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O trecho descreve um momento emocional entre uma família, onde um boneco que se parece com o protagonista gera tensões e sentimentos conflitantes entre sua mãe e sua esposa, Celestial. A narrativa explora a dinâmica familiar, o desejo de ter filhos e a busca por identidade enquanto o protagonista reflete sobre seu passado e seu relacionamento. O clima muda ao longo do jantar, mas a conexão entre o casal se restabelece em um momento íntimo sob uma ponte.
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O trecho descreve um momento emocional entre uma família, onde um boneco que se parece com o protagonista gera tensões e sentimentos conflitantes entre sua mãe e sua esposa, Celestial. A narrativa explora a dinâmica familiar, o desejo de ter filhos e a busca por identidade enquanto o protagonista reflete sobre seu passado e seu relacionamento. O clima muda ao longo do jantar, mas a conexão entre o casal se restabelece em um momento íntimo sob uma ponte.
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Não foi o único motivo – disse ela.

Dava para ver que foi um momento mágico porque minha mãe não teve uma única
palavra para dizer. Seu olhar estava na trouxinha em seu colo enquanto meu pai se juntava a ela e espiava por cima dos
seus ombros. – Usei cristais austríacos para o cabelo – continuou Celestial, ficando empolgada. – Vire para captar a luz.
Minha mãe obedeceu e a cabeça do boneco brilhou quando a luz comum das lâmpadas da casa refletiu no pequeno
gorro de contas pretas. – É como um halo – disse minha mãe. – É assim quando você tem um bebê de verdade. Ele é o
seu anjo. Ela foi até o sofá e pôs o boneco numa almofada. Foi uma experiência esquisita, porque o boneco se parecia
mesmo comigo, ou pelo menos com as fotos de quando eu era bebê. Era como olhar num espelho encantado. Em Olive,
pude ver a garota de 16 anos que ela havia sido, mãe cedo demais, porém delicada como a primavera. – Eu poderia
comprar isso de você? – Não, mamãe – falei, com o orgulho saltando do peito. – É uma encomenda especial. Dez mil na
mão, conseguidos por este seu criado aqui! – Claro – reagiu ela, dobrando a manta sobre o boneco como se fosse uma
mortalha. – Para que eu preciso de um boneco? Uma velha feito eu? – Pode ficar com ele – disse Celestial. Lancei-lhe o
olhar que ela diz que é minha expressão Gary Coleman. O contrato especificava a entrega no fim do mês. O prazo era
mais do que rigoroso: era registrado em cartório em triplicata. Não havia opção de adiamento. Sem sequer me olhar,
Celestial acrescentou: – Posso fazer outro. – Não – disse Olive. – Não quero atrapalhar você. É só que ele se parece
demais com o Pequeno Roy. Estendi a mão para pegar o boneco, mas minha mãe não estava exatamente soltando-o e
Celestial não estava exatamente facilitando as coisas. Ela fica louca quando alguém gosta do seu trabalho. Essa era outra
coisa que precisaríamos ajustar se quiséssemos transformar aquilo num negócio de verdade. – Pode ficar com ele –
repetiu Celestial, como se não estivesse há três meses trabalhando naquele boneco. – Posso fazer outro para o prefeito.
24 Agora foi a vez de Olive agitar os íons. – Ah, o prefeito. Bom, desculpe! – Ela me entregou o boneco. – Ponha de volta
no carro antes que eu o suje. Não quero que você me mande uma conta de 10 mil dólares. – Eu não falei nesse sentido –
explicou Celestial, olhando para mim como se pedisse desculpa. – Mãe – pedi. – Olive – disse Grande Roy. – Sra.
