RECURSO EM HABEAS CORPUS Nº 69.
418 - RJ (2016/0086659-1)
RELATOR : MINISTRO NEFI CORDEIRO
RECORRENTE : VICENTE DE PAULA ALMEIDA
ADVOGADO : ANA LUIZA DE ALMEIDA
RECORRIDO : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
EMENTA
PENAL E PROCESSUAL PENAL. RECURSO EM HABEAS CORPUS.
TRANCAMENTO DO INQUÉRITO PENAL. DILAÇÃO PROBATÓRIA.
IMPOSSIBILIDADE. MEDIDA PROTETIVA. FUNDAMENTAÇÃO INIDÔNEA.
CONSTRANGIMENTO ILEGAL EVIDENCIADO. RECURSO EM HABEAS
CORPUS PARCIALMENTE CONHECIDO, E, NESTA PARTE, PROVIDO.
1. O trancamento de inquérito policial, em sede de habeas corpus, somente deve ser
acolhido se restar, de forma indubitável, comprovada a ocorrência de circunstância
extintiva da punibilidade, de ausência de indícios de autoria ou de prova da materialidade
do delito e ainda da atipicidade da conduta, em caso contrário, havendo necessidade de
dilação probatória, este ponto do writ não deve ser conhecido.
2. A medida protetiva de urgência é ilegal, quando constatada a falta de indicação de
elementos concretos justificadores para a sua decretação, não se verificando
fundamentação idônea.
3. Recurso em habeas corpus parcialmente conhecido, e, nesta parte, provido, para
para anular a decretação da medida protetiva fixada em desfavor do paciente, sem
prejuízo de que outras sejam estabelecidas mediante a efetiva demonstração da sua
necessidade, por decisão fundamentada.
ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos os autos em que são partes as acima indicadas,
acordam os Ministros da Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça, na conformidade dos
votos e das notas taquigráficas a seguir, por unanimidade, conhecer parcialmente do recurso e,
nesta parte, dar-lhe provimento, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Os Srs. Ministros
Antonio Saldanha Palheiro, Sebastião Reis Júnior e Rogerio Schietti Cruz votaram com o Sr.
Ministro Relator.
Ausente, justificadamente, a Sra. Ministra Maria Thereza de Assis Moura.
Brasília (DF), 19 de maio de 2016 (Data do Julgamento)
MINISTRO NEFI CORDEIRO
Relator
Documento: 1514218 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 01/06/2016 Página 1 de 4
RECURSO EM HABEAS CORPUS Nº 69.418 - RJ (2016/0086659-1)
RELATOR : MINISTRO NEFI CORDEIRO
RECORRENTE : VICENTE DE PAULA ALMEIDA
ADVOGADO : ANA LUIZA DE ALMEIDA
RECORRIDO : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
RELATÓRIO
O EXMO. SR. MINISTRO NEFI CORDEIRO (Relator):
Trata-se de recurso em habeas corpus no qual se busca o trancamento do inquérito
penal e a revogação das medidas protetivas fixadas.
O acórdão recorrido, assim dispôs (fls. 37/41):
HABEAS CORPUS. VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR
CONTRA A MULHER - 1º) COMO NÃO PODERIA DEIXAR DE SER, AS
MEDIDAS PROTETIVAS FORAM IMPOSTAS POR AUTORIDADE
JUDICIÁRIA, E NÃO PELO DELEGADO DE POLÍCIA. PORTANTO, AS
CÂMARAS CRIMINAIS OSTENTAM COMPETÊNCIA PARA CONHECER
DESTA CAUSA; 2°) O TRANCAMENTO DE INQUÉRITO POLICIAL
CONSTITUI MEDIDA EXTREMA, POIS IMPOSSIBILITA A INVESTIGAÇÃO
DE FATOS DELITUOSOS, LOGO, SOMENTE PODE SER ADOTADA EM
SITUAÇÕES DE MANIFESTA EXCEPCIONALIDADE, COMO, POR
EXEMPLO, ATIPICIDADE DE CONDUTA, CAUSA EXTINTIVA DE
PUNIBILIDADE, AUSÊNCIA DE MÍNIMOS INDÍCIOS DE AUTORIA OU DE
MATERIALIDADE, ATRIBUTOS NÃO IDENTIFICADOS, NEM DE LONGE,
NO CASO CONCRETO; 3°) OS ESTREITOS LIMITES COGNITIVOS DA
PRESENTE DEMANDA CONSTITUCIONAL NÃO COMPORTAM EXAME DE
MÉRITO (RELACIONADO COM A PRÁTICA DOS QUESTIONADOS CRIMES
- ARTIGO 140, 147 E 129, § 9°, DO CP) -, O QUE OCORRERÁ NO
JULGAMENTO DA LIDE; 4o ) PORQUE RESPALDADA EM IDÔNEA E
CONCRETA FUNDAMENTAÇÃO, AGASALHADA NO ARTIGO 22, INCISO
III, ALÍNEAS "A" E "B", DA LEI 11.340/06, REVELAM-SE INCENSURÁVEIS
AS MEDIDAS PROTETIVAS APLICADAS NA PRIMEIRA INSTÂNCIA.
