0% acharam este documento útil (0 voto)
9 visualizações10 páginas

Content

O estudo analisou a estatura e o peso de 379 crianças de 6 a 11 anos na ilha de Santa Maria, Açores, revelando que não houve diferenças significativas entre os sexos e comparações com outras regiões. A maioria das crianças apresentou estatura e peso médios ou baixos, com influência de fatores socioeconômicos na saúde e nutrição. Os resultados indicam que crianças de famílias com menor escolaridade e maior número de filhos tendem a ter menor estatura e peso.

Enviado por

h8517
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
9 visualizações10 páginas

Content

O estudo analisou a estatura e o peso de 379 crianças de 6 a 11 anos na ilha de Santa Maria, Açores, revelando que não houve diferenças significativas entre os sexos e comparações com outras regiões. A maioria das crianças apresentou estatura e peso médios ou baixos, com influência de fatores socioeconômicos na saúde e nutrição. Os resultados indicam que crianças de famílias com menor escolaridade e maior número de filhos tendem a ter menor estatura e peso.

Enviado por

h8517
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

Saúde infantil

Estatura e peso em crianças de 6 a 11 anos da


ilha de Santa Maria, Açores

AUGUSTA GAMA

Estudou-se a estatura e o peso em 379 crianças de ambos 1. Introdução


os sexos de idades compreendidas entre os 6 e os 11 anos
residentes na ilha de Santa Maria. Quando se compararam O crescimento das crianças é um indicador da saúde,
as médias da estatura, do peso e do índice de massa corpo- do status nutricional e do bem-estar geral de uma
ral entre ambos os sexos, não se verificaram diferenças população. O crescimento é um processo biocultural.
significativas. Para cada sexo, segundo a idade, geralmente A sua análise tem sido desenvolvida com o fim de
não se encontraram diferenças significativas quando se conhecer as condições ambientais que influenciam o
compararam as médias da estatura e do peso destas crian-
processo de crescimento da criança e compreender o
ças de Santa Maria com outras da ilha das Flores e de uma
seu padrão geral de desenvolvimento físico e os seus
escola da região suburbana de Lisboa, havendo algumas
determinantes. São encontradas diferenças no pro-
excepções para o peso. Para cada sexo, os valores da esta-
tura e do peso por idade e do peso por estatura foram
cesso de crescimento quando se comparam indiví-
comparados com os valores de referência do NHANES I e
duos de países desenvolvidos e de países em desen-
II, observando-se, na generalidade, que os valores médios volvimento, de zonas rurais e de zonas urbanas de
de Z-score são negativos; no entanto, em alguns casos, em um mesmo país, filhos de pais de classes sócio-
particular para o peso por estatura, as médias são positi- -económicas elevada e baixa, de famílias pequenas e
vas. A maioria dos indivíduos estudados tem estatura ou numerosas e entre os sexos (Bogin, 1988; Eveleth e
peso médios e baixos, sendo mais frequentes crianças de Tanner, 1976; Henneberg e Louw, 1998; Lin et al.,
estatura muito baixa do que com peso muito baixo. Verifi- 1992; Tanner, 1992). Quando a criança cresce num
caram-se diferenças significativas na estatura e no peso das ambiente pobre, caracterizado por recursos inadequa-
crianças de Santa Maria quando se consideraram os indi- dos, água de má qualidade e deficientes condições
cadores sócio-económicos, escolaridade e profissão do pai e sanitárias, a sua nutrição e saúde podem estar em
tamanho da família. Sugere-se que nas crianças estudadas risco (Crooks, 1994). As médias da estatura e do
os filhos de pai com um baixo nível de escolaridade, de peso por classe etária e do peso por estatura permi-
trabalhadores manuais e que pertencem a agregados fami- tem-nos avaliar o estado geral de crescimento e nutri-
liares mais numerosos são mais magros e baixos. ção dos indivíduos, bem como reflectem o estado de
saúde de uma população em geral.
Segundo Vale (1936), que estudou a população rural
infantil, o precursor dos estudos médico-antropológi-
cos da criança portuguesa foi Alves dos Santos, que,
Augusta Gama é assistente do Departamento de Zoologia e Antro- em 1917, apresentou um trabalho sobre mensurações
pologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. nacionais desde o nascimento até aos 20 anos.