Hamilton – disse Celestial. – Está na hora do jantar – declarou minha mãe. – Espero que vocês todos ainda gostem de
batata-doce caramelada e folhas de mostarda. Jantamos, não em silêncio, mas ninguém falou de nada. Olive estava com
tanta raiva que estragou o chá gelado. Bebi um longo gole, esperando um sabor doce e suave, e engasguei com o gosto
de sal kosher. Pouco depois meu diploma do ensino médio caiu da parede e uma rachadura riscou o vidro de alto a
baixo. Sinais? Talvez. Mas eu não estava pensando em mensagens vindas do além. Estava distraído demais por me ver
naquela situação entre as duas mulheres que eu valorizava acima de qualquer coisa. Não é que eu não saiba me virar
em situações difíceis. Todo homem sabe como estar presente em várias frentes. Mas com minha mãe e Celestial eu me
sentia realmente dividido ao meio. Olive me pôs no mundo e me ensinou a ser este homem que eu reconheço como eu.
Mas Celestial era a chave para o resto da minha vida, a porta reluzente para o próximo nível. A sobremesa era um bolo
típico do Sul, meu predileto, mas a disputa por causa daquele boneco de 10 mil dólares acabou com meu apetite.
Mesmo assim, me servi de duas fatias com redemoinhos de canela entremeados, porque todo mundo sabe que a
melhor forma de piorar uma situação já ruim com uma mulher do Sul é recusar a comida que ela fez. Então comi feito
um morto de fome, e Celestial também, apesar de nós dois termos jurado que manteríamos distância de açúcar
refinado. Assim que tiramos a mesa, Grande Roy disse: – Pronto para subir com as malas? – Não, Grandão – respondi
com a voz baixa. – Reservei um quarto no Piney Woods. 25 – Você prefere aquela espelunca à sua própria casa? –
perguntou Olive. – Quero levar Celestial de volta ao começo de tudo. – Você não precisa ficar lá para isso. Mas a
verdade é que eu precisava. A história da minha vida tinha de ser contada longe das tendências revisionistas dos meus
pais. Depois de um ano de casamento, ela merecia saber com quem estava casada. – Foi ideia sua? – perguntou minha
mãe a Celestial. – Não, senhora. Fico satisfeita em ficar aqui. – Foi ideia minha – falei, apesar de Celestial estar feliz
porque íamos ficar no hotel. Ela disse que nunca se sentia bem com a gente dormindo debaixo do teto dos meus pais ou
dos dela, apesar de sermos casados no papel, etc. Na última vez em que estivemos aqui ela pôs uma camisola estilo
camponesa, apesar de geralmente dormir au naturel. – Mas eu arrumei o quarto – disse Olive, subitamente recorrendo
a Celestial. As duas se entreolharam de um modo que um homem jamais olha para outro. Por um instante elas estavam
sozinhas na casa. – Roy. – Celestial se virou para mim, estranhamente amedrontada. – O que você acha? – Nós voltamos
de manhã, mãe – falei, dando-lhe um beijo. – Biscoitos e mel. Quanto tempo demoramos para ir embora da casa da
minha mãe? Talvez seja só impressão, vendo agora em retrospectiva, mas todo mundo, a não ser eu, parecia estar com
pedras amarradas aos sapatos. Enquanto finalmente passávamos pela porta, meu pai entregou a Celestial o boneco em
sua mortalha. Carregava-o desajeitadamente, como se não conseguisse decidir se aquilo era um objeto ou um ser. –
Deixe-o pegar um pouco de ar fresco – disse minha mãe, puxando a manta. O sol poente laranja iluminou o halo. – Pode
ficar com ele – falou Celestial. – De verdade. – Esse é para o prefeito – respondeu Olive. – Você pode fazer outro para
mim. 26 – Ou, melhor ainda, pode fazer um de verdade – afirmou Grande Roy, fazendo com as mãos grandes um gesto
de barriga de grávida. Sua gargalhada quebrou qualquer feitiço que estivesse nos prendendo à casa, e conseguimos ir
embora. O humor de Celestial melhorou assim que entramos no carro. Qualquer vestígio de baixo astral ou nervosismo