CONSTRANGIMENTO ILEGAL NÃO CONFIGURADO. ORDEM DENEGADA.
Consta dos autos que o paciente foi indiciado pela prática dos crimes do art. 129,
§9º, art. 140 e art. 147 do Código Penal na forma da Lei n. 11.340/2006, bem como fora
determinada medida protetiva que prescreve a proibição de aproximar-se da vítima a uma
distância inferior a 500 metros.
O parecer do Ministério Público Federal foi no sentido do desprovimento do recurso
(fls. 131/136).
Na origem, processo n. 00714779320158190021/RJ, conforme informações
adquiridas por meio de contato com a vara de origem em 25/4/20116, não houve o envio de
Documento: 1514218 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 01/06/2016 Página 2 de 4
inquérito policial ou distribuição de ação penal pelo juízo competente.
É o relatório.
Documento: 1514218 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 01/06/2016 Página 3 de 4
RECURSO EM HABEAS CORPUS Nº 69.418 - RJ (2016/0086659-1)
VOTO
O EXMO. SR. MINISTRO NEFI CORDEIRO (Relator):
Assevera o recorrente no presente recurso o trancamento do inquérito penal por
ausência de substrato fático viabilizador, bem como descompasso na fundamentação da
medida protetiva, justificando o seu afastamento por constrangimento ilegal a sua liberdade.
Inicialmente, destaco precedentes do Superior Tribunal de Justiça, nos quais se
entendeu que o trancamento de inquérito policial, em sede de habeas corpus, somente deve
ser acolhido se restar, de forma indubitável, comprovada a ocorrência de circunstância
extintiva da punibilidade, de ausência de indícios de autoria ou de prova da materialidade do
delito e ainda da atipicidade da conduta, pois não cabe dilação probatória no procedimento do
writ (STJ. HC 148.732/RN, 5.ª Turma, Rel. Min. JORGE MUSSI, DJe de 11/10/2010).
Assim se manifestou o Tribunal a quo, neste ponto da impetração (fls. 37/41):
[...]
2°) O trancamento de inquérito policial constitui medida extrema,
pois impossibilita a investigação de fatos delituosos, logo, somente pode ser
adotada em situações de manifesta excepcionalidade, como, por exemplo,
atipicidade de conduta, causa extintiva de punibilidade, ausência de mínimos
indícios de autoria ou de materialidade, atributos não identificados, nem de
longe, no caso concreto;
3°) Os estreitos limites cognitivos da presente demanda
constitucional não comportam exame de mérito (relacionado com a prática dos
questionados crimes - artigo 140, 147 e 129, § 9o , do Código Penal) -, o que
ocorrerá no julgamento da lide; [...]
Como se vê, não vislumbrou a instância a quo caso de trancamento da ação penal,
por não haver flagrante ilegalidade, destacando-se que, na via restrita do habeas corpus, não
se autoriza exame do contexto fático-probatório.
O parecer do Ministério Público Federal (fls. 131/136), destacou a ausência de prova
pré-constituída, a reversão do entendimento da Corte de origem demandaria dilação
probatória, atividade incompatível com o writ, restando configurada a hipótese de não
conhecimento do habeas corpus, quanto a essa parte da impetração.
Assim, não vislumbro hipótese de trancamento do inquérito policial, pois não
caracterizado de plano circunstância extintiva da punibilidade, de ausência de indícios de
autoria ou de prova da materialidade do delito ou atipicidade da conduta.
No que concerne às medidas protetivas, determinadas pelo Juizado de Violência
Doméstica, e referendas pelo Tribunal de origem, assim foram fundamentadas pelo juiz de piso
Documento: 1514218 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 01/06/2016 Página 4 de 4
(fl. 22):
Inicialmente deve-se consignar, em que pese respeitáveis opiniões
em contrário, que as medidas protetivas são um "minus" em relação às
cautelares, ainda que como regra, quando deferidas as medidas protetivas,
também estejam presentes os pressupostos das cautelares. Entretanto, para o
deferimento das medidas protetivas basta que se constate que a mulher está em
situação risco, seja ele físico ou psicológico, vale dizer, visam garantir á eficácia
dos direitos reconhecidos na Lei 11340/06.
Ainda que ausente o depoimento da vítima, vislumbra-se na
leitura da dinâmica do fato, situação de risco, que está em consonância com o
que ordinariamente e infelizmente ocorre no âmbito da violência doméstica,
ainda que evidentemente se esteja em sede de cognição sumaríssima.
Isto posto, defiro a seguinte medida protetiva: proibição de o
investigado aproximar-se da vítima a uma distância não inferior a 500 metros,
não podendo o investigado manter com a vítima qualquer espécie de contato,
por qualquer meio de comunicação (carta, telefone, e-mail, sms, redes sociais,
etc).
Com relação a restrição/suspensão de visitação de dependentes
menores indefiro, pois não há nos autos elementos que indiquem qualquer
violência ou ameaça de violência perpetrada contra os menores, bem como com
relação aos alimentos provisórios, uma vez que não há nos autos elementos
suficientes para aferir-se o binômio necessidade/possibilidade.
