negócio chamado virgindade.
Empacotei um monte de compras no mercado local para pagar pelo quarto, pela garrafa
de Asti Spumante e alguns outros acessórios românticos. Até passei pela lavanderia e troquei notas por moedas de 25
centavos para operar a cama vibratória. A noite acabou sendo uma comédia de erros. A cama massageadora engoliu
seis moedas antes de finalmente ligar, ribombando alto como um cortador de grama. Além disso, a garota usava um
vestido com armação de metal embaixo da saia que pulou para cima e me acertou bem no nariz quando eu estava
tentando conhecê-la melhor. Quando chegamos e nos acomodamos no quarto, contei essa história a Celestial,
esperando que ela fosse rir. Em vez disso, ela falou: – Venha cá, querido. E me deixou apoiar a cabeça em seus seios,
mais ou menos o que a garota do baile de formatura fez. – Parece que estamos acampando – falei. – Parece mais um
intercâmbio em outro país. Buscando o olhar dela no espelho, eu disse: – Eu quase nasci neste hotel. Olive trabalhava
aqui, fazendo a limpeza. Na época o Piney Woods tinha outro nome, e havia uma bandeira dos confederados pendurada
em todos os quartos. Minha mãe estava lavando uma banheira quando a bolsa estourou, mas decidiu que eu não
começaria a vida embaixo das estrelas e faixas daquela bandeira. Ela fechou as pernas com força até que o dono do
hotel, um homem decente apesar da decoração, levou-a de carro pelos 50 quilômetros até Alexandria. O dia era 4 de
abril de 1969, exatamente um ano depois da morte de Martin Luther King, e eu dormi minha primeira noite de vida
numa enfermaria multirracial. Minha mãe sentiu orgulho disso. – Onde estava o Grande Roy? – perguntou Celestial,
como eu sabia que faria. A pergunta era justamente o motivo para estarmos ali, então por que eu tinha tanta
dificuldade para responder? Eu a tinha conduzido a essa pergunta, mas, assim que ela foi feita, fiquei mudo feito uma
pedra. – Estava trabalhando? Celestial estava sentada na cama prendendo mais contas no boneco do prefeito, mas meu
silêncio atraiu sua atenção. Ela cortou a linha com os dentes, arrematou-a e se virou para me olhar. 29 – Qual é o
problema? Eu ainda estava mexendo os lábios sem fazer nenhum som. Aquele não era o lugar certo para começar essa
história. Minha história pode começar no dia em que nasci, mas a história começou muito antes. – Roy, o que foi? O que
há de errado? – Grande Roy não é meu pai de verdade. Essa era a única frase que eu tinha prometido à minha mãe que
nunca diria em voz alta. – O quê? – Biologicamente falando. – Mas o seu nome...? – Ele me deu o nome dele quando eu
era bebê. Levantei-me da cama e preparei drinques com suco em lata e vodca. Enquanto usava o dedo para misturar as
bebidas nos copos, não consegui olhar para ela, nem pelo espelho. – Há quanto tempo você sabe? – perguntou ela. –
Eles me contaram antes de eu ir para o jardim de infância. Eloe é uma cidade pequena, e não queriam que eu ficasse
sabendo no pátio da escola. – É por isso que você está me contando? Para eu não ouvir na rua? – Não. Estou contando
porque quero que você saiba todos os meus segredos. – Voltei para a cama e lhe entreguei o copo fino de plástico. –
Saúde. Sem me acompanhar no brinde digno de pena, ela pousou o copo na mesinha de cabeceira cheia de arranhões e
reembrulhou cuidadosamente o boneco. – Roy, por que você faz coisas assim? Nós estamos casados há mais de um ano
e nunca lhe ocorreu me contar isso antes de hoje? Eu estava esperando o resto, as palavras tensas e as lágrimas; talvez
estivesse até ansioso por elas. Mas Celestial apenas olhou para o alto e balançou a cabeça. Suspirou e depois soltou o
ar. – Roy, você está fazendo isso de propósito. – Isso? Isso o quê? – Você me diz que nós estamos formando uma
família, que sou a pessoa mais próxima de você em todo o mundo, depois joga uma bomba dessa em cima de mim. 30 –
Não é uma bomba. Que diferença isso faz? A pergunta era para ser retórica, mas eu ansiava por uma resposta
verdadeira. Precisava que ela dissesse que não fazia diferença, que o que importava era eu, e não minha árvore
genealógica torta. – Não é só isso. São os números de telefone na sua carteira, o fato de às vezes você não usar a
aliança. E agora isso. Assim que a gente supera uma coisa, vem outra. Se eu não fosse esperta, imaginaria que você está
tentando sabotar nosso casamento, o bebê, tudo. Ela falou como se tudo aquilo fosse culpa minha, como se fosse
possível dançar tango sozinho. Quando eu ficava com raiva, não levantava a voz. Em vez disso, baixava até um registro
capaz de ser ouvido com os ossos, e não com os ouvidos. – Tem certeza de que você quer fazer isso? Essa é a saída que
você estava esperando? Essa que é a pergunta verdadeira. Eu digo que não conheço o meu pai biológico e você fica em
dúvida sobre todo o nosso relacionamento? Olha, eu não contei antes porque isso não tinha nada a ver com a gente. –
Há algo de errado com você. O rosto dela no espelho riscado estava totalmente alerta e irado. – Olha. É por isso que eu
não queria contar. E agora? Você sente que não me conhece porque não sabe qual é meu perfil genético exato? Que
tipo de merda burguesa é essa? – A questão é que você não me contou. Não me importa que você não saiba quem é
seu pai. – Eu não falei que não sei quem ele é. O que você está tentando dizer sobre minha mãe? Que ela não sabia de
quem estava grávida? Sério, Celestial? Você quer pegar esse caminho? – Não tente virar o jogo. Foi você que guardou
um segredo do tamanho do mundo. – O que há para contar? Meu pai biológico se chama Othaniel Jenkins. Só sei isso.