VOL. 18, N.o 1 — JANEIRO/JUNHO 2000 35


Saúde infantil

Os objectivos deste trabalho são: conhecer os valores et al., 1981). Calculou-se ainda o índice de massa
médios da estatura e do peso em crianças de ambos corporal: peso (kg)/estatura (m2).
os sexos e de idades compreendidas entre os 6 e os Compararam-se os valores da estatura e do peso das
11 anos que frequentavam o ensino básico nas crianças da ilha de Santa Maria com os de outras
escolas da ilha de Santa Maria, nos Açores; comparar crianças açorianas moradoras na ilha das Flores
os resultados dos parâmetros antropométricos obser- (Antunes, 1990) e do continente, da escola da
vados com os de outras crianças açorianas da ilha das Buraca, Amadora (Antunes, 1994).
Flores e de uma escola da região suburbana de Lis- Para avaliar o estado geral de crescimento, obtive-
boa; avaliar o estado geral de crescimento das crian- ram-se os valores de Z-score da estatura, do peso e
ças mediante a comparação com valores de refe- do peso por estatura, tendo como valores de referên-
rência e determinar a influência de alguns fac- cia a média e o desvio-padrão (DP), por sexo e por
tores sócio-económicos na estatura e no peso das idade, do NHANES I e II e as categorias apresenta-
crianças. dos por Frisancho (1990): I, estatura ou peso muito
baixos (Z < –1,650); II, estatura ou peso baixos
(–1,645 < Z < –1,040); III, estatura ou peso médios
2. Material e métodos (–1,036 < Z < +0,670); IV, estatura ou peso elevados
(+0,675 < Z < +1,030), e IV, estatura ou peso exces-
Os dados da estatura e do peso das crianças, de sivos (Z > +1,036).
ambos os sexos, foram recolhidos aquando da Expe- Para avaliar a possível influência de factores sócio-
dição Científica Santa Maria e Formigas/1990, orga- -económicos no crescimento estato-ponderal, estabe-
nizada pelo Departamento de Biologia da Universi- leceram-se comparações entre os valores médios de
dade dos Açores. Observaram-se 420 crianças de Z-score segundo a profissão e escolaridade do pai, o
idades compreendidas entre os 6 e os 15 anos e que tamanho da família e a ordem de nascimento.
correspondem a 61,3 % dos inscritos no ensino Dado que em alguns casos o inquérito sócio-demo-
básico na ilha de Santa Maria. Trata-se de um estudo gráfico estava incompleto, a caracterização sócio-
transversal: as mensurações antropométricas e o -demográfica da amostra e a análise descrita no pará-
inquérito sócio-económico foram obtidos em várias grafo anterior não se referem à totalidade dos indiví-
escolas do ensino básico dispersas pela ilha (Qua- duos, sendo especificado o número de observados
dro I). As mensurações foram executadas com as para cada caso.
crianças em calção e descalças. Foram excluídas as Nas comparações estabelecidas entre as médias, foi
crianças com idade igual ou superior a 12 anos, adoptada a análise de variância (oneway), o teste t e
sendo a amostra estudada constituída por 204 meni- o teste de Kolmogorov-Smirnov (nível de significân-
nos e 175 meninas de idades compreendidas entre os cia p < 0,05); e foi utilizado o programa SPSS
6 e os 11 anos. (Nourisis, 1988).
Determinou-se a idade decimal e estabeleceram-se as
classes etárias de 6, 7, 8, 9, 10 e 11 anos, respectiva-
mente para idades compreendidas entre 6,0 e 6,9 3. Resultados
anos, 7,0 e 7,9 anos, e assim sucessivamente (Healy
3.1. Características sócio-demográficas

A caracterização sócio-económica e demográfica das


crianças pode ser observada no Quadro II. A maioria
Quadro I das crianças é natural dos Açores, em particular da
Número e percentagem de alunos observados nas ilha de Santa Maria (59,9%), assim como os seus
escolas do ensino básico de diversas localidades da ilha pais (pai — 47,8%; mãe — 50,9%).
de Santa Maria
Quanto ao nível de escolaridade, predomina a 4.a
Escola N Percentagem classe, quer para o pai (46,2%), quer para a mãe
Vila Porto — Vila Porto 174 45,9 (39,8%), sendo o analfabetismo mais frequente entre
Vila Porto — Aeroporto 138 10,0 as mulheres (11,6%). A actividade profissional do pai
São Pedro 154 14,2 é maioritariamente ligada a profissões não manuais
Feteiras 118 12,1 (44,3%) e a da mãe à actividade doméstica (58,8%).
Santo António 122 15,8 Para o tamanho da família, observa-se uma maior
Santo Espírito 115 14,0 percentagem de crianças de agregados com 2 e 3
Malbusca 17 11,8 filhos (27,7% e 23,5%, respectivamente), salien-
Almagreira 161 16,1 tando-se, contudo, a ocorrência de famílias com 5 ou

