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O documento aborda o Transtorno do Espectro Autista (TEA), suas origens históricas e definições, destacando a importância do diagnóstico precoce e das intervenções comportamentais. O TEA é caracterizado por déficits na comunicação e interação social, além de padrões de comportamento repetitivos, com variações significativas entre os indivíduos. A avaliação diagnóstica deve ser interdisciplinar, considerando fatores como comprometimento intelectual e nível de linguagem funcional para um tratamento eficaz.
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O documento aborda o Transtorno do Espectro Autista (TEA), suas origens históricas e definições, destacando a importância do diagnóstico precoce e das intervenções comportamentais. O TEA é caracterizado por déficits na comunicação e interação social, além de padrões de comportamento repetitivos, com variações significativas entre os indivíduos. A avaliação diagnóstica deve ser interdisciplinar, considerando fatores como comprometimento intelectual e nível de linguagem funcional para um tratamento eficaz.
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O que é TEA – Transtorno do Espectro Autista
Deivid Sampaio

O termo Autismo foi usado na comunidade científica, pela primeira vez,


por Eugene Bleuler em 1.911 para se referir ao comportamento de isolamento
social, comum em pacientes com Esquizofrenia. Nos anos 40, dois Psiquiatras
– Leo Kanner e Hans Asperger, o primeiro dos Estados Unidos e o outro na
Áustria, descreveram, de forma independente, grupos de crianças que
apresentavam dificuldades acentuadas no contato social e com comportamentos
atípicos. A diferença desses dois grupos é que, naqueles estudados por Kanner,
apresentavam importantes atrasos no desenvolvimento neuropsicomotor. Já o
grupo de Asperger, possuíam grande conhecimento em interesses específicos,
tanto que os chamavam de pequenos professores. Essa foi a primeira descrição,
de fato, do que hoje conhecemos como Transtorno do Espectro Autista – TEA,
termo usado desde a publicação do DSM-5 em 2013 e agora, também na CID-
11 de 2022.
Sem sombra de dúvidas, o Autismo é o transtorno da infância mais
estudado e com manifestações mais diversas que conhecemos, atualmente.
Várias teorias, ao longo do tempo, tentaram explicar a causa e tratar
esses indivíduos. Hoje, sabe-se que ele é um transtorno de base
majoritariamente genética, sendo o diagnóstico exclusivamente clínico e o
tratamento é através de intervenções comportamentais. Nos últimos anos, a
prevalência de Autismo tem aumentado bastante. Isso assusta muita gente,
porém, há vários fatores que estão relacionados ao aumento do diagnóstico.
Uma delas tem relação com uma maior conscientização por parte dos
clínicos sobre o TEA devido a ampliação e especificação dos critérios de
diagnóstico. Portanto, muitas crianças que antes eram diagnosticados com
Deficiência Intelectual, passaram a receber um diagnóstico mais preciso e,
consequentemente, intervenções mais bem direcionadas. Temos maior
crescimento dos casos de Autismo também porque houve um aumento dos
estudos epidemiológicos, principalmente os internacionais, tomando-se maior
conhecimento desse transtorno.

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A sintomatologia do TEA não é uniforme, como já relatado, ele é o
transtorno que apresenta uma grande variabilidade em suas manifestações,
fazendo com que a avaliação diagnóstica seja bastante minuciosa, sendo
necessário um amplo conhecimento sobre os transtornos mentais e do
neurodesenvolvimento por parte dos profissionais. De acordo com os critérios do
DSM-5, os sintomas estão presentes entre os 12 e 24 meses de vida da criança.
Apesar de não haver uma idade mínima para o diagnóstico, estudos recentes
apontam uma estabilidade diagnóstica a partir dos 14 meses de vida, o que nos
faz pensar que, com o diagnóstico precoce, a intervenção precoce também irá
salvaguardar a criança de uma cascata de prejuízos futuros em seu
desenvolvimento. Conseguimos ver a manifestação dos sintomas em dois
padrões:
• Precoce: ocorrendo no período de desenvolvimento, ou seja, desde os
primeiros meses de vida.
• “Regressivo”: a criança apresenta um desenvolvimento aparentemente
típico nos primeiros meses de vida e, com aproximadamente 2 anos de idade,
começa a perder habilidades sociais e de comunicação.

