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O texto narra a complexa dinâmica familiar e relacional entre o narrador, sua mãe e sua esposa Celestial, abordando questões de identidade, expectativas sociais e a busca por um futuro diferente para seus filhos. O narrador reflete sobre suas experiências e a pressão de sua mãe em relação a relacionamentos, enquanto lida com suas próprias inseguranças e a paixão por Celestial. O casamento deles é retratado como uma mistura de amor, desafios e a esperança de construir uma nova geração com valores atualizados.
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O texto narra a complexa dinâmica familiar e relacional entre o narrador, sua mãe e sua esposa Celestial, abordando questões de identidade, expectativas sociais e a busca por um futuro diferente para seus filhos. O narrador reflete sobre suas experiências e a pressão de sua mãe em relação a relacionamentos, enquanto lida com suas próprias inseguranças e a paixão por Celestial. O casamento deles é retratado como uma mistura de amor, desafios e a esperança de construir uma nova geração com valores atualizados.
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antes de você aparecer e fosse continuar sentado na mesma espreguiçadeira muito depois de você ter ido embora.


Você não quer se envolver com nenhuma mulher que aponte uma arma de fogo para você, filho. Tentei explicar que o
que tornava a situação notável era o contraste entre o clima de bandidagem da pistola e o brilho da noite. Além disso: –
Ela estava só brincando, pai. Grande Roy assentiu e sugou a espuma do seu copo de cerveja. – Se é assim que ela brinca,
o que vai acontecer quando ficar com raiva? Da cozinha, como se falasse através de um intérprete, minha mãe gritou: –
Pergunte a ele com quem ela está agora! Ela pode ser maluca, mas não é doida. Ninguém dispensaria o Pequeno Roy
sem ter alguém no banco de reserva. – Sua mãe quer saber com quem ela está agora – disse Grande Roy, como se não
estivéssemos todos falando inglês. – Um advogado qualquer. Não do tipo Perry Mason. Um que lida com contratos.
Mexe com papelada também. – Você não mexe com papelada também? – perguntou Grande Roy. – É totalmente
diferente. Ser representante de vendas é temporário. Além disso, meu destino não é cuidar de papelada. Só calhou de
eu estar fazendo isso agora. – Sei – falou Grande Roy. Minha mãe continuou agindo como se não falássemos a mesma
língua: – Diga que ele vive deixando essas garotas de pele clara ferirem os sentimentos dele. Diga que ele precisa
lembrar de algumas garotas aqui da paróquia de Allen. Diga que ele precisa ter alguém a seu lado enquanto sobe na
vida. – Sua mãe falou... – começou Grande Roy. – Eu escutei, e ninguém disse que a tal garota tinha a pele clara. Mas
obviamente tinha, e minha mãe tem um sexto sentido com relação a isso. Olive saiu da cozinha secando as mãos num
pano de prato listrado. – Não fique com raiva. Não estou tentando me meter na sua vida. Ninguém consegue de fato
agradar a mãe quando se trata de mulheres. Todos os meus amigos dizem que a mãe deles vive avisando: “Se ela não
usa o mesmo tipo de pente que você, não a traga para casa.” As revistas Ebony 14 e Jet juram que qualquer homem
negro com dois tostões no bolso prefere as brancas. Quanto a mim, sou estritamente ligado às negras, e minha mãe
tem o desplante de se preocupar com o tom específico da pele da que eu tinha escolhido. Mas seria de esperar que ela
gostaria de Celestial. As duas tinham tanto em comum que elas é que poderiam ser parentes uma da outra. Ambas
tinham aquela beleza clean, tipo a Thelma do seriado Good Times, a primeira personagem de TV por quem eu tive uma
quedinha. Mas não, para minha mãe, Celestial tinha a aparência certa, só que pertencia a um mundo diferente. Grande
Roy, por outro lado, era tão fascinado por Celestial que, se eu não me casasse com ela, ele se casaria. No entanto, nada
disso a fazia marcar pontos com Olive. – Só tem uma coisa que vai fazer sua mãe gostar pelo menos um pouco de mim –
sentenciou Celestial certa vez. – E o que seria? – Um bebê – respondeu ela com um suspiro. – Sempre que eu a vejo, ela
me olha de cima a baixo como se os netos dela fossem reféns dentro do meu corpo. – Que exagero. Mas a verdade era
que eu conhecia minha mãe. Depois de um ano eu estava preparado para colocar esse bloco na rua, criando uma nova
geração com um conjunto de regras e regulamentos atualizados. Não que houvesse algo errado no modo como
qualquer um de nós tinha sido criado. Mas o mundo está mudando, então o modo como a gente cria os filhos também
precisa mudar. Parte do meu plano era jamais falar sobre colheita de algodão. Meus pais sempre falavam sobre
algodão, real ou metafórico. Os brancos dizem: “É melhor do que cavar uma vala”; os negros dizem: “É melhor do que
colher algodão.” Não vou lembrar aos meus filhos que alguém morreu para que eu fizesse coisas comuns do dia a dia.
