Ruinas do antigo Mundo Digital, 13 anos atrás.
Dois jovens se confrontavam. Antes aliados pela mesma causa, agora,
os dois lutariam para defender o que era importante para ambos.
Ao lado do garoto mais velho, um cavaleiro de armadura negra estava
em guarda. Além dos amassados em torno da armadura, a lança
dupla que carregava estava quebrada, demonstrado o desgaste que
passara. E embora mantivesse sua atenção em seu parceiro, seus
olhos também focavam no enorme Digimon caído atrás do inimigo.
Ele estava quase morto, isso era uma certeza, mas o cavaleiro
também sabia que até que ele retornasse a ser um Digitama, a
ameaça ao seu parceiro humano era real.
– Você está louco, simplesmente não tem noção do que está tentando
fazer. – Replicou, olhando com decepção para o outro garoto a sua
frente. – Essa é a sua última chance, pare com isso. Você sacrificou o
seu próprio parceiro em busca desse desejo!
A última frase do garoto não passou despercebido. O Tamer
aparentemente derrotado começou a rir, achando graça na tentativa
de lhe convencer a parar.
– Você ainda não entende, você nunca quis entender! Tudo o que
precisávamos, está bem aqui! Poderíamos ter derrotado a Irmandade
se tivéssemos simplesmente usado esse poder. Mas vocês se
recusaram a ver essa verdade. Se recusaram a acreditar em mim, até
mesmo o meu suposto parceiro não quis lutar pelos meus sonhos!
Porque só eu, tenho que estar errado?! Me diga Carmona, porque
você não aceita que eu estava certo no final? – O garoto de cabelos
negros gritou com raiva, erguendo o aparelho que ligava ao seu
Digimon. – Não, eu não vou me deixar mais afetar por vocês. Eu vou
conquistar esse mundo e provar que eu estava certo no final das
contas. Sacrificar o meu ex parceiro é um preço tão pequeno a pagar,
porque eu não estou o sacrificando de verdade. Não, ele irá renascer
como algo melhor, algo superior!
Nuvens começavam a se formar na dimensão alternativa. Não eram
nuvens naturais, o Tamer mais velho sabia disso. Embora ele
soubesse que teria que fazer o que era necessário, ele ainda não
conseguia pronunciar a decisão em voz alta.
– Eu sinto muito Jonatas... Mas não resta outra escolha. Teremos que o
parar... De forma permanente, se for preciso. – O guerreiro negro se
pronunciou, preparando para cumprir a ação necessária. – Ele não vê
mais a razão, mas você não precisa falar. Apenas me permita e eu...
– Obrigado, Dark Knightmon. Mas se esse for o meu pecado para
carregar, não vou deixar você simplesmente o assumir. – O jovem de
cabelos compridos ajeitou o óculos, limpando qualquer sinal de
hesitação que pudesse ter. – Uma última vez meu parceiro, vamos
salvar a esse mundo.
([Link]
O Tamer de cabelos pretos não se amedrontou com a hostilidade dos
oponentes. Aquela era a hora de mostrar o real poder do Digimon
mais forte. Quando o raio negro caiu sobre o corpo quase sem vida da
criatura quimérica, a mesma abriu os olhos bestiais e seu corpo
começou a mudar para uma aberração gigantesca, se tornando digna
de uma ameaça de fim do mundo.
– Essa é a hora, da minha revolução! Chimairamon, evolua!
– Você ouviu ele Dark Knightmon, aqui e agora, evolua também!
Seguindo o desejo do parceiro, o corpo do Digimon cavaleiro mudava,
enquanto era envolvido pela luz da evolução. A armadura se
desmontava, e dentro dela saiu uma figura feminina corpulenta,
trajando um vestido de couro preto azeviche e carregava consigo
duas pistolas.
– BeelStarmon! – Entoando o próprio nome, a dama demoníaca
avançou sem pestanejar contra a ameaça.
Chimairamon uivava e seu corpo colapsa em uma espiral. A fusão
distorcida começa. Circuitos e gritos se fundem num ciclone digital
enquanto ele se transforma. A própria realidade parecia deixar de
funcionar do jeito que conhecíamos.
De dentro do vórtice, uma voz ancestral reverbera em glitchs:
— "MILLENNIUMON."
A besta temporal avançou contra BeelStarmon, preparando para
consumir sua presa.
O primeiro disparo ecoa como um trovão: as pistolas gêmeas de
BeelStarmon, Rizoma de Loto , soltam várias balas que atravessavam
o campo de batalha.
