw aproximou-se da mesa com dificuldade, mancando. —
Com licença, pessoal. Sou Gallaw Spartan, muito prazer. —
Tudo bem com sua perna, Senhor Gallaw? — Logan ofereceu
uma cadeira. — Sim, é apenas uma ferida de guerra no
joelho. — Entendi. Bom, eu sou Logan, este é Brudik e esta
é... — NINGUÉM CANTA NESSA BOSTA DE TAVERNA?! —
gritou Lagerta, esmurrando a mesa. — Quero música!
— Esta é Lagerta — terminou Logan. De perto, Gallaw
aparentava ter uns cinquenta anos de idade. Seus músculos
estufavam as roupas maltrapilhas e ele usava uma gravata
borboleta verde curiosamente elegante. Seus olhos eram de
um azul turvo. Maria correu para o seu colo. — Tio Gallaw,
posso beber só um gole? — Nem pensar, Maria. Beba seu
suco e coma o cordeiro — ordenou Gallaw, com carinho.
— O que Maria é sua? — perguntou Logan. — Somos
estrangeiros. Viemos do Mar do Oeste, do reino falido de
Spartan — Gallaw disse, com um olhar melancólico. — Maria
e eu não somos família de sangue, mas temos a mesma etnia.
Fomos os únicos sobreviventes de um golpe de nossos
aliados. Eu jurei ao seus pais que cuidaria dela, então eu
cuido dela desde quando era um bebe. Ela se tornou órfã de
pais e eu órfão de minha própria vida.
Logan sentiu o peso da perda do homem. Lagerta, ao ouvir a
história, olhou para a menina com uma compaixão rara,
lembrando-se de quando ela própria se sentira órfã, mesmo
com a mãe viva.
Subitamente, um coro de vozes rudes começou a cantarolar:
“Yo ho! Yo ho! Eu era um pobre coitado, sem ouro! Vivia de
restos e não tinha ninguém...” Os homens riam, apertando os
seios de suas mulheres pagas. A canção tornou-se vulgar: “A
primeira esposa era um monumento! Tinha dotes que
paravam o vento! Um busto fartura... mas cadê a retaguarda?
Era lisa e murchão!”
Enquanto ouvia a balada Brudik cuspiu a cerveja no chão,
fazendo uma careta para o gosto horrível. Os bêbados
continuaram: “A segunda era o oposto, que curvas, meu
Deus! Uma garupa de égua... mas quando eu olhava pro
peito? Parecia uma tábua!”
BAM! — CHEGAAAA! — gritou Lagerta, socando a mesa. —
Estou farta dessa canção ridícula! Cantem outra!
O bar paralisou. Logan olhou para Lagerta e viu que ela
estava corada de vergonha. Ele lembrou que, por trás da
armadura, ela ainda era uma princesa, uma moça que se
sentia ultrajada por aquelas palavras. Em um impulso, Logan
levantou-se com sua caneca e começou a cantar com uma
melodia vibrante:
— “Saí cedo de casa, com o sol a brilhar! Tudo o que eu
queria era minha amada encontrar! Levava um buquê,
colhidas no jardim... Mas um vento caprichoso tirou elas de
mim!”
Os olhares na mesa eram de espanto. Mas Maria, com um
sorriso gigante, acompanhou-o: — “Ipe hey, ipe how! O
destino me enganou! Ipe hey, ipe how! A sorte me deixou!”
Logo, a taverna inteira foi contagiada. Braços se
entrelaçaram e canecas foram erguidas. Até Brudik, após um
suspiro, bebeu a cerveja ruim e começou a balançar no ritmo.
Lagerta olhou para Logan; ele retribuiu o olhar com um
sorriso reconfortante. Ela sorriu de volta, um agradecimento
mudo.
Enquanto a festa rugia, ninguém percebeu a pequena Maria,
escondida debaixo da mesa, virando uma caneca de cerveja
escondida com um brilho travesso nos olhos.