Não quero Roy III sentado no cinema, tentando assistir a Star Wars ou qualquer outro filme, pensando no fato de que
estar ali comendo pipoca é um direito que custou a vida de alguém. Nada disso. Ou talvez só um pouco. Precisaremos
acertar a medida. Já Celestial promete que nunca vai dizer que eles precisam ser duplamente melhores que qualquer
branco para receber metade do que eles recebem. “Mesmo que seja verdade”, me disse certa vez, “como é que alguém
diz esse tipo de coisa a uma criança de 5 anos?” 15 Ela era o equilíbrio perfeito em uma mulher – não fazia o tipo
corporativo de tailleur, mas usava sua ancestralidade como o brilho num sapato de couro legítimo. Além disso, se
comportava como artista sem chegar ao nível da loucura. Em outras palavras, não guardava uma pistola na bolsa, mas
também não lhe faltava paixão. Celestial gostava de fazer as coisas a seu modo e dava para perceber isso só de olhar
para ela. Era alta – 1,75 –, mais alta do que o próprio pai. Sei que altura é questão de sorte, mas parecia que ela tinha
escolhido ser assim. Seu cabelo, grande e revolto, a deixava um pouquinho mais alta que eu. Mesmo antes de saber que
ela era um gênio com agulha e linha, você perceberia que estava lidando com uma pessoa especial. Ainda que algumas
pessoas – e com “algumas pessoas” quero dizer minha mãe – não conseguissem ver, tudo isso faria dela uma mãe
excelente. Tenho uma certa intenção de perguntar a ela se podemos chamar nosso filho – ou filha – de Futuro ou
Futura. Por mim, já estaríamos com o bebê encomendado na lua de mel. Visualize nós dois numa cabana sobre o
oceano, com piso de vidro. Eu nem sabia que existiam coisas assim, mas quando Celestial me mostrou o panfleto fingi
sacar tudo, dizendo a ela que aquilo estava na minha lista de desejos. Lá estávamos nós, relaxando acima do oceano,
nos curtindo. O casamento tinha sido mais de um dia antes, porque Bali ficava a 23 horas de distância, na primeira
classe. Para a cerimônia, Celestial estava arrumada como uma versão boneca de si mesma. Todo aquele cabelo maluco
foi preso num coque de bailarina e a maquiagem fez com que ela parecesse estar ruborizando. Quando a vi flanando
pelo corredor entre os bancos, vindo na minha direção, ela e o pai riam como se aquilo tudo não passasse de um ensaio
geral. Lá estava eu, sério como quatro ataques cardíacos e um derrame, mas então ela me olhou e franziu os lábios
pintados de rosa num beijinho e eu saquei a piada. Ela estava dando a entender que tudo aquilo – as menininhas
segurando a cauda do vestido, meu paletó, até as alianças no meu bolso – era só um teatro. O real era a dança da luz
nos olhos dela e nosso sangue correndo rápido nas veias. E então eu também sorri. Em Bali aquele penteado já tinha
sumido havia muito tempo e ela estava com um afro estilo anos 70, usando apenas glitter corporal. – Vamos fazer um
bebê – falei. Ela gargalhou. – É assim que você quer me pedir isso? 16 – Estou falando sério. – Por enquanto não, papai.
Mas em breve. Nas nossas bodas de papel eu escrevi num pedaço de papel: “Em breve tipo agora?” Ela o virou e
escreveu no verso: “Em breve tipo ontem. Fui ao médico e ele disse que todos os sistemas estão em ordem.” Mas foi
outro pedaço de papel que encalacrou a gente: meu próprio cartão de visita. Tínhamos voltado para casa depois do
nosso jantar de aniversário de casamento no Beautiful Restaurant, um lugar meio lanchonete, meio café na Cascade
Road. Não era chique, mas foi onde pedi a mão dela. Ela dissera: “Sim, mas guarde esse anel antes que assaltem a
gente.” No aniversário de casamento voltamos para um banquete de carne, macarrão com queijo e torta de milho.