Já Milleniumon, levanta uma de suas grotescas mãos — formada por
garras, malignas. Ele absorve o impacto como se fosse nada. Em
resposta, o tempo ao redor quebra por um instante. O céu acelera, o
chão se desfaz e se recompõe em loops desconexos.
— “TIME UNLIMITED.” — a voz de Millenniummon ressoa com mil
ecos, como se cem versões dele gritassem ao mesmo tempo.
BeelStarmon é lançada para trás por um colapso temporal que
distorce seu corpo e sentidos. Ela rola pelas ruínas, o braço tremendo.
Mas se levanta.
— “Então é isso que você se tornou... Uma mera besta irracional...”
Ela gira no ar, suas pistolas brilhando. Com um salto perfeito, dispara
de ambas as mãos, traçando um padrão no ar. Balas atingem
Millenniummon, abrindo buracos em seu corpo mutante.
Ele rosna como a dor. As vozes dentro dele sussurram frases
desconexas — “amizade”, “destruição”, “unificação”, “dor” — e de
suas costas abre-se um canhão duplo.
— “INFINITY CANNON.”
O disparo avançou contra BeelStarmon, devastando todo o caminho.
BeelStarmon se cobria com sua capa — uma técnica defensiva de
emergência , mas a explosão não era meramente um truque.
Ela sangra dados pela queimaduras que havia sofrido . Mas caminha.
Cambaleia. Firme.
— Eu prometi que iria acabar com isso. — sua voz falha. — Ainda que
isso doa mais em mim do que em você.
Ela se ergue nas alturas. Seus olhos brilham com a determinação
necessária.
— Hurricane Screw Shot!
Do céu, ela desce como uma estrela cadente. Disparando de forma
descontrolada as armas escondidas nos calcanhares de suas botas
com um Senpukyaku afiado.
Millenniummon urra e tenta agarrar BeelStarmon com suas garras,
visando a esmagar por completo.
Mas ela as atravessa.
As botas da mesma brilhavam em um tom escuro.
Um único tiro.
Silêncio.
O peito de Millenniummon se rompe. Seu núcleo destruído. E com
isso, seu corpo era divido ao meio, ambos caindo para o abismo da
Dark Área.
Mas então, ele para.
BeelStarmon olhou surpresa se preparando para um novo ataque,
mas este nunca veio. Mas tanto ela quanto Jonatas poderiam ouvir
uma simples frase.
“Obrigado”. – E assim, o Deus maligno se permiti afundar na
escuridão eterna.
– Não... Não.... Não, eu não aceito isso. Você roubou, você trapaceou,
você adulterou a sua parceira de alguma forma, você não deveria ter
vencido o Invencível Digimon que eu criei! – Como uma criança
esperneando, o Tamer olhou para o lugar onde o Digimon que um dia
fora seu parceiro, havia sido consumido. – Eu não lhe perdoarei
Jonatas, nunca vou lhe perdoar por ter trapaceado!
– ... Discutir com você é perda de tempo, Veras. Eu lhe dei todas as
chances, mas agora isso acaba aqui. – A voz de Jonatas estava
cansada. Ele não podia manter a evolução de BeelStarmon por muito
mais tempo, mas ao menos, ele havia impedido a loucura do antigo
aliado. – Agora você irá vir, querendo ou não.
BeelStarmon se levantou da que havia levado. Ela não iria perder
mais tempo com aquela discussão. Mas tanto ela quanto o seu Tamer
não esperavam a atitude do oponente derrotado.
– Eu já lhe disse Carmona, nunca vou lhe perdoar. Vou garantir que
você irá para o inferno, algum dia, eu juro que irei te levar para lá. –
Com essas palavras, Veras se jogou no abismo, rindo da tentativa
desesperada do Tamer tentar o segurar. Sua risada durou pouco
tempo , antes do mesmo ser consumido pela escuridão e apenas o
silêncio tomar o ambiente.
– Queria dizer que foi fácil, mas esse tipo de vitória nunca me
agradou, mesmo contra alguém como você. – Ainda sem o animo,
Jonatas foi até a sua parceira, que o olhou por um momento, mas não
se pronunciou. – Vamos embora Beel, não a mais nada para fazermos
aqui.
Segurando firme seu parceiro, BeelStarmon saltou na direção oposta
ao abismo, visando sair da dimensão alterada, que agora sem um
pilar para manter estável, começava a se apagar.