Com uma pressão incômoda nas têmporas e uma leve dor de
cabeça, Logan despertou. O sol já estava alto, e a luz que
entrava no quarto indicava que, como de costume, ele havia
perdido a batalha contra o relógio.
— Pelos deuses... mas que hábito horrível eu tenho —
resmungou para as paredes vazias.
Ele se levantou depressa da cama — depressa até demais.
Por um instante, o quarto inteiro girou em um carrossel de
mofo e tontura. O enjoo apareceu para lhe dar boas-vindas, e
Logan levou a mão à boca, lutando para evitar o estrago.
Sentou-se novamente, apertando a cabeça entre as mãos,
esperando o mundo parar de balançar.
— Ontem foi uma noite e tanto... que quarto é esse? —
perguntou-se, confuso.
O aposento era apertado, com o cheiro característico de
madeira úmida e poeira acumulada. Havia outras três camas,
todas já arrumadas com precisão militar. O lençol sob ele era
feito de uma pelagem animal desgastada e áspera. Ao olhar
para o chão, Logan viu finos feixes de luz atravessando as
frestas das tábuas mal ajustadas. A memória da taverna e do
nobre Flytch voltou como um soco.
— Droga!
O estalo percorreu sua mente. Ele saltou da cama, vestiu uma
camisa comum e uma calça de viagem, e saiu tropeçando
enquanto enfiava as botas nos pés, correndo escada abaixo.
No salão do bar, um guarda já o aguardava com uma bandeja
de prata. O aroma de pão seco e o brilho do vinho
preenchiam o ar matinal.
— Bom dia, Senhor Logan. Após o café da manhã, peço que
me acompanhe até o final da vila. O mestre Flyth tem um
campo de treinamento lá; ele explicará o serviço a ser feito.
Logan apenas acenou, ainda recuperando o fôlego. Pegou o
pão, virou o cálice de vinho de uma vez e seguiu o homem
pela porta dos fundos.
Após uma curta caminhada pela periferia árida de Morella,
onde conversaram brevemente sobre os costumes locais,
Logan e o guarda chegaram ao campo de treino. O local
ficava a cem metros da vila, em uma clareira próxima à
entrada escancarada de uma das masmorras.
O som do metal colidindo — um tilintar rítmico e seco —
preenchia o ambiente, acompanhado pelos gritos de esforço
dos homens. O campo era um círculo de areia batida, cercado
por estacas de troncos grossos. Bonecos de madeira,
mutilados por anos de golpes, estavam espalhados pelo
centro. Diversas armas descansavam em suportes ou estavam
fincadas no solo e nos alvos de treino.
— Olá, Logan! Bom dia! Junte-se a nós, sim? — chamou Flyth.
O nobre estava instalado em uma tenda luxuosa montada de
frente para o campo, sentado em sua poltrona vermelha ao
lado de Gallaw.
— Oi... bom dia. Desculpe o atraso — disse Logan, limpando o
suor da testa. — Não muda mesmo, né, herói sonolento? —
balbuciou Lagerta.
Ela estava escorada na paliçada de troncos, observando os
soldados com um olhar crítico.
— Ué, vocês já estão aqui? — Já estamos aqui faz um bom
tempo te esperando — respondeu a bárbara, cruzando os
braços, a impaciência evidente em sua postura. — Peço
desculpas pelo atraso. E onde está o Brudik? — Está ali do
outro lado do campo conversando com o ferreiro... ou melhor,
grunhindo, já que o anão não fala — disse Lagerta, apontando
com o polegar para a forja improvisada.
— Bom, Logan e companhia, reúnam-se aqui em minha tenda,
por favor — chamou Flyth.
Lagerta levou os dedos aos lábios e soltou um assobio agudo.
Brudik, atento, largou o que estava fazendo e caminhou até
eles.
O Valor de uma Vida
— Primeiro, deixa eu perguntar: quem de vocês aí é o líder?
— indagou o nobre, correndo os olhos pelo trio.