O TEA apresenta uma díade de comprometimentos: (a) déficits na


comunicação e na interação social e (b) presença de padrões rígidos e
repetitivos de comportamento e/ou interesses, podendo ou não haver alterações
nos padrões sensoriais. No que se refere aos déficits interacionais e de
comunicação, podemos observar falhas na sustentação do olhar, abordagens
sociais inadequadas, dificuldades em compreender e usar meios comunicativos
verbais e não-verbais durante as interações, falhas na manutenção dos
relacionamentos sociais, falhas em compartilhar e seguir brincadeiras de faz-de-
conta, dificuldades em interagir com crianças da mesma idade, baixa resposta
ao chamado do nome, em compartilhar interesses e responder às iniciativas
interacionais de terceiros.
Já nos padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou
atividade, pode-se observar movimentos motores incomuns em frequência,
intensidade e contextos, uso de objetos incomuns, muito frequente nas
brincadeiras, como interesse específico por partes de brinquedos ou forma
incomum de brincar, dificuldade em transições de atividades, rotina ou eventos,

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mostrando um padrão rígido de comportamento. Também é comum interesses
fixos e restritos que são atípicos em intensidade e frequência, como podemos
observar crianças que se interessam apenas por determinados brinquedos ou
categorias, não manifestando exploração de outros.
Em relação aos padrões sensoriais, é possível que uma criança apresente
hiperreatividade, caracterizada por uma alta sensibilidade aos estímulos
sensoriais; uma hiporreatividade, não demonstrando mudança de
comportamento frente a estímulos e, o que é bastante comum, a combinação de
ambos em estímulos específicos. Não é um critério de diagnóstico, mas o DSM-
5 já levanta a possibilidade de comprometimentos motores associados ao TEA,
como marcha atípica, falta de coordenação na manipulação de objetos, por
exemplo. É importante dizer que, características isoladas não sugerem o
transtorno, portanto deve-se atentar aos critérios de diagnóstico e avaliar o
impacto desses comportamentos na adaptação da criança nos contextos diários,
ou seja, se tais características trazem impactos significativos em na
funcionalidade da criança, necessitando de apoios para a aprendizagem, o que
não é comum em crianças com desenvolvimento típico.
Para um diagnóstico mais preciso, que irá auxiliar no planejamento das
intervenções, faz-se necessário avaliar se a criança apresenta ou não
comprometimento intelectual e o nível de linguagem funcional. Com base nisso,
respaldado pelos manuais diagnósticos (DSM-5 e CID-11), faz cada vez mais
necessária uma avaliação interdisciplinar, envolvendo profissionais da saúde,
como psicólogos e neuropsicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e
médicos. Só a partir desse levantamento é possível descrever o nível de
gravidade, que é dado separadamente em cada um dos núcleos de dificuldade
e de acordo com o nível de suporte que o indivíduo necessita em cada um deles.
Isso significa que o indivíduo pode precisar, por exemplo, de apoios substanciais
(nível 2) no que se refere à comunicação e interação social e um apoio muito
substancial (nível 3) nos padrões rígidos de comportamento.
Por fim, é importante apresentar alguns conceitos importantes que
envolvem o Transtorno do Espectro Autista, e que todos os profissionais devem
se aprofundar para um amplo conhecimento sobre esse transtorno tão complexo
e ao mesmo tempo, instigante.