Depois fomos comer a sobremesa em casa, duas fatias do nosso bolo de casamento que estavam no freezer havia 365
dias, esperando para ver se continuaríamos juntos ao final daquele ano. Não contente em deixar a coisa nesse pé, abri a
carteira para mostrar a foto dela que eu guardava ali. Enquanto tirava a foto, meu cartão de visita caiu e pousou
suavemente ao lado das fatias de bolo de Amaretto. No verso, em tinta roxa, estava o primeiro nome e o telefone de
uma mulher, o que já era bem ruim. Mas Celestial notou mais três números, que ela presumiu que fossem de um quarto
de hotel. – Tenho uma explicação para isso – falei. A verdade era simples: eu gostava de mulheres. Curtia um flerte
recreativo. Às vezes colecionava números de telefone como se ainda estivesse na faculdade, mas em 99,997% dos casos
o negócio parava por aí. Eu só gostava de saber que ainda levava jeito para a coisa. Nada de mais, certo? – Explique,
então – disse ela. – Ela enfiou no meu bolso. – Como ela enfiou no seu bolso seu próprio cartão de visita? Celestial
estava furiosa e isso me deixou com um pouco de tesão, como o estalo no forno antes de o fogo pegar. – Ela pediu meu
cartão. Achei que fosse algo inocente. Celestial se levantou, recolheu os pratos com o bolo e os jogou no lixo, e que se
danasse a porcelana do casamento. Voltou à mesa, pegou sua taça de espumante rosé e engoliu a bebida de uma vez
como se fosse um shot de tequila. Depois arrancou a que estava na minha mão, bebeu minha parte e 17 jogou as taças
no lixo também. Quando elas quebraram, fizeram um som de sino. – Você é tão mentiroso! – exclamou ela. – Mas onde
estou agora? – falei. – Aqui, com você. Na nossa casa. É com você que eu vou para a cama toda noite. – Na porra do
nosso aniversário de casamento. – Agora a fúria dela estava se transformando em tristeza. Ela se sentou na cadeira do
café da manhã. – Por que casar, se você queria me trair? Não mencionei que era preciso estar casado para trair. Em vez
disso, falei a verdade. – Eu nunca nem liguei para essa mulher. – Sentei-me ao lado dela. – Eu te amo. – Falei isso como
se fosse uma fórmula mágica. – Feliz aniversário de casamento. Ela deixou que eu a beijasse, o que era um bom sinal.
Senti o gosto do espumante rosé nos seus lábios. Já estávamos sem roupa quando ela mordeu minha orelha com força.
– Você é muito mentiroso. – Depois ela esticou o braço até meu criado- -mudo e pegou uma embalagem metalizada
brilhante de camisinha. – Pode ir colocando, queridinho. Sei que há pessoas que diriam que nosso casamento estava em
crise. As pessoas dizem um monte de coisas quando não sabem o que acontece entre quatro paredes. Mas como
testemunha, e inclusive como membro, do nosso relacionamento, estou convencido de que era o contrário. Não era
pouca coisa o fato de eu deixá-la furiosa com apenas um pedaço de papel e ela me deixar furioso com uma camisinha. É,
nós éramos um casal casado, mas ainda éramos jovens e estávamos apaixonados. Um ano havia se passado e a chama
continuava acesa. O negócio é o seguinte: é um desafio ser 2.0. No papel nós somos uma versão adulta dos personagens
da nossa série de TV favorita. Só que na vida real Celestial e eu somos algo que Hollywood nunca imaginou. Ela era
talentosa e eu era o seu empresário e seu muso inspirador. Não é que eu ficasse deitado como vim ao mundo posando
para ela me desenhar. Não, eu simplesmente vivia minha vida e ela observava. Quando estávamos noivos, ela venceu
um concurso com uma escultura de vidro. De longe parecia uma bola de gude, mas quando você chegava perto e olhava
do ângulo correto, dava para ver as linhas do meu perfil num redemoinho lá dentro. Alguém

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