Brudik apontou imediatamente para Logan. Lagerta apenas
desviou o olhar, fingindo que a pergunta não era com ela.
— Ok, vamos ao trabalho, então. Serei breve. O serviço é o
seguinte: preciso que vocês entrem na Masmorra Dois — que
inclusive é essa aqui ao lado do campo —, cheguem no nível
sete e resgatem uma Relíquia Celestial para mim. — Relíquia
Celestial? — perguntou Logan. — Isso mesmo. É um objeto
com gravuras mágicas forjado pelos deuses. Esse objeto
adquire uma habilidade única e exclusiva, um poder que não
pode ser replicado com magia nenhuma. Isso a torna muito,
mas muito rara... e valiosa. Enfim, quero que vocês peguem e
me entreguem esse objeto.
— Parece perigoso — murmurou Logan, o medo começando a
esfriar seu estômago. — Sim, é muito perigoso. Por isso eu
vou mandar dois homens, mais o Gallaw, com vocês para
garantir o êxito do serviço.
Logan ponderou em silêncio. Aquele senhor, Gallaw,
aparenta ser forte. Teremos dois soldados. Brudik parece
pequeno, mas cortou a barriga do Reptidiss com maestria. E
temos a Lagerta, que é um monstro ambulante. Mas... e os
perigos lá dentro? E se for algo pior que os Reptidiss?
Ele olhou para o rei dos escravos com uma nova resolução. —
Meu senhor, quero pedir que reconsidere o valor e aumente
para três mil drakmas.
— TRÊS MIL?! — gritou Flyth, saltando da poltrona. Os
companheiros de Logan arregalaram os olhos, sem entender
a ousadia do líder. — Escute, garoto, qual parte do “perdi
muitos homens nessa masmorra” você não entendeu? Não!
Nem pensar. Dois mil drakmas.
— Senhor Flyth — Logan manteve a voz firme. — Pelo que eu
percebi, não será uma missão fácil; seus homens mortos me
garantem isso. Minha vida é valiosa para mim, não só a
minha, mas a dos meus companheiros também. Escute, meu
senhor: pela equipe que o senhor reuniu, as chances de
trazermos sua relíquia são altas. Nossos serviços são de
qualidade, pois temos uma brava guerreira que dispensa
elogios — você mesmo ouviu seus feitos ontem —, um
guerreiro que lutou na guerra e eu, um exímio combatente.
As chances aumentam, assim como os riscos. Assim como o
valor.
O nobre coçou a barba, pensativo. Ele se levantou e começou
a caminhar de um lado para o outro; o roupão de seda
ondulava suavemente. Ele parou, encarou Logan e soltou um
sorriso sem vergonha, como se reconhecesse o jogo que
estava sendo jogado.
— Você... você, rapaz, é bem espertinho. E eu não gosto de
gente mais esperta que eu, porque quando isso acontece, eu
perco dinheiro. Ok. DOIS MIL E SETECENTOS drakmas.
Nada mais! E eu juro pelos deuses: se você recusar, eu trago
aquele filho da puta daquele xerife e prendo todos vocês.
Então, temos um acordo? — Ele estendeu a mão. — Sim,
temos um acordo — respondeu Logan, selando o pacto com
um aperto de mão.
O Teste de Spartan
— Certo! — Flyth bateu palmas, o som ecoando pelo campo.
— Agora vamos ao desafio de vocês.
Logan sentiu a ansiedade subir. Lagerta e Brudik
aproximaram-se, atentos. — Vocês terão que lutar contra... o
Senhor Gallaw.
O silêncio caiu sobre o círculo de areia. Uma luta?, pensou
Lagerta, os olhos brilhando de animação. Brudik sorriu;
desde o primeiro encontro, ele desejava testar o veterano.
Logan, por outro lado, sentiu o sangue fugir do rosto. Droga,
eu estou ferrado. Uma luta? Olha o tamanho daquele cara...
ele vai me esmagar como uma barata nojenta.
