Poppy Playtime
Poppy Playtime
Caro leitor,
se você abriu este livro, então já estamos conversando. Talvez em silêncio, talvez a distância,
mas ainda assim juntos. É por isso que começo assim, falando diretamente com você, como
quem escreve uma carta sabendo que ela será lida por mãos que ainda não conhece.
Dedico estas páginas ao meu pai e à minha mãe, que me deram o primeiro chão e o primeiro
impulso. Aos meus amigos e às minhas amigas, que me ensinaram que o mundo pode ser
suportável quando compartilhado. À minha irmã mais nova, que sem saber me lembrou tantas
vezes do que ainda vale a pena preservar em mim. E dedico também a você, que lê agora,
porque nenhuma obra existe completa sem o olhar de quem a recebe.
A arte me salvou mais vezes do que posso contar. Não como milagre, mas como abrigo. Foi
nela que encontrei um jeito de organizar o caos, de dar forma ao que doía, de transformar
silêncio em significado. Escrever sempre foi minha tentativa mais honesta de permanecer vivo,
de não deixar que os dias passassem em vão. Cada palavra aqui carrega um pouco do que fui,
do que perdi e do que ainda tento ser.
Mas nada disso teria sentido sem as pessoas. Amigos e família foram a matéria-prima invisível
de tudo que criei. Foram eles que sustentaram meus momentos de dúvida, que acolheram
meus erros, que testemunharam minhas culpas e meus arrependimentos sem me reduzir a
eles. Com o tempo, entendi que essa divisão é ilusória. Amigos se tornam família e família
aprende a ser amiga. No fim, são apenas aqueles que ficam.
Carrego culpas que não posso apagar e arrependimentos que não posso corrigir. Ainda assim,
aprendi que viver não é a ausência de falhas, mas a coragem de continuar apesar delas. A vida
não pede perfeição, pede presença. E talvez a arte seja isso, a forma mais intensa de dizer eu
estive aqui, eu senti, eu amei, mesmo quando doeu.
Se este livro tocar você em algum ponto, se fizer você lembrar de alguém, de um momento, de
si mesmo, então ele já cumpriu seu papel. Que possamos valorizar nosso breve tempo na Terra
criando, sentindo e compartilhando. Que a arte seja nosso gesto mais alto de vitalidade e
nossa maneira mais humana de agradecer por existir.
Com sinceridade,
Bernardo Rohrs Cardoso
“6 de janeiro
Aproveitar ou viver.
...
O Azul caminhava só, os passos reverberando num silêncio espesso que tornava cada
ruído ainda mais presente. O corredor pelo qual ele seguia o engolia como uma garganta
escura e sinuosa, e embora ainda houvesse luz, ela parecia enfraquecer a cada metro
avançado. As paredes ao redor estavam desbotadas, nuas de qualquer sinal de alegria
ou movimento, mas carregadas de uma atmosfera que se recusava a morrer
completamente.
Ao virar uma curva, ele passou diante de um antigo balcão de lanches. A estrutura,
estendia-se como um altar em ruínas. Superfícies que um dia brilharam com verniz
infantil estavam agora manchadas de gordura envelhecida e cobertas por uma pátina
de poeira implacável. Caixas de vidro rachadas se projetavam, vazias, suas bordas
sujas revelando apenas reflexos fantasmas do que um dia ali foi exposto — doces,
salgados, refrigerantes. As máquinas automáticas pareciam vigiar em silêncio,
apagadas, com fendas que lembravam bocas famintas e abandonadas. Nada mais ali
era funcional, só uma imitação grotesca de vida.
O chão estava coberto por um tapete ainda surpreendentemente colorido em partes —
triângulos, círculos e losangos em tons primários resistiam à decomposição total, como
se zombassem da melancolia que agora os envolvia. Havia algo perverso no contraste
entre a decoração infantil e o silêncio fúnebre que reinava.
Atrás do balcão, havia uma escada que seguia para algum lugar mais para cima e uma
passagem que jazia mergulhada em escuridão profunda. Azul parou, contemplando-a
com uma inquietação instintiva. A escuridão era espessa, como se sugasse a luz e o ar
ao redor. Pensou em atravessá-la, em descobrir aonde levava, mas logo recuou. Havia
algo errado naquela entrada sem porta. Um cheiro rançoso e uma brisa fria vinham de
lá, como um hálito vindo das entranhas da fábrica. Não. Melhor seguir em frente, onde
ainda havia luz, ainda que pálida e trêmula.
Seguiu pela ala direita, onde o corredor se alargava em um espaço maior. Ali, o
ambiente lembrava uma área de parque de diversões ou o que restava de um. Longos
balcões se enfileiravam sob toldos vermelhos e brancos, agora desbotados, rasgados,
pendendo como velas derrotadas. A madeira das estruturas estava lascada, marcada
por cupins e pelo tempo. Não havia prêmios, não havia brinquedos, só prateleiras vazias
e um silêncio que pesava como concreto.
Os postes metálicos que delimitavam o que um dia foi uma fila estavam agora
tombados, criando linhas que levavam a parte alguma. Em meio a essa desolação,
mascotes da Playtime encaravam dos painéis superiores, representações em papelão
que deveriam inspirar riso, mas agora pareciam exibir máscaras fúnebres. Seus olhos
pintados pareciam fixos em Azul, atentos, eternamente congelados em uma observação
sinistra.
Enquanto caminhava, os pensamentos de Azul começaram a emergir, como vapores
quentes em uma noite gelada. Não era sempre que ele se permitia refletir. No cotidiano,
a máscara (física e emocional) protegia mais do que o traje. Mas ali, sozinho, cercado
por memórias mortas e fantasmas de alegria, sua mente se libertou.
Seu nome era James. James Graves. Um nome comum, sem qualquer força. E ainda
assim, ali estava ele, parte de uma missão clandestina no ventre podre de uma fábrica
esquecida. Trabalhara antes como engenheiro de sistemas, um dos melhores, mas o
orgulho e a obsessão por entender os limites da tecnologia — e talvez também os seus
— o haviam levado por caminhos tortuosos. Perdera tudo: emprego, reputação, e quase
a própria sanidade. A Playtime Co. prometia o pagamento que lhe devolveria alguma
dignidade... ou ao menos a ilusão dela.
Ele não confiava nos outros quatro membros da equipe. Não podia. A anonimidade era
uma das exigências da missão. Mas, mais do que isso, era um vício para ele. Era melhor
não saber. Melhor não se apegar. Era mais fácil ver alguém morrer quando você não
conhecia o nome ou o rosto deles.
Seguiu o corredor adiante até que este finalmente se alargou, abrindo-se em um salão
de vastas proporções: o teatro. O verdadeiro teatro.
No alto do lugar, um lustre gigantesco, uma peça que um dia fora deslumbrante, pendia
do teto com uma inclinação inquietante. Era feito de ferro trabalhado e vidro fosco, agora
em sua maioria quebrado. Os cacos pendiam como dentes ameaçadores, lançando
sombras em ziguezague pelas paredes. As molduras de madeira ornamentada que
circundavam o teto pareciam entalhadas por mãos cuidadosas, mas agora estavam
manchadas pela umidade e carcomidas pelo tempo. As janelas, ou melhor, onde um dia
existiram janelas, estavam seladas por tábuas grosseiras, marteladas com pressa.
Nenhuma luz natural entrava. Apesar de ele achar que, mesmo se não estivessem
tampadas, não entraria luz alguma. Tudo era dominado por uma penumbra opressora,
quebrada apenas por um único feixe vindo de um holofote alto, que lançava seu brilho
sobre o palco.
No centro da luz, uma figura esperava: Huggy Wuggy. Não o verdadeiro, mas uma
representação de papelão. Tinha algo de grotesco na simplicidade. O rosto pintado, azul
vibrante, contrastava com os dentes exageradamente brancos e os olhos vazios, como
buracos que espreitavam o espectador. A boca aberta em um sorriso congelado mais
parecia um grito detido no tempo. A postura, rígida, sob a luz, fazia parecer que aquele
pedaço de papel possuía peso e presença.
O palco estava coberto por uma cortina espessa de veludo vermelho, agora
acinzentado. Suas franjas tremulavam levemente, sem brisa aparente. As tábuas do
chão estavam rachadas, rangendo sob qualquer peso. O teatro parecia ter sido
abandonado às pressas: cadeiras quebradas, caixas empilhadas com desordem, restos
de objetos sem nome espalhados por todos os lados. E ali, no centro do salão, como
um altar profano, erguia-se uma das torres de cofre. Mais quebra-cabeças. A estrutura
se destacava do ambiente não apenas pela cor vibrante, mas por sua integridade. Ainda
ativa, ainda viva. James correu até ela, sentindo o peso da peça do brinquedo que já
guardava em seu bolso, colhida da torre anterior.
Com um movimento preciso, mirou a mão azul do GrabPack em direção ao botão que
ativava o primeiro dos três enigmas e disparou. O impacto do mecanismo metálico no
botão fez um estalo seco ecoar pelo salão. Pequenos mecanismos internos ganharam
vida com um zumbido sutil e, então, o painel da esquerda se acendeu.
Era o enigma da sequência de cores.
Seus olhos acompanharam os botões circulares que começaram a piscar em uma
ordem: vermelho. Azul. Amarelo. Verde. Azul novamente. E, por fim, vermelho. A
sequência se repetiu duas vezes antes de apagar, aguardando sua resposta.
“Os engenheiros disso aqui deviam estar com pressa… é a mesma coisa de antes”,
James estalou a língua, pensando consigo mesmo.
Ainda assim, não subestimaria o sistema. Com cuidado, ele posicionou os dedos sobre
os botões táteis no painel. Reproduziu mentalmente a ordem mais uma vez, então
apertou os botões: vermelho. Azul. Amarelo. Verde. Azul. Vermelho. Sem perder tempo,
ele girou o corpo e mirou agora no botão central daquela face do cofre. O som de um
clique metálico o recompensou, e o painel piscou com uma luz verde vívida antes de
apagar novamente. Um sorriso discreto brotou em seu rosto.
Quase instantaneamente, se virou para a próxima fase daquela torre. Disparou a mão
vermelha do GrabPack na direção do botão de ativação, outro estalo, e o painel do meio
se ativou. Os blocos do quebra-cabeça deslizante tomaram forma: uma imagem
embaralhada composta por pequenos quadrados. O quadro parecia conter uma figura
(talvez a ilustração de um mascote), mas os fragmentos estavam em posições erradas,
aguardando ansiosamente que alguém os remontasse. James se agachou diante da
torre e estudou as peças. Linhas curvas, tons rosados, algo que parecia um fundo azul-
claro. Ele movia seu GrabPack pelas superfícies com destreza, empurrando os blocos
para os lados com toques firmes, criando espaço para movimentar os quadrados
centrais. Seu cérebro trabalhava como um mapa mental, imaginando onde cada peça
deveria se encaixar.
A imagem se formava lentamente, apesar de seus erros, ele pensava, por instinto, que
era algum mascote da fábrica. Talvez o rosto redondo do Bron ou o sorriso largo da
Candy Cat. Mas não era.
A forma final, quando os blocos se encaixaram perfeitamente, revelou outra coisa. Um
sorvete. Cor-de-rosa. A cereja no topo, brilhante, como se zombasse dele.
— Um sorvete? — sussurrou, surpreso. — Que porcaria de escolha temática é essa?
O painel apitou, e mais uma luz verde se acendeu. James girou o pulso, disparando a
mão azul do GrabPack contra o terceiro botão. Este último desafio era diferente: esferas
negras dispostas em fileiras começaram a piscar em sequência, iluminando-se em tons
brancos e apagando-se logo em seguida. Ele precisava ativar os botões na mesma
ordem exata. Um erro, e tudo reiniciaria.
A primeira sequência era curta. Ele a repetiu sem dificuldades. A segunda, mais longa.
Um lampejo de dúvida cruzou sua mente quando a sexta luz piscou, ele hesitou por uma
fração de segundo antes de tocar a esfera correta. A tensão se acumulava. O padrão
final surgiu. Longo. Irregular. Deliberadamente confuso.
Mas ele o registrou, repetiu em sua mente, os olhos fixos, os músculos rígidos.
Toque. Toque. Luz. Toque. Silêncio. Toque.
As esferas se acenderam, agora todas em branco. Um estalo metálico ecoou pelas
paredes do teatro vazio. As bordas do cofre brilharam em uma alternância pulsante entre
luzes amarelas e verdes. O mecanismo inteiro vibrou por um segundo, e então a
escotilha inferior se abriu com um baque. Uma peça foi ejetada. James agiu rápido,
esticando a mão do GrabPack e agarrando o objeto antes que tocasse o chão.
Era o pescoço e a cabeça de um brinquedo. Ele a puxou para perto, usando agora suas
mãos para examiná-la. A peça era visivelmente desgastada pelo tempo, mas a pintura
ainda preservava o vermelho vibrante e o amarelo suave. A cabeça era grande, com
olhos semicerrados e expressão quase entediada. O topo da cabeça era liso e redondo,
o focinho largo e ligeiramente curvado. O pescoço alongado e arqueado sugeria um
estilo de personagem amigável e gentil. Era um brinquedo de dinossauro.
Passou os dedos pelas ranhuras da pintura desgastada antes de guardá-la no bolso
lateral do traje com cuidado, certificando-se de que estava segura. Foi então que
percebeu…
Uma música.
Fraca, no começo. Como se viesse de muito longe. Um tilintar suave, melódico,
envolvente — algo entre o som de um caixinha de música antiga e o de um instrumento
infantil desafinado. Seu olhar se ergueu, como se atraído por um fio invisível, até o palco.
O papelão de Huggy Wuggy ainda estava lá, imutável. Mas agora, ao seu lado, havia
algo que ele não tinha visto antes. Uma caixa azul, quadrada, com cantos arredondados
e laterais decoradas com formas geométricas amarelas: estrela, quadrado, triângulo,
círculo. Uma manivela lateral girava sozinha, incessante, dando vida àquela melodia
encantadora que ecoava dentro do teatro.
James deu alguns passos, subiu as escadas do palco com os olhos fixos na caixa.
Aproximou-se dela como se estivesse sob um feitiço. Estava hipnotizado. Algo naquela
música falava com uma parte adormecida de sua mente. Ativou o gatilho do GrabPack,
a mão vermelha disparou e atingiu a caixa com um baque. Ela oscilou, inclinando-se
levemente para o lado como se fosse tombar... mas não caiu. Voltou à sua posição
anterior em silêncio, como se nada tivesse acontecido. A música não parou.
Lentamente, James se agachou diante da caixa. Estava perto o suficiente para ver as
ranhuras da tinta desbotada, o leve tremor da manivela girando, a forma sutil como a
tampa superior parecia estar trancada.
E então, a música parou. Um instante de paz inquietante recaiu sobre o teatro, e então...
Um estalo. Um rangido longo.
James ergueu os olhos devagar, a tempo de perceber que a tampa da caixa estava se
abrindo.
...
O som dos passos ecoava de maneira desigual pelo corredor lateral. O Amarelo
caminhava em linha reta, ombros rígidos, olhos fixos adiante como se pudesse furar as
paredes com o olhar. Ao seu lado, o Laranja ziguezagueava ligeiramente, como se não
conseguisse andar em linha reta nem se tentasse. Seus tiques estavam mais evidentes
que o normal: o movimento inquieto dos dedos e o sussurrar quase imperceptível de
palavras sem sentido.
— Eu tô dizendo, cara — começou o Laranja, estalando os dedos. — Essa coisa toda...
Essa fábrica... Isso aqui tem cara de ritual! Sério! Ritual! Tipo sacrifício, seita, aquelas
coisas que a gente vê em VHS velho.
O Amarelo soltou um suspiro exasperado, mas não respondeu. Continuou andando.
— E, vamos combinar, se isso for um culto, você claramente seria o sacerdote, né?
Fala pouco, sempre julgando... Se tivesse uma tocha na mão, já tava discursando pro
abismo.
— Você consegue ficar calado por cinco minutos? — Amarelo respondeu, sem virar o
rosto. Sua voz era seca como areia.
— Cinco minutos? Eu não sobrevivo nem dois. Acho que eu explodo. Silêncio é tipo...
claustrofóbico.
— Então explode logo.
Laranja soltou uma risada esganiçada.
— Viu? Você tem senso de humor! Tá lá, enterrado sob cinquenta camadas de
antipatia.
— Você é irritante demais pra deixar qualquer humor sobreviver.
— Irritante é não dizer nada nunca! Você age como se estivesse num funeral desde
que chegamos. Tá com medo de se importar com alguma coisa?
O Amarelo parou de andar. Virou o rosto devagar para encarar o outro.
— Eu me importo com a missão. Com o objetivo. O resto é distração.
— E eu me importo em não enlouquecer aqui dentro! Sabe o que é conversar? Manter
a sanidade, talvez rir um pouco? Isso se chama humanidade, meu chapa!
— "Humanidade" não vai salvar ninguém aqui.
— Não, mas vai fazer a gente não virar máquina igual essas porcarias por todo lado!
Por um instante, os dois se encararam. O ar entre eles parecia prestes a trincar. Mas
então, como se o próprio lugar lembrasse que eles tinham algo mais importante para
fazer, uma corrente de ar soprou do fim do corredor, carregando um leve cheiro metálico
e o som de algo girando à distância.
Sem dizer mais nada, seguiram juntos. Calados. Mas o silêncio agora era mais denso.
Chegaram ao portão adornado com enfeites dourados. Os detalhes eram elegantes,
embora empoeirados, como se tivessem pertencido a um salão de festas de outro
tempo. O tapete vermelho, estendido em frente à escada, parecia convidar e ameaçar
ao mesmo tempo. Subiram.
Ao atravessarem o topo da escadaria, a atmosfera mudou.
A sala de lavanderia se revelou diante deles como um mundo à parte. Enorme, quase
cavernosa, com um teto alto onde ventiladores escuros giravam preguiçosamente. Não
faziam ideia de como ainda tinha luz naquele lugar... As luzes pendentes balançavam
levemente, projetando sombras oscilantes sobre fileiras intermináveis de máquinas de
lavar e secar. As cores das máquinas pareciam ter saído de um sonho infantil e
desbotado: turquesas, vermelhos apagados, amarelos sujos. Algumas estavam
empilhadas como blocos, outras embutidas em paredes com estruturas mais altas. Era
como se um parque temático e um pesadelo industrial tivessem tido um filho.
No centro, repousava a estrutura que buscavam: o cofre-torre. O tambor vermelho-
alaranjado era mais largo, mais sólido que os outros, e suas três faces lembravam jogos
de feira.
— Uau — murmurou o Laranja, se adiantando. — Essa sala é tipo... uma creche com
problema de identidade.
— Concentre-se — retrucou o Amarelo. — Três faces. Três enigmas.
O Laranja já estava examinando a primeira: um painel vertical com teclas coloridas e
tubos coloridos em cima.
— Hm... Isso aqui me cheira a música. Cores, sons... Adoro esse tipo de coisa! Tocar
piano faz com que eu me sinta o próprio Frank Sinatra.
O Amarelo foi para a segunda face, a da máquina de guindaste. Analisou
silenciosamente, tocando o botão em forma de seta com o GrabPack.
— Precisa de timing. Uma armadilha de paciência — murmurou.
— Nos vemos no meio? — perguntou Laranja, com um sorrisinho.
— Se você não tiver destruído o sistema antes...
Ambos ativaram seus respectivos desafios. Enquanto Laranja repetia sequências de
notas, cantarolando cada uma com exagero performático:
— Ciiiiaaano... maaarrooom... booordôôô!
O Amarelo observava atentamente o movimento interno da máquina de guindaste.
Esperava. Estudava. Calculava. Quando a parte certa passou diante da abertura,
pressionou o botão com precisão. Um clique. Sucesso.
Laranja terminou com uma nota musical errada, soltando um palavrão abafado, mas
recomeçou com mais concentração. Na segunda tentativa, acertou. Ambos terminaram
quase ao mesmo tempo.
— Terminei primeiro — disse o Laranja, já indo para a terceira face.
— Não terminou. Eu finalizei antes — respondeu o Amarelo, seguindo atrás.
— Mentira. Você só é mais rápido pra andar. E mais lento pra aceitar derrotas!
— Você não presta atenção. A pressa te cega.
— Ah, pronto! Agora vai dizer que eu sou cego também? Isso me cheira a mau
perdedor…
— Talvez seja surdo, considerando sua última nota.
Os dois pararam diante da terceira face, encarando os discos com padrões intrincados.
Um silêncio desconfortável se instalou.
— ...tá. Isso aqui é mais complicado — disse o Laranja, quebrando o silêncio. — Você
gira um, eu giro outro?
O Amarelo hesitou por uma fração de segundo, depois assentiu.
— Coordenação. Comunicação. Não se atrapalhe.
Apesar da máscara, Amarelo conseguia sentir o sorriso de orelha a orelha que o
Laranja havia aberto após escutar isso. Então, eles começaram a trabalhar juntos. Um
girava o disco superior, o outro o inferior. Testavam ângulos. Encaixavam formas. Às
vezes erravam, voltavam. As linhas começaram a formar um padrão contínuo. O centro
do disco revelou lentamente uma forma circular dourada, como o sol surgindo atrás de
engrenagens.
Por fim, os dois discos se alinharam com um estalo suave.
Silêncio.
— Acho que conseguimos — disse Laranja, quase incrédulo.
— Sim. Conseguimos…
As engrenagens internas do tambor giraram com um som metálico abafado, e a
escotilha na parte inferior da estrutura se abriu com um estalo repentino. De seu interior,
como se cuspidas por uma força mecânica invisível, saltaram duas patas vermelhas,
idênticas entre si — longas, terminadas em três garras azuis brilhantes. As extremidades
curvas das garras tilintaram ao tocar o chão cerâmico e limpo da lavanderia
abandonada.
O Amarelo se agachou, pegando as peças do brinquedo com expressão tensa e
concentrada. Ao seu lado, o Laranja ainda fungava e balançava os ombros, ofegante da
última discussão. Eles não trocaram uma palavra. Apenas seguiram juntos, em silêncio
amargo, rumo ao corredor lateral.
O novo ambiente era um contraste gritante com a brutalidade industrial da lavanderia.
O chão agora era acolchoado por um carpete espesso, vermelho-intenso, com padrões
geométricos em azul, amarelo e vermelho — grandes círculos, triângulos e ondas
suaves que imitavam a linguagem visual dos brinquedos infantis. À direita, uma estante
escura, alta, abarrotada de equipamentos antigos. À esquerda, uma pequena área de
trabalho com uma mesa baixa e duas cadeiras; uma azul, outra amarela. Computadores
antigos e objetos desconexos jaziam abandonados sobre a superfície.
A iluminação era mais suave, mas não menos inquietante: o brilho do projetor no centro
da sala dividia as sombras com precisão cirúrgica, destacando o caos ao redor como
em uma cena congelada de um pesadelo infantil. O projetor era uma peça estranha,
uma fusão de design retrô com a estética caricata da Playtime. Sua lente iluminava não
a tela, mas uma janela quebrada que dava para um teatro adiante. O Laranja se
aproximou da abertura, apoiando-se na moldura de metal deformado.
— Cara... — murmurou ele, o som quase engolido pela sua própria fascinação. — Você
precisa ver isso aqui. É um teatro de verdade, tipo... tipo grande mesmo. Tá tudo
revirado, parece que rolou uma guerra.
O Amarelo revirou os olhos, já de volta ao modo prático, ignorando o devaneio do
companheiro:
— Tanto faz. Tem outro cofre aqui. Igualzinho ao anterior. Três lados, três enigmas. Se
não começarmos agora, vamos passar a noite aqui. — Ele se virou, sem esperar
resposta. — Vem logo.
Mas o Laranja apenas ergueu uma das mãos, despreocupado, e fez um gesto de "já
volto".
— Relaxa aí, Sr. Ranzinza. Vou só dar uma espiadinha. Se tiver algo legal, eu grito. Se
tiver algo assustador, eu grito mais alto.
— Laranja! — berrou o Amarelo. — Volta aqui, porra! A gente precisa fazer isso junto!
Nada. Apenas os passos leves do colega se afastando. Murmurando um arsenal de
xingamentos, o Amarelo cuspiu no chão e encarou o tambor.
— Que se foda...
Ele se postou diante da primeira face, onde as seis teclas coloridas — ciano, marrom,
verde-esmeralda, bordô, roxa e vermelha-rosada — pareciam olhar para ele como olhos
atentos e zombeteiros. Acima delas, o visor escuro se iluminou subitamente, e um tubo
fino emitiu um som eletrônico distorcido, como um xilofone infantil sendo afinado com
violência.
Tum. Ting. Tum-tum. Plim. Tum.
O som era simples, mas levemente dissonante. As cores correspondentes piscavam
em sequência, rapidamente: verde-esmeralda, roxa, verde-esmeralda de novo, ciano,
bordô.
O Amarelo franziu a testa, estalando os dedos. Repetiu a melodia, pressionando as
teclas com o GrabPack.
Verde-esmeralda. Roxa. Verde-esmeralda. Ciano. Bordô.
O visor piscou em verde. Outra sequência.
Plim. Tum. Plom. Ting. Tum.
Ciano. Marrom. Vermelha-rosada. Roxa. Marrom.
Dessa vez, ele hesitou. Repetiu baixinho para si, então pressionou os botões com
precisão. O visor piscou novamente. O processo se repetiu quatro vezes, cada vez com
uma sequência mais longa, mais caótica. As notas pareciam confundir-se. Mas o
Amarelo seguiu com a mandíbula cerrada, a memória funcionando como uma máquina
fria. Quando a décima sequência foi replicada com sucesso, um som seco ecoou dentro
da máquina. Um clique de engrenagem destravando.
A segunda face, ao lado, era a da garra de fliperama deformada. Dentro da caixa, ele
pôde ver as silhuetas opacas de brinquedos e partes mecânicas em meio à escuridão.
Uma única luz fraca dentro revelava um mecanismo circular girando lentamente. Ele
esperou. Observou.
Uma peça de plástico azul, lembrando um braço robótico, se aproximava da abertura
inferior. Ele manteve o dedo sobre o botão em forma de seta para baixo, aguardando o
momento exato para clicar nela e no botão de ativação ao mesmo tempo...
— Agora.
Apertou. Nada. A garra passou direto.
Resmungando, esperou outra peça. Uma perna. Depois, uma cabeça de brinquedo com
olhos pintados. A garra se movia a uma velocidade irregular, como se zombasse dele.
Ele fechou os olhos, contando mentalmente, até ouvir o leve tic do mecanismo no
padrão exato.
Apertou de novo. Um baque surdo.
A peça caiu pela abertura inferior. Um sino interno tilintou. Um segundo clique. O
segundo quebra-cabeça estava concluído...
A terceira face era a mais ameaçadora. Os dois discos sobrepostos giravam com
lentidão espectral, cada um dividido em segmentos com linhas e curvas. Era como olhar
para um mapa celestial, ou um relógio, feito por uma sociedade antiga.
Ele agarrou os dois pinos centrais, cada um com uma mão de seu GrabPack, e
começou a girar. Ao mexer o disco superior, percebeu que certas seções da linha
pareciam se estender até encontrar o disco inferior, desde que estivessem corretamente
alinhadas. Mas girar um disco alterava a rotação sutil do outro, como se estivessem
conectados por dentro por engrenagens ocultas.
Com respiração controlada, o Amarelo começou a testar combinações. Girava o disco
superior lentamente até que uma linha dourada curva se alinhasse com outra prateada
do disco inferior. Parou. Ajustou o inferior. Um chiado mecânico sinalizou que algo
estava próximo do acerto. Mais uma rotação. Um encaixe perfeito: as linhas se
conectaram como um caminho contínuo, formando o contorno de uma estrela de quatro
pontas.
Cli-clac.
A escotilha do tambor se abriu. Duas patas vermelhas, com garras azul-claras idênticas
às anteriores, foram ejetadas. O Amarelo as pegou devagar, limpando a poeira do tempo
que colava nos dedos de metal pintado e só depois as guardou no bolso. Soltou um
suspiro lento. Ainda ofegante do esforço e da concentração, se virou para olhar a
direção por onde o Laranja havia ido.
— Tomara que tenha virado picadinho. — murmurou, com amargor.
Após ter terminado de resolver os quebra-cabeças daquele cofre, Amarelo começou a
prestar mais atenção em alguns detalhes específicos da sala onde ele se encontrava.
Uma figura de papelão, ao lado da mesa, chamou imediatamente sua atenção. A
princípio, era apenas uma mancha de cores berrantes: vermelho, azul e amarelo.
Porém, à medida que os olhos de Amarelo se ajustavam à iluminação precária, os
detalhes se revelavam como dentes saindo da escuridão.
A figura tinha um corpo avermelhado coberto por uma caixa azul, marcado por uma
estrela amarela. As mãos, como garras mecânicas, pareciam sair de molas espiraladas
e se esticavam à frente, em uma ameaça caricata. Os pés grandes, monstruosos,
descansavam na base. No topo do peito, em letras rudes: "APERTE AQUI", acima de
um botão vermelho pulsante. Os olhos eram o pior. Estáticos. Amarelo odiava aquilo,
apesar de estar ciente de que era apenas um desenho. Um sorriso largo e congelado
escancarava dentes demais, dentes falsos demais. Era o Boxy Boo. Mascote da
Playtime, um ícone do entretenimento infantil.
Mais ao fundo, uma estrutura alta e fina chamava atenção. De cor amarela desbotada,
ela se erguia como um pilar negligenciado. No topo, uma tela escura empoeirada exibia
letras vagas:
Abaixo, uma abertura retangular avermelhada emitia um brilho fraco. A luz pulsava
como um aviso ou um convite. Amarelo teve uma ideia…
Normalmente ele discutiria esse tipo de coisa com os demais membros da equipe, mas
agora se via sozinho ali, abandonado pelo Laranja — que, por pura extravagância,
decidiu sair pela janela quebrada para explorar o teatro. Se desse errado, bem… ele
poderia colocar a culpa no parceiro. Com cuidado, Amarelo se aproximou da abertura
cúbica, onde a luz fraca e avermelhada ainda pulsava como um braseiro moribundo. Ele
empilhou, uma a uma, as quatro patas dentro da cavidade da máquina, sentindo um
arrepio subir pela espinha conforme as garras do brinquedo encostavam no metal
envelhecido.
Ao lado da abertura, havia uma alavanca curta, pintada de vermelho, marcada por
desgastes do tempo. Ele a segurou firme. Respirou fundo. E puxou com força.
A máquina estremeceu.
Um barulho ensurdecedor tomou a sala, engrenagens enferrujadas girando, pistões
rangendo, vapor escapando pelas frestas, e o som cavernoso do sistema pneumático
sugando as peças e empurrando-as pelas tubulações como se fossem pacotes de carga
viva. As patas sumiram da vista, engolidas pelo túnel de aço.
Durante alguns segundos, tudo permaneceu escuro e vibrante até que a luz vermelha
da abertura piscou e se tornou verde, brilhante, quase ofuscante, como o semáforo de
uma estação fantasma. Um pequeno “plim” metálico ecoou da máquina, suave, quase
sarcástico. Tudo indicava que o envio fora bem-sucedido.
Amarelo deu um passo para trás. Observou por um instante, sem saber se devia sentir
alívio ou inquietação. Estava prestes a sair da sala quando, do lado de fora, uma voz
familiar e alta cortou o ar abafado:
— SENHOR BOIOLAAA!! VEM VER ISSO AQUI EMBAIXO, AGORA!!
Amarelo fechou os olhos com força por debaixo da máscara, exasperado.
— Laranja, para de me chamar assim, caralho! — gritou de volta. — A gente tá no meio
de uma missão, porra! Eu acabei de mandar as quatro patas pro sistema da tubulação.
Agora a gente precisa encontrar os outros e seguir em frente!
A voz do Laranja voltou, mais animada, quase infantil, mas ao mesmo tempo continha
um pouco de terror:
— Eu prometo que faço tudo o que você quiser, cara! Mas você tem que ver isso. Agora!
Amarelo hesitou. Olhou novamente para a máquina, agora silenciosa e inerte. O
barulho ainda ecoava em sua mente, como se algo tivesse sido acordado. Mas a
curiosidade era uma força poderosa, principalmente ali, onde cada porta escondia uma
história não contada. Com um resmungo, ele caminhou até a janela quebrada por onde
Laranja havia saído e se preparou para olhar o que quer que tivesse deixado o idiota
daquele jeito.
Amarelo se arrastou com cautela pela abertura da sala do projetor, desviando
cuidadosamente de estilhaços de vidro, tábuas quebradas e pregos que poderiam
rasgar seu uniforme ou feri-lo gravemente. Quando emergiu do outro lado, deu de cara
com as arquibancadas do teatro.
O local à sua frente parecia um túmulo da decadência. Da posição elevada, ele podia
ver toda a extensão do auditório. Um teatro outrora majestoso, agora entregue ao
abandono e ao caos. Escoras metálicas dominavam o salão, sustentando montanhas
de caixas empilhadas de maneira instável. Entre os andaimes e pilhas de entulho,
cadeiras foram jogadas umas sobre as outras, formando um amontoado torto no centro
da sala. Cortinas pesadas e empoeiradas pendiam dos balcões superiores, e o carpete,
antes luxuoso, agora estava encardido por anos de poeira e umidade. O ar cheirava a
mofo, ferrugem e velharia esquecida. Ele pulou para baixo, usando as poltronas
cobertas de mofo e teias de aranha como apoio para descer pelas arquibancadas. A
cada salto, se agarrava nas estruturas de ferro e madeira, tomando cuidado para não
derrubar nada e atrair o que quer que pudesse estar por ali.
Já no chão, avançou em direção ao palco. Foi então que o viu.
Laranja estava agachado, imóvel, no centro do palco. O mesmo palco envolto por
cortinas vermelhas pesadas e iluminado por holofotes mortos, como na última
apresentação de um espetáculo condenado. Atrás dele, em meio a brinquedos
tombados e restos de cenário, uma grande ilustração tomava conta do fundo do palco:
um rosto de Huggy Wuggy com expressão caricata, com olhos exageradamente alegres
e uma boca escancarada com dentes afiados em formato de túnel, cercada por chamas
pintadas. Um portal para o inferno, enfeitado para parecer divertido.
Mas o que realmente chamou a atenção de Amarelo foi a poça escura que começava
exatamente sob os pés de Laranja, escorrendo pelas tábuas do palco como se algo
estivesse sangrando da própria estrutura. Laranja olhou para ele. O sarcasmo usual, a
irreverência ácida… haviam sumido. Ele apenas sussurrou:
— Vem aqui. Agora.
Amarelo subiu no palco sem dizer nada, os passos pesados, como se a gravidade
tivesse triplicado. Quase abriu a boca para perguntar o que estava acontecendo… mas
então viu.
O corpo de Azul estava estirado no chão. A cabeça dele havia sido arrancada
brutalmente, a carne dilacerada, o sangue ainda fresco formando um lago sob o tronco.
Os restos se espalhavam pelas tábuas: o sangue havia espirrado nas cortinas, escorrido
pelas bordas do palco. Ao lado do corpo, repousava uma caixa de música azul,
adornada com figuras geométricas amarelas — triângulos, quadrados e círculos — em
cada face. Estava coberta de respingos de sangue. O contraste entre a cor alegre da
caixa e a cena hedionda era perturbador.
Amarelo se aproximou em silêncio, o estômago revirando, mas o olhar firme. Vasculhou
os bolsos do companheiro caído com mãos trêmulas, encontrando o que precisavam:
as partes restantes do brinquedo. A cabeça com o pescoço ainda unidos, e o tronco
com a cauda. Ele os guardou no próprio bolso, como quem realiza um ritual silencioso.
Ele já havia visto corpos assim antes. Mais de um. Na época em que tudo deu errado,
quando aquilo que chamavam de “progresso” criou horrores com olhos de botão e
sorriso de feltro. Amarelo não tinha mais espaço dentro de si para o choque.
Ele se virou, ainda de costas para Laranja e para aquela cena aterrorizante.
— Temos tudo. Precisamos sair daqui agora. A coisa que fez isso… pode estar por
perto. Vamos voltar pro trem.
Laranja assentiu, se levantando com dificuldade. Mas antes de seguir, ele não resistiu.
Girou o corpo e desferiu um chute com força na caixa azul ao lado do corpo de Azul, a
estrela amarela em seu centro afundando sob o impacto. Ele virou-se para ir embora…
e foi então que a caixa respondeu.
Com um som metálico repentino, como engrenagens travadas se libertando, a tampa
da caixa se abriu. De dentro dela, saltou uma garra vermelha, felpuda, conectada à
estrutura por uma longa mola espiralada. As garras agarraram o braço de Laranja com
força, arranhando sua pele através do uniforme. Antes que ele pudesse reagir, uma
segunda garra saiu da lateral oposta, agarrando o outro braço.
Laranja gritou:
— ME SOLTA! ME SOLTA! AMARELO, AJUDA! AJUDA, POR FAVOR!
Mas Amarelo não se mexia. Seus olhos estavam arregalados, sua respiração travada,
o corpo enrijecido pelo pânico. Estava paralisado. Incapaz de agir.
Duas novas molas emergiram da base da caixa, cada uma com patas peludas de garras
afiadas, que agarraram as pernas de Laranja e começaram a puxá-lo.
Então, por fim, surgiu a cabeça.
Da tampa superior da caixa, uma última mola saltou, revelando uma criatura grotesca
e monstruosa. Era como um brinquedo deformado: a cabeça era uma grande caixa
felpuda vermelha, com olhos saltados e brilhantes, negros como botões molhados, que
contrastavam com um sorriso de dentes pontiagudos e exageradamente largos. Entre
esses dentes, uma língua rosada e viscosa pendia como a de um predador faminto.
A criatura abocanhou o Laranja com violência, o som dos ossos esmagados ecoando
pelo teatro vazio. Tudo o que restou para fora da boca foi um único braço, ainda
espasmodicamente tentando escapar.
O Amarelo não piscava. Ele não gritava. Ele apenas encarava.
A criatura mastigava com prazer, os olhos fixos nos dele, como se saboreasse não
apenas a carne… mas o pavor do sobrevivente. Amarelo sabia que coisa era aquela.
Boxy Boo. Um dos mascotes da Playtime Company. Um brinquedo que deveria ter
trazido alegria e risos. Mas aquilo… aquilo não era um simples mascote. Era fome. Era
desespero encarnado. Amarelo e ele ficaram se encarando em silêncio, enquanto o
sangue gotejava lentamente das mandíbulas abertas de Boxy Boo. O estalo seco. O
som úmido. Os estalos das juntas de Boxy Boo. Tudo isso ecoava na mente de Amarelo
como um disco quebrado.
Suas pernas estavam coladas ao chão de madeira, o corpo vibrando com a adrenalina,
mas sem responder. O local onde estava se tornava irreal, como se estivesse preso
dentro de um pesadelo distorcido demais para ser verdade. Boxy Boo inclinou a cabeça
de forma abrupta, curioso. Um dos braços estalou violentamente para o lado, atingindo
uma parede e arrancando pedaços de reboco com facilidade.
E então... ele deu o primeiro passo.
Clack.
O som da pata fina tocando a madeira fez o corpo de Amarelo estremecer por completo.
A paralisação que o dominava quebrou-se de forma abrupta, substituída por puro
instinto. O som abafado dos próprios passos ecoava no chão de madeira envelhecida.
Amarelo, ofegante, atravessou as pesadas cortinas vermelhas do palco. Ao ultrapassá-
las, foi engolido por uma penumbra quente e densa. Atrás dele, o tecido foi brutalmente
rasgado: Boxy Boo também havia atravessado. As luzes do palco, amareladas e
laterais, recortavam o vulto deformado do monstro. Sua silhueta saltitante parecia uma
marionete quebrada, arrastando garras afiadas pelo chão como um aviso cruel. Quando
Amarelo olhou para trás, viu os olhos de Boxy brilhando com um ódio brincalhão e
animalesco.
O local para onde ele havia corrido era uma espécie de bastidores daquele teatro,
repleto de sombras longas, caixas de madeira empilhadas com pinturas infantis
desbotadas — estrelas, colinas verdes, flores tortas. Um grande cenário de árvore de
papelão, já desgastado pelo tempo, estava inclinado num canto. Havia escadas e
andaimes de manutenção, refletores desmontados, cabos e pedaços de cenário
espalhados por cada canto do lugar. Um ventilador de hélice pendia inerte, jogando uma
sombra sinistra nas paredes de tijolos vermelhos. Do chão, um alçapão aberto irradiava
um brilho vermelho pálido, indicando a escadaria de fuga mais abaixo.
Amarelo se esgueirava entre os objetos, esbarrando num cavalete e derrubando pincéis
secos. A madeira estalava sob seus pés. Ele se jogou atrás de uma pilha de caixas
decoradas com letras coloridas, tentando conter sua respiração ofegante. Boxy Boo
vasculhava meticulosamente, os passos suaves e saltitantes alternando entre o cômico
e o grotesco. Cada vez que ele se aproximava, Amarelo podia ouvir o ranger das molas
tensionadas no corpo da criatura.
Ele conseguia sentir a respiração do monstro cada vez mais próxima.
Amarelo disparou de seu esconderijo e correu, pulando caixas, escorregando pela
madeira solta. Boxy Boo então salta sobre objetos, derrubando com brutalidade tudo o
que fica no caminho. Um refletor cai, estilhaçando-se ao lado de Amarelo. Ele escapa
por pouco.
Os olhos dele fixam-se no alçapão aberto, com a escadaria distante iluminada por
lâmpadas vermelhas e pálidas. Ele corre. Corre como se os pulmões estivessem prestes
a estourar.
Boxy grita, ruge, salta. Amarelo, sem pensar, atira com seu GrabPack contra um
armário amarelo decorado no canto da sala. A mão vermelha do aparelho acerta com
precisão cirúrgica. Ele puxa com força e o armário, já desequilibrado, tomba.
CRASH!
O armário desabou sobre Boxy Boo, que foi atingido no peito e derrubado entre
pedaços de madeira e tintas secas. Um chiado metálico escapou de sua garganta, e
suas pernas ainda se debatiam como molas avariadas.
Amarelo não esperou para ver mais. Ele se lançou escada abaixo, atravessando o
alçapão aberto no chão, deixando para trás a criatura soterrada e o som de suas molas
ainda tentando se erguer.
...
Caleb estava sentado com os braços apoiados sobre as pernas, a máscara encarando
o chão. A sala onde descansavam parecia esquecida por qualquer senso de conforto.
As paredes, feitas de concreto cinza-escuro, estavam manchadas pela umidade e pelo
tempo. Uma lâmpada vermelha girava lentamente no teto, lançando luzes cíclicas que
criavam sombras dançantes nos cantos.
No outro lado da sala, Verde estava diante de uma máquina de venda automática
quebrada. Seus dedos batiam de leve na lataria amassada. A máquina exibia uma arte
infantil desbotada, com olhos grandes e um sorriso congelado. Ele deu um chute leve
no canto, sem força real, apenas frustração.
— Essas porcarias devem ter parado de funcionar antes mesmo de construírem isso
aqui — resmungou ele, voltando lentamente para perto de Caleb.
Sentou-se na poltrona em frente à dele, o assento estalando levemente sob o peso.
Entre eles havia uma pequena mesa com um walkie-talkie, alguns papéis molhados e
balas coloridas, abandonadas e cobertas por poeira. Caleb não se moveu. O silêncio
entre eles era grosso, como se cada segundo pesasse mais que o anterior.
— Você já pensou em quem éramos antes disso? — perguntou Verde, sem olhar
diretamente para ele.
Caleb ergueu levemente a cabeça.
— Antes de entrarmos na Playtime?
— Antes de tudo — respondeu o outro. — Antes das máscaras. Antes de virarmos
números. Cores.
Caleb apoiou-se no encosto da cadeira, cruzando os braços.
— Eu lembro de flashes... Um quarto pequeno, luz entrando pela janela, cheiro de café
queimado. Mas não lembro do que sentia. É como se aquela vida tivesse acontecido
com outra pessoa. Já tem tanto tempo…
Verde assentiu lentamente.
— Às vezes penso que é melhor assim… — disse ele.
Um tempo se passou. O zumbido do ventilador velho no teto preenchia o vazio.
— Você acha que alguém vai saber o que aconteceu aqui? — perguntou Caleb.
— Alguém talvez saiba — respondeu Verde. — Mas entender... isso não. Esse lugar
tem vida própria. Como se quisesse que tudo fosse esquecido.
— Então por que a gente ainda tenta? Por que continuar procurando as peças, as
torres, as portas escondidas?
— Porque se a gente parar, então já morreu. E eu me recuso a deixar que esses
brinquedos sejam a última coisa que nos defina.
O silêncio voltou, mas dessa vez parecia diferente. Não era mais o peso do medo, e
sim um espaço de entendimento entre dois estranhos unidos por algo que ninguém lá
fora entenderia. Caleb se recostou, os olhos fixos na porta com a inscrição “SAÍDA”
iluminada em vermelho. Ele não disse nada, mas o pensamento era claro: aquela
palavra era só uma promessa. E promessas, na Playtime Co., raramente eram reais.
— Lembra daquela porta que a gente não conseguiu abrir na Ala Leste? — perguntou
Verde.
Caleb levantou os olhos.
— A que tinha o símbolo do coelho com os olhos riscados?
— Essa mesma. Fico pensando se atrás dela tem algo importante... ou só mais horrores
esperando.
— Não sei se quero descobrir — respondeu Caleb. — Mas você reparou? Todas essas
portas. Todos esses símbolos. Alguém desenhou isso. Alguém criou essa lógica.
— Alguém doente, você quer dizer.
Caleb assentiu lentamente.
— E ainda assim a gente joga o jogo. Junta as partes, ativa os pedestais, corre pelo
trem como se isso levasse a algum fim.
Verde suspirou e passou a mão sobre o capacete.
— Talvez não tenha fim. Talvez seja só isso. Um ciclo de busca e fuga.
— E o que você vai fazer quando conseguir sair daqui? Com o meio milhão no bolso
que nos prometeram, claro.
Verde demorou. Seus olhos vagaram pela sala.
— Iria pra bem longe. Silêncio. Céu aberto. Viver uma vida inteira podendo dormir sem
ouvir metal arranhando concreto.
Caleb o observou por um momento e então um som se instalou pelo local. Um barulho
metálico, oco e distante, reverberou pelas paredes. Ambos se ergueram imediatamente.
O som vinha da porta marcada com "SAÍDA". Os dois se aproximaram com cautela, os
passos lentos e olhos atentos.
Então a porta se abriu com um rangido brusco. E por ela entrou ele: o Amarelo.
Ofegante, trêmulo, apoiou-se na parede com o braço direito, tentando controlar a
respiração. A luz vermelha da sala refletia no seu uniforme enquanto ele olhava de um
lado para o outro, como se esperassem algo — ou alguém — surgindo atrás dele.
— O que aconteceu? — perguntou Verde, já se aproximando.
— Por que você tá assim? — completou Caleb, a voz firme.
— Não dá tempo de explicar! — respondeu Amarelo, quase engasgando com as
palavras. — A gente tem que sair daqui. Agora.
Ele enfiou a mão no bolso e puxou duas peças: a cabeça com o pescoço e o tronco
com a cauda do brinquedo. O tecido falso estava sujo de graxa, sangue e um cheiro
químico estranho.
— Isso. Levem isso pro trem. Agora!
Caleb pegou as partes do brinquedo e as guardou no bolso do uniforme.
— Mas isso não é tudo — disse Caleb. — Cadê o resto das partes? Cadê o resto da
equipe?
Amarelo sacudiu a cabeça.
— Eu cuidei disso. Tá feito. A missão está completa. A gente só precisa correr o mais
rápido possível... —
Ele não conseguiu terminar a frase.
Da mesma porta por onde ele havia entrado, surgiu algo. Primeiro, o som: um ruído de
molas contra o chão, algo rítmico, pesado, como se uma caixa de metal pulasse com
raiva. E então ele apareceu.
Boxy Boo.
Sua forma era grotesca, animalesca, e mesmo assim quase caricatural. Um corpo com
estrutura de caixa, de onde brotavam braços extensos como molas cobertas por uma
pelúcia encardida e manchada. As garras eram compridas, curvas, reluzindo à luz da
sala. A cabeça quadrada era adornada com olhos grandes e pretos, brilhando de uma
alegria sinistra e insana. A boca serrilhada se abria de forma quase exagerada,
revelando dentes metálicos afiados, como lâminas disfarçadas de brinquedo. Seus
pelos estavam sujos, alguns queimados. Mas nada disso importava tanto quanto o
movimento seguinte.
Num piscar de olhos, Boxy Boo lançou sua garra esquerda em um golpe lateral direto
contra o crânio de Amarelo.
O impacto foi violento. O som seco do osso se partindo ecoou alto, quase abafando o
estalo da carne rasgada. A garra atravessou parte do capacete e cravou-se no pescoço,
arrancando parte da proteção e expondo carne, tendões e ossos quebrados. O sangue
espirrou para todos os lados: na parede, na porta, em Verde, em Caleb.
O corpo de Amarelo tombou com um baque úmido, a vida abandonando-o de imediato.
Verde ficou paralisado por um segundo. Caleb também. E por um momento, Boxy Boo
apenas os encarou. Um silêncio estranho caiu, mas durou pouco.
Boxy Boo soltou um rugido grotesco e mecânico, um som agudo e grave ao mesmo
tempo, como o ranger de uma porta enferrujada se misturando ao riso de uma criança.
Verde e Caleb não hesitaram. Correram na direção oposta, pelos corredores escuros
de onde tinham vindo. Os passos de Boxy Boo ecoaram atrás deles, pesados,
espaçados, cada um reverberando com violência pelo concreto.
Atravessando o corredor com o som dos próprios passos acelerados, Caleb e Verde
emergiram na sala onde haviam estado anteriormente. Era um cômodo amplo, mas
sufocante, de piso branco dividido por losangos coloridos — azul, vermelho e verde-
limão. As paredes cobertas por papel azul-escuro com listras verticais davam ao
ambiente uma atmosfera decadente de parque infantil abandonado. Vários armários de
metal, uma pilha de caixas, paletes encostados e máquinas antigas de brinquedo
preenchiam os cantos com sombras deformadas.
Eles mal tiveram tempo de se recompor.
A porta se escancarou com violência. Boxy Boo entrou em disparada, soltando um
guincho agudo e cortante. Seus olhos negros estavam fixos, famintos. As garras afiadas
de suas mãos se moviam descontroladas, arranhando o ar como se tentassem rasgar
a própria atmosfera. Seus dentes triangulares se abriram numa bocarra enorme
enquanto saltava pelo ambiente com agilidade monstruosa, como um brinquedo
assassino alimentado por pura raiva. Caleb e Verde imediatamente se separaram,
tentando criar distração e confusão. Utilizando seus GrabPacks, lançavam objetos, se
impulsionavam pelas estantes e usavam o cenário como armamento improvisado. Caleb
derrubou uma estante sobre Boxy, que apenas a espatifou com o corpo. Verde deslizou
sobre o chão molhado de sangue e óleo, se escondendo atrás de uma pilha de caixas,
apenas para ser quase atingido por um salto relâmpago da criatura.
Boxy Boo era implacável. Ele se movia rápido demais, pulava com a leveza de uma
mola solta e esticava seus braços mecânicos de forma imprevisível. Em um desses
ataques, ele mirou diretamente em Verde. A garra direita de Boxy se estendeu com um
estalo metálico, atravessando o ar com precisão e brutalidade. As unhas se cravaram
no ombro de Verde, dilacerando o tecido e rasgando a carne. O grito dele foi engolido
pelo som do sangue jorrando contra as caixas e o piso quadriculado. Boxy Boo o puxou
para perto.
Verde foi arrastado como uma marionete presa a fios invisíveis, debatendo-se, tentando
soltar o braço com o GrabPack, chutando o chão, clamando por ajuda. Caleb correu na
direção da criatura, lançou seu GrabPack tentando atingir o rosto de Boxy, mas era
como acertar um trem em movimento com uma pedra.
Boxy Boo não hesitou. Num movimento brutal, mordeu a jugular de Verde com suas
mandíbulas triangulares. O som foi seco e cruel, seguido por um jorro de sangue que
pintou as paredes e o rosto de Caleb. Verde tremeu. Seus olhos perderam o foco. O
corpo caiu com o baque de algo que já não tinha vida.
Boxy soltou o cadáver e se voltou lentamente para Caleb. Foi nesse instante que Caleb
percebeu: estava sozinho. Com o desespero inflamando suas veias, ele disparou em
direção à porta mais próxima. Usou seu GrabPack para se puxar com força, o gancho
se prendendo ao batente, projetando-o para frente com velocidade. Seus pés
deslizavam pelo chão colorido enquanto a respiração se tornava cada vez mais irregular.
Atrás dele, o som metálico de molas esticando encheu o ar. O monstro estava vindo.
Caleb saiu correndo pela porta de saída daquela sala, indo parar atrás do balcão cheio
de máquinas de pipoca e refrigerante que já não funcionavam mais. O cheiro ali era
pútrido e nojento, como se algo tivesse apodrecido dentro das tubulações ou dos
reservatórios. Mas ele tentou ignorar aquilo. Agora não era hora de pensar em cheiro.
Ele correu para longe do balcão, seus passos ecoando no tapete vermelho e puído,
com Boxy Boo no seu encalço, destruindo máquinas e barreiras no caminho com suas
garras extensíveis e afiadas. Caleb chegou de volta ao salão principal do teatro.
Era um lugar amplo e imponente, decorado com colunas pretas com detalhes dourados
e corações estilizados em bronze, sustentando um teto alto com lustres e ornamentos
antigos. Ao centro, aquela enorme estátua dourada do Huggy Wuggy se erguia sobre o
pedestal escurecido, uma das mãos erguidas em sinal de boas-vindas e a outra
apontando para frente. Piso de ladrilhos vermelhos, azuis e brancos se estendia por
todo o chão, formando padrões quase hipnóticos. Caleb estava em um verdadeiro teatro
abandonado e fantasmagórico. Mas agora a atmosfera era muito diferente de quando
ele tinha entrado ali. O som dos passos de Boxy e os estalos da madeira pressionada
pelas suas patas ecoavam pelas paredes como um rugido vindo do inferno. Caleb correu
em zigue-zague, usando um pedaço solto da cortina vermelha que caíra de um dos
pilares para enrolar nas garras de Boxy. Quando a criatura tentou puxar o pano, ele se
embolou por um momento, dando a Caleb os segundos que ele precisava.
Sem pensar duas vezes, ele desceu correndo as escadarias do lado direito. Seus
passos reverberaram pelos degraus de mármore. Quando chegou à estação inferior,
finalmente avistou o trem novamente. Era uma locomotiva colorida e vibrante, com um
design claramente feito para agradar crianças. A frente do trem era pintada de azul
celeste, com uma grande chaminé em forma de cone nas cores verde e amarelo, e um
para-choque dourado que lembrava a boca de uma escavadeira de brinquedo. Os faróis
estavam acesos, emitindo uma luz suave e quente. A carroceria tinha detalhes em
vermelho, amarelo, azul e verde, com janelas quadradas enfileiradas nas laterais dos
vagões. As rodas douradas contrastavam com o chão sujo da estação. Dois pequenos
olhos mecânicos com molas estavam presos dos lados da cabine, como se o trem
estivesse sempre alerta. Era quase como um mascote da Playtime Co., mas agora era
a única chance de sobrevivência de Caleb.
Ele tentou abrir a porta do vagão, mas ela não se movia. Desesperado, olhou para os
lados e viu uma pilastra com um pequeno painel embutido. Um botão com o símbolo de
um vagão brilhava em verde-esmeralda. Sem pensar, ele começou a clicar
freneticamente, quase esmurrando o painel. O trem respondeu lentamente. A ferrugem
fazia com que a porta abrisse em um ranger demorado e sofrido.
Nesse exato momento, ele ouviu o som de passos correndo pelas escadas. Boxy Boo
havia conseguido se soltar da cortina e estava vindo. Caleb olhou para trás com os olhos
arregalados. A porta do vagão havia aberto apenas o suficiente para que ele passasse.
Sem hesitar, ele pulou por aquela fresta, entrando com um impulso desesperado. Mas
a porta continuava abrindo, lenta como uma música de caixa de brinquedo em rotação
quebrada. Boxy se aproximava rapidamente. Caleb mirou as duas mãos do GrabPack
nas bordas da porta e disparou. As garras se prenderam nas maçanetas. Ele puxou com
toda a força que seus braços permitiam, os dentes cerrados e os músculos tremendo
com o esforço.
Com um estalo, a porta finalmente cedeu. Fechou-se no exato momento em que Boxy
Boo saltava. A criatura bateu com tudo contra o metal, arranhando e esmurrando a porta
com suas unhas e dentes afiados. Caleb caiu sentado no chão, ofegante, enquanto o
monstro do lado de fora rugia e tentava forçar entrada. Mas era em vão.
Ele estava seguro. Finalmente seguro.
Caleb olhou ao redor. As luzes do interior do vagão piscavam fracamente, revelando
os assentos gastos, as paredes riscadas e as marcas do tempo. Nos bancos ao lado,
estavam as quatro patas do brinquedo que ele precisava. E, ao lado delas, a pelúcia
amarela de Huggy Wuggy. Ele não fazia ideia de como Amarelo havia conseguido
colocá-las ali. Mas havia conseguido.
Com um suspiro de alívio, Caleb tirou de seu bolso as peças do brinquedo que ele havia
coletado e as deixou cair no chão, uma a uma. Ao longe, o som de Boxy arranhando o
vidro reforçado das janelas persistia, mas era apenas um ruído distante agora.
O GrabPack estava quebrado. Mas ele havia sobrevivido. E isso era o que importava.
Depois de alguns segundos de silêncio e respiração pesada, Caleb permaneceu
sentado no chão metálico do trem, encostado na parede, os olhos fixos em algum ponto
invisível à frente. O silêncio foi rompido pela estática: os autofalantes, empoleirados
como sentinelas nos cantos do vagão, se ativaram com um chiado frio, que varreu o ar
como uma lixa em carne viva.
A seguir, veio a voz.
— Vermelho. Onde estão os outros? As peças estão todas com você?
Era Leith Pierre. Sua voz vinha filtrada por um canal sujo, mas ainda assim carregava
aquela frieza cortante, desprovida de urgência, como se estivesse apenas checando
uma planilha de tarefas.
Caleb demorou um segundo antes de responder. A garganta estava seca.
— Estão todas comigo — disse ele, rouco. — Eles… os outros estão mortos.
Silêncio.
Alguns segundos se passaram. Leith pareceu não processar a informação como um
ser humano. Nenhum lamento. Nenhuma pergunta. Nenhuma reação.
— Então a missão está cumprida — disse por fim.
E como se aquelas palavras fossem o comando necessário, o trem estremeceu, tossiu
faíscas de vida e começou a se mover. Primeiro lentamente, arrastando as rodas com
um guincho grave, depois ganhando ritmo e firmeza no trilho. Estava refazendo o
percurso de volta.
— Encontre-me mais tarde — continuou Leith. — Em Hurricane. Vou bancar a sua
viagem até a cidade. Hotel, transporte, tudo. Quando nos encontrarmos, faremos a
troca. As peças do brinquedo pelos quinhentos mil dólares.
Caleb não respondeu. O som do trem se infiltrava em seus ossos.
— Se quiser, pode tirar a máscara agora, Vermelho.
Ele hesitou. A máscara estava colada ao rosto por suor seco, por horas de tensão, por
sangue que nem sabia de quem era. Mas tirou.
Levantou a mão, com os dedos trêmulos, e ergueu a máscara devagar, revelando-se
ao silêncio.
Era um rosto jovem, mas envelhecido nas bordas. As olheiras cavavam poços sombrios
sob os olhos verdes, e a pele, naturalmente clara, estava suja de fuligem, poeira e
vestígios da fábrica. O maxilar era firme, mas contraído. Os lábios, ressecados e
partidos. O nariz era um pouco torto — talvez de alguma briga antiga — e havia uma
cicatriz tênue na lateral esquerda do rosto, perto da têmpora, como um traço de navalha.
Mas o que mais chamava atenção era o olhar: um olhar que não estava mais ali. Era
como se tivesse deixado parte de si mesmo na escuridão daquela instalação esquecida.
— Quer ouvir uma musiquinha pra animar a viagem de volta? — disse Leith, com um
sorriso quase audível.
E sem esperar pela resposta, a estática voltou... e então a batida pop preencheu o
vagão com um absurdo: “Oops! I Did It Again...” de Britney Spears.
Caleb fechou os olhos. O contraste era nauseante. A música, infantil, boba, alegre
demais, dançava nas paredes como um deboche cruel. Leith era um psicopata. Era o
que Caleb pensava enquanto o trem corria. Leith Pierre, com aquele tom alegre e
indiferente, lembrava Patrick Bateman — o tipo de homem que poderia elogiar seu terno
enquanto escondia um machado nas costas. E foi nesse momento, entre o balanço do
trem e os versos descompromissados de uma popstar do início dos anos 2000, que a
história de Caleb começou a se levantar do chão da sua memória.
Caleb Bell era seu nome verdadeiro. Filho único de um casal que nunca aprendeu a
amar com consistência. Cresceu em trailers e apartamentos emprestados, no deserto
de Nevada. O pai desapareceu quando ele tinha nove. A mãe morreu de overdose
quando ele tinha catorze. Aprendeu a se virar com pequenos golpes, roubos discretos,
serviços obscuros que exigiam agilidade e não faziam perguntas. Mas Caleb era
esperto. Muito esperto. Havia algo em sua cabeça que funcionava como um relógio
preciso, como se ele visse os sistemas do mundo com clareza. Era bom com eletrônicos,
com circuitos, com fechaduras — e principalmente, com manipulação. Aos dezoito, já
tinha um portfólio de arrombamentos e invasões digitais que lhe renderam tanto inimigos
quanto respeito em fóruns da deep web.
Foi quando ele foi preso.
Não durou muito. Foi solto graças a uma proposta obscura: um homem engravatado —
ninguém menos que um representante de um consórcio de empresas anônimas — fez
uma oferta. Havia um lugar abandonado. Uma missão envolvendo algo sigiloso, técnico,
perigoso. Seriam algumas semanas de trabalho, talvez dias, e no final, meio milhão de
dólares. Ninguém mencionou a Playtime Co. até muito depois. O contrato tinha
cláusulas demais. Mas Caleb estava cansado. Cansado de sobreviver por trocados,
cansado de fugir, cansado de se sentir como lixo reciclável. Aceitou a proposta.
E agora, no fim de tudo, a música tocava. Os outros estavam mortos. O dinheiro estava
quase em suas mãos. Mas Caleb... Caleb não sentia vitória. Não sentia alívio. Só um
peso. Um vazio que o oprimia por dentro como um saco plástico grudado ao rosto.
Começou a tremer. Os ombros estremeceram primeiro. Depois o peito. E então as
lágrimas começaram a cair — silenciosas no início, traçando caminhos limpos por entre
a sujeira da pele. Não chorava só pelos outros. Chorava por tudo. Por si mesmo. Pela
mãe. Pela criança que ele tinha sido. Por ter sobrevivido... de novo.
A música ainda tocava, repetindo o refrão de forma quase histérica.
“I’m not that innocent…”
E Caleb chorava. Sozinho. No trem em movimento.
CAPÍTULO 1
2 de janeiro de 2025
O som do despertador rasgou o quarto como uma lâmina de som, áspero, insistente,
sem compaixão. Sete da manhã. Edward Finch estendeu o braço, apertou o botão com
um gesto automático e permaneceu ali, sentado, costas arqueadas, cobertor ainda
agarrado às pernas. O ar tinha cheiro de poeira velha e umidade recente.
Chovia lá fora. Ele ouvia as gotas escorrendo como dedos pelo vidro da janela,
arrastando sombras líquidas que dançavam nas paredes do quarto com a luz baça que
vinha do céu encoberto.
Ele apoiou o cotovelo no joelho e a mão no queixo. Observou o quarto em silêncio. Os
olhos de Edward eram de um azul difícil de definir. Olhos que carregavam algo quebrado
e fundo, como um espelho trincado refletindo um poço. Suas feições eram desenhadas
com uma precisão incômoda, como se o tempo, o sol e as noites em claro tivessem
talhado cada linha, cada ângulo, como punições visíveis. A testa vincada não por
preocupação, mas por hábito de pensar demais. Os ombros, curvados, não por cansaço
físico, mas por um peso que não se vê. Um peso que ninguém é capaz de enxergar.
À sua esquerda, o lado do quarto que não era seu.
Victor. O nome parecia sempre surgir com certo atraso na mente de Edward, como uma
notificação que ele nunca queria abrir. O lado de Victor era meticulosamente arrumado,
como um catálogo de normalidade e controle: uma cama de solteiro com lençóis cinza
esticados sem uma ruga, uma pequena estante com livros organizados por cor, uma
luminária retrô de latão, e nas paredes, três quadros perfeitamente alinhados — um com
um mapa antigo de Nova York, outro com uma ilustração de um organismo marinho, e
o último, uma impressão estranha de um cogumelo azul com legenda científica. A
organização era quase agressiva.
O lado de Edward era outra história. Um colchão jogado diretamente sobre o assoalho
de madeira, sem moldura. Lençóis embolados, travesseiros sem fronha, roupas limpas
e sujas indistintas em pilhas disformes. Um tênis sem par encostado na parede. Um
copo com água velho o suficiente para ter pequenas partículas boiando. Uma camisa
usada servia de cortina improvisada para uma das janelas. Victor já tinha reclamado da
bagunça, nos primeiros dias, quando Edward chegou com duas mochilas e o rosto de
quem tinha esquecido como pedir licença. Mas depois de dois meses, ele parou.
Simplesmente aceitou que o quarto era agora um continente partido em dois, e a única
fronteira era a mesa de cabeceira entre os colchões. A mesa não guardava nada. Servia
apenas para sustentar o despertador. Um pedestal sem função além do ritual matinal.
Edward deixou o silêncio se alongar, deixou a chuva encher o quarto com o som de sua
insistência. O teto era o mesmo desde que chegara, mas hoje parecia mais baixo. E
apesar da claridade que filtrava pelas nuvens, havia algo de noturno no cômodo. Uma
noite interna. Sentiu o corpo pesar, um cansaço sem nome, sem causa clara. Quase
adormeceu de novo. Só não o fez por causa do cheiro. Um aroma inesperado, quente
e oleoso, se insinuava por baixo da porta. Bacon? Panquecas? Algo familiar, quase
angelical. Talvez Victor estivesse cozinhando.
Edward se ergueu devagar, como se estivesse tentando não acordar alguma coisa
dentro de si. Pegou uma camiseta preta que estava largada entre a cama e a parede.
Cheirou. Suportável. Vestiu. O tecido era áspero. O ar também. Abriu a porta. A luz do
corredor era ainda mais pálida do que a do quarto. Uma casa de classe média
americana, com suas paredes de gesso amarelado, chão de madeira que estalava sob
os pés e um leve cheiro de café misturado com produtos de limpeza antigos.
Lá fora, o calendário já indicava que o ano havia virado, embora Edward não tivesse
celebrado nada. O mundo seguia, como sempre, indiferente. Os dedos tremiam um
pouco. Não era frio. Ele sabia. Era outra coisa.
Não pensava nisso. Melhor não pensar. Melhor seguir o cheiro. Melhor tentar existir um
pouco mais naquele dia cinza como todos os outros.
Ele seguiu o corredor até a sala, ou cozinha. Naquela casa, a única coisa que separava
os dois cômodos era um balcão. Passou pela porta do banheiro, do escritório e do
"quarto reservado", como ele costumava chamar, evitando qualquer definição mais
honesta. Esses eram os únicos cômodos do apartamento. Nada mais. Nada menos. Era
o suficiente.
O cheiro o guiava. Quente, amanteigado, com aquele fundo de gordura bem feita e algo
doce. Assim que entrou, teve a sensação de ter sido transportado para dentro de um
comercial de margarina dos anos 90. O jornal da manhã passava na televisão, a imagem
colorida, saturada demais. A apresentadora sorria com os dentes imaculados enquanto
narrava uma notícia absurdamente violenta: um casal fora encontrado desmembrado
em uma van incendiada nos arredores de Ogden. A mãe de um dos suspeitos declarara
que ele apenas “precisava de ajuda psicológica”. Victor não parecia notar. Mexia a
comida com o garfo, distraído. Edward também não se espantava mais. As pessoas
haviam parado de escutar as palavras.
O sofá, de tecido escuro e encosto gasto, abrigava dois celulares — o dele e o de Victor
— jogados ao lado do controle da televisão. Havia uma manta de crochê dobrada sobre
o encosto e um abajur com a cúpula torta ao lado, sobre uma mesa baixa com marcas
de copo. A sala era acolhedora em sua funcionalidade despretensiosa: um quadro de
uma floresta em preto e branco, uma estante com livros e DVDs antigos, e uma planta
moribunda num vaso de barro rachado. A cozinha do outro lado do balcão exibia seus
utensílios como troféus de batalha doméstica: cafeteira gotejando os altos suspiros de
um código de cafeína, fogão com uma frigideira ainda quente e respingada de gordura,
geladeira branca decorada com imãs de viagens e contas vencidas presas por clipes.
Duas cadeiras de madeira idênticas, uma ocupada pelo paletó preto bem cortado de
Victor, a outra vazia.
Dois pratos repousavam no balcão. O cheiro vinha deles. Panquecas empilhadas, com
manteiga derretendo por cima e xarope escorrendo lentamente pelas bordas. Ao lado,
tiras de bacon perfeitamente crocantes e ovos mexidos com pedaços de cebolinha. O
típico “café americano” fervente já estava servido em canecas distintas: uma azul com
uma lasca na borda, outra branca com a estampa de um gato usando óculos.
E ali estava ele. Victor Cross.
O contraste entre Victor e Edward era quase cômico, mas talvez fosse justamente isso
que funcionasse naquela amizade. Seu rosto era limpo, olhos castanhos e calorosos
que pareciam sempre perguntar se você está bem. Cabelos castanho-claros caíam de
maneira organizada sobre a testa, como se cada fio conhecesse seu lugar. Barba leve
e bem cuidada. Pele bronzeada com um viés natural de quem não teme a luz do dia.
Maçãs do rosto suaves, sorrisos fáceis. Uma presença acessível, inevitável. Vestia uma
camisa social branca, com os botões superiores abertos, mangas arregaçadas e uma
gravata preta afrouxada no pescoço. Tinha acabado de preparar o café e já comia em
pé, encostado no balcão. Comer em pé era um costume antigo dele.
Assim que os olhos de Victor encontraram os de Edward, ele abriu um sorriso como se
a manhã não estivesse tomada por nuvens escuras.
— Bom dia! — disse, com naturalidade.
— Bom dia — respondeu Edward, esforçando-se para soar leve.
Era o mínimo. O mínimo que podia fazer por aquele homem que o deixava viver de
favor há quase dois anos. Mesmo depois de tudo. Mesmo depois de ter tomado um
cômodo inteiro da casa só para si. Victor nunca cobrava. Edward não sabia como
retribuir tamanha gentileza.
— Diga aí, Ed... à quanto tempo você não coloca um cigarro na boca? — Victor
perguntou com um meio sorriso e um tom de ironia que beirava a provocação fraternal.
Edward pensou por um segundo, olhos baixos.
— Dez meses e vinte e três dias.
— Caramba. Você merece uma medalha — disse Victor, batendo levemente com o
garfo na borda do prato como se brindasse. — Sério mesmo. Bom trabalho, Ed.
Edward soltou um meio sorriso. Pequeno, quase involuntário.
— Foi você quem fez isso? — perguntou, apontando para o café da manhã.
— Fui. Acordei mais cedo. Achei que a gente merecia um café de início de ano. Com
esse tempo chuvoso que tá Salt Lake... sei lá, se começar um furacão aqui, eu não vou
me surpreender.
Victor riu. Edward também.
Edward se aproximou do balcão, pegou um prato, o garfo e levou para o sofá. Pegou
seu celular, guardou no bolso. Sentou-se. O assento cedeu com o som familiar de
espuma vencida. Ele comeu devagar, saboreando cada mordida como se fosse a única
coisa certa naquela manhã inteira.