Intimem-se a vítima e o investigado, expedindo-se os mandados
necessários ao cumprimento da presente decisão, devendo o investigado ser
advertido pelo OJA de que o descumprimento das medidas protetivas importará
em crime de desobediência e na decretação de sua prisão preventiva.
Dê-se ciência ao MP desta decisão.
Requisite-se o termo de declaração da vítima, devendo a
autoridade policial esclarecer a razão pela qual o referido documento não
acompanhou o R O.
Após a juntada aos autos dos mandados devidamente cumpridos e
positivados, aguarde-se em Cartório pelo prazo de 06 (seis) meses , a vinda do
IPL.
Transcorrido o prazo determinado sem a vinda do IPL, remeta-se
ao Arquivo
Definitivo. (com destaques)
Como se vê, a medida imposta ao paciente carece de fundamentação idônea a
suplantar a restrição, pois deixou de destacar especificamente a sua necessidade com base em
dados concretos do caso. Nesse sentido:
RECURSO ORDINÁRIO EM HABEAS CORPUS. LEI MARIA DA
PENHA. DECRETAÇÃO DE MEDIDAS PROTETIVAS. ALEGADA AUSÊNCIA
DE FUNDAMENTAÇÃO E DE NECESSIDADE. INEXISTÊNCIA DE
Documento: 1514218 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 01/06/2016 Página 5 de 4
ELEMENTOS CONCRETOS QUE EVIDENCIEM AS AGRESSÕES QUE
TERIAM SIDO PRATICADAS CONTRA A VÍTIMA. MEDIDA QUE PERDURA
HÁ MAIS DE DOIS ANOS SEM QUE TENHA HAVIDO A CONCLUSÃO DO
INQUÉRITO POLICIAL. CONSTRANGIMENTO ILEGAL EVIDENCIADO.
PROVIMENTO DO RECURSO.
1. O habeas corpus não constitui meio idôneo para se pleitear a
revogação de medidas protetivas previstas do artigo 22 da Lei 11.340/2006 que
não implicam constrangimento ao direito de ir e vir do paciente, uma vez que
ausente qualquer violação ou ameaça à liberdade de locomoção. Precedente.
2. No caso dos autos, a magistrada de origem não fundamentou
adequada e suficientemente a necessidade de decretação das medidas
protetivas impostas ao recorrente, cingindo-se a reproduzir as alegações da
ofendida prestadas em sede policial, deixando, assim, de evidenciar quais
seriam os atos de violência contra ela praticados, bem como a urgência e a
imprescindibilidade da restrição ao direito de ir e vir do recorrente.
3. Ademais, em consulta à página eletrônica do Tribunal Estadual,
constatou-se que os autos estão paralisados desde 14.2.2012, aguardando a
remessa do inquérito policial, o que demonstra que o recorrente se encontra há
mais de 2 (dois) anos submetido às medidas protetivas sem que existam ao
menos indícios concretos de que teria agredido sua ex-companheira.
4. Recurso provido para cassar a decisão que impôs medidas
protetivas de urgência ao recorrente, sem prejuízo de que outras sejam
estabelecidas mediante a efetiva demonstração de sua necessidade.
Ante o exposto, voto por conhecer parcialmente o recurso em habeas corpus e,
nesta parte, dar provimento, para anular a decretação da medida protetiva fixada em desfavor
do paciente, sem prejuízo de que outras sejam estabelecidas mediante a efetiva demonstração
da sua necessidade, por decisão fundamentada.
Documento: 1514218 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 01/06/2016 Página 6 de 4
CERTIDÃO DE JULGAMENTO
SEXTA TURMA
Número Registro: 2016/0086659-1 PROCESSO ELETRÔNICO RHC 69.418 / RJ
MATÉRIA CRIMINAL
Números Origem: 00714779320158190021 00751843520158190000 751843520158190000
EM MESA JULGADO: 19/05/2016
Relator
Exmo. Sr. Ministro NEFI CORDEIRO
Presidente da Sessão
Exmo. Sr. Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ
Subprocurador-Geral da República
Exmo. Sr. Dr. MOACIR MENDES SOUSA
Secretário
Bel. ELISEU AUGUSTO NUNES DE SANTANA
AUTUAÇÃO
RECORRENTE : VICENTE DE PAULA ALMEIDA
ADVOGADO : ANA LUIZA DE ALMEIDA
RECORRIDO : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
ASSUNTO: DIREITO PENAL - Crimes contra a Honra - Injúria
CERTIDÃO
Certifico que a egrégia SEXTA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na sessão
realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:
A Sexta Turma, por unanimidade, conheceu parcialmente do recurso e, nesta parte,
deu-lhe provimento, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator.
Os Srs. Ministros Antonio Saldanha Palheiro, Sebastião Reis Júnior e Rogerio Schietti
Cruz votaram com o Sr. Ministro Relator.
Ausente, justificadamente, a Sra. Ministra Maria Thereza de Assis Moura.
Documento: 1514218 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 01/06/2016 Página 7 de 4