De modo que agora você sabe tudo que eu sei. É um segredo do tamanho do mundo? Está mais para o tamanho de um
país. Um bem pequenininho. – Pare de deturpar as coisas. – Olha. Tente ser compreensiva. Olive não tinha nem 17 anos.
Ele se aproveitou dela. Era um homem adulto. 31 – Estou falando de mim e você. Nós somos casados. Casados. Não me
interessa qual é o nome dele. Você acha que eu me importo com o que a sua mãe... Virei-me para olhar para ela sem a
intermediação do espelho e o que vi me preocupou. Seus olhos estavam meio fechados e ela comprimia os lábios,
preparando-se para falar, e eu soube instintivamente que não queria ouvir o que ela ia dizer. – Dezessete de novembro
– falei antes que ela pudesse completar o pensamento. Outros casais usam palavras de segurança para pedir um tempo
durante o sexo violento, mas nós usávamos para pedir um tempo nas palavras duras. Se um dos dois dizia “dezessete de
novembro”, o dia do nosso primeiro encontro, a conversa precisava parar durante quinze minutos. Eu puxei o gatilho
porque sabia que, se ela dissesse mais uma palavra sobre minha mãe, um de nós falaria algo que não poderia retirar
depois. Celestial levantou as mãos. – Muito bem. Quinze minutos. Me levantei e peguei o balde plástico de gelo. – Vou
encher isso. Quinze minutos é um bom tempo para matar. Assim que eu saísse pela porta, Celestial iria ligar para Andre.
Eles tinham se conhecido num cercadinho quando eram tão pequenos que ainda não sabiam nem sentar, por isso são
como irmãos. Conheço Dre da faculdade, e foi através dele que conheci Celestial. Enquanto ela desabafava com Dre, fui
até o segundo andar, posicionei o balde na máquina e puxei a alavanca. Cubos de gelo caíram em espasmos. Enquanto
eu esperava, passou por mim uma mulher mais ou menos da idade de Olive, pesadona, com rosto gentil e sardento. Seu
braço estava em uma tipoia de pano. – Manguito rotador – disse ela, explicando que dirigir era um desafio, mas que um
neto a esperava em Houston, um neto que ela planejava pegar no colo com o braço bom. Sendo o cavalheiro que minha
mãe me criou para ser, carreguei o gelo para ela até o seu quarto, número 206. Devido ao problema, ela tinha
dificuldade para abrir e fechar a janela, então eu levantei a vidraça e a sustentei com a Bíblia. Ainda tinha sete minutos,
e aí entrei no banheiro e dei 32 uma de encanador, consertando a descarga, que tinha disparado e feito o vaso parecer
as Cataratas do Niágara. Ao sair, alertei-a de que a maçaneta estava solta, que ela deveria verificar direito se estava
trancada assim que eu a fechasse. Ela agradeceu; eu a chamei de senhora. Eram 20h48. Sei disso porque olhei o relógio
para ver se já podia voltar ao meu quarto. Bati à porta às 20h53. Celestial tinha preparado dois drinques novos para a
gente. Enfiou a mão no balde e colocou mais três cubos de gelo em cada copo. Balançou as bebidas para gelá-las e
depois estendeu o braço lindo na minha direção. E essa foi a última noite feliz que eu tive em muito tempo.