— Você está... estiloso hoje — disse Victor, com um sorrisinho. — Esse perfume é
novo? Tipo "essência de mofo"?
Edward congelou por um segundo. A piada entrou como agulha. Victor percebeu.
— Ei... é brincadeira. É sério. Você tá estiloso, sim. Do seu jeito.
Edward assentiu, mastigando em silêncio. O gosto ainda estava lá, apesar do peso na
garganta.
— Você lembra daquele filme que a gente viu na faculdade? Aquele em preto e branco,
do cara que perde a identidade e acha que é um detetive? — Victor perguntou, ainda
comendo, apoiado no balcão.
Edward arqueou a sobrancelha, mastigando.
— "O Terceiro Homem"?
— Esse mesmo. Passou ontem de novo, tarde da noite. Fiquei vendo enquanto revisava
uns documentos. Aquela cena na roda-gigante ainda me deixa com um frio na espinha.
— Você e seus filmes noir... Todos eles parecem iguais pra mim — murmurou Edward,
sem levantar os olhos do prato.
Victor riu.
— Claro que parecem. Você tem o gosto cinematográfico de um bibliotecário em coma.
Mas eu respeito. Mesmo você estando errado.
— Você sempre gostou dessas coisas. Desde a faculdade.
— E você sempre fingiu que não ligava — respondeu Victor, com o mesmo sorriso leve
de sempre. — Mas eu lembro que você ficou acordado até três da manhã assistindo
aquele filme comigo. Aquele, lembra? Dos astronautas presos no espaço que ninguém
entendeu o final.
Edward se limitou a erguer uma sobrancelha. Victor continuou:
— Os filmes entendem mais de humanidade do que muito advogado por aí. E são
honestos. Sabe quem é ruim, quem é bom... hoje em dia, nem isso a gente tem.
Edward deu de ombros.
— Isso porque eles não tinham que aguentar a dona Carla dando xilique com a neta
ouvindo música.
Victor gargalhou.
— Não me fala! Ontem, onze e meia da noite, a criança tava cantando Taylor Swift no
volume de um show do Metallica. E eu tentando terminar um parecer sobre usucapião
urbana...
— Que merda. Qual a pena para perturbação do sossego? Posso denunciar
anonimamente?
— Só se você aceitar ser minha testemunha. Mas vai ter que ouvir o resto do relatório
daquele cliente insuportável que foi lá no escritório ontem... O cara achou que porque
meu sobrenome é Cross, eu sou herdeiro de alguma dinastia jurídica de Hollywood. O
idiota ficou tentando me dar aula sobre como processar uma empresa. Como se eu não
tivesse um diploma em Direito!
Edward sabia que Victor era um advogado brilhante. Sabia também que vinha de uma
família classe média-alta, mas que o pai, um homem orgulhoso, se recusara a ajudá-lo
financeiramente de verdade. Queria que o filho "construísse o próprio legado com as
próprias mãos". Agora Victor trabalhava no setor de correspondência de um escritório
jurídico mediano de Salt Lake. E ainda bancava as despesas de duas pessoas.
Edward se sentia um fardo desde que chegara ali. Lembrou do dia em que voltou para
a cidade, sem emprego e sem um lugar para viver. Foi aí que Victor veio à mente. Bateu
na porta do amigo, com as poucas coisas que tinha, quase como se já estivesse tudo
combinado para ele ficar lá. Mas não estava. Edward se lembra até hoje da expressão
assustada de Victor quando seu antigo colega de faculdade bateu em sua porta, pedindo
para morar de favor. Era quase como se ele tivesse dito: "Pronto, cheguei! Agora arranje
um jeito de me deixar confortável aqui!" No começo, ele não tinha se dado conta do
quão incômodo era, e Victor fazia questão de não o lembrar, fazendo o máximo para
que se sentisse acolhido.
Pouco tempo depois de chegar, Edward conseguiu um emprego como guarda noturno
no restaurante "Candy's: Hambúrgueres e Batatas Fritas", que tinha acabado de abrir
ali perto. Conseguiu se manter por um tempo, usando o salário péssimo para ajudar
Victor nas contas. Porém, foi demitido pouco tempo depois. Edward tinha o péssimo
costume de dormir constantemente em serviço, o que não agradou muito seus
empregadores. Provavelmente, a sua última experiência traumática com empregos não
tinha sido curada. Depois da Playtime, ele não tinha conseguido mais nenhum trabalho
de importância, o que era triste e irônico, levando em conta que não trabalhava mais lá
há dez anos.
— Mas sabe... acho que um dia isso tudo vai valer a pena — continuou Victor,
totalmente alheio aos pensamentos que corriam pela mente agitada de Edward. —
Quando eu abrir meu próprio escritório e colocar um fliperama na recepção. Com
certeza vai ter um fliperama...
Edward tinha parado de prestar atenção, apenas concordando com a cabeça. O silêncio
chegou com um tipo de conforto. Victor pegou o paletó que estava largado em cima da
cadeira e começou a agita-lo, como se para garantir que estava tudo certo. Logo depois
ajeitou a gravata. Estava quase pronto para sair.
A manhã continuava chuvosa. Mas, por algum motivo, estava mais suportável.
Edward pegou o controle remoto e trocou de canal na televisão.
“Começamos o nosso jornal de hoje com uma notícia chocante que abalou a pequena cidade de
Willow Creek, no interior de Ohio. Uma briga de casal terminou em tragédia, e a polícia já está
investigando o caso como um possível homicídio seguido de suicídio...”
Ele clicou.
A reportagem era longa. Um texto publicado por um jornal do local, feito por um
jornalista que também havia trabalhado como taquígrafo do processo, desde a primeira
audiência. Edward leu com os olhos franzidos, o maxilar um pouco tenso, mastigando
as palavras como se cada parágrafo fosse uma cápsula de veneno.
"O ex-funcionário, identificado como Akira Nakamura, alega ter sofrido danos físicos e
psicológicos enquanto exercia sua função como guarda noturno na unidade da Freddy
Fazbear Pizza, localizada nos arredores de Hurricane. Em seu testemunho, Akira relatou
que a empresa não havia informado sobre uma espécie de comportamento autônomo dos
animatrônicos durante o período noturno. Afirmou ainda que esses equipamentos
apresentavam risco real de ferimentos e que houve, ao menos em uma ocasião, tentativa
de agressão física por parte das máquinas."
Edward sentiu um calafrio leve subir pela espinha.
Claro. A mesma história de sempre. Um restaurante decadente, um turno da noite,
robôs com vida própria. Mas havia algo estranho — ele nunca ouvira falar desse caso
antes. Era recente, sim, mas parecia ter sido engolido pelo silêncio. Ainda mais curioso
era o fato de que, segundo o artigo, outras pessoas estavam envolvidas.
"Segundo depoimento do mesmo, ele e outros três membros da equipe caíram
acidentalmente em uma área subterrânea do restaurante, após cederem as tábuas
comprometidas do palco principal. Dois membros da equipe faleceram no local;”
Edward parou. "Subterrâneo?"
Ele mordeu os lábios. Aquilo não era padrão. Nenhuma unidade da Freddy’s, pelo
menos as conhecidas, tinha uma “parte subterrânea”. Não oficialmente. E mesmo que
tivesse... não haveriam motivos para não informar um turno noturno comum sobre isso.
O cheiro de encobrimento era evidente.
Mas o que mais o fez se inclinar para frente foi o nome mencionado logo a seguir:
"A Fazbear Entertainment, em sua defesa, alegou que o funcionário agiu de maneira
negligente ao descumprir normas de isolamento de áreas interditadas da pizzaria, tendo
acessado espaços considerados em manutenção sem autorização. Também apresentou
laudos técnicos afirmando que os animatrônicos eram 'completamente desativados'
durante o turno da noite e que qualquer movimentação poderia ser atribuída a falhas de
energia e deslocamentos mecânicos involuntários. O tribunal considerou válidas as
provas fornecidas pela empresa."
Edward bufou. Ele quase podia ouvir o tom burocrático dos advogados engravatados,
o brilho dos dentes polidos, a papelada fria que sempre limpava o sangue.
...
Edward acordou com um susto seco.
Um estalo forte, como de madeira rachando ao meio — mas era só o som de duas
palmas batidas do lado de sua cabeça. Ele puxou o corpo para frente com um tranco,
os olhos buscando foco no escuro da sala iluminada apenas pela luz do teto — uma luz
que ele jurava não ter acendido. O computador ainda emitia o brilho frio da tela, e os
fones estavam apertados em seus ouvidos. Ele os arrancou instintivamente.
Do lado, como uma aparição, estava Victor Cross
— Boa noite, bela adormecida — ele disse, com o habitual tom zombeteiro que usava
quando queria ser irritante. O que era quase sempre.
Victor já tinha tirado o paletó e jogado num dos ganchos da porta do escritório. A gravata
estava frouxa, o colarinho aberto, a camisa meio amarrotada nas pontas. A expressão
no rosto era um sorriso de orelha a orelha, tão relaxado quanto o jeito como encostava
o ombro no batente da porta.
Edward, ainda atordoado, piscou algumas vezes, sentindo uma fisgada aguda no
pescoço. A posição em que tinha dormido era péssima. O relógio do sistema marcava
19:03.
— O quê...? — murmurou Edward.
— Cara, eu cheguei às cinco. Você estava tão morto que achei melhor não te chamar.
Só liguei a luz pra garantir que não tinha falecido com os olhos fechados. E aí... — ele
apontou com o queixo para a tela — dei uma espiada no Messenger.
Edward arregalou os olhos.
— Victor...
— Edwardzinho falando com mulher! Meu Deus! E não só uma mulher qualquer. Louise
Wexler. Eu lembro dessa garota. Cabelo esquisito, jaqueta de motoqueira, tinha cara de
que fumava cigarro sem tragar. Você devia estar apaixonado.
— Não enche — Edward rebateu, ainda com a voz grossa de sono. — Ela só voltou pra
Salt Lake e quer rever a cidade. Conversa de civilizados. Vamos comer alguma coisa,
ela vai embora, fim.
— Comer alguma coisa, ele diz. — Victor riu. — Isso é um encontro. Aceita logo.
Namoradinha da faculdade mandando mensagem, você aceitando sair, marcando
restaurante tailandês romântico…
— Victor, — Edward cortou, a voz mais firme — se você continuar, juro que não
respondo por mim.
Victor levantou as mãos, teatral, como quem se rende a um assalto.
— Calma, calma. Só estou feliz por você. Vai que no fim a gente te vê usando camisa
com botão e tomando vinho tinto...
Edward revirou os olhos, mas não conseguiu conter um breve esboço de sorriso. Victor
se aproximou da mesa, se recostando nela.
— Mas falando sério, quando foi a última vez que você conversou pessoalmente com
uma mulher, tirando atendente de farmácia e caixa de mercado?
Edward respirou fundo, prestes a dizer “hoje de manhã”, quando pensou em Laura, na
padaria. Mas parou. Sabia que não era nesse sentido que Victor estava falando.
Romanticamente. Emocionalmente. Sem que a conversa terminasse com trocas de
troco ou recibos fiscais.
Ele hesitou. Pensou.
— Nove anos, talvez — disse por fim, seco.
— Nove? — Victor arregalou os olhos. — Você tem certeza?
Edward não respondeu. A memória estava ali, inteira, mas ele não queria desembrulhá-
la. Ele olhou de canto de olho para Victor. Lembrava-se muito bem da última vez que
ele se envolveu com alguém.
Foi quando Victor chegou no apartamento, com duas malas e o coração em cacos. A
namorada o tinha deixado, sumido de repente. Ele chorava nos cantos, falava no meio
da noite, ligava para a ex bêbado, largava pratos sujos pela casa como se fosse um
monumento à autopiedade.
E Edward suportou. Porque, bem, o cara estava vivendo de favor. E porque, por mais
que fosse insuportável, ele sabia o que era carregar um trauma sozinho. Dois meses.
Dois meses de uma convivência miserável entre duas pessoas esgotadas. Um tentando
juntar os cacos do coração, outro tentando simplesmente continuar respirando.
Mas Victor melhorou. Superou. Reconstruiu-se. Voltou ao trabalho, passou a sair, a
sorrir.
Edward não. Traumas diferentes. Recuperações diferentes. Uns cicatrizam. Outros
estendem as feridas e as transformam em moradia.
Ele respirou fundo e coçou os olhos, sentindo ainda o eco do vídeo de Milo Hensley
reverberar como um sussurro nos ouvidos.
— Vai me zoar até o dia do jantar? — perguntou, já resignado.
— Ah, no mínimo até o dia seguinte — respondeu Victor, esticando as pernas. — Mas
fica tranquilo, se for horrível, eu finjo ser o garçom e te salvo.
— Você é insuportável.
Victor piscou.
— Sim. Eu sei disso.
Edward encarou o teto, afundando na cadeira.
— Como foi o trabalho hoje? — Edward perguntou.
Victor ergueu as sobrancelhas, claramente surpreso com a pergunta — como se
Edward raramente demonstrasse esse tipo de interesse (o que, de fato, era verdade).
Ele se animou imediatamente, endireitando a postura como um vendedor que acaba de
ser convidado a fazer uma apresentação.
— Ah, meu amigo… foi um festival de tragédia e comédia. Sabe aquele caso do cara
que processou o hotel porque escorregou no próprio vômito?
Edward assentiu, com uma expressão de descrença que já era quase automática.
— Pois é. O juiz indeferiu, claro, mas o cliente insistiu que havia uma “negligência
implícita” porque o azulejo era escorregadio demais. Tive que passar uma hora
explicando pra ele que não é dever do hotel prever que os hóspedes vão beber meia
garrafa de tequila e depois perderem a dignidade no corredor.
Edward arqueou a sobrancelha, intrigado.
— E ele aceitou?
— Claro que não! Ele agora quer processar a fabricante do azulejo. Culpa do chão ser
muito chão.
Edward não conteve uma risada seca.
Victor abriu os braços, rindo junto, e continuou:
— E aí teve o outro cliente, aquele do divórcio. O cara tentou esconder os bens da ex-
esposa transferindo tudo pro nome do cachorro. Literalmente. O golden retriever agora
é dono de três carros, uma lancha e um apartamento em Ogden.
— Você tá zoando.
— Eu juro pela alma amaldiçoada do meu pai.
Edward cruzou os braços, o rosto se distendendo com a familiaridade do absurdo que
era o dia a dia de Victor.
— Parece que você se divertiu mais do que sofreu.
— É o único jeito de não enlouquecer. Ou virar juiz. — Ele olhou o relógio de pulso,
depois para Edward. — Mas e aí? Você dormiu a tarde toda, seu vegetal. Topa ver um
filme?
Edward hesitou. Estava estranhamente desperto, mesmo depois de um sono tão longo
quanto irregular. A ideia não parecia ruim.
— Tá passando “Gênio Indomável” na TV. Robin Williams, Matt Damon... Um clássico.
Tô indo fazer pipoca.
Victor se levantou de um salto e foi na direção da cozinha. Edward, relutante, saiu da
cadeira do computador, sentindo o corpo protestar com as juntas rígidas. Bocejou
enquanto seguia o amigo até a sala.
Ele não estava exatamente animado… Mas havia um conforto silencioso na ideia de
assistir um filme com alguém. Era uma pequena trégua com o mundo.
CAPÍTULO 4
5 de janeiro de 2025
A camisa social azul-marinho estava perfeitamente passada, encaixada com precisão
milimétrica sobre o peito de Edward Finch. As mangas dobradas até os cotovelos
deixavam à mostra os antebraços magros e um tanto pálidos. A calça bege de alfaiataria
parecia nova demais, como se tivesse sido comprada com um propósito que ele mesmo
desconhecia. Nos pés, um par de mocassins pretos reluzia sob a luz amarela do abajur.
Victor tinha polido aquilo como um ritual. Edward não sabia como se sentia sobre aquilo.
Na verdade, não sentia nada. Apenas se olhava.
Parado diante do espelho no quarto, ele parecia um impostor dentro do próprio reflexo.
Seus cabelos estavam penteados, a barba aparada, a postura estranhamente ereta por
conta da camisa que o apertava nos ombros. Não era assim que ele costumava se
apresentar. Aquilo ali não era ele. Pelo menos, não o que ele se acostumou a ser.
Victor estava sentado na beirada da cama, mãos animadas gesticulando, enquanto
falava como se estivesse treinando um réu para depor diante do júri.
— Olha, se ela falar de política, finge que tem uma opinião. Não precisa ser verdadeira,
só segura a conversa. Se ela perguntar o que você faz, mente. Ninguém precisa saber
que você é um ermitão. Sem querer ofender, claro. Diz que você escreve artigos. Melhor
ainda: diz que você tá montando um livro. As mulheres amam isso.
Edward sequer piscava, os olhos imóveis fitando o espelho. O reflexo o encarava de
volta como se fosse outra pessoa.
Victor continuava cuspindo palavras. Edward já estava ficando de saco cheio.
— E pelo amor de Deus, se ela sorrir, você sorri de volta. Mesmo que pareça um
derrame. E se ela encostar em você… sei lá, no braço, no ombro… não fuja. Não seja
um gato de rua, cara. Você só vai conversar com ela. Não precisa fugir como se fosse
uma emboscada do FBI.
Edward ajeitou o colarinho, respirando fundo. Como se tentasse lembrar a si mesmo
de onde estava.
— Vou sair — disse por fim, a voz baixa, seca.
Victor o olhou, meio surpreso com o fim abrupto do próprio monólogo.
— Quer que eu te leve? A gente passa no posto, eu te deixo na esquina, ninguém nem
vai notar que você é uma múmia social recém-ressuscitada.
Edward balançou a cabeça.
— Eu sei o caminho. Gosto de ir andando. Não tá chovendo hoje. Mas, obrigado mesmo
assim.
Victor franziu o cenho, mas logo se levantou, caminhando até a porta do quarto.
— Tá bom. Mas olha só… você vai ver, vai ser ótimo. Às vezes, a gente precisa deixar
alguém nos lembrar que a gente ainda é uma pessoa, entendeu? Só… se permite. Uma
brecha. Uma conversa.
Edward não respondeu. Apenas saiu, seguindo até a porta do apartamento e indo
embora. Ele só ia conversar. Dizer o que precisava. E ir embora.
Nada além disso.
Era o plano. Não o de Victor — mas o único plano que Edward conseguia suportar.
Desceu as escadas do prédio com velocidade, passou pela recepção e foi para a rua.
Seus sapatos soavam desconfortáveis em seus pés enquanto caminhava.
O mundo lá fora estava limpo, sem chuva, com uma luz de fim de tarde — quase
escurecendo por completo — filtrada pelas nuvens como uma lanterna esquecida sobre
a mesa. No fundo, ele já sabia que aquilo não era sobre Louise. Nem sobre a cidade.
Era sobre cumprir a obrigação de parecer humano. De dizer “sim” quando alguém o
procura. De agir como se ainda fosse capaz de manter conexões que não fossem só
circuitos de culpa e memória.
Salt Lake City à noite era um lugar de silêncios sutis, como se o tempo escorresse pelas
calçadas com mais delicadeza. As ruas, parcialmente iluminadas por postes alaranjados
e vitrines comerciais que já começavam a apagar suas luzes, formavam um mosaico de
sombras alongadas. Os prédios ao longe desenhavam um contorno escuro no céu que,
mesmo escurecido, deixava escapar um tom azulado profundo, como um véu prestes a
cair sobre a cidade. As árvores, sem folhas muito vibrantes naquela estação,
balançavam timidamente ao vento, quase como se sussurrassem entre si.
Edward caminhava com as mãos nos bolsos, mantendo os ombros ligeiramente
encolhidos. Não havia muito movimento, mas o suficiente para que ele tivesse que, de
vez em quando, se desviar de alguém ou desacelerar diante de uma calçada estreita. À
sua direita, passava por uma vitrine de uma loja de instrumentos, onde um contrabaixo
empoeirado ainda estava exposto ao lado de uma bateria desmontada. À esquerda,
uma barbearia já encerrava o expediente — o barbeiro apagava as luzes internas e, ao
vê-lo pela vitrine, Edward percebeu que o homem sorria ao telefone. Talvez estivesse
mandando uma mensagem para alguém dizendo que já estava indo pra casa.
O som da cidade era abafado, como se um cobertor grosso tivesse sido jogado por
cima do concreto. Carros distantes, risos contidos, o clique do salto de alguém em
alguma calçada paralela. Salt Lake não era ruidosa à noite — era contida, medida, como
um suspiro que se evita soltar por completo.
Foi então, pouco depois de cruzar a esquina da 400 South com a 300 East, que Edward
esbarrou.
Ele não tinha visto o casal se aproximar. O impacto foi leve — um toque de ombro, nada
mais — mas o suficiente para que a garota tropeçasse de leve e o garoto, alto, de boné
virado para trás, fizesse questão de parar, virar o corpo e falar alto o bastante para
dramatizar:
— Ei! Olha por onde anda, irmão.
Edward apenas o encarou por um segundo. Nenhuma palavra. Nenhuma desculpa. Os
dois continuaram andando, se afastando de mãos dadas. A garota riu de algo, talvez de
nervoso. Talvez por já terem esquecido dele.
Mas Edward não os esqueceu.
Ele já os tinha visto por ali. Não uma, mas duas vezes. E em ambas, com outras
pessoas. O garoto, da primeira vez, com uma mulher mais alta, de cabelo preso em um
coque apertado. Já a garota estava acompanhada por um sujeito de barba e mochila de
couro. Nenhum deles tinha mudado de aparência, só de companhia.
Isso acendeu um incômodo silencioso dentro de Edward. Não de raiva ou ciúmes, pois
ele não conhecia ninguém ali. Era algo mais enraizado: uma sensação de descompasso
com o mundo.
Ele começou a pensar. Ou melhor, divagar. Sobre o que era aquilo que os fazia trocar
de mãos como quem troca de canal na televisão ou assiste vinte vídeos curtos em três
segundos no Instagram. Ele sempre acreditou que relações reais tinham peso, memória,
raízes. Mas ali, vendo aqueles dois, tão leves, tão efêmeros em seus afetos, começou
a se perguntar se estava errado. Se era ele quem não conseguia se adaptar.
Talvez ninguém se conectasse com outra pessoa de verdade. Talvez todos só
estivessem tentando se ver no outro, ver uma imagem idealizada, limpa. Uma espécie
de pureza que não conseguiam encontrar em si mesmos. Era por isso que o passado
de alguém era sempre tão relevante, tão examinado: porque ninguém queria um espelho
sujo. As pessoas querem alguém virgem de experiências, alguém para se projetar e não
para realmente conhecer.
E no fundo, no fundo ele achava aquilo tudo ridículo.
“Amor é só uma construção frágil pra gente não pirar sozinho”, pensou. “Uma ficção
confortável que vende melhor que qualquer religião.”
Ele odiava casais adolescentes. Odiava adolescentes e odiava casais, no geral. Com
seus problemas inflados, seus dramas banais, seu jeito de caminhar como se
estivessem interpretando uma série própria. Mas talvez — talvez — ele os odiasse
justamente porque eles representavam tudo aquilo que ele havia perdido. Tudo o que
ele desejava recuperar, mas não podia mais alcançar. Juventude. Espontaneidade. Um
senso de importância no meio do caos.
Edward seguiu andando, sem pressa. O Siam Lotus Garden ainda estava a alguns
quarteirões. A noite se aprofundava ao redor dele, e o som de um saxofone distante,
talvez vindo de uma janela aberta ou de um músico de rua isolado, invadia a calçada
como um fragmento de sonho que escapou do lugar errado.
As calçadas de Salt Lake se tornavam mais vazias à medida que Edward se aproximava
do restaurante. As vitrines escurecidas dos comércios fechados pareciam observá-lo
como olhos cansados de uma cidade que já havia dito tudo o que tinha a dizer naquele
dia. Uma lanchonete 24 horas ainda piscava sua placa em néon azul, enquanto uma
lavanderia automática mantinha suas luzes acesas com duas pessoas sentadas,
cabisbaixas, esperando ciclos que pareciam eternos.
Já havia passado por aquela lavanderia antes. Só não se lembrava quando. Toda essa
cidade parecia um déjà-vu.
O som de carros distantes vinha como ondas: surgia, passava, desaparecia. Ele cruzou
a última avenida antes do restaurante e, ao virar a esquina, o letreiro do Siam Lotus
Garden finalmente apareceu.
A fachada era simples, mas havia algo cativante nela. Um painel iluminado com luzes
fluorescentes de tom âmbar exibia o nome do restaurante em letras cursivas: “Siam
Lotus Garden”, e logo abaixo, em letras menores, “Servindo Comida Tailandesa desde
1992”. Do lado esquerdo, um painel de madeira vertical com desenhos florais asiáticos
gravados na superfície imitava entalhes manuais, provavelmente feitos por máquina,
mas ainda assim bonitos. Havia dois vasos de cerâmica com pequenas árvores em
formato de bonsai ladeando a porta de entrada, já desgastadas pela chuva, mas ainda
vivas.
O estacionamento era pequeno, com cerca de oito vagas, metade delas já ocupadas
por sedãs neutros e um SUV escuro. Havia uma placa de “Aberto” iluminada com neon
vermelho na vidraça da porta, e bem acima dela, um sino de latão pendurado por uma
corrente de ferro fina. A porta era de vidro, com uma moldura de madeira clara,
ligeiramente lascada nas extremidades.
Edward empurrou a porta.
“Tlin!”
O sininho soou com clareza, agudo e breve, enquanto ele entrava.
O interior do restaurante era surpreendentemente acolhedor. As luzes eram baixas, em
tons quentes de dourado, e não havia música ambiente, apenas um sutil zumbido vindo
da cozinha ao fundo. As paredes tinham papel de parede de textura delicada, com folhas
de lótus e tigres pintados à mão, bem discretos. Mesas de madeira clara, polidas,
estavam distribuídas de forma equilibrada, cada uma acompanhada por dois sofás
vermelhos, estofados com botões afundados, um de frente para o outro.
As luminárias pendiam do teto como frutas suspensas, cada uma em tom âmbar,
emitindo uma luz quente que envolvia o espaço em uma penumbra confortável. As
janelas, de vidro duplo, embaçavam um pouco a visão da rua. Não por sujeira, mas por
condensação do calor interno em contraste com o frio que começava a se impor do lado
de fora.
Edward escolheu um assento no fundo, encostado na parede mais distante da entrada.
Era o lugar mais afastado possível do sino da porta. Sentou-se devagar, observando o
movimento com olhos atentos. Havia apenas cinco mesas ocupadas. Um homem de
meia-idade sozinho, lendo um livro entre garfadas. Um casal de idosos que comiam com
uma calma ritualística. Uma mãe com duas crianças que brigavam por um hash brown
cortado ao meio. E dois jovens, talvez universitários, rindo discretamente, com os pés
se tocando por debaixo da mesa.
Edward desviou o olhar. Sobre a sua mesa, havia um suporte de guardanapos, um
saleiro, um cardápio plastificado e uma caneta preta com o nome do restaurante escrito
no corpo. Pegou-a entre os dedos e, por impulso, começou a rabiscar sobre o verso de
um folheto do cardápio.
Sem pensar muito, desenhou a silhueta de uma figura humana sentada em uma
cadeira, com as costas curvadas para frente, os braços apoiados sobre os joelhos, e a
cabeça pendendo como se dormisse ou carregasse um peso invisível no pescoço.
Acima da figura, desenhou uma linha curva que atravessava toda a folha, como uma
rachadura no ar. E acima dessa rachadura, flutuando, algo que parecia um balão, ou
talvez um coração inflado, amarrado à figura por um fio fino, como uma marionete que
sonhava em escapar.
Ficou observando o desenho por um tempo. Era sobre ele mesmo.
O corpo ali, sempre abaixado, sempre pesado. E a ideia (esse balão, essa possibilidade
leve) flutuando distante, mas presa. Nunca indo embora, mas também nunca chegando
perto o suficiente.
Talvez fosse isso que mais o cansava. A tensão constante entre o que ele era e o que
pensava que podia ser. Entre o que fazia e o que sentia falta de fazer. O medo constante
de não conseguir mudar e o medo ainda maior de realmente mudar.
A caneta ficou imóvel entre os dedos. Ele apoiou o braço na mesa e deixou o rosto
repousar sobre a mão.
Edward estava imóvel, seus olhos estavam fixos em um ponto qualquer no canto do
restaurante. Não havia som, não havia pressa. Apenas aquele vazio lento, confortável
e cruel. Não sabia se dez minutos haviam passado ou se era uma hora inteira. O tempo
não importava. Ele só queria terminar aquilo, falar com Louise e ir embora.
Mas então, o sino da porta tilintou com sua voz metálica e doce. Alguém havia entrado
no restaurante.
“Tlin!”
Edward ergueu os olhos por instinto. E ali estava ela.
Louise Wexler.
Ela era diferente da imagem que Edward tinha visto no Messenger, não de uma forma
negativa, apenas mais real, mais presente. O tipo de beleza que não cabia num
retângulo de pixels. Seu cabelo castanho escuro caía um pouco abaixo dos ombros, liso
nas pontas, com uma leve curvatura que parecia natural. Sua franja descia suavemente
pela testa, sem rigidez, enquadrando os olhos grandes e vivos. Usava uma calça jeans
preta, justa, mas não apertada, desbotada nos joelhos, e um suéter de tricô verde-
musgo, de mangas largas, com pequenas bolinhas de tecido que denunciavam o tempo
de uso. Nada novo, nada chamativo. Uma blusa branca simples aparecia discretamente
pela gola do suéter. No pulso, uma pulseira de couro trançado que parecia ter sido
esquecida ali, de uso tão antigo que já devia ter deixado de ser um acessório.
Ela era linda.
Edward sentiu algo inesperado: gratidão. Gratidão por Victor ter insistido tanto. Grato
por ter sido praticamente empurrado para fora de casa. Pensou que, quando saísse dali,
compraria um presente para Victor. Na verdade, já vinha planejando isso havia dias,
como uma forma de agradecimento pela hospitalidade e pelos esforços do amigo. Mas
agora, isso se tornara uma dívida verdadeira, emocional.
Louise o reconheceu e sorriu, levantando uma das mãos para acenar. Edward devolveu
o gesto, com um sorriso contido, sem mostrar os dentes, apenas arqueando
discretamente os lábios.
Ela se aproximou e sentou-se no sofá de frente ao dele, apoiando a bolsa ao lado e
ajeitando a saia ao sentar.
— Desculpa pela demora, — disse ela, ajeitando a franja com a ponta dos dedos. —
Eu tive que resolver uma coisa com meu pai de última hora... acabei saindo atrasada.
Ele tem precisado de ajuda com umas burocracias do cartório, e você sabe como velho
não confia em nada digital. Ainda imprime e assina tudo como se fosse 1967.
Edward puxou o celular do bolso discretamente e olhou para a tela. Vinte minutos de
atraso. E ele nem havia notado o tempo passar.
— Tudo bem — respondeu, com suavidade. — Sem problema.
Ela sorriu, visivelmente aliviada.
— Sério, obrigada. Eu fico nervosa quando marco algo com pessoas que eu não vejo
há muito tempo. Nem sabia se você ia mesmo aparecer.
— Eu apareci.
— Apareceu, — ela confirmou com um sorriso leve, e por um instante os dois pareceram
relaxar um pouco mais na presença um do outro. — A gente terminou a faculdade há
quanto tempo mesmo?
— Treze anos.
Louise riu. Uma risada curta, espontânea.
— Nossa. Treze anos! Parece que foi outro mundo, né?
Edward riu também, mais por educação. Não sabia exatamente o que havia de
engraçado na constatação, mas era o tipo de coisa que merecia um sorriso social.
— Faz tempo mesmo — ela continuou. — Depois da faculdade, eu fui pra Seattle.
Consegui um emprego num instituto de design. Trabalhei lá uns cinco anos. Mas o ritmo
era horrível, e... sabe como é, você começa a ganhar bem e não tem tempo pra gastar.
Acabei largando tudo e indo dar aula de arte numa escola comunitária. É meio clichê,
mas foi libertador. Agora, com meu pai precisando de ajuda, resolvi voltar pra Salt Lake.
Temporariamente. Não sei se fico, mas... aqui estou.
Ela deixou a frase suspensa no ar, como um convite para que ele falasse algo também.
Mas Edward apenas assentiu com a cabeça, desviando o olhar para o guardanapo
sobre a mesa. Não podia contar o que havia vivido. Nem queria. O que havia dentro
dele não pertencia àquela mesa, nem àquele restaurante, nem àquela conversa. No fim,
seria legal não falar sobre sua vida depois da faculdade com ninguém.
— E você? — ela insistiu, sem perceber o desconforto. — O que tem feito da vida?
Edward fingiu não ouvir, e puxou o fio da conversa para outra direção.
— Quando a gente conversou, você mencionou que a cidade estava diferente. Que
percebeu coisas mudadas. O que exatamente você quis dizer?
Louise encostou as costas no sofá, pensativa.
— Meu pai está ficando velho. Ele começou a esquecer coisas, se atrapalhar com
remédios. Eu não podia ficar longe. Então, quando voltei pra cidade... foi estranho.
Algumas ruas estão mais cinzas, você reparou? Não sei se é porque eu envelheci, ou
se foi a cidade. Tudo parece mais... morto.
Edward concordou, com um meio-sorriso.
— Também senti isso. Sinto isso o tempo todo.
Ficaram em silêncio por alguns segundos.
— O pior é que eu não sei se é a cidade que mudou ou se sou eu. Talvez as duas
coisas.
“Não é a cidade que muda.”, Edward pensou, mas não disse em voz alta. “Ela sempre
foi sem graça, vazia, triste. O problema é que você muda, e passa a ver isso com mais
clareza. O envelhecimento é tipo um óculos de aumento. Os traumas também.”
Mas isso, ele não podia dizer. Seria um veneno em forma de pensamento. Em vez
disso, apenas assentiu novamente, e olhou pela janela embaçada do restaurante, onde
a noite já começava a engolir o resto da cidade.
Louise pegou o cardápio mais por educação do que por real interesse. Seus olhos
vagavam pelas opções com a leveza de quem estava apenas preenchendo o silêncio
entre frases, até que o deixou de lado e olhou para Edward de novo, com as mãos
cruzadas sobre a mesa.
— Você viu o que aconteceu na Casa Branca semana passada?
Edward arqueou levemente a sobrancelha.
— Na Casa Branca?
— É. Eu sempre soube que políticos eram monstros, mas não sabia que era no sentido
literal. — Ela deu uma risadinha nasal. — É sério, foi surreal. E ninguém tá falando
direito sobre isso. Mas, sei lá... às vezes eu acho que é essa indiferença deles, com o
próprio trabalho, que foi matando Salt Lake aos poucos.
Edward a olhou diretamente. Os olhos de Louise eram castanhos, mas refletiam uma
luz dourada sob a lâmpada âmbar do restaurante. Ele não fazia ideia do que ela estava
falando. Talvez tivesse perdido alguma notícia ou talvez... fosse só mais um daqueles
absurdos que o mundo fingia não notar. Ainda assim, ele assentiu com a cabeça, lento.
Não queria parecer desinformado. Mas, em sua mente, a última frase dela ficou
pairando — "foi matando Salt Lake aos poucos" — como uma isca, e dela, um
pensamento puxou outro, até que ele sentiu a necessidade quase física de falar. Como
se uma porta tivesse sido aberta por dentro.
— Sabe o que isso me lembra?
Louise inclinou o queixo, curiosa.
— O Cerco de Leningrado.
Ela pareceu surpresa com a mudança de assunto, mas não o interrompeu. Ele apoiou
os cotovelos na mesa, o olhar se intensificando.
— Duzentos e setenta e dois dias. Quase novecentos. Novecentos dias. Gente
comendo cola de parede, gatos de rua, farinha feita de papel. E o que mais me fascina...
é que a cidade não caiu. Quer dizer, uma cidade inteira, sitiada, morrendo aos poucos,
e mesmo assim... ela resistiu. Sabe por quê? Porque, mesmo cercada, mesmo
condenada, as pessoas se agarravam à ideia de que havia algo maior. Que a cidade
não era só um monte de prédios ou ruas nevadas. Era cultura, era memória, era
propósito.
Louise escutava sem piscar. Edward continuou, a voz ganhando ritmo.
— Tinha uma orquestra. A Filarmônica de Leningrado. Eles continuaram ensaiando,
mesmo enquanto as bombas caiam. Tocaram a Sétima de Shostakovich com os dedos
congelados e os pulmões doendo. E os alemães, os nazistas, pararam por alguns
minutos, só pra ouvir. Aquilo era resistência em forma de música. Uma cidade
respondendo ao cerco com arte.
Ele parou. Respirou. Seus olhos perderam o foco por um instante, e então retornaram
ao rosto dela. O silêncio entre eles agora era denso. Ela o olhava fixamente, como se
enxergasse cada camada do que havia sob sua pele.
Edward sentiu um frio subir pela espinha. “Será que falei demais?”, ele pensou.
Mas então ela riu. Riu alto.
Tão alto que o casal de idosos da mesa ao lado olhou com um leve franzir de testa.
Edward sorriu, hesitante.
— Do que você tá rindo?
— De você! — ela disse, com o rosto iluminado. — Você passou esse tempo todo quase
calado, respondendo tipo “aham”, “é”, “talvez”... e de repente explode num monólogo
apaixonado sobre Leningrado! Foi incrível. Totalmente inesperado.
Ele deu uma risada contida, balançando a cabeça.
— Desculpa.
— Não, não! Foi ótimo. E, olha, só pra constar: eu discordo em parte de você.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Ah, é?
— Sim. Eu acho que a cidade não resistiu porque as pessoas acreditavam em algo
maior. Eu acho que elas resistiram porque não tinham outra opção. Não é nobreza. É
sobrevivência. É medo da morte. Mas também, é isso que torna tudo mais bonito.
Mesmo sem acreditar, elas tocaram. Mesmo sem esperança, elas continuaram lutando.
Edward ficou em silêncio por um segundo. Depois, sorriu, de verdade dessa vez.
— Você sabe mesmo do que tá falando, hein?
— Claro que sei. Você acha que só você lê coisas mórbidas no meio da madrugada?
— Eu pensava, sim.
— Erro clássico. Subestimar a garota de franja com blusa de tricô.
Eles riram juntos. Pela primeira vez, havia algo leve ali.
— Sabe, — Louise retomou, — às vezes eu penso que a gente romantiza demais os
atos de resistência. Como se tudo precisasse ter um significado profundo. Mas nem
sempre é nobre. Às vezes a gente só continua porque parar parece pior.
— Sobreviver por teimosia?
— Exato. Eu gosto de pensar que a humanidade é movida por uma combinação instável
de teimosia, desespero e café ruim.
— Isso explicaria o Congresso.
Ela riu, mais contida agora.
— E você, Edward? Você sobrevive por quê?
A pergunta veio simples. Sem armadilhas. Mas bateu fundo.
Ele pensou. Não havia uma resposta que pudesse dizer em voz alta — não ali, não
com as luzes cálidas e os talheres batendo ao fundo, como um mundo que fingia
normalidade.
— Eu acho que... sobrevivo por inércia — disse, por fim. — Tipo quando você dorme
no ônibus e só acorda no ponto final.
Louise o olhou por um momento, e não parecia julgá-lo. Apenas... observá-lo. Como se
ele fosse algo que ela tentava decifrar, mas sem pressa.
— Você escreve?
A pergunta pegou-o de surpresa.
— O quê?
— Você escreve. Eu reconheço esse tipo de frase. Dormir no ônibus e acordar no ponto
final. Isso é coisa de quem escreve e finge que não escreve.
Ele desviou o olhar.
— Já escrevi.
— Ahá.
— Mas parei. Faz tempo.
— Por quê?
— Porque... — ele hesitou. — Porque às vezes escrever é como abrir a porta errada
dentro da própria cabeça. E também porque não sou muito bom com escrita.
Louise ficou quieta por um segundo, depois assentiu devagar.
— Eu entendo isso.
— Entende?
— Claro. Arte tem esse problema. Quanto mais honesta, mais perigosa. A gente não
escolhe o que sai. Só segura a caneta e reza pra que o monstro não pule de dentro.
Edward a olhou, impressionado.
Mais uma pausa. Mais um silêncio que não machucava.
A garçonete se aproximou da mesa onde Edward e Louise estavam sentados, com um
sorriso discreto e o bloquinho em mãos.
— O que vocês vão querer pedir? — perguntou, aguardando a resposta.
Edward e Louise pegaram o cardápio. Ele folheou as páginas com certa hesitação, os
olhos vagando pelos nomes exóticos, enquanto Louise já tinha a resposta na ponta da
língua.
— Eu vou querer o Pad Thai — disse ela, sem hesitar, olhando para a garçonete.
Edward continuou observando, absorvendo as opções do menu tailandês: Tom Yum,
Som Tam, Massaman Curry. Finalmente escolheu:
— Acho que vou de Massaman Curry.
A garçonete anotou no bloquinho que trazia em mãos e se afastou com um aceno
discreto, retornando ao balcão.
Louise retomou a conversa, retomando o fio interrompido:
— Como eu estava dizendo, a arte é mesmo problemática. Quando você começa a
escrever, o melhor é apenas pegar na caneta e deixar que os pensamentos transbordem
para o papel, sem autocensura, sem medo do que vai sair. Isso me lembra muito de um
filme que vi há alguns anos — ela fez uma pausa, o olhar distante, já mergulhada no
assunto —, se não me engano se chamava Closer.
Edward ouviu em silêncio enquanto Louise falava.
— Sabe, Closer é um daqueles filmes que não se esquece fácil — começou Louise, o
olhar fixo nele. — Foi dirigido pelo Mike Nichols, que já tinha uma reputação enorme
antes disso. Ele era conhecido por extrair das pessoas o melhor, sempre com uma
delicadeza meio cirúrgica, quase que um dom.
Ela pausou por um instante, ajeitando o cabelo que brilhava com a luz das lâmpadas.
— O roteiro, aliás, é baseado numa peça de teatro. Isso é visível na forma como o filme
é todo construído, parece que cada diálogo é uma lâmina, que corta e machuca sem
piedade. Você fica assistindo e, sem perceber, se sente desconfortável, como se
estivesse vendo sua própria vida refletida — Louise falou com uma leve intensidade,
como se experimentasse aquilo de novo. — E a trilha sonora não é só música de fundo,
sabe? Ela é um personagem por si só. Tem essa mistura de jazz com sons quase
dissonantes, que te deixa numa tensão o tempo inteiro. Tudo isso ajuda a construir
aquela atmosfera densa e crua, quase sufocante.
Edward não disse nada, seu rosto impassível, mas os pensamentos corriam soltos
dentro dele. A forma como Louise falava, com tanta paixão e profundidade, fazia com
que cada palavra ganhasse um peso inesperado. Ele não entendia metade do que ela
dizia, não poderia entender, e talvez isso fosse o que o prendia ali, quieto, olhando para
ela.
Ele se lembrou daquilo tudo que já tinha pensado antes, enquanto caminhava até o
restaurante, sobre o amor ser uma construção ilusória, uma armadilha para os
desavisados. Sabia que, no fundo, era cético, sempre foi. Mas ali, parado, ouvindo
aquela correnteza de ideias e sentimentos, sentiu que estava se permitindo ir além. Era
como se uma parte antiga dele, sempre fechada, tivesse escorregado e caído no silêncio
dela, sem pedir permissão.
Louise continuava, inconsciente dos pensamentos que perpassavam por Edward.
— A fotografia também é algo que me fascina. A luz e a sombra são usadas com uma
precisão que parece contar uma história paralela, que reforça o que não é dito. Você
sente cada olhar, cada silêncio, como se fosse um grito contido. Eu acho que filmes
assim, que não têm medo de mostrar o lado mais feio e complexo das relações
humanas, são importantes. Porque a arte que só mostra beleza, ou só quer agradar,
acaba se tornando vazia, não te desafia a pensar.
Edward permaneceu quieto, olhando-a. Ela falava com a confiança e a paixão de quem
encontrou naquilo um pedaço de si mesma para oferecer. E ele observava a forma como
ela falava com admiração, absorvendo cada detalhe. Era incrível.
— Sabe o Clive Owen? — perguntou Louise, sem esperar pela resposta de Edward —
Sabe que ele quase não pegou o papel? Tinha uns dois atores na época, Matt Hagen e
Leon Vinnie, que estavam em tudo quanto é lugar... mas parece que só colocaram gente
emocionalmente instável pra fazer o teste desse personagem. Como se quisessem ver
quem explodia de maneira mais convincente. E o Clive venceu. Ele veio do teatro. Ele
fazia o médico na peça original.
Edward achava engraçado como ela presumia que ele sabia sobre tudo isso. No fim,
ele não fazia ideia. Ele não sabia nada sobre Closer. Nem sobre Clive Owen, nem sobre
teatro, nem sobre diretores que vinham dos anos 60. Mas também não importava.
Aquelas palavras tinham peso porque vinham dela.
Louise terminava de falar com a respiração um pouco mais acelerada, como se tivesse
acabado de correr. Quando ela enfim terminou, recostou-se no encosto do banco com
um suspiro, como se estivesse esvaziando um balão. O silêncio pousou entre os dois
novamente. Mas dessa vez, foi Edward quem o quebrou.
— Você fala sobre as coisas que ama como se elas ainda tivessem uma chance de te
amar de volta.
Louise o olhou, surpresa. Um silêncio diferente agora. Depois, um sorriso gentil se
formou em seus lábios.
— Obrigada. Acho que... nunca tinham me dito isso desse jeito.
Ele assentiu, e por um momento, ficou apenas olhando para a caneta à sua frente.
— Sabe... tem algo no que você disse sobre o filme, sobre os silêncios que gritam e as
palavras que machucam... que me fez pensar.
— Pensar em quê?
— Em abandono. E em como a gente aprende a carregar o que foi deixado para trás.
Ela não respondeu de imediato. Apenas inclinou um pouco o corpo para frente,
interessada.
— Fala mais sobre isso.
— O filme, do jeito que você descreveu... não é sobre traição, ou sobre romance, ou
seja lá em qual gênero ele se encaixa. Parece que é sobre o que acontece depois que
o amor falha. Sobre o que sobra. E o que sobra, quase sempre, é trauma. E vazio.
Louise cruzou os braços, pensativa.
— É verdade. É como se o filme estivesse sempre dizendo: "isso é tudo que você tem
agora — lide com isso."
— E o pior — disse Edward — é que a gente lida. Não bem, mas lida. A gente se adapta
aos escombros, como se a ruína fosse um lugar confortável. É uma forma de
sobrevivência, eu acho.
— É. Como reformar uma casa em cima de pilastras que já caíram. Nunca vai ser
estável de verdade, mas ainda é uma casa.
— E ainda é sua — completou ele, quase como um sussurro.
Os dois ficaram em silêncio mais uma vez, mas dessa vez era um silêncio cheio. Como
um intervalo necessário entre dois capítulos.
Louise então mexeu na manga do suéter, pensativa.
— Me lembra um pouco do nosso planeta também. As pessoas falam do mundo como
se fosse eterno, imutável. Mas ele também carrega traumas. Coisas enterradas que
ninguém quer discutir. E lugares que antes eram vivos... agora só servem pra lembrar
que o tempo passou.
Edward olhou pra ela, curioso.
— Que lugares, por exemplo?
Ela o fitou por um momento, depois sorriu com uma certa melancolia.
— Sei lá — ela disse, sem tirar o sorriso do rosto. — Talvez a Playtime Co.?
Edward parou.
Seu estômago se contraiu. Por um segundo, tudo o que havia ao redor, as conversas
das outras mesas, o tilintar de talheres, tudo isso se desfez. Restou apenas o nome.
Playtime Co.
Louise continuou, inocente, sem saber o que acabara de fazer:
— É engraçado pensar como aquela fábrica fazia parte dos sonhos de tanta gente.
Brinquedos icônicos, campanhas de marketing encantadoras... parecia quase mágica,
né? Mas agora... agora é só uma carcaça abandonada. Um prédio frio, cheio de lendas
urbanas. É triste. Como um castelo desmoronado de infância.
Edward sentiu as mãos tremerem embaixo da mesa. A caneta que segurava rolou
discretamente de seus dedos e caiu no assento ao lado.
Mas ele respirou fundo. Pela primeira vez em muito tempo, decidiu não fugir. Não mentir
por completo. Ao menos não agora.
— Eu trabalhei lá.
Louise arregalou os olhos. Um sorriso se abriu, incrédulo.
— Sério? Você tá brincando.
Edward balançou a cabeça, vagamente.
— Não. É verdade. Comecei como estagiário. Pouco depois da faculdade. A patente
mais alta que alcancei foi a de operário comum. Antes do colapso.
Ela o encarou, maravilhada, mas antes mesmo que ele pudesse comentar, emendou
outra pergunta:
— E como era? Trabalhar na fábrica de brinquedos mais famosa do país?
Edward desviou os olhos. O silêncio entre a pergunta e sua resposta durou o tempo
exato para que ele decidisse mentir.
— Era... mágico. Todos os dias pareciam um pouco fora da realidade. A fábrica inteira
era cheia de sons mecânicos, sim, mas eles se misturavam com risos, com cores, com
ideias. Parecia que tudo lá dentro respirava invenção.
Ele falava com leveza agora. Como se lembrasse com carinho. E Louise absorvia cada
palavra como se ouvisse um conto de fadas.
— Tinha algo no ar... — ele continuou — como se o tempo se curvasse à criatividade.
As paredes, os corredores... até os uniformes tinham um cheiro específico, que hoje eu
ainda lembro. Era como estar dentro do sonho de alguém. E por um tempo, a gente
acreditava naquele sonho também.
Louise o olhava, encantada. Os olhos cheios de perguntas que ainda não tinham forma.
Edward sorriu para ela. Mas por dentro, sentia o gosto amargo do ferro na garganta.
Aquilo era uma mentira. Aquilo era maquiagem sobre uma cicatriz aberta.
Porque a verdade, que ele nunca diria, era que a fábrica era um lugar sombrio. Que os
risos eram falsos, os corredores frios, e os olhos de certos brinquedos pareciam... vivos
demais.
Mas agora, ali, diante de Louise, ele apenas sustentou o sorriso.
Ela retribuiu.
E pela primeira vez desde o início da conversa, Edward sentiu algo que parecia... peso.
Como se a gravidade tivesse voltado depois de alguns minutos suspensa.
Ele não sabia o que viria depois. Mas naquele momento, sabia que tinha cruzado uma
linha. E a linha era feita de lembranças que ele preferia deixar enterradas.
— E você chegou a conhecer algum dos fundadores? — perguntou Louise, apoiando o
queixo nas mãos, como uma criança escutando uma história antes de dormir.
Edward hesitou, mas respondeu com voz neutra:
— Conhecer é uma palavra forte. Via de longe, cruzava nos corredores. Nunca fui
próximo de ninguém importante lá dentro.
— Mas... você chegou a ver algum protótipo de brinquedo antes deles serem lançados?
Ele forçou um pequeno sorriso.
— Um ou dois. Não lembro os nomes. Alguns nunca chegaram a sair do papel.
Louise inclinou levemente a cabeça, curiosa com o subtexto, mas antes que pudesse
insistir, ele levantou a mão sutilmente, sinalizando pausa.
— Podemos mudar de assunto?
Ela ficou calada por um momento. O sorriso desapareceu, mas não por mágoa — e sim
por empatia. Ela assentiu, devagar.
— Claro. Tudo bem.
Houve um breve silêncio, confortável, até que Louise recostou na cadeira e olhou para
a janela, onde a luz da rua tremeluzia nas vidraças.
— Você sabia que “o fato de que tão poucos ousem ser excêntricos marca o perigo
dominante da época”?
Edward ergueu uma sobrancelha, surpreso com a transição abrupta, mas interessado.
— Isso é uma citação?
— John Stuart Mill — respondeu ela, com um leve sorriso. — E eu acho que ele estava
certíssimo. Não é estranho que, num mundo com tantos bilhões de pessoas, a gente
ainda viva cercado por um conformismo agressivo? Como se todo mundo estivesse com
medo de ser... estranho.
— Medo de sair do molde — disse Edward. — De ser lido como inadequado. Ou
imprevisível. Talvez até perigoso.
— Exato. E isso torna o mundo mais previsível, sim... mas também mais entediante.
Menos criativo. Menos humano, até.
Antes que Edward pudesse responder, a garçonete apareceu com os pratos. Ela os
serviu com leveza e um sorriso breve. Louise agradeceu com um aceno cordial, e
Edward com um murmúrio quase inaudível.
O Pad Thai de Louise parecia uma pintura viva sobre a porcelana branca: o macarrão
de arroz fino e ligeiramente dourado, salpicado de amendoins picados, brotos frescos
de feijão, e tiras suculentas de tofu grelhado, tudo coroado com uma fatia generosa de
limão e folhas de coentro.
O Massaman Curry de Edward era mais contido nas cores, mas não menos apetitoso:
uma tigela funda com um curry denso, de tom âmbar profundo, quase caramelo. Batatas
macias, carne bovina cozida ao ponto de desmanchar e castanhas de caju flutuavam no
caldo espesso, ao lado de pequenos pedaços de cebola e cenoura, tudo perfumado por
uma nota doce de canela e cardamomo. Ao lado, uma porção de arroz jasmim soltinho,
servido em uma cumbuca de cerâmica escura.
— Isso tá bonito demais pra comer — comentou Louise, pegando os hashis com um
certo respeito, como se prestes a abrir uma relíquia.
— O cheiro tá melhor ainda — disse Edward, e pela primeira vez desde que
mencionaram a fábrica, sua voz parecia relaxada de novo.
Eles começaram a comer, e os sabores se tornaram parte da conversa.
— Viu? Não é preciso fugir da excentricidade. Quem coloca castanha de caju com
batata e carne e espera que isso funcione?
— Alguém muito corajoso. Ou muito teimoso.
— Ou os dois — disse ela, rindo.
Louise girou os hashis entre os dedos, pensativa, como se estivesse montando uma
ideia antes de soltá-la no ar.
— Você sabe o que mais me incomoda nessa coisa de “conformidade social”? É que
ela vai matando a nossa coragem aos poucos. A gente começa abrindo mão de
pequenos gostos, de roupas que queria usar, de opiniões que sabe que vão parecer
“fora da curva”. E, quando vê, já não lembra mais quem era de verdade.
Edward mastigava devagar, olhando para o curry como se cada garfada o levasse mais
fundo naquele pensamento.
— Talvez por isso a maioria das pessoas só perceba que perdeu a própria identidade
quando já é tarde demais. Quando os filhos saem de casa, quando o trabalho acaba,
quando a rotina quebra.
— Exato. Parece que tudo aquilo que parecia necessário — se encaixar, agradar,
cumprir — era só uma forma de distração. E aí vem o vazio, de repente. Um buraco
onde a gente devia estar.
Edward encostou a colher na borda do prato, os olhos agora sobre ela.
— E você acha que o oposto disso seria viver deliberadamente à margem?
— Não. — Louise limpou os lábios com o guardanapo, pensativa. — Acho que seria
viver com autenticidade. Mesmo que isso signifique ser estranho. Ou incompreendido.
Ou solitário. Porque existe uma solidão terrível em seguir o que esperam da gente. E
uma liberdade feroz em ser quem se é.
Edward assentiu, calado por um instante.
— A liberdade, então, exige sacrifício.
— Sempre. — Ela sorriu, mas havia algo de triste naquele sorriso. — E, às vezes, a
gente não está disposto a pagar esse preço. Ou não pode.
— Ou não sabe como.
— É.
Eles ficaram em silêncio por alguns segundos, o som dos talheres e da conversa baixa
do restaurante preenchendo o vazio. Depois, ela voltou a falar, agora mais devagar:
— Eu sempre achei que coragem fosse sobre enfrentar o outro. Mas agora... eu acho
que é mais sobre enfrentar a si mesmo. Olhar para o espelho e dizer: "Eu vou continuar
sendo você, mesmo quando ninguém gostar."
Edward recostou-se na cadeira, observando-a.
— É uma frase que combina com você.
— Você acha?
— Acho. Você tem uma maneira de dizer as coisas que... não tenta impressionar. Só
quer ser entendida.
Louise estava prestes a responder, mas parou no meio da frase, franzindo a testa.
— Ai, droga. Que horas são?
Edward pegou o celular e ligou a tela. Piscou por um segundo, surpreso.
— Quase nove. Oito e cinquenta e seis.
Os olhos de Louise se arregalaram.
— Eu devia estar em casa há dez minutos! — Ela se levantou apressadamente,
pegando a bolsa. — Meu pai tem horário certinho pros remédios, e eu prometi que não
ia mais esquecer. Ele começa a ficar ansioso se eu demoro. Desculpa, Edward... eu não
queria sair assim no meio da conversa.
— Tá tudo bem. — Ele se levantou também, dobrando o guardanapo com calma. — Eu
também precisava sair. Preciso comprar um presente pra um amigo antes das lojas
fecharem.
Ela ajeitou a alça da bolsa no ombro, ainda com expressão culpada, e os dois seguiram
até o balcão. Louise já puxava a carteira quando Edward se adiantou.
— Quanto fica um Pad Thai e um Massaman Curry? — perguntou ao atendente.
— Vinte e seis e cinquenta — respondeu o rapaz, seco.
— Eu posso pagar — disse Louise, já abrindo a carteira.
— Deixa comigo.
Edward checou a própria carteira. Notas dobradas em bolsos separados, moedas
soltas. Contou com os dedos discretamente. Tinha dinheiro suficiente — mas ficaria com
apenas dois dólares no bolso. Uma quantia quase simbólica. Respirou fundo, tirou as
notas e deixou sobre o balcão.
— Obrigado — disse ao atendente.
O rapaz pegou o dinheiro sem cerimônia. Edward guardou a carteira vazia e olhou para
Louise.
— Vamos?
Ela assentiu e seguiu na frente, empurrando a porta do restaurante. O sino tilintou de
novo, como um eco distante do começo daquela noite.
Edward passou pela porta logo atrás dela, e por um instante, o ar frio da rua o despertou
do torpor. As luzes da cidade brilhavam com indiferença, e o som dos carros era como
o fundo constante de uma vida em movimento — uma vida da qual ele fazia parte, mas
só às vezes se sentia presente.
Louise avançou em direção a uma moto que estava no canto do estacionamento e
Edward a seguiu.
A moto era uma Royal Enfield Meteor, de um azul petróleo discreto, mas imponente,
com detalhes cromados que brilhavam sob os postes de luz. O banco de couro marrom
parecia gasto nas bordas, não por descuido, mas por uso constante — como se
carregasse histórias de estradas percorridas, de rotas solitárias e paradas repentinas.
O tanque era decorado com uma faixa creme clara, quase como uma cicatriz elegante
no meio do azul.
Louise se aproximou e pendurou a bolsa na lateral do veículo e ela começou a balançar
levemente com o vento da rua. Ela girou a chave na ignição, mas não ligou o motor de
imediato. Apenas encaixava o capacete, prendendo a fivela com um estalo firme.
Edward se aproximou, ainda com as mãos nos bolsos e o olhar vagando entre o
capacete e os olhos dela.
— Então... — ele começou, quase tímido. — Foi uma boa noite.
Ela sorriu, mais com os olhos do que com os lábios.
— Foi. Diferente. Mas boa. Eu... gostei da nossa conversa. E da comida.
— Também gostei. Principalmente da conversa. — Ele hesitou. — Você tem uma forma
de pensar... que desafia.
— Desafiar é parte da graça, não é? — Ela deu uma piscadela, já com as mãos nas
manoplas da moto. — Vou continuar na cidade por mais uma semana. Se quiser
terminar alguma conversa pendente... — ela fez um gesto leve com os dedos — é só
mandar mensagem.
— Eu vou fazer isso. — Ele respondeu rápido, mas sem ansiedade. Quase como se
dissesse para si mesmo, como uma promessa.
Louise assentiu, como quem já esperava aquilo. Ligou a moto. O ronco do motor foi
suave, mas firme. Ela acenou com a mão enluvada.
— Boa sorte com o presente do seu amigo.
— Boa sorte com os remédios do seu pai.
Ambos sorriram com a coincidência dos desejos. Então, sem dizer mais nada, ela girou
o acelerador e a moto se moveu, deslizando pela rua com a leveza de alguém que sabe
para onde está indo. O som do motor foi diminuindo até se perder na cidade.
Edward ficou parado ali, olhando para a direção que ela tomou. O rastro de calor da
moto ainda parecia flutuar no ar. Só depois que ela sumiu completamente de vista foi
que ele se permitiu virar de costas.
Os passos que deu pareciam os mesmos da ida, mas mais pesados agora. Ele andava
devagar, com as mãos de novo nos bolsos e os ombros ligeiramente encolhidos. O
relógio da rua marcava 21:14. As lojas do centro já deviam estar fechadas. Nenhuma
vitrine mais brilhava com o calor falso do neon, e as poucas que ainda tinham luz
pareciam estar em processo de fechar os olhos da noite.
Mas Edward sabia de um lugar.
Ele sabia de um lugar.
CAPÍTULO 5
A cidade estava mergulhada em um silêncio tênue, daqueles que não assustam, mas
abraçam. O som dos próprios passos de Edward nas calçadas rachadas era o único
companheiro que o seguia. A noite ainda tinha cheiro de comida tailandesa e de
conversa interrompida, e ele se pegava revivendo mentalmente cada troca de palavras
com Louise. Havia algo nela que permanecia como uma brisa sutil, mesmo depois que
a moto dela sumiu no horizonte.
Ela era o equilíbrio que ele não sabia que procurava. Tinha a mesma tendência a
observar o mundo com ceticismo, com olhos que desmontavam o verniz das coisas.
Mas, diferente dele, Louise não se escondia atrás disso. Ela provocava, confrontava.
Edward era feito de silêncio e análise; Louise, de palavras e impulso. E isso...
funcionava. Eles se encontravam no meio do abismo.
Sem se dar conta, chegou diante da Candy’s, o restaurante infantil estava fechado, com
suas vitrines apagadas refletindo apenas o brilho distante dos postes. Mas não era ali
que seus olhos se fixaram. Ao lado, recostada na porta fechada da padaria, estava
Laura Rosenberg.
Ela parecia parte do cenário, imóvel, quase como uma estátua solitária esquecida pela
pressa do mundo. O mesmo casaco rosa e preto, surrado nas mangas e com uma
mancha discreta no ombro, a envolvia como sempre. Edward se perguntou, não pela
primeira vez, se aquele era o único casaco que ela possuía. Mas talvez o casaco tivesse
algum valor sentimental. Ou talvez ela simplesmente não ligasse para o que os outros
pensavam.
Abaixo do casaco, Laura usava uma camiseta cinza escura, folgada, com uma estampa
desbotada de uma banda que ele não reconheceu de imediato. A calça jeans preta
estava dobrada nas barras, revelando as botas pesadas e antigas, sujas de poeira seca.
Ela fumava um cigarro como quem carregava um ritual antigo. Com tédio e reverência
ao mesmo tempo. O olhar dela estava fixo em algum ponto invisível do outro lado da
rua.
Edward sabia que ela estaria ali, mesmo com a padaria fechada havia quase duas
horas. Mesmo com o expediente dela acabado. Ele não tinha provas, nem informações
específicas, mas havia algo em Laura que o fazia parecer previsível dentro do
imprevisível, como um animal noturno retornando ao mesmo canto da floresta. Era só a
terceira vez que conversavam, mas ele apostaria que ela voltava ali todas as noites,
talvez pelo simples fato de que ninguém mais voltava.
Ele se aproximou devagar, mãos nos bolsos, e se recostou na parede ao lado dela, a
alguns palmos de distância.
— O que você quer? — ela perguntou, sem virar o rosto.
Ele olhou pra ela de soslaio, e então para a rua.
— Que tipo de pessoa fica parada na porta de uma padaria fechada às nove da noite?
— Responde a minha pergunta antes — Ela tragou. O cigarro brilhou brevemente.
— Eu falo depois que você falar — disse Edward, com a voz neutra.
Laura expirou a fumaça e ergueu o olhar pela primeira vez.
— Gosto de ficar aqui. Sem fazer nada. Só o cigarro, a noite... e a cidade respirando
em silêncio. Às vezes é a única parte do dia em que tudo faz algum sentido — Ela fez
uma pausa, e emendou: — E, antes que pergunte, não. Eu não tenho medo do que se
esconde na noite.
Ela estendeu o cigarro na direção dele.
— Quer um trago?
Edward hesitou. O cheiro acendeu um alarme em seu corpo. Dez meses. Dez meses
sem fumar. Dez meses tentando manter o controle. Mas a mão dele saiu do bolso. Ele
pegou o cigarro entre os dedos dela, levou aos lábios, tragou profundamente e devolveu
com a mesma neutralidade com que tinha pegado. Quase um gesto mecânico. Mas, por
dentro, ele sentia o gosto do fracasso com uma pontada de prazer escondido.
Laura o encarou com um olho semicerrado.
— Você tá sorridente demais pro meu gosto. O que foi?
Ele piscou. Não estava sorrindo... estava? Talvez estivesse. Internamente. Ou talvez
tivesse baixado a guarda. Mas com Laura, isso não era uma boa ideia.
— Acordei de bom humor — disse, apenas.
Ela soltou uma risada seca.
— Ah, claro. Super convincente. O Edward versão café-da-manhã-com-passarinho.
Ele apenas lançou um olhar enviesado para ela, e então ela completou:
— Mas enfim. O que você quer, afinal? — Ela sorriu com escárnio — Não vai fugir de
novo igual da última vez, né? Tava com tanta pressa que quase tropeçou nos próprios
segredos.
Ele revirou os olhos, cruzando os braços.
— Você vai remoer isso pra sempre?
— Talvez.
— Eu queria te pedir um favor.
— Sério? — Ela ergueu uma sobrancelha. — Que tipo de favor?
— Eu queria saber se existe alguma chance... mínima... de você abrir a padaria agora.
Só por um instante. Eu preciso comprar um presente pra um amigo. É só pegar um bolo
pequeno. Coisa de dois minutos.
— Impossível. Contra as regras — ela respondeu no mesmo tom, tragando com
displicência.
— Laura...
— Não — Ela não precisou explicar mais.
Edward ficou em silêncio por um segundo, os olhos fixos no chão. E então começou:
— Olha, não vou mentir. É um pedido idiota. Mas eu juro que é uma situação atípica. O
aniversário do cara é amanhã, e eu esqueci completamente. Ele me ajudou numa época
difícil. Merece ao menos isso. Se eu for com as mãos vazias, vai parecer que... que eu
não me importo — Ele parou, medindo as palavras. — E eu me importo. Só... não sou
bom em mostrar isso.
Laura ficou em silêncio, olhando para ele.
Ele foi além:
— Você pode me odiar amanhã. Pode fingir que nem me conhece quando me vir na
rua. Mas hoje... só hoje, me faz esse favor. Te prometo que nunca mais peço nada.
Ela ainda não reagia. Então, Edward finalizou, com o tom exato entre honestidade e
teatralidade:
— Eu poderia mentir e inventar uma história trágica, mas não vou. Só tô te pedindo isso
porque confio que, no fundo, você entende o que é estar por um fio com as coisas. O
que é tentar fazer o mínimo pra não decepcionar mais ninguém.
Laura tragou uma última vez, jogou o cigarro no chão e o esmagou com a bota. Os
olhos dela o fitaram com um misto de tédio e respeito.
— Você é bom nisso — ela disse.
— Em quê?
— Manipular. Mentir só o suficiente pra parecer que não tá mentindo.
Edward deu de ombros, sem responder. Laura suspirou e enfiou a mão no bolso, tirando
um chaveiro velho com o logo apagado da padaria.
— Vamos logo antes que eu me arrependa.
E começou a destrancar a porta. Laura escancarou a porta, e ambos entraram ao
mesmo tempo.
A porta da padaria se fechou com um estalo abafado atrás de Edward. Lá dentro, o
breu era quase completo, iluminado apenas pelos faróis distantes dos carros que
passavam pela avenida e pela luz bruxuleante de um poste lá fora, filtrada pelas vitrines
empoeiradas.
O interior da padaria no escuro parecia outro lugar. As vitrines vazias e desligadas, que
de dia mostravam doces e pães com orgulho, agora pareciam caixões de vidro, opacos
e abandonados. O cheiro no ar ainda era doce, uma mistura de baunilha, fermento e
alguma coisa que lembrava infância, mas agora vinha sem convite, como um fantasma
de rotina passada.
As cadeiras estavam empilhadas sobre as mesas com as pernas viradas para cima, e
um pano de limpeza úmido esquecia sua presença sobre uma delas. O silêncio do lugar
era cortado apenas pelo som dos passos de Laura, que cruzou o salão até o interruptor
perto do balcão e o acionou com um estalo seco. A luz fluorescente do teto piscou por
um momento antes de se acender completamente, revelando a realidade cansada do
lugar: paredes levemente encardidas, azulejos brancos rachados nas bordas e uma pia
com louças ainda por lavar no fundo da cozinha.
— Vai ter que esperar um pouco — disse Laura, jogando as chaves sobre o balcão e
puxando o cabelo para trás num coque frouxo. — As geladeiras estão desligadas desde
que fechei. Preciso religar e esperar os bolos descongelarem. Não deixo nada em
temperatura ambiente, por conta da inspeção sanitária e tal. Acha que uns dez minutos
você aguenta?
Edward assentiu, encostando-se ao balcão com os braços cruzados. Observava a
movimentação dela com os olhos semicerrados, o cansaço já pesando nos ombros.
Laura abriu uma porta lateral e desapareceu por uns segundos, enquanto ligava o motor
dos refrigeradores.
— Você sempre parece um personagem de filme policial — disse ela ao voltar, vestindo
agora uma touca de tecido fino nos cabelos. — Tipo aquele detetive que fica encostado
na parede esperando a pista aparecer sozinha.
Edward arqueou levemente uma sobrancelha, mas não respondeu. Ela pegou um pano
seco e limpou o balcão com movimentos automáticos.
— E aí? Vai me dizer o nome do seu amigo ou vai deixar que eu chute?
— Melhor deixar no mistério.
— Hmmm... então tá. Aposto que é um daqueles caras que comem bolo de cenoura
com cobertura de chocolate.
Edward deu um leve sorriso com o canto da boca.
— Talvez seja. Talvez ele nem goste de bolo.
— Se não gosta de bolo, tem algo de errado com ele. Gente que não gosta de bolo é o
tipo de pessoa que devolve cachorro no abrigo.
Edward soltou um leve riso, baixo. Um som discreto, quase perdido no ambiente. Laura
pegou uma caixa de papelão decorada e começou a montá-la com calma, como quem
já fez aquilo tantas vezes que nem precisava mais olhar.
— Você sempre fala tão pouco assim? Ou sou eu que te deixo mudo?
— Não sou muito de falar.
— Estranho. Você tem cara de quem pensa um monte, mas não fala pra não se
comprometer. Tipo um cofre ambulante. Deve ter umas histórias boas guardadas aí
dentro.
Edward olhou para ela por um momento, depois desviou o olhar para os azulejos do
chão.
— Algumas.
Laura se aproximou com a caixa montada e a pousou sobre o balcão.
— Enfim... — Laura deu de ombros. — Não é como se eu fosse abrir um relatório disso
amanhã. Só achei que devia dizer. Você me parece o tipo de cara que não ouve elogios
com frequência.
— E você parece o tipo que fala porque o silêncio incomoda.
— Bingo — ela estalou a língua, sorrindo.
Havia um certo ritmo no jeito dela: solta, direta, mas com um brilho nos olhos que
indicava alguma coisa atrás das palavras. Edward não parecia captar isso. Para ele, era
apenas a maneira dela ser. Ácida, sarcástica e provocadora.
— Você tem cara de quem já foi bartender — ela soltou, pegando uma espátula e
preparando uma base de chantilly num dos bolos.
Ele respondeu com um grunhido de confirmação. Nada mais. Laura sorriu, satisfeita
com o jogo que jogava sozinha. E então, voltou-se para a geladeira, abrindo-a
finalmente.
— Pronto. Agora sim... escolha seu bolo antes que eu me canse da sua companhia
silenciosa e jogue você pra fora pela porta dos fundos.