que a estivesse incomodando sumiu assim que chegamos à estrada. Ela soltou as tranças francesas das laterais da
cabeça, aninhou a cabeça entre os joelhos e começou a desfazê-las, afofando o cabelo. Quando se sentou de novo tinha
voltado ao normal, um tumulto de cabelos e um sorriso malicioso. – Ah, meu Deus, aquilo foi esquisito – disse. – Nem
fale. Nem entendi o que aconteceu. – Bebês. Acho que o desejo de ter netos deixa até os pais normais pirados. – Os
seus, não – falei, pensando nos pais dela, frios como um pote de sorvete. – Ah, sim, os meus também. Eles se controlam
na sua frente. Todos precisam fazer terapia. – Mas nós estamos tentando ter filhos. Que diferença faz se eles também
querem bebês? Não é bom ter algo em comum? A caminho do hotel, parei no acostamento logo antes de
atravessarmos uma ponte suspensa fora de escala em relação ao Aldridge, que os mapas chamam de rio mas que é
basicamente um córrego amigável. – O que você está calçando? – Um sapato com salto anabela. – Você consegue andar
com ele? Ela pareceu sem graça por causa dos sapatos, uma construção arquitetônica com tiras estampadas de bolinhas
e cortiça. – Como eu iria impressionar sua mãe usando sandália rasteirinha? – Não se preocupe, estamos perto – falei
descendo por um barranco suave enquanto ela dava passinhos de bebê atrás de mim. – Segure o meu pescoço – instruí,
pegando-a como uma noiva e carregando-a pelo resto do caminho. Ela grudou o rosto no meu pescoço e suspirou. Eu
jamais admitiria, mas gostava de ser mais forte do que ela, de como era capaz de literalmente 27 tirá-la do chão.
Celestial tampouco admitia, mas sei que também gostava. Chegando à margem do riacho, coloquei-a no chão macio. –
Está ficando pesada, garota. Tem certeza de que não está grávida? – Rá, rá, muito engraçado. – Ela levantou os olhos. –
Isso aí é um bocado de ponte para um fiozinho de água. Sentei-me no chão e apoiei as costas numa das colunas de
metal, como se fosse a grande nogueira do nosso quintal da frente. Abri as pernas e dei um tapinha no espaço entre
elas. Celestial se sentou ali e eu cruzei os braços à frente do seu peito, apoiando o queixo onde seu pescoço encontrava
o ombro. O riacho ao nosso lado estava límpido; a água corria em cima de pedras lisas e o crepúsculo delineava as
ondulações com prata. Minha mulher cheirava a lavanda e bolo de coco. – Antes de construírem a represa e a água
baixar – comentei –, eu e papai vínhamos aqui aos sábados, com linhas de pesca e iscas. De certa forma a paternidade é
isso: sanduíches de mortadela e refrigerante de uva. Ela riu, sem saber até que ponto eu estava falando sério. Acima de
nós, um carro passou pela malha metálica e o vento através dos buracos soava como uma melodia, como quando a
gente sopra de leve no gargalo de uma garrafa. – Quando passam muitos carros, é quase uma música inteira –
comentei. Ficamos sentados, esperando carros, ouvindo a música da ponte. Nosso casamento era bom. Não é só a
memória falando. – Geórgia – falei, usando seu apelido. – Minha família é mais complicada do que você acha. Minha
mãe... Mas não consegui dizer o resto da frase. – Tudo bem – garantiu ela. – Não estou chateada. Ela ama você, só isso.
Ela se virou para mim e nós nos beijamos feito adolescentes namorando embaixo da ponte. Era uma sensação
maravilhosa sermos adultos e ainda jovens. Estarmos casados mas não acomodados. Amarrados porém livres. Minha
mãe tinha exagerado. O Piney Woods era cotado com uma estrela e meia segundo uma avaliação objetiva, mas você
precisa dar mais uma estrela só por ser o único hotel da cidade. Séculos antes eu tinha levado uma garota lá, depois do
baile de formatura, esperando me livrar desse

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