São quatro horas da tarde.
Reina completa calmaria; as águas da formosa lagoa do norte tranquilas, como estão,
parecem adormecer aos beijos tépidos do astro rei que vai em caminho de seu ocaso. Bandos diversos de garças
brancas cruzam o ar em todas as direções, perseguindo os cardumes de peixes pequenos dos quais vivem. A lagoa, de
ordinário incessantemente transitada por canoas, está deserta. Apenas uma dessas pequenas embarcações, tendo saído
do porto da Levada, navega pela costa do mangue. O remeiro que a impele sobre as águas, preferiu seguir aquele rumo,
como prático que é, por não soprar vento algum, com o auxílio do qual pudesse fazer-se ao largo e correr à vela.
Observa o céu majestosamente colorido e que oferece um desses lindíssimos painéis que só a Natureza é capaz de
apresentar aos olhos do mundo; canta alegremente um lundu popular, dando aqui e ali fortes impulsos de seus braços
vigorosos à casca de noz em que viaja; e brinca 28 com o remo que espana de leve as águas, descrevendo semicírculos.
O homem trabalhador, acostumado a bater-se constantemente na luta pela existência, encontra distração e poesia até
no trabalho rude e grosseiro em que lida. O navegante familiariza-se com os perigos sugeridos no alto mar pelas
tormentas e sente-se contente ouvindo o bramir das vagas e o sibilo dos ventos; o lenhador compraz-se em apreciar o
canto das aves que parecem entoar um dueto com o som monótono produzido pelo machado ao descarregar profundos
golpes no tronco da árvore que ele derriba. Quando a canoa de que nos ocupamos passou a pequena ponta que
precede o canal do Ramos e chegou a este, principiou a soprar vento brando produzindo as carneiradas comuns às
águas dos lagos. Era ocasião de aproveitar o elemento precursor do adiantamento da viagem, poupando as forças
gastas em remar. O homem não hesitou. Fez-se de proa ao largo, armou o pano (1), e ei-lo sentado no banco da canoa a
governar esta, tendo o corpo inclinado para trás em atitude de a suster no cabo da peroba (2) a fim de seguir em linha
reta. O vento foi aumentando pouco a pouco. A canoa atravessou o canal do Ramos como uma locomotiva a correr num
campo deserto, evitou a coroa que a ele se segue e chegou ao tormentoso canal Grande, hoje denominado “Calunga.”
Súbita tempestade desencadeou-se medonha, assustadora. Chovia a cântaros. O céu de límpido e claro como estava
pouco antes tornou-se de aspecto sombrio. O sol atufou-se num manto de nuvens negras e o vento soprou de rijo. O
navegante lutou contra as vagas como um herói; mas o “Calunga” como que dispôs-se a tragar d’um sorvo o ousado
remeiro. Então conheceu este a gravidade da situação, e, exausto de forças, elevou os olhos ao céu implorando o
socorro único que naquele momento o podia salvar. 29 Era tarde! Os seus dias estavam contados e ele devia pagar
assim o tributo universal! (3) Uma forte refrega de vento fez partir-se a verga, a canoa rodou como um moinho, atirando
n’água o pobre que a conduzia. Um nadador corajoso não morre assim facilmente; mas o infeliz dera pancada no crânio
de encontro à beira da canoa e caíra n’água sem sentidos. O homem de que nos ocupamos era um antigo pescador,
velho conhecido de Lucrécia e por ela escolhido para ir levar a Aníbal a carta de Alcina. E enquanto Lucrécia dava conta
à Sinhazinha do fiel cumprimento de suas ordens, o portador da carta morria afogado no caminho. (1) Na gíria dos
nossos canoeiros quer dizer: soltar a vela aos ventos. (2) Remo. (3) O leitor deixe passar sem reparo este lapso. Não
somos fatalistas, nem estamos a pregar doutrinas condenadas por sediças. 30 V PERTURBA-SE A PAZ D’UMA FAMILIA A
gratidão é o mais justo de todos os sentimentos morais; mas quando é despertada por o infortúnio é a mais bela de
todas as virtudes. Monte Alverne. — Sermões. Aníbal, ao retirar-se para Alagoas, onde foi refocilar-se da grande
agitação de seu espírito, praticou uma ação louvável. O velho de óculos escuros ficou completamente arruinado depois
daquele jogo do baile do doutor Benício. Os credores fecharam-lhe as portas do estabelecimento e o pobre viu-se
metido em calças pardas. Aníbal era um rapaz de coração nobre, de sentimentos magnânimos. E já que não se utilizou
da importante soma ganha ao sr. Tompson, não era lícito tolerar o esbulho feito a uma pobre vítima do jogo. No dia de
sua partida ordenou a Tompson a entrega do dinheiro do velho e este efetivamente recebeu-o mais admirado da
generosidade do moço militar do que satisfeito por ver-se de novo abastado. Partia isso da resolução inabalável por ele
tomada de ir viver 31 desprezado a um canto do mundo onde pagasse a sua criminosa maneira de proceder, que não
tinha desculpa diante de tantos cabelos brancos, com os labores de trabalhos árduos, com a prática de profissões
suarentas. Quando entrou em casa trazendo o dinheiro de que a bondade de Aníbal lhe fizera outra vez possuidor,
protestou não mais jogar em sua vida; e em vez de continuar em seu anterior negócio, comprou um sítio de boas terras
e fruteiras e para lá foi morar sossegadamente, longe da efervescência das paixões. Nada mais delicioso do que a vida
do campo; o ar que se respira na roça é mais do que um alívio aos padecimentos físicos e morais: é um conforto e uma
consolação. *** Pelas 5 1/2 horas d’uma tarde chuvosa em que parecia se terem aberto todas as cataratas do céu, uma
canoa, levada pela corrente das águas, subia o canal estreito de Santa Rita, três a quatro léguas distante da capital. A
maré estava de enchente. Os habitantes da pitoresca e fertilíssima ilha se haviam recolhido todos às suas casas situadas
à sombra das mangueiras frondosas e ao lado dos coqueirais. Em setembro principia ali a safra das batatas que a ilha
produz abundantemente, e era por isso que se achavam grandes montes delas sob os alpendres daquelas pequenas
habitações. A porta d’uma casa de construção forte e que muito se distinguia das outras por seu estado de asseio e boa
conservação, via-se, recostado numa poltrona, um ancião respeitável por seus cabelos brancos, metido em largas
pantalonas presas por suspensórios, completamente absorto na leitura de um livro cuja capa já muito coçada tinha cor
duvidosa. Quem se aproximasse dele e procurasse ler o título do livro enxergaria logo no alto das páginas a legenda —
Resumo de História Sagrada.