Edward caminhou até a geladeira, enfiando as mãos no bolso da jaqueta. O vidro já
começava a embaçar por dentro, efeito do motor recém-ligado e do frio que começava
a tomar conta do ambiente. A luz interna era fria, azulada, e iluminava os bolos como
se fossem itens preciosos numa joalheria esquecida. Havia um bolo de morango, com
camadas intercaladas de chantilly e pedaços da fruta escorrendo pelas laterais, corando
de vermelho o branco impecável do creme. Um outro, de chocolate amargo, era coberto
por uma ganache espessa que refletia a luz como um espelho escuro, com lascas de
chocolate nas bordas e uma cereja solitária no topo.
Ao lado, um red velvet, de vermelho tão vivo que parecia ter sido pintado, com cobertura
de cream cheese trabalhada em pequenas ondas. Havia também um bolo simples, mas
vistoso, de limão-siciliano com cobertura de glacê branco, que rachava levemente nas
laterais, deixando aparecer a massa amarelada. Por fim, no canto, um bolo de nozes
com caramelo salgado, decorado com fios dourados de caramelo puxado, como uma
teia frágil que parecia prestes a desmoronar a qualquer momento.
Edward ficou olhando por uns segundos em silêncio, até murmurar:
— Acho que vou levar o de chocolate — disse, com um tom meio automático. — Melhor
você colocar numa caixa. Parece que vai chover. E se chover... estraga tudo.
— Boa escolha — respondeu Laura, pegando o bolo com todo o cuidado, equilibrando-
o como se fosse um artefato antigo e quebradiço. — E, sim… esse céu não promete
coisa boa. Aqui sempre parece que o tempo tá de mau humor, né? — Ela colocou o
bolo sobre o balcão e começou a preparar a caixa.
Enquanto manuseava fita adesiva e papel manteiga, ela falava:
— Engraçado, sabia? Tem gente que compra bolo só porque tá feliz. E tem gente que
compra porque tá triste. E às vezes... nem sabe por quê. Só quer... bolo.
— Açúcar é quase uma religião — rebateu, sorrindo. — Ninguém admite, mas é. Pensa
bem. Tá em tudo. Aniversário, casamento, formatura, funeral. Azar, sorte, amor, luto...
tudo é bolo, tudo é doce.
Ela puxou a caixa, dobrando as laterais e segurando uma das fitas entre os dentes
enquanto passava a outra pela base.
— E... — continuou, sem olhar pra ele — ...às vezes acho meio doente isso. A gente
come bolo pra esquecer que... sei lá... tá tudo uma merda.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, olhando para o próprio reflexo no balcão de
aço inox.
— É. Tá.
— A vida, às vezes, parece isso aqui — ele fez um gesto com a mão, apontando para
o balcão, para o ambiente, para o nada. — Uma sala vazia, com cheiro de pão velho, e
um monte de coisa fora do lugar. E a gente só... segue. Fingindo que não percebe.
— É... — Ela ajeitou o cabelo, puxando um fio rebelde — Acho que você tem razão.
Ela puxou uma cadeira de trás do balcão, virou-a ao contrário e se sentou, apoiando os
braços no encosto.
— Sabe, às vezes... fico olhando pra essa rua aqui... — apontou com o queixo na
direção da vitrine — ...e fico pensando. Todas essas pessoas. Todos esses
apartamentos acesos. Cada janela com uma vida... e nenhuma dessas vidas realmente
importa.
Ele olhou pra frente, pro vidro embaçado da vitrine. A rua lá fora estava vazia. Um ou
outro carro passava, mas no geral, só o som do vento.
— A gente nasce, cresce, trabalha, paga boleto, paga imposto... morre. E no dia
seguinte tá todo mundo fingindo que não aconteceu nada. Segue o jogo.
— Meu pai morreu faz três anos — disse, de forma seca, como quem comenta a
previsão do tempo. — Câncer no fígado. E... sabe o que é louco? Eu achei que ia ser o
fim do mundo. Achei que... sei lá, que o universo iria parar, sabe? Que alguma coisa...
ia mudar. Mas... — ela deu de ombros — ...o carteiro passou no dia seguinte. O lixo foi
recolhido. A padaria abriu. Todo mundo... seguiu.
— É isso — respondeu. — E... você percebe... que não é só você. Todo mundo tá
nesse ciclo. Girando. Fingindo que tem sentido.
— Você... — começou, hesitando — ...você já teve essa sensação de... olhar pro
espelho e... não fazer ideia de quem tá olhando de volta?
Laura demorou alguns segundos para enfim responder. Quando respondeu, foi baixo:
— Todo dia.
Edward apertou os olhos. Pela primeira vez, parecia menos um homem impessoal e
mais um ser humano. Frágil. Traumatizado. Triste.
Ela assentiu.
— Eu também — disse, simples. — Mas quer saber? Acho que... no fundo... é isso
mesmo. A gente não vive. A gente sobrevive. E quando dá, entre uma crise e outra... a
gente come bolo.
— É... — olhou para ela. — E por mais deprimente que isso soe... — fez uma pausa,
olhando diretamente para os olhos dela — ...você tem razão.
Edward se calou por alguns segundos. O peso do silêncio parecia ocupar todo o espaço
entre ele e Laura. Seus olhos se perderam no vazio, no nada, talvez na própria mente.
Uma mente que há anos se mostrava um campo de batalha, repleto de cicatrizes
invisíveis. Pensou em Louise. Mais uma vez, aquele nome, aquele rosto, aquela
presença suave e estranha que parecia quase... irreal. Ela era boa demais. Boa demais
para pertencer a este mundo. Boa demais para pertencer a vida dele.
Por um instante, uma pontada fria atravessou-lhe o peito. Um medo visceral, irracional,
mas tão familiar quanto respirar. Tudo que tocava, desmoronava. Tudo que se tornava
precioso em suas mãos, a vida se encarregava de despedaçar.
Talvez fosse o destino. Ainda que nem soubesse se realmente acreditava em tal coisa...
Se existisse, o dele certamente seria cruel. Cruel e solitário.
Então, sua voz quebrou o silêncio:
— Qual o nome... — ele falou, lentamente, escolhendo cada palavra como quem pisa
em cacos de vidro — ...pra quando a gente sente medo de que algo bom esteja
acontecendo... porque sabe que algo ruim pode acontecer logo em seguida?
Laura permaneceu em silêncio por alguns segundos. Observou-o com uma expressão
que não era de surpresa, nem de empatia, tampouco de julgamento. Era uma expressão
crua. Real. Como quem olha um espelho e vê algo que entende bem demais. Ela
respirou fundo. Jogou o corpo para trás, recostando-se na cadeira, cruzou os braços e
respondeu:
— Engraçado, né... — Laura quebrou o silêncio, os olhos fixos em algum ponto além
dele — A gente cresce ouvindo que as coisas vão melhorar. Que é só uma fase. Que
tudo vai fazer sentido no fim. Mas ninguém te conta que, na real... às vezes não melhora.
Às vezes só... muda de forma. E dói de outro jeito.
— Exato — ela assentiu, jogando a cabeça para trás — E sabe... às vezes fico
pensando. E se for isso? Se tudo que existe for só... isso? Nascer, quebrar, tentar colar,
quebrar de novo... até não sobrar mais nada?
Por alguns segundos, tudo que se ouviu foi o zumbido da geladeira. Ela então
prosseguiu, sem olhar pra ele:
— Sabe... quando eu era mais nova, eu achava que tinha um problema. Que eu era
defeituosa. Que todo mundo sabia viver, menos eu. Cresci ouvindo que eu era
preguiçosa, dramática, difícil... Porque eu não sabia ser feliz. Porque eu não queria ser
feliz. Porque eu olhava pra tudo e só via mentira. Tudo parecia vazio. Sem sentido. E
eu pensava: se tudo vai acabar, se todo mundo morre, se tudo que você ama um dia
vira pó... pra quê?
— Mas quer saber? A verdade é que não tem "pra quê". Só tem "porque sim". E "porque
sim" é a resposta mais triste e mais honesta que eu já encontrei.
Edward respirou fundo, apertando os olhos, como quem tenta afugentar pensamentos
que nunca somem.
— Às vezes eu sinto que tô preso... — sua voz saiu falha — ...num quarto, sem portas,
sem janelas. E a cada dia as paredes chegam um pouco mais perto. E eu... fico parado.
Só esperando o dia em que não vai sobrar espaço nem pra respirar.
Laura olhou pra ele. Pela primeira vez, seus olhos não traziam ironia, nem sarcasmo,
nem defesa. Eram os olhos de quem reconhece a própria dor na dor do outro.
Ela assentiu.
— O tempo todo.
Ficaram em silêncio de novo. Não havia mais nada a ser dito que não fosse uma
repetição das próprias misérias. Por fim, Edward respirou fundo, olhando para o relógio
pendurado na parede.
— Acho que já tá na minha hora — disse, com um tom que parecia mais uma
constatação existencial do que um aviso literal.
Ele se ergueu, pegou o bolo já embrulhado e, sem pensar, sem planejar, sem entender
exatamente por quê, abraçou Laura. Ela ficou imóvel. Não esperava. Ele também não.
Mas, por algum motivo, parecia o certo a se fazer em uma situação como aquela.
Quando ele se afastou, ela piscou, meio surpresa, meio sem saber como reagir, mas
então sorriu. Um sorriso quase genuíno. Quase.
— Pode deixar. Segredo nosso. E... foi bom conversar com você. De verdade.
— Acho que esse é o maior elogio que eu já recebi na vida. Triste, mas real.
Ele já puxava a porta quando, sem olhar pra trás, disse:
— Cuide-se, Rosenberg.
Ele não respondeu. Apenas levantou a mão num aceno rápido, enfiou as mãos no bolso
da jaqueta e seguiu seu caminho, sumindo na noite. E, por um breve segundo... ambos
sentiram que, talvez, só talvez... no meio do caos, no meio dos escombros que eram
suas próprias existências... haviam encontrado alguma coisa que se parecia,
remotamente, com uma conexão através de toda essa melancolia.
…
O prédio onde Edward e Victor moravam era uma construção antiga, erguida em algum
ponto perdido das décadas de 70 ou 80, esquecida tanto pelo tempo quanto pelo zelo.
A fachada era de concreto descascando, com manchas escuras nas paredes. Resíduos
de anos de chuva, poluição e descuido. As janelas, quase todas com grades, estavam
enferrujadas, e parte dos vidros ostentava rachaduras finas como veias de um
organismo à beira da falência.
Edward entrou segurando o bolo com as duas mãos, empurrando a porta com o ombro.
O cheiro de umidade, mofo e cigarro velho lhe subiu pelas narinas, como sempre
acontecia. O saguão era apertado, com piso de cerâmica rachada e uma parede lateral
tomada por caixas de correio metálicas, todas amassadas ou semiabertas, como bocas
desdentadas.
Passou direto, sem sequer olhar para a portaria, que, como de costume, estava vazia.
Subiu as escadas de concreto, o elevador daquele prédio não funcionava há pelo menos
três anos, talvez mais. Cada passo ecoava, rangendo sob seu próprio peso e o peso do
silêncio noturno. O cheiro de fritura de algum vizinho ainda pairava no ar, misturado ao
cheiro de isolamento acústico velho, poeira e paredes úmidas.
Estranha e boa. Boa? Sim. Ele não sabia exatamente como definir. Era como se, pela
primeira vez em muito tempo, tivesse sentido alguma coisa além de tédio, apatia ou
aquele vazio desconfortável que costumava preencher seus dias.
Louise. Laura. Duas mulheres tão diferentes... e tão semelhantes, cada uma a seu
modo. Louise parecia uma nota dissonante dentro da cacofonia que era sua vida.
Alguém que não deveria existir. Não naquele mundo. Não na vida dele. Era quase como
uma visão, um erro no sistema. Algo bom demais para ser real. Laura, por outro lado,
era o reflexo mais cruel e sincero dele mesmo. Um espelho rachado onde ele podia se
enxergar, despido de qualquer ilusão. Era desconfortável. E, ao mesmo tempo,
estranhamente reconfortante.
Seu corpo já estava preparado para ver Victor ali, em pé, esperando por ele, talvez
impaciente, talvez com algum comentário sarcástico na ponta da língua... mas não.
Nada.
A sala estava acesa. As luzes do teto jogavam uma iluminação fria, quase incômoda,
sobre o sofá velho e a mesinha de centro entulhada de papéis, canecas e controles
remotos. A televisão estava ligada, mas não havia nada passando nela, apenas aquela
tela azul estática, como se tivesse sido pausada há muito tempo.
Franziu o cenho. Seu primeiro pensamento foi simples: "Será que ele saiu e não me
avisou?" Mas... não fazia sentido. Victor não fazia esse tipo de coisa. E se fosse sair,
teria deixado algum recado. Uma mensagem. Qualquer coisa.
Então seus olhos pousaram no detalhe que, até então, havia ignorado.
O “quarto reservado”. O lugar que Edward mantinha trancado a maior parte do tempo,
acessado apenas por ele e raramente.
Por um segundo, Edward parou de respirar. Seu estômago afundou como pedra no
fundo de um poço.
CAPÍTULO 6
Edward colocou o bolo que acabara de comprar em cima do sofá. O som seco da caixa
batendo no móvel ressoou pela sala. Edward atravessou o espaço quase tropeçando
nos próprios pés, respirando pesado, com os batimentos disparando. Suas mãos
cerradas em punhos ardiam, e cada passo ecoava como uma martelada dentro de sua
cabeça.
Quando parou na frente da porta aberta do quarto reservado, não precisou sequer
cruzar o batente. Apenas estar ali, vendo aquele cenário, já era suficiente. O quarto
estava exatamente como ele havia deixado. E isso, de certo modo, tornava tudo ainda
pior.
No canto direito, quase engolido pelo entulho, estava largado o seu velho GrabPack. O
mesmo que ele usava quando era um simples operário na fábrica de brinquedos. As
correias estavam desbotadas, as luvas de plástico manchadas e com as pontas
desgastadas, além de remendos grosseiros nas laterais. No centro do cômodo, sobre
uma mesa de metal com rodinhas, repousava uma velha televisão CRT, sua carcaça
amarelada pelo tempo. Abaixo dela, acoplada como se fizesse parte do mesmo corpo,
estava uma máquina de tocar fitas cassete tão antiga quanto o resto, com os botões
gastos e as laterais rachadas. Fios, cabos, adaptadores e tomadas múltiplas se
espalhavam pelo chão como uma teia elétrica caótica.
E, no meio daquilo tudo, mexendo nas caixas, folheando pastas, revirando cabos...
estava Victor. Ele se virou num sobressalto ao ver Edward parado na porta. Seus olhos
arregalados, a boca semiaberta, como se tivesse sido pego roubando algo e, de certa
forma, tinha sido.
— SÓ O QUÊ?! — Edward deu um passo à frente, mas ainda não cruzou a soleira —
QUEM TE DEU O DIREITO DE MEXER AQUI?! ISSO NÃO É SEU! ISSO... ISSO NÃO
É PRA SER ABERTO! NADA DISSO!
— Você sabe... Você SABE que eu nunca te pedi nada. Nunca! Nunca falei disso, nunca
quis... Nunca quis que isso aqui saísse desse quarto! Você não tinha que mexer, Victor.
NÃO TINHA! — sua voz oscilava entre gritos e aquela rouquidão típica de quem segura
o choro pela garganta — Isso aqui... isso aqui devia estar trancado pra sempre, como
tudo que... como tudo que aconteceu lá.
— Eu sei, cara... Eu sei que você não gosta de falar disso, que não quer lembrar — ele
olhou pra baixo, balançando a cabeça. — Mas sabe o que mais? Isso é problema seu.
Victor ergueu o olhar. Agora não havia mais culpa nem hesitação. Só irritação. E
mágoa.
— É isso mesmo que você ouviu, Ed. — sua voz agora era firme, carregada. — Você
simplesmente chegou aqui... na minha casa... e tomou esse quarto. Trancou. Nunca
explicou o motivo. Nunca me disse uma palavra sobre o que tinha aqui dentro. E eu...
eu deixei. Sabe por quê? Porque você é meu amigo. Porque eu me importei. Porque eu
vi que você estava quebrado, todo fodido, todo despedaçado por dentro. E eu não quis...
eu não quis piorar as coisas.
— Dois anos, Edward. DOIS ANOS. Você mora aqui há quase dois anos e nunca...
nunca falou nada. Nunca explicou o que é tudo isso. Nunca disse o que aconteceu na
Playtime. Só fica aí, fingindo que isso tudo não existe. Por quanto tempo vai continuar
fugindo de você mesmo?
Ele apontou pro quarto, para as caixas, para o GrabPack jogado no canto.
— Eu te dei espaço. Eu te dei tempo. Eu respeitei seu silêncio. Mas, caramba, Ed... Até
quando? Até quando eu vou fingir que tá tudo bem morar com um cara que tem um
museu de horrores trancado dentro de casa e age como se isso fosse normal?
Victor respirou fundo, cerrou os punhos, olhou diretamente nos olhos de Edward.
— Eu não aguento mais. — sua voz agora era mais baixa, mas ainda carregada de
peso. — Eu quero saber. Eu mereço saber. Sem mentiras. Sem desculpas. Sem esse
muro que você ergueu entre a gente.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Por alguns segundos, Edward ficou ali, parado,
boquiaberto, respirando rápido, olhando fixamente para Victor como se ele tivesse
acabado de lhe dar um soco no estômago. Porque, de certa forma, foi isso que
aconteceu.
E, no fundo, ele sabia. Sabia que Victor estava certo. Sabia que ele não tinha pra onde
correr. Não dessa vez.
O peso daquela realidade caiu sobre ele como uma parede desabando.
Por fim, ele soltou o ar devagar. A mão passou pelo rosto, pelos cabelos, pressionando
a nuca. Seus olhos se fecharam por um momento.
Edward não disse mais uma única palavra. Apenas caminhou, pesado, até uma das
prateleiras metálicas encostadas na parede da direita. Seus passos ecoaram pelo chão
forrado de concreto bruto, enquanto Victor apenas o seguia com os olhos, em silêncio.
Ele esticou o braço, deslizando os dedos pelas caixas plásticas empilhadas — uma,
duas, três... até parar em uma caixa azul. A etiqueta, escrita à mão, estava ligeiramente
amarelada pelo tempo, mas as palavras ainda eram perfeitamente legíveis:
“MATERIAIS CONFIDENCIAIS”.
O plástico antes roxo agora estava desbotado, arranhado, com as bordas gastas e
trincadas. Na parte superior, colado de forma torta, havia um pedaço de papel branco,
amarelado nas pontas, e nele estava um desenho feito à mão. Uma silhueta de coelho,
pintada inteiramente de amarelo vibrante, usando uma gravata roxa. Nenhuma palavra.
Nenhuma explicação. Apenas aquela figura estática, desconfortável.
Edward segurou a fita por alguns segundos, encarando-a como quem observa uma
arma apontada para si. Então se levantou e foi até a mesa de metal no centro do
cômodo, onde repousava a velha televisão CRT, ligada por dezenas de cabos à
máquina de toca-fitas acoplada na parte inferior da mesa. Agachou-se, respirou fundo
e suas mãos tremiam, por mais que tentasse escondê-lo. Encaixou a fita na entrada da
máquina. Um clique seco soou.
Levantou-se e girou o botão da TV. A tela ganhou vida com aquele som familiar, elétrico,
seguido de um zumbido grave. Ele então se afastou alguns passos, cruzando os braços,
e lançou um olhar curto para Victor.
— Fica quieto. E presta atenção. Só... presta atenção — Sua voz não era fria. Era quase
morta.
Victor não respondeu. Apenas acenou, lentamente, e se colocou ao lado dele. O vídeo
começou imediatamente.
A imagem que surgiu era desconfortável. O desenho do coelho amarelo preencheu toda
a tela, simples, infantil, de traços grosseiros, mas com algo... errado. O olhar da silhueta
parecia encarar diretamente quem estivesse assistindo, embora não houvesse olhos
desenhados ali. E então... a voz começou. Arranhada. Baixa. Tremendo, como se
tivesse sido gravada por um microfone de péssima qualidade.
— Meu nome é Harley Sawyer. Mas, por aqui, eu sou chamado de 'O Doutor'... — disse
a voz, grave e fria.
No exato instante em que a voz soou, Edward fechou os olhos por um breve segundo.
Apertou os braços contra o próprio peito, como se tentasse se proteger do próprio
passado. Victor franziu a testa. Seus olhos saltaram da televisão para Edward, e depois
voltaram para a tela.
— Quando eu cheguei aqui e vi essa empresa que vocês construíram, eu não senti
orgulho... Nem um pingo de orgulho. A queda de lucros, experimentos falhos, pessoas
vendo constantemente coisas que não deveriam! Isso é patético... Tudo tão patético…
— Harley Sawyer continuava, aumentando o tom de voz em alguns momentos quando
queria pôr ênfase em algo. — Como isso não é considerado uma completa falha da
nossa parte? Vocês sabem que não vamos conseguir fugir de processos para sempre,
não é? Eu sei que você sabe disso, Leith.
O nome ficou pairando no ar como uma faca prestes a cair. Victor se virou lentamente
para Edward, mas percebeu que ele não estava olhando para a TV. Estava olhando
fixamente pro vazio, como se nem estivesse ali.
— Precisamos lidar com todos esses problemas de uma só vez. E eu tenho a solução.
A Iniciativa Bigger Bodies… Brinquedos gigantes. E se... as pessoas que nós temos
trabalhando... não forem pessoas? Assim, podemos aumentar nossa força de trabalho
e ainda diminuir os processos e as pessoas na nossa folha de pagamento com uma
cajadada só — Harley Sawyer deu uma risada alta, de genuína empolgação, antes de
continuar. — Me ponham no comando e eu vou salvar essa companhia…
CLICK.
O som mecânico preencheu o quarto. A fita foi ejetada sozinha, cuspida da máquina
como se até ela tivesse vergonha do que acabara de reproduzir. O silêncio que se
seguiu era ensurdecedor.
Victor piscou várias vezes, completamente estático, encarando a fita caída no chão,
como se ela fosse algum tipo de bomba prestes a explodir.
— Q-que... Que porra foi essa...? — balbuciou. — Quem é esse cara? Que merda é...
O que ele quis dizer com isso? Brinquedos gigantes? Pessoas que não são pessoas?!
Isso... Isso é sério?! Isso é real?! Isso é…
Ele foi se aproximando de Edward, atordoado, disparando perguntas, atropelando
palavras, completamente perdido entre horror e incredulidade.
— Ed, fala comigo, cara... Isso não é real, né? Isso é algum tipo de piada, algum
treinamento, algum teatro bizarro, não é? Pelo amor de Deus, me fala que é isso... O
que é a Iniciativa Bigger Bodies? Quem é Leith? Que diabos tudo isso significa?!
— Chega — Sua voz era seca. — Chega, Victor. Você quer respostas, né? Tá. Eu vou
te dar. Mas você ainda não viu nada.
— Tem mais. Muito mais. E se você quer entender... então você vai entender. Até o
fim.
Enquanto continuava mexendo na caixa azul, seus dedos, então, encontraram outro
objeto — e, quando ele o puxou, Victor imediatamente percebeu que aquilo não era uma
fita qualquer. Era uma fita vermelha. Não só com uma etiqueta vermelha, mas todo o
corpo da fita tinha aquela coloração intensa, quase como se ela própria quisesse gritar,
chamar atenção, avisar que ali dentro havia algo que não deveria ser escutado.
E não era só isso. Junto da fita, Edward puxou outro objeto. E Victor, ao ver aquilo,
arqueou as sobrancelhas, confuso.
Victor deu um passo instintivo para trás quando Edward se ergueu com aquele telefone
nas mãos, como se estivesse segurando uma relíquia profana.
Edward não respondeu. Nem olhou pra ele. Apenas caminhou até a mesa, se agachou,
e sem cerimônia, encaixou a fita vermelha na máquina de toca-fitas. A televisão, que
ainda estava ligada, piscou uma vez e a gravação começou.
Diferente da anterior, não havia nenhuma imagem infantil. Apenas uma tela preta,
enquanto a voz surgiu… Uma voz grave. Gutural. Como se algo estivesse tentando falar
do fundo de um poço, misturada a estática, chiados, estalos. Quase ininteligível.
E então, as letras começaram a aparecer, uma a uma, como se alguém estivesse
digitando em um terminal antigo de computador:
“Nos dê um sinal.”
Victor passou a mão pelo rosto, olhando de Edward para a televisão, da televisão para
aquele telefone vermelho que agora parecia muito mais ameaçador do que qualquer
brinquedo infantil deveria ser.
— Edward... Edward, pelo amor de Deus... Me fala que isso não é... que isso não é
algum tipo de... sei lá, experimento social maluco... ou... ou alguma coisa que vocês
faziam na empresa... Isso... Isso é brincadeira, né? Né?! — sua voz agora tremia.
“Você é confiável?”
— Edward... Edward... Que merda você trouxe pra dentro dessa casa? QUE
MERDA É ESSA, CARA?! Isso... Isso é coisa de maluco, cara... Isso é coisa de
maluco! — ele estava à beira de um ataque de pânico.
Edward, por sua vez, estava absolutamente imóvel. O maxilar travado. Punhos
cerrados. Mas os olhos... os olhos estavam vazios. Perdidos. Como se, mentalmente,
ele nem estivesse mais ali.
“O telefone.”
“Em breve.”
“Au revoir...”
CLICK.
Victor ficou encarando o telefone que repousava entre os dedos de Edward por longos
segundos, como se ele fosse, a qualquer instante, começar a falar sozinho. Seu peito
subia e descia rapidamente. Sua respiração estava descompassada.
— Fala. Agora você vai falar. AGORA VOCÊ VAI ME FALAR O QUE É ISSO. O QUE
É TUDO ISSO, EDWARD?! — Ele gritou, quase histérico. — Me fala... Me fala... Pelo
amor de Deus, me fala... — sua voz já não passava de um sussurro desesperado.
Edward então, sem olhar para ele, caminhou até a fita, pegando-a com cuidado, e disse
apenas, com um tom gélido, cortante, quase ausente:
“NOTÍCIAS E EVIDÊNCIAS”
Por alguns segundos, revirou os papéis, pastas e envelopes que estavam lá dentro. As
mãos tremiam um pouco, mesmo que ele tentasse esconder. Até que, enfim, encontrou.
Um pedaço de papel velho, amarelado, dobrado várias vezes, as bordas já começando
a se desfazer.
Ele pegou o papel, se levantou e, sem dizer uma palavra, estendeu-o para Victor.
Edward,
Não sei bem como começar essa carta. Minhas mãos tremem só de segurar essa
caneta… e, sinceramente, eu nem sei se deveria estar te escrevendo. Mas eu
precisava. Você foi, por tantos anos, um dos melhores amigos do Rowan… talvez o
único em quem ele realmente confiava. E por isso… você precisa saber.
Algo terrível aconteceu, Edward. Algo que eu nunca pensei que teria que escrever.
A Playtime Co. enviou uma equipe até minha casa ontem. Eles me deram, de forma
oficial, a confirmação… Rowan foi dado como morto. Definitivamente.
Quem veio até aqui foi uma mulher chamada Stella Greyber. Ela parecia… não sei
explicar… uma daquelas pessoas que, mesmo tentando parecer fortes, estavam
visivelmente abaladas. Muito bonita, muito gentil, e… parecia realmente devastada
com tudo. Ela me contou que, nas semanas que antecederam isso, Rowan estava
demonstrando comportamentos estranhos na empresa. Um quadro crescente de
paranoia, desconfiança e impulsividade. Stella me disse que ele andava dizendo aos
colegas que estava sendo seguido, vigiado… que eles estavam atrás dele. Pedia que
ficassem de olho nas saídas, que o avisassem se vissem alguém estranho.
Eu não pude negar nada disso. Faz meses que ele vinha agindo assim aqui em casa
também, Edward. Rowan estava… destruído. Passava madrugadas inteiras acordado,
tomando xícaras e mais xícaras de café, trancado no escritório. Parou de sair,
evitava atender o telefone, olhava pela janela a cada cinco minutos… e jurava, com
todas as forças, que aquele acidente de carro do dia 11… não tinha sido um acidente.
Ele dizia que receberia essas informações de um homem chamado Odair.
Informações de que alguém, de dentro da Playtime, tentou acabar com ele.
Eu já estava tão preocupada. Tão perdida. E agora… tudo acabou da pior forma
possível. Stella me contou que, num desses surtos, Rowan tentou sabotar a empresa.
Disse que ele acreditava que aquilo era a única forma de se livrar do que ele achava
estar acontecendo. Ele invadiu uma das salas principais, tentando destruir um
animatrônico novo que eles iam lançar… algo chamado Sharpay.
Mas, segundo ela… houve uma falha elétrica nos circuitos. Ela disse que foi
instantâneo. Uma descarga enorme, que causou um incêndio… e que… carbonizou o
corpo dele, Edward. Eu quase não consegui ouvir ela dizer isso… porque parecia…
parecia irreal. Ela disse que ele morreu já faz dois dias, mas que só agora tiveram a
confirmação…
Eu não sei… eu não sei como seguir. Eu estou devastada. E, como se isso não fosse
pesado o suficiente… eu estou grávida. Sim, Edward. Eu descobri há poucas semanas.
E agora… eu vou ter que criar essa criança sozinha, sem o pai dela.
A mãe do Rowan recebeu pelo correio alguns documentos… e uma caixa com os
pertences dele. Eu não consegui abrir. Nem ela. Eu tentei, Edward… juro que tentei.
Mas só de olhar para aquilo meu estômago revira, minha visão embaça, e tudo desaba.
Por isso eu estou te enviando tudo. Eu sei que vocês tinham um laço que ninguém mais
tinha. Se existe alguém no mundo que pode — e deve — ter essas coisas, é você.
Talvez haja algo ali que faça mais sentido pra você do que pra mim.
E essa carta também é uma despedida. Eu e a mãe de Rowan estamos indo embora.
Vamos para o Alabama. Eu não consigo mais viver aqui, Edward. Cada esquina dessa
cidade, cada café, cada loja… tudo me lembra dele. De quando éramos felizes juntos.
De tudo que se perdeu.
Eu espero, de verdade, que você entenda minha decisão. E que cuide bem das coisas
dele. E, acima de tudo, que se cuide.
Sophie Stoll
— Edward... que merda é essa? — sua voz saiu num tom baixo, mas carregado de
tensão — Isso... isso é sério? Isso é real? Isso é verdade?
Edward cruzou os braços, respirando fundo. Ele não queria estar tendo essa conversa.
Não assim. Não agora.
— Sim... é. É real. Infelizmente — respondeu, olhando para baixo, sem encarar Victor
diretamente.
— Quem era esse tal de Rowan? Por que você tinha essa carta? O que você tem a ver
com isso? — Victor apertava o papel nas mãos, quase amassando.
— Rowan... era... um amigo. Um cara da Playtime. Ele era o chefe de TI lá. E... sim,
nós éramos bem próximos. Eu frequentava a casa dele... conhecia a esposa... a família
inteira.
— Mas... por que ele... por que ele ficou assim? Esse negócio todo de paranoia...
perseguição... Que porra tava acontecendo, Edward? — Victor se aproximou meio
passo, encarando-o.
Edward respirou fundo, mordendo a língua com força. Não podia falar a verdade agora,
e saber disso doía na sua alma.
— Talvez. Talvez fraude, talvez coisa pior. Ele nunca quis me contar tudo. Só dizia que
tinham coisas que precisavam vir a público. E que muita gente poderia se machucar se
ninguém fizesse nada.
“Mentira. Ele me contou. Me contou tudo. E eu achei que ele estava louco. Até... até
essa carta chegar”, Edward pensou.
Edward desviou o olhar. Não conseguia olhar na cara de Victor nessa situação.
— Porque... eu... eu não sabia no que acreditar, Victor. Eu juro. Eu achei que ele estava
ficando maluco. Sabe? Que era só... estresse, paranoia. Só depois que essa carta
chegou... que eu comecei a perceber que... talvez... só talvez... ele não estivesse tão
errado assim.
— Mas... então... você acha que... que ele tava certo? Que... tinha alguma coisa
acontecendo?
Edward respirou fundo, encarando-o nos olhos.
— Eu não sei, Victor. Eu... eu não sei. Eu só sei que muita coisa não faz sentido. Muita
coisa não bate. E... quanto mais eu olho... mais eu percebo que tem algo muito, muito
errado nessa história toda.
O silêncio se instalou. Os dois ficaram apenas ali. Olhando um para o outro. A carta
nas mãos de Victor, o telefone vermelho nas de Edward.
Edward sabia que precisava continuar. Que tinha mais para mostrar. Muito mais.
Porém, ele não podia falar demais. Não podia falar tudo. Se falasse, Victor acharia que
ele enlouqueceu. E talvez ele estivesse certo se pensasse assim, no fim das contas…
— Quando foi que você... saiu da Playtime? — perguntou, sem tirar os olhos da caixa
aberta no chão.
Edward não respondeu de imediato. Seu olhar vagou pelo cômodo, perdido. Mas a
resposta estava gravada na sua memória de uma forma que jamais esqueceria.
Victor ficou calado por alguns segundos. Pegou novamente a carta, passou os olhos
rapidamente pelas primeiras linhas, como se buscasse algo que já sabia estar ali. Então,
ergueu os olhos lentamente, encarando Edward.
— Essa carta... é de 2011 — sua voz era baixa, quase sussurrada, mas carregada de
significado — E você... você só saiu da empresa quatro anos depois — apertou os olhos,
respirou fundo. — Por quê, Edward? Por que você saiu?
A pergunta atravessou Edward como uma lâmina fria. Seus pensamentos vieram como
um furacão descontrolado. Imagens, sons, vozes, gritos, documentos, memórias que
ele preferia nunca mais acessar. Ele apertou os punhos, desviou o olhar, respirou fundo.
Mas, não tinha resposta. Não uma que pudesse ser dita. Não uma que pudesse ser
ouvida. Por isso, apenas disse:
— Eu não quero falar sobre isso… — sua voz saiu mais baixa do que pretendia.
O Victor que, minutos antes, parecia ansioso, quase desesperado por respostas, agora
parecia outra pessoa. Mais pálido. Mais... abalado. Como se tivesse descoberto só a
ponta do iceberg e isso, por si só, já fosse mais do que suficiente para deixá-lo
horrorizado. Ele segurou a carta com mais firmeza, e então ergueu os olhos de novo.
— Edward... — sua voz era quase um sopro. — O que é... a Iniciativa Bigger Bodies?
Por um momento, Edward não respondeu. Seu corpo inteiro parecia ter endurecido,
congelado. Seus olhos fixos no vazio. O nome soou em sua mente como um fantasma
antigo, uma ferida aberta que jamais cicatrizou. Victor percebeu o silêncio
desconfortável, e então, mais firme, repetiu:
— Edward... o que é a Iniciativa Bigger Bodies?
Edward apertou os olhos, respirou fundo e então, cuidadosamente, como quem pisa
em vidro quebrado, respondeu:
— Era um projeto. Um programa interno da empresa. Foi proposto como uma solução
— sua voz estava estranhamente contida, quase robótica — A ideia era criar
brinquedos... animatrônicos enormes. Coisas que fossem usadas como atrações dentro
da fábrica... e, também... pra trabalhar lá dentro. Operários. Substituir mão de obra
humana, sabe? Para reduzir custos... evitar a falência.
— O projeto começou no ano 2000. E... o primeiro mascote desse tipo, eles chamaram
de Boxy Boo. Suponho que já tenha ouvido falar naquela caixa esquisita…
Ele não mentiu. Não completamente. Mas aquilo também não era nem metade da
verdade.
Victor ouviu tudo, quieto. Sem uma palavra. Seu rosto agora era apenas uma máscara
vazia, sem reação.
Edward percebeu. Percebeu e, do fundo da alma, agradeceu. Agradeceu por ele não
perguntar mais nada. Por não cavar mais fundo naquele poço sem fundo que ele,
infelizmente, já conhecia bem demais. Victor ergueu os olhos para Edward. E, pela
primeira vez, não havia mais raiva. Nem cobrança. Apenas compaixão. E um
arrependimento enorme por ter puxado aquele fio, por ter começado aquela conversa
que, agora, ele não sabia mais se queria continuar.
— Desculpa... Edward. Desculpa mesmo. Eu... eu não devia... — sua voz falhou no
final.
— Tá tudo bem. Tá tudo bem… — disse, embora nem ele mesmo acreditasse nisso.
Victor então respirou fundo, desviou o olhar, e sem dizer mais nada, virou as costas.
Caminhou até a porta e saiu, voltando para a sala de estar, deixando Edward ali. Parado.
Seus olhos estavam fixos em algum ponto inexistente do chão, mas sua mente estava
em qualquer outro lugar. Um lugar sombrio, inóspito, onde as memórias voltavam a
pulsar como feridas abertas que jamais cicatrizariam. As palavras de Victor ainda
reverberavam em seus ouvidos, misturadas às lembranças que ele tanto se esforçava
para manter trancadas, sufocadas no canto mais obscuro de sua consciência.
Ele sabia que não poderia continuar fugindo daquilo para sempre. Sabia, também, que
esconder os fatos era a única opção que lhe restava. Não para proteger Victor, não
exatamente, mas para proteger a si mesmo. Porque, se dissesse em voz alta tudo aquilo
que sabia, tudo aquilo que tinha visto… então seria real. Real de um jeito que nem ele
conseguiria mais ignorar.
E o pior de tudo… é que sua saída da fábrica nunca teve relação com Rowan Stoll.
Rowan foi apenas a primeira rachadura. O primeiro estalo na carcaça podre da Playtime
Company que, por fora, vendia sonhos, sorrisos e nostalgia, mas que, por dentro, era
um organismo doente, pulsando algo infinitamente mais grotesco do que qualquer um
seria capaz de conceber. Ele havia saído, sim. Mas não pelos motivos que Victor poderia
imaginar. E, muito menos, pelos motivos que ele ousaria contar a alguém. Havia coisas
ali… coisas que ele testemunhou com seus próprios olhos… coisas que, se contadas,
fariam qualquer pessoa questionar sua sanidade.
Seus pensamentos, tão densos quanto o próprio ar daquele quarto abafado, foram
subitamente interrompidos pela voz de Victor, vindo da sala:
Victor olhou surpreso, abrindo um sorriso que, embora genuíno, parecia carregar uma
tentativa quase desesperada de restaurar algum senso de normalidade dentro daquela
noite estranha e desconfortável.
— Sério? Pô, valeu, cara! — respondeu, já abrindo a tampa da caixa. Pegou o bolo de
chocolate amargo e colocou-o em cima do balcão da cozinha improvisada — Bolo de
chocolate… Pelo visto você realmente me conhece.
Victor pegou uma faca e começou a cortar uma fatia generosa, enquanto retomava seu
tom irreverente, tentando, a todo custo, preencher o espaço vazio deixado pela conversa
anterior.
— E aí… como foi a noite, hein? E o encontro com a Louise? — perguntou, erguendo
uma sobrancelha e sorrindo de canto.
Edward percebeu, de imediato, o que Victor estava fazendo. Aquilo não era apenas
curiosidade. Era um mecanismo de defesa. Uma tentativa inconsciente, ou talvez muito
consciente, de apagar da própria mente o que acabara de ouvir. De varrer as revelações
para debaixo de um tapete feito de conversas banais, piadas e fatias de bolo.
Mas Edward não estava disposto a se distrair. Não agora. Não depois de tudo.
Victor riu, balançando a cabeça, como se aquilo fosse parte de uma rotina já conhecida
entre os dois.
Edward respirou fundo. Olhou para o teto.
— Eu… vou dormir — disse, levando a mão até a nuca, apertando-a, simulando o
desconforto físico que, na verdade, nem precisava ser fingido. — Estou com um torcicolo
horrível… e já está muito tarde.
— Beleza, cara. Vai lá descansar. Vou deixar um pedaço desse bolo para você amanhã,
pode ficar tranquilo. — disse, sorrindo. — Boa noite, Ed.
Então, Edward se virou e seguiu pelo corredor. Seus passos ecoaram suavemente pelo
piso, enquanto ele caminhava até seu quarto. Abriu a porta, empurrou-a com o ombro
e, sem sequer se preocupar em acender a luz, se jogou no colchão largado no chão —
um amontoado de tecidos, roupas sujas e velhos lençóis que ele insistia em chamar de
cama.
Ele não se deu ao trabalho de tirar as roupas que vestia. Apenas se deitou de lado,
fechou os olhos e desejou, com todas as suas forças, que o sono chegasse rápido.
CAPÍTULO 7
6 de janeiro de 2025
O sol já rasgava as frestas da janela aberta, iluminando o quarto com uma luz pálida,
que escorria pelas paredes descascadas como uma mancha inevitável do tempo. Eram
dez da manhã. Edward já estava acordado fazia uma hora. A cama de Victor, ali ao lado,
estava vazia desde que ele abriu os olhos. Nenhum sinal dele. Nenhuma nota, nenhum
aviso. Apenas a ausência preenchendo o espaço.
Edward, no entanto, não se importou. Não naquele momento. Seu corpo estava ainda
afundado no colchão deformado, cercado por montes de roupas sujas, papéis
amassados e objetos esquecidos. Sobre o peito, segurava um livro, um velho exemplar
de “Madame Bovary”, que ele havia começado a ler há um ou dois meses, embora nem
ele próprio soubesse ao certo.
Agora, depois de semanas de leituras espaçadas, ele havia terminado. Seus olhos
percorreram, lentos, a última frase da obra. Quando os pontos finais selaram aquele
mundo de papel, Edward Finch fechou o livro com uma lentidão quase cerimonial. O
som abafado das páginas comprimindo-se entre as capas reverberou pelo quarto
silencioso como um suspiro preso na garganta.
Ele deixou o livro cair ao lado do colchão, onde se perdeu no meio dos lençóis
embolados e das roupas largadas. Por um instante, ficou ali, olhando para o teto
manchado, com suas rachaduras que serpenteavam como veias expostas. O teto
parecia mais baixo. O quarto, mais apertado. Como se, de alguma forma, as paredes
estivessem lentamente se fechando ao redor dele.
Emma era… tudo aquilo que ele desprezava no mundo. Uma criatura movida por
capricho, desejo e vazio. Uma mulher que corria atrás de fantasias como quem corre
atrás do próprio reflexo em um espelho quebrado. Que se apaixonava como quem
experimenta um vestido novo, e se desfazia desses amores com a mesma facilidade
com que descartava um pedaço de pano gasto.
Traía. Fugia. Se enganava. E no final, quando toda a farsa desabava sobre sua cabeça,
mergulhava em autopiedade, como se o mundo fosse o vilão. Como se o universo
devesse a ela algo que nunca lhe pertenceu. Edward respirou fundo, mas até o ar
parecia mais pesado. Cada inspiração era um lembrete incômodo de que ele ainda
estava ali. De que ainda precisava existir.
Havia uma raiva crescendo dentro dele. Não aquela raiva efêmera, que explode e
desaparece. Mas uma raiva antiga. Sedimentada. Calcificada dentro do peito. Uma raiva
que tinha cheiro, textura e peso. A raiva de quem já viu demais. De quem já perdeu
demais.
As pessoas eram assim. Sempre foram. Sempre seriam. Essa foi a constatação que se
desenrolou em sua mente com uma clareza cruel. Substituíam umas às outras com a
mesma rapidez com que se troca um móvel velho. Riam de novo. Amavam de novo.
Faziam promessas novas antes mesmo que a terra do último túmulo tivesse tempo de
assentar.
Não havia espaço para tristeza. Nem para lágrimas. Isso já havia se esgotado há muito
tempo atrás. O que restava agora era essa camada espessa de desdém. Uma crosta
de ressentimento que o separava do resto do mundo.
O livro ao seu lado parecia, agora, mais um cadáver jogado naquela pilha de coisas
esquecidas. Mais uma história terminada. Mais um lembrete do motivo pelo qual ele
jamais se permitiu esquecer seu passado. E jamais permitiria.
Abriu a porta do quarto, atravessando o curto corredor até a sala de estar. E, mais uma
vez, encontrou-se sozinho. Victor não estava lá. Nenhum som, nenhuma movimentação.
Apenas o silêncio preenchido pela luz da manhã que vazava pela persiana torta da
janela. Porém, havia algo que permaneceu da noite anterior. Em cima do balcão,
repousava o bolo de chocolate que ele havia comprado na padaria, agora, com três
pedaços claramente faltando. Edward arqueou uma sobrancelha. Bem que Victor havia
deixado claro que iria se esbaldar com o bolo antes de ir dormir.
Ele se aproximou do balcão, puxando a faca que ainda estava ali, com marcas
ressecadas de cobertura. Cortou um pedaço generoso e o levou à boca, como se
mastigar algo fosse a forma mais prática de se manter ocupado e afastar pensamentos
mais indesejados.
O sabor tomou conta de sua boca de imediato. O amargor intenso do chocolate era
quase brutal, denso, espesso, como se cada mordida fosse uma lâmina a raspar contra
o céu da boca. Não era um doce convencional, nem uma sobremesa feita para agradar
multidões. Era forte e pesado. Havia uma nota amarga que parecia ter sido
cuidadosamente calculada, quase cruel, como se o próprio confeiteiro soubesse que o
açúcar não era suficiente para adoçar certas vidas. E, de alguma forma, isso fazia
aquele bolo se encaixar perfeitamente naquele instante. Era mais do que comida. Era
um lembrete material de que nem tudo na vida precisava, ou deveria, ser doce.
Mas então, algo que estava ali o tempo todo capturou sua atenção. Algo que seus
olhos, ainda nebulosos pela inércia da manhã, não haviam registrado antes.
Um envelope.
"Ei, cara. Acordei cedo hoje, precisei sair correndo pro trabalho. Talvez você nem me
veja quando levantar. O carteiro deixou isso aqui mais cedo — disse que era pra você.
E olha… parece que você tem mais amigos do que eu imaginava, hein? Haha. Enfim, tá
aí. Até mais. — V."
Sem dizer uma palavra, Edward largou o bilhete no balcão. Sua mão então se fechou
lentamente sobre o envelope, puxando-o para mais perto. A textura do papel era áspera,
envelhecida, com manchas no tom marrom desbotado que pareciam cicatrizes do
próprio objeto.
Girou-o nas mãos, observando a parte de trás. Não havia selo. Nem carimbo. Nem
qualquer indicação de postagem formal. A parte onde deveria constar o remetente
estava vazia, entregue a um silêncio proposital. Apenas uma única inscrição, feita à
mão, em letras firmes e retas, usando caneta permanente preta:
Mas então seus olhos foram sugados por algo. No canto superior direito do envelope,
impresso de forma discreta, quase como se não quisesse ser notado… estava. A logo.
Seu corpo enrijeceu. Um nó frio apertou-lhe a base da nuca, descendo pela espinha
como um calafrio encharcado de memórias que ele vinha tentando enterrar há quase
uma década. Por algum motivo, o universo tinha tirado a semana para relembrá-lo todos
os dias desse inferno.
Seu estômago se contraiu. As mãos tremularam, não por medo físico, mas por aquela
angústia cortante, visceral, que só quem carrega um passado como o dele pode
compreender. De repente, todo o ambiente ao seu redor — o bolo, o balcão, a luz do
sol, as paredes manchadas — desapareceu, ficando borrado, desfocado. Tudo se
dissolveu, exceto aquele pedaço de papel nas suas mãos.
Era como se o próprio envelope tivesse pulsação. Como se respirasse. Como se
estivesse ali, aguardando, na mais silenciosa das ameaças.
Edward segurou o envelope por mais alguns segundos, como se ainda houvesse tempo
para decidir se deveria ou não atravessar aquele limiar. Mas, no fundo, sabia que não
havia escolha. Seus dedos deslizaram sob a aba do papel e, com um movimento seco,
ele a rasgou, expondo o interior.
De lá, puxou um único pedaço de papel. Ou, talvez, o que restava dele. O estado do
objeto parecia ser quase uma declaração em si: estava completamente amarrotado,
com as bordas rasgadas e irregulares, como se tivesse sido arrancado de algum lugar
às pressas, ou como se mãos pequenas e desesperadas o tivessem manipulado até
que a fibra do próprio papel cedesse. Mas não era isso o que mais chamou sua atenção.
E então, seus olhos se fixaram nas palavras, trêmulas, tortas, desalinhadas, que
pareciam quase gritar da superfície do papel:
Seu coração disparou. Ele releu. Uma vez. Duas vezes. Três vezes. Quatro vezes. O
olhar saltava de palavra em palavra, tentando decifrar, digerir, acreditar. Mas, quanto
mais lia, mais percebia os pequenos detalhes. Erros gramaticais que não passavam
despercebidos:
“A flôr” — com acento, incorreto. A ortografia traía a mão que a escreveu. Era o tipo
de erro que uma criança cometeria. “Todo mundo pensa que a equipe desapareceu”
— a construção da frase soava rudimentar, quebrada, quase ingênua, sem
concordâncias mais elaboradas.
O próprio traço da letra (disforme, tremido, irregular) parecia suplicar por ajuda,
transbordando medo, urgência e uma inocência amarga que fazia o estômago de
Edward se contrair.
De dentro daquele lugar que, segundo todas as versões oficiais, estava abandonado.
Fechado. Selado após o incidente. Após… tudo.
Por um instante, Edward ficou ali, imóvel, apenas olhando para aquela folha como se
ela fosse a chave de um cofre que ele passou a vida inteira fingindo que não existia. O
que fazer agora? Fingir que não viu? Jogar fora, seguir a vida, continuar naquela rotina
insossa, cinza, mofada e mecânica que ele chamava de existência?
Poderia fazer isso. Claro que poderia. Sempre podia. Sempre houvera essa escolha.
Ignorar. Silenciar. Desviar os olhos, como fez por anos. Por uma década. Fingir que tudo
aquilo era só mais um pesadelo que nunca acorda. Mas algo dentro dele, algo que ele
mesmo acreditava estar morto, se remexeu. Pela primeira vez em tanto tempo, Edward
sentiu um propósito.
Não aquele tipo de propósito romântico, tolo, enfeitado por discursos vazios e ideais
frágeis. Não. Era um propósito frio. Áspero. Duro como concreto velho. O tipo de coisa
que gruda nas costelas, que aperta o peito e que não te deixa dormir. Tudo na sua vida,
todos os anos, todas as perdas, todas as cicatrizes, todos os silêncios acumulados,
haviam sido um longo e tortuoso prelúdio para isso.
Fazia sentido porque agora ele sabia: não importava o quanto ele tentasse se afastar,
apagar, esquecer. O passado nunca esqueceu dele. O passado nunca esquece. Nunca
perdoa. E agora, estava chamando por ele.
O ciclo monótono dos dias — acordar, sair para fazer algo que o distraia por alguns
minutos, comer qualquer coisa requentada, ignorar os próprios pensamentos, esperar
que a noite chegue, dormir e repetir tudo no dia seguinte — isso, tudo isso, acabou.
Acabou.
Mas sabia de uma coisa. Pela primeira vez em muito, muito tempo, ele precisava saber
a verdade. Não podia aceitar nada menos que a verdade. E pela primeira vez desde
que deixou aquele inferno de fábrica, ele entendeu que, se quisesse algum dia se
reconciliar com quem ele foi, com quem ele é, então, ele teria que voltar.
Voltar para aquele lugar. Para aquele pesadelo. Para a Playtime Co.
Edward correu de volta até o quarto, os passos ecoando no assoalho gasto, misturados
ao som abafado de sua própria respiração. A porta já estava aberta, como ele havia
deixado. Ele foi direto para o canto, onde sabia que havia deixado, amontoado sobre o
colchão, um conjunto de roupas que não usava havia anos. Vasculhou entre as dobras
amarrotadas, jogando para o lado camisetas puídas, calças jeans rasgadas e meias
sem par, até finalmente encontrar o que procurava.
Primeiro, vestiu uma camisa social branca, surpreendentemente limpa, como se nunca
tivesse sido tocada pelo tempo. O tecido era engomado, rígido nas costuras,
desenhando linhas retas sobre seu corpo e conferindo-lhe uma aparência quase formal,
ainda que em completo contraste com o ambiente decadente que o cercava. Por cima,
puxou uma jaqueta preta, pesada, feita de um tecido que parecia nylon reforçado, com
uma leve textura quase emborrachada. A gola alta da peça subia até quase tocar-lhe o
queixo, e as mangas, largas e um pouco mais compridas do que deveriam, caíam além
dos pulsos, engolindo parte das mãos. A bainha terminava logo abaixo da cintura, com
elásticos tensos que apertavam discretamente seus quadris. Não havia logotipos, nem
adereços, nem qualquer detalhe chamativo. Aquela peça parecia ter sido feita para um
único propósito: funcionar. E desaparecer na multidão.
Abaixo, vestiu calças de sarja escuras, de corte reto, sem muitos detalhes além de
alguns bolsos laterais, reforçados, costurados para aguentar peso. Por fim, calçou suas
botas gastas, de couro preto, com as solas parcialmente descoladas nas bordas, mas
ainda firmes o suficiente para mais uma missão. Mas não estava pronto ainda.
Sem perder tempo, saiu do quarto e cruzou o corredor, seguindo direto até o "quarto
reservado", empurrando a porta com força. Ela rangeu, como se protestasse, como
sempre fazia. Seus olhos varreram o ambiente. O espaço parecia mais apertado do que
nunca, sufocado por uma quantidade absurda de coisas que pareciam pertencer a outra
vida.
Por um instante, ele pensou se deveria levar alguma daquelas pastas abarrotadas de
documentos, ou quem sabe a câmera digital quebrada que estava sobre uma pilha de
manuais. Passou os olhos por uma caixa cheia de ferramentas — chaves inglesas,
alicates, martelos, lanternas.
Ele se abaixou e puxou o GrabPack, levando-o até as costas. Tentou encaixá-lo e errou.
A fivela escapou de seus dedos, o tubo esquerdo enroscou no braço, a mão azul bateu
no próprio queixo. Xingou em voz baixa, respirando fundo. Tentou de novo. Mais uma
vez. Até que, finalmente, depois de quase um minuto de luta, os encaixes se ajustaram,
a cinta apertou firme no peito, e o peso familiar voltou a repousar sobre seus ombros.
Dez anos sem usar o aparelho. Dez anos, e ainda assim, parecia que ele nunca tinha
se separado daquilo.
Mas, quando olhou para o lado... seus olhos encontraram algo que o fez parar. O
telefone vermelho. Ali estava ele, em cima de uma caixa.
Por um instante, Edward quase deixou o telefone onde estava. Afinal, era só um
brinquedo, certo? Mas... não. Ele sabia que não era só um brinquedo. Não depois
daquela fita. Não depois daquela mensagem distorcida, gutural, que falava em “mandar
um presente”. Não depois de Rowan.
Aquilo era uma chave. Ou, quem sabe, um convite. Ou, quem sabe... uma armadilha.
De qualquer forma, ele não podia ignorar.
Pegou o telefone, segurando-o com as duas mãos, sentindo o peso estranho, mais
pesado do que um brinquedo comum, quase como se houvesse algo dentro dele que
não deveria estar ali. Sem pensar duas vezes, enfiou-o no bolso maior da jaqueta, onde
ele ficou perfeitamente encaixado, ainda que uma parte da antena azul ficasse de fora,
balançando levemente.
Respirou fundo. Olhou uma última vez para aquele quarto, para aquele túmulo de
memórias. Saiu do "quarto reservado", puxando a porta até quase fechá-la, mas
deixando-a entreaberta, como quem teme que, ao trancá-la, poderia também selar algo
que não deveria ser trancado.
Edward praticamente disparou na direção do escritório. O som seco das solas de suas
botas reverberava no piso encardido do corredor, acompanhado pelo rangido abafado
do GrabPack balançando em suas costas a cada passo. Assim que chegou na porta,
ele a empurrou com força e ela abriu quase batendo na parede.
O escritório tinha aquele cheiro específico de papel velho misturado com poeira, tinta
de impressora e café frio. As persianas da janela estavam tortas, e a luz do sol entrava
em feixes irregulares, cortando o ambiente em tiras de claridade e sombra. Havia pilhas
e mais pilhas de papéis amassados no canto e o computador repousava no centro da
mesa principal, cercado por uma confusão de cabos, canetas e cadernos semiabertos.
Sem perder tempo, Edward puxou o bloco, e pegou a caneta entre os dedos com
agilidade.
Por alguns segundos, ficou apenas olhando para o papel quadrado. O que escrever?
“Fui sair pra resolver umas coisas.” — Não. Isso era genérico demais. Victor acharia
estranho.
“Volto logo.” — Mentira. Ele não fazia ideia se voltaria.
“Me liga se precisar.” — Outra mentira. Edward não atenderia. Nem sequer levaria o
telefone pessoal.
“Se eu não voltar… esquece que me conheceu.” — Drama barato. Coisa de filme ruim.
Não combinava.
Por longos segundos, Edward ficou ali parado, segurando a caneta suspensa no ar,
como se a ponta dela fosse uma antena tentando captar alguma ideia. A mão tremia,
não de nervoso, mas de exaustão mental, de sobrecarga, como se aquele pequeno ato
de escrever fosse, ironicamente, mais difícil do que tudo que estava prestes a fazer. Até
que respirou fundo. Apertou a caneta contra o papel e, finalmente, escreveu:
"Victor, tive que sair para resolver umas coisas importantes. Não é nada com você,
nem com a casa. Não se preocupe, eu estou bem. Nos falamos quando eu voltar. — Ed."
Simples. Suficiente. Seguro. Ambíguo o bastante para não levantar alarmes... mas
honesto o bastante para não ser uma mentira completa.
Deu dois passos para trás, ajeitando o GrabPack nas costas. Já tinha se
desacostumado com o peso daquela coisa. O corpo curvava-se um pouco para frente,
forçando seus ombros e costas como se ele carregasse uma mochila cheia de pedras.
Apertou novamente as presilhas no peito, ajustando o peso.
Ele olhou para a porta do escritório. Precisava deixá-la aberta quando saísse. Se a
porta ficasse fechada, havia uma chance — ainda que mínima — de Victor
simplesmente não passar por ali o dia inteiro. Mas aberta... aberta, era impossível não
ver.
Mas, então, a atenção de Edward se voltou para outra coisa: o espelho. Estava
encostado no canto do escritório, meio torto, com uma rachadura que cortava o vidro
diagonalmente, partindo-o como uma cicatriz permanente. A moldura de madeira,
lascada nas pontas, parecia ter sido pintada de branco há muito tempo, mas agora
estava mais cinza amarelado que qualquer outra coisa.
Por um instante, Edward ficou simplesmente parado, encarando aquela figura. Quase
não se reconheceu.
O cabelo estava menos bagunçado do que de costume, ajeitado meio sem querer no
processo de vestir a jaqueta. A barba rala, desalinhada, parecia menos grotesca, como
se a urgência da missão escondesse suas falhas. A camisa social branca estava
impecavelmente alinhada sob a jaqueta preta, que, por sua vez, conferia-lhe uma
silhueta forte, quase militar. As calças escuras, as botas firmes, o GrabPack nas
costas… Era irônico. Edward estava mais bem arrumado agora do que quando saiu
para encontrar Louise. Mais bem arrumado do que em qualquer ocasião nos últimos dez
anos.
E talvez… talvez essa fosse a verdade crua, cruel e inegável. A Playtime era, e sempre
foi, o amor da sua vida. O lugar que ele odiava. O lugar que destruiu tudo que ele era.
O único lugar que fez com que ele se sentisse... alguém. Era como se ele,
inconscientemente, quisesse mostrar para aquele prédio maldito que estava voltando
diferente. Voltando preparado. Voltando alguém que a fábrica não podia mais mastigar.
Era como se, alguma parte de si mesmo, estivesse voltando para casa.
— Olha só... quem tá aí… — murmurou, encarando seu próprio reflexo, apertando as
mãos nos quadris, sentindo o tecido da jaqueta estalar sob os dedos. Se endireitou,
respirou fundo e apertou as alças do GrabPack.
— Acha que pode se esconder, é? Acha que pode ficar aí, sentado, com esse sorrisinho
patético, achando que ninguém vai te achar? Achou errado — o tom de voz foi ficando
mais ríspido e cortante.
Ele apontou o dedo indicador para o próprio reflexo, como um detetive de filme noir
repreendendo um suspeito.
— Tá se divertindo, não tá? Se divertindo às custas dos outros. Achando que ninguém
ia perceber. Pois é... surpresa.
Passou a mão lentamente pela lateral do GrabPack, sentindo a frieza dos braços
metálicos do aparelho, a rigidez dos encaixes, até bater a palma contra uma das mãos
metálicas, que balançou levemente nas costas.
— Sabe o que é isso, não sabe? Hã? Sabe, sim. Isso aqui — deu um tapinha mais forte
no GrabPack — não é mais só uma ferramenta. Não hoje. Hoje, isso aqui é uma arma.
E adivinha só? Ela tá carregada.
— Você sabe exatamente do que eu tô falando. Sabe, sim. Onde eles estão? Quem tá
lá? Quem mandou aquele recado por carta? E olha… — Edward esfregou o queixo,
pensativo, simulando uma expressão cínica — …eu não sou exatamente um cara
paciente. Nunca fui.
Apoiou uma mão no quadril, a outra batendo levemente contra a lateral do GrabPack,
como quem tamborila o coldre de uma arma.
— Você acha que isso é uma piada? Acha que eu sou idiota? Pois eu te digo... se tem
alguém lá dentro, se tem alguém vivo, se tem alguém trancado naquele inferno… — sua
voz baixou, agora mais grave, carregada de raiva seca — ...eu vou achar. E eu vou tirar
eles de lá. E você... você vai rezar pra não ser quem eu penso que é. Porque se for...
— Edward apertou os olhos, a mandíbula travada — ...se for, meu chapa... você tá
ferrado.
Seu peito subia e descia com força, não de cansaço, mas de uma adrenalina antiga,
quase esquecida, que agora borbulhava sob a pele como ácido. E então, mais uma vez,
encarou seu próprio reflexo.
— Agora, fala. Vai. Onde é que você tá escondendo eles, hein? Hein? — sua mão
apertava o cabo da mochila, como se fosse puxar a mão do GrabPack a qualquer
momento — Quer mesmo brincar comigo? Quer MESMO?
Aquela não era uma conversa. Era um interrogatório. E, pela primeira vez em uma
década... Edward não estava mais fugindo. Ele era o perseguidor.
Edward manteve o olhar fixo no próprio reflexo, as mãos cerradas contra as laterais do
GrabPack, os ombros tensionados como molas prestes a se soltar. O silêncio entre ele
e o vidro rachado parecia uma linha tênue, esticada até o limite. E então, num último
impulso, ele apontou o dedo indicador para o espelho, os olhos semicerrados, e
disparou:
— Espero que você tenha rezado, porque eu... eu tô voltando pro inferno. E vou levar
o inferno comigo.
E, com isso, girou nos calcanhares, deixando seu próprio reflexo para trás como se
fosse um interrogado derrotado. Avançou até o computador, sentou-se na cadeira de
correr, ligou a máquina que rangeu e chiou como uma velha locomotiva tentando
acordar. O monitor piscou, demorando mais do que deveria, até finalmente acender com
aquela luz azulada pálida.
O post-it amarelo que ele próprio colou bem no centro da tela estava agora
atrapalhando mais do que nunca, bloqueando metade do que ele podia enxergar, parte
da barra de endereços e praticamente todo o canto superior esquerdo. Mas ele não
ousaria tirá-lo. Estava no lugar certo, perfeitamente visível. Victor veria assim que
chegasse. Tinha que ver.
Com os olhos apertados, Edward clicou no navegador, abriu uma aba e digitou:
“YouTube”. O cursor piscava, quase zombando da dificuldade que ele tinha para ver
atrás do post-it, enquanto ele navegava pelo site. Na busca, escreveu: “Hey Ya!” —
OutKast.
Seus braços dispararam para cima, depois para os lados, como se estivesse tentando
expulsar a própria poeira do ar. Girou no lugar, bateu palmas fora de ritmo, balançou os
quadris de forma desajeitada, quase caricata.
“You think you've got it... oh, you think you've got it...”
“But got it just don't get it, till there's nothing at all...”
Edward ergueu os braços, olhando para o teto, sorrindo como quem acabava de
quebrar uma maldição que o prendia havia anos.
Durante dez anos, ele tinha olhado para o mundo como quem olha para um filme preto
e branco. Um desfile de gente patética, hipócrita, vazia. As mesmas caras, as mesmas
vozes, os mesmos ciclos podres de promessas vazias, de amores passageiros, de vidas
que se renovam como quem troca de máscara. Porque, no fim, era exatamente isso:
máscaras, que um dia caiam.
Mas agora... ele não estava olhando para eles. Ele estava olhando para si. E, pela
primeira vez, não sentiu nojo do que via. Viu esperança. Viu propósito. Viu redenção. O
coração batia tão forte que ele podia ouvir dentro dos ouvidos, se misturando com o
refrão que explodia nas caixas de som:
Dava pulos pequenos, tentando mexer os pés, mas quase tropeçando graças ao peso
desequilibrado do GrabPack. A mão direita segurava uma ponta da mochila, enquanto
a esquerda fazia movimentos circulares no ar, como se fosse um maestro descontrolado
regendo a própria vida.
Por alguns minutos, ali dançando, ele era feliz. Talvez mais do que jamais tenha sido.
Edward girou no próprio eixo, escorregou de lado, bateu com o joelho na mesa, riu
sozinho, sem parar de se balançar. Uma risada que não carregava amargura. Mas, no
meio do giro, no meio do sorriso, no meio do êxtase… Um pensamento bateu nele como
um soco seco no estômago.
Parou abruptamente. A música seguiu, ignorando seu colapso repentino. Se Victor tinha
ido trabalhar... ele tinha levado o carro. E ir até a Playtime a pé? Fora de cogitação. A
fábrica ficava longe demais para tornar essa uma possibilidade plausível.
Alguém que, com certeza, aceitaria dar uma carona. E, com isso, Edward esticou o
braço, pausou o vídeo no YouTube (a tela ainda meio escondida atrás do post-it
amarelo), respirou fundo e sorriu.
Sorriu porque não conseguia parar de pensar no quão bom era finalmente estar no
controle. No controle da própria vida.
…
O carro era um Toyota Corolla cinza-prata. Pintura limpa, poucos arranhões nas
laterais, vidros escuros, pneus quase novos e uma traseira que ostentava um adesivo
gasto dizendo “Apoie as padarias locais” — um pequeno gesto de apoio ao
microempreendedorismo que destoava do humor ácido de sua dona. O interior estava
bem cuidado, mas não impoluto: sobre o painel, uma fileira de pequenos bonecos Funko
Pop — todos de filmes de terror. Michael Myers, Freddy Krueger, Samara, e até o
Chucky balançavam levemente com cada curva do trajeto.
O cheiro era uma mistura agridoce de amaciante barato, couro sintético e pão doce
recém-assado, resquícios da padaria onde Laura trabalhava. O painel central exibia uma
luz acesa do combustível, não era uma emergência ainda, mas dava aquele toque sutil
de ansiedade ao passeio. No porta-copos, um copo plástico com uma logo apagada
pelo tempo que já havia se tornado ilegível, metade cheio de café frio e amargo.
Laura Rosenberg estava no banco da motorista, com as mãos tão apertadas no couro
do volante que seus nós dos dedos pareciam mais embranquecidos do que o normal.
Seu cabelo, loiro tingido, descia em mechas cacheadas que terminavam em pontas
pretas, uma assinatura pessoal que fazia parte de sua estética a muito tempo. O batom
preto, meio borrado nas laterais, contrastava violentamente com o casaco rosa que ela
nunca largava. Por baixo, o uniforme branco e azul-claro da padaria, já com algumas
manchas de farinha.
O silêncio dentro do carro parecia ter peso. Só se ouvia o zumbido baixo do motor, o
som dos pneus deslizando no asfalto e, vez ou outra, um rangido seco quando ela
apertava um pouco mais o volante. Edward, no banco do passageiro, com as pernas
cruzadas, estava encostado no vidro, olhando a cidade desfilar do outro lado da janela.
Do lado de fora, a cidade era uma paleta de concreto, postes enferrujados e placas de
trânsito desbotadas. À medida que se afastavam do centro, os prédios iam ficando mais
espaçados, dando lugar a galpões, depósitos e terrenos baldios. Os fios de eletricidade
riscavam o céu como cicatrizes, e as nuvens, de um cinza pálido, pareciam pesar tanto
quanto os pensamentos de Edward.
— Sabe o que eu tô tentando entender, Edward? Me explica, por favor... O que diabos
você tá fazendo vestido que nem o Bruce Wayne? Hã? Sério! Olha pra você! Camisa
branca engomada, jaqueta preta, calça de corte reto... E isso aí nas costas, meu Deus,
isso é... isso é o quê? Uma mochila de astronauta? Um lança-chamas portátil? Que
porra é essa, cara?
— E outra... Me diz, me diz, POR FAVOR, qual é o seu problema? Ontem, você olhou
bem na minha cara e me falou: 'Laura, eu juro, eu nunca mais vou te pedir mais
NENHUM favor na minha vida'. E olha pra gente agora, Edward! OLHA PRA ESSA
MERDA AQUI! Eu, saindo no meio do meu expediente, no MEIO DO MEU TURNO, pra
levar você... pra quê? PRA UMA FÁBRICA FECHADA HÁ DEZ ANOS NO MEIO DO
NADA! Eu devia ser internada, isso sim.
— Você tá dramatizando, Laura — respondeu, seco, sem virar o rosto. — Não é como
se eu tivesse pedido pra você me ajudar a mover um corpo ou coisa assim. É só uma
carona. Você está dirigindo. Você faz isso todo dia. É literalmente seu hobby.
— MEU HOBBY?! Meu hobby? Sabe o que é meu hobby, Edward? Dormir! Comer
pizza! NÃO PERDER O EMPREGO! Isso são hobbies de verdade pra mim, tá? Agora
me responde, por que eu aceitei essa merda? Me explica, ME EXPLICA!
Edward piscou lentamente, virou o rosto pra ela por um segundo, expressão morta,
como quem assiste uma peça que já viu cem vezes:
— E nem começa, tá? Nem começa a usar esse seu tom de psicopata existencial de
filme indie dos anos noventa, não. Eu JURO, Edward... eu JURO... se você não me
contar AGORA o que você vai fazer naquela fábrica, eu jogo esse carro pra fora da
estrada com a gente dentro.
Ele segurou a respiração. Apertou levemente o joelho com a mão, olhando a cidade
começar a se transformar em campos industriais vazios.
Laura apertou os olhos, mordeu o lábio inferior e bateu três vezes no volante,
controlando a vontade real de fazer alguma besteira. O silêncio se instalou. Só o som
dos pneus no asfalto, o vento batendo nos retrovisores e o tremor sutil dos bonecos
Funko Pop dançando no painel.
Laura apertou o volante mais uma vez, suspirou fundo e disparou, com a voz baixa,
seca e ferina:
— Sabe, Edward... às vezes eu me pergunto quem é mais maluco. Você... ou eu, que
ainda te escuto.
Ele sorriu, mas não respondeu. Porque, no fundo, ela estava certa. Foi quando ele
respirou fundo, girou o corpo levemente no banco, o GrabPack pesando nas costas
como se fosse um par de asas quebradas, e falou, finalmente, com a voz mais firme que
tinha usado desde que entrara no carro:
— Olha, Laura… eu sei que você não entende. Talvez nem vá entender. Mas isso…
isso aqui… é a primeira coisa, em muito, MUITO tempo, que faz algum maldito sentido
na minha vida.
Ela apertou mais forte o volante, mandíbula travada, olhos ainda cravados na estrada.
— Sabe… tem gente que nasce pra ser feliz. Pra ter uma casa bonitinha, um emprego
qualquer, cachorro no quintal, filhos. E tem gente que nasce pra isso… pra ficar andando
por aí, vazio. Sem propósito. Sem nada. Até que uma coisa... uma única coisa... surge
e te mostra que você ainda é… sei lá... útil. Que você pode fazer algo que vale a pena.
E, Laura, eu... eu finalmente achei isso. Você não precisa entender. Só… só precisa
aceitar que isso significa alguma coisa. Pra mim. E que eu preciso estar lá.