36 REVISTA PORTUGUESA DE SAÚDE PÚBLICA


Saúde infantil

Quadro II
Caracterização sócio-económica e demográfica das crianças

N Percentagem

Ilha de Santa Maria 227 59,9


Outra ilha açoriana 155 14,5
Naturalidade do aluno Continente 116 11,6
Outro país 113 13,4
Desconhecida 178 20,6
Ilha de Santa Maria 181 47,8
Outra ilha açoriana 136 19,6
Naturalidade do pai Continente 112 13,2
Outra 111 10,3
Desconhecida 149 39,3
Ilha de Santa Maria 193 50,9
Outra ilha açoriana 127 17,1
Naturalidade da mãe Continente 117 11,8
Outra 111 10,3
Desconhecida 151 39,8
Analfabeto 125 16,6
4.a classe 175 46,2
Escolaridade do pai Ciclo preparatório — liceu 178 20,6
Curso médio ou superior 118 11,6
Desconhecida 195 25,1
Analfabeto 144 11,6
4.a classe 151 39,8
Escolaridade da mãe Ciclo preparatório — liceu 190 23,7
Curso médio ou superior 118 12,1
Desconhecida 186 22,7
Trabalhadores agrícolas e pescadores 124 16,3
Profissão do pai Outros trabalhadores manuais 198 25,9
Trabalhadores não manuais 168 44,3
Desconhecida 189 23,5
Trabalha fora de casa 176 20,1
Profissão da mãe Doméstica 223 58,8
Desconhecida 180 21,1
1 filho 125 16,6
2 filhos 105 27,7
Tamanho da família 3 filhos 189 23,5
4 filhos 138 10,0
5 ou mais filhos 152 13,7
Desconhecido 170 18,5
1 195 25,1
2 168 17,9
Ordem de nascimento 3 137 19,8
4 ou superior 138 10,0
Desconhecida 141 37,2

VOL. 18, N.o 1 — JANEIRO/JUNHO 2000 37


Saúde infantil

mais irmãos (13,7%). Na ordem de nascimento a rendo, no entanto, mais casos em que a mediana é
maioria das crianças é o primeiro ou o segundo filho inferior à média, em particular para o peso e o índice
(25,1% e 17,9%, respectivamente). de massa corporal.
Sobre a habitação apenas foi possível conhecer a As médias da estatura e do peso das crianças da ilha
situação de 300 crianças. A maioria delas tinha cozi- de Santa Maria, geralmente, não são significativa-
nha, casa de banho, água canalizada e energia eléc- mente diferentes, quando comparadas, quer com as
trica, sendo de referir, contudo, que algumas das da ilha das Flores, quer com as da escola da Buraca
crianças não viviam nestas condições, salientando-se (Figuras 1 a 4). Ocorrem, contudo, excepções. Entre
que 45 indivíduos não dispunham de casa de banho. as amostras açorianas, caracterizadas por pertence-
rem ao meio rural, nos meninos, aos 8 anos (t = 2,6;
p = 0,012) e 11 anos (t = 5,22; p = 0,000), e nas
3.2. Estatura e peso meninas, aos 11 anos (t = 2,08; p = 0,048), as dife-
renças são significativas e, assim, as médias do peso
Nos Quadros III e IV podem observar-se as médias são superiores para os de Santa Maria (peso para
da estatura, do peso e do índice de massa corporal crianças das Flores: nos meninos, aos 8 e 11 anos,
por sexo e classe etária. Quando se compararam os 23,7 ± 3,7 kg e 23,3 ± 4,1 kg, respectivamente, e nas
valores entre os dois sexos, não se observaram dife- meninas, de 11 anos, 26,6 ± 11,9 kg). Nos rapazes,
renças significativas. Verifica-se ainda que a média e aos 10 anos (t = 2,36; p = 0,022), a média da estatura
a mediana têm, geralmente, valores próximos, ocor- é superior para os das Flores (137,9 ± 6,5 cm).