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• NEURÔNIOS ESPELHO: Nosso cérebro possui um mecanismo neural,
que funciona desde bebê, e é capaz de reconhecer a ação e a intenção de outras
pessoas, assim como as expressões faciais, e tende a imitar o que vê. Isso
acontece de forma não-intencional, ou seja, através da ativação desses circuitos
neurais. Um bebezinho que olha para um adulto quando se conversa com ele e
tenta mexer a boca e produzir sons é um exemplo desse mecanismo em ação.
Essa habilidade inata do ser humano (presente também em outros primatas) leva
ao desenvolvimento da Cognição Social. Uma das hipóteses dos déficits na
interação social em indivíduos com Autismo é a falha nesses neurônios, que
levam às dificuldades na imitação.
• COERÊNCIA CENTRAL: O déficit na coerência central foi descrito pela
Psicóloga do desenvolvimento Uta Frith, pela primeira vez em 1989, e é
considerado um dos marcos iniciais da neurociência cognitiva do Autismo. A
autora explica que indivíduos típicos têm uma tendência de integrar os estímulos
oferecidos como um todo, mas no TEA, essa capacidade de “ver o todo” estaria
deficitária, ou seja, há uma tendência em analisar as partes e não o conjunto.
Muitas crianças podem ter dificuldades em compreender e interpretar histórias
ou visualizar imagens de ações, uma vez que podem se prender aos detalhes e
ter dificuldade na visualização do todo. Um exemplo desse tipo de dificuldade
seriam os prejuízos de entendimento de sarcasmos, metáforas, piadas ou ainda
a tendência em compreender as coisas em um sentido bem literal.
• ATENÇÃO COMPARTILHADA: A atenção compartilhada é definida como
a habilidade de coordenar a atenção entre dois parceiros sociais em relação a
um terceiro referencial externo (Tomasello, 2003), com o propósito de
compartilhar uma experiência em comum. Podemos dividi-la em outras duas
habilidades: Iniciativa de Atenção Compartilhada, que se relaciona com a
habilidade da criança em direcionar, de maneira espontânea, a atenção do
parceiro para um objeto/evento de interesse dela, isto é, sem que o parceiro
tenha antes feito algum tipo de solicitação à criança com o objetivo de
compartilhar interesse, curiosidade, prazer e descobertas dela em relação a uma
dada situação; e a Resposta de Atenção Compartilhada, que referem-se à
habilidade da criança de seguir a direção do olhar, dos movimentos da cabeça e
dos gestos de outra pessoa para compartilhar um interesse comum (Bosa, 2009).

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• COGNIÇÃO SOCIAL: De acordo com Butman & Allegri (2001) é a
“capacidade de perceber e interpretar adequadamente os signos sociais de
modo a gerar respostas mais apropriadas às intenções, disposições e
comportamentos dos outros. Ela capacita os indivíduos a construir
representações das relações com os outros, bem como utilizar essas
representações de forma flexível”. Ela gera operações mentais subjacentes às
interações sociais, compostas pela percepção das informações ambientais,
processamento, interpretação e manipulação dessas informações, que geram
respostas levando ao comportamento adaptativo. A Cognição Social envolve
habilidades como processamento de emoções, percepção social, teoria da
mente e viés de atribuição.
• TEORIA DA MENTE: É a capacidade de atribuirmos um estado mental a
si mesmo e a outras pessoas, ou seja, conseguir reconhecer e pensar sobre o
próprio pensamento e supor sobre os pensamos de outros. Também envolve
habilidade como compreensão das intenções, disposições ou crenças dos outros
e de si mesmo. Linguagem, controle inibitório e ambiente familiar são variáveis
que influenciam a Teoria da Mente. Ela envolve funções cognitivas superiores
que estão intimamente relacionadas aos Neurônios Espelho. Os déficits na
Teoria da Mente levam a prejuízos no funcionamento social, com impacto nas
interações sociais, na compreensão da linguagem (verbal e não-verbal), na
forma como se atribui intenções ao comportamento social de terceiros.

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