Ele respirou, apertando as mãos. A última frase saiu quase como um pedido, quase
como um suspiro. Laura manteve os olhos na estrada, mas sua expressão suavizou,
mesmo que minimamente. As mãos relaxaram um pouco no volante, e seus ombros
baixaram. Mão muito, mas o suficiente para que qualquer um atento percebesse que o
muro de defesa dela começava a rachar.
Por alguns segundos, ela ficou calada. Somente o som do motor preenchia o espaço
entre eles, junto ao rangido dos limpadores que riscavam o para-brisa, afastando poeira
e pequenos insetos. Até que, com um meio sorriso torto e cheio de sarcasmo, ela jogou,
seca, mas não sem humor:
— Você sabe que está cometendo um crime, né?
— O quê? Claro que não. A fábrica tá abandonada. Não tem ninguém lá. Não tem crime
nenhum nisso.
Ela gargalhou. Uma risada seca, amarga, e ao mesmo tempo quase divertida, batendo
a palma da mão no volante três vezes.
— Você tá inventando essas coisas — rebateu, mais na defensiva do que por convicção
real.
Ela respirou fundo, voltou a apertar o volante com tanta força que os nós dos dedos
ficaram brancos de novo.
Edward ficou em silêncio. Não fazia a mínima ideia de como ela sabia tanto sobre isso.
Aquela garota devia passar tempo demais na televisão. O olhar dele se perdeu no
horizonte. Seus pensamentos pareciam mais pesados que o GrabPack em suas costas.
O cérebro dele girava. As palavras de Laura batiam como martelos, uma após a outra:
“crime”, “propriedade privada”, “Fazbear Entertainment”.
Mas, por mais que sua mente pesasse, uma conclusão emergiu da névoa dos
pensamentos, simples, cortante, quase cínica: "E daí?"
Ele duvidava que alguém fosse atrás dele. Quem, afinal? Ninguém nem se lembra mais
da existência daquele lugar. Era um esqueleto esquecido no mapa. Nenhum segurança,
nenhuma patrulha. Além disso… ninguém sabia que ele estava indo para lá. Ninguém,
exceto Laura. E Laura não era do tipo que abriria a boca — mesmo que por teimosia,
ou orgulho.
Se desse errado? Bom... que diferença fazia? A vida dele, até aquele momento, já tinha
sido um fracasso lento e metódico. Se tudo explodisse, pelo menos... ele teria morrido
fazendo algo que, de verdade, importava. A cabeça dele voltou lentamente para o vidro,
observando a estrada se estender até o infinito. Postes enfileirados. A vegetação morta,
quebrada, ao redor. A cidade, agora, parecia um quadro pós-apocalíptico.
Laura apertou o volante mais uma vez e soltou, baixa, quase como se falasse sozinha:
O carro seguiu cortando a estrada como uma lâmina atravessando um tecido velho. As
árvores de pinheiro, densas e altas, flanqueavam os dois lados do caminho, formando
um túnel verde-escuro que parecia sugar toda a luz do mundo. O asfalto era uma cicatriz
negra que avançava até onde os olhos conseguiam alcançar. E, lá na linha do horizonte,
finalmente surgia a silhueta.
A Playtime Co.
Edward olhava. E, pela primeira vez em muito, muito tempo... ele se sentiu pequeno.
Minúsculo diante daquela estrutura que parecia ter sido projetada não só para fabricar
brinquedos, mas para fabricar memórias, traumas, fantasmas. Seu coração batia como
um tambor furado — pesado, incerto, cheio de ecos.
Sem dizer nada, ele abriu a porta do carro e saiu, caminhando em direção a entrada da
fábrica. Mas, antes que pudesse dar mais de três passos, ouviu o estalo da porta do
motorista. Laura desceu, se apoiou no capô, braços cruzados, encarando-o.
— Espero que essa merda toda valha a pena, Finch! — ela gritou, de longe, com aquele
meio sorriso debochado.
— Vale — ele respondeu, girando o corpo. — Pela primeira vez... vale, sim.
— Sério, o que que tem aí dentro? Um tesouro? Uma mina de ouro? Ou você só tá
realmente tão pirado assim?
— Talvez um pouco dos três — Edward ergueu os braços, quase rindo. — Mas, se eu
não sair em dois dias... — fez uma pausa, olhando bem nos olhos dela — ...você chama
a polícia. Ou, sei lá, os bombeiros. Ou o exército. Você escolhe.
— Você é um idiota completo — Ela respirou fundo, e completou, com a voz mais baixa
— Se cuida... tá? Eu gosto de você, Edward. Mesmo você sendo um lunático.
Edward ficou alguns segundos calado. Sentiu uma fisgada no peito que não esperava.
Ela sorriu, mostrando aquele sorriso largo, dentes brancos como porcelana, destoando
completamente da imagem que ela costumava passar — sempre mascando chiclete ou
fumando.
Ele deu um aceno curto, girou nos calcanhares e caminhou até a porta principal. Ali,
parou. Observou suas mãos, trêmulas. Segurou a maçaneta de aço inoxidável. Ela
estava fria, áspera. Empurrou levemente, mas a porta não cedeu. Não estava trancada.
Só... enferrujada. Pesada. Como se o próprio passado resistisse a ser aberto.
Respirou fundo. Firmou os pés. E então, aplicou toda a força dos ombros, rangendo
dentes, até que, com um estalo metálico e um grito rouco de ferrugem, a porta começou
a ceder.
Quando ela se abriu, Edward não estava mais na cidade. Não estava mais em 2025.
Estava de volta. De volta ao lugar onde tudo começou. Ao lugar que nunca deixou de
existir dentro dele.
O piso quadriculado de branco e azul estava rachado em diversos pontos, com lascas
faltando, expondo o concreto sujo por baixo. As paredes, pintadas em um tom creme
amarelado, estavam desbotadas, com manchas de infiltração subindo como veias
escuras até o teto. No centro da parede frontal, logo atrás do balcão da recepção, estava
a icônica pintura do Huggy Wuggy, sorrindo, mas sem mostrar seus dentes, embora
agora estivesse descascada, com pedaços faltando no rosto e rachaduras atravessando
os olhos.
Edward mirou. O som do gatilho da mão azul do GrabPack clicando ecoou no vazio. A
palma azul disparou em linha reta, chicoteando o rosto da pintura e batendo contra a
parede com um estalo seco, arrancando um pedaço da tinta velha. A mão voltou,
retraindo-se como uma mola, encaixando-se novamente no dispositivo.
O olhar dele desceu para o balcão da recepção. Além do computador iMac, com monitor
convexo, teclado amarelado pelo tempo e mouse de bolinha, havia uma agenda
encapada de couro vermelho, folhas amareladas e muitas anotações rabiscadas em
caneta azul e preta. Copos de papel amassados, uma caneca rachada com o logo da
Playtime e restos fossilizados de algo que um dia foram jujubas.
Mas foi a fita cassete que realmente chamou sua atenção. Verde-limão, com arranhões
nas laterais e uma etiqueta escrita à mão: "Aviso de Segurança".
No canto superior direito da sala, grudada por suportes de ferro, estava uma televisão
CRT de moldura cinza escura, seu vidro ligeiramente azulado, com marcas de dedos na
superfície. Logo abaixo dela, uma mesinha de aço inox, onde repousava o toca-fitas, da
mesma cor verde da fita, conectado à televisão por cabos grossos e empoeirados.
Edward encaixou a fita. O toca-fitas fez um som de clique seco, e a tela acendeu com
interferências, linhas tremulando antes da imagem estabilizar.
— Olá! Meu nome é Leith Pierre, e eu sou o chefe de inovação e CEO aqui na fábrica
da Playtime Co...
— Se você está vendo isso, é porque está em local proibido — disse Leith, ainda com
a voz tentando parecer alegre e inocente. — E, sim, nós deixamos essa gravação
rodando em loop após o final de cada expediente…
— Assim como nos orgulhamos dos nossos brinquedos de alta qualidade e do cuidado
com as crianças, eu também me orgulho especialmente da nossa segurança...
— Por exemplo, essa fábrica está cheia de sensores de movimento que, quando
ativados, irão disparar um alarme de emergência para alertar imediatamente as
autoridades...
Ele engoliu em seco, olhando para os cantos do teto. Será que ainda funcionavam?
Será que alguém ainda receberia esse alarme? A voz de Laura ecoou na sua cabeça:
"Playtime nunca abandonou formalmente a fábrica..."
— E essa é a parte mais leve do nosso sistema de segurança... Sem spoilers por aqui,
pessoal! — Leith Pierre deu uma risada honesta na gravação — Sendo assim, você foi
avisado. Ainda pode dar meia volta. Seja lá qual for a sua intenção, espero que ela valha
o risco.
Edward respirou fundo. Apertou com mais força as alças do GrabPack nas costas.
Sem pensar muito, Edward segurou o GrabPack, clicou no gatilho da mão azul e mirou.
A palma azul disparou, estalando no painel. Ficou pressionada por alguns segundos,
sendo escaneada. Um som distorcido de confirmação ecoou, misturado ao chiado de
ferrugem. Ao soltar o gatilho, a mão retornou como uma mola, e a porta começou
lentamente a se abrir, rangendo, denunciando os anos de abandono.
Edward sentiu um aperto no peito. Huggy era seu favorito. Mais do que isso… era um
símbolo de um tempo que ele acreditava ser mais simples. Caminhou olhando ao redor
e percebeu que algumas portas possuíam não apenas scanners, mas dispositivos de
botão da cor verde, com fios expostos, indicando que precisavam ser energizados para
funcionar. Ele não tinha nada que pudesse trazer eletricidade para aqueles dispositivos,
então teria que deixar aquelas portas para lá.
Se aproximou de uma das portas que tinha apenas o scanner azul. Mirou com o
GrabPack e disparou a mão. O painel faiscou, apitou e... entrou em curto. A luz azul
sumiu, dando lugar a uma fumaça fina. Edward acompanhou o rastro de faíscas que
percorreu os cabos até outra porta, acima da qual um letreiro infantilizado dizia:
"Energia".
Ele caminhou até a porta de vidro da sala de energia, tentou a maçaneta, mas estava
trancada. Edward tentou olhar o interior da sala pelo vidro das portas, mas isso era
impossível já que ali não parecia ter luzes ativas. No exato momento em que pensava
no que fazer, ouviu um som metálico atrás dele. Virou-se rápido.
Edward segurou firme a chave amarela e destrancou a porta de energia. O trinco girou
com dificuldade, rangendo de ferrugem, até que a porta finalmente cedeu, deslizando
alguns centímetros para dentro.
"Parece que deu sobrecarga na linha principal... deve ter sido algum pico elétrico. Isso
tá morto desde... sei lá, 2014? Talvez 2015 seja a data mais provável...", pensou,
passando a mão pelo queixo.
Ele segurou o GrabPack, mirou a mão azul em uma alavanca de segurança no painel
direito e puxou. A alavanca não desceu de primeira. Tentou de novo, forçando, até que
desceu com um estalo seco. As luzes vermelhas piscaram, e uma parte do painel se
acendeu, mas ainda não funcionava completamente. Observando os cabos, viu que
havia um circuito que precisava ser religado manualmente. Era um daqueles sistemas
onde a eletricidade precisava circular por torres de condução elétrica, ligadas por
contato.
Ele se virou, localizou os dois pilares condutores na sala. Mirou com o GrabPack, atirou
a mão azul no primeiro. O campo magnético estabilizou. Caminhou, segurando o fio
condutor ligado ao GrabPack, até o segundo pilar. Apertou o gatilho da mão vermelha,
lançando-a no segundo ponto.
Edward então respirou fundo e, ainda sem dizer uma única palavra, girou lentamente a
cabeça, permitindo que seus olhos percorressem cada centímetro da sala. Agora, com
as luzes acesas, ele começou a notar detalhes que antes haviam passado
despercebidos, obscurecidos pela penumbra e pelo foco que ele teve em religar a
energia.
Seus olhos se fixaram, primeiramente, na parede lateral, logo ao lado do disjuntor que
ele acabara de consertar. Ali, um cartaz promocional antigo, com as bordas dobradas,
parcialmente descascado pelo tempo, se destacava contra o concreto manchado. Nele,
estava estampada uma figura inconfundível — Kissy Missy. Um corpo volumoso de
pelúcia cor-de-rosa, a cabeça em formato de coração, olhos negros e brilhantes,
redondos, com pequenas pupilas brancas que davam a ilusão de vida. A boca enorme,
aberta num sorriso largo e agressivo, exibia dentes pontudos, alinhados, e uma língua
destacando-se do fundo escuro da garganta. Um laço azul estava elegantemente
amarrado no pescoço, contrastando com o rosa vibrante do corpo.
Edward ficou imóvel por alguns segundos, encarando aquela imagem. Suspirou,
balançando a cabeça levemente.
— Até você, hein? — resmungou em tom baixo, quase irônico. — Nunca gostei dessa
versão... pintaram o Huggy de rosa, amarraram um laço e acharam que isso era
inovação.
Ele soltou um risinho nervoso ao ler a parte sobre "não assustar Leith Pierre".
Desviando o olhar, notou então que havia brinquedos largados pelo chão, jogados de
forma desleixada, como se tivessem sido esquecidos ou abandonados às pressas. Seu
peito se apertou imediatamente. Mas quando seus olhos processaram o que realmente
estava vendo... seu estômago revirou.
O segundo brinquedo parecia um pug... ou algo que, um dia, fora inspirado em um pug.
Seu corpo era inchado, disforme, coberto por uma massa desgrenhada de pelos
azulados e roxos, misturados como se estivessem apodrecendo, derretendo um sobre
o outro. Dentes brancos, cerrados e circulares, se projetavam de uma boca sorridente,
que parecia mais uma ferida aberta do que qualquer outra coisa. Os olhos, fundos,
vermelhos, eram poços de escuridão e nojeira. As manchas negras e vermelhas no
tecido não deixavam dúvidas. Edward engoliu em seco.
— Isso é... — interrompeu a própria frase. Não queria nomear aquilo. Não queria dizer
"sangue". Dizer a palavra seria dar realidade ao que estava vendo. Talvez fosse tinta.
Ele se aproximou devagar, como se temesse que aquilo fosse começar a se mover. As
marcas no concreto desenhavam, de forma quase artística, a imagem de um braço
esquelético, com longas garras, curvas, pontiagudas. As linhas não eram feitas
aleatoriamente. Eram precisas. Deliberadas. E, ao lado, rabiscada como se alguém
tivesse usado as próprias unhas ou algum pedaço de metal, estava a frase: “Ele nos
salvou.”
Edward ficou parado, encarando aquilo. O silêncio da sala parecia crescer, como se o
som dos transformadores e dos cabos zunindo fosse engolido por algo maior. Algo
invisível, mas presente. Seus pensamentos começaram a se acelerar.
"’Ele nos salvou’... Quem? Quem salvou quem? Salvou do quê?”, Edward pensou.
"Quem escreveu isso? E, mais importante... onde essa pessoa está agora?"
Por alguns segundos, ele pensou em voltar. Abrir aquela porta e sair correndo até Laura
e abraçá-la o mais forte que conseguisse. Dizer que aquilo foi um erro, que ele não
precisava mais disso. Mas, no mesmo instante em que esse pensamento surgiu, ele o
esmagou. Engoliu seco. Cerrou os dentes. Apertou ainda mais as alças do GrabPack.
Até que… um estalo seco. Um ruído estático começou a sair de algum canto. Edward
girou o corpo imediatamente, apertando inconscientemente as alças do GrabPack,
olhando ao redor. Seus olhos então pousaram sobre uma televisão — uma velha CRT,
daquelas que mal cabem em uma prateleira. Estava apoiada em uma estante metálica
na parede, logo abaixo dos arranhões que desenhavam aquele grotesco braço
esquelético. Edward tinha certeza absoluta de que ela estava desligada quando entrou.
Nenhum cabo, nenhum toca-fitas acoplado, nenhum botão pressionado. Mesmo assim,
o monitor ganhou vida, cuspindo chiados e linhas horizontais que tremeluziam.
Possivelmente se ligou após ele trazer a energia de volta.
A tela se estabilizou. A primeira coisa que surgiu foi a imagem de um homem — calvo,
elegante, vestindo um terno marrom com ombreiras largas. Ele estava sentado diante
de um fundo cinza opaco, completamente liso, como se aquilo fosse um estúdio
improvisado. O sorriso que exibia era largo... largo demais. Aquela expressão pertencia
a um tempo diferente, um tempo onde a simpatia vendida na TV não escondia tão bem
os horrores que cresciam por trás dela.
O homem inclinou-se levemente para frente, olhando direto nos olhos de quem assistia.
E então, sua voz soou — um tom aveludado, meio nasalado, quase cômico, mas
carregado daquela empolgação artificial típica da época.
— Vocês estão prestes a presenciar a boneca mais incrível já inventada pela nossa
espécie em toda a sua existência. Seu nome é Poppy, e ela é a primeira boneca
realmente inteligente do mundo. Se uma garotinha falar com ela... Poppy responderá!
Ela é, de fato, a primeira boneca capaz de conversar com uma criança. Difícil de
acreditar? — ele piscou, com um charme mecânico. — Então vejam com seus próprios
olhos...
A imagem cortou, dando lugar a um fundo branco esmaecido, enquanto uma logo
preencheu toda a tela. Mas não era a logo que Edward conhecia.
A logo da Playtime Co. da década de 1960 era muito mais rudimentar e artesanal se
comparada com a que Edward conhecia. As letras eram todas cursivas, desenhadas
como se fossem balões infláveis, com um contorno preto grosso ao redor de cada uma,
preenchidas com cores primárias — vermelho, azul e amarelo. No topo, um pequeno
boneco sorridente, com braços e pernas esticados, segurava dois balões nas mãos. O
slogan, embaixo, parecia desenhado com giz de cera: “What’s the time? It’s
Playtime!”, repetido em coro pelas vozes agudas e alegres de várias crianças.
A tela então fez um fade-in brusco e lá estava ela — Poppy Playtime. A boneca, feita
de porcelana brilhante, olhava diretamente para a câmera. Sua pele era branca como
giz, com um brilho frio que refletia as luzes do estúdio. Grandes olhos de vidro,
perfeitamente redondos, com pupilas azul-escuras, reluziam como se estivessem vivos,
embora sem expressão real. Seus cílios eram longos, pretos, quase artificiais, piscando
lentamente a cada movimento do vídeo. As bochechas rosadas pareciam pintadas a
mão, e um sorriso pequeno, quase sincero, adornava seus lábios vermelhos.
Ela usava um vestido azul de gola alta, adornado com rendas brancas no colarinho e
nas mangas. O cabelo, tão vermelho quanto o sangue, era armado em cachos robustos,
perfeitamente simétricos, como se nem mesmo o vento pudesse bagunçá-los. O vídeo
tremia, com a típica má qualidade das filmagens dos anos 60 — linhas horizontais
cortavam a imagem, acompanhadas de um leve zumbido e uma paleta de cores
acinzentada que machucava os olhos.
Uma voz feminina, adulta, assumiu imediatamente depois, com aquela dicção pausada
e perfeccionista dos comerciais da época:
— Poppy é tão adorável quanto uma menina de verdade, e até fala como uma.
— Olá, meu nome é Poppy! Eu te amo demais! Me ajuda a limpar meus sapatos?
— Claro que sim, Poppy! Como uma verdadeira mocinha, Poppy quer estar sempre
linda. Seu cabelo é resistente e não cairá se penteá-lo, além de ter uma fragrância de
flor capaz de encantar qualquer um, como se fosse uma sereia! — a mulher riu
levemente, de forma teatral, quase sarcástica. — Quer falar mais alguma coisa, Poppy?
A câmera deu um zoom abrupto no rosto da boneca. Ela piscou uma, duas vezes... E
então, com uma voz que, naquele momento, soou inaceitavelmente humana,
respondeu:
— Eu sou uma menina de verdade, assim como você. Não há cordas em mim.
O silêncio que se seguiu foi brutal. Edward ficou completamente imóvel. Sua mandíbula
apertou-se, e seus olhos não desgrudavam da tela, que agora escurecia lentamente...
até que a imagem voltou para o homem do começo, sorrindo com aquele mesmo
entusiasmo doentio.
— E se você sempre quis ver como os melhores brinquedos da nação são feitos...
Playtime Co. agora oferece tours por apenas dois e noventa e nove dólares por pessoa.
Uma hora inteira na fábrica de brinquedos mais mágica da Terra, e ainda por cima,
acompanhados do ilustre fundador de nosso pequeno mundinho: Elliot Ludwig. O que
estão esperando? Venham nos visitar!
E então, a tela apagou brevemente... para logo depois começar tudo novamente, como
se o circuito estivesse em loop. O chiado, o som das vozes distorcidas, e aquele
slogan…
Edward piscou várias vezes, levando a mão lentamente até a lateral da televisão. Seus
dedos tatearam o plástico amarelado, rachado pelo tempo, até encontrar o botão de
desligar. Girou-o com força. A tela apagou de imediato, deixando apenas o som grave
dos transformadores na sala. O silêncio caiu como uma âncora no estômago dele. Por
longos segundos, ele ficou ali, parado, olhando para o monitor escuro. O próprio reflexo,
distorcido pela curvatura do vidro, o encarava de volta.
“Eu sou uma menina de verdade, assim como você. Não há cordas em mim”, as
palavras martelavam nos ouvidos de Edward.
Ele passou as mãos no rosto, sentindo o suor frio acumulado na testa. Respirou fundo,
apertou os olhos, tentando expulsar aquele peso da mente.
E, no fundo, ele sabia a resposta. Porque ele pertencia ali. Porque, por mais que aquilo
fosse grotesco, sombrio, corrompido até a raiz... esse lugar fazia parte dele. E ele fazia
parte desse lugar.
Seus olhos percorreram a sala mais uma vez, agora carregados não só de
lembranças... mas de um desconforto profundo.
"Isso não é só uma fábrica. Isso nunca foi só uma fábrica”, ele pensou.
Edward segurou as alças do GrabPack, respirou fundo, e olhou para a porta. Respirou
fundo, fechando os olhos.
E então, deu o primeiro passo para fora da sala de energia. Mas, então, ele ficou
completamente paralisado. Edward viu o pedestal onde, até minutos atrás, Huggy
Wuggy estava firmemente posicionado — estático, sorridente, imponente — agora
estava completamente desocupado. Nenhum sinal dele. Nem mesmo os pés enormes
de feltro azul. Nada. Seu coração disparou.
— Não. Não, não, não... — sussurrou para si mesmo, recuando um passo, quase
tropeçando nos próprios pés.
"Isso não pode estar acontecendo. Eu vi ele. Eu vi aquela coisa ali. Eu tava olhando
pra ele! Eu tirei a chave da mão dele... Não tem como ele... Não tem como simplesmente
ter sumido", Edward pensou de forma desesperada.
O pedestal agora parecia ainda mais vazio do que qualquer espaço no mundo. A
iluminação fluorescente tremeluzia, lançando sombras que pareciam se arrastar
sozinhas pelos cantos. O sorriso eternamente pintado na imagem de Huggy Wuggy, nas
paredes, nos cartazes, parecia agora mais ameaçador, mais sarcástico, quase
zombando da situação.
Edward levou a mão trêmula até o rosto, apertando os olhos. Respirou fundo, tentando
forçar sua mente a não ceder à ansiedade. Naquele instante, mais do que qualquer
outra coisa, ele ansiava profundamente por um cigarro. Qualquer coisa para queimar
entre os dedos, qualquer desculpa para inspirar fumaça e expirar medo. Mas não. Não
havia cigarro. Nem saída fácil.
"Você pode... Você pode simplesmente voltar. Voltar correndo. Tá tudo bem. Você
ainda tá na entrada. Corre, volta, vai pro carro. Vai pra casa. Esquece essa porcaria
toda. Finge que isso nunca aconteceu", Edward pensava.
Se havia uma coisa que ele sabia, era que aquela vida medíocre lá fora, aquela rotina
vazia, aquele mundo sem propósito... não era mais para ele.
Ele estava ali por um motivo. E esse motivo era maior que o medo. Ele estava ali para
“encontrar a flor”.
Quando a porta subiu, Edward continuou. Ele se deparou com um corredor que parecia
saído de um delírio de açúcar de uma criança hiperativa. As paredes estavam pintadas
com cores vibrantes — azul bebê, amarelo canário, verde menta — todas intercaladas
com listras ondulantes e padrões de bolinhas. Mas o que dominava completamente a
atenção era um cartaz gigante, fixado na parede esquerda.
O chão era um mosaico colorido, formado por quadrados que alternavam entre azul-
claro, branco, vermelho e amarelo. O padrão xadrez criava um efeito quase hipnótico,
forçando o olhar de Edward a seguir o caminho até o fim do corredor, onde uma grande
arcada semicircular amarela o aguardava. No topo da arcada, em letras azuis e brancas,
lia-se: “FAÇA UM AMIGO”.
E então ele viu. No canto do olho, à esquerda, algo se moveu. Uma mão. Uma mão
enorme, felpuda, azul... com a palma e os dedos tingidos de um tom amarelado, velho,
sujo. O braço se esticou para fora da fresta da porta, como uma serpente, os dedos
flexionando-se... acenando, chamando.
Edward parou. Seu corpo ficou rígido. Seus olhos travaram naquela cena surreal. Mas
antes que ele pudesse sequer processar direito, a mão sumiu. Rápida. Como se nunca
tivesse estado lá. Sugada para dentro da porta. O silêncio que se seguiu foi quase
ensurdecedor.
Ele apertou os olhos, balançou a cabeça, tentou sacudir os próprios pensamentos. Mas
o frio na espinha permaneceu. O peso no peito também. Edward não podia acreditar
que aquilo realmente estava acontecendo. Ele deveria estar enlouquecendo. Por alguns
segundos, Edward ficou parado, encarando aquela porta como se ela fosse, de fato,
uma boca aberta, prestes a devorá-lo.
Sem mais hesitar, Edward deu um passo à frente. Segurou firme na maçaneta da porta
à esquerda — a mesma onde a mão havia sumido — e, com um giro seco, abriu-a. O
rangido da porta ecoou pelo corredor. E então, sem olhar para trás, sem respirar, ele
entrou.
Era um espaço colossal, de pé direito alto, quase como um hangar industrial. Prateleiras
de aço amarelo, altíssimas, preenchiam todo o ambiente. A maioria delas estava
abarrotada de caixas velhas, cobertas de poeira, rasgadas, manchadas, algumas
parcialmente destruídas, revelando brinquedos quebrados, peças desmontadas,
pelúcias deformadas e olhos de bonecas espalhados. Outras caixas estavam
simplesmente tombadas, caídas como corpos esquecidos no campo de batalha.
O piso estava sujo, marcado por manchas antigas — talvez graxa, talvez algo muito
pior — e enormes círculos de tinta desbotada delimitavam setores, agora quase
ilegíveis. No centro do espaço, uma esteira transportadora cortava o ambiente em linha
reta. Sobre ela, pedaços aleatórios de brinquedos passavam, como se algum
mecanismo oculto ainda estivesse funcionando, reciclando detritos de um passado
morto.
E lá, no topo de uma parede, quase sumindo entre as sombras, estava escrito: “BAY
09”
Ele começou a vasculhar, andando de um lado para o outro. Arrastava caixas, abria
algumas, chutava outras. Suas mãos passavam por pedaços de plásticos rachados,
olhos de vidro soltos, cabeças de bonecos que pareciam sorrir, mesmo sem os corpos.
Era engraçado como todo aquele cenário – um amontoado de peças quebradas, a
ferrugem, a poeira, o abandono – parecia um reflexo exato do que Edward era.
Aquilo, à sua volta, era ele. Era sua vida, seu passado inteiro. Um pensamento sombrio
surgiu: será que era assim que a gente acabava? Guardado em uma prateleira,
esquecido, empilhado até apodrecer, até que as caixas não suportassem mais o peso
e desmoronassem. O ambiente parecia zombar dele, mostrando-lhe um futuro
indesejável, mas, ao mesmo tempo, estranhamente familiar.
O som do coração de Edward batendo rápido parecia ser a única coisa viva naquele
lugar. E, pior do que tudo, era aquela sensação. Aquele peso invisível nas costas,
aquele incômodo na nuca, como se... estivesse sendo observado. Ou seguido. Ele se
virava, rápido, a cada rangido, a cada sombra que parecia se mexer. Mas não havia
nada. Nada visível, pelo menos. Seria Huggy quem o estava observando naquele lugar?
A ideia de aquilo estar ali, olhando-o, esperando-o fazer o movimento errado, era um
pensamento que se fixava em sua mente. O ambiente, antes apenas um reflexo de seu
passado, agora parecia abrigar uma presença que o observava, silenciosamente, das
sombras.
Foi nesse momento que seus olhos encontraram os dois painéis na parede oposta. Um
mostrava a silhueta de uma palma azul; o outro, de uma palma vermelha. Ambos
piscavam em uma cadência intermitente, indicando que precisavam ser ativados. Logo
acima deles, uma placa, meio torta, dizia em letras desbotadas e descascando:
"Huggy... Huggy Wuggy...", o nome dele agora pulsava na mente de Edward como uma
praga, como uma música macabra impossível de ser desligada.
Edward tentava se apegar à lógica. Ele sabia que "ele" – Huggy – fora feito para
obedecer. Ele se lembrava, vividamente, de ter ouvido as discussões sobre o "novo
animatrônico que a Playtime desenvolvera", uma criação que serviria tanto para entreter
quanto para defender a fábrica de intrusos. Huggy fora programado para obedecer a
superiores. Mas, quem era o superior agora? Quem mandava na criatura após tudo o
que aconteceu naquele lugar?
Não havia mais ninguém ali. Só ele. Edward era o único. Ele era o superior, certo?
Certo? A necessidade de que essa afirmação fosse verdade era quase palpável. Se ele
era o superior, então, tecnicamente, Huggy teria que obedecê-lo. Sim, era isso. Isso
tinha que ser verdade. Tinha que ser. Porque se não fosse... se não fosse, então Huggy
estava solto. E se ele estava solto... então Edward não era o caçador. Ele era a caça.
Aquela fábrica não passava de um labirinto. Um labirinto de aço, ferrugem e morte.
De repente, a esteira fez uma curva acentuada, e Edward sentiu um tranco suave. Ele
foi cuspido para fora do duto, caindo em uma pilha surpreendentemente macia. O
impacto foi abafado, e ele rolou algumas vezes antes de parar. Com um gemido, ele
abriu os olhos, piscando para se ajustar à pouca luz. Acima dele, o duto de onde viera
parecia uma boca aberta e escura. Ao seu redor, para seu espanto, não havia chão de
metal ou sujeira industrial. Em vez disso, estava cercado por uma montanha de cores
vibrantes: rodas de plástico, pernas de bonecas, blocos de montar, braços de robôs
minúsculos e uma infinidade de outras partes de brinquedos, todas amontoadas em uma
confusão estranha e quase surreal.
Ao centro, a grande máquina "Faça um Amigo" se erguia como uma relíquia de uma
era perdida. Seu corpo principal era vermelho, com detalhes em azul e amarelo. Três
grandes olhos redondos e inexpressivos estavam posicionados na parte superior da
"cabeça" da máquina, como se ela estivesse observando qualquer um que se
aproximasse. Sua boca, representada por uma abertura na base, parecia um sorriso
forçado, por onde as peças montadas eram liberadas.
À esquerda, três torres geradoras de energia, parecendo bobinas de Tesla estilizadas,
com luzes piscando fracamente. No chão, um mosaico de azulejos nas cores azul,
vermelho, branco e amarelo criava um caminho até os controles da máquina. As esteiras
de transporte, agora enferrujadas, estavam paradas, cobertas de caixas destruídas,
peças de braços de bonecas, pernas de dinossauros de pelúcia e cabeças ocas de
brinquedos esquecidos.
Na parede dos fundos, uma porta de enrolar de aço inoxidável. No centro da porta, um
grande adesivo do personagem CatBee — uma criatura híbrida entre um gato e uma
abelha, com asas douradas e olhos enormes. Havia uma tranca eletrônica ao lado da
porta, sendo a única forma de abri-la. A tranca exigia o escaneamento de um brinquedo
de CatBee para destravar. Uma medida absurda e puramente estética, pensada pela
Playtime para encantar as crianças durante os tours. Agora, essa mesma medida estava
no caminho de Edward.
Energia Ligada
Pronta para iniciar a produção
Abaixo da mensagem, um enorme botão vermelho sobressaía no centro do painel. Sem
pensar duas vezes, Edward pressionou o botão com força. Imediatamente, as
engrenagens da máquina começaram a girar, rangendo, tossindo ferrugem e pó
acumulados por anos de inatividade. As luzes da estrutura se acenderam de forma
intermitente, e os três olhos plásticos na parte superior da máquina brilharam com uma
luz amarelada opaca, quase como faróis de um carro antigo. O som das correias, das
esteiras e dos motores preenchia todo o salão, reverberando nas paredes.
Ao seu lado, as três cabines de peças — incluindo a mesma onde ele havia caído —
acenderam, exibindo luzes verdes nos painéis de cada uma. Edward, segurando o
GrabPack, mirou nas alavancas e puxou uma por uma. Ao puxar cada alavanca, a
cabine correspondente começou a cuspir peças brancas de plástico: pernas, cabeças,
troncos e asas. As esteiras recolheram as peças e as levaram para o interior da
máquina. O som de braços mecânicos serrando, parafusando e soldando dominava o
ambiente. Edward observava as faíscas saltarem pelas frestas da carcaça da máquina,
enquanto os mecanismos internos trabalhavam sem descanso.
Edward acompanhou o brinquedo até o fim da esteira, mirou com a mão azul do
GrabPack e puxou o CatBee até ele. Segurou o brinquedo nos braços, observando-o
por alguns segundos, com nostalgia e tristeza no olhar.
Antes de seguir, olhou para trás. Viu a porta ainda aberta, com o CatBee preso no
scanner. Preferia deixar o brinquedo ali. Se precisasse sair correndo, queria essa porta
aberta. Edward avançava, seus passos ecoando no corredor silencioso e sombrio, até
chegar ao fim dele. Ali, a escuridão parecia se estender infinitamente, como se o vazio
à frente quisesse engoli-lo por completo. Ele respirou fundo, preparando-se para
atravessar aquela passagem mergulhada em trevas.
Porém, assim que deu o primeiro passo para dentro, um impacto brutal o lançou
violentamente para trás. Seu corpo colidiu contra o chão, deslizando alguns centímetros,
e um rasgo se abriu na bainha direita de sua jaqueta preta, deixando os fios esgarçados
balançarem no ar.
Agora, a aparência da criatura azul era grotesca, selvagem. A boca, outrora com um
sorriso simples e bobo, estava completamente escancarada, revelando uma infinidade
de fileiras de dentes brancos, polidos, reluzentes sob qualquer fresta de luz. Não eram
dentes simétricos. Eram tortos, serrilhados, irregulares, como os de um tubarão — feitos
para dilacerar. O mais perturbador, porém, eram as gengivas visíveis no interior daquela
boca descomunal, úmidas, avermelhadas, pulsantes, como se fossem de verdade.
Huggy Wuggy caminhava na direção dele. Passos longos, lentos, calculados. Seus
olhos de plástico esbugalhados, saltados, estavam repletos de fúria predatória. Não
havia mais sinal de inteligência ou empatia artificial. Só havia fome. Desejo de caçar.
Edward, desesperado, apertou os gatilhos do GrabPack. As mãos de metal voaram,
acertando o peito peludo e depois o rosto de Huggy. Mas o impacto não causou nada
além de um breve movimento da cabeça da criatura, que logo voltou à posição inicial,
avançando como se zombasse daquela tentativa patética de resistência.
— Merda, MERDA! — gritou Edward, se virando imediatamente. Correu na direção da
porta de correr metálica, onde a frase "APENAS PESSOAL AUTORIZADO" podia ser
lida. Era uma porta idêntica a que ele tinha visto no armazém, anteriormente. Suas mãos
agarraram a borda inferior da porta, puxando, forçando, tentando com toda a força. O
metal rangia, arrastando-se milímetro por milímetro, mas não subia.
O som dos passos de Huggy Wuggy atrás dele ficava mais alto, mais próximo. Edward
podia ouvir a respiração da criatura — um som úmido, gutural, grotesco — como se
cada inspiração fosse acompanhada de líquido, saliva, algo que não deveria estar ali.
— VAI! VAI! — Edward rugiu, puxando com o GrabPack, usando ambas as mãos
metálicas para alavancar a porta, enquanto também forçava com as próprias mãos.
O metal rangeu novamente, e então, com um estalo seco e violento, a porta subiu de
uma vez, abrindo espaço suficiente para que ele se jogasse por baixo dela. Seus ombros
bateram no chão do outro lado, rolando. Imediatamente, ele se virou e puxou a porta
para baixo, mas não havia tranca, não havia trava. Huggy Wuggy enfiou os braços
longos e deformados na abertura, erguendo a porta como se fosse papel.
Edward não pensou duas vezes. Correu. O caminho à frente era composto de dutos de
transporte — esteiras metálicas, trilhos, suportes e passagens estreitas feitas de
alumínio e aço velho. Ele teve que se curvar, quase engatinhar em alguns trechos,
tropeçando, esbarrando nas paredes.
O som. O som dos passos de Huggy. Ele estava atrás. Ele entrou. Ele seguia. Edward
não precisava olhar para saber. Sentia. Sabia. Aquilo estava ali. Aquilo não ia parar.
Seu coração batia tão forte que parecia que iria rasgar seu próprio peito. Suas mãos
tremiam, quase falhando nos gatilhos do GrabPack enquanto se segurava nas beiradas
das estruturas para ganhar velocidade nas curvas apertadas. Ele só tinha uma certeza:
se parasse, se olhasse para trás, aquela coisa teria o crânio de Edward esmagado,
partido entre aquelas fileiras de dentes pontiagudos.
Edward correu. Correu como nunca antes em sua vida. Curvas apertadas, bifurcações
confusas, dutos que pareciam se estreitar mais a cada metro. As luzes piscavam,
algumas queimadas, outras vibrando em tons de vermelho e amarelo. As sombras
dançavam nas paredes metálicas, como se zombassem dele.
Em determinado momento, ele não resistiu e olhou para trás. Huggy Wuggy estava ali.
Perto. Muito perto. Seus olhos, agora completamente tomados pela fúria, brilhavam de
ódio. A boca aberta, escorrendo saliva, parecia prestes a engolir Edward inteiro. Não
havia mais o monstro zombeteiro, brincando de caçar. Agora era sério. Agora era uma
caçada mortal.
Edward gritou, virou-se novamente e acelerou o máximo que seu corpo permitia. Pulou
sobre uma esteira caída, escorregou sob uma viga, quase tropeçou em uma caixa
abandonada no meio do caminho. As mãos do GrabPack voavam, agarrando-se às
estruturas para ganhar impulso, desviando de obstáculos que surgiam em frações de
segundo.
Mas então, o pior aconteceu. O corredor terminava. Uma parede de aço com uma porta
de correr automática bloqueava completamente o caminho. Sem scanner. Sem botão.
Nada.
— NÃO, NÃO, NÃO! — Edward socou a porta com as mãos, depois com o GrabPack.
— ABRE! ABRE LOGO, PORRA!
Ele chutava, batia, esmurrava, desesperado. Sabia que Huggy estava se aproximando.
Podia ouvir os passos acelerando, as mãos enormes batendo nos tubos e vigas ao
redor, as respirações animalescas que pareciam se aproximar a cada fração de
segundo.
Sem perder tempo, Edward disparou pela porta, ouvindo o rugido de fúria de Huggy
Wuggy atrás dele e os passos começarem a acelerar outra vez. O corredor de dutos
agora parecia ainda mais claustrofóbico, apertado, sufocante. E o que mais chamou sua
atenção eram as paredes — agora tomadas por rabiscos em tintas de diversas cores.
Frases perturbadoras preenchiam cada canto. "Não solte ela", "Ela não é confiável",
"Cuidado", "Retorne", "Saia daqui", "Estou com fome"... Eram mensagens
desesperadas, avisos, súplicas ou delírios? Ele não sabia.
As garras de Huggy Wuggy rasparam pelas paredes metálicas, soltando faíscas. Uma,
duas, três vezes, passando a centímetros das costas de Edward. O som do aço sendo
rasgado, o cheiro metálico, o calor da respiração da criatura... tudo parecia colapsar em
seus sentidos.
E então... uma luz. Uma pequena luz no fim da rampa. Edward focou nela, apertando
os olhos, ignorando a dor, o cansaço, o medo. Tudo o que ele queria era viver. O que
era irônico já que a sua vida não era algo tão precioso a ponto de precisar ser mantida.
Muito pelo contrário.
Edward se lançou até a beirada, respirando ofegante, para ver o que havia acontecido.
Huggy despencou, se debatendo, e seus gritos de dor e fúria reverberavam pelo vazio.
No caminho, o corpo da criatura colidia com tubos metálicos, vigas de aço e dutos,
produzindo sons de partes se quebrando — sons secos, agudos, perturbadores. Mas,
não era metal se quebrando. Eram ossos.
Então, Edward viu. Onde Huggy acertava os canos, manchas se formavam. Manchas
vermelhas. Sangue.
Foi nesse instante que a verdade o atingiu como uma marreta no peito. Huggy Wuggy
— e talvez todos os outros mascotes da Playtime — não eram simples animatrônicos.
Não eram apenas inteligência artificial. Eles eram seres vivos. Com carne. Com ossos.
Com sangue.
— Puta merda... Puta merda... — murmurou, com a respiração curta. — Eles... eles...
"Nada mais será igual... Nada...", pensou, completamente paralisado, ignorando, por
alguns segundos, até mesmo o restante do local onde estava agora.
— O que... diabos... eles faziam por aqui? — ele perguntou, para si mesmo. No fim,
essa era a única coisa que ele conseguia pensar naquele momento.
Edward então virou de costas, ainda tonto, e se deparou com uma imagem que sabia,
no fundo da sua alma, que o assombraria até o fim dos seus dias. À sua frente, o estreito
caminho da ponte de metal onde ele estava se estendia sobre aquele abismo oculto na
escuridão, levando diretamente até uma porta de madeira antiga, iluminada por um tom
quase etéreo. Mas não era a porta que prendia sua atenção.
O que realmente o paralisou foi a gigantesca pintura feita na parede de concreto atrás
dela. Uma flor. Uma flor colossal, pintada com uma perfeição quase doentia. Suas
pétalas vermelhas, desgastadas e descascadas em algumas bordas, ainda assim
mantinham um brilho estranho, como se tivessem sido recém-pintadas. As bordas da
flor estavam contornadas em preto, com gotas escorrendo, simulando sangue ou tinta
fresca. No centro da flor, um círculo negro, profundo, quase como um olho, fitava
qualquer um que ousasse se aproximar daquela porta. Era o mesmo desenho que
estava na carta que Edward recebeu dias antes. "Encontre a flor".
Ele engoliu em seco, ainda com o gosto ácido do vômito ainda queimando sua
garganta. Seus olhos percorreram os detalhes mórbidos da cena. Presos nas esteiras
suspensas sobre a flor, estavam brinquedos mutilados, pendurados por teias grossas,
parecendo fios de náilon ou seda sintética. Eram bonecos dos mais diversos
personagens da Playtime Co., todos sem olhos, com membros arrancados, torsos
partidos... e, pior, manchas secas de sangue espalhadas sobre eles.
Edward, por um segundo, ficou imóvel. Seu cérebro brigava contra ele mesmo — uma
parte gritava para que fugisse dali, outra insistia que ele precisava de respostas.
"Talvez... talvez eles ainda estejam aqui. Talvez os outros funcionários estejam
esperando. Talvez alguém... alguém ainda esteja vivo”, ele pensou.
Seus dedos trêmulos se estenderam até a maçaneta metálica da porta. O frio do metal
contrastava com o suor de suas mãos. Empurrou, esperando encontrar resistência,
trancas, ferrugem... Mas não. A porta estava apenas encostada. E então, Edward a
abriu.
Ele logo atravessou a porta, e imediatamente percebeu que havia entrado em um lugar
que destoava por completo de tudo que vira até então na fábrica. Era como se tivesse
cruzado a fronteira para um mundo diferente, completamente deslocado da lógica
industrial e sombria que dominava o resto da Playtime Co.
O piso, antes de aço ou concreto frio, agora era de madeira polida, embora envelhecida,
rangendo sob seus passos. As paredes estavam revestidas com um papel de parede
florido, de tons amarelados, desgastado pelo tempo, mas surpreendentemente sem
nenhum rasgo, arranhão ou mancha de infiltração. As flores desenhadas pareciam se
mover suavemente sob a iluminação fraca das arandelas fixadas nas paredes —
luminárias de vidro polido e hastes douradas, que emitiam uma luz morna, acolhedora
e estranhamente desconfortante.
Edward seguiu o corredor, hipnotizado, enquanto uma música distante preenchia o ar.
Uma voz grave e rouca cantava, acompanhada de um violão melancólico. Edward não
conseguia entender o que falava a música, apenas por algumas frases soltas.
Ao fim do corredor, deu de cara com uma sala peculiar. O piso de madeira seguia ali,
assim como as paredes floridas. No canto esquerdo, uma casinha de boneca cor-de-
rosa, velha, mas bem cuidada, estava posicionada bem em frente a uma porta de
madeira idêntica à que ele havia usado para entrar. Sem pensar muito, Edward tentou
abrir aquela porta — quem sabe fosse uma saída? —, mas ela estava trancada. No
desespero de tentar girar a maçaneta, acabou derrubando a casinha, que tombou no
chão com um estrondo seco.
Edward olhou para o lado e viu a origem: uma vitrola antiga, de madeira escura, tocava
um disco de vinil que rodava, incansável. O aparelho parecia estar funcionando
ininterruptamente há anos, talvez desde o fechamento da fábrica.
Ele não desligou. Aquela melodia — por mais dolorosa que fosse — parecia ser a única
coisa viva, a única que fazia sentido dentro daquele caos. Era um consolo distorcido
que o fazia controlar a respiração depois da experiência terrível que foi quase ser
devorado por um monstro azul de três metros. E foi então, ao se virar, que percebeu.
No centro da sala, algo que ele não tinha visto antes. Algo que imediatamente fez seu
peito se apertar, suas pernas quase cederem. Naquele instante, Edward compreendeu.
Compreendeu tudo.
Uma caixa alta, feita de madeira envernizada, com uma porta de vidro impecável,
levemente empoeirada, e uma maçaneta de metal banhada a ouro, refletindo as luzes
fracas da sala como se fosse um farol perdido no meio da escuridão. Ao lado dela,
repousava uma chave dourada, brilhando tanto quanto a maçaneta, como se dissesse
silenciosamente que aquele era o próximo passo. Dentro da caixa, estava Poppy. A
boneca. A primeira boneca da história da Playtime Co.
Ela estava ali, imóvel. Seus cabelos vermelhos, perfeitamente encaracolados, estavam
bem penteados, apesar do tempo em que provavelmente estava ali. Sua pele de
porcelana era de uma brancura quase antinatural, polida, lisa, impecável, refletindo a
pouca luz do ambiente. Suas bochechas exibiam sardas delicadas, bem desenhadas,
que lhe davam uma aparência infantil, e seus lábios, pintados em um tom de vermelho
vibrante, pareciam recém-pintados. Usava um vestido azul elegante, com detalhes
brancos e laços impecáveis, como se alguém estivesse preparado para aquele
momento há poucos minutos, embora isso fosse impossível. Seus olhos estavam
fechados.
E naquele instante, tudo fez sentido. Uma mistura de raiva e estupidez queimou dentro
de Edward.
"Claro... 'Encontre a flor'... Que idiota eu sou... 'Poppy'... Poppy é um apelido para
papoula... A flor da carta... A flor pintada na porta… Ambas eram papoulas. Sempre foi
sobre ela...", pensou.
Ele começou a caminhar de um lado para o outro, segurando a cabeça, seu cérebro
fervilhando em uma tempestade de pensamentos desconexos. Edward se aproximou
da caixa, encarando a boneca.
Depois de Huggy, ele não conseguia mais aceitar que nenhum dos brinquedos ali
dentro fosse mera robótica, que fosse simplesmente um boneco infantil qualquer.
Huggy tinha carne, tinha ossos, e tinha sangue. A lembrança do vermelho vívido era um
tormento constante.
Será que ela – essa pequena boneca de porcelana – seria a chave? A ferramenta que
a levaria até os funcionários presos dentro da fábrica? Teria sido criada para isso? Ou
seria apenas mais uma dessas coisas, um desses monstros que agora assombravam
seus pensamentos mais profundos?
— O que diabos é você? — perguntou, agora em voz alta, quase com raiva, batendo o
punho contra o vidro da caixa.
Mas a boneca permaneceu imóvel, olhos fechados, como uma criança dormindo
profundamente. Por mais que tentasse lutar contra aquela mistura de medo, desespero
e lógica... algo dentro dele já tinha aceitado. Depois do que presenciou, ele sabia. Sabia
que aquilo não era apenas porcelana, metal e fios.
Edward respirou fundo, estendeu a mão e pegou a chave dourada. O metal estava
surpreendentemente quente, como se alguém a tivesse segurado poucos minutos
antes. Ele engoliu em seco e levou a chave até a fechadura da caixa. A chave entrou
perfeitamente. Sem apresentar resistência. Ele girou.
Assim que a trava se soltou, uma fresta da porta de vidro se abriu. E então, uma fumaça
vermelha, densa, quase líquida, começou a escorrer pelas bordas da porta. Saiu
flutuando, se espalhando rapidamente pela sala, como um gás que parecia ter vida
própria. Assim que ela tocou a pele de Edward, seus olhos começaram a lacrimejar. Ele
tossiu forte.
A fumaça encheu o ambiente, tingindo a luz das lâmpadas. Agora tudo tinha um tom
avermelhado, como se a sala inteira estivesse submersa em sangue. A música na
vitrola, no entanto, não parava.
Poppy mexeu a cabeça, levemente, como uma criança curiosa. Seus lábios de
porcelana se separaram, e dela saiu uma voz doce, aguda, inocente, como a de uma
garotinha de cinco anos.
Mas Edward não conseguiu responder. Seus olhos se fecharam, a escuridão o engoliu,
e a última coisa que ouviu foi a voz da música ecoando ao fundo:
As tábuas rangiam sob seus cotovelos quando ele se apoiou, levantando devagar,
passando as mãos na cabeça, sentindo uma dor latejante, profunda, que parecia
percorrer seu crânio inteiro. Seus olhos imediatamente se voltaram para a caixa. A porta
de vidro estava aberta, escancarada, balançando levemente, e completamente vazia.
Poppy não estava mais lá. O gás vermelho que antes preenchia o ambiente havia
sumido, como se nunca tivesse existido, deixando apenas o cheiro de madeira velha,
lavanda e ferrugem no ar.
Edward levou as mãos ao próprio corpo, tateando-se, quase num reflexo. Estava inteiro.
O telefone de brinquedo seguia no bolso de sua jaqueta, intacto, e o GrabPack ainda
estava firme preso às suas costas, como uma extensão do próprio corpo. Nada havia
sido levado. Nenhuma marca em seu corpo. Nenhuma ferida nova. Nada, além da dor
na cabeça e o peso esmagador que parecia ter se alojado no centro de seu peito.
Ele se perguntava onde diabos Poppy havia ido. Quanto tempo havia ficado apagado?
Minutos? Horas? Dias? Não fazia a menor ideia. E, pela primeira vez desde que
atravessou os portões daquela maldita fábrica, Edward se pegou encarando um dilema
que nunca pensou que teria ali dentro: “Vale a pena continuar?”. Pelo menos, ele não
esperava se questionar quanto a isso de maneira sincera.
Quando decidiu voltar para aquele lugar, não se importava com as consequências. Na
verdade, parte dele desejava, secretamente, que aquele fosse seu fim. Entrar na
Playtime Co. parecia, no fundo, um método disfarçado de suicídio. Uma forma de
desaparecer do mundo, de acabar com tudo, sem precisar ser o agente direto da própria
morte.
Mas agora, algo dentro dele o fazia querer sair dali. Uma força primal, irracional. Não
era vontade. Não era desejo. Era instinto. Um grito biológico que corria por suas veias,
que estava codificado em cada célula do seu corpo. O puro e simples instinto de
sobrevivência.
Só que era estranho, quase cômico, se dar conta de que essa ânsia desesperada de
viver não vinha de sua mente — que pouco se importava com a própria existência —,
mas sim de seu corpo, de seus genes, do pedaço de humanidade que carregava,
mesmo quando não queria. Sua consciência repetia que ele não se importava. Que
poderia muito bem morrer ali. Que não fazia diferença. Que o mundo lá fora não sentiria
sua falta. E, sinceramente, ele também não sentiria falta do mundo.
Mas, contra isso, surgiram as memórias. Primeiro, Victor. A forma como ele falava sobre
seu dia, sobre qualquer coisa, mesmo sabendo que Edward não estava realmente
ouvindo. A lembrança de Laura, tagarelando sem parar, mudando de assunto a cada
dois minutos, como se sua mente fosse um trem desgovernado. E Louise. Seu cabelo
radiante, os olhos vivos, a maneira como falava apaixonadamente sobre filmes indie dos
anos 2000, como se fossem a coisa mais importante do universo. Até mesmo as
pessoas na rua, aquelas que ele odiava por serem irritantemente normais e anormais
ao mesmo tempo, agora lhe causavam uma pontada de saudade.
Era cruel perceber que só agora, no meio de um inferno feito de aço, porcelana e carne
costurada, ele dava valor àquelas pequenas coisas que tanto desprezou. Cruel e irônico.
Aqui, com medo de ser dilacerado por monstros, respirando o medo, sendo esmagado
pela adrenalina... era aqui que ele esquecia dos traumas, dos ressentimentos, do
passado. Esquecia da dor crônica de existir. Além disso, segundo a carta que recebera,
ainda tinham pessoas ali que ele poderia salvar. Embora, a cada segundo, ele
começasse a duvidar mais da veracidade dessa informação
Se fugir, tudo volta. A dor volta. O peso no peito volta. Aquele vazio sufocante volta.
Voltar é sobreviver... mas, ao mesmo tempo, é morrer de novo por dentro. Permanecer
é correr o risco de morrer fisicamente, mas, por algum motivo deturpado, é o que mais
se aproxima de viver que ele já sentiu em muito tempo.
E foi nesse raciocínio que Edward chegou a uma conclusão que doeu mais do que
qualquer pancada que tinha levado até agora: ele precisava ir embora. Precisava sair
daquele lugar. Precisava abandonar essa ideia estúpida de buscar um propósito, de
tentar encontrar algo ali dentro que preenchesse o buraco que carregava no peito. Isso
era só outro tipo de fuga. Outra armadilha que ele mesmo criou.
Edward respirou fundo, fechou os olhos, apertou os punhos, e decidiu. Ele ia embora.
Ia esquecer essa porcaria de fábrica. E, junto com ela, todo esse "propósito" idiota que
nunca existiu.
Edward caminhou para fora daquela sala, ainda processando tudo o que tinha vivido ali
dentro. Porém, quando chegou até o corredor que, teoricamente, o levaria de volta por
onde ele havia vindo, seu corpo congelou. Tudo estava bloqueado. Onde antes havia
uma passagem livre, agora se amontoavam móveis pesados: o velho armário de
madeira, as escrivaninhas, mesas, cadeiras, almofadas, e até mesmo a vitrola — agora
destruída, com o disco rachado em pedaços. Tudo empilhado de forma precisa e
maliciosa. Como se alguém quisesse que ele não saísse dali.
Tentou empurrar, arrastar, bater. Nada. Tudo estava travado, imóvel como uma parede
de concreto. O desespero começou a se infiltrar, subindo por sua espinha como se
fossem mãos invisíveis apertando seu pescoço.
"Por que eu achei que seria tão fácil? Por que eu achei que poderia simplesmente
decidir ir embora?", pensou. Era como se a fábrica em si estivesse viva, e agora,
recusava-se a deixá-lo sair.
Então, algo chamou sua atenção. Um feixe de luz, suave, escapando de uma fresta no
lado direito do corredor. Edward virou-se e viu a porta — aquela ao lado da casinha de
bonecas rosa, que antes estava trancada — agora estava entreaberta. Uma luz quente
e dourada escapava pelas bordas. Sem opções, respirou fundo e seguiu até ela.
Quando empurrou a porta, teve a nítida sensação de estar cruzando para outro mundo.
Edward seguiu cauteloso, cada passo ecoando no corredor silencioso, com a estranha
sensação de estar sendo observado.
Seu coração disparou. Aquele era o antigo escritório do fundador da Playtime Co.
Edward sabia que Elliot havia sido declarado morto há mais de trinta anos.
"Deve ser uma homenagem... ou talvez...", pensou, deixando a frase morrer em sua
própria cabeça, sem querer completar. Uma parte dele sabia que, depois de tudo que
tinha visto, o mais lógico era esperar qualquer coisa. Até o impossível.
Tentou girar a maçaneta da porta, mas ela estava trancada. Edward sentiu a frustração
percorrer seu corpo. Então olhou para os lados. Havia dois corredores laterais — um à
esquerda e outro à direita. Seguiu pelo da esquerda, apenas para dar de cara com outra
barreira: uma porta de enrolar de alumínio, manchada de sangue. Sangue seco, escuro,
respingado em padrões que só poderiam ter vindo de uma luta. No chão, pedaços de
brinquedos mutilados estavam espalhados. Braços, olhos de plástico, bocas abertas
congeladas em sorrisos partidos.
Edward olhou para o topo da porta de enrolar e viu dois painéis de scanner para o
GrabPack. Tentou ativá-los, mas ambos estavam desligados — sem energia.
A sala estava praticamente vazia, exceto por uma pilha de barris de ferro, caixas de
metal e uma figura de papelão encostada contra a parede oposta. Edward se aproximou
com cautela e reconheceu de imediato o personagem: Huggy Wuggy. Mas desta vez,
era apenas um desenho, um recorte cartunesco colorido. Huggy sorria amplamente —
um sorriso sem dentes, amigável e largo, com olhos grandes e brilhantes. Nas costas,
ele carregava um GrabPack como se fosse um presente. Ao lado do recorte de papelão,
havia um grande botão vermelho acoplado a uma caixa de som.
Edward, hesitante, deu alguns passos para trás, mantendo distância. Mirou com a mão
vermelha de seu GrabPack e lançou-a contra o botão. O impacto foi seguido de um
"clique", e então a voz de Huggy explodiu pelos alto-falantes da caixa.
— Olá, amiguinho! Você sabia que brincar com segurança é a melhor brincadeira de
todas? Certifique-se de usar seu GrabPack com responsabilidade! E não se esqueça:
sorrir é grátis! Quer um abraço?
O olhar de Edward então recaiu sobre a pilha de barris e caixas. Algo chamou sua
atenção: atrás delas, havia uma porta azul, parcialmente encoberta. Caminhou até ali e
começou a empurrar os obstáculos. Alguns barris estavam vazios, outros ressoavam
com ecos metálicos abafados. Com esforço e ajuda do GrabPack, abriu caminho até
liberar completamente a porta.
Colocou-se diante dela e testou a maçaneta. A porta estava destrancada. A única coisa
que impedia seu acesso eram aquelas caixas. Girou o trinco e empurrou. A porta rangeu
com um estalo e revelou um pequeno depósito.
O ambiente era ainda menor que a sala anterior. Havia prateleiras metálicas presas às
paredes, a maioria vazia ou coberta de poeira. No chão, havia restos de etiquetas
adesivas, fios desconectados e um banco de madeira encostado. Mas o que realmente
se destacava era um suporte de metal fixado na parede ao fundo. E, pendurada ali,
reluzente sob a pouca luz, uma chave vermelha. Ela não era qualquer chave. Era de
metal trabalhado, e no topo, fundido com requinte, estava o desenho de uma flor de
papoula vermelha.
Edward se aproximou, estendeu a mão e pegou a chave. Seu peso era surpreendente,
como se carregasse mais do que simples função. Ele fitou o símbolo da flor. Papoulas...
Sempre papoulas.
O ar ali era seco e morno, com um leve cheiro de madeira envelhecida e tinta antiga. O
piso era de madeira escura, encerado, com um grande tapete persa no centro, já
desgastado nas bordas. A sala inteira parecia pertencer a outro século. As paredes eram
forradas com painéis de mogno e papel de parede antigo com arabescos dourados que,
apesar de desbotados, ainda carregavam uma imponência silenciosa. Estantes repletas
de livros de capa dura cobriam partes das paredes, junto a armários de vidro trancados,
com brinquedos antigos e documentos empilhados.
O móvel principal da sala era uma mesa robusta de madeira maciça. Sobre ela,
repousavam dois abajures de luz fraca, uma flor de brinquedo amarela, um envelope
verde aberto com uma folha de papel meio dobrada dentro e uma fita cassete marrom
ao lado direito. A mesa, apesar de elegante, estava desorganizada, como se tivesse
sido usada pela última vez com pressa. Atrás dela, uma estante vazada com prateleiras
inclinadas continha pastas e papéis coloridos, entre eles, uma marca inconfundível: uma
mão feita com tinta infantil.
O móvel principal da sala era uma mesa robusta de madeira maciça. Sobre ela,
repousavam dois abajures de luz fraca, uma flor de brinquedo amarela, um envelope
verde aberto com uma folha de papel meio dobrada dentro e uma fita cassete marrom
ao lado direito. A mesa, apesar de elegante, estava desorganizada, como se tivesse
sido usada pela última vez com pressa. Atrás dela, uma estante vazada com prateleiras
inclinadas continha pastas e papéis coloridos, entre eles, uma marca inconfundível: uma
mão feita com tinta infantil.
Mas o que mais chamou a atenção de Edward foram os desenhos colados nas paredes.
Desenhos de crianças. Muitos. Feitos com giz de cera, tinta guache e canetinha.
Representavam Huggy Wuggy, Candy Cat, Bron, Boogie Bot e alguns outros
personagens que ele nem se lembrava mais dos nomes... Alguns só tinham formas
abstratas e cores berrantes. Mas todos compartilhavam algo em comum: eram
autênticos. Ingênuos. Vivos. Edward ficou parado, observando. Eram bonitos. Eram
reais. Pareciam ter sido feitos por crianças que realmente estiveram ali. Mas quando?
E por quê? Era uma exposição para os visitantes? Uma recordação de visitas
escolares?
Ele se aproximou da mesa. Pegou a fita cassete e procurou com os olhos a origem
onde poderia reproduzi-la. No canto esquerdo da sala, havia uma televisão CRT sobre
um pequeno aparador, com um toca-fitas empoeirado ligado a ela por cabos velhos.
Edward colocou a fita, ajustou o aparelho e pressionou o botão “play”.
A tela demorou a acender. Linhas horizontais tremulavam por um momento, até que
uma imagem em preto e branco da fachada da Playtime Co. surgiu. Um narrador, com
voz de radialista dos anos 50, começou a falar:
Edward viu a imagem de um homem de terno preto aparecer na tela. Ele sabia que o
homem na imagem era Elliot. Seu rosto, no entanto, estava encoberto por uma forte
estática, como se tivessem propositalmente censurado sua identidade. Aquilo
incomodou Edward.
— Seu objetivo sempre foi trazer brinquedos maravilhosos e felicidade para a vida das
crianças maravilhosas por todo o país. E, depois, por todo o planeta. Ludwig passou
incontáveis horas na fábrica, trabalhando com muito afinco, buscando continuamente
inovar e surpreender.
— Em 1960, uma perda inesperada na família lançou Ludwig para o fundo do poço. Ele
começou a se dedicar totalmente ao seu trabalho e objetivos, como forma de superar o
luto, trabalhando vinte e quatro horas ao dia. E foi essa ambição que permitiu que ele
se reerguesse e continuasse a realizar sua visão para a fábrica de brinquedos da
Playtime Co. Ludwig jamais deixaria um projeto por terminar — o apresentador respirou
fundo, como se estivesse se emocionando com o que ele mesmo relatava. — Mas, como
um homem veio a criar todo esse império? Como ele se manteve determinado após
sofrer tanto nas mãos cruéis do destino?
Edward se afastou um passo. Seu coração batia rápido. Ele encarou a tela morta, a
fumaça leve saindo da fenda do toca-fitas, e tentou digerir o que acabara de ver. Aquele
documentário era simples propaganda barata. Um panfleto audiovisual tentando pintar
Elliot Ludwig como um gênio benevolente. Mas ele sabia o que tinha visto até agora.
Sabia do que aquela fábrica era feita a muito tempo. Não havia possibilidade onde
Edward era esse anjo que o vídeo dizia.
Edward encarou os desenhos nas paredes mais uma vez. Aqueles riscos infantis
coloridos agora pareciam mais tristes, mais assombrados.
Edward então reparou em uma grade de ventilação presa na parede, mais ao canto. A
grade estava cheia de marcas de mãos coloridas, semelhantes às do seu GrabPack,
como se sinalizassem exatamente por onde ele deveria seguir. Sem pensar duas vezes,
ele mirou com as duas mãos do GrabPack, pressionou os gatilhos e as mãos extensoras
se prenderam aos cantos da grade como ganchos. Fez força e, com um rangido
metálico, arrancou a grade do lugar, que caiu no chão com um baque seco e alto.
Edward prendeu a respiração, torcendo para que nada estivesse por perto ouvindo
aquilo.
Do outro lado, a abertura revelava um duto de ventilação estreito e escuro. O metal das
paredes estava sujo de ferrugem e pó, com arranhões longos nas superfícies — marcas
que imediatamente trouxeram de volta lembranças da perseguição insana com Huggy
Wuggy. Mas, apesar do desconforto, era um caminho. E um caminho era tudo o que ele
precisava.
Rastejou pelo duto, arrastando-se até que uma grade semelhante no outro lado cedeu,
levando-o para uma nova sala. Era um espaço completamente diferente dos anteriores.
As paredes eram de concreto bruto, sem pintura, cheias de rachaduras e manchas de
infiltração. O chão estava forrado de cabos, fios grossos e finos, alguns cortados, outros
enrolados em carretéis desgastados. Ao fundo, disjuntores enormes estavam alinhados
na parede, com luzes vermelhas apagadas, sinalizando falta de energia. Havia placas
de advertência presas nas paredes, com símbolos de raio e frases como "FIQUE DE
OLHO NA LUZ" em letras grandes e amarelas. Um cheiro forte de ozônio pairava no ar,
misturado a ferrugem e mofo.
Porém, antes que Edward pudesse explorar melhor, um barulho seco ecoou pela sala.
Uma caixa de madeira tombou no chão e, de dentro dela, saiu... Poppy. A boneca.
Edward gritou, assustado, e, para sua surpresa, Poppy também gritou, levando suas
pequenas mãos à boca.
— Me desculpa! Eu não queria te assustar! — disse ela, a voz soando doce, mas
trêmula. — Eu... eu estava tentando restaurar a energia daqui...
— Eu tô pouco me fodendo pro que você estava tentando fazer, boneca! — respondeu
entre dentes — Eu só quero sair daqui! E é bom você dar um jeito nisso. AGORA!
— Ei, calma. Eu entendo que você esteja com raiva, mas relaxa. Eu vou te tirar daqui,
sim! — respondeu, tentando soar conciliadora — E... obrigada, tá? Por me libertar
daquela caixa. Eu... eu estava presa ali há muito, muito tempo…
— Ótimo pra você — Edward cruzou os braços, murmurando. — Mas eu não faço a
mínima ideia do que você tá falando. E, aliás, tenho MUITAS perguntas pra te fazer!
Vamos começar falando sobre como diabos é possível eu estar conversando com uma
boneca de porcelana?
— Mas é claro que agora não, né? — Edward estourou — Porque nada nessa desgraça
de fábrica funciona normalmente! Eu devia ter ido embora... devia ter deixado essa
maldita caixa fechada pra sempre!
— E como você acha que vai sair daqui se não for me ajudando? Olha pra mim — ela
abriu os braços, apontando pra própria altura — você acha que esse corpo de sessenta
centímetros vai conseguir religar esses disjuntores sozinha?
Edward respirou fundo, passando a mão no rosto. Ele mesmo não entendia por que
estava tão irritado. Não fazia sentido. Parte dele sabia que estava descontando nela,
simplesmente porque precisava descontar em alguém. Porque, no fundo, estava
morrendo de medo.
— Tá... tá... — respondeu, relutante. — Eu te ajudo. Mas só porque eu quero sair daqui.
Entendido?
— Muito bem! — disse Poppy, animada, caminhando até uma pilha de caixas de
papelão próximas da parede, logo abaixo do duto por onde Edward havia chegado.
Ela começou a escalá-las com grande esforço, cada movimento sendo uma pequena
batalha contra sua estatura diminuta. Edward observava, sem saber se ria ou se se
preocupava. A boneca tropeçou em uma dobra de papelão, quase caiu, mas se agarrou
à borda da caixa de cima e finalmente se ergueu, ficando de pé no topo da pilha.
— Lá em cima — disse ela, apontando para a escuridão acima — tem uma estação de
trem próxima. Se ativarmos o sistema, ele pode nos levar para fora daqui.
— Claro que tem! — Poppy riu, ajeitando os cabelos encaracolados. — Ele levava as
crianças do lado de fora direto para dentro da fábrica. Nos tempos de glória da Playtime
Co., era parte do "encantamento". Meio estranho, né?
— Mas ele só funciona com um código — continuou Poppy — e eu tenho esse código.
Considere isso como minha forma de agradecer por me libertar.
Ela então se virou e entrou no duto, sumindo na escuridão. Sem pensar duas vezes,
Edward a seguiu, adentrando mais uma vez o ventre metálico daquelas ventilações.
Normalmente, Edward teria avançado rapidamente por aquele duto, mas agora era
diferente: Poppy estava à sua frente, e ele tinha um medo genuíno de pisar nela e
quebrá-la. O espaço era apertado demais.
— Agora eu posso fazer as perguntas que tenho direito de saber as respostas? — ele
perguntou, exasperado.
— Como caralhos brinquedos como você falam? Como é possível que vocês sangrem?
Como é possível que brinquedos sejam seres vivos?
— Vem cá, mas você só sabe falar essa merda? Por que não responde nenhuma das
minhas perguntas, garotinha?
— Primeiro, não me chame de "garotinha". Eu literalmente devo ter idade para ser sua
avó. Segundo, eu tô sendo honesta. Não temos tempo agora. Faça uma pergunta mais
simples.
Poppy ficou em silêncio por um instante. Ele notou que ela realmente parecia pensar
com seriedade.
— Eu não sei nada sobre essa tal carta — ela respondeu por fim. — Eu estava trancada
e adormecida naquela caixa há realmente muito tempo. Mas talvez... talvez tenha sido
o Ollie.
— Acho que já ouvi falar de algo assim, mas o tempo em que fiquei adormecida...
bagunçou meus pensamentos.
Eles se aproximavam da saída do duto. Poppy foi a primeira a pular para fora, caindo
com um pequeno estalo sobre o carpete do escritório de Elliot Ludwig. Edward saiu logo
em seguida, aterrissando com mais peso.
— Como é?
Mas Poppy desviou o olhar, como se de repente se lembrasse de que não queria
conversar sobre aquilo. Fingiu interesse exagerado em uma estante de livros. Edward
suspirou e cruzou os braços. Estava ficando acostumado a não receber respostas dela.
Poppy então começou a escalar a estante de livros com esforço. Seus pequenos dedos
se agarravam às bordas das prateleiras como ganchos frágeis, o corpo se esticando e
balançando entre os vãos. Edward a observava, inquieto, o coração palpitando com o
receio irracional (ou não tão irracional assim) de que ela pudesse escorregar e se
espatifar no chão de madeira e virar uma pilha de porcelana quebrada sobre o carpete.
Poppy fez força para subir mais um nível da estante e, sem olhar para ele, respondeu
entre um puxão e outro:
— Tem outra ventilação ali em cima — apontou com um dos minúsculos dedos em
direção a uma grade aberta mais ao alto. — Vai ser mais rápido se eu for por dentro dos
dutos e te encontrar do outro lado. Assim conseguimos andar em paralelo, sem nos
atrapalhar.
— Quer ajuda?