Após o anúncio, os três foram se preparar. Trocaram suas
vestimentas de viagem por roupas de treino leves e deixaram
suas armas de lado. — Bom, ficaram bem com as roupas
novas — elogiou Flyth. — Só achei meio apertada essa calça
de couro — reclamou Lagerta, ajustando a peça na cintura.
— Será bem simples — explicou o nobre. — Eu tenho que ver
do que são capazes. Então, vocês lutarão com o Senhor
Gallaw. Ganha quem derrubar seu adversário com as costas
no chão.
Logan começou a queimar seus neurônios. Tenho que pensar.
Vamos analisar. Ponto um: força física, eu perco. Velocidade?
Não sei se ele é rápido, mas se for igual à Lagerta, eu perco.
Já sei! O joelho. Posso acertar o joelho dele, desequilibrá-lo e
derrubá-lo no chão.
Lagerta, ao lado, encarava o inimigo, analisando Gallaw de
cima a baixo. Em sua imaginação fértil, ela já criava diversos
cenários, uma luta mental intensa, embora fosse difícil prever
os movimentos de alguém que nunca vira lutar. Brudik
apenas se aquecia em um canto, tratando o momento como
um exercício de rotina.
— Certo, vamos começar. Logan, como é o líder, fará as
honras de iniciar. — E... eu? Por que eu? — Logan perguntou
em um sussurro, a voz trêmula.
Enquanto se dirigia ao centro do campo, ele foi parado pelos
companheiros. — Logan, me escuta: você não tem muitas
chances! — Lagerta jogou o balde de água fria. — Sério,
Lagerta? Obrigado pelo incentivo! — ironizou ele. — Não, me
escute. Você não tem muitas chances, mas ainda tem uma
chance. Foque em sua defesa. Ele é alto, então desfira
ataques na linha da cintura e, quando surgir a oportunidade,
derrube-o! — disse ela, com um misto de entusiasmo e um
estranho sentimento de proteção. — Ok, obrigado.
Isso ajuda em quê? Pelos deuses, ela acha que sou um
guerreiro experiente?, Logan pensou em desespero. Brudik,
notando o estado do colega, aproximou-se e deu alguns
tapinhas encorajadores em suas costas. O anão ajoelhou-se
na areia e escreveu rapidamente uma mensagem. Logan leu,
sorriu levemente e seguiu para o combate.
Logan posicionou-se diante de Gallaw. Seis metros de areia
os separavam. A mente do herói era um turbilhão. Atacar o
corpo. Atacar o joelho. Derrubar. Por favor, corpo, não trave.
— Ok, ok, vamos começar! — gritou Flyth.
Os soldados que treinavam ao redor pararam para assistir. O
silêncio era absoluto. — De um lado, Senhor Logan Lafard II,
o herói destemido! Do outro, Senhor Gallaw de Spartan,
grande guerreiro de guerra! Ganha quem derrubar seu
inimigo primeiro. Irei abrir a contagem. Três...
Logan ergueu os punhos, os pés afundando levemente na
areia para ganhar tração. — Dois... Gallaw flexionou os
joelhos, os olhos azuis turvos fixos no rapaz. — Um... Os olhos
de ambos se conectaram. Ninguém piscou. — LUTEM!
— Aaaaa! — Logan gritou, avançando com tudo o que tinha.
Mas, em um piscar de olhos — literalmente o tempo de um
espasmo das pálpebras —, a realidade mudou. Ao abrir os
olhos, Logan enxergou a enorme palma da mão de Gallaw a
milímetros de sua face.
Zum!
Mas o quê? Como isso é possível? Que velocidade incrível!,
foi o último pensamento coerente de Logan.
Gallaw agarrou a cabeça de Logan com a mão direita em um
movimento fluido e contínuo, pressionando-o contra o solo
com uma força técnica e avassaladora.
BOOM!
As costas de Logan atingiram o chão com um impacto seco,
levantando uma cortina de poeira e pequenos detritos.
Quando a fumaça baixou, a cena foi revelada: Logan estava
estirado, de costas para a areia, completamente desmaiado.