Não somente a dimensão se apagava, como a mente de Jonatas
também se apagava aos poucos, com seus últimos pensamentos
voltaria a como ele explicaria aos pais do Vera, a responsabilidade
que tinha sobre a morte do filho deles.
(---)
— Jonatas. — A voz suave, mas firme, de seu colega cortou o ar com
respeito. Era Richard , um dos domadores que fazia para do Projeto
Digital Monsters— Seria bom que você viesse na sala de projeção.
Descobriram… algo novo.
Jonatas piscou, respirou fundo, e assentiu. O passado ainda morava
em seus ombros, mas já não o sufocava. Era veterano nisso. Um
Domador lendário que vira muito mais em sua vida, do que homens
de maior qualificação militar. Um homem que aprendeu a viver com
os fantasmas — e com os Digimons que restaram depois.
Ao cruzar o corredor iluminado pelas luzes tênues da base
subterrânea, Richard não escondeu a tensão na voz:
— Não é uma ameaça direta. Ainda não. Mas é… incomum. E acho
que você vai querer ver.
A sala de projeção era oval, cheia de monitores suspensos no ar por
braços metálicos articulados. No centro, uma estrutura em espiral
exibia uma imagem holográfica: não de um Digimon, mas de um
continente e várias ilhas ao arrsdor
— Chamaram de Shambala — explicou Richard. — Um setor do
Mundo Digital que não respondia a nenhuma frequência conhecida.
Foi detectado recentemente após uma varredura residual. Ele...
estava escondido. Isolado.
Jonatas manteve os braços cruzados, olhando com ceticismo o
holograma. O mapa girava, revelando terras flutuantes e zonas
pulsando em padrões de dados que não correspondiam ao que eram
gerados por Yggdrasil ou Illiad.
— Então é de lá que vieram os "desconhecidos"? — perguntou com
um tom carregado. — Eu imaginei que depois daquela ponpa toda
sobre serem especiais e guardiões sagrados, eles ao menos viessem
de algo mais diferente.
Richard hesitou. — Nós... não sabíamos na época. As assinaturas de
dados eram diferentes demais, e o sistema não os reconheceu como
Digimons convencionais. Mas as evidências recentes indicam que
todos aqueles incidentes estavam ligados a Shambala.
Jonatas respirou fundo, os olhos fixos no holograma. Por mais exótico
e curioso que parecesse, sua experiência lhe ensinara a não confiar
tão rápido. Um mundo Digital que nunca interagiu com humanos era
uma bomba que poderia explodir a qualquer momento, seja do lado
de fora ou dentro dele.
— Esses "Digimons de Shambala"... não parecem muito preocupados
com fronteiras. Nem com os danos que causaram.
— Talvez nem soubessem que cruzaram uma — respondeu Richard,
tentando manter um tom equilibrado. — Se esse mundo esteve
isolado por tanto tempo, talvez sequer compreendam como as
camadas da realidade estão estruturadas. Para eles, pode ter sido só
mais uma extensão de onde viviam.
Jonatas apertou o maxilar, os olhos duros.
— Gostaria de ter esse otimismo. Eles basicamente chegaram
atacando e disseram que nós tínhamos que passar por testes,
provando o nosso valor. Esse não é o tipo de mentalidade que
concordaria em apoiar. – Suspirando, mesmo começou a bater os
dedos na mesa de comando, pensando no que iria falar. – Não quando
você traz esse tipo de teste para o meio de uma cidade na Terra.
Richard não respondeu de imediato. Sabia que, no fundo, Jonatas não
era movido por ódio ou intolerância — era cautela. Rigor. Um reflexo
de tudo que ele já teve de enfrentar.
— Ninguém está pedindo para confiar — disse, enfim. — Mas
precisamos entender. Observar. E... se for possível, fazer contato. Se
Shambala realmente é parte do Mundo Digital, não podemos deixar
que fique em isolamento por mais tempo. Não sem entender seus
motivos ao menos.
Jonatas olhou para ele, sério. Por dentro, uma parte sua concordava.
Mas a outra... a outra ainda queria deitar aqueles arrogantes na
porrada.
— Que observem à distância, então — respondeu, seco. — Porque se
mais um deles atravessar para cá sem aviso, eu não vou esperar a
boa vontade da diplomacia.
E com isso, virou-se em direção ao seu quarto pessoal. Se novas
ameaças estavam surgindo, ele não iria ficar parado. Era hora de dar
continuidade ao projeto GAIA.