Poppy parou por um segundo e olhou para ele por cima do ombro.
— Apesar de ser uma boneca, eu não sou tão frágil quanto pareço.
Com um último impulso, ela alcançou o topo da estante e, com uma certa elegância
desengonçada, saltou em direção à ventilação. Seus bracinhos agarraram a borda e ela
se puxou para dentro do duto com dificuldade, sumindo pouco a pouco na escuridão
metálica.
E então desapareceu.
Edward soltou um longo suspiro, passou a mão no rosto e virou-se para a porta.
Atravessou o escritório em direção ao corredor, pisando com firmeza no chão de
madeira antiga, que rangia sob seu peso.
Uma barra de progresso digital começou a se formar nos dois dispositivos, avançando
lenta e ritmicamente. O som do escaneamento era como um zumbido abafado,
intercalado por estalos de energia percorrendo os fios internos.
Edward observou a cena por alguns segundos, o ar pesado enchendo seus pulmões.
Então, com o GrabPack firme nos braços e a mandíbula cerrada, começou a caminhar.
Mais uma porta aberta. Mais uma trilha de horrores o aguardava.
Finalmente, chegou a uma sala ampla e mal iluminada. O ar ali era mais frio, como se
tivesse vindo das entranhas da terra. No centro do ambiente, estava Poppy, minúscula
e imóvel, observando atentamente um buraco escancarado no chão. Edward se
espantou por vê-la ali tão rápido. Ela parecia sempre estar um passo à frente dele. Era
difícil aceitar que uma boneca tão pequena se movesse pelos dutos com mais agilidade
do que ele jamais conseguiria, mas lá estava ela. Cercando o centro da sala, havia
quatro portas de alumínio, cada uma com letreiros coloridos acima: "Berçário", "Game
Station", "Produção" e "Inovação". Todas estavam fechadas, trancadas por pesadas
portas de enrolar que não apresentavam nenhum painel, nenhum interruptor, nada.
Edward se aproximou devagar. Poppy, ao ouvir seus passos, virou-se para olhá-lo,
seus olhos grandes e brilhantes o encarando com uma mistura de alívio e apreensão.
— Se você realmente quiser sair daqui... vai ter que confiar em mim. Completamente.
Edward hesitou por um segundo, olhando ao redor. Tudo dentro dele dizia que confiar
era um erro. Mas ele não tinha muitas alternativas.
Antes que Poppy pudesse responder ou continuar com suas instruções, um som cortou
o silêncio — um som úmido, elástico e rápido. Um braço longo, fino e rosa, como um
tentáculo vivo de plástico, disparou de dentro do buraco atrás dela, agarrando-a em um
único movimento fluido. Poppy gritou, e seu pequeno corpo foi puxado para baixo com
uma força avassaladora. Ela desapareceu no escuro antes mesmo que Edward pudesse
pensar em estender a mão.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Edward ficou ali, paralisado, encarando o
vazio escancarado diante de si. Seus olhos estavam arregalados, os punhos cerrados.
O grito de Poppy ainda ecoava em sua mente como uma fita presa em repetição. Ele
não sentia apenas choque. Sentia uma angústia incontrolável, um peso que se
assentava em seus ombros e em seu peito. Ele sequer gostava de Poppy, sequer
confiava nela — mas agora que ela havia sido levada, sentia um vazio esquisito, como
se tivesse perdido algo importante. Talvez fosse por ter confiado, mesmo que
minimamente. Talvez fosse por ter finalmente tido alguém que sabia o que estava
acontecendo. Agora, estava sozinho de novo. E dessa vez, completamente perdido.
Mas a pior parte foi o sentimento de impotência. A forma como tudo aconteceu em
segundos. A maneira como o braço rosa apareceu e sumiu, como se aquilo fosse um
aviso — um lembrete cruel de que ele era apenas um rato num labirinto. Pensou em
fugir, em voltar pelo mesmo corredor, procurar uma saída... mas ele sabia. Sabia que a
única pessoa — ou boneca — que talvez o tirasse dali agora estava nas garras do
desconhecido. Não tinha para onde correr. E pela primeira vez, percebeu que seu medo
de morrer não era tão grande quanto seu medo de ficar preso ali para sempre.
Edward respirou fundo. Seus músculos ainda tremiam, mas ele se obrigou a se mover.
Deu um passo à frente. Depois outro. E quando finalmente se postou na beirada do
buraco, sentiu o vento frio que soprava lá de dentro. Sentiu o aviso invisível que a
escuridão lhe dava. Mas ignorou.
Quem teria sido aquela quinta pessoa? E por que seu nome fora tratado com tanta
violência? Será que aquela pessoa fez algo contra algum ser, para merecer ter seu
nome arrancado? Edward não fazia ideia, mas se tinha algo que ele sabia era que todos
esses nomes representavam figuras centrais por trás da criação desse inferno
disfarçado de fábrica. Pessoas que moldaram a Playtime Co. não apenas como uma
empresa, mas como um reino de horrores. Talvez, pensava ele, cada escorregador
levasse aos domínios ou projetos associados a essas figuras.
À sua frente, se erguia uma grande porta de enrolar de metal, emoldurada por molduras
coloridas em forma de estrelas e fitas. Era uma entrada claramente pensada para
encantar os olhos de uma criança. Ao lado dela, uma alavanca vermelha chamava
atenção, e acima, um letreiro neon cansado piscava entre a vida e a morte: "Game
Station". As letras dançavam luzes esverdeadas e amareladas, falhando de tempos em
tempos. O letreiro tinha a silhueta de uma locomotiva no centro, como um mascote
encantador que fora esquecido.
Edward já conhecia esse lugar. A Game Station. Um espaço onde crianças brincavam,
competiam, participavam de atividades educativas e físicas. E não só crianças
visitantes. Era ali que os órfãos também passavam seus dias. A Playtime Co., além de
uma empresa de brinquedos, também era um orfanato disfarçado. Ou talvez nem
disfarçado. Um centro que reunia menores de idade sem lar e lhes dava brinquedos,
tarefas e, às vezes, famílias adotivas... mas Edward sempre sentiu que havia algo por
trás disso. Uma segunda intenção camuflada sob promessas de amor.
Ele mesmo... não se lembrava da própria família. Talvez só não gostasse de se lembrar.
Talvez.
Puxou a alavanca com força, e a porta começou a ranger, liberando uma nuvem de
poeira antiga e um barulho de ferrugem e engrenagens mal lubrificadas. Quando
finalmente se abriu, revelou um corredor exageradamente longo, formado por grandes
azulejos nas cores primárias da Playtime Co. — vermelho, azul, amarelo e branco.
Porém, a cor viva já não alegrava os olhos. Os azulejos estavam fora do lugar, muitos
rachados ou ausentes. O limo e a sujeira pareciam pulsar das frestas. Dutos de
ventilação abertos, fios de energia serpenteando como veias expostas, canos
enferrujados... todo o lugar parecia em decomposição.
Lá no fim do corredor, uma nova porta de enrolar o aguardava, e sobre ela, brilhava um
painel de escaneamento com o símbolo da mão vermelha — o mesmo de seu
GrabPack. Edward apertou os dentes e sentiu a claustrofobia lhe apertar o peito. Já
estava cansado, física e mentalmente. Segurando seu GrabPack com firmeza, ele
seguiu pelo corredor.
Um braço rosa e elástico surgiu da escuridão acima de sua cabeça, agarrando a mão
vermelha do GrabPack com uma força brutal. Era a mesma mão que havia levado Poppy
momentos antes. Com um puxão violento, o braço arrancou a mão do dispositivo, e o
cabo voltou para o aparelho como uma mola desfeita. Edward se afastou com um salto,
tremendo. O que quer que estivesse ali, o cercava. E agora, ele estava com uma mão
a menos em seu GrabPack.
Foi então que ela apareceu. A figura se arrastou para fora da penumbra com
movimentos aracnídicos, os membros finos se esticando e grudando nas paredes com
ruídos de ventosa, como chiclete prensado contra o concreto. Era alta, magra, flexível,
cor-de-rosa, e com uma cabeleira em espiral no topo da cabeça. Os olhos verdes e
enormes o fitavam com um brilho maníaco, e um sorriso largo demais cortava o rosto
dela como uma fenda viva. Edward não teve dúvidas. Era Mommy Long Legs.
Durante os tempos antigos da fábrica, ela era a mascote principal da Game Station.
Representava a figura materna para as crianças, guiando-as pelas brincadeiras, sempre
alegre e acolhedora. Mas aquilo que se contorcia ali na frente dele não era a mesma
criatura dos comerciais. Pelo menos não mais. Era como se algo a tivesse corrompido.
Na mão direita de Mommy Long Legs, Edward viu Poppy. A boneca estava sendo
prensada entre os dedos gigantes da criatura, com a boca coberta por uma espécie de
teia de aranha, provavelmente criada pela própria Mommy. Os olhos da pequena
boneca estavam arregalados, encarando Edward, desesperados.
Mommy Long Legs o olhou de cima, ainda grudada no teto como uma aranha
monstruosa. Sua voz era melosa, infantil, e falsamente afetuosa:
— Oooh! Você chegou! Estava tão ansiosa para conhecer o meu novo parceiro de
brincadeiras!
Ela deu um giro de ponta-cabeça, descendo aos poucos pelas paredes. Ainda sorria.
— Desculpe por ter assustado você... é que a senhorita Poppy aqui não parava de falar.
Era tanta tagarelice que tive que silenciá-la um pouquinho. Não foi, Poppy?
— "Não, por favor, Mommy, me deixe falar mais um pouco, eu sou muito esperta, eu
sei tudo..."
— “SHHHHH!"
— Olha, eu não sei qual é o problema entre você e ela. Não sei o que aconteceu aqui.
Eu só quero ir embora. Só isso. Não quero encrenca.
Ele sentiu o olhar de Poppy queimando nele em reprovação, mas não havia opção
melhor. Estava cercado.
Mommy deu uma gargalhada longa, aguda, quase ensurdecedora. Soava forçada,
como se quisesse parecer divertida, mas o tom estava repleto de loucura.
— Você deveria pensar melhor nas suas alianças, querido... Parece que a senhorita
Poppy estava prestes a dar o código do trem para você! Que feio! Isso seria trapaça!
Ela se aproximou de Edward, o rosto ficando cada vez mais próximo. O pescoço dela
se esticou grotescamente até que os olhos verdes e saltados estivessem a centímetros
dos dele.
— Mas você me parece tão divertido... e educado! Eu adoro novos amiguinhos. Por
isso, vou dar uma chance para você manter sua cabecinha colada no pescoço,
combinado?
— A Game Station ainda funciona! Que tal jogarmos como nos velhos tempos? Se você
vencer os três joguinhos que preparei com todo o meu carinho... pode ir embora! Não
vai ser divertido, Poppy?
Ela balançou a boneca de novo, imitando sua voz:
E então, ela olhou novamente para Edward, esticando-se mais uma vez.
— Obedeça as minhas regras. Ou... eu vou acabar com você e comer as suas
entranhas enquanto você ainda respira.
Ela passou alguns segundos a poucos centímetros do rosto dele, encarando-o com
aquele sorriso demente e congelado. E então, como se nada tivesse acontecido, se
virou de costas, escalando novamente a parede.
O corredor parecia se esticar por metros, mas Edward não conseguia desviar a atenção
do som que ecoava ao seu redor — não o som de algo físico, mas o zumbido interno de
sua mente, latejando com os ecos do encontro com Mommy Long Legs. Seu coração
ainda batia acelerado, mas era como se sua mente tivesse desacelerado por completo,
processando a ameaça que acabara de cruzar seu caminho. Aquela coisa... aquela
aberração cor-de-rosa, brincalhona e sádica, não tinha nada a ver com mascotes
infantis. Era um monstro. Um monstro com intenções claras, e uma risada que
provavelmente iria persegui-lo pelo resto da vida, mesmo se ele conseguisse sair dali.
E Poppy... a forma como foi arrastada, usada como marionete, silenciada com teias...
Edward não sabia o que sentia. Medo, claro. Mas também um certo sentimento de culpa.
Como se tivesse falhado em protegê-la, mesmo que nem soubesse por quê. Ela era só
uma boneca — não era? Mas ela falava, pensava, e confiava nele. Ou parecia confiar.
E agora estava nas mãos (literalmente) de uma criatura que transformava tudo em jogo
sádico. Edward queria fugir, largar tudo e sumir... mas não podia. Não era só por ele.
Era como se ele devesse a ela.
Na parede à direita, algo capturou sua atenção: uma pintura. Um grande quadro
artístico retratando a Game Station em seu auge. Crianças felizes corriam pelos
brinquedos, os vagões do trem colorido atravessavam os trilhos no fundo da
composição. Mascotes andavam entre os pequenos — inclusive Mommy Long Legs,
que sorria com braços esticados, convidando quem se aproximasse para um abraço.
Os detalhes eram quase surreais, o colorido vibrante contrastando com o que o
ambiente se tornara agora. Abaixo da pintura, uma placa dourada brilhava apesar do
tempo:
“O Grande Auge”,
5 de Maio de 2011
Edward ficou parado por longos segundos, encarando aquilo. "O Grande Auge"... ele
se lembrava vagamente daquele tempo. As datas batiam com os últimos anos em que
a fábrica ainda funcionava para o público. Uma era dourada de marketing, brinquedos
revolucionários, e promessas utópicas. Mas agora, vendo aquela imagem, a única coisa
que ele sentia era desconforto. Aquilo era uma mentira pintada. Um retrato de fachada.
Ele virou o rosto, ignorando o leve nó na garganta, e seguiu adiante.
A passagem ao final do corredor se revelou uma grande porta. Quando seus pés
cruzaram a soleira, as luzes se acenderam com um estrondo metálico, revelando a
Game Station.
Era um lugar gigantesco, projetado como uma estação de trem misturada com parque
infantil. Tapetes vermelhos e azuis vibravam sob a luz fluorescente, ainda que
manchados pelo tempo. Um trem colorido, com o que pareciam olhos de plástico
acoplados na frente da locomotiva, dominava o fundo da sala, vagões sorridentes
estacionados no trilho central. À esquerda e à direita, playgrounds abandonados se
espalhavam em meio a cercas quebradas e escorregadores ocos. Bancos metálicos,
brinquedos giratórios e áreas de descanso davam forma ao espaço como se nada
tivesse mudado — e ainda assim, tudo ali gritava decadência.
Acima de cada uma, pendurado por fios e fitas já desgastadas, estavam painéis de
papelão, decorados com desenhos absurdamente bem detalhados e letras alegres
demais para aquele ambiente sombrio. Edward se aproximou da primeira. O desenho
era de dois Huggy Wuggy’s, mas diferentes do que ele vira anteriormente. Um era
vermelho, segurando uma marreta desproporcionalmente grande, enquanto golpeava
com entusiasmo a cabeça do outro, que era amarelo e sorria como se tudo fosse parte
da brincadeira. “Bata em Um Wuggy”, dizia o letreiro acima. Edward franziu a testa.
Aquilo parecia uma versão distorcida de um jogo de parque de diversões — só que com
criaturas que ele sabia serem qualquer coisa, menos brinquedos inofensivos.
Por fim, seu olhar recaiu sobre a terceira escotilha. Um coelho amarelo sorridente,
vestido com roupas de jardinagem verde clara e um chapéu de festa. Em suas mãos,
ele segurava pratos musicais, como um animador de festa infantil. “Memória Musical”,
dizia o painel. Ao olhar para aquilo, Edward sentiu uma memória distante tentar emergir
da neblina do tempo — ele conhecia aquele coelho, lembrava vagamente de um tempo
em que ouvir aquele nome era algo positivo. Bunzo Bunny, era o nome do mascote que
estava naquela ilustração. Edward nunca gostou daquele coelho, mas achava mágico a
forma como as crianças olhavam para todos aqueles bonecos.
Ele então se afastou das escotilhas e subiu as escadas que levavam até a locomotiva.
Lá no alto, se deparou com a cabine do trem — trancada, claro. Um painel de
escaneamento aguardava a aproximação de uma mão de GrabPack... mas não era azul,
nem vermelha. A silhueta holográfica emitia um brilho esverdeado, algo que ele nunca
vira antes.
"Uma mão verde?", pensou. Estava definitivamente trancado fora da única rota de fuga
que ainda tinha.
Como se não bastasse, ainda faltava o código que Poppy prometera entregar. E agora
ela estava nas garras de um pesadelo com membros elásticos.
Frustrado, Edward se virou e viu, em frente ao trem, um grande painel com três
alavancas metálicas, cada uma posicionada abaixo de uma lâmpada. A primeira luz
piscava em vermelho. Por impulso — ou desespero — ele a puxou. Um estalo ecoou, e
a lâmpada se acendeu em verde, como se algo tivesse sido autorizado. De repente, dos
autofalantes posicionados ao redor do salão, surgiu uma voz feminina, animada e firme.
A voz era melódica, quase maternal. Mas havia algo nela... algo forçado demais.
— Meu nome é Stella Greyber, mas podem me chamar de Stella. Aqui, nós temos três
jogos super divertidos para vocês! Esses pequenos testes ajudam a nos mostrar o quão
incrivelmente forte e inteligente você é!
Stella Greyber. Um nome que ele não ouvia há muitos anos. A voz dela... ele conhecia.
Ela era uma figura importante na Playtime Co., uma das cabeças por trás da ideia de
unir brinquedos, educação e cuidado infantil num único pacote colorido. Mas aquela
gravação parecia deslocada, como um eco mórbido de um passado morto.
— Siga a nossa querida Mommy Long Legs, descendo as escadas, e começaremos o
nosso primeiro desafio: 'Memória Musical'. Te vejo daqui a pouco!
Edward suspirou. Seus olhos se voltaram uma última vez para o painel com as outras
alavancas, todas ainda com luzes vermelhas. Aparentemente, seriam liberadas
conforme ele avançasse pelos desafios.
"Claro. Um passo de cada vez", ele pensou, apertando o GrabPack contra o peito, como
se aquilo ainda fosse capaz de protegê-lo, e seguiu rumo à escadaria.
Ao olhar ao redor, Edward notou uma abertura na parede lateral. Um buraco enorme,
como se uma bola de demolição tivesse atravessado o concreto. Pedaços de concreto
e metal retorcido contornavam a entrada irregular, como se alguém — ou alguma coisa
— tivesse criado aquilo à força. Sem alternativas, Edward se abaixou e adentrou o
buraco, sentindo o cheiro de poeira e mofo preenchendo suas narinas enquanto
rastejava por dentro do túnel estreito, o joelho arrastando no solo áspero e coberto de
terra.
No canto oposto, havia uma bancada com quatro botões grandes, coloridos em
vermelho. Acima deles, pequenos indicadores piscavam em padrões que pareciam
seguir algum tipo de lógica, talvez parte do processo de ativação da máquina. Um banco
baixo de madeira repousava solitário ao lado do painel, como se algum funcionário
tivesse passado horas ali sentado, cuidando para que tudo funcionasse perfeitamente.
Edward não conseguia evitar a sensação de que havia encontrado aquilo por sorte —
ou destino. O universo, por algum motivo, parecia estar lhe dando uma chance. Uma
mão. Literalmente. Afinal, se iria enfrentar os desafios impostos por Mommy Long Legs,
precisava estar em igualdade de condições. E naquele lugar silencioso e mecânico,
havia uma faísca de esperança pulsando entre engrenagens e cabos esquecidos.
Ele se voltou para o painel central, os olhos fixos nos botões vermelhos. O mais à
direita, ostentando um singelo ícone de gota, pedia para ser pressionado. Edward
obedeceu. Um som sibilante ecoou e, em um silo à direita, pequenas esferas brancas
começaram a se acumular, deslizando suavemente para dentro da máquina. Silicone.
Edward sabia que era preciso derretê-lo, mas antes, um rápido olhar para a máquina do
silicone revelou um tubo solto.
Edward se aproximou da máquina e fez toda a força possível usando a única mão que
sobrara em seu GrabPack, a mão azul, para consertar o tubo que estava torto. Depois
de muito esforço, com um clique seco, ele se reconectou à máquina. O fluxo foi
restabelecido, e o líquido viscoso começou a preencher os moldes. Aguardou, a
paciência testada pelo tic-tac rítmico da máquina. Quando sentiu que o momento era
certo, pressionou o segundo botão vermelho, que tinha o ícone de uma seta apontando
para baixo, indicando a moldagem. A esteira transportadora ganhou movimento, e
silhuetas familiares de mãos metálicas começaram a surgir, embora pálidas, sem vida.
Foi então que seus olhos se fixaram em um painel encostado na parede, logo ao lado
da esteira onde repousavam as recém-moldadas mãos verdes. Um disjuntor — seu
botão verde brilhava com uma luz pulsante, envolto por fios que serpenteavam como
raízes ao redor do encaixe metálico. Estava energizado.
Instintivamente, Edward ergueu o braço e mirou com o GrabPack. A nova mão verde
estalou ao se esticar pelo ar, lançada com precisão contra o botão do disjuntor. Assim
que tocou a superfície, um estalo metálico reverberou pela sala e a mão ricocheteou de
volta, prendendo-se novamente ao dispositivo como uma mola. Mas havia algo
diferente. Pequenos feixes elétricos azulados pulsavam em torno da superfície da mão,
dançando como serpentes de plasma ao longo dos dedos articulados. Ele arregalou os
olhos. A mão verde havia absorvido a energia do disjuntor.
Por um momento, o raciocínio vacilou. Como aquilo era possível? Metal condutor?
Alguma liga experimental? Ele não sabia. A ciência estava além de suas capacidades
— mas o funcionamento, ele entendia. A mão verde não era apenas uma substituição
para a parte do GrabPack que perdera: era uma ferramenta por si só. Uma chave viva.
Um condutor.
No fim da esteira, à direita, logo antes de uma porta de correr com a estrutura típica
dos antigos dutos de transporte da Playtime Co., Edward viu outro disjuntor. Idêntico ao
primeiro, porém inerte. Era a hora de testar sua teoria. Ele respirou fundo, ergueu
novamente o braço, sentiu a tensão no mecanismo e disparou.
A mão verde voou em arco e colidiu com o segundo disjuntor. Por um breve segundo,
nada aconteceu — mas então, o botão brilhou, e um ruído mecânico vibrou sob o chão.
A energia havia sido transferida. A porta de correr se abriu, levantando com um chiado
de metal antigo, revelando um corredor apertado de duto de transporte.
A boca do túnel era escura, estreita e úmida, forrada por placas metálicas envelhecidas.
Edward aproximou-se, lançando um último olhar para a Sala de Moldagem. A máquina
continuava zumbindo levemente, como se estivesse satisfeita por ter cumprido seu
propósito.
Com um último ajuste no GrabPack e a mão verde agora plenamente funcional, Edward
entrou nos dutos. O metal rangia sob seus passos.
CAPÍTULO 12
Enquanto avançava por entre os dutos abafados e mal iluminados, Edward mergulhava
em pensamentos turvos, densos como o ar saturado que respirava. Os sons abafados
de seus próprios movimentos reverberavam em seus ouvidos como sussurros que
vinham de dentro da própria mente.
Mommy Long Legs. Aquela criatura alongada, com braços e pernas que se esticavam
como tentáculos de tecido doentio. Ele se perguntava, vez após vez, por que ela o
deixava viver. Ela poderia tê-lo matado com facilidade. Mas não o fez. E isso o corroía
por dentro.
Será que ela queria brincar? A ideia fazia sentido à primeira vista. Tudo ali parecia um
grande jogo doentio, e ele era só mais uma peça, um rato de laboratório a ser conduzido
por labirintos. Mas por que deixá-lo encontrar a Sala de Moldagem? Por que permitir
que ele se armasse? Isso parecia mais do que sadismo.
Talvez houvesse uma falha no sistema. Uma falha nela. Edward odiava essa ideia —
ele não queria pensar nela como algo capaz de compaixão ou dúvida. Era mais fácil vê-
la como um monstro absoluto. Mas mesmo essa simplicidade era perturbada pelo
comportamento dela, por sua teatralidade, pelo tom maternal que destoava de sua
violência.
Poder. Talvez fosse isso. O prazer de permitir a esperança para depois esmagá-la. Ver
um prisioneiro pensar que pode escapar, apenas para puxar a corda no último segundo.
A ideia era plausível, até reconfortante, na lógica sádica que a Playtime parecia operar.
Edward não sabia. E essa incerteza latejava como dor de dente mal resolvida, pulsando
em cada passo dado naquele túnel abafado. A fábrica, aquele lugar, parecia mais um
cérebro mecânico, cheio de áreas esquecidas, condutores mortos, e memórias
espreitando pelos cantos. Tudo ali sussurrava com ecos de vidas e propósitos que ele
não compreendia.
Finalmente, encontrou uma abertura. Empurrou os restos de uma grelha para o lado e
saiu em uma área nova: uma parede com um enorme rombo entre os tijolos. Passou
por ele, e então se deparou com um corredor de concreto e tijolos brancos. Os armários
espalhados pelas paredes estavam sujos de poeira e sangue, muitos quebrados, com
documentos, copos térmicos e crachás vazando para o chão como intestinos metálicos
de uma burocracia morta.
A Playtime era enorme. E esse era o setor de descanso. Descanso. Mas descanso de
quem? Quantas pessoas a empresa precisou explorar para manter esse império de
horror funcionando? Quantas vidas apagadas, esquecidas, substituídas? Cada armário
era um nome, uma história. E agora, tudo o que restava era poeira e silêncio.
Tudo igual. Corredores iguais, armários iguais, portas iguais. Porque para a Playtime,
ninguém era especial. Eram apenas peças. Bonequinhos. Soldados descartáveis de um
sistema que os via como engrenagens substituíveis. Era cruel e brilhante ao mesmo
tempo. Aquilo era genial porque funcionava. A desumanização silenciosa sempre
funciona.
Edward passou por mais um corredor. Então, enfim, chegou diante de uma porta
branca, entreaberta. A maçaneta de metal estava fria. Uma luz branca escapava por
uma fresta estreita. Na frente da porta, estava escrito:
Memória Musical
Acesso dos Funcionários
Edward respirou fundo. Talvez fosse isso. Talvez a Playtime estivesse, de algum modo,
forçando-o a lembrar. A reviver. Mas reviver o quê? O próprio trauma? O trauma dos
outros? Ou talvez ele fosse apenas mais uma peça do jogo. Outro bonequinho entre
tantos outros. Era engraçado que essa sensação de invisibilidade era a única coisa
capaz de perseguir Edward tanto fora quanto dentro da fábrica.
Edward passou pela porta e foi imediatamente recebido por um cheiro pútrido de vômito
e pizza estragada. Claramente resultado das inúmeras visitas das crianças naquele
lugar ao longo dos anos. Será que todos os outros desafios teriam esse cheiro horrível?
Provavelmente. Se não fosse morto pelos monstros animatrônicos orgânicos, talvez
morresse de enjoo.
Sua visão não era mais reconfortante. Estava diante de uma ponte metálica que o
levava para um centro, uma espécie de palco, iluminado por holofotes que o cercavam.
Em frente a esse palco, havia uma parede formada totalmente por televisões, que no
momento apenas apresentavam uma estática interminável e cegante. As paredes de
tijolos eram pintadas com cores vibrantes de ciano, vermelho e amarelo, que pareciam
formar o desenho de ondas de um mar movimentado e raivoso.
Logo acima do "palco", havia uma grande abertura circular, que parecia se conectar a
algum lugar como um tubo, mas não era possível ver o que tinha ali dentro nem para
onde ele seguia. Algumas câmeras de segurança cercavam o local e todas estavam
ligadas. Talvez tivessem sido deixadas funcionando pelos funcionários quando o lugar
foi abandonado. Edward preferia acreditar nisso.
Olhou para baixo da ponte e percebeu que era totalmente diferente da parte de cima,
ainda que não desse para ver tudo. Era apenas concreto cinza, com fios espalhados
pelos chãos, partes de metal e outras coisas difíceis de se distinguir dali de cima. Com
toda a certeza, aquela área não fora feita para ser vista pelas crianças.
"Nunca olhe os bastidores de um show", era uma frase que Victor gostava de dizer.
Nesse momento, Edward não podia concordar mais com o amigo.
Seguiu pela ponte, sem olhar para trás, e se posicionou no meio do "palco", que agora
percebia ser apenas uma plataforma comum. Nesse momento, ele escutou a voz de
Mommy Long Legs falando com ele:
— Você chegou! Que emoção, que alegria! Eu estava tão ansiosa para ver você de
novo, sabia? É sempre uma esperança nova quando chega um convidado novo para
brincar! As pessoas que vem até aqui nunca costumam chegar tão longe quanto você,
sabia? Normalmente, o Huggy pega toda a diversão de esquartejá-las para ele. Ai, como
é bom conversar novamente! Conversar, conversar, conversar... sabe há quanto tempo
eu não tenho uma conversa de verdade? Muito tempo! Antes, as crianças vinham
sempre, riam, pulavam, erravam as notas e riam de novo. Mas agora... agora é tão
solitário aqui. Tão quieto. Eu não gosto do silêncio. Ele machuca.
Edward se virou de costas, os pelos da nuca eriçados. Na parte superior da sala, viu
uma enorme janela retangular. Uma cabine branca, com algumas mesas e cadeiras
giratórias. E ali, com as mãos coladas na janela e os olhos verdes esbugalhados de
forma amedrontadora, estava a criatura que agora falava sem parar com ele.
— Mas agora você está aqui! E isso me deixa tão feliz! Você vai brincar comigo, né?
Vai participar dos jogos? Vai me mostrar como é divertido ter companhia de novo? Eu
preparei tudo, tudinho! Passei horas relembrando cada detalhe!
Edward assentiu vagamente, temendo dar uma resposta errada. Apenas agora ele
compreenderá o óbvio. Ela o deixou viver porque queria se divertir vendo ele passar
pelos seus joguinhos. Ela não queria se divertir com um adulto. Mas com uma criança.
E, para ela, ele era apenas isso: mais uma criança em seu parquinho doentio. Ela se
sentia solitária e, nesse quesito, Edward e ela não eram tão diferentes.
— Oh, olha só você sendo tão educado! Que adorável! Não como... bem, não importa!
Você quer saber qual desafio vai jogar? Que emocionante! Olhe para cima, querido.
Edward obedeceu. A abertura circular acima dele ainda parecia vazia. Mas, ao fundo,
ele podia escutar um barulho crescendo. Alguma coisa se aproximava.
Nesse momento, algo irrompeu da escuridão vindo do topo da abertura circular. Edward
sequer teve tempo de reagir. Uma criatura surgiu de forma abrupta, como se houvesse
saltado de um precipício, caindo direto em sua direção. Ela parou a poucos centímetros
de seu rosto, soltando um grito agudo e repentino, tão estridente quanto metal sendo
arranhado por unhas afiadas. Em seguida, bateu os pratos de bronze que segurava nas
mãos felpudas com um estalo seco e ensurdecedor, uma, duas vezes, como se o som
fosse uma provocação pessoal.
— Que porra é essa?! — gritou alto, a voz ecoando contra as paredes coloridas e o teto
industrial.
A criatura que o encarava era uma aberração de pelúcia viva. Bunzo Bunny. Sua pele
era de um amarelo desbotado, como se o tecido tivesse apodrecido com os anos. Os
olhos negros eram duas contas brilhantes, fixos e inexpressivos, mas com um brilho
perverso. Dois grandes dentes incisivos desciam de sua boca aberta num sorriso
animalesco, com gengivas rosadas e carne viva visível entre eles. A língua tremulava,
e um fio de saliva escorria lentamente por entre os dentes afiados. No topo da cabeça,
um chapéu de aniversário verde se equilibrava com um toque macabro de ironia, e seus
bracinhos gordinhos seguravam os pratos metálicos com força surpreendente. Ele
vestia um macacão verde rasgado, com suspensórios pendendo do peito.
Bunzo subiu lentamente, sem mover um músculo sequer. Era como se estivesse sendo
puxado de volta por alguma força invisível. Edward estreitou os olhos e logo percebeu:
havia um cabo de aço preso às costas da criatura, como um arpéu. A criatura, ao
contrário de Mommy Long Legs, não reagia como algo plenamente consciente. Era algo
treinado. Automatizado. Um animal faminto domesticado pela insanidade daquele lugar.
Mas sua boca, seu olhar, sua respiração... tudo ali indicava vida. Uma vida deturpada.
Mommy Long Legs gargalhou, a voz ecoando pela sala como um trovão infantilizado e
artificial.
— Que susto, né? Bunzo adora fazer entradas dramáticas! Ele é o nosso aniversariante
favorito! Sempre tão animado! Tão... faminto.
— Vamos começar o nosso joguinho, pode ser? Olha, vai ser tão divertido! Nas telinhas
lá na frente, vai aparecer uma sequência de cores. Tudo o que você precisa fazer é
repetir essa sequência apertando os botões coloridos que vão surgir aí embaixo de
você. Fácil, fácil!
Edward olhou para baixo e viu a plataforma se abrir com um estalo seco, revelando
quatro grandes botões, ainda apagados.
— Maaas... sabe, o tempo passou. As coisas mudaram. E Bunzo está faminto, coitado.
Tantos anos aqui... preso... sem ninguém para brincar. Ele merece uma recompensa,
não acha?
— Eu prometi a ele que, se ele chegasse bem pertinho de você, poderia esmagar o seu
craniozinho fofo com os pratinhos dele... e mastigar tudo o que encontrar dentro! Um
banquete e tanto.
— Mas é claro — disse ela, como quem entrega uma vantagem injusta —, se você
acertar a sequência certinha, Bunzo vai subir de novo! Vai voltar pro lugar dele, todo
bonzinho! Agora... se errar ou demorar demais... bom, ele vai chegar mais perto... e
mais perto... e...
Ela soltou um estalo com a língua. Edward cerrou os dentes, levando o GrabPack ao
lado do corpo. A criatura acima dele parecia estar salivando de novo. Mommy Long Legs
esticou seu braço grotescamente fino em direção a algum lugar fora do campo de visão
dele. Um som de alavanca foi ouvido.
— Azul.
— Verde.
Outro disparo certeiro. A mão verde do GrabPack tocou o botão e voltou como uma
mola, o som ecoando entre as paredes coloridas. Bunzo permaneceu no alto, ainda em
silêncio.
Edward respirava com dificuldade. O suor descia pela testa. Não podia perder o ritmo.
Cada erro poderia ser fatal. Olhou para cima. Bunzo estava mais perto. O cabo havia
descido alguns metros. A boca do coelho estava aberta, os dentes prontos para o
banquete prometido por Mommy Long Legs.
Um leve tropeço. Edward hesitou antes de apertar o último azul, mas conseguiu.
A voz havia mentido. Disse "Amarelo", mas a tela mostrava claramente o verde. Era
uma armadilha. Edward apertou o botão verde, suando frio. Nada aconteceu. Por um
segundo, ele achou que tinha perdido. Mas então, os olhos de Bunzo piscaram, e o cabo
começou a subir. A criatura foi puxada lentamente de volta para cima, sem tirar os olhos
dele.
As telas ficaram brancas mais uma vez. Silêncio. E então, a voz robótica ecoou
novamente:
— Iniciando Round Dois.
As telas brilharam novamente, agora com uma luz ainda mais ofuscante, como se
zombasse de Edward. O silêncio que se seguiu foi quebrado por um som agudo de mola
sendo tensionada — e então o cabo de aço rangeu, liberando Bunzo mais uma vez. O
coelho caiu alguns centímetros, os olhos arregalados, a boca aberta em um sorriso
sádico. O eco dos pratos batendo ressoou como um trovão no corredor apertado.
A voz masculina robótica ressoou, desta vez mais rápida, como se estivesse
impaciente:
— Azul.
Edward atirou no botão azul. Acertou, mas o cabo continuou descendo alguns
centímetros antes de parar. Bunzo balançava como um pêndulo acima dele, cada vez
mais próximo.
— Verde. Vermelho.
Edward obedeceu. Seus movimentos eram quase automáticos, mas o som do cabo
rangendo sobre sua cabeça era impossível de ignorar. Cada centímetro que Bunzo
descia deixava o fedor de mofo e carne estragada mais forte. O coelho parou
momentaneamente, mas balançou as pernas como se estivesse se preparando para
pular direto em seu pescoço.
Edward disparou sem hesitar, mas a velocidade do jogo estava aumentando. O cabo
começou a chiar como se fosse se romper, descendo mais rápido.
— Violeta.
Edward congelou. Seu coração parou por um segundo. Ele olhou para os botões na
frente dele: amarelo, verde, azul e vermelho. Não havia violeta. O pânico explodiu em
seu peito. O som dos pratos se chocando ecoou tão perto que ele sentiu o deslocamento
do ar.
O cabo soltou um estalo ameaçador. O cheiro de metal oxidado e suor velho inundou
suas narinas. Bunzo Bunny estava prestes a alcançá-lo.
Foi quando Edward notou um reflexo roxo atrás dele, iluminando o chão. Um novo botão
havia emergido da plataforma, bem às suas costas. Ele girou o GrabPack e disparou o
braço metálico com força, atingindo o botão violeta. O clique ressoou alto, e Bunzo parou
a apenas um metro de distância. Os olhos negros da criatura estavam brilhando de
frustração.
Mas não havia tempo para alívio.
A nova sequência apareceu imediatamente, sem pausa. Edward teve que correr de um
lado para o outro da plataforma, quase tropeçando, usando o GrabPack em ângulos
improváveis para alcançar todos os botões, inclusive o violeta, agora fixo em uma
posição complicada. Seus braços doíam, o suor encharcava sua roupa.
O som dos pratos ficou ensurdecedor, como se Bunzo estivesse batendo direto nos
ouvidos de Edward. O cabo estalava tanto que parecia que se romperia a qualquer
momento, soltando o coelho assassino para cima dele.
Edward se moveu como um louco, disparando o GrabPack para todos os lados. Ele
conseguiu acertar a sequência por muito pouco. Porém, de repente, Bunzo Bunny se
jogou em um movimento brusco, arrancando faíscas do cabo de aço. Edward teve que
rolar para o lado, escapando por centímetros das presas do animatrônico. O coelho
balançou a cabeça, como um predador furioso, e voltou a subir alguns centímetros.
Apenas para em seguida despencar mais rápido do que antes.
— Laranja.
As presas afiadas do coelho arranharam seu ombro, rasgando a manga de sua jaqueta
e abrindo um talho em sua pele. Edward gemeu de dor e empurrou Bunzo com as
próprias mãos, sentindo a textura fria e gosmenta do metal e do tecido sujo. O monstro
recuou apenas o bastante para que ele se levantasse cambaleando.
— Branco.
Um estalo ecoou acima dele, e um botão branco emergiu de uma placa atrás de tubos
quebrados. Edward mal teve tempo de pensar. Disparou o GrabPack no botão branco
e o som do impacto reverberou por toda a sala.
As ordens saíam tão rápido que Edward não conseguia mais repetir mentalmente. Seus
movimentos eram puro instinto. Seus braços queimavam de dor, e ele sentia cada batida
do próprio coração como se fosse explodir. O som do cabo aço estava cada vez mais
próximo, e Bunzo não parecia seguir nenhuma lógica, balançando violentamente para
todos os lados.
A cada botão, Edward quase escorregava, saltava, girava para alcançar os alvos. O
barulho do cabo vibrava como uma serra elétrica acima dele. O coelho parecia
enlouquecido, os pratos batendo a esmo, produzindo faíscas que iluminavam o rosto de
Edward em flashes de pânico. Ele escorregou ao tentar atingir o botão violeta e caiu de
lado. Bunzo aproveitou, descendo em velocidade e atacando com um golpe vertical
usando seus pratos musicais.
Edward rolou para trás enquanto os pratos se chocavam no chão, deixando marcas
fundas na superfície metálica.
— O quê...? — ele sussurrou, a voz rouca de terror. Ele não entendia o que eram
aqueles símbolos e o que eles estavam fazendo em uma sequência de cores.
— NÃO! NÃO ERA ISSO! — Edward gritou, sua voz ecoando pela sala enorme e escura
— VOCÊ DISSE CORES! VOCÊ DISSE QUE ERAM APENAS CORES! — ele berrava,
a garganta rasgando de pânico.
Em resposta, apenas a risada de Mommy Long Legs, suave e melódica como um canto
de ninar distorcido, reverberou do alto. A janela retangular no canto superior, de onde
ela o observava, agora estava totalmente invisível. As luzes estavam apagadas naquela
direção, deixando apenas sombras opressivas no teto.
Edward tentou se recompor, mas as pernas tremiam tanto que ele mal conseguia ficar
de pé. Atirou no azul, depois girou para disparar no botão com a letra J, tateando com
o olhar até encontrar o coração piscando do outro lado. Cada movimento era um
desespero. Bunzo desceu mais.
Os pratos de Bunzo se abriram e bateram tão perto das orelhas de Edward que o
estampido metálico explodiu em seus tímpanos. Um zunido agudo preencheu sua
cabeça, como se estilhaços de som tivessem se cravado em seu cérebro. Ele
cambaleou para trás, quase vomitando de tontura. O coelho girou a cabeça em
espasmos, emitindo chiados mecânicos e o som agonizante de ossos estalando. Os
olhos de Bunzo Bunny estavam tão próximos que Edward via cada microfissura na lente
amarela que servia de pupila.
Bunzo descia mais rápido a cada hesitação. O som do cabo era como um rosnado de
metal. As orelhas do coelho balançavam ao vento conforme o animatrônico descia em
espasmos, braços erguidos, pratos preparados para o golpe final. As lâminas de bronze
dos pratos batiam umas nas outras com força, cuspindo faíscas. O reflexo intermitente
iluminava o suor e as lágrimas no rosto de Edward.
— J. Azul. Verde. Violeta. Branco. Amarelo. Coração. Vermelho. Laranja. Azul. Verde.
O pânico estava além das palavras. Edward só conseguia pensar em apertar os botões
o mais rápido possível, suas mãos sangrando pelas queimaduras do GrabPack
superaquecido. Seus tremeram ao pressionar o gatilho do GrabPack e acertar o botão
verde, encerrando a sequência.
Um estalo seco percorreu a sala, e então veio o silêncio. O som dos pratos cessou. As
telas apagaram. O mundo pareceu parar.
As luzes das telas explodiram num clarão ofuscante, lançando sombras afiadas nas
paredes curvas da sala. Edward gritou e cobriu os olhos com o antebraço. Quando os
abriu, piscando freneticamente, sentiu que o mundo à sua volta havia mudado. Não
fisicamente, mas em espírito. A sala parecia zombar dele, como se estivesse rindo com
todas as suas lâmpadas, botões e sons eletrônicos.
O silêncio que se seguiu foi quebrado pelo som de uma mola sendo tensionada,
seguido de um estrondo metálico e o grito do motor: o cabo de aço desceu de novo,
mais rápido, e Bunzo caiu alguns centímetros de volta.
Edward hesitou. Sabia que aqueles símbolos não deveriam estar ali. Deveria ser
apenas sequências numéricas. Mommy Long Legs claramente estava fazendo aquilo
para que ele errasse de forma mais fácil. Ainda assim, ele tinha que continuar o desafio.
Atirou com o GrabPack nos botões correspondentes: Azul. Verde. Pi. Amarelo… Um
clique seco irrompeu o salão. Tinha funcionado.
"Confie na tela", ele pensou, "confie nos seus olhos, não nessa maldita voz."
Mas ao olhar para a tela, percebeu que a palavra “branco” estava piscando em verde.
Era uma armadilha.
Ele decidiu confiar no que a voz dizia, pelo menos uma vez. Disparou em direção ao
botão branco, depois o amarelo, depois o azul… Completou a sequência. Tinha
acertado.
— Coração. Azul. Verde. Pi. Ciano. J. Amarelo. Violeta. Branco. Azul. Pi. Vermelho.
Era demais. Longa demais. Edward teve que repeti-la em voz alta, quase cantando
como uma criança memorizando algo que não entendia.
Ao acertar o último, ele caiu de joelhos, o GrabPack mais pesado do que nunca. As
luzes brilharam uma última vez. E tudo parou. A criatura não se moveu.
— Prepare-se.
A voz robótica interrompeu o breu com frieza cirúrgica. E então, o mundo desabou.
Bunzo Bunny descia cada vez mais. Agora como um pêndulo faminto, o cabo chiando,
as pernas do coelho quase alcançando Edward. Os pratos batiam uns contra os outros
em fúria ritmada, desordenada, em um som que não imitava mais música. A criatura
parecia querer tortura-lo com aquele barulho insuportavel.
O suor escorria em rios pela nuca de Edward. Ele tentava obedecer à voz, mas não
sabia mais o que era verdade e o que era truque. A mente dele se quebrava em pedaços
— um para escutar, um para ver, um para sobreviver, todos falhando.
A única coisa que restou foi o som intermitente de faíscas saltando do cabo de aço.
Bunzo subiu, puxado de volta pela abertura de onde veio. Mas não como antes. O cabo
puxava o coelho com pressa, tremendo, soltando pequenas explosões de luz elétrica
enquanto as garras metálicas se retraíam. A boca do animatrônico permanecia aberta,
seus olhos ainda cravados em Edward, mesmo enquanto sumia na penumbra.
No alto da parede distante, revelando a janela elevada e de moldura branca, ela estava
ali: Mommy Long Legs. Dentro daquela mesma sala de paredes estéreis, brancas,
limpas como uma sala de cirurgia. Ela o observava. E então, com uma voz gentil, quase
maternal:
Ela apoiou o queixo nas mãos de plástico e borracha como se fosse uma criança
entediada num parquinho.
— Por ter feito um trabalho tão bom, Mommy decidiu te presentear com... uma parte do
código do trem. Olha para cima, meu querido.
Edward levantou o olhar, lentamente, como se esperasse que dali também viesse a
morte. A abertura no teto, onde Bunzo havia sido recolhido, estava escura. Mas então,
algo brilhou. Um braço enorme e rosado, de borracha lisa, deslizou para fora da abertura
como uma serpente. Os dedos longos e flexíveis de Mommy se estenderam até pararem
a centímetros do rosto de Edward.
Na mão da criatura, estava um pedaço de papel. Velho, sujo, rasgado. Com marcas
coloridas em azul e vermelho. Como algo importante e, ao mesmo tempo, descartável.
Edward se arrastou para trás, sufocado pela presença daquele braço que parecia sorrir
por si só. A uma distância segura (segura o suficiente para manter a ilusão de controle)
ele apontou o GrabPack, disparou a mão verde e arrancou o papel dos dedos de
Mommy.
Não leu. Nem ousou. Enfiou o papel no bolso da jaqueta como se fosse um fósforo
aceso prestes a explodir em suas mãos.
O braço de Mommy recuou com fluidez sinistra. Lá em cima, pela janela, Edward viu o
braço da criatura retornando ao tamanho natural, encolhendo como se o próprio tempo
voltasse atrás.
— Eu queria que tivesse durado mais... — disse ela, ainda com doçura. — Mas, não se
preocupe. Tem outras formas de eu me divertir com você...
As luzes da sala branca onde ela estava se apagaram de repente. Ela desapareceu,
como se nunca tivesse estado ali.
A sala estava escura. E, pela primeira vez, totalmente silenciosa. E naquele silêncio,
Edward percebeu algo pior do que qualquer grito de Bunzo, pior do que os enigmas
impossíveis, pior do que os olhos de Mommy: ele estava quebrado por dentro. Não que
isso fosse algo que ele já não soubesse, mas agora ele se permitiu relembrar desse
fato.
A realidade, para Edward, nunca mais voltaria a ser estável, mesmo que saísse dali
inteiro.
Edward seguiu pela ponte metálica que havia o trazido até ali. Porém, quando ele pisou
na superfície da plataforma, a ponte se desconectou da porta e caiu, se transformando
em uma rampa para a parte de baixo daquela sala. A área abaixo da plataforma onde o
desafio ocorrera. A área dos "bastidores".
Ele desceu a ponte caída, chegando em um lugar de paredes de concreto cinza, com
mesas brancas com computadores sujos e quebrados. Anotações estavam largadas
pelo chão, esquecidas pelo tempo. Edward Finch sabia que, se lesse qualquer um
daqueles documentos, talvez soubesse de coisas que ele não gostaria de conhecer nem
em seus pesadelos mais sombrios ou em seus devaneios mais ensandecidos
resultantes de longas doses de nicotina.
No canto daquela sala deprimente, Edward viu uma abertura, levemente torta, de um
duto de ventilação. O problema era que, o lugar era claramente pequeno, estreito e
apertado. Além disso, ele não tinha ideia de para onde esse duto poderia o levar. Ele
olha ao redor umas três vezes e constata que não há outra saída daquele lugar. A única
outra porta por onde ele poderia ir embora agora estava inacessível.
Edward Finch teve que deitar completamente no chão frio e sujo da sala cinzenta e sem
vida. Seu rosto ficou a centímetros da entrada do túnel metálico, sentindo de perto o
cheiro de ferrugem, poeira e graxa envelhecida que escorria das paredes internas da
ventilação. Ele empurrou o GrabPack, tentando encaixá-lo melhor para que os braços
do dispositivo não prendessem nos cantos. Ainda assim, a cada movimento, as correias
do equipamento puxavam sua camisa e prensavam contra as laterais do tubo. Numa
última respiração profunda, ele se lançou para dentro.
A claustrofobia foi instantânea. Cada centímetro conquistado exigia força nos braços e
nos cotovelos, arrastando o corpo como um verme por entre as frestas. As paredes do
duto eram frias e ruidosas. O som de seu corpo se arrastando era amplificado em ecos
desconfortáveis, como se algo se movesse atrás dele. O GrabPack raspava no teto a
cada novo avanço, emitindo rangidos úmidos e pequenos estalos de metal contra metal.
Em alguns momentos, ele jurava que não conseguiria continuar, que ficaria entalado,
que o GrabPack se prenderia em algum canto estreito e tudo terminaria ali, sufocado e
sozinho, esmagado pela própria impossibilidade de voltar.
Foi quando, de algum lugar ao longe, um som diferente cortou a escuridão. Alto. Brutal.
O estrondo seco dos pratos de Bunzo Bunny reverberou pelas paredes do duto como
um trovão metalizado. Edward parou de rastejar na hora, de barriga para baixo,
respirando com dificuldade. Seu coração batia tão alto quanto o eco das batidas, e ele
prendeu a respiração quando ouviu algo ainda mais estranho: gritos. Gritos de dor.
Era Bunzo. Aquele som agudo e inconfundível, que antes trazia ameaça e loucura,
agora trazia sofrimento. Edward reconheceu de imediato. O animatrônico estava
gritando. Chorando, se é que isso era possível.
Eram estalos secos, molhados, como gravetos sendo partidos ou como carne
esmagada contra ferro. Ossos quebrando. Placas de metal sendo rasgadas. Havia algo
lá dentro com Bunzo Bunny. Algo que não era ele. Algo maior, mais violento, mais cruel.
Pensou que talvez Mommy Long Legs tivesse perdido a paciência. Ou talvez existisse
outra coisa ali. Outro brinquedo monstruoso. Aquela fábrica era muito mais do que
corredores vazios e salas de desafios. Era um mausoléu de fracassos.
Mas ele continuou rastejando. O medo o empurrava. A ignorância o impulsionava. E a
única coisa que ele não podia fazer era parar. Atrás dele estava o vazio, e diante dele,
uma esperança: luz.
Fraca, quase invisível, a luz piscava por entre as frestas de uma nova grade de metal.
Ele acelerou, mesmo com os cotovelos sangrando levemente e os joelhos roxos. A
claustrofobia parecia gritar em seus ouvidos como a voz de uma histérica entalando no
próprio sangue.
Chegou até a grade. A luz atravessava pequenas fendas no metal enferrujado. Ele se
aproximou, encostando o rosto suado nas frestas. Tentou enxergar. As formas estavam
turvas, borradas pela distância e pelos olhos cansados, mas havia algo ali. Um cartaz.
Ele respirou fundo, reuniu o pouco de energia que tinha e se ergueu. Estava tonto, as
luzes ao redor dançavam como vultos, mas sua visão começou a se estabilizar. O piso
daquele depósito de "Partes & Serviços" era de concreto cru, sem pintura, frio como
pedra de cemitério. As paredes nuas ecoavam o som de seus passos hesitantes. Era
um espaço enorme, coberto por prateleiras que subiam até o teto como colunas de ferro
em uma catedral decadente.
O primeiro item que chamou sua atenção foi um brinquedo de aparência ridícula:
“Owen, o Forno”. Era exatamente o que o nome sugere: um forno. O corpo quadrado,
pintado em vermelho e laranja, trazia um painel azul com botões amarelos, dois olhos
esbugalhados e uma boca que mais parecia a entrada de um crematório faminto.
Edward olhou para a caixa aberta ao lado e viu um exemplar do brinquedo, sujo e
enferrujado. O relatório colado dizia:
“Nome pouco criativo e design criticado como ‘assustador’. Além disso, um erro grave
de fabricação transformou o produto em um forno funcional, capaz de atingir
temperaturas acima de 250 graus. Diversos casos de queimaduras de terceiro grau foram
reportados em crianças que tentaram ligá-lo. A Playtime se viu obrigada a recolher todos
os modelos vendidos no país. Produto banido e arquivado.”
Edward sentiu o estômago revirar. Aquilo não era apenas fracasso de marketing, era
negligência criminosa. Ele aprendeu bastante sobre o que é legalmente correto e
incorreto depois de tanto tempo convivendo no mesmo apartamento que Victor.
Seguindo adiante, seus olhos pousaram sobre uma caixa aberta, revelando algo que
parecia um cachorro de plástico verde, mas com três cabeças. O relatório colado dizia:
Ele continuou andando entre os corredores, cada prateleira trazendo horrores e piadas
de mau gosto na forma daqueles brinquedos horrendos. Um carrinho em miniatura com
asas de metal afiadas, rejeitado por risco de corte. Um urso de pelúcia que dizia “eu te
amo” em diferentes idiomas, mas que em vários testes misturava as frases, resultando
em mensagens como “eu te odeio” ou “mate a mamãe”. Arquivado como “falha
irreparável de programação”.
Mas nada foi tão grotesco quanto o que Edward encontrou em seguida.
Edward não conseguiu conter uma risada nervosa, abafada pelo próprio desespero. O
eco do riso morreu rápido demais naquele depósito mórbido.
Continuou explorando. Bonecas sem olhos, carrinhos que soltavam faíscas, figuras de
ação que desmontaram sozinhas, como se odiassem sua própria existência. Viu até
mesmo um brinquedo que na verdade não passava de uma pedra com olhos de plástico
colados com cola quente. Ele sentiu a dor no braço latejar novamente, mas não parou.
Sabia que aquelas prateleiras escondiam mais do que apenas fracassos comerciais.
“Projeto Daisy foi concebido como mascote educativo, com foco em jardins e
preservação da natureza. Intenção: ensinar crianças sobre ecologia e responsabilidade
ambiental de forma divertida. Testes preliminares com protótipos em papelão e
animatrônicos simples resultaram em fortes reações negativas. Crianças relataram
pesadelos recorrentes envolvendo ‘flores com rostos’. Adultos entrevistados apontaram
que a expressão do brinquedo era ‘desconfortável’ e o movimento dos membros longos
e finos era associado a aracnídeos, gerando repulsa instintiva. Em fase de simulação, o
software falhou diversas vezes, fazendo com que Daisy risse sem parar em momentos
inapropriados. O som contínuo foi descrito como ‘agonizante’. Projeto cancelado antes
de produção em larga escala. Todos os materiais do projeto foram arquivados na "Partes
& Serviços"’.
Edward recuou um passo, encarando aquele sorriso pintado com uma mistura de
repulsa e desconforto. A ideia de que algo assim fosse colocado nas mãos de crianças
parecia absurda.
E então, levantando os olhos, notou algo acima de si. No teto do depósito, linhas
metálicas corriam de uma extremidade a outra, como trilhos suspensos. Seguindo com
o olhar, Edward entendeu seu propósito: uma garra industrial laranja, semelhante às de
guindastes, estava presa a esses trilhos. O mecanismo parecia capaz de atravessar
todo o salão, alcançando qualquer ponto. Mas a garra estava imóvel, desligada, como
um predador adormecido. Da lateral de sua estrutura, fios pendiam soltos, alguns ainda
faiscando levemente, denunciando que havia sido danificada não muito tempo atrás.
E com essa certeza, continuou sua caminhada, até chegar em uma parte do depósito
que ainda não tinha notado. Uma pequena cabine de aço inoxidável estava posicionada
num canto, com uma janela estreita e uma porta entreaberta. Aproximando-se da janela,
ele espiou o que havia por dentro.
O interior era minúsculo, claramente feito para apenas uma pessoa trabalhar ali. As
paredes de aço inoxidável estavam cobertas quase por completo por posters antigos,
como se alguém tivesse tentado trazer vida para dentro daquele espaço sufocante.
Havia um cartaz da Playtime Co. em tons fortes de azul e amarelo, estampando um
Huggy Wuggy sorridente e exagerado; ao lado, um da Fazbear Entertainment,
mostrando Freddy Fazbear em marrom e dourado, erguendo seu microfone sob o estilo
publicitário dos anos 90.
Entre eles, colagens de bandas, como um pôster do Nirvana em fundo preto com o
clássico sorriso amarelo e até um dos Backstreet Boys, desbotado a ponto de quase
não se distinguir os rostos. O contraste entre o brilho falso dessas imagens e o aço frio
das paredes era marcante, e Edward refletiu como algum funcionário devia ter tentado,
em vão, transformar aquele ambiente mecânico em algo que lembrasse uma vida
normal. Ao lado, havia uma espécie de disjuntor aberto e parcialmente quebrado, ainda
soltando estáticas de energia vibrante.
O que mais chamava atenção, no entanto, era a mesa de vidro encostada na parede,
sustentando um computador de monitor de tubo, típico do início dos anos 2000. A tela
apagada refletia sua silhueta, distorcida pela curvatura do vidro. Ao lado do teclado,
estavam canecas de café com manchas antigas, blocos de notas rabiscados com letras
apressadas e até um chaveiro enferrujado da Playtime, esquecido. Em um dos cantos,
repousava um rádio portátil danificado, as antenas tortas como se tivessem sido
puxadas à força. Papéis espalhados carregavam listas de manutenção, horários de
turnos e até esboços de brinquedos acompanhados de comentários irônicos ou
sugestões frustradas, indicando um funcionário entediado ou talvez indignado.
Edward pensou em quanto tempo alguém devia ter passado ali dentro, preso ao
isolamento, tentando se agarrar a qualquer lembrança do mundo de fora. Quando seus
olhos recaíram sobre as manchas de sangue seco espalhadas pelo chão e respingadas
nas paredes metálicas, uma sensação gelada percorreu sua espinha, mas ele tentou
ignorar.
Mas o que realmente fez Edward prender a respiração foi o que repousava sobre a
plataforma.
Ali estava uma escultura gigantesca de Bron. A réplica tinha quase três metros de
altura, feita de plástico vermelho e alaranjado, com detalhes craquelados na superfície
que lembravam couro seco. O pescoço longo se erguia como uma torre, sustentando a
cabeça sorridente, congelada em uma expressão quase zombeteira. O corpo maciço,
com patas grossas e arredondadas, bloqueava completamente o acesso. A cauda se
estendia até o limite da plataforma, como uma barreira. Além disso, a ausência de olhos
naquele braquiossauro de brinquedo davam arrepios em Edward.
Edward tentou empurrar o brinquedo colossal, mas o esforço foi inútil. Nem com o
GrabPack conseguiu mover a estátua. Ele tentou escalar o corpo liso do dinossauro,
usando as mãos extensoras do GrabPack como apoio, mas a superfície escorregadia o
fez cair todas as vezes. Cada tentativa terminava em frustração, até que, exausto, ele
limpou a poeira da roupa e se virou para a cabine. Talvez ali dentro houvesse alguma
resposta, algum controle escondido, alguma pista do que fazer.
O cubículo estreito cheirava a metal, poeira e aquele odor terrível de sangue velho. O
espaço ali dentro era abafado, menor ainda do que parecia pela janela. Ele se
aproximou da mesa de vidro, onde repousava o computador. O monitor de tubo demorou
a dar sinais de vida, soltando um estalo seco e depois aquele zumbido característico
que lembrava o aquecimento de uma máquina industrial. Edward apoiou as mãos na
borda da mesa, observando enquanto a tela finalmente se iluminava.
Edward respirou fundo e moveu o mouse enferrujado, sentindo a resistência dos botões
emperrados sob seus dedos. Entre as opções, uma chamou sua atenção
imediatamente: "Plataforma Hidráulica". Ele clicou e a tela mudou para algo ainda mais
direto — dois grandes botões verdes, ocupando quase todo o espaço: "Elevar" e
"Abaixar". A interface parecia feita para alguém que não tivesse tempo a perder com
comandos complexos. Ele clicou em "Elevar" e instintivamente lançou o olhar pela
janela. A plataforma do lado de fora rangeu e começou a se mover, mas faíscas
explodiram de suas juntas antes que o mecanismo parasse abruptamente. Logo em
seguida, uma linha vermelha cortou a tela:
ERRO 423:
PESO EXCESSIVO SOBRE O EQUIPAMENTO.
“Óbvio... aquele maldito Bron. Esse troço nunca vai aguentar com aquele monstro de
plástico em cima.”, pensou Edward, cerrando os dentes.
“Então é isso... a plataforma não sobe com o dinossauro em cima. E a garra, que
poderia tirá-lo dali, está morta. Mas nada aqui fica realmente morto, não é?”, ele pensou.
“Se eu achar o jeito certo... se eu conseguir religar esse maldito braço mecânico...”
Ele olhou de novo para a tela verde, sentindo um frio na barriga. Aquilo não era apenas
um quebra-cabeça técnico, era uma mensagem clara: a fábrica queria testá-lo, brincar
com sua resistência. E Edward sabia, com um aperto no peito, que se não encontrasse
um jeito de usar a garra, jamais sairia daquele depósito.
Edward foi arrancado de seus pensamentos por um estalo seco, seguido do chiado
agressivo de faíscas. Virou-se de imediato e viu o disjuntor quebrado, cuspindo
descargas elétricas intermitentes. Por um segundo, o som pareceu ensurdecedor, mas
logo uma ideia cortou sua mente como um raio. Ele se lembrou da fiação solta na garra,
vazando como uma ferida exposta, e sentiu o coração acelerar.
“Claro... como não pensei nisso antes?”, foi o que passou na mente de Edward Finch.
A mão verde do GrabPack era feita para armazenar energia, ainda que por poucos
segundos. Se conseguisse canalizar a energia do disjuntor para a garra, teria uma
chance de reativá-la. Respirou fundo, mirou o disparador, e puxou o gatilho. A mão
extensora se lançou, chicoteando contra os cabos estourados. O impacto ecoou, e
então, com um estalo seco, voltou para o encaixe do GrabPack. Edward olhou para
baixo: a mão verde tremeluzia em estática, iluminando seus dedos com faíscas
dançantes. Funcionou. Mas agora o tempo corria contra ele.
Ele disparou pelo depósito em direção à garra. O som de suas botas ecoava como tiros
contra o chão metálico, cada batida lembrando-lhe a contagem regressiva implacável.
O brilho verde ia diminuindo, pulsando como um coração prestes a parar. Saltou por
cima de uma poça escura de sangue seco, desviou de restos de ferramentas caídas e,
sem hesitar, ergueu o braço. Mirou diretamente no ponto onde os cabos soltos pendiam
da carcaça da garra. Disparou. A mão verde se lançou, o cabo se estendendo o máximo
que conseguia, e cravou-se na fiação.
O estalo foi ensurdecedor. Uma explosão de estática iluminou o teto, e Edward quase
tropeçou com a força do impacto que voltou para o GrabPack. Por um instante, a garra
mecânica suspensa no alto tremeu, como um animal adormecido despertando. Ele
sentiu os joelhos fraquejarem de alívio. Tinha funcionado. Mas ainda não estava
concluído.
Virando-se rapidamente, Edward correu de volta para a cabine, ignorando a dor ardente
em suas pernas. Empurrou a porta com força, quase arrancando-a da dobradiça. As
setas verdes no painel de controle da garra brilhavam ativas, esperando comando.
Edward engoliu em seco, agarrou o teclado e começou a pressionar as setas. Primeiro
para a esquerda — lá fora, o guindaste deslizou sobre trilhos enferrujados, o som
metálico reverberando nas paredes. Depois para frente — a garra avançava lentamente,
chiando como se reclamasse do próprio peso.
Edward apertava as teclas em ritmo frenético, alternando entre esquerda, frente, frente
outra vez, depois direita. O cursor piscava na tela como se cronometrasse sua agonia.
A garra avançava aos solavancos, contornando vigas e passando por cima de caixas
empilhadas, até finalmente pairar sobre Bron.
Edward respirou fundo e pressionou o botão central no painel, marcado com um ícone
simples de garra fechando.
O som que se seguiu foi um estrondo metálico, como engrenagens mordendo umas às
outras. A garra desceu, oscilando de um lado para o outro, até se fechar brutalmente
em torno do enorme corpo de plástico de Bron. O dinossauro ergueu-se no ar com um
ranger que fez o coração de Edward disparar. Por um instante, teve certeza de que a
cabeça do brinquedo se moveria para encara-lo. Mas não havia tempo para pensar
nisso. Ele voltou às setas, guiando o guindaste para trás, depois à esquerda, desviando
de colunas e vigas.
Finalmente, encontrou uma área aberta, mais distante da plataforma. Sem hesitar,
clicou novamente no botão central. A garra se abriu e, com um baque seco, Bron foi
lançado contra o chão de concreto, ressoando por todo o depósito como um trovão.
Edward ofegava, o suor escorrendo pelo rosto, mas seus olhos não se desviaram da
tela. A plataforma agora estava livre.
CAPÍTULO 14
Edward voltou a acessar a área de comando da plataforma elevatória pelo computador
e clicou mais uma vez em “Elevar”. O monitor rangeu, exibindo uma barra de progresso
rudimentar, enquanto, lá fora, o som metálico do mecanismo se arrastava. As
articulações enferrujadas da plataforma gemiam como se pudessem se partir a qualquer
momento, mas, lentamente, ela subia. Sem pensar duas vezes, ele correu para fora da
cabine.
O caminho levou-o até uma porta branca com uma maçaneta de aço frio que brilhava
na penumbra, bloqueada por uma cadeira encostada de qualquer jeito. Edward usou a
mão azul do GrabPack para agarrar a cadeira e a arremessou para o lado, ouvindo o
estrondo reverberar pelo corredor. Empurrou a porta e adentrou outro espaço igual ao
anterior: concreto cinza, tijolos brancos, armários deteriorados. Documentos, crachás e
canecas térmicas jaziam pelo chão. Ele já estivera ali antes, ele se lembrava.
Ao fundo, a silhueta de uma porta lhe chamou atenção — uma porta que tinha “Memória
Musical” escrito na fachada. Edward sentiu um arrepio subir pela espinha. Estava no
caminho certo. Respirou fundo, apertou o punho contra o GrabPack e seguiu em frente,
sabendo que cada passo o levava de volta para a Game Station, e para os dois últimos
desafios que decidiriam se ele escaparia vivo daquele inferno.
…
Edward subiu o último lance de escadas, emergindo pela mesma escotilha vermelha
que o havia engolido no caminho até o desafio com Bunzo Bunny. Ele voltou à Game
Station, mas agora o espaço parecia diferente. Não que tivesse mudado fisicamente,
mas a forma como seus olhos o viam havia se transformado. Antes, aquele salão
colorido lhe parecera um parque infantil empoeirado e decadente, uma piada com a
ideia de paz e felicidade.
Agora, depois do que enfrentara, cada cor vibrante parecia um insulto, cada letreiro
luminoso parecia zombar mais ainda de sua sanidade. Até os holofotes no teto, que
antes ele mal notara, pareciam segui-lo como olhos atentos, como se Mommy Long
Legs pudesse observá-lo de qualquer ângulo.
Ele se aproximou do painel de controle e olhou para frente. A escotilha decorada com
o desenho dos dois Huggy Wuggys brigando estava aberta. O letreiro dizia “Bata em
Um Wuggy”, e abaixo dele uma escadaria larga se estendia para baixo, iluminada de
forma quase convidativa. Edward estranhou aquilo. Dali de cima, conseguia ver que as
paredes do corredor eram pintadas com figuras coloridas e bobas, e que o chão era
coberto por azulejos em cores primárias, arrumados em padrões que lembravam
brinquedos de montar.
Uma visão que destoava completamente do tom claustrofóbico e cinzento do “Partes &
Serviços”. Essa sensação de todas as salas serem totalmente diferentes umas das
outras estava começando a dar dor de cabeça em Edward.
Ele então se voltou para o painel de alavancas. A segunda já estava ativada, brilhando
em verde, indicando que o desafio do “Bata em Um Wuggy” já estava liberado, assim
como o do “Memória Musical”. Edward franziu o cenho. Não fora ele quem puxara essa
alavanca. Será que Mommy Long Legs havia feito isso sozinha? Será que ela o
observava o tempo todo, puxando as cordas, liberando cada novo inferno como quem
abre a cortina de um teatro macabro? Como ela conseguia estar em todos os lugares
ao mesmo tempo? A ideia o enojou, mas também fazia sentido. Ele já não acreditava
em coincidências ali dentro.
Enquanto encarava a escada que se abria diante de si, sua mente começou a trabalhar
por conta própria, imaginando o que estaria por vir. Talvez fosse uma brincadeira de
esconde-esconde com algum monstro gigante. Talvez ele tivesse que enfrentar algum
desafio de quebra cabeça. Ou, pior ainda, talvez fosse um labirinto subterrâneo, onde
dezenas de olhos azuis surgiriam das sombras para persegui-lo sem trégua. Nenhuma
dessas hipóteses soava reconfortante. Mas, no fundo, Edward sabia que a verdade seria
pior do que qualquer dedução sua. A Playtime sempre encontrava um jeito de
transformar até as ideias mais absurdas em pesadelos palpáveis.
Primeiro uma gota, depois outra, e mais uma, até escorrerem pelo cabelo, rosto e
roupas. Ele ergueu a mão, limpou mecanicamente a testa, e quando abriu as palmas
para a fraca luz que vinha de cima, viu-as tingidas de vermelho.
Sangue. O coração disparou, e instintivamente ele ergueu os olhos. O que viu quase o
fez perder o equilíbrio.
Bunzo Bunny estava lá em cima, ou o que restava dele. Seu corpo estava mutilado de
maneira grotesca, pendurado como um grotesco troféu em meio a teias de aranha
espessas, que mais pareciam cordas de enforcamento. O tecido amarelado de seu traje
estava rasgado, sujo, coberto de manchas escuras e secas. Os olhos, outrora grandes
e infantis, eram agora buracos negros de vazio, um deles destruído, o outro deslocado
e preso por fiapos.
A boca escancarada, que antes emitia sons quase caricatos, parecia congelada em um
grito de dor que jamais fora ouvido. Dentes triangulares e gastos projetavam-se de
dentro da pelúcia rasgada. Um de seus braços estava parcialmente arrancado,
pendendo frouxamente por um retalho de pano e enchimento exposto. Seu macacão
verde, outrora símbolo bobo de um coelho músico, estava encharcado de sangue,
absorvendo-o como se fosse parte de um ritual macabro.
Edward recuou um passo, ofegante. Aquele não era o mesmo Bunzo que ele havia
enfrentado momentos atrás — ágil, quase infantil em seus movimentos, cruel em sua
programação, mas ainda assim vivo. Este era apenas um cadáver disforme, exibido
para que ele o visse.
Mommy Long Legs o matara. Mas por quê? Seria punição pelo fracasso? Ou simples
prazer, uma demonstração de poder para lembrá-lo de que até os monstros da fábrica
não eram imortais diante dela? Ele sentiu o estômago revirar. O sangue que escorria do
teto, respingando ainda sobre seus ombros, era como uma marca invisível, uma
lembrança de que sua própria vida poderia acabar exposta e grotesca da mesma forma.
E, no entanto, no meio da repulsa, algo lhe ocorreu: talvez aquilo fosse mais do que
crueldade. Talvez fosse um lembrete do que significava estar vivo dentro daquele lugar.