Gallaw permanecia em pé, imóvel, olhando para o corpo do
herói com uma expressão neutra.
— Você viu isso? Foi impressionante! — exclamou um dos
soldados. — Ele saiu de sua posição em um piscar de olhos!
Foi rápido demais! — Ele parecia um vulto... incrível! — os
homens gritavam em êxtase. — É sempre legal ver o Senhor
Gallaw lutar!
Em contraste com a euforia dos soldados, Lagerta mantinha o
rosto fechado em uma expressão de pura fúria e
concentração. — Ele é forte — disse ela para Brudik, sem
desviar os olhos de Gallaw. — Hum — confirmou o anão,
sorrindo de orelha a orelha, genuinamente animado com o
nível do desafio.
O sonho era recorrente, uma ferida aberta que o
subconsciente de Logan insistia em cutucar. Na escuridão da
memória, a voz de seu irmão mais velho ecoava com a dureza
do aço frio.
— Por que você vai embora? Vai abandonar sua família por
causa de ouro? — perguntava o jovem Logan, a voz
embargada. — Não é por causa de ouro, Logan. É mais do
que isso — o irmão respondeu, sem olhar para trás. Ele
apontou para a janela, onde as luzes distantes de Fable Town
brilhavam como joias inalcançáveis. — Não quero viver nesta
aldeia pobre, alimentando-me de restos enquanto eles se
embebedam e comem às nossas custas. Eu não sei o que o
futuro reserva, mas garanto que o meu não é aqui.
O irmão atravessou a porta e sumiu na escuridão, deixando
apenas o vazio.
— Senhor Logan... Herói?
A voz distante trouxe Logan de volta à realidade dolorosa. Ele
sentia a cabeça latejar ritmicamente e as costas pareciam ter
sido golpeadas por um martelo de ferreiro. Ele estava
estirado no chão, encostado na parede de madeira que
cercava o campo.
— Minha cabeça está doendo... e minhas costas também —
resmungou, percebendo que o sonho era apenas um reflexo
de sua própria busca por um destino diferente. — Tudo bem,
Senhor Logan? — Um dos soldados de Flyth, um rapaz
chamado Dior, colocou a mão em seu ombro. — Minha cabeça
dói, mas minhas costas estão me matando.
Apoiando-se nos troncos ásperos da paliçada, Logan
levantou-se com dificuldade. Dior o ajudou, mantendo um
sorriso de canto de rosto que misturava respeito e diversão.
— Foi uma surra e tanto, senhor. Eu quase não vi o momento
em que Gallaw te alcançou. Ele é impressionante. Mas, antes
da batalha iniciar, dava para notar o seu pavor. Quando ele
chegou perto, você caiu no chão como um pedaço de... bom,
você entendeu. — Tá bem, Dior, já chega. Eu já entendi —
interrompeu Logan, sentindo o peso da humilhação. — Certo,
é a vez de quem agora? — Uma luta já foi. Só falta o anão
agora. O mestre resolveu dar um intervalo para respirarmos.
— O QUÊ?! — Logan arregalou os olhos. — Lagerta já
batalhou? — Sim, foi uma luta incrível! Posso lhe contar como
foi? — Me conte, por favor — pediu o herói, sentindo que
perdera o evento principal.
Enquanto Logan era carregado inconsciente para fora da
arena, o clima no campo de treinamento mudara
drasticamente. Flyth, o mestre do espetáculo, subira em um
caixote para gritar para a multidão que se aglomerava:
— A próxima será Lagerta, a Guerreira Furiosa! Cai entre
nós, estou curioso para ver o que irá acontecer!
Os soldados gritavam eufóricos, erguendo canecas de
cerveja. O treino havia se transformado em um coliseu
improvisado. Até alguns cidadãos da vila pararam para
assistir, e, oculto como uma cobra na selva, o Xerife Drakinn
observava tudo com olhos de falcão, analisando cada
movimento.