A Playtime Co. transformava brinquedos em predadores, e predadores em descartáveis,
tudo para alimentar um ciclo de medo e entretenimento. Bunzo não passara de mais
uma peça substituível, como Edward também era.
A noção o perturbou. Porque, se monstros podiam ser vítimas, então não havia
realmente diferença entre eles e os humanos. Todos eram apenas peças de um jogo
que não entendiam. Bunzo havia cumprido seu papel, e, ao falhar, fora destruído como
qualquer máquina quebrada.
Mas Edward sabia, olhando para aquele corpo deformado e inútil, que ali havia algo
mais — havia dor, havia um resquício de vida que fora esmagado sem piedade.
A visão lhe trouxe uma espécie de lucidez amarga. Ele próprio poderia estar naquela
posição em breve, pendurado, dilacerado, exposto em um canto qualquer da fábrica.
E, talvez, alguém passaria embaixo, olharia para cima e sentiria o mesmo choque. No
fundo, a morte de Bunzo não era apenas o fim de um inimigo: era um presságio.
Edward respirou fundo, forçando o corpo a se mover apesar da ânsia que sentia.
Limpou o rosto com a manga da camisa, tentando ignorar o cheiro metálico que se
impregnava nele.
Ajustou o GrabPack nas costas, os fechos de metal rangendo em seus ombros, e se
virou lentamente em direção à escadaria aberta. Cada degrau que descia agora parecia
mais pesado, como se o eco dos passos fosse acompanhado pela lembrança do que
havia acima.
Bunzo ficaria para trás, esquecido no teto da Game Station, mas a imagem jamais o
deixaria. E Edward sabia: o próximo desafio já não seria apenas uma prova física. Era
também um teste de quanto de sua humanidade ainda restava dentro de si.
CAPÍTULO 15
12 de janeiro de 2011
O frio do inverno americano repousava pesado sobre a cidade, mas ali dentro, entre as
paredes de mármore e ouro do salão de gala, não havia espaço para o desconforto.
Não era a fábrica da Playtime, não eram corredores industriais pintados de cores
infantis. Esta celebração acontecia em terreno neutro: um clube privado, antigo e
reservado, onde apenas nomes com peso suficiente podiam atravessar suas portas.
Era o local escolhido todo início de ano para a confraternização entre os tubarões
corporativos da Playtime Co. e da Fazbear Entertainment. Um lugar fora dos olhos
comuns, protegido por seguranças em ternos impecáveis e pela discrição absoluta de
seus proprietários.
Do teto abobadado pendiam lustres de cristal imensos, cada gota lapidada refletindo a
luz como se fosse um fragmento roubado do próprio sol. O piso de mármore negro,
polido até parecer um espelho, sustentava fileiras de mesas cobertas por toalhas de
seda dourada. Bandejas repletas de iguarias raras desfilavam de mão em mão, servidas
por garçons que se moviam como espectros treinados para não emitir som. Os
convidados, em trajes impecáveis, trocavam risos e frases curtas.
"You say you want a revolution... Well, you know... We all want to change the
world."
Stella era uma mulher que carregava consigo uma atmosfera de enigma, mesmo em
meio a tanto luxo. Seus cabelos loiros, em ondas curtas e elegantes, emolduravam-lhe
o rosto com a precisão de um retrato clássico.
A pele clara refletia a luz amarelada dos lustres, destacando os olhos azuis — frios,
precisos, atentos. Não havia neles a dispersão que se espera numa festa; havia cálculo,
como o de quem coleciona detalhes para mais tarde organizá-los em conclusões que
ninguém mais ousaria alcançar.
Seu vestido de gala era negro como a noite que envolvia a cidade além das janelas. O
tecido, de seda impecável, caía reto e severo, sem adornos supérfluos. Um colar de
prata discreto repousava-lhe ao colo, discreto demais para o ambiente.
Na mão direita, ela segurava uma taça de champanhe, mas não a levava aos lábios.
Apenas a girava lentamente, deixando o líquido cintilar à luz como ouro líquido. Para
qualquer um que a olhasse de passagem, Stella era apenas uma executiva reservada,
talvez entediada. Mas para quem soubesse ler nas entrelinhas, ela era uma sentinela,
alguém que via o que os outros não enxergavam.
Leith a contratou meses depois de assumir por completo a liderança da Playtime Co. E
desde então, sua ascensão foi meteórica. O motivo? Talvez sua competência seja
impecável. Talvez a frieza com que lidava com decisões que paralisariam outros. Ou,
talvez, porque Stella nunca fazia perguntas demais. Não se perdia em curiosidades;
limitava-se a observar, absorver, concluir.
Ela foi posicionada, semanas atrás, como chefe do departamento Playcare, um orfanato
disfarçado de projeto social, onde crianças órfãs encontrariam “lar e cuidado”. Uma
fachada que, como muitos ali sabiam, escondia engrenagens mais sombrias. E havia
ainda rumores sobre a Game Station, um projeto em gestação, que poderia em breve
também cair em suas mãos.
"But when you talk about destruction… Don't you know that you can count me
out..."
"But if you want money for people with minds that hate… All I can tell you is,
brother, you have to wait..."
E foi então que seus olhos pousaram sobre uma mesa mais afastada, quase como se
o destino houvesse preparado aquele ângulo para ela. Ali estavam dois homens,
diferentes em cada fibra de sua natureza, mas unidos pelo mesmo palco e pela mesma
peça secreta em que todos ali desempenhavam papéis.
O homem tinha o rosto duro, marcado por linhas de frieza e um olhar de aço que não
oferecia acolhimento, mas julgamento. Sua pele trazia o rubor pálido de quem passa
mais tempo entre paredes de laboratório do que sob o sol, e seus cabelos castanho-
avermelhados, desalinhados como se fossem eternamente descuidados, conferiam-lhe
ares de intempestiva intensidade.
Ao seu lado estava Eddie Ritterman, em contraste quase poético. Um homem que sabia
vestir-se como poucos: naquela noite, trajava um terno cinza de padrão xadrez fino,
cortado à perfeição, com uma gravata de seda azulada em desenhos miúdos que refletia
a luz dos lustres. O nó da gravata estava impecável, e a barba bem cuidada lhe conferia
um ar de elegância sóbria.
Seus olhos azuis eram claros, mas diferentes dos de Sawyer: havia neles calor, havia
humanidade. Quando ele sorria, ainda que de maneira contida, era o tipo de sorriso que
desmontava muralhas. Ritterman era um cavalheiro. Sua reputação de recluso o
cercava de mistério, mas aqueles que tiveram a fortuna de partilhar de sua presença
sabiam que era um homem de extremos: sereno e profissional no dia a dia, porém
dotado de uma verve espirituosa e carismática quando se dispunha.
Ritterman era o chefe de inovação e pesquisa da Playtime Co., cargo que assumiu em
1995 após Leith Pierre deixá-lo para enfim galgar sua escada até a presidência da
empresa.
Os dois homens conversavam num tom leve, quase zombeteiro, como colegas que se
conheciam havia tempo demais para levarem a sério a própria seriedade. As frases
vinham rápidas, com interrupções mútuas e pequenas gargalhadas abafadas pelo som
da música, como se cada um estivesse mais interessado em provocar o outro do que
em sustentar um raciocínio sólido.
Era estranho. No dia a dia dentro da Playtime, aquelas vozes raramente escapavam do
campo estritamente profissional. Ali, diante de todos, eles pareciam pessoas diferentes:
mais soltas, quase amigáveis de verdade.
Para Stella, a cena tinha algo de desconcertante. Ela franzia levemente o cenho,
imaginando se falavam sobre algum episódio do trabalho, recontado de modo bem-
humorado, ou se a conversa era sobre qualquer outra banalidade que nunca teria
espaço nas paredes da fábrica.
O que a intrigava não era o conteúdo em si, que ela só podia adivinhar, mas o contraste:
ver dois homens que sempre falavam em tons frios e pragmáticos agora dividindo risos
amistosos, como velhos amigos que por algum motivo haviam escondido essa versão
de si mesmos até aquele momento.
"But if you go carrying pictures of Chairman Mao… You ain't gonna make it with
anyone anyhow..."
Era impossível não reparar nela. O cabelo ruivo intenso, que descia como cortinas de
teatro, brilhava sob a iluminação amarelada. As madeixas se moviam levemente quando
ela passava os dedos longos, enfeitados por pulseiras e anéis, ajeitando-as atrás da
orelha com um gesto repetido que parecia automático. Mas talvez fosse apenas um
artifício de presença, algo ensaiado para manter os olhares fixados nela.
Lisa estava cercada por três acionistas, falando baixo, mas próximo o suficiente de
Stella para que fosse possível ler pedaços de frases em seus lábios.
Era sempre sobre imagem, sempre sobre poder. Stella imaginou que, mesmo se um
incêndio tomasse o prédio, Lisa estaria calma, medindo as palavras certas para a
imprensa, transformando o caos em discurso protocolar.
“You say you’ll change the constitution… Well, you know… We all want to change
your head…”
Stella prendeu a respiração por um instante, fitando Lisa como quem observa uma fera
enjaulada. Não porque Lisa fosse selvagem, mas porque passava a ideia de ter um
poder inevitável.
A camisa azul clara sob o blazer negro estava impecavelmente passada; a calça justa
de corte firme dava-lhe uma silhueta rígida e politica. Ela segurava um copo de cristal
sem jamais bebê-lo, apenas girando o líquido em movimentos lentos, como se fosse
uma extensão de suas frases. E o sorriso que surgia em seu rosto não era para divertir
ninguém, era uma forma de confirmar quem estava no controle.
Stella não sabia nada sobre sua personalidade, mas arriscava palpites que variavam a
cada instante.
Talvez Lisa fosse brilhante, daquelas mentes frias que enxergam três jogadas à frente
e fazem dos outros simples peças descartáveis. Ou talvez fosse apenas vaidosa,
sustentada por uma equipe inteira que carregava nas costas o peso real da corporação.
“Don’t you know it’s gonna be… All right… All right… All right…”
Stella respirou fundo, achando engraçado como a própria melodia parecia zombar da
figura de Lisa. Porque aquela mulher, em si, simboliza tudo que Stella admirava e odiava
ao mesmo tempo.
Por um momento, Stella se pegou imaginando como seria ouvi-la falar de algo pessoal.
Um detalhe humano, banal, que não envolvesse lucro, imagem ou controle. Mas talvez
não houvesse esse lado em Lisa Grayson. Talvez fosse só isso: um pilar de ferro erguido
para sustentar uma máquina que esmagava qualquer um que se colocasse em seu
caminho.
Ela ajeitou o cabelo mais uma vez, inclinou o queixo e sorriu para os acionistas. E Stella
teve a estranha sensação de que Lisa não apenas estava presente naquele salão. Ela
o tinha na palma de suas mãos. Tudo ali orbitava ela, e era feito para o seu bel prazer.
Nada estava acima dela.
O som ecoava entre taças tilintando e o zumbido de risadas que vinham de mesas
espalhadas. O brilho quente das lâmpadas faiscava sobre os cabelos de Lisa e, quando
Stella desviou o olhar da CEO, sentiu o chão se mover sob os próprios pés, como se
tivesse ficado imóvel por mais tempo do que imaginava.
Na mesma mesa distante onde, momentos antes, Harley Sawyer e Eddie Ritterman
trocavam palavras, algo havia mudado. O “Doutor” Sawyer ainda falava, os lábios se
movendo em um fluxo contínuo, as mãos gesticulando em curvas e ângulos duros. Mas
Eddie, agora, olhava discretamente em direção a ela.
Ela retribuiu o sorriso, quase sem pensar, erguendo ligeiramente a taça que permanecia
intacta, como se fosse apenas um acessório de fachada, e acenou. O gesto era
pequeno, mas Eddie o entendeu.
A cada passo, a figura de Harley Sawyer parecia mais distante, engolida pela multidão.
Eddie cruzava o salão com a elegância distraída de quem se move sem pressa, mas
sem hesitar, como se cada passo tivesse um propósito. A luz dourada refletia em seus
olhos e o tecido do terno cinza vibrava com o balanço sutil do corpo. Stella se levantou
da poltrona preta onde estivera acomodada havia tanto tempo que o tecido parecia ter
se moldado à sua silhueta.
— Ora, se não é a senhorita que sempre foge das festas da empresa — disse
Ritterman, se aproximando, a voz carregada de sotaque britânico, firme e, ao mesmo
tempo, acolhedora.
Os dois riram juntos, o som genuíno contrastando com o burburinho forçado ao redor.
A música mudou de tom, entrando em um dos trechos mais vibrantes, enquanto a
guitarra soava quase como uma gargalhada.
“You say you got a real solution… Well, you know… We’d all love to see the
plan…”
— Beatles. Sempre salvando as noites chatas — comentou, pegando uma taça de uma
bandeja que passava. — Se bem que nada salva champanhe morno.
— É por isso que eu não bebo — disse Stella, girando o líquido no copo sem tocar nele.
— É só uma forma elegante de disfarçar o tédio.
— Como estão as coisas no seu setor? Ainda tendo que lidar com as trapalhadas dos
estagiários?
— Ah, então continua tudo normal. Eu às vezes acho que nós deveríamos ter a
permissão de demitir uma boa quantidade de imbecis na hora que a gente quisesse.
Seria libertador.
Stella sorriu, mas seus olhos ainda observavam o salão, os vultos, o brilho das luzes
refletindo nos espelhos.
— Nem um pouco.
— Boa! Bom saber que ainda sabe quando alguém está mentindo.
Um garçom passou com um tabuleiro de petiscos, e Eddie pegou um, mordendo com
cuidado, como quem faz um favor à etiqueta. Dava para ver no brilho dos olhos dele
que a comida era, sem dúvidas, uma das coisas boas daquele lugar.
— Desde quando o Leith Pierre virou fã dos Beatles? — ele perguntou, com um tom
meio incrédulo, balançando a cabeça ao ritmo de “Revolution” — Eu jurava que o gosto
musical dele girava em torno de jazz antigo e trilha sonora de comercial corporativo.
Stella soltou uma risada leve, inclinando o corpo para a frente, segurando a taça pela
haste com a delicadeza que só ela tinha.
— Ele provavelmente nem sabe que é Beatles, Eddie. Aposto que ouviu em algum filme
antigo e achou que era uma daquelas bandas “retrô chiques” pra impressionar os
investidores que sentem saudades dos anos 60.
— Retrô chique, é? Você fala como se não tivesse cantado “Here Comes the Sun” no
karaokê da Playtime em 2008.
— Ei! Aquilo foi uma homenagem cultural, tá? — Além do mais, aquela música é
impossível de cantar mal. Até o Fred Durst, com aquela voz de quem parece estar
engasgado com rola, conseguiria.
Eddie Ritterman deu uma risada alta e depois olhou em volta, envergonhado, para
garantir que ninguém havia percebido.
— Mas sério… é engraçado como essa banda ainda parece atual, sabe? Quase
sessenta anos depois e ainda toca em festas de gente que nasceu no século seguinte.
— É porque eles nunca foram só uma banda, Eddie. Eles eram tipo um divisor de águas
entre o que a música era e o que ela podia ser. Eles saíram do “yeah yeah yeah” pra
criar coisas como “Tomorrow Never Knows”. Quem mais fazia isso em 1960?
— Concordo, mas às vezes acho que o pessoal idolatra demais. Eles foram geniais,
com certeza, mas parece que todo mundo finge que só existia Beatles naquela época.
Cara, tinha o The Who, o Kinks, o Zeppelin surgindo, até o Cream quebrando tudo. E
todo mundo só fala de Lennon e McCartney como se fossem deuses.
Stella Greyber balançou a taça de champanhe em seus dedos, olhando para Ritterman
como se ele estivesse falando a maior besteira do mundo, só para provocá-lo.
— Vê se cala essa boca — disse ela, rindo. — Você acabou de comparar o Cream com
os Beatles. Eu deveria considerar isso heresia!
— A culpa não é minha se você não tem um gosto musical tão refinado quanto o meu…
— ele retrucou, de forma irônica, devolvendo o sorriso para a amiga.
“You say you got a real solution… Well, you know… We’d all love to see the
plan…”
Ela girou a taça entre os dedos, observando as bolhas subirem, e disse com
naturalidade ensaiada, a voz quase perdida entre as conversas e risadas do salão:
— Então… — começou ela, num tom que parecia apenas curioso — sobre o que você
e o Sawyer estavam conversando lá no fundo? Pareciam estar se dando bem demais
pra dois homens que mal se suportam.
Eddie soltou um suspiro disfarçado num riso curto.
— Isso. Disse que a Claire anda reclamando, que tem “coisas estranhas acontecendo”
com a menina, mas não entrou em detalhe nenhum. Disse só que “foi bem ruim”. Usou
exatamente essas palavras.
Ela manteve o olhar fixo na taça, mas a expressão dela mudou. Pequenos sinais de
tensão se formaram no rosto. O franzir quase imperceptível do cenho, o jeito que o lábio
inferior se curvou, inquieto.
— “Bem ruim”, vindo do Sawyer, pode significar qualquer coisa — disse Stella, quase
num murmúrio. — E ele mencionou isso com aquele tom frio dele?
— Harley Sawyer fala assim porque quer lembrar todo mundo de que ele é o adulto
civilizado na sala — disse Stella, num tom mais sério agora. — E o pior é que tem gente
que acredita nisso. O cara chegou em 98, e em menos de três anos virou indispensável.
Por um instante, o silêncio entre os dois pareceu mais pesado que o som da música. O
riff de guitarra voltou a preencher o ar, mas de um jeito estranho, como se o ritmo da
canção tivesse desacelerado por um momento, apenas o suficiente para deixar espaço
àquela sensação tênue de desconforto.
— Marie Payne — repetiu Stella, mais uma vez, agora num tom mais concentrado,
quase distraído. — Eu vou perguntar pra Claire sobre isso depois.
— Não acho que ele tenha inventado — disse Eddie. — Mas se ele comentou, é porque
quer que a gente saiba. Ele nunca fala nada por acaso.
— Eu sei — respondeu Stella, ainda olhando na direção de Sawyer, que ria de algo dito
por um executivo próximo ao bar. — E é exatamente por isso que isso me incomoda.
"But if you go carrying pictures of Chairman Mao… You ain't gonna make it with
anyone anyhow..."
E o “alright” ficou suspenso no ar, arrancado pela metade. O som morreu de súbito,
como se alguém tivesse arrancado o plugue da tomada. O silêncio posterior foi quase
violento, um vácuo que parecia engolir o murmúrio das conversas e o tilintar dos copos.
Stella arqueou uma sobrancelha, virando-se ligeiramente para Eddie, que soltou um
breve riso abafado.
— Isso foi… artístico demais pra ser coincidência, não acha? — ele disse, fingindo uma
seriedade irônica.
Eles trocaram um olhar curioso, e ela percebeu que não eram os únicos confusos. Aqui
e ali, executivos, técnicos e convidados olhavam uns para os outros, alguns dando
risadas, outros tentando entender o que tinha acontecido. O salão, com sua iluminação
amarelada e seu carpete espesso, parecia de repente menor, mais silencioso, mais
expectante.
Foi nesse instante que o palco ao centro do salão se acendeu com uma luz branda e
teatral. As cortinas vermelhas se moveram levemente, e uma figura surgiu no topo dos
degraus, subindo com passos lentos, porém decididos. O murmúrio coletivo cessou
quase imediatamente e uma onda de aplausos tomou o salão.
O homem, vestindo um paletó branco com padrões geométricos escuros, uma gravata
borboleta vermelha e um lenço no bolso do mesmo tom, ergueu os braços num gesto
acolhedor e confiante. O sorriso era aberto, encantador, ligeiramente performático. Seu
cabelo, bem penteado e engomado para trás, refletia a luz suave do palco. O bigode
fino, alinhado com precisão, acentuava o ar de apresentador clássico, alguém que
parecia ter nascido diante de um palco.
— Sempre tem que ser ele — respondeu Stella, embora houvesse um leve fascínio em
seu olhar.
Leith esperou o aplauso diminuir, inclinando-se levemente para frente com humildade
calculada. O microfone tilintou em sua mão quando ele o ajustou à altura da boca.
— Boa noite… boa noite a todos — disse ele, num tom cheio e seguro, sua voz ecoando
clara pelos alto-falantes. — Que maravilha ver todos vocês aqui.
Mas enquanto Leith agradecia a presença de todos, Stella ainda se sentia distante. A
voz dele chegava aos seus ouvidos, mas as palavras pareciam filtradas, ecoando de
longe.
“Marie Payne... foi bem ruim... Claire dramatizando demais…”, a conversa que acabara
de ter com Ritterman voltava a sua mente em fragmentos
Leith Pierre ergueu a mão, pedindo silêncio, e a voz dele soou forte, teatral, quase
encantatória:
— Muito obrigado. Uau. É... Olá a todos. É... Sabem, eu não sei se vocês se
perguntaram, tipo, “Quem é esse cara? Quem é esse palhaço?” — disse, inclinando-se
levemente sobre o microfone, deixando que o eco do salão o acompanhasse — Podem
me chamar de Leith Pierre, e sou o CEO da Playtime Co., além de organizador deste
belíssimo evento ao qual todos vocês se encontram presentes no momento.
Stella, por outro lado, observava tudo. Não apenas o que ele dizia, mas o modo como
os executivos riam em sincronia, como os garçons se imobilizaram discretamente nas
bordas do salão, e como Leith sustentava cada pausa como se medisse o poder da
própria respiração.
— Bem, deixe que eu me apresente melhor e conte para vocês mais de quem eu sou
— continuou, com o ritmo de um comediante experiente. — Como todo mundo, eu cresci
em grande parte graças à minha mãe. Se ela estivesse aqui hoje eu diria: “Ei, mamãe,
o que você está fazendo aqui? Você está morta há nove anos!”
— Mas, falando sério, vocês deveriam ter visto minha mãe. Ela era maravilhosa. Ah,
mas nós costumávamos brincar juntos, mamãe e eu, até que as lágrimas escorriam pelo
rosto dela... e ela vomitava!
“Ele sabe que as pessoas estão rindo do absurdo, não da graça.”, Stella pensou. “Ele
testa os limites. Quer ver quem se permite rir.”
— É, e quem limpava? — prosseguiu ele, com um riso breve. — Meu pai não. Ele
estava muito ocupado lá no O’Grady’s vomitando no dele. É. Na verdade, até eu ter
treze anos, eu achava que vomitar era um sinal de maturidade. Então, quando meu pai
me espancou até botar todo o almoço pra fora, eu pensei: “É isso”, eu pensei. “Consegui.
Finalmente sou um homem!”
— Mas, no final das contas, eu estava errado. Essa foi a única atenção que meu pai
me deu — continuou, agora em tom mais leve, gesticulando com as mãos. — É, ele
geralmente estava muito ocupado no parque jogando bola com minha irmã, Françoise.
Mas hoje, devo dizer, graças a essas muitas horas de treino, minha irmã Françoise se
tornou um excelente homem.
O coro de risadas voltou, mais solto. Eddie, dessa vez, esboçou um pequeno sorriso
verdadeiro, murmurando quase inaudível:
Stella apenas moveu os olhos em direção a ele, sem responder. Sua atenção
continuava em todos os pequenos detalhes que conseguisse captar.
Uma nova onda de risos. O público já o acompanhava de bom grado. Mas Stella,
observando-o, sentia o peso que existia sob o humor, como se cada frase fosse uma
faca escondida sob o pano colorido de um truque de circo.
Leith sorriu, recuando um passo, e então baixou o tom da voz, quase confidencial:
— Mas, sabem, meu único interesse de verdade, desde o começo, era show business.
Mesmo quando jovem, eu comecei no topo... colecionando autógrafos.
Alguns risos dispersos. Ele fez uma pausa longa, deixando o ar se condensar entre
uma frase e outra.
— Bem, eu sei que vocês pensam que estou brincando... mas, acreditem, essa por
muito tempo foi minha única ambição. E, pode-se dizer que eu o alcancei, de certa
forma.
As luzes, ainda focadas no palco, refletiam o brilho quase dourado no rosto de Leith
Pierre, que permanecia ali, imóvel, por um instante. Alguns riram, outros aplaudiram
achando que era o fim. Mas Leith ergueu a mão, pedindo calma, e inclinou-se
novamente para o microfone. O sorriso dele agora parecia mais sereno.
— Ah… essa frase — começou, a voz grave e modulada como a de um showman que
conhece o peso de cada pausa. — Essa bendita frase. Eu a repito desde criança e,
sabem de uma coisa? Acho que Elliot Ludwig teria adorado essa filosofia.
O nome fez o salão inteiro reagir com uma reverência súbita. O clima, por um segundo,
deixou de ser de comédia e virou quase religioso. Stella, atenta, percebeu como Eddie
Ritterman endireitou a postura.
— Elliot sempre dizia que o mundo era governado por dois tipos de pessoas: os que
criam e os que reclamam do que foi criado — prosseguiu Leith, com o mesmo tom
afável, estudado, que mais parecia ensaiado do que espontâneo. — Ele, claro, era o
primeiro tipo. E eu… bem, eu sou o segundo tipo que aprendeu a virar o primeiro.
Um riso leve ecoou entre as mesas. Leith sorriu, satisfeito com o controle que tinha da
plateia.
— Mas tenham paciência — ele continuou, erguendo o dedo. — Eu prometo que vale
a pena.
O salão silenciou. Ele andou lentamente até o centro do palco, a voz ecoando:
“Ele está recitando a história como um evangelho.”, Stella divagou. “E eles acreditam,
como se a felicidade fosse uma patente registrada.”
— E foi isso que ele fez — continuou Leith. — Ele não criou apenas brinquedos. Ele
criou refúgios. Criou pequenos portais para a esperança em um mundo que parecia ter
esquecido o que era sonhar. Bonecos, trens, bichinhos de pelúcia, robôs cantores e até
mesmo o projeto do orfanato…
— E então, um dia, esse homem me chamou em sua sala. Eu, Leith Pierre, o estagiário
que ainda escrevia relatórios com manchas de café e rabiscos de desenho. Ele me
olhou, com aquele olhar que parecia atravessar décadas, e disse: “Leith, o futuro não é
feito de brinquedos. É feito das crianças que ainda acreditam neles.” E, antes de morrer,
quase trinta anos atrás — prosseguiu ele —, ele teve a coragem, ou a insanidade,
dependendo do ponto de vista, de me nomear seu sucessor.
“Ele se pinta como herdeiro, como escolhido. Mas o que Elliot realmente viu nele?”,
Stella deixou esse pensamento retornar a sua mente. A verdade é que já haviam anos
que ela se questionava essa mesma coisa.
Um riso contido se espalhou. Stella viu Lisa sorrir com elegância na mesa dos
convidados especiais, erguendo a taça discretamente. As lindas mechas ruivas da
mulher brilhavam, refletindo a luz do salão.
— Desde 1994, quando eu assumi esta cadeira e, francamente, ainda não descobri
onde o Elliot guardava o manual de instruções dela, a Fazbear nos acompanhou, nos
orientou, e até nos vigiou um pouquinho demais, não é?
Risadas. Leith piscou para Lisa, teatralmente. O público respondeu com gargalhadas
suaves e confortáveis.
— Mas foi por amor, eu sei. Por compromisso. Por segurança… e talvez um pouco por
curiosidade científica.
Stella, porém, percebeu algo no tom dele. Um pequeno fio de veneno mascarado em
humor. Ele sempre fala brincando quando quer dizer algo sério.
— Brincadeiras à parte, Lisa — retomou —, a verdade é que sem sua ajuda, talvez a
Playtime não estivesse aqui hoje. Nós aprendemos muito com vocês e, convenhamos,
vocês também aprenderam uma ou duas coisinhas conosco.
Mas Stella notou como Eddie suspirou fundo, olhando para baixo, pensativo. Talvez
pela lembrança de quantas “coisinhas” haviam realmente sido trocadas entre as duas
empresas.
— Mas, antes que eu esteja chateando demais vocês com minha teatralidade, gostaria
de falar mais umas palavrinhas antes de encerrar.
— Talvez, sim, eu tenha sido rei por uma noite. Talvez Elliot tenha sido o mago que
acendeu a primeira chama.
A pausa foi longa. As luzes brilharam sobre o rosto dele. Ninguém ousava interromper.
O público explodiu em aplausos. Risos, taças erguendo-se, aplausos que pareciam não
terminar.
Eddie Ritterman endireitou a postura, batendo palmas. Stella observava Leith debaixo
do feixe de luz. O sorriso dele permanecia largo, quase triunfante, mas o olhar... o olhar
parecia distante.
“‘Vocês já sabem quem culpar’”, Stella Greyber analisou a frase. “Ele disse rindo. Mas
ninguém perguntou quem exatamente seria o culpado.”
A onda de aplausos continuou, sem ter um tempo previsto para cessar. Era como se o
tempo tivesse parado…
…
13 de janeiro de 2011
A manhã parecia feita de aço e vidro. Fria, sem alma. Seu rosto estava sendo iluminado
pelo tipo de luz que denuncia rachaduras nas paredes e olheiras nos rostos. E Stella
Greyber parecia feita para esse tipo de cenário.
Vestia um blazer grafite, justo no corpo, combinando com uma camisa de seda cobre,
daquelas que reluzem como uma cicatriz polida sob a lâmpada branca. O cabelo loiro,
alinhado, preso de forma apressada, mas intencional, moldava um semblante duro,
profissional, e ao mesmo tempo cansado. Os olhos azuis, carregando um traço de
insônia, miravam o vazio com frieza.
À frente de Stella, uma porta dupla de madeira impecável, lustrosa o bastante para
refletir a lâmpada de teto. Maçanetas douradas (ouro de verdade, pelo brilho) reluziam
como um convite para um tipo de inferno corporativo que só gente muito importante
atravessava. Nenhum som vinha de trás da porta. Nenhum.
Stella não estava mais em Salt Lake City. Havia deixado a cidade antes mesmo que o
sol do dia seguinte se instalasse por completo. Dirigiu a noite inteira, como quem foge
de um fantasma que insiste em sentar no banco do passageiro. Não havia planos, não
havia uma justificativa racional. Apenas uma necessidade muda, quase primitiva, de
seguir até Hurricane, a pequena cidade para onde Leith Pierre ia quando precisava
resolver coisas direcionadas especificamente a Fazbear Entertainment.
Em Salt Lake, ele estava em seu escritório na Playtime. Em Hurricane, ele estava em
seu escritório na Fazbear. Ele vivia em escritórios.
Ela estava de férias da Playtime Co., mas a palavra “férias” nunca lhe caiu bem. Soava
como uma mentira, uma farsa inventada pra gente fingir que ainda tem controle sobre o
próprio tempo.
A verdade era que ela não sabia o que buscava. Talvez quisesse confrontar Pierre,
talvez só confirmar algo que a incomodava desde que o viu naquela festa. E agora, ali
estava ela, sentada na recepção impecável de uma empresa que cheirava a verniz e
culpa corporativa. Tudo limpo demais, polido demais, como se cada centímetro de
mármore branco tivesse sido lavado para esconder o sangue invisível de uma geração
de funcionários descartáveis.
Leith Pierre era um homem de trânsito constante. Ele vivia entre aviões e estradas,
entre reuniões e vozes gravadas em fitas. Nunca estava em um só lugar tempo
suficiente para ser pego. Mas Stella sabia que naquela manhã ele estava ali, atrás
daquela porta dupla de madeira, e isso era tudo que ela precisava.
Ela precisava tirar uma dúvida que a estava atormentando desde a noite anterior.
Do outro lado do balcão da recepção, o recepcionista. Era um rapaz jovem, magro
demais pro terno que usava. Cabelos escuros penteados com um excesso de gel que
parecia uma armadura, olheiras fundas demais pra alguém daquela idade. Lendo um
jornal, sem interesse, com indiferença.
O crachá dizia “Clarence”, mas o olhar dizia “tô aqui porque preciso, não porque quero”.
Ele virou uma página do jornal, sem olhar pra Stella.
Stella cruzou as pernas, olhou pro relógio mais uma vez e quebrou o silêncio:
— Pedi pra avisar o senhor Pierre que eu cheguei — disse, com uma calma que parecia
cortante. — E eu pedi isso a dez minutos atrás…
Ela arqueou uma sobrancelha, avaliando o rapaz. Ele voltou pro jornal como se a
conversa tivesse acabado, e talvez tivesse.
— Tempo suficiente pra não querer ser interrompido. — murmurou o recepcionista, sem
levantar a cabeça.
Ela olhou pra porta dourada outra vez. Cada minuto ali parecia uma provocação. Stella
não sabia bem o que estava fazendo naquele prédio, naquela cidade. Só sabia que não
ia embora sem olhar Leith Pierre nos olhos.
O relógio na parede parecia zombar de Stella a cada tique. Dez minutos esperando,
mas, para ela, soavam como uma eternidade de segundos empilhados, um sobre o
outro, sufocando o ar. O silêncio da recepção era limpo, clínico, quase asséptico demais.
Tudo ali parecia montado para parecer vivo, mas faltava pulsação. O brilho do chão de
mármore refletia as luzes brancas como se o lugar tivesse sido desenhado para cegar
quem ousasse olhar por muito tempo.
Leith Pierre surgiu dali como um fantasma de terno caro. O rosto, o mesmo rosto que
parecia esculpido em arrogância e carisma, trazia uma expressão emburrada, de quem
não dormia direito há dias. O cabelo loiro estava perfeitamente penteado, como se o
caos nunca o tivesse tocado, e seu bigode permanecia alinhado de forma que esbanjava
cuidado. A gravata era impecável, o terno cinza marcava os ombros largos e o tecido
cintilava discretamente sob a luz fria do ambiente.
Por um instante, ele parecia o retrato de um homem cansado demais pra fingir simpatia.
Mas, em questão de segundos, o semblante mudou. O cenho franzido se abriu em um
sorriso radiante, teatral, branco demais para ser honesto.
— Stella Greyber — disse ele, com a voz carregada de um entusiasmo que não
combinava com os olhos. — Ora, ora... o que uma dama como você faz em Hurricane?
— Sr. Pierre… — respondeu, firme, como quem tenta se lembrar de que ainda trabalha
para ele.
— Me chame de Leith. Por favor, já somos velhos conhecidos o bastante para pular as
formalidades, não acha?
Ele virou o rosto para Clarence, com aquele mesmo carisma afiado que usava como
lâmina.
— Bom dia, Clarence! Espero que esteja sobrevivendo a mais um dia neste mausoléu.
O recepcionista apenas levantou o olhar, murmurou algo entre dentes e voltou ao jornal.
Leith não se incomodou. Parecia se divertir com o desinteresse do rapaz.
— Agora, me diga, Stella... — ele retomou, voltando a fitar a mulher diante de si. —
Não deveria estar em Salt Lake? Lá na fábrica. Você é quem está gerenciando a
Playcare, certo? O orfanato. Achei que ainda estivesse com as crianças. Ou será que
fugi de alguma reunião sem saber?
— O senhor — ela corrigiu, com uma leve ênfase — me deu duas semanas de férias,
lembra? Disse que eu precisava esfriar a cabeça. Thomas Clarke está cuidando do
departamento enquanto estou fora. Foi uma decisão sua, Leith.
— Ah... claro! Claro. Como pude me esquecer disso? Foi... uma decisão sábia, não?
— riu, mas os olhos não acompanhavam o som. — Às vezes me esqueço de que ainda
sei fazer algo certo.
Stella apenas o observava. Havia algo ali. Uma hesitação, um lampejo. Ele não
lembrava. Não fazia a menor ideia do que ela estava falando.
Leith então voltou-se novamente a Clarence, como se o diálogo anterior não tivesse
peso algum.
— Clarence, seja um cavalheiro e sirva uma xícara de chá para a senhorita Greyber,
sim? Deixe-a confortável. Ela viajou muito para vir até aqui.
Stella percebeu o tédio em cada gesto dele. O jeito como o açúcar era colocado sem
precisão, o som abafado da colher batendo na porcelana. Quando ele estendeu a xícara,
o fez com uma displicência quase insolente.
Ela seguiu o homem. O salto dos sapatos ecoava no mármore, um som solitário que
preenchia o vazio entre eles. Ao cruzar o umbral do escritório, sentiu o ar mudar. Mais
frio. Mais pesado. Fechou as portas atrás de si, tocando as maçanetas douradas com
cuidado, como se tivessem algum segredo gravado nelas.
E talvez tivesse.
O escritório de Leith Pierre era um daqueles ambientes que pareciam existir apenas
para impressionar.
As paredes eram revestidas de painéis de madeira escura, tão polida que refletia a luz
amarelada dos lustres com um brilho quase dourado. As estantes tomavam todo o fundo
da sala, repletas de livros de lombadas grossas e gastas, misturados a miniaturas
antigas, garrafas de vidro com líquidos coloridos, fotografias emolduradas e prêmios
que denunciavam uma carreira construída tanto na competência quanto no ego.
O carpete era espesso, de cor bege, abafando cada passo, um contraste direto com a
frieza do mármore da recepção. Havia também um leve aroma de madeira envelhecida
e chá recém-feito, uma combinação que fazia o ambiente parecer mais íntimo, mas
também mais fechado, como se cada partícula de ar ali carregasse décadas de
segredos corporativos.
Mas Stella sabia que, por trás daquela fachada impecável, existia um caos que
nenhuma estante alinhada podia esconder. Leith colecionava vícios com a mesma
devoção com que alinhava seus papéis. Bebidas fortes que queimavam mais do que
deveriam. Drogas que ele garantia “não usar mais”, mas que sempre pareciam encontrar
caminho até ele. Prostitutas cujos nomes ele nunca decorava, mas cujas presenças
eram constantes. E, acima de tudo, Leith era viciado no que não podia tocar de verdade:
dinheiro e poder.
Leith se sentou lentamente em sua cadeira, inclinando-se para frente com os cotovelos
apoiados na mesa. O brilho do lustre refletia sobre o anel prateado em seu dedo, e seus
olhos analisavam Stella como se ela fosse mais um relatório que precisava ser
decifrado.
Stella acomodou-se na poltrona diante dele, ainda segurando a xícara de chá que
Clarence havia preparado com tanta má vontade. Por um instante, ela não disse nada,
apenas o observou, tentando reconhecer naquele homem o mesmo que havia
discursado na noite anterior.
— Antes de qualquer coisa... — começou ela, com um tom contido, — eu queria dizer
que o discurso que você fez ontem foi incrível. Realmente tocante.
Leith ficou em silêncio por um breve segundo. O olhar dele se fixou em Stella, neutro.
Depois, como se algo o divertisse, um sorriso atravessou seu rosto. Um sorriso largo,
falso e radiante.
— Sério? Você acha que eles acreditaram? — perguntou, com um tom de ironia quase
teatral.
Leith soltou uma risada breve, abafada. Apoiou as costas no encosto e cruzou as mãos
sobre o peito.
— Oh, Stella... então você também acreditou — Ele balançou a cabeça, ainda rindo. —
Não leve a mal, mas... nem tudo o que eu disse naquele discurso era exatamente o que
eu penso. A história da minha infância? Verdadeira, sim. Mas, sentimental? Nem um
pouco. Eu aprendi há muito tempo que, para conquistar uma plateia, você precisa dar a
eles o que querem sentir e não o que você realmente sente.
Stella o olhou com uma expressão mista de espanto e incômodo, enquanto ele
continuava seu monólogo com naturalidade inquietante.
— As pessoas são movidas por emoção, Stella. Elas querem chorar, sorrir, se inspirar.
E tudo o que você precisa fazer é lhes entregar um bom espetáculo. O segredo é
simples: nunca sentir de verdade. Apenas parecer. E, se sentir mesmo... — ele deu um
sorriso enviesado — exagere. Transforme em performance. Assim, você conquista
qualquer um.
Ele parou por um instante, respirou fundo e soltou uma última risada, mais baixa.
Depois, inclinou-se levemente para frente, apoiando os antebraços sobre a mesa
novamente.
— Mas eu duvido que você tenha vindo até aqui só para elogiar minha performance,
não é mesmo? — disse, com o olhar fixo nela, o sorriso agora quase desaparecido. —
Então, me diga... o que realmente te trouxe até aqui?
Stella se recompôs, absorvendo tudo o que Leith acabara de dizer. O riso dele ainda
parecia ecoar pelas paredes do escritório, misturando-se ao som abafado da respiração
dela.
Ela levou a xícara aos lábios e tomou um gole do chá já morno, tentando mascarar o
desconforto que lhe corroía por dentro. Quando pousou a xícara na mesa, sua voz saiu
baixa, mas firme:
Stella sustentou o olhar, esboçando um leve sorriso que não chegava aos olhos.
— Não envolve isso — Ela pausou, pensativa. — Mas foi interessante saber disso.
O silêncio se estendeu. Leith esperava, curioso. Stella parecia pesar cada palavra,
como se tivesse medo de que qualquer frase errada desmontasse a estrutura frágil que
ainda mantinha entre os dois. Até que ela soltou o ar e começou:
— Ontem, na festa... o Eddie me contou algo. Disse que o Harley vinha recebendo
constantes reclamações da Claire Harper sobre uma garota da Playcare. Uma menina
chamada Marie Payne — Ela fez uma pausa, observando se o nome provocava alguma
reação em Leith. Ele permaneceu impassível. — Eu fiquei com isso na cabeça. Logo
depois que a festa acabou, liguei pra Claire pra confirmar. E ela confirmou.
— Claire disse que a garota vinha tendo pesadelos há semanas. Pesadelos violentos.
Harper achava que tinha a ver com uns meninos do orfanato, que a estavam
intimidando. Chegou a manter a menina em uma maca, pra evitar que se machucasse
— A voz de Stella tremia, mas ela manteve o tom firme. — Mas, há poucos dias, Marie
teve outro episódio. Pior. E foi logo depois da administração da Fumaça Vermelha...
aquela substância usada pra adormecer as crianças. Ela acordou em pânico, falando
de um monstro incolor, paranoica, com os olhos dilatados, os lábios trêmulos. Claire
disse que, quando tocou na mão da garota, sentiu como se o sangue dela estivesse
fervendo sob a pele.
Leith não disse nada. Apenas a observava, os dedos tamborilando levemente sobre a
madeira.
O silêncio que se instalou depois foi quase sufocante. O som distante do relógio parecia
mais alto. Stella manteve o olhar fixo nele, e pela primeira vez, percebeu um pequeno
desconforto cruzar o semblante impecável de Leith Pierre.
— Nós entramos nisso acreditando que estávamos criando algo bom — Ela continuou,
mais baixo. — Que o nosso trabalho na fábrica era pra oferecer uma infância melhor,
pra manter viva a inocência. Quando você me mostrou seus planos, eu aceitei, porque
pensei que havia uma justificativa. Que tudo isso tinha um propósito maior — Ela fez
uma pausa longa, o olhar vazio. — Mas agora... eu só vejo o que restou. Eu não consigo
mais acreditar que isso é o que eu pensei que era.
Leith ficou imóvel. A mão dele parou de se mover. Por um instante, parecia até
vulnerável ou talvez irritado por ter sido pego de surpresa.
A voz dele não carregava raiva, mas também não havia nela qualquer vestígio de
empatia. Stella sentiu as pernas tremerem sob a mesa. O coração batia no mesmo ritmo
do ponteiro do relógio pendurado na parede. Demorou alguns segundos para conseguir
responder, com um fio de voz:
— Não.
Ele ficou em silêncio por um instante, como se ponderasse sobre o que dizer a seguir.
Quando falou, sua voz estava diferente. Não havia mais sarcasmo.
— Veja, Stella… nenhum ato humano é, em essência, moral ou imoral. O valor das
coisas se dissolve no instante em que a intenção e o resultado se colidem. A existência
é uma construção ilusória, moldada pela ânsia e pelo tédio. A moral é só uma invenção
dos fracos pra conter o impulso natural dos que enxergam mais longe. O homem é uma
criatura que se alimenta do vazio. Ele deseja, alcança e logo despreza o que tem. Isso
o torna previsível, manipulável...
As palavras pairaram no ar, densas e letais. Stella o encarava em silêncio, sem piscar.
Ele prosseguiu:
— Não há forma de alcançar fins nobres sendo totalmente honesto. O mundo não foi
moldado assim. Até os objetivos mais altruístas exigem alguns atos monstruosos. É a
natureza das coisas. Ou você realmente acha que Wesley Dodds ficou milionário
apenas com suas invenções? Tudo o que fizemos, cada Experimento, cada projeto, é
apenas a consequência lógica de um sistema que sempre devora seus próprios filhos.
Você sabe disso, Stella. Nós só damos forma ao inevitável.
— É claro que quero lucros, Stella. Sou um homem de negócios. A inovação move o
mundo. Mas é essa inovação que mantém todos vivos. Com ela, transformamos o
impossível em cotidiano. Sem ela, tudo volta a apodrecer. O mundo não é sustentado
pela bondade, e sim pelo medo. E o medo, minha cara, é o melhor combustível que
existe.
— E a que custo? — ela rebateu, a voz firme. — Quantas Marie Payne mais você
precisa pra chamar isso de progresso?
Leith cruzou as mãos sobre a mesa, o sorriso apagado, e respondeu num tom quase
murmurante:
E então, Stella desabou em lágrimas. Ela chorou até ficar vermelha, os ombros
sacudindo em soluços contidos.
Leith se levantou de sua cadeira, foi até ela e a abraçou. Um gesto quase mecânico,
mas surpreendentemente humano. Ele a envolveu com os braços, oferecendo o tipo de
consolo que há muito não acreditava existir.
— Eu não aguento mais, Leith… — soluçou. — Eu olho pra tudo isso e não vejo
propósito nenhum. Só vejo dor. Vejo vidas destruídas, pessoas sendo apagadas como
se fossem nada. E você… você fala dessas coisas como se fossem inevitáveis, mas
não são! Nós poderíamos ter feito diferente! Poderíamos ter parado antes de tudo isso
fugir do controle! — ela inspirou com força, tentando conter o choro. — Eu acreditei em
você, Leith. Acreditei que havia um motivo, que valia a pena continuar, mesmo com toda
a culpa… mas agora eu só quero acreditar que ainda tem algo de bom no que estamos
fazendo.
Leith não rebateu. Apenas a manteve em seus braços, em silêncio. Murmurou poucas
palavras, baixas o suficiente para se perderem entre os soluços dela:
— Prometa pra mim… — ela pediu, quase num sussurro. — Prometa que estamos
realmente tentando fazer algo de bom. Que nada disso vai ser em vão.
Leith hesitou por um instante. Depois, inclinou-se e beijou-lhe a testa, com a serenidade
estudada de quem sabe exatamente o que dizer.
— Eu prometo, Stella. Nada disso será em vão. Ainda faremos coisas extraordinárias.
Coisas que encherão as crianças do mundo de alegria.
Stella percebeu. Sentiu o vazio nas palavras dele, o gosto metálico da falsidade. Mas,
dessa vez, ela se deixou enganar. Fingiria acreditar. Porque, naquele momento, a
mentira era o único consolo que restava.
CAPÍTULO 16
6 de janeiro de 2025
Atualmente.
Edward Finch ainda sentia o cheiro do sangue impregnado em sua pele quando
começou a descer os degraus da escadaria. O eco de cada passo reverberava nas
paredes coloridas, distorcendo-se até soar como batidas de um tambor distante, ou
talvez, como o próprio coração dele, insistindo em continuar batendo.
Edward passou a mão sobre um dos rabiscos, sentindo sob os dedos a textura áspera
da tinta descascada. Era como se as paredes estivessem se decompondo junto com os
brinquedos da fábrica. Mais à frente, o som de um motor elétrico fraco e zumbidos
longínquos se misturavam ao chiado de um ventilador antigo.
O corredor terminava em uma porta de correr feita de alumínio, menor do que ele
esperava. Parecia ter sido projetada para uma criança passar, não um adulto. Na
verdade, isso fazia bem mais sentido.
A alavanca ao lado da porta estava coberta de poeira e enferrujada nas bordas. Edward
a puxou, e um ruído agudo de engrenagens se espalhou pelo corredor. A porta começou
a deslizar lentamente, soltando faíscas intermitentes enquanto se abria. O som ecoava
de maneira incômoda, cortando o silêncio como um grito metálico.
Edward não esperou que ela abrisse por completo. Inclinou o corpo e passou pela
estreita fresta, tomando cuidado para que o GrabPack e sua jaqueta não ficassem
presos entre as bordas.
Assim que atravessou, o chão cedeu levemente sob suas botas, quase o fazendo
perder o equilíbrio. Ele olhou para baixo e percebeu que o solo estava coberto de areia.
O chão todo era coberto por camadas densas e irregulares de areia que se espalhavam
por todo o cômodo. A cada passo, sentia o peso das botas afundando e a textura fina
se infiltrando pelas fendas do solado.
Levantou o olhar e analisou o ambiente. A sala era pequena. Muito menor do que a do
“Memória Musical”. As paredes estavam pintadas com cores vibrantes: azul, verde,
amarelo e laranja, compondo desenhos estilizados de tratores, guindastes e
escavadeiras infantis. Em contraste com a aparência alegre, o ar ali era abafado,
pesado, quase claustrofóbico.
A iluminação vinha de uma única lâmpada fluorescente pendurada no teto, cujo brilho
vacilante lançava reflexos pálidos sobre os montes de areia. O chão irregular e as
sombras nas laterais criavam a ilusão de movimento, como se algo se escondesse sob
a superfície.
Na parede oposta ele pôde perceber uma grade de um duto de ventilação que estava
fechada, mas poderia lhe servir quando quisesse fugir. Acima dela, um conjunto de
tubos circulares saía da parede, abertos e escurecidos, com diâmetros grandes o
bastante para alguém passar por dentro. Eram onze aberturas no total, dispostas de
maneira irregular, como uma colmeia mecânica. Edward se aproximou e pôde ver que
o interior dos tubos mergulhava em escuridão total. Nenhum som vinha de dentro deles,
mas o instinto o fez recuar um passo.
O silêncio que dominava o lugar era enganador. Denso demais, esperando apenas o
primeiro movimento para se romper. Edward passou a língua nos lábios ressecados e
soltou o ar lentamente.
Talvez tivesse que cavar algo sob a areia. Ou talvez tivesse que atravessar os tubos.
Nenhuma hipótese parecia segura. Mas antes que pudesse concluir qualquer raciocínio,
ouviu o estalo pesado da porta atrás dele se fechando sozinha, fazendo o eco se
propagar por toda a sala. O som reverberou como um golpe final. O frio subiu-lhe pela
espinha.
O som suave, quase musical, rompeu o silêncio como uma agulha atravessando tecido:
Acima dele, encaixada dentro de uma cabine de observação suspensa, uma luz fria e
branca delineava a silhueta longilínea e contorcida de Mommy Long Legs. A cabine,
envidraçada e parcialmente coberta por poeira, deixava entrever os cabos e tubos que
serpenteavam pelo teto, desaparecendo nas sombras. O vidro refletia o brilho pálido da
lâmpada fluorescente, e por trás dele, a aranha-rosa se movia com lentidão teatral, seus
braços se apoiando no parapeito de metal como se estivesse entediada. Ou pior,
divertida.
— Ah, não precisa se assustar, meu bem... — disse ela com doçura forçada, as sílabas
dançando entre risadinhas abafadas. — Já deveria estar acostumado a me ver aqui,
não é?
— Não.
Mommy Long Legs piscou lentamente, mas não pareceu se ofender. Ao contrário, deu
uma risada fina.
— Ah, você é tão engraçado quando tenta parecer bravo... — provocou ela, apoiando
o queixo sobre uma das mãos elásticas. — Mas não tem problema. Vamos ao que
interessa, está bem?
Ela endireitou o corpo, e o tom de sua voz se alterou. Continuava doce, mas carregava
algo mais frio, algo clínico, como uma enfermeira explicando a um paciente o
procedimento de sua própria execução.
— Meu bem, tem algo de muito importante que seria bom que você soubesse... —
começou, passeando lentamente o dedo indicador pela beirada da cabine. — Os
brinquedos neste desafio costumavam ter cordas anexadas em suas costas, para que
pudessem ser puxados de volta para suas tocas quando chegassem perto demais de
uma criança. Uma medida de segurança, sabe?
— Mas você consegue imaginar isso? Ficar por tantos anos com uma corda presa em
suas costas? Uma vida inteira amarrado, limitado, puxado para trás sempre que se
aproxima de alguém? É muito triste...
— Por esse motivo, decidi fazer uma boa ação e retirar esse fardo deles. Agora, eles
podem se mover livremente e perfurar sua artéria aorta com seus dentinhos pequeninos
— Uma risada leve escapou, ecoando pela sala. — Não é demais?
— Ah, sim, onde estão os meus modos... Eu quase esqueci de te explicar como esse
joguinho funciona! — A voz dela agora soava caricatural, teatral, como uma
apresentadora de programa infantil — De cada uma dessas onze aberturas que o
cercam, alguns pequeninos Huggy Wuggys vão sair. Essa é a casinha deles, e eles
estão famintos…
— Eles são pequenos, mas não se engane! Essas miniaturas coloridas fazem um belo
estrago na sua carinha se tiverem vontade. Você deve usar as mãos do seu GrabPack
para atingir os Huggy Wuggys assim que eles saírem dos tubos. Acertá-los faz com que
recuem. Mas tome cuidado... alguns não vão ficar quietinhos nas tocas. Vão tentar se
aproximar de você... e atacar.
O sorriso sumiu por um breve instante, e sua voz caiu para um tom mais grave, quase
sussurrado:
— Eles geralmente emitem um rosnado antes de atacar... você vai ouvir. Quando isso
acontecer, vire-se rápido. Acerte-os. E empurre-os de volta... antes que cheguem perto
o bastante e...
— Bem, acho que já deixei bem claro o que eles vão fazer com você caso isso aconteça.
— Ótimo! Agora tudo ficou bem explicativo, não é? Estarei aqui em cima, me divertindo
enquanto vejo você lutar desesperadamente pela sua vida, meu bem.
Ela piscou, inclinando o rosto com graça infantil, antes de desaparecer lentamente para
trás do vidro, deixando apenas o reflexo tremulante da luz e o som distante de sua risada
se dissipando no ar pesado.
Então, com um estalo úmido e rápido, uma pequena criatura saltou para fora,
aterrissando de quatro no chão antes de se erguer em dois pés. Edward instintivamente
deu um passo para trás, o sangue gelando nas veias ao encarar aquilo.
A criatura tinha proporções quase infantis, menor até mesmo que Poppy. Sua pelúcia
era de um amarelo queimado, desgastado, manchado por pequenas crostas escuras
que denunciavam anos de abandono e sujeira. A luz tremulante da sala refletia em sua
pelagem oleosa, fazendo-a parecer viva, pulsante, como se houvesse algo rastejando
sob os fios do pelo. Os olhos, redondos e reluzentes, eram grandes demais para o rosto,
vidrados e inchados de uma expressão faminta e irracional.
Mas o que mais chamava atenção era a boca. Larga demais, rasgando quase até as
laterais da cabeça, preenchida com fileiras de dentes reais, pontiagudos e disformes,
incrustados em uma gengiva avermelhada e viva. Entre os dentes, a saliva escorria em
fios finos e pegajosos, misturada a resquícios de algo que Edward preferiu não
identificar.
Era desconfortável olhar para aquilo. Ele ainda não se acostumou ao fato de que esses
brinquedos tinham partes orgânicas. Ossos, músculos, carne…
Era uma abominação viva, o resultado de experimentos que ele precisava entender a
qualquer custo. A Playtime Co. escondia algo, algo que corrompia não só a máquina,
mas o próprio conceito de vida. E Edward sabia que não conseguiria viver sem descobrir
a verdade.
O Mini Huggy cambaleou, virou-se bruscamente e correu de volta para dentro do tubo,
desaparecendo na escuridão.
Por um breve momento, Edward acreditou que poderia lidar com aquilo. Os sons
ecoavam de vários tubos, mas em ritmo espaçado, permitindo-lhe reagir a tempo. Um
Mini Huggy turquesa saiu de um buraco à esquerda, com o pelo sujo e os olhos girando
em frenesi. Edward o acertou no instante em que a criatura colocou as mãos no chão,
mandando-a de volta para a toca com um estalo molhado. Outro, dessa vez vermelho,
surgiu logo em seguida, correndo em zigue-zague, os dentes reluzindo sob a luz fria,
mas também foi repelido com um golpe certeiro da mão azul do GrabPack.
Um Mini Huggy roxo emergiu de um buraco alto, quase acima da cabeça de Edward;
ele teve de mirar rápido e atirar a mão extensora com força, atingindo o monstro e o
fazendo voar de volta com um grito distorcido.
Apesar do medo crescente, Edward começava a perceber o padrão. Era como um jogo
de parque, um “bata nas toupeiras” macabro.
O ritmo era intenso, mas Edward dominava a situação. Seus olhos se moviam
rapidamente, e cada disparo do GrabPack parecia calculado, quase instintivo.
Cada segundo era uma dança de reflexos. Ele girava o corpo, golpeava, recuava. A
areia cedia sob seus pés, dificultando os movimentos, tornando o equilíbrio uma batalha
constante. Um Mini Huggy verde quase escapou, mas Edward conseguiu atingi-lo no
exato instante em que sua cabeça emergia, o fazendo se retrair com um grito curto e
metálico.
Por alguns instantes, a sala pareceu entrar em uma breve calmaria. O som das
respirações abafadas e dos arranhões cessou. Edward aproveitou para girar
lentamente, vasculhando o ambiente com os olhos e com o GrabPack erguido, as duas
mãos extensíveis prontas para disparar a qualquer segundo.
O silêncio o deixava ainda mais desconfortável. Ele já tinha aprendido o suficiente sobre
aquele lugar para saber que, quando o silêncio vinha, era porque algo pior estava
prestes a acontecer.
E então veio o primeiro som. Um estalo duplo, como se duas tampas metálicas tivessem
sido abertas simultaneamente. Dois tubos à sua esquerda começaram a vibrar, e o som
de múltiplos passos pequenos ecoou dentro deles. Não era um único Mini Huggy… eram
vários.
O laranja veio logo em seguida, os dentes brilhando como navalhas; Edward não teve
tempo de mirar com precisão e apenas disparou a mão azul. A mão atingiu o lado do
rosto do pequeno monstro, arrancando um pedaço da bochecha e o jogando contra o
Mini Huggy cinza, que cambaleou para trás e recuou gritando.
Antes que pudesse respirar, outro tubo, do lado oposto da sala, vibrou violentamente.
Quatro criaturas saíram ao mesmo tempo — vermelho, verde, branco e preto. O
contraste das cores fazia o movimento parecer um pesadelo cromático. Os olhos dos
bichos brilhavam em direções diferentes, e seus corpos magros se contorciam com
frenesi. Edward disparou contra o vermelho, o golpe acertando a mandíbula e o fazendo
recuar num soluço grotesco.
O branco foi o próximo, pulando em direção a ele com um chiado gutural. Edward sentiu
o ar cortar quando desviou para o lado e usou o movimento do corpo para ganhar
impulso, lançando a mão verde direto na lateral do pescoço da criatura. O impacto ecoou
na sala, e o pequeno Huggy foi projetado para trás, caindo em silêncio.
O preto ficou para trás, observando-o. Seus olhos não tinham brilho, apenas duas
esferas de puro vazio. Edward sentiu algo diferente naquela criatura: ela não parecia
agir por instinto, mas com um tipo de curiosidade perversa. Quando finalmente a atingiu,
o golpe não gerou um grito nem um recuo; o Mini Huggy simplesmente tombou, olhando
para ele até desaparecer novamente dentro do tubo.
O som dos tubos voltou a crescer, agora todos vibravam. Onze buracos ao redor dele,
pulsando como feridas vivas nas paredes coloridas. Edward percebeu que o jogo estava
mudando: o desafio deixava de ser reação e passava a ser sobrevivência pura.
Edward já não conseguia distinguir qual vinha de onde, apenas reagia, como um animal
acuado, com os olhos saltando de um ponto a outro.
Seu braço direito tremia, e ele mal percebia que estava respirando pela boca, arfando
entre um golpe e outro.
Um Mini Huggy roxo quase conseguiu sair completamente de seu tubo, as garras já
rasgando a areia perto do pé de Edward, quando ele disparou a mão azul e o atingiu
com tanta força que o corpo do monstro voou de volta, quebrando parte da borda
metálica do túnel.
Ele só teve tempo de erguer o braço, e a pequena criatura se chocou contra o antebraço
metálico do GrabPack, rosnando e tentando morder o ar. Edward o empurrou com um
chute violento, lançando-o para trás, e aproveitou a brecha para golpeá-lo com a mão
verde.
O ar parecia vibrar dentro da sala. Os tubos tremiam como órgãos vivos, cuspindo som
e poeira, e o calor que saía deles fazia a areia ondular, como se o chão respirasse.
Edward mal sentia as pernas. Seu corpo se movia por puro reflexo, os braços
disparando o GrabPack sem cessar, golpe após golpe, tentando impedir que as
pequenas criaturas alcançassem o chão.
Três Mini Huggys pularam juntos de um dos tubos à frente. Um ciano, um amarelo e
um roxo. Edward atingiu o ciano no meio do salto, e o pequeno corpo rodopiou no ar,
espirrando algo que parecia sangue e tinta. Mas o amarelo caiu na areia, rolando como
um animal selvagem. Ele tentou golpeá-lo, mas o roxo já estava vindo por baixo, rápido,
deslizando com os braços abertos e a boca escancarada.
Edward o chutou com força, o som de dentes quebrando encheu o ar. A mão verde de
seu GrabPack disparou logo em seguida, esmagando o amarelo contra o tubo.
Quatro tubos explodiram em uníssono. Cinco Mini Huggys saíram ao mesmo tempo.
Edward mirou, disparou, atingiu dois no peito, mas outros três já estavam rastejando
em sua direção. A areia se movia sob eles como uma maré viva. Ele tentou recuar, mas
um deles, um vermelho com os olhos virados ao contrário, pulou direto em seu peito. O
impacto o jogou para trás, e ele caiu de costas, o ar escapando dos pulmões. O Mini
Huggy guinchava alto, as garras arranhando o metal do GrabPack enquanto tentava
morder seu rosto.
Edward gritou, empurrou o monstro com a mão esquerda e, num reflexo puro, clicando
no gatilho do GrabPack. A mão azul atingiu o pequeno torso e o arremessou contra a
parede, o som de ossos e engrenagens se misturando ao impacto.
Mas o segundo já estava sobre ele. Um Mini Huggy verde caiu de lado, arranhando o
braço de Edward com unhas afiadas que rasgaram o tecido da jaqueta e deixaram um
corte ardente na pele. Ele soltou um rugido, rolou para o lado e disparou o GrabPack a
queima-roupa, acertando a cabeça da criatura e espalhando um jorro quente de líquido
preto pela areia.
Mais quatro Mini Huggys emergiram. As cores vibravam sob a luz pulsante, quase
cegando. Um branco com manchas vermelhas saltou alto demais e caiu sobre suas
costas, cravando as garras nas omoplatas.
Edward arqueou o corpo, gritando, o calor do sangue escorrendo por baixo da camisa.
O monstro rugia direto no ouvido dele, um som infantil deformado por algo grotesco. Ele
cambaleou, bateu o corpo contra a parede, uma, duas vezes, até ouvir o estalo surdo
de algo quebrando. O Mini Huggy caiu, guinchando, e Edward o acertou no chão com a
mão verde, esmagando o pequeno corpo até ele parar de se mover.
O chão agora estava coberto de manchas. Areia misturada a sangue, graxa e fios de
pelúcia rasgados.
Os tubos continuavam cuspindo mais. Era uma enxurrada. Cinco, seis, sete saindo de
uma vez. Alguns se batiam entre si, outros corriam diretamente para ele, abrindo as
bocas em um coro de risadas infantis.
Edward girava, disparava, recuava, errava por milímetros. Um Mini Huggy laranja
mordeu seu tornozelo, os dentes atravessando o tecido e fincando na carne. Ele gritou
e chutou com força, lançando a criatura para cima e disparando a mão azul.
Edward sentiu um arrepio percorrer a espinha, mas não havia tempo para pensar. Mais
Mini Huggys estavam vindo, agora em bandos.
Dois saltaram sobre ele ao mesmo tempo. Um agarrou seu ombro, o outro seu braço.
Os dentes cravaram na pele e o som do rasgo o fez soltar um gemido de dor. Ele girou
o corpo com violência, acertando ambos contra a parede metálica e, em seguida,
disparando ambas as mãos do GrabPack com força total.
Respirando com dificuldade, Edward ergueu o olhar novamente para o vidro. Mommy
continuava ali. E, por um segundo, ele teve a impressão de que ela batia palmas. Lenta
e silenciosamente. Apenas movendo os braços longos, com o sorriso fixo, satisfeita.
Mais sons vieram. Os tubos vibraram novamente. Edward apertou os punhos. A dor
pulsava em cada músculo, mas o olhar dele estava firme agora.
Ele entendeu o que aquela “prova” significava. Mommy não queria matá-lo de imediato.
Ela queria vê-lo resistir. Queria ver até onde um ser humano poderia ir antes de quebrar.
Um Mini Huggy roxo saltou por cima de outro e caiu quase em cima dele, os braços
longos o cercando, a boca a centímetros de sua garganta. Edward recuou, girou o
GrabPack e o acertou lateralmente. O pequeno corpo foi arremessado de volta contra o
tubo, sumindo na escuridão.
Outro, cinza, tentou agarrar sua perna, mas Edward já havia aprendido a reconhecer o
som dos passos deles. Ele disparou antes que a criatura tocasse o chão, mandando-a
de volta com um soco no centro do rosto.
Edward travou. O som veio dos alto-falantes, ecoando por toda a sala. Era Mommy
Long Legs, de novo.
— Olha só pra você, humano... suado, machucado, com essa cara de quem já se
arrependeu de ter acordado hoje.
Edward cerrou o maxilar, mirando outro tubo e disparando a mão extensora verde. Um
Mini Huggy amarelo, menor que os outros, foi atingido antes de tocar a areia.
— Não está cansado, querido? — continuou Mommy, rindo baixo, o som vibrando no
vidro. — Você tem dedos tão delicados... não devia desperdiçá-los batendo em
brinquedinhos.
— Ahh, ele fala! — disse Mommy, rindo. — Eu estava começando a achar que você
era mudo. Ou talvez só burro.
— Eu disse pra calar a boca! — gritou ele, mirando outro tubo. Dois Mini Huggys, um
azul e um verde, saíram juntos. Edward acertou o verde, mas o azul escapou, correndo
em volta dele em círculos. Ele girou o corpo e, com um golpe rápido, o atingiu na lateral
da cabeça. O brinquedo caiu e correu de volta, emitindo um choro metálico.
— Eu não preciso matar nada pra sobreviver — respondeu Edward, com a respiração
pesada.
— Oh, mas que homem moral, que cavalheiro! E me diga, humano... foi essa “moral”
que o trouxe até aqui? Foi ela que te fez abrir aqueles portões?
Edward hesitou. Um Mini Huggy vermelho aproveitou o instante e pulou em seu braço,
cravando as garras no metal do GrabPack. Ele gritou, sacudiu o braço e acertou o
pequeno monstro de volta contra o tubo, com força.
— Você quer respostas, não é? — continuou Mommy, sussurrando com ironia. — Quer
saber por que eles sangram? Por que choram? Por que têm ossos? Eu posso te contar.
Mas o que vai fazer quando descobrir que é tudo culpa sua?
Três Mini Huggys surgiram de uma vez, laranja, roxo e cinza. Ele acertou dois, mas o
terceiro o atingiu de raspão, o golpe cortando o ar rente ao seu rosto.
— Oh, entendo sim... entendo tudo, querido — A voz dela soava doce, compassiva. —
Eu vejo o medo em você. Está aí, bem no fundo. O medo de descobrir que você é o
mesmo que eles. Que é feito da mesma coisa. O mesmo sangue, a mesma culpa, a
mesma sujeira.
— Eu não sou como vocês! — rugiu Edward, disparando com a mão extensora azul
contra dois Mini Huggys que saltaram ao mesmo tempo. Os impactos foram certeiros, e
ambos voltaram para a escuridão, guinchando.
Mommy soltou um suspiro teatral.
— Ahhh... mas é claro que é. Você só não percebeu ainda. O Game Station, toda a
Playtime, tudo o que vocês construíram... tudo isso se alimenta da dor. Vocês achavam
que estavam criando diversão. Mas estavam apenas... cultivando agonia.
Os tubos rugiram mais alto. Agora saíam de todos os lados, até do teto.
Cada vez que ele derrubava um, outro saltava. Os risos infantis agora pareciam vozes
humanas distorcidas, entrecortadas por gritos.
Ele respirava com dificuldade. Suor e sangue escorriam por sua testa. Os dedos
tremiam no gatilho do GrabPack.
Edward mal teve tempo de reajustar o GrabPack em suas costas antes que a primeira
leva emergisse: dezenas de Mini Huggys pulando de todos os lados, derrapando na
areia, se empilhando uns sobre os outros como uma massa viva de pelúcia e dentes.
Ele girou o corpo e disparou. A mão azul atingiu dois de uma vez; a verde, outros três.
O impacto fez os pequenos corpos ricochetearem e voltarem aos tubos, mas mais e
mais vinham, saltando dos buracos no teto, nas paredes, até das fendas no chão.
Eram tantos que o ar parecia pulsar. Cores vibravam diante dos olhos dele — amarelo,
turquesa, roxo, vermelho, verde — como uma tempestade de brinquedos
enlouquecidos.
— Olha só pra você! — gritou Mommy Long Legs através dos alto-falantes, sua voz
dançando entre o prazer e a loucura — Que espetáculo! Você está lutando tão bem...
que orgulho! Mas me diga, humano, quanto tempo acha que consegue brincar antes de
cair?
Mommy Long Legs ria. A risada dela ecoava, grave e arrastada, vibrando nas paredes.
— Ahhh, como é bonito quando eles lutam por suas vidas... Você sabia? Eles sentem
tudo. Cada golpe. Cada toque. Cada vez que você os manda de volta pra escuridão,
eles lembram. E eles aprendem.
“Aprendem…”, essas palavras vagaram pela mente de Edward. Um arrepio subiu pela
espinha dele.
Ele girou o olhar para os tubos e percebeu o que Mommy acabara de dizer. Os Mini
Huggys já não vinham mais aleatoriamente. Eles surgiam em grupos coordenados,
alternando direções, cercando-o de forma estratégica, como se tivessem algum tipo de
consciência coletiva. Um golpe mal dado e três outros aproveitavam a brecha.
A mão verde do GrabPack disparou, mas errou o alvo e atingiu o chão, levantando
areia. Dois Mini Huggys aproveitaram o erro e o empurraram. Ele caiu de joelhos,
sentindo o peso deles no peito e nos ombros.
Com um rugido, ele girou o corpo e bateu o GrabPack em círculo, afastando-os num
golpe violento que ecoou como uma explosão. As pequenas criaturas rodaram no ar e
fugiram, chorando, rastejando de volta aos buracos.
Um estalo de metal soou. Uma onda de Mini Huggys, incontáveis, de todas as cores,
jorrou como uma avalanche viva. Eles gritavam, gemiam, riam, choravam. Edward
ergueu o GrabPack e começou a disparar sem parar, golpe após golpe, o braço inteiro
vibrando com o recuo.
Cada movimento era instintivo. Ele não via mais nada além de sombras e dentes. Não
ouvia nada além de gritos e o zumbido elétrico da máquina. Os golpes ecoavam como
trovões, cada impacto uma sobrevivência a mais, um segundo roubado à morte.
E então, como se alguém tivesse desligado o mundo, tudo parou. Os tubos cessaram.
Os sons morreram. Os Mini Huggys que ainda restavam congelaram no lugar e, sem
aviso, recuaram todos ao mesmo tempo. Subiram pelos tubos, engatinhando de volta
às sombras, até o último deles desaparecer.
Silêncio. Um silêncio pesado, quase físico. Edward ficou parado no meio da sala, o
peito subindo e descendo em espasmos. A areia ainda vibrava sob seus pés, mas não
havia mais movimento algum.
O vidro à frente dele iluminou-se com uma luz tênue. Do outro lado, Mommy Long Legs
observava. Seu rosto estava imóvel, mas os olhos brilhavam com um tipo de admiração
cruel, o mesmo olhar que um predador tem por uma presa que sobreviveu um pouco
mais do que o esperado.
Então, a voz doce e falsamente maternal de Mommy Long Legs rompeu o silêncio:
Mas, de repente, o tom dela mudou. Aquela mesma teatralidade alegre e perturbadora
voltou com força.
— Bem, a Mommy está orgulhosa de você! — ela disse, num tom de falso entusiasmo.
— Como compensação pelos... bem... machucados que você acabou tendo depois
disso tudo, pode ficar com a segunda parte do código do trem, ok?
Edward não respondeu. Apenas observou. Mommy esticou o braço direito lentamente,
o som dos tecidos sintéticos e das juntas metálicas ecoando como o deslizar de uma
cobra. O membro elástico e rosa atravessou a sala de observação, passando por uma
das tocas escuras onde antes haviam saído os Mini Huggys.
Por um momento, o tubo vibrou como se algo se movesse dentro dele, até que a ponta
do braço emergiu bem diante do rosto de Edward. Entre os longos dedos de borracha,
havia uma folha de papel dobrada com cuidado.
Edward hesitou, mas apenas por um segundo. Com um movimento rápido, puxou o
papel da mão de Mommy. O braço dela então começou a retrair-se, serpenteando de
volta para dentro do tubo e desaparecendo completamente, como se nunca tivesse
estado ali.
Ele ficou parado ali, com o papel novo nas mãos, olhando para ele com desconfiança.
Então, enfiou a mão no bolso da jaqueta e retirou o outro, aquele que havia recebido
após sobreviver ao Memória Musical. Ambos estavam dobrados do mesmo modo, com
dobras bem marcadas, quase como se tivessem sido dobrados por mãos humanas...
mas a textura dizia o contrário. O papel era áspero, ligeiramente pegajoso, como se
tivesse sido umedecido e deixado secar.
Edward comparou as duas folhas lado a lado. Era claro que faziam parte de um mesmo
conjunto. Faltava apenas uma. O último pedaço do código. Edward guardou os dois
pedaços de papel novamente em seu bolso.
Ele passou o polegar pelo contorno dos papéis e sentiu o leve relevo da tinta, como se
cada cor fosse uma cicatriz impressa na superfície.
E ainda assim, havia algo mais profundo. Cada um desses códigos, esses fragmentos,
pareciam simbolizar algo que Mommy queria que ele visse. Uma espécie de ritual, uma
progressão, como se as cores contassem uma história invisível. Mas ele não entendia.
Ainda não.
— Resta apenas um último jogo para brincar... — ela disse, com um suspiro fingido. —
Triste... Eu esperava que você fosse ficar aqui para todo o sempre…
Edward levantou o olhar, apertando as folhas nas mãos. O vidro da sala estava escuro,
mas ele podia distinguir a forma dela, parada ali. Os braços longos, o corpo arqueado,
o sorriso congelado.
— Mas... — a voz dela prosseguiu, voltando a um tom quase doce, arrastado — nunca
é tarde demais para mudar de ideia, não?
Edward não respondeu. O silêncio entre os dois durou alguns segundos, até que as
luzes da sala de observação começaram a piscar uma, duas, três vezes, e então se
apagaram completamente.
A areia fina do chão ainda grudava em seus joelhos, e o suor frio escorria pela nuca. O
desafio dos Mini Huggys tinha acabado. E de alguma forma ele estava vivo, mas seu
corpo insistia em reagir como se ainda estivesse preso naquele pesadelo multicolorido
que o atacara de todos os lados.
O silêncio da sala “Bata em Um Wuggy” era quase irônico. Agora, sem as criaturas
saindo das tocas e tentando arrastá-lo para a escuridão, o lugar parecia morto. Vazio.
Uma fachada frágil escondendo algo feroz, como tudo naquela fábrica maldita.
Mommy Long Legs já não estava ali. Ele não sabia para onde ela tinha ido, mas podia
imaginar: talvez preparando o próximo desafio; talvez esperando, satisfeita, que ele
corresse como um rato cansado para o destino que ela tinha planejado. Edward sabia
que ela queria brincar, mas sabia também que ela queria sangue.
Ele girou o pescoço devagar, analisando novamente a sala. Seus olhos logo
encontraram o que vira antes, no instante em que entrou correndo na sala e lutou para
sobreviver: a grade frouxa de um duto de ventilação, bem acima da parede lateral,
parcialmente escondida pelo contorno metálico. A escolha era óbvia, qualquer coisa era
melhor do que ficar exposto ali.
Aproximou-se, coração ainda martelando, e puxou a grade com mãos trêmulas. Ela
caiu com um baque abafado sobre a areia. Não estava presa de verdade, apenas
encaixada, como se tivesse sido abandonada por alguém que nunca terminou o serviço.
Ou como se algo tivesse passado por ali antes.
Edward respirou fundo. A entrada era estreita demais para ser confortável, e o
GrabPack nas costas fazia cada movimento parecer calculado na borda da
impossibilidade. Mesmo assim, ele se jogou para frente, enfiando os braços primeiro,
sentindo o metal gélido raspando sua pele. Precisou ajustar o GrabPack com o cotovelo
duas ou três vezes antes de finalmente conseguir avançar. A cada centímetro, o duto
parecia encolher mais.
O ar ali dentro era pesado, carregado de pó acumulado por anos de abandono. Cada
inspiração deixava um gosto de ferrugem na boca. O som do próprio corpo arrastando-
se ecoava abafado, repetido de maneira esquisita pelas paredes estreitas.
Edward congelou. Seus dedos arranharam o metal. Seu coração bateu tão forte que
ele achou que Mommy poderia ouvi-lo.
— NÃO, NÃO, NÃO, NÃO! — ela continuou, cada “não” acompanhando um som úmido,
como algo sendo golpeado. — EU DISSE PARA TRANCAR ELE NA ARENA! EU DISSE
PARA NÃO DEIXAREM ELE PASSAR!
Os sons seguintes foram uma mistura impossível de ossos partindo, golpes contra
metal, arranhões desesperados e os pequenos urros dos Mini Huggys.
Edward fechou os olhos com força e continuou a avançar. Cada som fazia seu corpo
estremecer, mas parar era pior. Parar significava ficar mais perto dela. O duto parecia
comprido demais, como se fosse se dobrando em si mesmo. O silêncio não voltava.
Mommy não parava.
— VOCÊS SÃO FRACOS! — ela vociferou, e desta vez Edward pôde ouvir algo sendo
arremessado contra uma parede. — O BUNZO TAMBÉM FOI UM FRACASSO… UM
FRACASSO!
O nome em si já bastou para gelar o sangue de Edward. Agora fazia sentido. O que
tinha acontecido com Bunzo Bunny. Por que ele estava daquele jeito. Por que estava
morto e pendurado por teias no teto da Game Station.
O que Edward supôs antes estava correto. Ele se sentiu quase como um vidente.
O “jogo”. Era sempre sobre o jogo. Ela não queria matar Edward rápido. Ela queria
brincar. Esticá-lo emocionalmente como um elástico até arrebentar.
Outro grito abafado. Outro impacto. Edward tinha que continuar. Precisava sair dali
antes que ela decidisse que os bonecos não eram mais o suficiente para descarregar
sua fúria.
Ele engoliu seco, limpou o suor que escorria pelas sobrancelhas com o antebraço e
voltou a se arrastar. Mesmo que fingisse ignorar os sons, cada um deles cravava uma
agulha na sua nuca. Ele sabia que, a qualquer momento, a voz dela podia reaparecer
mais perto. Muito mais perto. Ele acelerou. No fundo, porém, uma parte dele sabia que
não estava fugindo totalmente.
Edward continuou rastejando até que o duto finalmente se abriu para fora. A saída
ficava em uma posição elevada, e não havia qualquer apoio seguro para descer com
cuidado. Ele se deixou cair, aterrissando no chão com um impacto seco. A dor subiu
imediatamente pelos joelhos, fazendo suas articulações reclamarem, mas nada estava
quebrado. Apenas mais um lembrete de que seu corpo estava sendo empurrado além
do limite.
O lugar em que havia caído era um corredor único, longo e sufocante. As paredes e o
chão eram feitos de tijolos amarelos, uniformes demais, quase artificiais, como se
tivessem sido pintados para parecerem alegres. Na verdade, ele tinha quase certeza de
que fora exatamente isso que aconteceu. Aquela paleta vibrante contrastava
violentamente com o ambiente opressivo, lembrando Edward de um cenário distorcido
de O Mágico de Oz, onde o caminho amarelo não levava a lugar algum seguro. Não
teria uma Cidade de Esmeraldas no fim daquela aventura, isso ele sabia.
À sua frente, o corredor terminava em uma enorme porta de correr de metal, reforçada
com grades grossas. A luz escapava pelas frestas, desenhando linhas brancas
irregulares no chão. Do outro lado, ele conseguia ver outro corredor idêntico àquele,
mas completamente desobstruído, como uma promessa cruel de continuidade.
Pelo lado esquerdo, antes da porta, um segundo corredor se estendia para dentro da
fábrica, sumindo na escuridão, como mais um ramo daquele labirinto industrial
interminável. Uma lâmpada de LED pendia no centro do corredor, piscando de maneira
irregular. Ela era sustentada por fios expostos e retorcidos, que balançavam levemente
a cada oscilação da luz. Presa à parede, pouco antes da porta, havia uma alavanca
vermelha.
Ele não era burro. Aquela alavanca só podia servir para abrir a porta de correr.
Aproximou-se com cautela e tentou alcançá-la pelas frestas da grade, esticando o braço
ao máximo. Seus dedos tocaram apenas o ar. Frustrado, ele recuou um passo e acionou
o GrabPack. Disparou a mão verde. Nada. A azul. Nada de novo. Os gatilhos clicaram
repetidas vezes, o som ecoando no corredor vazio, mas nenhuma das mãos conseguia
se fixar na alavanca.
Pensou em possibilidades. Talvez pudesse puxar algum objeto pesado para perto da
porta. Talvez houvesse outra alavanca escondida naquele corredor lateral. Talvez a
porta só abrisse de um lado específico. Talvez…
Edward virou lentamente a cabeça para o fim do corredor por onde havia caído. Lá,
envolta pela iluminação fraca e intermitente, uma silhueta se formava. Alta demais para
ser humana. Alta demais até para parecer confortável naquele espaço. Devia ter quase
três metros de altura. Os membros eram longos, pendendo de forma estranha, quase
moles demais. A cabeça tinha um formato triangular inconfundível.
A imagem do monstro azul despencando no abismo voltou à sua mente com força. Não
fazia sentido. Ele o tinha visto cair. Tinha ouvido o impacto distante. Ainda assim, a
silhueta caminhava em sua direção, lenta e silenciosa.
Edward sentiu o impulso de correr, de se esconder, de fazer qualquer coisa que não
fosse ficar ali parado. Mas não havia para onde ir. A porta estava fechada. Voltar pela
ventilação não era uma opção. Não tinha nada para ocultar a sua presença.
Além disso, seu corpo simplesmente não obedeceu as suas ordens de fugir. Ele ficou
imóvel. À medida que a figura se aproximava e entrava no alcance da lâmpada piscante,
os detalhes começaram a surgir. A cor veio primeiro.
A criatura revelou-se por completo sob a luz instável. Sua pelagem era de um rosa
vibrante, porém sujo e gasto, como um brinquedo antigo mal conservado. Os olhos eram
grandes demais, circulares, feitos de plástico rígido, dilatados de forma permanente e
desconfortável. Os lábios vermelhos formavam um sorriso fixo, antinatural, que não
transmitia alegria alguma. O corpo era alto e esguio, com braços e pernas longos, quase
flácidos, como se suas articulações não estivessem funcionando corretamente.
Não era Huggy Wuggy quem estava na sua frente. Aquela era Kissy Missy.
Por alguns segundos intermináveis, ela apenas encarou Edward. Seus olhos não
piscavam. Não havia inclinação de cabeça, nem qualquer gesto que indicasse emoção.
Apenas aquele olhar vazio, pesado, que parecia atravessá-lo.
Então, sem dizer uma palavra, Kissy Missy desviou a atenção para a alavanca vermelha
presa à parede. Olhou para o objeto. Depois, voltou a olhar para Edward.
O braço tremeu levemente, parecendo frouxo, quase quebrado, mas desta vez seus
dedos conseguiram se fechar em torno da alavanca. Com um puxão seco, ela a trouxe
para baixo. No mesmo instante, faíscas explodiram nos cantos da porta de metal. Um
zumbido pesado ecoou pelo corredor, seguido pelo som grave de engrenagens antigas
sendo forçadas a se mover.
Depois de alguns segundos, Kissy Missy simplesmente se virou. Seus passos foram
silenciosos enquanto ela retornava pelo mesmo caminho de onde viera, desaparecendo
pouco a pouco na escuridão do corredor.
Por quê? Por que ela o havia ajudado? Por que não tinha aberto a porta apenas para
atravessá-la e devorá-lo por inteiro?
Será que ela trabalhava junto com Poppy, tentando guiá-lo para fora daquela fábrica
maldita? Ou aquilo fazia parte de algo maior, uma encenação cruel para levá-lo a um
destino ainda pior?
A porta terminou de se abrir com um estrondo metálico. Edward respirou fundo, reuniu
o pouco de coragem que ainda tinha e atravessou o corredor, seguindo exatamente o
mesmo trajeto que Kissy Missy havia feito, carregando consigo mais perguntas do que
quando tinha entrado naquele lugar.
Ao seguir pelo corredor aberto, Edward logo percebeu que o espaço à frente se
alargava e se tornava algo completamente diferente do que tinha visto até então.
Ele entrou em um ambiente amplo, quase labiríntico, dominado por trilhos de trem que
se cruzavam, se separavam e se reencontravam de maneira confusa. As paredes
continuavam majoritariamente feitas de tijolos amarelos, mas agora intercaladas com
longos trechos de azulejos brancos, muitos deles rachados, manchados ou faltando
pedaços, expondo o concreto escuro por baixo. A alternância entre o amarelo vivo e o
branco sujo criava um padrão visual desconcertante, como se a Playtime não tivesse
conseguido decidir se aquele espaço deveria parecer infantil ou puramente funcional.
Logo à sua frente, encaixado perfeitamente sobre um dos trilhos, estava um pequeno
carrinho de mão. Edward se aproximou com cautela.
O carrinho era antigo, claramente feito para se mover apenas sobre aqueles trilhos
específicos. Suas rodas estavam completamente oxidadas, assim como o metal que
formava sua estrutura. Ainda assim, dava para perceber que, um dia, ele fora pintado
com cores vivas. O azul e o amarelo descascavam em placas irregulares, revelando o
metal escuro por baixo. Na parte frontal, dois pequenos olhos de vidro estavam colados
de maneira quase infantil, levemente desalinhados, refletindo a luz fraca do ambiente.
Eles davam ao objeto uma aparência inquietante, como se estivesse observando
Edward de volta.
Logo abaixo dos olhos, pintado à mão em tinta amarela já desbotada, havia um nome:
Barry.
Edward deu alguns passos para trás e começou a observar o ambiente com mais
atenção.
Não era apenas um amontoado aleatório de trilhos. Havia lógica ali. Os caminhos se
conectavam a diferentes pontos da sala, alguns terminando em paredes, outros levando
a portões metálicos fechados. Um deles, mais ao fundo, era bloqueado por uma barreira
improvisada de tábuas de madeira pregadas umas às outras, claramente mais frágeis
do que o resto da estrutura.
Disparou a mão verde e a conectou à tomada. Um estalo seco ecoou pelo ambiente,
seguido por um zumbido baixo. A energia começou a fluir. Por instinto, Edward manteve
o gatilho pressionado, sentindo a leve vibração percorrer o fio retrátil.
Mas segurar a carga daquele jeito não era viável por muito tempo. Seu braço já
começava a cansar. O leve tremor que percorria o fio do GrabPack agora parecia subir
pelo ombro, um aviso claro de que insistir seria inútil. Edward soltou o gatilho. O zumbido
cessou quase imediatamente, como um animal que tivesse sido silenciado à força, e a
mão extensora retornou ao mecanismo do GrabPack com um estalo seco.
A energia se dissipou. Os trilhos voltaram à inércia. Edward respirou fundo. Aquilo não
era só força bruta. Não era só apertar botões e puxar alavancas até algo acontecer. A
fábrica nunca funcionava assim. Sempre havia um passo antes. Um detalhe escondido.
Ele deixou Barry para trás e seguiu pelos trilhos, andando com cuidado entre o
emaranhado metálico, até perceber uma abertura lateral. Não havia porta, apenas uma
passagem recortada entre os tijolos amarelos. Acima dela, um letreiro prateado refletia
a luz fraca do ambiente, com letras simples e frias: Elétrica.
Edward entrou.
O cheiro era forte. Metal aquecido. Poeira queimada. Algo levemente adocicado,
artificial.
Edward deu mais alguns passos, observando tudo com atenção, quando algo destoou
daquele caos técnico.
No canto da sala, encostada na parede, havia uma mesa de alumínio simples. Sobre
ela, quase jogado de lado, estava um pedaço de papel dobrado. Ao lado, uma fita
cassete cinza, sem qualquer identificação visível. Abaixo da mesa, repousava um
tocador de fitas da mesma cor, antigo, pesado, com botões grandes. Uma TV de tubo
estava acoplada à parede ao lado, sua tela escura refletindo vagamente o vermelho das
luzes.
Edward sentiu o estômago apertar. A fábrica nunca deixava coisas assim por acaso.
Stella,
Redijo este relatório não por zelo, tampouco por preocupação moral (conceitos que,
como sabemos, raramente sobrevivem ao chão desta empresa), mas por pura
necessidade operacional. O ativo conhecido como Marie Payne, também registrado
sob a designação Experimento 1222, atingiu um ponto de instabilidade que deixou de
ser interessante e passou a ser inconveniente.
Se eu estiver errado, bem… a Game Station sempre foi projetada para lidar com
testes mais “dinâmicos”.
Considere isso não como um pedido, mas como uma recomendação estratégica. Marie
Payne já ultrapassou a fase de ser estudada passivamente. Agora, ela precisa ser
usada de forma inteligente ou afastada de mim antes que continue causando
prejuízos desnecessários.
Atenciosamente,
À medida que seus olhos percorriam as linhas, algo dentro dele foi se fechando
lentamente. Não era medo imediato. Era algo mais denso. Um desconforto crescente,
como a sensação de entender tarde demais o tamanho real de algo que já estava em
movimento.
Ele terminou a leitura em silêncio. Por alguns segundos, não fez nada. Depois, releu
mentalmente trechos soltos. Palavras específicas. Termos técnicos. Nomes.
— Experimento… — murmurou.
Quem era Marie Payne? Seria o nome de algum dos brinquedos bizarros que acharia
por ali? Talvez a criatura do terceiro desafio de Mommy Long Legs?
O texto não soava como um alerta. Não era um pedido de ajuda. Não havia pânico ali.
Havia cálculo. Frieza. Um tipo de desprezo elegante, quase orgulhoso.
Ele fechou o papel por um instante, apertando-o entre os dedos.
Ele se perguntou quantas vezes aquela palavra tinha sido usada naquela empresa para
justificar coisas que jamais deveriam ter acontecido. Quantas decisões tinham sido
empurradas adiante só porque alguém acreditava que podia “direcionar” o caos.
Ele pensou no que Mommy Longs Legs lhe disse, enquanto estava no desafio anterior.
Sobre tudo ser "culpa dele". Talvez fosse sobre algo assim que ela estava falando. Mas,
então, ele pensou melhor: como ela sabia que ele tinha sido um funcionário? Ele nunca
contara isso para ela. Raramente falara com ela, para ser mais específico. Não fazia
sentido.
Ele olhou em volta da sala, para os fios expostos, para os fusíveis improvisados, para
a falta de qualquer cuidado real. Tudo ali gritava a mesma coisa: aquilo nunca foi feito
para dar certo a longo prazo. Foi feito para funcionar rápido. Para gerar resultado.
Quantos relatórios tinham sido escritos com aquele mesmo tom clínico, enquanto algo
vivo aprendia a odiar, a escolher alvos, a entender prazer e dor? Edward se perguntou
se aquela tal “instabilidade” não era, na verdade, lucidez. Se não era a reação mais
lógica possível.
"O que vocês criaram aqui?", pensou. "O que vocês acharam que estavam
controlando?"
Ele se afastou da mesa, lançando um último olhar para a fita cassete e para a TV
desligada. Queria saber o que tinha ali dentro. Pegou a fita e encaixou no tocador. Ela
foi engolida pelo aparelho instantaneamente e então, a televisão se iluminou em
estática.
Edward ficou imóvel diante da televisão. Não por medo imediato, mas por uma espécie
de respeito involuntário. Como se qualquer movimento pudesse interferir naquilo que
estava prestes a se formar na tela.
Quando a imagem surgiu, foi simples demais para justificar o peso que caiu sobre seu
peito. Uma única imagem estática. Um braço. Metálico, ossudo, anguloso demais para
parecer humano, mas próximo o suficiente para causar desconforto. Os dedos eram
longos, pontiagudos, quase elegantes em sua brutalidade. Uma garra direita, parada,
sem fundo, sem contexto. Apenas ali. Observando.
— Teimoso como é, e silencioso a cada sessão que passa, ainda estou descobrindo e
aprimorando novos dados de toda forma. A descoberta de hoje...
O som que interrompeu o monólogo não parecia ter vindo da gravação, apesar de ter
sido o caso. Um coro de vozes explodiu. Dezenas. Talvez centenas. Graves, agudas,
humanas, artificiais. Sons que se sobrepunham, vibravam, se chocavam. Não havia
palavras. Apenas intenção. Algo primal, coletivo, impossível de decodificar.
Edward sentiu os dentes rangerem sozinhos. Seu corpo reagiu antes da mente.
— Final de registro.
O som seco de um botão sendo pressionado. Mas a gravação não cessou. Edward
franziu o cenho. Um erro. Um detalhe humano demais para alguém como Sawyer. O
tipo de falha que só acontece quando algo foge do controle.
Então as vozes voltaram. Dessa vez, organizadas. Não menos perturbadoras, apenas
compreensíveis. Falavam juntas, como um coro perfeitamente sincronizado. Mas não
havia caos. Havia unidade. Apesar das diferenças de timbre, gênero, origem, todas
transmitiam a mesma sensação.
Edward sentiu algo frio se espalhar pela nuca. A maneira como as palavras eram ditas.
Não era curiosidade infantil. Não era confusão. Era escolha deliberada de linguagem.
— Prossiga, Protótipo….
Então era isso. O Experimento 1006. Edward sentiu o peso do número finalmente
ganhar forma. Não um animal. Não uma falha. Ele era algo que escutava e aprendia.
A pergunta ecoou além da sala. Edward percebeu que havia prendido a respiração.
Sawyer respondeu com calma excessiva.
Edward sentiu repulsa. Mas também percebeu algo pior: empolgação. Sawyer
continuava, a voz carregada de entusiasmo genuíno.
— Então, fale ou não. Lute ou desista. Não importa, eu aprendo algo novo sobre você
a cada dia. Isso me anima!
Edward apertou os punhos. A forma como Sawyer falava não demonstrava crueldade
cega ou violência gratuita. Era fascínio. Um homem encantado pelo próprio avanço,
indiferente ao custo.
— Obrigado…
— Com certeza…! — então a coisa imitou a voz de Harley Sawyer. Não uma imitação
perfeita, mas sim uma caricatura distorcida. — Eu aprendo algo novo sobre você a cada
dia…
O Protótipo não perguntara se Sawyer sentia dor. Perguntara se ele sentia "alguma
coisa". Isso deixava Edward desconfortável até demais.
Edward deixou aquela sala para trás com passos lentos, ainda sentindo o peso daquela
gravação pressionando seus pensamentos. Não olhou para trás. Sabia que, se o
fizesse, perderia tempo demais tentando compreender coisas que não tinham resposta
imediata. Naquela fábrica, parar para refletir por muito tempo era o mesmo que se tornar
parte dela.
Barry estava parado sobre o trilho, imóvel, com a estrutura rígida e os olhos de vidro
fixos em uma expressão artificialmente neutra. O carrinho era grande e pequeno demais
ao mesmo tempo, pesado demais, dependente demais de mecanismos que Edward
ainda estava aprendendo a dominar. Ele parou por alguns segundos, observando tudo
com mais calma do que da primeira vez.
Edward respirou fundo e forçou o corpo a relaxar. O braço ainda doía. uma dor
profunda, incômoda, que começava no ombro e descia até o antebraço sempre que ele
usava o GrabPack por tempo prolongado. Na primeira tentativa, tinha insistido demais,
segurando cargas por muito tempo, esticando o fio até o limite. Dessa vez, faria
diferente.
Antes que a dor se tornasse intensa demais, ele se moveu. Em vez de manter a mão
presa ali, começou a guiar o fio, passando-o com cuidado ao redor do primeiro poste de
condução. O isolamento do cabo rangia levemente ao roçar o metal da bobina, mas a
energia se manteve estável.
Ele repetiu o processo com o segundo poste, criando um caminho contínuo. Quando
soltou a tensão do braço, percebeu que a carga permanecia ativa.
— Claro… — pensou — Nunca foi pra segurar. Era pra manter o fluxo.
Com a energia sustentada pelas bobinas, o trilho de Barry começou a se mover com
um rangido pesado. Lento no início, acordando depois de anos parado.
O trilho se deslocou, alinhando Barry com o caminho central da sala. O carrinho azulado
e enferrujado se moveu junto, as rodas deslizando sobre os trilhos com um som seco,
quase arrastado.
Ele precisava levar a carga elétrica até o outro lado da sala, mas sem forçar o braço.
Respirou fundo outra vez e escolheu a mão azul do GrabPack dessa vez. Lançou-a em
direção a um dos pilares de condução mais à frente, calculando o ângulo com cuidado.
O fio passou por trás do poste, criando mais um ponto de sustentação.
Ele ajustou a posição, contornando o segundo poste, até ter alcance suficiente para
mirar no receptor final. O braço tremeu no último estiramento, uma pontada aguda
atravessando seu ombro.
Em vez disso, se apoiou na parede com o corpo inteiro, redistribuindo o peso. Usou o
próprio torso para aliviar a tensão no braço enquanto lançava a mão do GrabPack no
encaixe final. O clique foi imediato.
O portão que bloqueava Barry se abriu com um estrondo metálico, levantando uma
nuvem de poeira velha do chão. Edward soltou o ar dos pulmões como se estivesse
prendendo a respiração há minutos.
Barry avançou pela seção central e parou em um trilho reto, alinhado diretamente com
a barreira de tábuas de madeira no fim da sala. Edward não sabia o que vinha a seguir.
Não tinha chegado nem perto disso desde que entrara naquele lugar.
Do lado daquelas tábuas, havia uma espécie de painel para controlar alguma coisa. Ele
se aproximou para observar e percebeu que se tratava de algo para controlar o fluxo
daqueles trilhos.
Edward apoiou o antebraço contra o corrimão e usou a outra mão para ativar a carga
final. O som que se seguiu foi diferente de tudo até então. Um rugido elétrico percorreu
os trilhos. Barry disparou.
O carrinho avançou em alta velocidade, rápido demais para parecer seguro. O vento
levantado pelo movimento fez o casaco de Edward balançar. O impacto contra as tábuas
de madeira foi violento.
Madeira se partiu. Estilhaços voaram. O barulho ecoou pela sala inteira como um tiro
abafado. Quando a poeira começou a baixar, o caminho estava aberto. Edward
permaneceu parado por alguns segundos, apenas observando o vazio onde antes havia
uma barreira. O silêncio que se seguiu era quase reconfortante.
Funcionou.
A porta aberta à frente marcava o fim daquele desafio. Pelo menos daquele.
CAPÍTULO 18
26 de dezembro de 2024
Salt Lake City ainda estava em silêncio quando o despertador começou a gritar. Um
som eletrônico, insistente, que não combinava em nada com a neve caindo do lado de
fora da janela. Seis da manhã.
O aparelho vibrava sobre a mesa de cabeceira, fazendo tremer um copo de vidro vazio,
com uma película amarelada no fundo, esquecido ali desde a noite anterior. Laura
Rosenberg já estava acordada antes mesmo do primeiro bip. Os olhos abertos, fixos no
teto manchado por pequenas rachaduras, acompanhando distraidamente a sombra
lenta do ventilador parado.
O Natal tinha sido ontem. Ainda assim, não havia trégua. A padaria abria cedo demais,
como se o mundo não tivesse o direito de parar nem por um dia. Pelo menos seria só o
turno da manhã. Uma concessão mínima, quase irônica. Laura deixou escapar um
suspiro curto, daqueles que não aliviam nada, e se espreguiçou até os ossos estalarem
em protesto.
Sentou-se na cama com cuidado, como se qualquer movimento brusco pudesse fazê-
la desmoronar. A luz fraca do abajur revelou sua pele pálida, quase translúcida. Os
cabelos cacheados caíam até os ombros em um estado de abandono honesto: mechas
loiras misturadas ao preto, sem harmonia, como se alguém tivesse desistido da
mudança no meio do caminho.
O quarto parecia ter parado no tempo, ou melhor, parecia ter acumulado vários tempos
diferentes, empilhados sem critério. Roupas jogadas pelo chão formavam pequenas
ilhas sobre o carpete gasto. Algumas camisetas pretas exibiam estampas rachadas de
bandas que já tinham visto dias melhores. Outras, amassadas, cheiravam a fumaça
antiga. Um cinzeiro improvisado, feito com uma caneca de cerâmica, estava cheio
demais, pontas de cigarro esmagadas umas sobre as outras, cinza espalhada pela
mesa como uma neve suja.
Perto da porta, uma mochila aberta deixava escapar cadernos cheios de rabiscos,
cálculos interrompidos, folhas dobradas com força. Um livro grosso de engenharia
estava jogado de costas, a lombada torta, marcadores improvisados com recibos e
guardanapos. No canto oposto, uma pilha de discos e vinis se misturava sem hierarquia:
capas de rap com cores vibrantes ao lado de artes pesadas, sombrias, de álbuns de
heavy metal. Um par de fones de ouvido descansava no chão, o fio enrolado como se
tivesse sido arrancado às pressas da cabeça de alguém cansado demais para cuidar
de detalhes.
Garrafas vazias ocupavam espaços estratégicos: uma ao lado da cama, outra perto da
janela, uma terceira tombada sob a escrivaninha. Algumas ainda tinham rótulos, outras
não. Todas estavam vazias demais para serem ignoradas. O ar do quarto carregava um
cheiro persistente de álcool velho misturado com fumaça fria, impregnado nas paredes,
nos lençóis, nas cortinas que mal conseguiam esconder a luz acinzentada da manhã.
Laura não olhou em volta por muito tempo. Não agora. O barulho do despertador
continuava martelando, impiedoso, cada segundo soando como uma acusação. Ela
fechou a mão e desferiu um soco seco no botão superior do aparelho. O som morreu
imediatamente.
O silêncio que se seguiu não foi reconfortante. Era pesado, denso, quase
claustrofóbico, como se o quarto tivesse encolhido alguns centímetros. Foi então que
ela olhou para o lado.
Laura criança ocupava metade da imagem, sentada sobre os ombros dele, as pernas
penduradas para frente, tênis pequenos balançando no ar. O sorriso dela era largo
demais para o rosto, bochechas cheias, os dentes ainda desalinhados. Os cabelos,
naquela época, eram de um castanho quase uniforme, presos de qualquer jeito com um
elástico frouxo. Ela segurava na mão um sorvete derretendo rápido demais para o calor
daquele dia e parecia não se importar com a bagunça escorrendo pelos dedos.
O pai, logo abaixo, sustentava o peso com facilidade aparente. Usava uma jaqueta
velha de couro marrom, surrada nos cotovelos, e uma camiseta clara por baixo. A barba
estava por fazer, o sorriso discreto, contido, como se ele não estivesse acostumado a
ser fotografado, mas aceitasse aquilo pelo bem dela. Os olhos dele, porém, estavam
atentos, vivos, olhando ligeiramente para cima, numa mistura de orgulho e cuidado
silencioso.
O fundo da foto mostrava um parque qualquer, árvores verdes demais para aquela
manhã branca de Salt Lake City. Um tempo distante, quase estrangeiro.
Ela passou o polegar sobre o canto da moldura, como se pudesse alisar o tempo,
corrigir alguma coisa fora do lugar. O gesto foi automático, quase inconsciente. A
nostalgia veio sem cerimônia, pesada e doce ao mesmo tempo, trazendo consigo a
lembrança de risadas fáceis, de vozes que não ecoavam em apartamentos vazios.
Sentia saudades do pai. Não apenas do homem da fotografia, mas do som da voz
explicando coisas simples com paciência infinita. Ele era engenheiro, e Laura crescera
cercada por esquemas rabiscados em guardanapos, plantas espalhadas pela mesa da
cozinha, cálculos feitos em folhas soltas que nunca pareciam bagunça de verdade. Ele
gostava de explicar como tudo funcionava, não para se exibir, mas porque acreditava
que compreender o mundo tornava a vida menos assustadora. Laura lembrava de se
sentar ao lado dele, pequena demais para alcançar a mesa, observando enquanto ele
falava sobre pontes, estruturas, forças invisíveis que sustentavam o que parecia
impossível.
Foi ali que ela aprendeu, antes mesmo de perceber, que construir coisas também era
uma forma de cuidado.
A mãe aparecia logo depois nas lembranças, quase sempre em movimento. Advogada,
organizada, firme, mas nunca dura. Havia nela uma calma diferente, uma segurança
silenciosa. Laura se lembrava da mãe chegando em casa com pastas de couro sob o
braço, tirando os sapatos na porta e perguntando sobre o dia como se aquilo fosse a
parte mais importante do mundo. Ela tinha o hábito de ouvir sem interromper, de fazer
perguntas certas, de fazer Laura se sentir levada a sério mesmo quando ainda era só
uma criança falando demais.
Os dois eram jovens quando tiveram Laura. Jovens demais, segundo algumas pessoas.
Para ela, porém, sempre pareceram prontos. Havia algo na parceria deles que tornava
a casa leve. Discussões existiam, claro, mas nunca pareciam ameaçadoras. Laura
crescera com a sensação constante de que, acontecesse o que acontecesse, haveria
um lugar para voltar.
Todo fim de ano, quase sem falhar, o carro seguia em direção a El Paso. A estrada
longa, o rádio ligado baixo, os primos esperando do outro lado. Laura lembrava do calor
seco contrastando com os invernos de Salt Lake City, do cheiro diferente do ar, das
noites longas em que ninguém parecia ter pressa de ir embora. Risadas se espalhavam
pelas casas cheias, colchões no chão, vozes sobrepostas. Eram dias em que o tempo
parecia suspenso.
Era estranho como o cérebro dela insistia em medir tudo a partir disso. Dois anos desde
a morte do pai. Dois anos desde o hospital, desde as conversas interrompidas, desde o
silêncio definitivo que não se parecia em nada com o silêncio do quarto agora.
A ausência dele não chegara de forma explosiva; foi lenta, diária, acumulada. Estava
nos lugares vazios à mesa, nas mensagens que nunca seriam respondidas, nas
perguntas que Laura ainda formulava sem perceber.
Havia dias em que a dor vinha quase física. Em outros, como naquela manhã, vinha
acompanhada de algo inesperado: uma gratidão amarga. Ele tinha estado ali. Tinha sido
um bom pai. Tinha deixado algo além da falta.
Estava viva, distante, tentando reconstruir a própria vida longe de Salt Lake. Depois da
morte dele, a casa se tornara insuportável para ela. Cada cômodo carregava memórias
demais, e ficar parecia uma forma lenta de afundar. Aceitou um trabalho em outro
estado. Mãe e filha se falavam com frequência, mensagens longas, ligações que
terminavam sempre com promessas de visitas que nem sempre se concretizavam.
Ela se levantou da cama, passou a mão pelo rosto e seguiu até a cozinha arrastando
os passos, ainda vestida com a camiseta larga e a calça de moletom que usara para
dormir. O corredor estreito amplificava qualquer som: o ranger do piso, o leve bater da
porta do banheiro ao lado, a geladeira trabalhando sem parar.
Pegou os ovos primeiro. Depois a manteiga. Abriu uma gaveta e retirou um pão já
cortado, envolto em papel manteiga. O café vinha em grãos, guardado num pote de
vidro. Ela encheu a chaleira, ligou o fogão e só então começou a moer o café, girando
a manivela com paciência, sentindo o aroma se espalhar pelo ar frio do apartamento.
Nada era feito às pressas. Laura quebrava os ovos com uma mão só, separava a casca
sem esforço, como alguém que já errara o suficiente para aprender. A manteiga derretia
lentamente na frigideira, espumando, exalando um cheiro que tomava conta da cozinha
inteira. Ela temperou os ovos com sal e pimenta sem medir, confiando no instinto. Mexeu
com uma espátula de silicone, o movimento firme, controlado, sabendo exatamente
quando parar para que não ficassem secos demais.
Enquanto isso, o pão dourava na outra boca do fogão, virado no tempo certo,
absorvendo parte da manteiga. Laura observava tudo com atenção silenciosa, como se
aquele fosse um pequeno ritual pessoal. Um espaço onde a cabeça finalmente
acompanhava as mãos.
O café ficou pronto logo depois. Forte. Escuro. Ela serviu numa caneca grande, a
mesma de sempre, e deixou um fio de vapor subir lentamente antes de dar o primeiro
gole. O amargor veio primeiro, seguido por um calor que descia pela garganta e parecia
acordar algo dentro dela.
Sentou-se à pequena mesa encostada na parede, o prato simples à frente: ovos
macios, pão crocante. Nada elaborado. Nada faltando.
Laura terminou o café, bebeu o último gole ainda quente e respirou fundo. Ela se
levantou, lavou o prato e a caneca imediatamente, secou com um pano limpo e os
guardou no lugar certo. O cheiro de café ainda pairava no ar.
Laura voltou para o quarto sem pressa, como se cada passo fosse uma negociação
silenciosa com o tempo.
Abriu o guarda-roupa, que rangeu baixo, reclamando da rotina. Dentro, as roupas não
estavam organizadas por cor ou ocasião, mas por hábito. Predominavam os tons
escuros: preto, cinza e vinho profundo. Tecidos gastos conviviam com peças bem
cuidadas, sem nenhuma classificação. Laura puxou uma calça preta justa, de cintura
alta, e a vestiu sem cerimônia. Depois, uma camiseta igualmente escura, de malha
macia, com a estampa quase apagada pelo tempo e pelas lavagens repetidas.
Sentou-se na beira da cama e calçou as botas, gastas nas laterais, mas firmes.
Amarrou os cadarços com precisão automática. Levantou-se e foi até o pequeno
espelho preso atrás da porta. Laura passou os dedos pelos cabelos, separando os
cachos de forma quase descuidada, mas consciente. Prendeu algumas mechas com
presilhas pretas, deixando outras caírem livremente ao redor do rosto.
Passo um delineador escuro, puxado de forma sutil, mas firme. Um pouco de sombra
em tons frios, aplicada com os dedos, sem perfeccionismo. Batom escuro, sem brilho.
Nada exagerado. Ela sabia que, em poucas horas, tudo aquilo estaria parcialmente
escondido.
Antes disso, foi até a cadeira próxima à janela. Ali estava o casaco.
Ele era de um tom suave de rosa, quase deslocado no meio de tantas cores escuras.
As pontas das mangas e a barra eram marcadas por detalhes pretos, criando um
contraste delicado, quase cuidadoso demais para o resto do apartamento. O tecido
mostrava sinais claros de uso frequente, mas era bem tratado. Nenhum rasgo. Nenhuma
mancha descuidada.
Havia algo no peso dele que a fazia diminuir o ritmo. Vestiu o casaco devagar, sentindo
o tecido deslizar pelos braços, aquecer a pele. Ajustou o zíper, fechando até o peito, e
por um instante permaneceu parada, os olhos baixos.
Aquele casaco não era apenas roupa. Era um objeto que sobrevivera quando tanta
coisa não sobreviveu. Sempre que o vestia, sentia uma espécie de proteção simbólica,
como se alguém ainda estivesse ali, garantindo que ela não enfrentaria o frio sozinha.
Só então colocou o avental por cima, amarrando as tiras nas costas com um nó firme.
O crachá veio por último, preso ao peito, deslocado demais para combinar com o resto
dela.
O ar frio da manhã a atingiu de imediato quando saiu para o corredor, trazendo consigo
o silêncio do prédio acordando devagar. Ela fechou a porta atrás de si com cuidado, o
clique da fechadura ecoando baixo.
Laura lançou um olhar rápido para eles. Foi então que viu. Entre dois bonecos,
parcialmente escondidas, estavam algumas fotos. Pegou uma das fotos com cuidado,
desviando os olhos da estrada por tempo suficiente para se arrepender imediatamente.
Mas já era tarde. Na imagem, ela não estava sozinha.
A outra garota era mais baixa, o corpo pequeno contrastando com a presença
marcante. A franja era cortada reta, pouco acima das sobrancelhas, precisa demais para
ser casual. Usava roupas pretas estilosas, cuidadosamente escolhidas, e o cabelo, da
mesma cor escura, descia em linha contínua até a cintura. Óculos de grau descansavam
na ponta do nariz, dando-lhe um ar atento, quase provocador. Pulseiras de spikes
envolviam ambos os braços, refletindo a luz do flash de forma agressiva e bonita.
"Você só está começando a entender agora?", pensou. "Você fica sentada aí, se
culpando o tempo todo, mas fazer isso não muda nada. Você não faz nada pra mudar.
É tudo culpa sua."
Ela fechou os olhos por um segundo, respirou fundo e então esticou a mão, guardando
as fotos no porta-luvas com um movimento brusco. Não queria ver mais. Não agora.
Ainda estava dirigindo. A estrada exigia atenção, e a última coisa que precisava era se
perder em lembranças enquanto crianças podiam atravessar a rua a qualquer momento.
As ruas estavam mais silenciosas do que o normal, como se a cidade tivesse decidido
falar baixo naquela manhã. Fachadas apagadas, postes cobertos por camadas
irregulares de neve, árvores nuas desenhando linhas tortas contra o céu pesado. Ainda
assim, havia beleza ali. Uma beleza contida, quase tímida. Laura sempre amara a neve
por isso, ela não escondia o mundo, apenas o tornava mais honesto.
Ela reduziu a velocidade ao virar uma esquina, observando as marcas deixadas por
outros carros antes dela. Havia algo reconfortante em seguir rastros. Era a prova
silenciosa de que alguém passara por ali e seguira adiante. O aquecedor do carro
soprava ar morno, embaçando levemente o para-brisa antes que o limpador resolvesse
o problema com movimentos ritmados.
Laura levou a mão direita ao console central. O olhar saiu da pista por um intervalo
mínimo. Destravou a tela, abriu o aplicativo de música e tocou na sua favorita sem
hesitar.
Salt Lake City desfilava pela janela em câmera lenta. Prédios baixos, fachadas opacas,
vitrines que pareciam respirar vapor. A neve transformava tudo em linhas simples, quase
gentis. Era um dia cinzento, sim, e ainda assim magnifico.
Ela sorriu de canto. Sabia que a canção era antiga demais para combinar com o painel
digital do carro. Sabia que era romântica demais para alguém que aprendera a
desconfiar de promessas. E, mesmo assim, deixava tocar.
A frase veio suave, quase educada. Laura pensou no quanto gostava dessa delicadeza
assumida, sem ironia. O mundo parecia ter desaprendido a falar baixo. Ela dobrou à
direita, passando por um parque coberto de branco. Os brinquedos estavam imóveis,
coloridos demais para aquela manhã pálida. Aquilo a fez pensar que coisas podem ter
sentido mesmo quando não estão sendo usadas.
“good old-fashioned…”
Ela passou por uma rua estreita, casas alinhadas como se se protegessem mutuamente
do frio.
A música seguia, e Laura seguia com ela. Os semáforos abriam no tempo certo. Um
carro reduziu à frente. Tudo parecia cooperar, como se o dia tivesse concordado em
não ser cruel antes das nove. Quando a canção se encaminhou para o fim, a última
ideia soou pequena e persistente, como um pedido feito sem pressa.
Laura manteve os olhos na estrada. Pensou que talvez o dia fosse difícil.
Provavelmente seria. Mas, por alguns minutos, sob aquele céu cinzento, com a música
certa tocando, ela permitiu a si mesma acreditar que ainda havia beleza suficiente para
atravessar a manhã.
O frio veio direto, cortante. Laura desceu com cuidado, mas ainda assim quase
escorregou na calçada coberta de neve compactada. Recuperou o equilíbrio num
movimento rápido, automático, prendeu melhor o casaco rosa ao redor do corpo e
seguiu em frente. O casaco permanecia ali, firme, contrastando com o mundo pálido ao
redor, como uma decisão que ela não estava disposta a reconsiderar.
O calor do ambiente a envolveu de imediato, junto com o cheiro familiar de pão recém-
assado, café forte e açúcar queimado. O lugar estava mais movimentado do que o
normal. O que, no fim das contas, não significava quase nada. Normalmente, pela
manhã, havia no máximo dois clientes espalhados pelas mesas. Agora eram quatro
figuras sentadas em cadeiras diferentes, cada uma em seu próprio mundo. Laura
registrou isso de forma distante, quase mecânica. Não prestou atenção em rostos, vozes
ou pedidos imaginários. Ainda não.
Seguiu direto para trás do balcão. Foi então que a viu. Sentada em um banquinho
branco próximo ao balcão onde Laura trabalhava como atendente, havia alguém
completamente deslocado do resto do cenário. E, ainda assim, estranhamente
pertencente. A pessoa segurava uma história em quadrinhos infantil do Lanterna Verde,
folheando com atenção exagerada para algo tão simples. A pele tinha um tom oliva
suave, e o cabelo curto, pintado de azul, contrastava com o ambiente em tons quentes
da padaria.
A roupa era comum, quase propositalmente sem drama: uma blusa polo amarela, calça
cargo branca, tênis vermelhos chamativos demais para passar despercebidos. Quando
percebeu a presença de Laura, levantou o rosto imediatamente. E sorriu. Um sorriso
grande, aberto, impossível de ignorar.
— Laura!
Laura sentiu algo dentro dela se ajustar no lugar certo. Nicolle era sua amiga ou algo
próximo disso, pelo menos o suficiente para que a presença dela ali mudasse o clima
da manhã. Elas se conheciam havia pouco mais de um ano, desde que começaram o
curso de engenharia juntas. Dividiam trabalhos, reclamações, noites mal dormidas e
uma energia parecida demais para ser coincidência.
Apesar de estar no curso, Nicolle nunca escondeu que seu verdadeiro sonho era outro.
Queria ser artista. Viver de desenhos, quadrinhos e ilustrações. E tinha talento de sobra
para isso. Laura sabia. Todo mundo que já tinha visto um caderno de Nicolle sabia.
— O que você tá fazendo aqui tão cedo? — Laura perguntou, já pendurando a bolsa
atrás do balcão e ajustando o avental por cima do casaco rosa, sem nunca tirá-lo.
— Eu precisava sair de casa antes que minha cabeça explodisse — Nicolle respondeu,
fechando a HQ e batendo levemente com ela na própria perna. — E pensei: onde é o
único lugar onde alguém vai me deixar existir sem perguntas às sete da manhã? Aqui.
Laura soltou uma risada curta enquanto começava a organizar o balcão. Pegou um
pano limpo, passou pela superfície, alinhou os potes de açúcar e adoçante. Seus
movimentos eram rápidos, experientes, quase automáticos. Nicolle observava tudo com
atenção exagerada, como se fosse um espetáculo.
— Você não aguentaria três dias — Laura retrucou, pegando uma jarra de café. — Ia
reclamar do café ruim no segundo.
Laura assentiu. Isso era verdade. A persistência dela era o único motivo para ainda não
ter largado a faculdade.
— Eu juro pra você, se o professor Howard falar a palavra “fundamentos” mais uma
vez, eu levanto da sala e nunca mais volto — Nicolle disse, gesticulando tanto que quase
derrubou o porta-guardanapos. — Fundamentos de quê? Ele nunca fundamenta nada.
— Que ponte?
— Em TODAS — Nicolle abriu os braços. — A gente fez conta, refez conta, refez de
novo, e ele só olhava e dizia: “Interessante”. Interessante é o caralho, Howard.
Ela se afastou do balcão para buscar copos limpos, passando por Nicolle no caminho.
— Aliás, você percebeu que sempre que dizem “esse projeto é simples”, ele nunca é
simples? — Nicolle disse. — É tipo quando alguém diz “a gente precisa conversar”.
— Ou “confia em mim”.
— Ou “é só uma fase”.
— Isso já acontece sem tatuagem — Laura disse, seca, mas com um canto de sorriso.
— Viu? É por isso que eu gosto de falar com você. Você entende minhas teorias.
Laura soltou um riso curto enquanto alinhava os pães doces na vitrine, o casaco rosa
ainda fechado até o pescoço, como se fosse parte inseparável dela.
— Dramática.
— Realista — Nicolle Valdez corrigiu, já em pé. — Eu ainda moro com meus pais,
lembra? Relógio biológico deles funciona diferente. Sete da manhã e já estão
contabilizando pecados.
— Enfim, não vou mais atrapalhar teu trabalho — disse, apontando em volta. — Padaria
organizada, vida organizada. Ou algo assim.
Nicolle riu, aquele riso fácil demais para o horário, e inclinou a cabeça.
— Ah, antes que eu esqueça: você tem que aparecer no rolê no parque. O pessoal da
engenharia marcou tudo certinho dessa vez. Milagre, eu sei.
— Nicolle…
— Laura — ela interrompeu, erguendo um dedo. — A gente tem que aproveitar aquele
lugar enquanto dá. Daqui a pouco a Flock Regular Events fecha tudo de novo pra
preparar a tal da Festa Fazbear. Aí já era. O parque vira canteiro de obra temático.
Laura ficou em silêncio por um instante, puxando um pano e limpando o balcão com
calma demais para alguém que estava realmente pensando.
— Não é.
— É sim. Mas tudo bem. Eu aceito migalhas emocionais — ela falou, caminhando de
costas em direção à porta. — A gente se fala depois. Não morre antes disso.
— Prometo nada.
Nicolle deu um último aceno exagerado e saiu, a porta se fechando atrás dela com um
sino discreto que pareceu alto demais quando o som morreu.
O silêncio se espalhou pela padaria como neve caindo devagar. Laura continuou
organizando as coisas quase no automático, mas a conversa ainda ecoava na cabeça
dela. Nicolle era intensa, caótica, barulhenta demais para alguns. Laura se perguntava
quando exatamente aquela amizade tinha deixado de ser circunstancial, de corredor de
faculdade, e passado a ocupar um espaço real. Morar sozinha tinha suas vantagens,
diziam. Liberdade. Autonomia. Mas, às vezes, ela daria tudo para ter como maior
problema alguém reclamando por ela sair sem avisar. Pipoca com manteigas exóticas
no lugar do almoço já tinha perdido completamente a graça.
Ela levantou os olhos, observando o ambiente agora vazio e foi aí que percebeu. Laura
demorou alguns segundos a mais do que o aceitável para entender o que exatamente
estava errado. Não era um objeto fora do lugar, nem um som estranho, nem aquela
sensação difusa de estar sendo observada. Era alguém. Um dos clientes.
O homem estava sentado sozinho, numa das mesas mais próximas da parede, com o
braço direito erguido há tempo demais para ser educado e tempo de menos para ser
rude, aquele limbo desconfortável que só existe quando ninguém presta atenção em
você. Ele não olhava para Laura. Na verdade, não olhava para lugar algum em
específico. Seus olhos estavam presos a um jornal impresso, aberto com cuidado, como
se aquilo ainda fosse uma coisa normal de se ver.
Ele tinha um rosto jovem demais para o cansaço que carregava. Cabelo castanho
escuro, espesso, levemente ondulado, caindo de forma desleixada sobre a testa, como
se tivesse sido ajeitado às pressas ou simplesmente desistido de obedecer. A barba por
fazer não era exatamente uma barba. Estava mais uma sombra insistente que
denunciava noites mal dormidas. Usava uma jaqueta de couro marrom, gasta nas
bordas, por cima de uma blusa clara e uma camisa por baixo, o tipo de combinação que
parecia calculadamente despretensiosa. Ombros largos, postura relaxada demais para
alguém que estava esperando ser atendido. Bonito de um jeito irritantemente específico.
Laura piscou, sentindo um peso estranho no estômago. Quem ainda lia jornal impresso
em pleno… agora? E há quanto tempo aquele braço estava levantado?
Ela sentiu a pontada de culpa chegar atrasada, como quase tudo na vida dela. Ótima
funcionária, conversando animadamente enquanto um cliente estava a um tempão
esperando seu pedido ser atendido. Com certeza não haveria gorjeta dessa vez, se é
que alguém ainda dava gorjetas.
Laura Rosenberg puxou o ar, ajeitou o casaco rosa e caminhou até ele.
— O que o senhor vai querer? — perguntou, profissional o suficiente para não soar
constrangida, mas humana demais para não deixar escapar um leve cansaço na voz.
O homem finalmente reagiu. Não virou o rosto por completo. Apenas deslocou o olhar
pelo canto dos olhos, abaixou o braço com calma e respondeu:
Laura assentiu e, ao se afastar, lançou um último olhar para a página aberta. Agora, de
perto, conseguia ler a manchete principal: algo sobre a bolsa de valores, o crescimento
no consumo de aparelhos eletrônicos da LordTech e, logo abaixo, em letras chamativas
demais para algo que se dizia sério: "Carpe Diem!"
Ela revirou os olhos em silêncio. Atrás do balcão, Laura começou a preparar o pedido.
Pegou o donut com cuidado, sentindo o açúcar grudar levemente na ponta dos dedos.
O chocolate brilhava sob a luz artificial da padaria, ainda fresco. Colocou-o no pratinho,
alinhando-o quase mecanicamente. Em seguida, puxou a xícara branca, posicionou-a
sob a cafeteira e observou o líquido escuro cair, quente, liberando um aroma forte e
reconfortante.
— Aqui está.
Nenhum agradecimento. Nenhum olhar. O homem apenas puxou o café e o donut para
mais perto, como se aquela interação fosse apenas um obstáculo vencido. Laura ficou
parada por um segundo a mais do que deveria.
Havia algo nele. Não era mistério exatamente, era familiaridade. Ela tinha certeza de
que já o vira ali inúmeras vezes. Sempre sozinho. Sempre com aquele jornal. Sempre
distante, como se estivesse em outro lugar enquanto ocupava aquele espaço físico.
Aquilo a incomodava. E, de alguma forma, atraía.
Ela analisou o jeito como ele segurava a xícara, as mãos firmes, os dedos longos, a
maneira como parecia completamente alheio ao mundo ao redor. Laura não gostava de
homens inalcançáveis. Gostava ainda menos de perceber que estava pensando neles.
E então, sem pedir permissão ao próprio bom senso, as palavras escaparam:
O efeito foi imediato. O homem finalmente abaixou o jornal e olhou diretamente para
ela. Um olhar fixo, avaliador. Uma sobrancelha arqueada, carregada de dúvida ou
julgamento. Laura sustentou o olhar, sentindo o canto da boca ameaçar um sorriso que
ela se recusou a dar de graça.
— Nunca viu Sociedade dos Poetas Mortos? — ela completou, num tom casual demais
para alguém que acabara de falar com um estranho como se fossem velhos conhecidos.
Ele não respondeu. Continuou olhando para ela por alguns segundos longos demais
para serem confortáveis. Laura sentiu o silêncio pesar, mas se recusou a recuar.
Cinismo era uma armadura que ela usava bem. Então, sem dizer uma única palavra,
ele voltou a atenção para o jornal. Como se nada tivesse acontecido.
Laura sentiu o impulso antes de entender o motivo. Não foi coragem, nem curiosidade
pura, foi aquela inquietação irritante que surgia sempre que ela se sentia desafiada.
Antes que pudesse reconsiderar, puxou a cadeira à frente do homem e se sentou.
— Você vem sempre aqui? — perguntou, apoiando o antebraço na mesa, casual
demais para alguém invadindo o espaço de um estranho — Porque eu não lembro de
já ter te visto… mas, ao mesmo tempo, lembro.
O homem não levantou o rosto. Não demonstrou surpresa. Não fez sequer o esforço
educado de reconhecer a pergunta com o olhar. Mordeu o donut com calma, mastigou,
deu um gole no café e só então respondeu:
— Eu venho com frequência — Sua voz era baixa, controlada. — Estou esperando um
amigo no momento. Ele vai passar aqui para me buscar.
Laura assentiu lentamente, como se aquela informação fosse importante. Não era. Mas
o silêncio que se seguiu pareceu exigir preenchimento. Ela observou enquanto ele
continuava a comer, lendo o jornal como se ela não estivesse ali. Aquilo a irritava. E,
por algum motivo inexplicável, fazia com que ela falasse mais.
— Não é nem questão de números. É a mais pura verdade. Você consegue perceber
isso de forma intuitiva, entende? Parece que quanto mais essas empresas crescem,
mais todo mundo precisa se virar pra justificar estar cansado o tempo inteiro. Todo
mundo ocupado demais pra perceber que tá ficando pra trás. E aí vem um slogan
desses, tipo Carpe Diem, como se fosse um favor.
— Aproveite o dia… trabalhando até quebrar. São elas as culpadas pelo mundo estar
do jeito que está. Concorda?
O homem finalmente largou o jornal sobre a mesa. Dobrou-o com cuidado, ainda
mastigando o donut, e ergueu os olhos para ela pela primeira vez desde que se sentara
ali.
— Como é que é? — ela reagiu de imediato. — Como você sabe meu nome?
Laura sentiu o rosto aquecer de leve. Irritação. Constrangimento. Algo mais difícil de
nomear. Ela abriu a boca para responder, mas a pergunta ficou presa.
Não era simples. Nunca era. A palavra “culpa” carregava muito mais do que economia,
empresas ou desigualdade. Carregava rostos, escolhas, ausências. Ela desviou o olhar,
fingindo interesse em um ponto qualquer da padaria. O silêncio entre os dois se
estendeu, denso. O homem continuava encarando-a, impassível, como se estivesse
disposto a esperar o tempo que fosse necessário. Laura engoliu em seco, apoiando as
mãos nos joelhos.
— Eu… — Laura começou, e a palavra saiu quebrada, como se tivesse tropeçado nela.
— Talvez. Talvez eu acredite. Ou talvez não. É difícil dizer — Ela soltou uma risada
curta, nervosa, que morreu antes de se formar de verdade. — Depende do dia. Do
humor. Do quanto eu dormi. Do quanto eu tô cansada de fingir que entendo como as
coisas funcionam.
O homem não disse nada. Não mexeu no café. Não tocou no jornal. Não desviou o
olhar. Apenas esperou. Ela baixou os olhos para as próprias mãos, apoiadas no colo.
Os dedos se entrelaçavam com força demais, as unhas pressionando a pele como se
aquilo pudesse mantê-la ancorada ali.
Ela suspirou fundo. Quando voltou a falar, não parecia mais estar falando com ele.
— Eu tinha uma amiga — A frase saiu de uma vez, sem preparo. — Há um bom tempo.
O nome dela era Felicity.
— A gente era… inseparável. De verdade. Não no sentido bonito que as pessoas usam
pra exagerar amizade. Era quase… quase como irmãs — Laura balançou a cabeça
devagar. — A gente fazia tudo juntas. Se protegia. Se ajudava. Brincava. Dava conselho
amoroso uma pra outra, mesmo não sabendo porcaria nenhuma sobre amor.
Ela fechou os olhos por um segundo, como se as imagens viessem rápido demais.
— A gente testava maquiagem juntas. Jogava videogame até tarde. Assistia filme velho,
daqueles que ninguém mais tem paciência. Desenhava. Ou só ficava desenhando
enquanto ouvia música, dividindo um fone. Contava piadas idiotas. Brigava por coisa
boba e fazia as pazes cinco minutos depois.
— Era como se… uma não conseguisse se manter de pé sem a outra. Como se o
mundo ficasse torto quando a gente não tava no mesmo lugar — Ela respirou fundo,
sentindo o peito apertar. — Aí, um dia, eu perdi alguém.
— Então eu virei alguém horrível — Ela levantou os olhos por um segundo, só para
garantir que ele ainda estava ali. Estava. — Eu fiquei agressiva. Controladora. Não
suportava ver a Felicity com outros amigos. Não suportava ver ela feliz em outro lugar
que não fosse comigo. Não suportava ficar sem falar com ela. Sem saber onde ela tava,
o que tava fazendo, com quem.
— Eu não suportava a ideia de que ela era… separada de mim. Porque essa é a
verdade, né? Ela era uma pessoa. Um indivíduo. Com escolhas. Desejos. Vontades. Ela
não era um bichinho de estimação. Nem um objeto. Nem um personagem que eu podia
pausar quando quisesse.
A respiração dela ficou irregular. Laura mordeu o lábio inferior com força, sentindo o
gosto metálico do sangue quase surgir.
— E eu… eu não consegui aceitar isso. E então teve um dia. Uma discussão. Uma
explosão. Eu passei de todos os limites possíveis. E ela foi embora. Isso faz um ano. A
gente nunca mais se falou.
— Na minha tentativa desesperada de manter ela perto pra sempre… eu garanti que
ela fosse embora pra sempre.
As lágrimas se acumularam, mas não caíram. Laura piscou várias vezes, lutando contra
elas.
— Eu chorei todos os dias por causa disso. Choro ainda. Mas não adianta. Não adianta
se lamentar — A voz dela saiu mais firme agora, endurecida. — A culpa foi minha.
— Meus amigos não tinham nada a ver com os meus traumas. Eu não tinha direito
nenhum de machucar eles por isso. No fim, eu fiquei sozinha justamente por medo de
ficar sozinha. Fiz novos amigos depois. Claro — Ela deu de ombros. — Mas todos são…
versões. Sombras. Todo mundo gosta de desenhar. Todo mundo gosta das mesmas
músicas estranhas. Dos mesmos filmes velhos. Do mesmo jeito de se vestir.
Laura respirava com dificuldade agora, os olhos brilhando. Ela não entendia. Não
entendia o que aquele homem tinha de especial. Por que estava falando tudo aquilo ali?
Por que se sentia confortável contando seus piores erros para um estranho que
conhecera há minutos?
O silêncio se estendeu por dois segundos exatos. Dois segundos longos demais para
serem vazios. Então o homem falou.
— A culpa é sua.
A frase veio limpa. Sem rodeios. Sem crueldade explícita. Educada demais para o peso
que carregava. Laura sentiu o corpo reagir antes da mente.
— Quem você pensa que é pra falar comigo assim? — a voz dela subiu um tom, ferida,
defensiva — Você não sabe nada sobre mim.
— Foi você quem começou a falar da própria vida com um estranho — respondeu,
calmo. — Se decidiu fazer isso, precisa aceitar ouvir algo que talvez não goste.
Laura abriu a boca para retrucar, mas fechou. O maxilar travou. Ele estava certo, e isso
a irritou ainda mais. Ela se recostou na cadeira, cruzou os braços sobre o casaco rosa
e ficou em silêncio. O homem respirou fundo antes de continuar, como alguém
organizando pensamentos que já conhecia bem demais.
— Culpa é uma coisa curiosa — começou. — Ela não aparece quando erramos por
ignorância. Ela aparece quando sabíamos exatamente o que estávamos fazendo. Você
não perdeu sua amiga por acidente. Não foi azar. Não foi destino. Foi medo. E medo
costuma se disfarçar de zelo, de cuidado, de amor.
— Mas saber não resolve nada, né? — ele continuou — A culpa não quer solução. Ela
quer permanência. Quer que você fique ali, revivendo a mesma cena, como se pudesse
reescrevê-la se pensar o suficiente. O problema é que algumas coisas… não admitem
reparo.
— Então o que eu faço? — ela perguntou, baixo — Finjo que não aconteceu?
— Não. Isso só cria versões piores de você mesma. Aceitar a culpa é necessário. Mas
morar nela é uma escolha. Uma escolha confortável, inclusive.
— Eu sei — ele assentiu. — Mas ainda assim, é mais fácil do que seguir em frente
carregando algo que não pode ser consertado. Algumas pessoas transformam a culpa
em penitência eterna. Outras em desculpa. Nenhuma das duas coisas devolve o que foi
perdido.
— Então eu só… aceito? — Ela riu fraco. — Sigo em frente como se nada tivesse
acontecido?
— Não — ele respondeu. — Você segue em frente sabendo exatamente o que
aconteceu. Sem pedir perdão a quem não está mais ali para ouvir. Sem esperar
absolvição.
— Mas não vai passar — disse por fim. — Ela só fica mais silenciosa.
O silêncio voltou a se impor. O homem levou o último gole de café. Laura permaneceu
sentada, os braços ainda cruzados, absorvendo cada palavra.
Foi então que o som cortou o ar. Uma buzina alta, longa demais para ser casual, ecoou
do lado de fora da padaria. O vidro da vitrine vibrou levemente. Laura e ele viraram o
rosto quase ao mesmo tempo, os olhos buscando a origem do barulho na rua ainda
úmida da manhã.
Ao lado do carro de Laura, estacionado de forma torta, havia outro veículo. Um Honda
Civic 2007, cor grafite, visivelmente cansado pelo tempo. Pequenos amassados
marcavam as laterais como cicatrizes antigas, e na roda traseira direita faltava uma das
calotas, deixando o metal exposto. O motor ainda estava ligado. No banco do motorista,
com a janela aberta, estava um homem que parecia ter muita pressa.
Ele tinha o rosto marcado por linhas finas ao redor dos olhos e da boca, sinais de
alguém que já havia vivido mais do que gostava de admitir. A barba era curta, irregular,
escura com fios grisalhos aparecendo sem esforço para esconder a idade. O cabelo
castanho-escuro, levemente ondulado, estava despenteado de um jeito natural, como
se o vento tivesse sido o único responsável por arrumá‑lo. Usava óculos escuros de
lentes pretas, que escondiam os olhos, mas não o foco: a cabeça estava levemente
inclinada, o queixo firme, encarando diretamente a padaria. O maxilar era definido e o
nariz reto.
Ele não buzinou de novo. Apenas esperou. O homem sentado à mesa com Laura soltou
um sorriso discreto, quase automático, como quem já reconhecia aquele sinal.
— Acho que chegou minha hora — disse ele, empurrando a cadeira para trás.
Laura voltou o olhar para ele, ainda em silêncio. Ele se levantou e perguntou, com um
tom leve, como se fosse apenas mais um detalhe irrelevante da manhã:
Antes que Laura pudesse reagir, ele pegou o donut que ainda não tinha terminado de
comer. Segurou-o com cuidado, como se fosse algo frágil, e começou a caminhar em
direção à saída. Ela o acompanhou com o olhar, o peito apertando sem um motivo claro.
Quando ele já estava de costas, quase alcançando a porta, Laura finalmente quebrou o
próprio silêncio.
— Espera.
— O que foi?
Por um instante, ele pareceu genuinamente surpreso. Então sorriu. Não foi um sorriso
ensaiado, nem defensivo. Foi simples, aberto, honesto demais para aquele homem.
Ele assentiu de volta, ainda sorrindo. Em seguida, virou as costas outra vez e saiu.
Laura o observou atravessar a calçada, abrir a porta do passageiro e entrar no carro. O
homem de óculos escuros não disse nada. Apenas engatou a marcha e arrancou, o
Civic grafite desaparecendo pela rua.
As lágrimas vieram silenciosas, quentes, caindo sem pedir permissão. E, pela primeira
vez desde que havia chegado aquela manhã, Laura deixou que elas caíssem.
CAPÍTULO 20
6 de janeiro de 2025
Atualmente.
Após alguns minutos seguindo pelo corredor estreito, o ambiente começou a mudar. As
paredes de tijolos deram lugar ao concreto cru, cinzento, sem qualquer tentativa de
torná-lo amigável. Fios grossos corriam pelas laterais, pelo teto e até pelo chão, presos
por grampos metálicos. Fusíveis antigos piscavam em vermelho fraco, emitindo um
zumbido constante que vibrava nos ouvidos de Edward.
Talvez aquela sala de tijolos amarelos tivesse sido apenas uma das ramificações. Um
ponto de convergência dos centros de energia da fábrica. Ou, mais especificamente, da
Game Station. A ideia não o tranquilizou nem um pouco. No canto extremo da sala,
quase escondida pelas sombras, Edward notou uma porta branca entreaberta. Não
havia correntes. Nem cadeados. Nenhuma placa de aviso. Apenas uma porta comum,
como se aquilo fosse um prédio qualquer.
Com o GrabPack ainda pesando em suas costas, ele se aproximou e empurrou a porta
com o cotovelo. Do outro lado, a mudança foi imediata.
Então, ele ergueu o olhar. No início do corredor, havia uma escadaria que levava até
um enorme alçapão vermelho. Grande demais para ser ignorado, ocupando quase
metade do teto do corredor. Não havia maçanetas, alavancas ou painéis visíveis.
Edward entendeu imediatamente.
— Então é isso… — pensou.
Aquele corredor não era apenas mais um trecho da fábrica. Era o caminho. O corredor
que levava ao terceiro desafio de Mommy Long Legs. Edward estava no Estátuas.
Do outro lado daquele alçapão vermelho estava a Game Station. O trem. E Poppy. Tudo
o que ele precisava para sair daquele lugar. Faltava pouco.
Virando-se para o lado oposto do corredor, Edward deu de cara com uma enorme porta
de correr de aço. Suja. Manchada. O vermelho escuro espalhado pela superfície não
deixava dúvidas do que tinha acontecido ali. Ao lado da porta, um painel de
escaneamento projetava a imagem holográfica de uma palma azul.
A mão extensora azul disparou pelo ar e se fixou no painel com precisão. O sistema
começou a escanear imediatamente. Linhas de luz percorreram a superfície da palma
holográfica até que o painel se iluminou por completo em verde, emitindo um som
eletrônico curto e definitivo. Aprovado.
Edward soltou o gatilho, sentindo a mão azul retornar pelo fio até se encaixar no
GrabPack com um clique seco. Por um breve instante, nada aconteceu. Então a porta
de aço começou a se mover. O som de metal enferrujado ecoou pelo corredor enquanto
as engrenagens antigas lutavam para funcionar. A porta se abriu lentamente.
Edward deu de cara com um ambiente terrivelmente mal iluminado. A escuridão parecia
engolir o espaço à sua frente, fazendo com que a sala se estendesse muito além do que
seus olhos conseguiam alcançar. De longe, aquela era, sem dúvida, a maior área em
comprimento que ele havia visto até então. Não era possível enxergar nem metade do
lugar e Edward teve a sensação incômoda de que isso não era uma limitação do
ambiente, mas parte do próprio desafio. O desconhecido fazia parte do jogo.
Ele avançou apenas alguns passos antes de parar novamente. Seus olhos começaram
a se ajustar lentamente, captando fragmentos do cenário. Atrás dele, ao lado da porta
por onde havia acabado de entrar, um duto de ventilação chamava atenção. A grade
estava ausente, deixando apenas uma abertura escura, profunda demais para que
qualquer feixe de luz alcançasse o interior. Um convite silencioso. Ou uma ameaça.
Erguendo o olhar, Edward percebeu algo que gelou seu estômago. Nos cantos
superiores da sala, quase se confundindo com a escuridão, havia diversas caixas de
som instaladas ao longo das paredes. Muitas delas. Espalhadas de forma estratégica.
Ele não sabia exatamente como, mas tinha certeza de que aquilo seria importante.
Importante demais.
E então, como se a fábrica fizesse questão de manter um padrão cruel, havia uma
enorme janela de vidro reforçado em uma das paredes. Do outro lado, uma sala
completamente branca. Limpa demais. Estéril demais. Uma figura estava ali, em pé,
observando. Mommy Long Legs.
— Eu era — respondeu, com a voz firme demais para quem não acreditava totalmente
no que dizia. — Bem feliz antes de você me arrastar pra esse inferno.
Mommy Long Legs inclinou levemente a cabeça. Um sorriso lento e torto se formou.