Lagerta deixou seu machado encostado no muro. Antes de
entrar no círculo de areia, ela olhou para o chão e viu o que
Brudik escrevera para Logan: “FORÇA”. Ela fechou os olhos
por um segundo e sorriu.
— ENTÃO VAMOS LÁ! — berrou Flyth. — De um lado, ele
que dispensa apresentações: a Muralha Cinzenta, GALLAW
DE SPARTAN!
A multidão rugia o nome do veterano. Gallaw permanecia
imóvel, o semblante como se fosse esculpido em pedra.
— Do outro lado, ela que parte as mãos de um homem como
quem corta um legume: LAGERTA, A GUERREIRA
FLAMEJANTE!
A plateia foi ao delírio. Flyth começou a contagem, mas para
os dois no centro da arena, o mundo havia emudecido.
Lagerta sentia apenas as batidas do seu coração, um tambor
rítmico que subia conforme a adrenalina inundava seu
sistema. Um calafrio de antecipação percorreu sua espinha.
Ele é forte, pensou ela, o sorriso sarcástico revelando suas
presas.
Do outro lado, Gallaw vivia a mesma intensidade. Sua
respiração era controlada, mas seus sentidos estavam no
ápice. Ele sentia a brisa, o cheiro da poeira e o suor pingando
no chão. Ele escaneou a postura de Lagerta e declarou para
si mesmo: Tenho que ter cuidado. Essa mulher é perigosa.
— LUTEM!
O impacto inicial foi como o trovão. Os dois avançaram
simultaneamente, deixando rastros de poeira para trás.
Quando se chocaram no centro, o som da colisão fez os
bonecos de madeira vibrarem e as espadas fincadas neles
tilintarem. Uma neblina marrom de areia subiu, cegando os
espectadores.
Quando a poeira baixou, a cena era brutal: Lagerta e Gallaw
estavam com os dedos entrelaçados em uma disputa de força
bruta. Era como dois búfalos selvagens medindo poder. Veias
saltavam em seus pescoços e os músculos se contraíam ao
limite.
— Façam suas apostas! Três para um para a Guerreira
Flamejante! — gritava um apostador entre a multidão.
Gallaw percebeu, de perto, que Lagerta era ligeiramente
maior que ele. Notou também as cicatrizes de batalhas
passadas em sua pele alva. — Argh! — Gallaw deixou escapar
um gemido.
Ele encarou os olhos âmbar da guerreira e se assustou. Ela
sorria. Lagerta já havia percebido: estava ganhando a disputa
de força. Ela começou a pressionar o veterano para baixo. Os
joelhos de Gallaw dobraram e o chão sob seus pés começou a
ceder, criando rachaduras na terra batida.
Ela é bem mais forte do que eu imaginava , pensou o homem,
acuado. Em um ato de desespero técnico, Gallaw desferiu
uma cabeçada violenta contra a testa de Lagerta. Bam!
O impacto teria nocauteado um homem comum, mas Lagerta
apenas fixou o olhar nele. Sangue escorreu de sua testa até a
boca. Ela lambeu o líquido escarlate e sibilou: — Está
desesperado a esse ponto, velhote?
Ela forçou ainda mais, esmagando as mãos de Gallaw. —
Realmente... sua alcunha não é infundada — arquejou Gallaw.
— Mas não subestime um velho guerreiro. Meus cabelos
brancos carregam experiência!
Em um movimento fluido, Gallaw soltou a mão direita, passou
seu braço por baixo do braço esquerdo de Lagerta e travou o
ombro dela. Antes que a bárbara pudesse reagir à mudança
de peso, ele encaixou o quadril e girou o corpo em sentido
anti-horário.
Zup!
Os pés de Lagerta se desprenderam do solo. Por um instante
eterno, ela viu o céu azul como os olhos de Maria e os
pássaros voando. O mundo parecia estar em câmera lenta até
o impacto final.
BOOM!
O corpo da guerreira desabou no chão com um som que
pareceu estremecer todo o campo de treinamento. O silêncio
reinou por um segundo antes de a multidão explodir em
gritos.