— Mentira — disse ela, com uma naturalidade cruel. — Nenhum humano feliz volta pra
este lugar. Ninguém mais trabalha aqui. Ninguém tem motivo pra voltar. Ninguém…
exceto você.
— Você trocou uma vida triste lá fora pra perseguir um objetivo inútil aqui dentro —
continuou ela, saboreando cada palavra. — Você não é um heroi, humano. Não salvará
ninguém aqui.
— Como você sabe disso?! — Edward gritou. — Como sabe que eu trabalhei aqui?
Como sabe por que eu voltei?
Mommy Long Legs começou a rir. Um riso alto demais. Longo demais. O som ecoou
pelas caixas de som espalhadas pela sala, multiplicando-se até virar algo quase
ensurdecedor. Ela se divertia, isso era óbvio.
— A sua amiguinha contou tudo — disse por fim, enxugando uma lágrima inexistente.
— A Poppy.
— Mas não fique bravo com ela — completou, inclinando-se um pouco mais perto do
vidro. — Eu não dei escolha…
Edward sentiu o ódio ferver. As mãos se fecharam em punhos. O corpo inteiro parecia
prestes a explodir em movimento. Mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, ele
sentiu uma respiração atrás de si.
O corpo era comprido demais para qualquer animal comum. Uma fusão grotesca entre
um cachorro e uma centopeia. A cabeça lembrava a de um pug caricatural: focinho
curto, largo, com dobras exageradas, bochechas infladas e uma língua grossa
pendendo para fora da boca aberta. O pelo era felpudo, em tons misturados de roxo e
ciano, irregular, como se tivesse sido moldado às pressas e nunca terminado
corretamente.
Os olhos eram grandes demais para o rosto. Esbugalhados. Brilhantes. Duas esferas
negras com pupilas dilatadas ao extremo, fixas em Edward com uma atenção faminta e
doentia. A saliva escorria livremente pelos cantos da boca, pingando no chão em fios
viscosos. Ele respirava pesado, arfando, cada inspiração fazendo o corpo inteiro se
contrair.
Mas o que mais perturbava não era o seu rosto. Era o comprimento.
O corpo do monstro se estendia para dentro do duto como uma serpente felpuda sem
fim. Segmento após segmento surgia, cada parte sustentada por pequenas patas
rosadas, curtas demais para aquele comprimento absurdo. Ele parecia infinito. Um erro
de proporção. Um pesadelo que não sabia quando parar de existir. Edward deu um
passo para trás, instintivamente. A criatura não reagiu. Ela apenas esperava.
Havia algo errado em sua postura. Não era como Bunzo Bunny. Não era como os Mini
Huggys. Não havia um ataque imediato, nem um avanço cego. O monstro estava atento,
tenso, mas contido. Como um cachorro adestrado aguardando um comando. Edward
sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
Do outro lado do vidro, Mommy Long Legs começou a rir. Um riso alto, arrastado, infantil
e cruel ao mesmo tempo.
— Ahh — cantarolou ela, levando uma das mãos ao rosto. — Olha só a sua carinha!
— Nesse momento — continuou ela, apontando para PJ — ele começa a rastejar atrás
de você. Se ele te alcançar… — Mommy deu de ombros. — Bom, você vira jantar.
Edward sentia o suor escorrer pelas têmporas. O corpo tenso, cada músculo pronto
para correr ou congelar. Mommy Long Legs se afastou do vidro lentamente.
No instante em que o som explodiu pelas caixas espalhadas no alto, alto demais para
qualquer noção de conforto, Edward percebeu que estava perdendo tempo. Ainda
encarava, no breu, o brilho hipnotizante dos olhos de PJ. A música vibrava no peito,
fazia o chão tremer sob seus pés, e cada segundo parado parecia um convite para a
morte. Ele virou as costas e correu.
Passou pela grade de aço escancarada ao lado do muro roxo, o ar cortando os pulmões
enquanto atravessava a abertura. De perto, o material das paredes não parecia
concreto. Nem pedra. Nem algo sólido de verdade. Era leve demais. O toque rápido de
seus dedos revelou uma superfície oca, quase macia. Papelão endurecido? Isopor
pintado? Não importava.
Porque aquilo não era um muro. Era um labirinto.
O silêncio relativo entre um refrão e outro foi preenchido por ecos do próprio sistema
da sala. Edward não tinha sinal de PJ Pug-a-Pillar. Mesmo assim, a ideia de que ele
poderia se mover era suficiente para apertar o peito de Edward.
Edward acelerou. O GrabPack batia contra suas costas, o peso puxando seus ombros
para trás. Ele quase escorregou em uma curva fechada, apoiando a mão na parede
falsa para não cair. O material afundou levemente sob a pressão, rangendo.
Tentou manter uma lógica. Contar curvas. Marcar referências. Tudo parecia igual. Cada
corredor levava a outro corredor idêntico. Não havia saída visível. Não havia fim.
Edward sentiu o estômago gelar. Correu mais. O coração batia tão forte que parecia
querer escapar pela garganta. Ele virou mais uma esquina e deu de cara com um beco
sem saída. Uma parede roxa lisa, sem grades, sem passagens.
Foi então que a música cessou. De forma abrupta. As luzes se acenderam. Brancas.
Cruéis. Revelando o labirinto em toda a sua extensão artificial.
PJ Pug-a-Pillar surgiu primeiro como um ruído. Não um som alto, mas um arrastar
abafado, irregular, como borracha úmida sendo puxada contra o piso frio do labirinto.
Edward não o via ainda. Apenas sentia. Cada músculo de seu corpo travou no instante
em que percebeu que aquilo não fazia parte da música.
Então PJ apareceu. Primeiro, apenas uma parte de seu corpo serpenteou por uma
curva distante. Segmentos longos, flexíveis demais, avançando em um ritmo lento e
deliberado. Cada movimento vinha acompanhado daquele som viscoso, arrastado, que
ecoava pelo labirinto com um atraso cruel.
Não havia pressa. Nenhum salto. Nenhuma explosão de movimento. Apenas a certeza
constante de que ele estava vindo. Edward sentiu o suor escorrer pelas costas. Um
reflexo simples, engolir em seco, pareceu barulhento demais em sua cabeça. Ele não
piscou. Não se mexeu. Sabia da regra. Sabia o que acontecia se falhasse.
Mais perto. Os segmentos do corpo colorido já ocupavam boa parte do campo de visão
de Edward. Ele podia ver pequenas marcas no plástico do chão sendo deixadas para
trás, um rastro sutil que denunciava o peso e a fricção daquele corpo impossível.
Ele quis correr. O impulso veio forte, quase incontrolável. As pernas imploravam por
movimento. O coração martelava tão alto que Edward tinha certeza de que aquilo, sim,
denunciaria sua posição.
Então, as luzes se apagaram. A escuridão caiu de uma vez, total, engolindo o labirinto.
O som do rastejar cessou no mesmo instante. E a música voltou. Alta. Repentina. Quase
violenta.
Edward não pensou, apenas correu. Os pés bateram no chão com força, o corpo
disparando pelo labirinto sem olhar para trás, guiado apenas pela memória fragmentada
dos corredores e pela urgência desesperada de sair dali.
"graveyard smash…"
A música preenchia tudo. Não havia silêncio, não havia espaço para pensar. Edward
virou à esquerda, depois à direita, depois novamente à esquerda, os corredores se
repetindo de forma cruel, cores iguais, curvas iguais, nenhuma indicação real de saída.
O labirinto parecia rir dele. Cada parede falsa devolvia o eco de seus passos como se
o estivesse denunciando.
Então, quase por acaso, Edward viu algo diferente. Um corredor mais curto. O chão
sem marcas. À frente, uma abertura ampla demais para ser apenas mais uma curva.
Ele forçou as pernas, ignorando a dor, e atravessou.
Edward saiu quase tropeçando, o corpo projetado para fora como se tivesse sido
cuspido. O espaço além era aberto demais depois de tanto confinamento, e por um
segundo ele teve que se apoiar nos joelhos, tentando recuperar o fôlego enquanto a
música ainda martelava seus ouvidos.
"monster mash…"
Foi então que ele viu. Três tubos vermelhos, grudados ao chão, alinhados lado a lado.
Não eram curvos como tobogãs comuns, mas longos e retos, como canos industriais
exagerados, feitos para engolir quem ousasse entrar. O primeiro era curto demais,
quase ridículo. O segundo parecia feito sob medida para uma criança. O terceiro era
grande.
Ele olhou para o próprio corpo. Para os ombros largos. Para o GrabPack preso às
costas, os braços mecânicos rígidos, impossíveis de serem dobrados ou retirados sem
muito esforço. Largar o equipamento não era uma opção. Nunca foi.
"a smash…"
O interior era escuro, estreito demais para alguém do seu tamanho. Ele se ajoelhou,
depois se deitou de lado, tentando calcular como passar. Assim que entrou, sentiu o
plástico frio pressionar o peito e as costas. O espaço era sufocante. Cada movimento
exigia força e paciência.
"monster mash…"
O coração disparou. O ar parecia mais pesado ali dentro. Edward avançou centímetros
de cada vez, os cotovelos raspando, os ombros queimando. Era grande demais para
aquilo. Grande demais para todos aqueles desafios. Pela primeira vez desde que
entrara na Games Station, ele teve certeza absoluta: aquilo tudo havia sido projetado
para crianças.
Ele ficou preso. Não completamente, mas o suficiente para entrar em pânico. O
GrabPack não passava. O peito mal expandia. Edward tentou se mover, para frente e
para trás, o tubo rangendo levemente sob seu peso.
"graveyard smash…"
Ele tentou se acalmar. Inspirar curto. Expirar curto. O som da música abafado pelo tubo
vibrava em seu corpo inteiro, como se o próprio cano estivesse pulsando junto com a
batida. Com um esforço desesperado, Edward girou um pouco o tronco, empurrou o
GrabPack para cima, sentiu algo finalmente deslizar.
De repente, ele se soltou. O corpo avançou alguns centímetros de uma vez, quase
violento demais. O alívio foi imediato, mas durou pouco. Logo em seguida, a música
cessou. O silêncio caiu pesado, absoluto. Logo em seguida, Edward ouviu o estalo seco
das luzes se acendendo do lado de fora do tubo. O som metálico ecoou pelo interior
estreito como um aviso de sentença. Então… outro som. Um arrastar distante. Lento.
Reconhecível demais.
Edward congelou. Não virou a cabeça. Não podia. O tubo não permitia, e mesmo que
permitisse, ele sabia que não devia. Tudo o que existia agora eram os sons e as
sensações.
O arrastar ficou mais próximo. O plástico do chão sendo pressionado por algo pesado,
segmentado. Cada avanço vinha acompanhado de uma vibração quase imperceptível,
transmitida pelo próprio tubo até o corpo de Edward. Um som úmido. Um fungar baixo.
Algo encostou na parte externa do tubo.
Edward sentiu o ar se mover atrás de si, como uma respiração grande demais para
aquele espaço. O coração disparou tanto que parecia bater contra o plástico. Ele
prendeu o fôlego, com medo de que até isso fosse ouvido. Outro fungar. Mais perto.
O tubo tremeu levemente quando algo se pressionou contra a abertura. Edward sentiu
o cheiro antes de qualquer toque. Um odor plástico misturado com algo velho, guardado
por tempo demais. Então, um roçar. Algo tocou sua bota.
Foi leve no início, quase curioso. Um deslize lento ao longo do solado, subindo um
pouco pelo tornozelo. Edward cerrou os dentes com força, o corpo inteiro rígido, como
se até o pensamento pudesse denunciá-lo. O toque voltou. Mais firme.
O ar foi puxado com força atrás dele. Muito perto agora. Tão perto que Edward sentiu
a vibração de um movimento maior, como se algo estivesse se preparando. O plástico
do tubo rangeu. A pressão na perna aumentou. PJ Pug-a-Pillar não estava mais
farejando Edward e agora começava a abocanhá-la.
No instante exato em que algo se fechou ao redor de sua bota, a música explodiu de
volta.
"they did the mash…"
As luzes se apagaram com um estalo quase aliviador. O peso atrás dele cessou. O
contato sumiu de uma vez, como se nunca tivesse existido.
Edward não esperou. Ele puxou a perna com tudo, avançando pelo tubo enquanto a
música tomava conta novamente, alta, dominante. O corpo se arrastou para frente,
raspando, doendo, mas livre. Ele continuou seguindo pelo tubo, sem olhar para trás,
sem pensar em mais nada além de sair dali antes que o silêncio voltasse.
"monster mash…"
Edward puxou a perna com tudo, avançando pelo tubo enquanto a música tomava
conta novamente, alta, dominante. O corpo se arrastou para frente, raspando, doendo,
mas livre. Ele continuou seguindo pelo tubo, sem olhar para trás, sem pensar em mais
nada além de sair dali antes que o silêncio voltasse.
"monster mash…"
Edward chegou ao fim do tubo quase caindo para fora. O corpo deslizou de uma vez,
sem elegância alguma, e ele despencou sobre uma superfície macia demais para ser
chão sólido. O impacto foi absorvido imediatamente, como se tivesse sido engolido.
Cubos de espuma. Muitos deles. Amontoados, coloridos, iguais aos de parques infantis,
formando uma espécie de piscina profunda que cedeu sob o peso de seu corpo adulto.
Edward afundou até a cintura antes de conseguir se firmar, respirando fundo enquanto
a música ainda pulsava no ambiente.
Ele ergueu o olhar. Não eram os cubos que importavam. No centro do espaço, erguia-
se o verdadeiro desafio.
Um poste alto surgia do meio da piscina de espuma. Dele partia uma haste metálica
longa, suspensa no ar, conectando-se a outro poste mais distante. Presas a essa haste,
alinhadas em sequência perfeita, estavam várias argolas metálicas, espaçadas de
forma regular. Um percurso suspenso. Simples de entender, mas ao mesmo tempo cruel
de executar, ao menos para quem estivesse preso às limitações de um corpo comum.
Enquanto a música seguia alta, constante, ele não perdeu tempo se preocupando com
o que podia estar à espreita fora de sua visão. PJ Pug-a-Pillar simplesmente deixou de
existir em sua mente naquele instante. Não havia luzes acesas. Não havia silêncio. Só
o ritmo pulsante guiando seus movimentos.
Era quase automático. Uma argola após a outra. O GrabPack se estendia, retraía,
girava no ar com fluidez, transformando o percurso em algo quase elegante. Edward
avançava rápido demais para qualquer hesitação. Não havia medo. Não havia dúvida.
Apenas movimento.
O corpo balançava sobre o vazio, passando acima dos cubos de espuma como se
estivesse em um playground distorcido. O metal rangia levemente a cada impacto das
mãos mecânicas, mas nada falhava. Edward não olhou para baixo. Não olhou para trás.
Não precisava.
Ele alcançou a última argola com um movimento final mais longo. O GrabPack se
esticou ao máximo, puxando seu corpo para frente, e então soltou. Edward saltou.
Caiu do outro lado, afundando novamente na espuma macia, rolando alguns cubos
antes de conseguir se levantar. O coração batia forte, mas não por medo. Por
adrenalina. Aquilo tinha sido fácil demais.
Edward sentiu o corpo travar antes mesmo de compreender exatamente o que estava
vendo. A música ainda tocava. As luzes ainda estavam apagadas.
O que havia à sua frente não era um novo obstáculo. Não era uma criatura. Não era
um desafio final. Era nada.
Foi nesse instante que Edward entendeu que não era para ele vencer. Nunca foi.
Mommy Long Legs jamais lhe daria o terceiro pedaço do código do trem. Ele nunca
chegaria até o trem. Nunca sairia dali. Nunca reencontraria Poppy, isso se ela ainda
estivesse inteira.
Aquilo tudo não passava de um teatro cruel. Mommy não jogava para perder. Não ali.
Não agora. Ela já havia se divertido o suficiente com os outros desafios. Agora, queria
apenas vê-lo morrer.
A música cessou de forma abrupta. O silêncio caiu pesado, quase ensurdecedor. As
luzes se acenderam. Edward não se mexeu.
Mesmo sabendo que não adiantaria. Mesmo sabendo que estava morto de qualquer
forma. Ainda assim, o corpo obedeceu. Os músculos ficaram rígidos. A respiração
tornou-se rasa.
Então ele ouviu. Um arrastar úmido, pesado, vindo do tubo vermelho atrás dele. Edward
virou apenas o suficiente para ver.
PJ não tinha braços. Não tinha mãos. Ainda assim, não precisava deles.
O corpo comprido se arqueava para cima, enrolando-se na haste metálica como uma
serpente gigantesca. Segmento após segmento, ele se pendurava pelas argolas usando
o próprio peso e atrito, comprimindo o metal entre suas dobras, deslizando de uma para
outra com movimentos lentos, calculados, grotescamente eficientes.
O poste rangia sob o peso distribuído do monstro. Até que, por fim, PJ se soltou da
última argola. Caiu.
A espuma cedeu sob seu impacto pesado, espalhando cubos para todos os lados.
Quando Edward percebeu, a criatura já estava ali. A poucos metros de distância. Os
dois se encararam.
Então, instintivamente, ele olhou para a esquerda. Ali havia uma janela.
Era idêntica àquela atrás da qual Mommy Long Legs o observava desde o início do
desafio. Um grande vidro separando aquela arena de uma sala branca, estéril, quase
clínica. Mas, diferente da outra, aquela parecia conter mais coisas dentro.
Equipamentos. Estruturas. Talvez uma chance.
Sem pensar mais, ele apertou os gatilhos do GrabPack. Ambas as mãos extensíveis
dispararam ao mesmo tempo, cruzando o ar com violência e se prendendo na moldura
da janela com um estalo seco.
No mesmo instante, PJ Pug-a-Pillar reagiu.
A criatura ganhou uma velocidade absurda, quase antinatural. O corpo antes lento
explodiu em movimento. PJ avançou em um único impulso, a bocarra se abrindo ao
máximo, revelando dentes quadrados, cerrados, pressionados uns contra os outros
como blocos de pedra. A língua grossa pendia para fora, a saliva sendo arremessada
pelo ar enquanto ele atacava.
Edward se lançou no mesmo segundo. O GrabPack puxou seu corpo com violência
para frente, arrancando-o da piscina de espuma. PJ mordeu o vazio onde ele estivera
um instante antes. Os dentes se fecharam com força total sobre um dos cubos de
espuma, rasgando-o ao meio.
Edward foi puxado com força brutal contra a janela. O impacto foi seco. O vidro estourou
em uma chuva de estilhaços. Ele sentiu cortes rasgarem sua pele, o calor imediato do
sangue surgindo em vários pontos do corpo.
Ele bateu contra o chão de mármore da sala branca com um baque oco. Edward rolou
uma vez antes de parar, ofegante, suando, os pulmões queimando enquanto tentava
puxar ar para dentro.
Edward Finch começou a se levantar com dificuldade extrema. Cada músculo parecia
protestar, cada articulação gritava. Chocar-se contra uma janela e atravessá-la à força
não estava exatamente em seus planos para o início do ano, mas havia sido isso ou
morrer. Os cortes ainda ardiam, pequenos fios de sangue escorrendo pelos braços e
pelo lado do rosto, mas ele continuava respirando. E isso, naquele lugar, já era uma
vitória improvável.
A sala em que havia caído era silenciosa demais. Branca demais. Um contraste quase
violento com o caos colorido e barulhento da arena que ficara para trás. O chão de
mármore refletia a luz fria do teto, criando um brilho opaco que machucava os olhos.
Edward apoiou as mãos nos joelhos, tentando estabilizar a respiração, antes de
finalmente erguer o olhar para observar o ambiente.
Edward se aproximou de uma das mesas, apoiando-se nela por um instante. Bastou
um rápido olhar para entender o que eram. Relatórios de desempenho. Avaliações.
Anotações técnicas cheias de gráficos, tabelas e observações frias, impessoais.
Médicos. Pesquisadores. Pessoas que observavam.
Observavam crianças. Crianças sendo submetidas àqueles mesmos desafios. Àquelas
mesmas salas. Àquelas mesmas regras cruéis, embora, em algum momento distante,
talvez tudo aquilo tivesse sido diferente.
"Naquela época, os desafios da Game Station deviam ser menos mortais…", Edward
pensou, a constatação surgindo com um gosto amargo na boca.
No centro da sala, jogada de qualquer maneira, havia uma grande lona branca. Estava
suja de poeira, marcada por pegadas antigas, como se tivesse sido arrastada e
abandonada ali sem qualquer cuidado. No canto oposto, uma porta cinza permanecia
entreaberta, revelando um corredor estreito além dela. A iluminação fraca deixava
apenas uma faixa do chão visível, o resto engolido pela penumbra.
Mas foi a parede à sua frente que realmente capturou sua atenção. Ali, pendurado de
forma torta, havia um pôster promocional da Playcare.
O cartaz era grande, colorido, com bordas arredondadas. Mostrava um prédio alegre
demais para aquele lugar: paredes em tons pastéis, janelas largas, cercas brancas e
um enorme sol sorridente desenhado no céu azul. Em primeiro plano, várias crianças
caricatas apareciam brincando, de mãos dadas, rindo de forma exagerada. Acima delas,
o nome “Playcare” surgia em letras grandes, curvas e coloridas, acompanhado de um
slogan otimista demais para não parecer forçado.
Edward sentiu algo se revirar dentro do peito ao encarar aquela imagem. Ele já estivera
lá.
Foi então que ouviu passos. Lentos. Deliberados. Vindos do corredor além da porta
cinza. Edward congelou. O som ecoava suavemente, ritmado demais para ser acaso.
Não era PJ. Não era algo rastejando. Eram passos. Foi aí que a compreensão veio
como um soco no estômago.
Aquela sala estava conectada diretamente à sala de observação de Mommy Long Legs.
A janela quebrada não havia sido apenas uma rota de fuga. Tinha sido uma linha direta
entre eles. Ela o havia visto escapar e agora vinha atrás dele.
O pânico voltou com força total. Edward girou o corpo, ignorando a dor, procurando
desesperadamente por outra porta, outro duto de ventilação, qualquer coisa que não
fosse aquela passagem óbvia. Não havia nada. Apenas paredes lisas. Mesas. Silêncio.
Então ele se lembrou da lona. Cambaleando, Edward a puxou para o lado. O que
encontrou abaixo dela fez seu estômago afundar.
Um buraco enorme se abria no chão da sala. Uma cratera irregular de terra e pedra,
como se o piso tivesse simplesmente cedido em algum momento do passado. Não havia
grades. Não havia escadas. Apenas escuridão absoluta, profunda demais para se ver o
fundo.
O ar que subia de lá era frio. Úmido. Antigo. O que quer que aquele fosso levasse, não
parecia seguro. Mas também não importava.
Edward olhou mais uma vez para a porta cinza. Os passos estavam mais próximos
agora. Não havia sinal visual de Mommy Long Legs ainda, mas ele sabia. Era apenas
questão de segundos.
Ele respirou fundo. Então, sem se permitir pensar mais, deu um passo à frente e pulou.
CAPÍTULO 21
Edward Finch descia o fosso aos poucos, com cuidado quase ritualístico. As mãos
afundavam na terra úmida, os dedos escorregando entre pedras irregulares enquanto
ele buscava pontos de apoio. A superfície era áspera, cruel. Cada movimento arrancava
ardência da pele, e não demorou para sentir os calos se formando, a sensibilidade
dando lugar a uma dormência incômoda. O silêncio ali embaixo era pesado, quebrado
apenas pela própria respiração e pelo som abafado de pequenos deslizamentos de
terra.
O fosso não seguia reto. Depois de alguns metros, ele fazia uma curva suave, quase
antinatural, como se tivesse sido cavado com algum propósito específico. Edward
precisou se arrastar, engatinhar com o corpo colado à terra, sentindo o pó se infiltrar na
boca, no nariz, nos cortes ainda abertos. A escuridão era total. Não havia cima nem
baixo, apenas a sensação constante de estar sendo engolido.
A sala lembrava todas as áreas técnicas que ele já havia atravessado dentro da fábrica.
Cinza. Crua. Funcional. As paredes de concreto eram marcadas por manchas antigas
de umidade e fissuras finas que serpenteavam pela superfície. Pintados diretamente
nelas, símbolos de alerta se repetiam: triângulos amarelos com raios negros, placas
escritas às pressas com “AVISO!” e “CUIDADO: ALTA VOLTAGEM!”. A tinta estava
descascada em vários pontos, como se o tempo tivesse tentado apagar aqueles avisos,
sem sucesso.
O chão era cortado por várias esteiras de produção, largas e metálicas, agora imóveis.
Sobre elas, caixas de papelão seguiam alinhadas, presas em um eterno meio-caminho.
Algumas estavam abertas, revelando partes de brinquedos: braços de plástico colorido,
olhos grandes demais, engrenagens pequenas e molas brilhando sob a luz de
emergência fraca. Outras caixas estavam rasgadas, como se alguém tivesse passado
por ali com pressa ou desespero.
Nas paredes, quadros e suportes exibiam pôsteres promocionais da Playtime Co. Eram
imagens vibrantes, quase agressivas em contraste com o ambiente morto ao redor.
Huggy sorria em um deles, braços abertos, convidativo demais. Em outro, Mommy Long
Legs aparecia esticada entre formas geométricas, colorida, divertida, mentindo
descaradamente sobre o que realmente era. O papel estava amarelado nas bordas,
alguns cartazes pendiam tortos, presos por apenas um prego enferrujado.
Acima, dutos de ventilação serpenteavam por todo o teto, cruzando-se como veias
metálicas. Alguns estavam amassados, outros abertos, revelando apenas escuridão em
seu interior. O ar ali dentro era parado, cheirando a poeira antiga, óleo e algo levemente
adocicado que Edward preferiu não identificar.
A sala se conectava a vários corredores. Cinco, talvez mais. Todos pareciam iguais à
primeira vista: longos, estreitos, engolidos pela penumbra. Nenhuma indicação clara de
destino. Nenhum mapa. Nenhuma saída óbvia.
Edward não precisou pensar muito para entender onde estava. Aquilo era uma linha de
produção. Uma das muitas artérias da fábrica, responsável por transformar ideias
sorridentes em brinquedos reais. Ou pelo menos, costumava ser. Agora, estava morta.
Nenhuma máquina funcionava. Nenhuma luz principal estava acesa. Apenas o silêncio
e o abandono. Ele sentiu um aperto no peito ao perceber o óbvio: sem energia, aquele
lugar era um labirinto inútil. E, pior, perigoso.
Após alguns metros, o corredor terminou abruptamente em uma porta pesada, de aço,
marcada por riscos profundos e placas de advertência quase totalmente descascadas.
Um letreiro torto acima dela indicava que era a sala de fusíveis.
A sala de fusíveis era ampla e alta, construída inteiramente em concreto bruto. O ar ali
era mais frio, carregado de um zumbido quase imperceptível, como se a eletricidade
ainda tentasse existir mesmo sem energia ativa. Fileiras de painéis elétricos ocupavam
as paredes laterais, grandes caixas metálicas com portas abertas ou arrancadas à força.
Dentro delas, fusíveis queimados, cabos derretidos e disjuntores quebrados
denunciavam uma falha grave, não um simples desligamento.
No centro da sala, o chão era cortado por canaletas abertas, onde grossos cabos de
energia passavam expostos. Alguns deles estalavam ocasionalmente, liberando faíscas
fracas e intermitentes, restos de carga elétrica vazando de forma instável. O cheiro de
metal queimado era forte, misturado ao odor seco de poeira antiga.
À frente de tudo isso, ocupando quase toda a parede oposta, havia um portão enorme
de metal. Era grosso, pesado, formado por grades verticais reforçadas. Entre as barras,
Edward só conseguia enxergar escuridão absoluta. Nenhum reflexo. Nenhum
movimento. Apenas um vazio profundo que parecia engolir a luz fraca da sala. Ele não
teve tempo para pensar no que poderia haver além daquele portão.
Com cuidado, estendeu a mão verde até um cabo rompido que ainda cuspia faíscas.
No instante em que tocou o metal exposto, a eletricidade correu para a luva, envolvendo-
a em um brilho intenso e instável. Um arrepio percorreu seu braço, mas a corrente ficou
contida ali, presa, vibrando como algo vivo.
Sem hesitar, ele girou o corpo e lançou a mão em direção ao terminal principal de
energia do painel central. A carga foi transferida no impacto, irradiando o circuito com
um estalo alto e seco. As luzes de emergência piscaram violentamente.
Primeiro, ali. Lâmpadas fluorescentes acima dele ganharam vida com estalos altos,
iluminando a sala de fusíveis por completo. O concreto revelou manchas antigas,
rachaduras profundas, marcas de queimadura nas paredes. Em seguida, Edward ouviu
o som se espalhar: o eco distante de luzes sendo religadas em outras salas, uma após
a outra, como um organismo acordando lentamente.
E então veio o som mais pesado. O portão de metal à sua frente começou a se mover.
As engrenagens rangiam alto enquanto as grades se erguiam lentamente, puxadas pela
eletricidade recém-restaurada. A escuridão além dele parecia se afastar aos poucos,
dando lugar a algo que Edward ainda não conseguia ver por completo.
Mas imaginar que o universo seria benevolente naquele lugar era uma perda de tempo.
Antes que Edward pudesse dar um único passo em direção ao portão se abrindo, algo
se moveu além das grades. Dois braços rosa se esticaram para fora da escuridão,
longos demais, finos demais, deslizando entre as barras de metal com uma facilidade
antinatural. Logo depois, dois olhos verdes brilharam no breu, fixos nele, intensos como
lâminas.
Mommy Long Legs emergiu lentamente da escuridão, o corpo se revelando aos poucos
conforme a luz da sala alcançava suas formas elásticas. Mas não havia nada de
amigável, nada de lúdico ou maternal nela agora. Seu rosto estava contorcido em puro
ódio. O sorriso parecia forçado para baixo, e seus olhos tremiam de raiva.
— NÃO — ele gritou de volta, a voz rouca, mas firme. — Quem trapaceou foi você! Foi
você que bloqueou a saída! Foi você que nunca me deu o terceiro papel do código!
— Ahhh… — ela riu, uma risada seca, forçada, que não tinha humor algum. — Então
você ENTENDEU, não é?
A criatura gargalhou, agora mais alto, mais instável. Sua voz deslizava entre o agudo e
um grave artificial, grotesco, lembrando uma imitação exagerada.
— ÓBVIO que é isso que eu quero! — ela disse, abrindo os braços. — É isso que
humanos como você MERECEM.
— “Marie, faça aquilo!” — ela imitou. — “Marie, isso está errado!” — deu uma risada
curta. — “Marie… é hora da terapia de choque!”
O mundo de Edward pareceu parar. Seu rosto mudou. Os olhos se arregalaram, não
de medo, mas de compreensão. As memórias vieram em avalanche.
O grande projeto de Harley Sawyer não era tecnológico. Era humano. Ou o que restava
disso. As crianças da Playcare. Transformadas. Remodeladas. Forçadas a caber em
corpos monstruosos.
Mommy Long Legs não era um brinquedo. Ela era Marie Payne. Experimento 1222.
Uma criança.
Os jogos da Game Station não eram entretenimento. Eram testes. Seleção. Uma forma
de decidir quais crianças eram “aptas” para sobreviver à transformação. Foi isso que
Rowan Stoll havia descoberto tantos anos atrás.
Mommy continuava gritando, cuspindo palavras cheias de rancor.
— Humanos não merecem regras! — ela vociferou. — Não merecem jogos limpos! Não
merecem voltar para suas vidinhas comuns!
— Vamos jogar um último jogo, humano… — disse, a voz deslizando, doce e cruel ao
mesmo tempo. — Um joguinho de pega-pega.
— Um…
O som dos próprios passos parecia alto demais naquele espaço industrial silencioso, e
foi apenas quando alcançou a sala principal da linha de produção que ele percebeu o
quão exposto estava. Esteiras imóveis carregavam caixas de papelão meio abertas, de
onde escapavam braços de bonecos, olhos de plástico e peças coloridas quebradas. O
lugar parecia um cemitério de brinquedos.
Sem pensar duas vezes, Edward se jogou para trás de uma pilha irregular de caixas
empilhadas de qualquer jeito, misturadas a pedaços de brinquedos descartados. O
papelão amassado arranhou sua pele ferida, mas ele ignorou a dor. Se encolheu ali,
puxando os joelhos contra o peito, tentando ocupar o menor espaço possível.
O ar entrava rápido demais, preso na garganta. Edward fechou os olhos por um instante
e forçou o controle, inspirando pelo nariz, soltando pela boca, lenta e silenciosamente.
Qualquer ruído poderia denunciá-lo.
Enquanto o corpo tremia, a mente corria. Como ele não tinha percebido antes?
Estava tudo ali desde o começo. Os relatórios frios, sempre evitando nomes. As
palavras técnicas usadas para falar de crianças. As câmeras posicionadas nos jogos,
não para segurança, mas para observação. Nada daquilo era entretenimento. Nada
nunca foi.
Edward abriu os olhos, mas não se mexeu. Sentiu a presença antes mesmo de vê-la.
Mommy Long Legs surgiu entre as sombras, agora naquela forma grotesca e
impossível. O corpo parecia ocupar espaço demais, os braços longos se esticando até
tocar as paredes laterais da sala, os dedos transformados em garras raspando o
concreto com um som lento e deliberado.
Mommy Long Legs passou perto demais. Tão perto que ele pôde ouvir o som úmido de
suas articulações se movendo, o estalo estranho de algo que não deveria se dobrar
daquela forma. Ela tocava as paredes, os equipamentos, deixando marcas profundas
no concreto, murmurando palavras quase infantis, distorcidas demais para serem
compreendidas.
Por um momento eterno, Edward teve certeza de que havia sido encontrado. Mas
então, lentamente, Mommy Long Legs se virou e seguiu por outro corredor. Seus braços
se esticaram para dentro da escuridão, como se aquele fosse o caminho certo.
Sem olhar para trás, escolheu o corredor oposto ao que Mommy havia seguido. E
seguiu em frente. Ao atravessar o corredor oposto, Edward deu de cara com um calor
sufocante.
A sala se abria em um espaço amplo e alto, com paredes de concreto escurecidas pelo
tempo e pela fuligem. No centro, uma enorme fornalha industrial permanecia acesa, o
interior brilhando em tons de laranja e vermelho intensos. O fogo crepitava de forma
constante, vivo, como se nunca tivesse sido desligado desde os primeiros dias da
fábrica. O calor irradiava em ondas, fazendo o ar tremular e a respiração pesar.
Edward não tinha ideia de onde viera parar aquela água. Era impossível ter sido
deixada pelos funcionários, afinal ela teria evaporado 10 anos depois. Será que foram
os experimentos que a trouxeram até ali? Mas, como? E qual a finalidade de fervê-la?
Ele teria tempo pra se fazer todas essas perguntas mais tarde.
Na parede lateral, um quadro chamava atenção. Era uma imagem antiga, levemente
amarelada, de Leith Pierre. Ele sorria de forma exageradamente confiante, vestindo um
terno impecável, fazendo um sinal de positivo com a mão. Abaixo da foto, em letras
grandes e coloridas, estava escrito: “Tomem cuidado ao jogar os brinquedos defeituosos
no fogo!”
O olhar dele desceu para o chão, onde percebeu algo diferente na superfície de
concreto: uma escotilha metálica, larga, embutida no piso. A tampa era pesada, cheia
de marcas de ferrugem e fuligem, com uma manivela antiga presa ao centro. Parecia
levar para níveis inferiores da fábrica, talvez antigos túneis de manutenção ou descarte.
No canto oposto da sala, outro corredor se estendia para a escuridão. Mas antes que
pudesse considerá-lo, Edward notou algo mais. Mais ao fundo, quase escondido atrás
de estruturas metálicas e tubulações grossas, havia outro conjunto de fusíveis, fios e
painéis elétricos. Diferente dos sistemas modernos que ele já havia visto, aquilo parecia
antigo demais.
Ele se aproximou. O painel era grande, pesado, feito de metal grosso. Não havia telas
digitais, nem indicadores modernos. Em vez disso, fileiras de válvulas de vidro, algumas
opacas pelo tempo, outras ainda levemente brilhantes, ocupavam o interior. Cabos
grossos se conectavam a transformadores enormes, e pequenas placas metálicas
traziam avisos desgastados sobre voltagem e temperatura.
Aquilo era pré-histórico para os padrões da Playtime Co. Não havia manuais digitais,
nem encaixes óbvios. Cada válvula parecia cumprir uma função específica, e qualquer
erro poderia sobrecarregar todo o sistema. Ele respirou fundo e começou a analisar.
Com cuidado, acionou a mão verde do GrabPack, estendendo-a lentamente até um dos
cabos energizados. A eletricidade correu pela luva isolante, vibrando em seu braço
como um formigamento intenso. Ele tinha poucos segundos.
Girou o corpo e lançou a mão em direção a uma válvula apagada, encostando o terminal
metálico. A descarga se transferiu, fazendo o vidro da válvula brilhar por um instante
antes de se estabilizar. O zumbido do sistema mudou de tom.
O som distante de outras áreas da fábrica ganhando energia ecoou pelos corredores:
motores despertando, sistemas reiniciando, vida retornando àquele lugar morto. Edward
deu um passo para trás, ofegante.
A luz recém-restaurada ainda parecia estranha aos olhos de Edward quando um som
rasgou o ar da sala. Algo se movia no segundo corredor.
Antes que pudesse reagir, do meio da escuridão, Mommy Long Legs irrompeu para
dentro da fornalha como um pesadelo ganhando forma. Os olhos negros refletiam a luz
recém-acesa com um brilho doentio. Seus braços se esticavam além do possível,
arrastando-se pelas paredes, pelo teto, pelo chão, como se o próprio espaço fosse
insuficiente para contê-la.
O calor da fornalha queimava sua pele enquanto ele disparava entre os baldes
ferventes e os restos de brinquedos. Seus pés escorregavam em plástico derretido e
óleo antigo. Ele quase caiu duas vezes, usando o GrabPack para se equilibrar,
disparando uma das mãos contra uma viga para se puxar adiante.
Atrás dele, o som era pior do que passos. Era um rastejar rápido, múltiplo, como
dezenas de membros se movendo ao mesmo tempo. Os braços de Mommy Long Legs
se cravavam nas paredes e a puxavam para frente com violência, quebrando concreto,
arrancando fios, passando por cima dos baldes como se não pesassem nada. Edward
tentou mudar de direção, contornando a fornalha, sentindo o ar quente rasgar seus
pulmões. Usou a mão azul para puxar uma pilha de caixas na tentativa de atrasá-la,
mas Mommy simplesmente atravessou tudo, despedaçando papelão e plástico com
facilidade absurda.
Foi então que, através da visão embaçada, ele viu os baldes de água fervendo. O vapor
subindo. O metal vibrando.
Com o pouco de consciência que restava, Edward virou levemente a cabeça. Usando
apenas a visão periférica, forçou o braço direito a se mover. O dedo apertou o gatilho
da mão azul. O cabo disparou. A mão metálica se prendeu à alça de um dos baldes e
puxou com tudo.
A água fervente voou. O impacto foi direto no rosto de Mommy Long Legs.
O grito que ela soltou não parecia humano. Era agudo, distorcido, cheio de dor e fúria.
A água entrou em seus olhos negros, escorreu pela boca cheia de dentes, fazendo a
criatura se contorcer violentamente. Os braços afrouxaram e ele conseguiu se soltar.
Bateu com força no chão de concreto, o ar voltando aos pulmões em uma golfada
desesperada. Tossiu, rolou para o lado, sentindo o pescoço arder como se estivesse
quebrado. Mommy ainda gritava, levando as mãos ao rosto, os dedos arranhando a
própria pele rosa, furiosa.
Edward sabia bem que aquilo não a tinha derrotado. Nem chegava perto.
Ele se arrastou até a escotilha metálica no chão, as mãos tremendo enquanto agarrava
a manivela enferrujada. Girou com força. O metal chiou, resistindo. Ele girou de novo, e
mais uma vez, os músculos queimando. A escotilha cedeu.
Edward puxou a tampa com tudo, se jogando para dentro do buraco escuro logo abaixo.
Antes que pudesse cair completamente, puxou a escotilha de volta e a fechou por
dentro. O som pesado do metal se fechando ecoou. E a escuridão o engoliu.
Ele deslizou por um trecho inclinado de metal escorregadio antes de despencar em algo
viscoso, fétido e morno demais para ser água comum. O impacto fez um som abafado,
quase pastoso. O cheiro veio logo em seguida, agressivo, invadindo o nariz e a
garganta. Ele engasgou, tentando não vomitar. Quando conseguiu se apoiar, percebeu
onde estava.
Não era uma passagem subterrânea organizada, nem um túnel de manutenção. Era
um encanamento de esgoto industrial, largo o suficiente para ele se arrastar, mas baixo
demais para ficar de joelhos com conforto. As paredes curvas eram de concreto antigo,
rachado, coberto por limo escuro e resíduos acumulados ao longo de décadas. Filetes
de água suja escorriam constantemente, formando pequenas poças que se moviam
devagar em direção a grades enferrujadas.
Edward começou a se arrastar.
De uma abertura circular na parede lateral, um braço rosa começou a surgir. Não vinha
rápido. Deslizava devagar, como uma cobra explorando território novo. A pele sintética
arranhava o concreto, deixando marcas escuras. Os dedos se abriram e fecharam no
ar, tateando.
Mommy Long Legs não podia entrar ali por inteira. Mas não precisava.
Ele virou bruscamente para o outro túnel. O caminho se estreitava, o teto baixava ainda
mais, obrigando Edward a virar o corpo de lado, empurrando-se com os pés. O cheiro
ficava pior. A água subia até a altura do peito em alguns trechos. Ele avançava quase
às cegas, sentindo o concreto com os dedos, o coração martelando tão alto que parecia
denunciar sua posição.
Um segundo braço surgiu de uma fenda no teto, descendo como um gancho vivo.
Edward se jogou para trás no último segundo, sentindo o vento do movimento passar
perto demais do rosto. O braço bateu no chão do túnel com força, rachando o concreto,
e voltou a se mover, procurando.
O esgoto era um labirinto. Alguns caminhos não levavam a lugar nenhum. Ele entrou
em um túnel que parecia promissor, apenas para se deparar com uma parede de detritos
compactados, impossível de atravessar. Teve que voltar, o corpo raspando nos
resíduos, o pânico crescendo a cada segundo perdido.
Seguiu naquela direção, ignorando a dor nos braços, forçando o corpo pelo túnel final.
O concreto ali era mais limpo. Menos limo. Menos resíduos. Um som metálico ecoava
acima.
Uma escotilha. Ela estava presa ao teto do encanamento, circular, parecida demais
com a que o havia jogado ali. Edward se posicionou com dificuldade, apoiando os pés
contra as paredes curvas, e estendeu a mão azul do GrabPack. A garra se prendeu à
manivela enferrujada.
Ele girou. Nada. Girou de novo, os braços tremendo. Um dos braços rosa surgiu atrás
dele, rápido demais. Os dedos passaram raspando em sua perna.
Edward puxou a escotilha com tudo. O metal finalmente cedeu com um rangido alto.
Ela se abriu para cima, deixando a luz fraca de outro ambiente escorrer para dentro do
esgoto.
Sem pensar, Edward se impulsionou, enfiando o corpo pela abertura. Sentiu o concreto
rasgar sua roupa, a escotilha bater contra suas costas enquanto ele se puxava para
fora.
Assim que conseguiu passar, bateu a tampa por dentro. O som do metal se fechando
ecoou pelo encanamento. Do outro lado, braços se chocaram contra a escotilha,
fazendo-a tremer violentamente. Mas ela não se abriu.
A sala em que Edward caiu após sair do esgoto era vazia demais para transmitir
segurança. Nenhuma máquina funcionando, nenhuma esteira em movimento. Apenas
concreto cru chão, paredes e teto frios, manchados por rachaduras e marcas antigas de
fuligem e sangue.
À sua frente, uma porta dupla azul estava completamente aberta. As folhas de metal
rangiam levemente com a corrente de ar que vinha de além delas. Edward se aproximou
com cautela, o corpo ainda doendo, cada músculo lembrando do esgoto, do aperto, das
mãos cor-de-rosa tentando alcançá-lo.
Do outro lado da porta havia uma ponte de aço suspensa, larga o suficiente para a
passagem de máquinas, mas estreita demais para conforto humano. Corrimões
metálicos acompanhavam suas laterais, presos por suportes cheios de rebites. A ponte
ligava aquele ponto a outro canto distante da fábrica.
Edward deu alguns passos sobre ela. O metal gemeu sob seus pés. Ele olhou para
baixo. Lá embaixo, vários níveis se sobrepunham: esteiras metálicas ainda carregavam
caixas e brinquedos inacabados, movendo-se lentamente. Dutos de ventilação
cruzavam o espaço em todas as direções, encanamentos grossos e finos serpenteavam
as paredes, alguns pingando líquidos escuros. A queda não era infinita, mas era alta o
bastante para ser fatal.
Uma mão rosa surgiu de baixo, abrindo caminho entre os dutos como se fossem
simples obstáculos de papel. Os dedos longos se esticaram e se fecharam no corrimão
de aço com força brutal.
A ponte cedeu. O metal rangeu. A estrutura inteira foi puxada alguns centímetros para
baixo, fazendo Edward perder o equilíbrio por um segundo. Ele se segurou por reflexo,
o coração disparando.
— Ahhh… — a voz veio de algum lugar abaixo, cantada, arrastada, carregada de um
prazer doentio. — Olha só onde você foi se meter…
Edward reconheceu o tom imediatamente. Nem adiantava mais suspensa a essa altura
do campeonato.
— Você corre tão bem… — continuou ela, rindo baixinho. — Mas sempre acaba em
pontes, buracos… lugares onde não tem pra onde ir.
O som dos seus passos ecoava pela ponte enquanto o metal vibrava sob seus pés.
Atrás dele, mais uma mão surgiu. O braço cor-de-rosa se esticou por entre os dutos, se
prendendo na estrutura da ponte, no corrimão, nos suportes. Cada movimento dela fazia
a ponte balançar levemente, como se estivesse sendo puxada em direções diferentes
ao mesmo tempo.
O outro braço veio de cima, descendo do teto, obrigando-o a se abaixar e rolar para o
lado. A teia saiu da boca de Mommy Long Legs como um jato espesso, grudando no
corrimão e se espalhando, endurecendo rápido demais. Se ele tocasse aquilo, ficaria
preso.
— Olha como você se mexe! — ela gargalhou, a voz oscilando entre infantil e
monstruosa. — Igualzinho… igualzinho aos outros…
Edward disparou a mão azul do GrabPack, puxando uma viga solta da lateral da ponte
e jogando-a no caminho, tentando ganhar tempo. O metal bateu com força, mas a
criatura simplesmente se apoiou nele, os braços se reorganizando como se não
houvesse ossos.
Uma mão tentou agarrar o tornozelo de Edward. Ele sentiu os dedos quase fecharem,
roçando sua bota. Usou a mão verde para se impulsionar no corrimão oposto, se
jogando para frente, o corpo quase saindo da ponte.
O aço rangia cada vez mais alto. Edward forçou o corpo, os pulmões queimando, o
GrabPack pesado demais em suas costas. A ponte ainda se estendia à frente. E atrás
dele, Mommy Long Legs continuava surgindo de todos os ângulos, bloqueando,
puxando, se aproximando.
Edward sentiu um impacto violento quando algo puxou a ponte para o lado. O metal
começou a se entortar, os cabos de sustentação vibraram como cordas prestes a se
romper. Ele tropeçou, quase caiu de joelhos, mas se manteve em pé por puro instinto.
Mommy Long Legs finalmente se revelou por completo. Seu corpo surgiu entre os dutos
e vigas laterais, pendurado de forma impossível. Seus dois braços, longos demais para
qualquer lógica, se esticavam em direções opostas, um cravado na estrutura da ponte,
o outro se alongando pelo ar, tentando alcançá-lo.
O braço livre avançou como um chicote. Edward se jogou para o chão no último
segundo, sentindo o vento do golpe passar sobre sua cabeça. O impacto fez a ponte
balançar com violência. Rebites se soltaram e quicaram no metal, desaparecendo no
vazio abaixo.
Ele rolou, se levantou e correu de novo. Cada passo parecia um risco calculado contra
o colapso iminente. A porta do outro lado estava mais perto agora.
Ela puxou. Com um único movimento brutal, os dois braços se tensionaram em sentidos
opostos. Um se ancorou nos dutos laterais; o outro se enrolou nos suportes da ponte.
O som que se seguiu não foi imediato, foi um estalo profundo, grave, vindo de dentro da
estrutura.
Edward sentiu o chão afundar sob seus pés. A ponte começou a ceder de verdade.
Edward não pensou. Ele correu os últimos metros, ignorando a dor nas pernas,
ignorando o medo. O chão desaparecia atrás dele enquanto a ponte se partia em seções
inteiras, despencando no abismo industrial.
No último segundo, ele saltou. Seus pés deixaram o aço exatamente quando a ponte
se soltou por completo. O impacto do colapso empurrou o ar para cima, quase o jogando
para trás, mas seus dedos já estavam estendidos.
A mão azul do GrabPack se fechou na alavanca da porta. Edward foi puxado para frente
com força, batendo o ombro na estrutura metálica enquanto atravessava a entrada. A
porta se fechou atrás dele com um estrondo seco, abafando o som da queda da ponte.
Por um único instante, houve silêncio. Então, algo bateu do outro lado. Não foi um
impacto desordenado. Foi firme. Intencional.
A estrutura da porta rangeu. A voz de Mommy Long Legs atravessou o metal, baixa,
próxima demais:
O rangido voltou, mais alto. Ela estava se movendo além da porta. Ela vinha atrás dele.
CAPÍTULO 22
O lugar onde Edward foi parar parecia existir apenas para o desespero.
Era um corredor enorme em extensão, alto o bastante para engolir o olhar, mas
absurdamente estreito. As paredes se fechavam próximas demais, obrigando o corpo a
seguir em linha reta, sem margem para erro. O chão, o teto e as laterais alternavam em
blocos largos de branco clínico e rosa choque, como se alguém tivesse pintado aquele
espaço com uma paleta infantil levada ao extremo. As superfícies eram lisas demais,
polidas até refletirem levemente a luz fria que vinha de luminárias embutidas no teto.
Não havia sombras verdadeiras, apenas reflexos longos e distorcidos que
acompanhavam cada movimento.
Nenhuma porta lateral. Nenhuma grade. Nenhuma coluna. Nenhum objeto. Nada.
Atrás dele, a porta de aço pela qual havia passado tremeu. Um impacto seco fez o
metal vibrar, ecoando pelo corredor como um tiro abafado. Edward se virou a tempo de
ver a superfície azul se deformar sob outro golpe.
Ele correu.
O som de seus passos explodiu no espaço estreito, multiplicado pelas paredes lisas.
Cada passada parecia alta demais, exposta demais. O ar queimava nos pulmões quase
instantaneamente. O GrabPack pesava em suas costas como um erro fatal.
O metal rasgou.
Com um estrondo violento, a porta foi arrancada de suas trilhas. Mommy Long Legs
irrompeu no corredor, os dois braços se esticando à frente antes mesmo de seu corpo
aparecer por completo. Ela se arrastou para dentro como algo que não deveria caber
naquele espaço, a cabeça inclinada, o sorriso largo demais para o rosto.
— Corre, corre… — ela cantarolava, a voz quicando nas paredes. — Eu adoro quando
vocês correm assim. Dá pra ouvir o coração batendo.
Um braço se lançou à frente dele, se esticando pela lateral da parede como uma
serpente rosa. Edward desviou por centímetros, sentindo os dedos rasparem no ar atrás
de sua cabeça. O outro braço veio logo depois, batendo contra o chão à frente,
obrigando-o a saltar por cima sem diminuir a velocidade.
A teia saiu da boca dela em jatos rápidos, grudando nas paredes, se espalhando como
veias artificiais que tentavam fechar o caminho. Edward ziguezagueou o pouco que o
corredor permitia, os ombros quase raspando nas laterais, a respiração falhando.
Uma enorme porta de correr de alumínio bloqueava o caminho, lisa, industrial, sem
maçanetas. Acima dela, um painel embutido projetava um holograma azul: o desenho
claro de uma palma aberta.
— Claro… — sussurrou.
Ele correu os últimos metros, girou o corpo e apontou o GrabPack. O gatilho foi
pressionado com força.
A mão azul se lançou para frente, se chocando contra o painel com um estalo metálico.
Imediatamente, linhas de luz percorreram o holograma, iniciando a leitura. Muito
devagar.
— Ah… — Mommy Long Legs desacelerou de propósito atrás dele, o sorriso se abrindo
ainda mais. — Aquelas portas que demoram, né? Eu também odeio.
Edward puxava ar como se estivesse se afogando. Olhou para trás. Ela vinha correndo
agora, os braços alternando apoio no chão e nas paredes, ganhando velocidade
naquele espaço estreito.
— Anda… — Edward rosnou, puxando o cabo da mão como se isso pudesse apressar
o processo.
— Se eu pegar esse seu crânio — ela disse, quase carinhosa — prometo mastigar
devagar.
Edward não esperou mais. Assim que o espaço foi suficiente, ele se jogou para frente,
passando pelo vão, o ombro raspando no metal, o corpo girando no chão do outro lado.
— Fecha, fecha… — ele tentou se levantar, mas não havia controle algum.
Uma mão rosa já se enfiava pela abertura, os dedos se dobrando para forçar
passagem. Mommy Long Legs ria. Ela vinha atrás dele.
A sala era desesperadamente apertada. Fios grossos e finos se espalhavam pelo chão
de mármore como veias arrancadas, alguns ainda vibrando levemente com a energia
recém-restabelecida. O ar cheirava a óleo quente, metal queimado e algo químico difícil
de identificar. À frente de Edward, ocupando quase todo o espaço útil do cômodo,
erguia-se o triturador.
Era um trambolho industrial grotesco, alto demais para o teto, com placas de aço
reforçado cheias de riscos profundos e manchas antigas de ferrugem escura.
Engrenagens parcialmente visíveis giravam lentamente em seu interior, produzindo um
ronco grave e constante, como o estômago de uma criatura faminta. Ele não fazia ideia
do que aquela máquina triturava e, naquele momento, não queria descobrir.
Além da porta por onde acabara de entrar, havia duas outras portas de correr nos
cantos opostos da sala.
A primeira chamava atenção pelo estado em que se encontrava. Estava aberta apenas
alguns centímetros, travada no meio do processo. Pela fresta, Edward enxergava
apenas escuridão absoluta, cortada por finos filamentos de tinta seca em azul, amarelo,
vermelho e verde, como se algo tivesse sido arrastado violentamente por ali dezenas
de vezes. Tábuas de madeira pregadas de forma improvisada bloqueavam o restante
da passagem.
A segunda porta era diferente. Gradeada, pesada, industrial. Do outro lado, tudo estava
visível. Uma sala ampla se estendia além das barras de metal, dominada por um enorme
reator elétrico, uma espécie de bateria colossal, envolta em fusíveis, cabos grossos e
painéis de controle. A estrutura pulsava com energia, emitindo um zumbido baixo e
constante. Mais importante ainda: ao fundo, um lance extenso de escadas e andaimes
subia em espiral, desaparecendo para níveis superiores da fábrica.
Edward correu até a grade e tentou enfiar os braços pelas frestas, disparando as mãos
do GrabPack, puxando, testando, procurando qualquer alavanca, qualquer mecanismo
escondido. Nada. A porta não cedeu nem um milímetro.
Edward se virou a tempo de ver Mommy Long Legs atravessar a porta. Ela não falou
nada. Não sorriu. Não brincou. Ela apenas avançou.
A boca se abriu além do limite possível, fileiras de dentes irregulares se revelando
enquanto seus dois braços se esticavam pelo chão e pelas paredes, puxando seu corpo
para frente com uma velocidade brutal. Não havia jogo. Não havia encenação. Era o
fim.
Encurralado, Edward recuou até sentir as grades frias nas costas. Não havia mais para
onde ir. Ele fechou os olhos.
O corpo tremia inteiro. O som do triturador parecia mais alto agora, mais próximo, como
se estivesse esperando. Edward respirou fundo uma última vez, torcendo, de forma
patética, para que doesse menos do que imaginava.
Quando Edward abriu os olhos lentamente, a primeira coisa que percebeu foi que ainda
estava respirando. Mommy Long Legs estava parada.
Sua boca continuava aberta, congelada no instante do ataque, mas o corpo não
avançava. Um de seus braços estava esticado demais, tenso, vibrando.
Os dois olharam para o mesmo lugar. A mão dela havia sido puxada para dentro do
triturador. Os dedos estavam presos entre as engrenagens, o material rosa comprimido
contra o metal em movimento lento, produzindo estalos secos e um som úmido, errado.
O braço se esticava em um ângulo impossível, como um elástico levado além do limite.
Edward sentiu algo que não sentia há muito tempo. Coragem. Ele sorriu, os lábios
tremendo, o rosto sujo e suado.
Ele pressionou o gatilho do GrabPack e a mão verde se lançou no mesmo instante. Ela
se prendeu à alavanca do triturador com força. Edward puxou.
Mommy Long Legs não gritou. Ela apenas olhou para Edward. E sua expressão não
era de raiva. Não era dor. Era aceitação.
O braço inteiro foi sugado para dentro. Plástico se partiu em placas irregulares. Havia
estalos secos de ossos artificiais se rompendo, misturados ao som de algo orgânico
sendo triturado. O cheiro mudou. Um odor metálico, quente, carregado de ferro, óleo e
sangue invadiu a sala.
Mommy Long Legs gritou. Não era mais a voz infantil, nem a teatral. Era um grito cru,
quebrado, que ecoou pelo espaço estreito como um pedido arrancado à força.
— Por favor… — ela implorou, a voz falhando enquanto o corpo era arrastado
centímetro por centímetro. — Me ajuda… eu não quero fazer parte dele…
Edward tentou se mover. As pernas não responderam. O corpo estava rígido, travado
pelo choque, pela impossibilidade de compreender o que ela dizia. Parte dele queria
correr, outra queria fechar os olhos, outra simplesmente não existia mais.
O torso dela bateu contra a borda do triturador. O impacto abriu fendas no corpo rosa,
rasgando o revestimento como tecido velho. Algo escuro, vermelho e viscoso escorreu,
espirrando no chão e nas pernas de Edward. O sangue atingiu seu rosto, quente,
grosso, grudando na pele e nos cílios.
Ela se debateu com mais força. Cada tentativa apenas a puxava mais para dentro. As
engrenagens agarraram o tronco, esmagando costelas, triturando estruturas internas.
Havia um som contínuo de esmagamento, como algo sendo moído sem piedade.
O pescoço se esticou. A cabeça foi puxada para trás, os olhos arregalados, encarando
Edward até o último segundo possível. O grito se transformou em um som distorcido
quando a mandíbula bateu contra o metal. Dentes se partiram. Fragmentos se
espalharam.
O que restou caiu no chão. O tronco mutilado, a cabeça ainda presa ao pescoço por
pedaços rasgados, e o braço direito parcialmente intacto despencaram com um som
seco contra o mármore. O corpo não se mexeu mais.
Ele não era feito de plástico colorido como os brinquedos da fábrica, nem tinha o
acabamento liso dos animatrônicos comuns. Era metal cru, escuro, composto por
segmentos finos ligados por articulações expostas. Cada falange terminava em uma
ponta afilada, não exatamente uma lâmina, mas algo próximo disso. O dedo tocou o
chão com cuidado, como se testasse a superfície, produzindo um clique delicado.
A garra se estendeu até os restos de Mommy Long Legs espalhados no chão. Um único
dedo se curvou com precisão e puxou o que sobrara dela, sem esforço, sem hesitação.
As partes desapareceram uma a uma pela fresta da porta, sendo arrastadas de volta
para a escuridão de onde a criatura viera.
“Eu não quero fazer parte dele…”, as palavras de Mommy Long Legs voltaram a sua
mente com mais clareza dessa vez.
Se o Protótipo queria os restos de Mommy Long Legs, por que não o queria também?
Por que deixá-lo vivo?
O que o esmagava por dentro não era culpa. Nem remorso. Edward percebeu isso com
uma clareza desconfortável. Mommy Long Legs o caçara, o enganara, tentara matá-lo
repetidas vezes. Ele não sentia pena da criatura que quase o despedaçou.
Mas sentia algo por Marie Payne. A criança. A criança arrancada da Playcare. A criança
moldada à força dentro de um corpo horrendo. A criança transformada em monstro por
homens como Harley Sawyer e Leith Pierre.
Edward fechou os olhos com força. Se ele não conseguia sentir pena dela… Se
conseguia justificar sua morte com tanta facilidade… Então o que, exatamente, o
separava daqueles homens?
Essa pergunta finalmente o quebrou. As pernas cederam e ele caiu de joelhos no chão
frio de concreto.
Seguindo pela plataforma superior, Edward percebeu uma pequena cabine suspensa,
presa ao teto da Game Station. Ela se conectava ao local por uma escadaria metálica
estreita, que rangia a cada passo. A cabine era feita inteiramente de aço, sem vidros
nas janelas, apenas aberturas retangulares, como fendas, permitindo a entrada de ar e
som.
Por dentro, o espaço lembrava a cabine de comando de uma aeronave antiga. Havia
painéis de controle cheios de botões e alavancas, medidores analógicos com ponteiros
travados, monitores quebrados cobertos por rachaduras e poeira, além de dispositivos
ligados às câmeras de segurança espalhadas pela fábrica. Um duto de ventilação
permanecia aberto em uma das paredes, escuro e estreito.
Nada daquilo, porém, importava. No centro do painel principal, suspensa por grossas
teias de aranha, estava ela. Uma boneca de porcelana.
Pele branquíssima, quase translúcida. Olhos azuis grandes e vítreos, que refletiam a
luz fraca do ambiente. Cabelos cacheados, de um vermelho intenso, caindo sobre os
ombros delicados. Vestia um pequeno vestido azul bordado, impecável demais para
aquele lugar esquecido. Poppy.
Amarrado à mesma teia que a prendia, havia um pedaço de papel amarelado. Edward
soube no mesmo instante do que se tratava. A terceira e última parte do código do trem.
Sem hesitar, ele rasgou as teias com as mãos, libertando a boneca. No mesmo
movimento, pegou o papel e o guardou com cuidado.
— Obrigada… — disse Poppy, com uma voz suave, quase aliviada. — Eu não
aguentava mais ficar presa aqui em cima.
Edward assentiu em silêncio, ainda tentando processar tudo o que havia acontecido
até ali.
— Então parabéns.
— Você deveria começar a mudar essa mentalidade o quanto antes — disse ela. —
Imagino que agora você já tenha todas as partes do código, certo?
— Ótimo — disse Poppy. — Use a escada de emergência desta cabine. Ela vai te levar
direto ao nível do chão.
Sozinho novamente, Edward respirou fundo. Com o papel do código em mãos e o peso
de tudo o que havia vivido, ele se virou e seguiu exatamente o caminho que Poppy havia
indicado, descendo pela escada de emergência.
Ele se aproximou devagar e empurrou a porta da cabine. Para sua surpresa, ela cedeu
com facilidade. Estava destrancada.
Antes de entrar, porém, Edward parou. Sentiu o peso no bolso interno da jaqueta.
Retirou o terceiro papel que havia acabado de pegar.
O papel estava amarelado, gasto pelo tempo e pelas mãos que o haviam tocado antes
dele. Nele, havia uma sequência de símbolos grandes, impressos em tinta azul já um
pouco borrada: um triângulo invertido, seguido pelo número 7, depois um quadrado
vazio e, por fim, a letra E escrita de forma torta, quase como se tivesse sido desenhada
por uma criança. A disposição parecia propositalmente confusa, sem qualquer lógica
aparente.
Ele então retirou do bolso os outros dois papéis, alisando-os com os dedos trêmulos.
Os três juntos finalmente formavam o código completo. Algo simples demais. Algo que
parecia ter sido feito para crianças.
Foi nesse momento que seus dedos tocaram em outro objeto. O telefone vermelho.
A cabine do trem era relativamente simples. Havia o painel de controle à sua frente,
uma janela larga emoldurando o túnel adiante, uma alavanca metálica ao lado direito,
uma caixa de som no canto superior e, logo abaixo, um tocador de fitas antigo, com
marcas de uso.
Ele sorriu, quase por reflexo. Aquela música sempre o acompanhara nos momentos
estranhamente calmos de sua vida. Apertou o botão de inicializar. A cabine se encheu
de um som suave, otimista demais para aquele lugar.
Edward voltou sua atenção aos controles. Havia dezenas de botões, cada um marcado
com símbolos, letras e números distintos, organizados de forma quase caótica. Antes
de tocar em qualquer coisa, puxou os papéis amassados do bolso.
O segundo papel repetia o padrão de quatro símbolos, mas agora eram apenas círculos
coloridos. Vermelho. Amarelo. Vermelho outra vez. Azul.
A música seguia ao fundo, enquanto Edward analisava o último papel. Nele, havia um
triângulo invertido, seguido do número 7, depois um quadrado vazio e, por fim, a letra E
escrita de forma torta, quase infantil.
Quando terminou, Edward segurou a alavanca ao lado do painel e a puxou para cima.
Ele se recostou no assento duro, soltando um suspiro longo. Seus ombros doíam, os
braços estavam pesados, e a adrenalina finalmente começava a ceder espaço ao
cansaço. O som das rodas nos trilhos se misturava à música.
O balanço do trem se tornou quase hipnótico. Cada curva suave do túnel fazia a cabine
ranger de leve, como um organismo antigo, mas funcional, cumprindo sua única tarefa
sem questionar. Edward deixou a cabeça repousar contra o encosto, sentindo a vibração
atravessar sua coluna.
Ele não reagiu à letra. Apenas a deixou passar, como o vento passando por uma janela
aberta. A música estava ali como um pano de fundo constante, surgindo e
desaparecendo em sua atenção, mas nunca se calando por completo. Às vezes ele a
percebia claramente, noutras era apenas mais um som misturado ao ferro, ao motor, ao
eco distante do túnel.
Seu corpo carregava as marcas do caminho até ali. A blusa branca, antes engomada,
agora estava encardida de poeira e manchas escuras, o tecido amassado e colado ao
corpo pelo suor seco. A jaqueta preta apresentava rasgos pequenos nas mangas e um
brilho gasto, como se tivesse sido arrastada contra superfícies ásperas vezes demais.
As calças estavam sujas nos joelhos e nas barras, endurecidas pela sujeira. As botas,
antes polidas, agora tinham riscos profundos e respingos secos que ele preferia não
identificar.
Ele soltou um riso curto, quase sem som. Pensou em como tudo parecia absurdo agora
que o perigo imediato não estava ali, à espreita. As decisões desesperadas. Os
corredores. As portas fechadas às pressas. Tudo aquilo parecia pertencer a outra
pessoa.
A voz de Poppy surgiu pelos autofalantes no canto da cabine, clara demais, próxima
demais.
— Consigo, sim — respondeu, cansado, mas educado. — Aconteceu alguma coisa?
Tem algo que eu precise saber?
Houve uma breve pausa, preenchida apenas pela música, que continuava tocando,
insistente.
— Eu só queria te parabenizar mais uma vez — disse Poppy. — Você merece todo o
agradecimento do mundo. Venceu, contra todas as probabilidades. Pouquíssimos
conseguiriam chegar tão longe quanto você.
Por alguns segundos, tudo parecia normal. O trem seguia reto, os trilhos alinhados, e
à frente, iluminada por uma luz branca, uma placa simples surgia no túnel: “SAÍDA”.
Então, Poppy voltou a falar.
— Acho que você não está entendendo, Edward. Você é perfeito! Perfeito demais para
ser perdido…
O sangue de Edward gelou. Ele se endireitou no assento, o corpo inteiro ficando tenso.
— O que você quer dizer com isso? — perguntou, a voz mais dura, a paciência
começando a se esvair. — Poppy, explica isso direito.
Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, o trem sacudiu com força. Os trilhos à
frente se dividiram, e, em um movimento brusco e metálico, o veículo desviou à direita.
A placa de "SAÍDA” passou rápido demais pela janela, desaparecendo no escuro do
túnel oposto.
— Ei! Ei, ei, ei! — Edward se levantou de um salto, quase perdendo o equilíbrio. — O
que raios está acontecendo?! Poppy, isso não é engraçado!
O trem acelerou levemente, o som das rodas ecoando pelo túnel enquanto a música
continuava, imperturbável. A voz dela voltou, agora sem qualquer traço de
comemoração.
— O quê…?
O desespero veio como uma onda tardia, esmagadora. Edward levou as mãos ao rosto
e deixou escapar um som quebrado, entre um riso nervoso e um soluço contido.
Ele daria tudo para sair dali agora. Ele passara tanto tempo odiando a própria vida,
chamando-a de vazia, medíocre, sem brilho e agora faria qualquer coisa para tê-la de
volta. Preferia mil vezes aquela rotina que desprezava do que aquele lugar sufocante,
infantilizado, mentiroso.
Foi só ali, naquela cabine ridícula, que ele percebeu o quanto tinha sido idiota. Ele não
era solitário por destino. Ele tinha escolhido ser.
Afastara pessoas. Criara muros. Alimentara culpas antigas como se fossem punições
necessárias. Mergulhara em tristeza, melancolia e autodepreciação como se aquilo
fosse profundidade, quando na verdade era só estagnação. Nunca precisara se afundar
daquele jeito. Nunca precisara se punir tanto. Ele podia ter seguido em frente.
Podia ter vivido o presente, construído algo, deixado um legado, nem que fosse
pequeno. Podia ter se redimido sendo melhor agora e não se castigando pelo que já
tinha passado. Podia ter feito amigos de verdade, vivido experiências reais, erradas,
imperfeitas e humanas.
Mas não. Ele escolhera o caminho insano e sem sentido de ir em uma fábrica
abandonada, cheia de monstros, movida por mentiras e promessas vazias. Uma
aventura inútil, sem rumo algum.
Queria abraçar Victor com toda a força que tivesse, como se pudesse compensar cada
palavra não dita. Queria mandar mensagem para Louise, marcar um segundo encontro,
só um café, qualquer coisa. Eles tinham conversado tão pouco, mas ela parecia
genuinamente boa. Queria conversar por horas com Laura, sobre a vida, sobre nada,
sobre tudo ao mesmo tempo. Sentiu saudade das pessoas comuns. Sentiu saudade das
ruas iguais, das calçadas sem graça, dos prédios repetidos. Sentiu saudade daquela
cidade besta e monótona chamada Salt Lake.
O primeiro sinal veio das rodas, um guincho metálico agudo, seguido por uma chuva
de faíscas que riscavam a escuridão do túnel como fogos de artifício doentios. Edward
se agarrou ao encosto do banco no instante em que o chão vibrou sob seus pés. Não
havia explicação. Não havia tempo.
O painel de controle estalou. Faíscas saltaram dos botões e das fendas metálicas,
iluminando a cabine em flashes irregulares. Um alarme começou a soar, estridente,
repetitivo, atravessando o crânio de Edward como uma lâmina.
— Não, não, não… — murmurou, avançando cambaleante.
Edward agarrou a alavanca e a puxou para baixo com tudo o que tinha. Seus músculos
queimaram, os braços tremeram, o corpo inteiro se inclinou para trás numa tentativa
desesperada de frear a locomotiva.
O impacto veio brutal. O mundo girou. Edward foi arremessado para frente, sentindo o
corpo colidir violentamente contra o GrabPack preso às costas. O estalo seco do vidro
se partindo ecoou alto demais. Fragmentos cortaram sua pele em vários pontos
deixando uma dor quente e imediata.
“Say that you'll never, never, never, never need it… One headline, why believe
it?”
Sua visão ficou turva. As luzes dançavam, borradas. Os sons se misturavam. O alarme
morreu aos poucos, mas a melodia persistia, insistente, quase gentil.
“All for freedom and for pleasure… Nothing ever lasts forever…”
Com esforço, Edward abriu os olhos por alguns segundos. Havia apenas uma coisa
nítida. À frente, entre destroços e sombras, uma placa vermelha em formato de número
sete apontava para o caminho adiante. A cor era viva demais para aquele lugar.
Inquietante.
PLAYCARE
Isso foi tudo o que ele viu. Então, Edward Finch não viu mais nada.
FIM...?