— Ele derrubou um gigante! Olha o tamanho da cratera! —
gritava um soldado.
Ofegante, suado e com os braços tremendo, Gallaw apoiou
um joelho no chão, exausto. Essa mulher é um monstro. Se
orgulhe, guerreira... você é uma força da natureza.
— AAAAARG!
Lagerta esmurrou o chão furiosa, ainda deitada de costas. O
acesso de raiva fez todos recuarem. No entanto, em
segundos, a "princesa" retomou o controle. Ela se levantou
devagar, caminhou até Gallaw, agradeceu com uma
reverência impecável e saiu marchando em direção à saída,
os olhos fixos no horizonte. Brudik tentou impedi-la, mas viu
a frustração no rosto da amiga e apenas a deixou ir.
— Entendi... então foi isso que aconteceu — disse Logan,
após ouvir o relato detalhado de Dior. — Tenho que falar com
ela. Quando será a luta do Brudik? — O mestre disse que o
intervalo irá durar duas horas. Gallaw ficou exausto. — Certo.
Eu já volto. Sabe para onde ela foi? — Os guardas disseram
que ela desceu o morro indo para o pequeno rio "Boca de
Sapo".
Logan acenou em agradecimento e começou a caminhar,
ignorando a dor nas costas. Ele sabia que, para Lagerta,
perder uma disputa de força era mais doloroso do que
qualquer queda.
Lagerta estava sentada sobre uma pedra alongada e fria,
onde o veludo do musgo úmido parecia absorver parte de sua
melancolia. Acima dela, os ramos de um velho salgueiro
pendiam como cortinas de pranto, roçando a superfície de um
pequeno rio que corria apressado. Ela observava a correnteza
com olhos turvos. Não era apenas raiva; era um amálgama
corrosivo de humilhação — por ter sido superada
tecnicamente por um homem — e uma tristeza exausta, o
peso de carregar uma armadura de força inabalável que
começava a rachar.
O silêncio do bosque foi sutilmente quebrado. Com passos
cautelosos, um Cervill emergiu da folhagem para beber água.
Lagerta permaneceu estática. Sua experiência como
caçadora permitia que ela mimetizasse o ambiente, ocultando
sua presença de forma quase mágica. Acima dela, o bater de
asas anunciou a chegada de pequenos visitantes.
— Estrelinha do dia... — sussurrou ela, com a voz rouca, ao
notar um pequeno pássaro de canto cristalino.
Logo acima, outra melodia surgiu: um som grave e vibrante
que subia até um agudo agudo ao final. — Tamborinho alegre
— disse Lagerta, permitindo um breve sorriso que logo
murchou.
As lembranças de seus tempos de escola, quando estudava
aves em Vikernes, pingaram em sua mente como gotas de
gelo. A pergunta que a assombrava finalmente escapou em
um lamento: — Por que estou aqui lutando sem descanso?
Estou exausta de trilhar um destino que não pedi. Eu não
entendo por que os Deuses de Vikernes permitiram a morte
do meu pai e teceram essa história na minha vida. Eu não
quero mais me vingar... mas preciso salvar minha mãe.
As lágrimas saltaram de seus olhos, correndo pelo rosto
marcado como o rio à sua frente. — Eu não quero mais! Mãe,
me perdoa... mas eu não quero mais lutar!
A dez passos dali, Logan observava em silêncio absoluto. Ele
estava lá há dez minutos, ouvindo o lamento daquela mulher
que o mundo via como um monstro, mas que ele agora via
como uma alma ferida. Para não invadir seu espaço de forma
desonesta, ele recuou propositalmente e pisou em um galho
seco.
CRACK!
Lagerta religou seus sentidos instantaneamente. Ao girar,
Logan viu seus olhos vermelhos e o rosto inchado, mas ela foi
rápida em esconder a vulnerabilidade, esfregando o rosto no
braço.
— O que você quer? — disparou ela, na defensiva.
— Vim ver como você está. Me disseram que sua luta foi
incrível. Todos ficaram impressionados com sua velocidade e
força — mentiu Logan com gentileza, poupando-a do peso da
derrota pública.
— Eu estou bem. Só quero ficar sozinha. — Lagerta, olha... —
Logan! Por favor, eu te peço... me deixe sozinha!
Logan silenciou-se. Ele entendeu que algumas batalhas
internas não permitem aliados. Ele se virou para a estrada de
terra que levava ao campo de treino, mas parou após alguns
passos.
— Lagerta, serei breve... me escute. Eu não imagino pelo que
você teve que passar para chegar até aqui, mas quero que
saiba que eu vejo você. Eu reconheço o seu valor e te peço:
nunca mais duvide de sua força .
Quando Logan olhou para trás, viu o brilho nos olhos dela —
um encantamento silencioso. Na mente de ambos, houve um
abraço; na realidade, Lagerta apenas desviou o rosto e Logan
seguiu seu caminho. O "Tamborinho Alegre" pousou na
cabeça da guerreira, enquanto o "Estrelinha do Dia" buscou o
seu dedo. Um vento súbito trouxe o cheiro de neve e
pinheiros de sua terra natal, trazendo, por um instante, paz
ao seu coração abalado.
No campo de treinamento de Morella, o ar estava espesso
com o cheiro de suor, poeira e cerveja barata . O intervalo
terminara, e Flyth assumira o centro do "palco" para
anunciar o evento final: Brudik contra Gallaw, a Batalha dos
Veteranos.
O que deveria ser um teste técnico transformara-se em uma
rinha de apostas frenética. Soldados, homens e mulheres da
vila gritavam e se acotovelavam. Entre as pernas da
multidão, Maria movia-se como um rato nos esgotos —
silenciosa, letal e delicada.
— Opaa! Desculpa, meu senhor — Maria disse, esbarrando
propositalmente em um mercenário. — Cuidado, criança
idiota! — rosnou o homem.
Maria se desculpou com uma reverência humilde enquanto
seus dedos ágeis já faziam deslizar uma adaga de prata e
ouro do cinto do homem. Ela entregou o objeto para um
menino menor atrás dela, que o passou para outro,
circulando entre cinco crianças até chegar às mãos de um
soldado escondido atrás da tenda de Flyth.
Dior, o soldado, aproximou-se do ouvido de seu mestre: —
Mestre, as crianças já coletaram os pertences e as apostas
estão feitas. — Perfeito — sorriu Flyth. — Diga ao apostador
que a próxima luta será um empate.
Maria continuava seu trabalho, cantarolando baixo sobre a
boneca nova que Flyth lhe prometera se ela fosse uma "boa
gatuna". Porém, uma mão forte como ferro fechou-se em seu
pulso.
— Ai, meu braço! Me solta! — ela gritou, antes de notar quem
era. — Opa... oi, Xerife.
Dario Drakinn a encarava com um olhar julgador. Com um
movimento seco, ele recuperou os pertences roubados e
ajoelhou-se para ficar à altura dela .
— Maria, quantas vezes já te falei para não furtar as pessoas?
— Vixi, até perdi a conta... mas meu mestre prometeu uma
boneca nova! — Maria, isso é errado. Se você queria algo, era
só me pedir. — Tá bem, vou devolver... mas alguém vai me
dar a boneca! — Tenha paciência, pequena. Logo teremos
dinheiro para você ser livre e viver comigo e com a Georgina
— disse o Xerife, passando a mão na cabeça dela com uma
ternura que não mostrava a ninguém mais.
Dario retirou um pano que envolvia algo doce. — É um bolo
que a Georgina fez para você. — Eba! Bolo! — Maria o
abraçou com força e sumiu na multidão.
Dario sorriu por um breve momento, sentindo o calor daquele
gesto, mas a sombra de sua responsabilidade logo voltou. Ele
se virou para o campo. A poeira subia. A batalha dos velhos
guerreiros estava prestes a começar