Quadro III
Sexo masculino, estatura, peso e índice de massa corporal por classe etária

Estatura (cm) Peso (kg) Índice de massa corporal (kg/m 2)


Idade N
Média DP Mediana Média DP Mediana Média DP Mediana

16 33 116,9 7,02 115,4 21,2 2,90 20,0 15,5 1,04 15,3


17 45 121,6 7,18 121,2 23,7 4,20 23,0 15,9 1,49 15,6
18 44 127,2 7,66 127,7 27,6 6,09 26,0 16,9 2,17 16,3
19 36 133,1 5,76 133,4 29,8 4,92 28,7 16,7 1,84 16,0
10 27 133,6 6,89 134,1 31,2 5,81 30,0 17,4 2,53 16,8
11 14 140,3 5,57 140,8 34,6 8,21 32,0 17,4 3,54 16,1

Quadro IV
Sexo feminino, estatura, peso e índice de massa corporal por classe etária
Estatura (cm) Peso (kg) Índice de massa corporal (kg/m 2)
Idade N
Média DP Mediana Média DP Mediana Média DP Mediana

16 24 118,6 5,78 117,9 22,8 4,68 21,0 16,1 1,88 15,8


17 55 121,7 5,69 120,8 24,4 5,18 23,0 16,3 2,15 16,0
18 35 127,1 4,59 128,0 27,5 4,88 27,0 16,9 2,32 16,5
19 33 131,8 6,06 131,0 30,5 5,69 30,5 17,5 2,37 17,8
10 15 135,6 9,06 137,8 32,7 6,98 33,0 17,5 2,15 17,4
11 18 139,2 6,94 139,4 34,4 7,98 32,7 17,6 2,93 16,9

38 REVISTA PORTUGUESA DE SAÚDE PÚBLICA


Saúde infantil

Figura 1 Figura 3
Valores médios da estatura por idade nas amostras de Valores médios do peso por idade nas amostras de
Santa Maria, Flores e escola da Buraca, para o sexo Santa Maria, Flores e escola da Buraca, para o sexo
masculino masculino

145 40
38
140
36

135 34
Estatura (cm)

32

Peso (kg)
130 30
28
125
26

120 24
22
115 20
6 7 8 9 10 11 6 7 8 9 10 11
Idade Idade

Santa Maria Flores Buraca Santa Maria Flores Buraca

Figura 2 Figura 4
Valores médios da estatura por idade nas amostras de Valores médios do peso por idade nas amostras de
Santa Maria, Flores e escola da Buraca, para o sexo Santa Maria, Flores e escola da Buraca, para o sexo
feminino feminino

145 40
38
140 36
34
135
Estatura (cm)

Peso (kg)

32
130 30
28
125
26
24
120
22
115 20
6 7 8 9 10 11 6 7 8 9 10 11
Idade Idade

Santa Maria Flores Buraca Santa Maria Flores Buraca

VOL. 18, N.o 1 — JANEIRO/JUNHO 2000 39


Saúde infantil

Na comparação das crianças de Santa Maria com as da deficit da estatura e do peso, por idade, relativamente
escola da Buraca, as quais vivem na região suburbana aos dados de referência. Os valores médios de
de Lisboa, as diferenças significativas entre as médias Z–score são geralmente negativos, variando entre 0 e
foram para o peso. No sexo masculino, sendo os rapa- –1 (Figuras 5 e 6). Quanto ao peso por estatura, os
zes de Santa Maria de 6 anos (t = 2,12; p = 0,039) e valores médios são geralmente positivos, mas meno-
10 anos (t = 2,34; p = 0,024) menos pesados (pesos res do que 0,5. Para meninos e meninas, é em relação
para rapazes da escola da Buraca de 6 e 10 anos, à média da estatura por idade que, em todas as clas-
23,3 ± 4,3 kg e 35,7 ± 7,1 kg, respectivamente). ses etárias, a diferença é mais acentuada, registando-
Na generalidade, as crianças de Santa Maria, de se para eles o menor valor médio aos 10 anos
ambos os sexos e para as várias idades, mostram um (–1,05 ± 0,99) e para elas aos 12 anos (–1,08 ± 0,85).

Figura 5
Valores médios de Z-score da estatura por idade, do peso por idade e do peso
por estatura para o sexo masculino

Z-score
1

0,5

– 0,5

–1

– 1,5
6 7 8 9 10 11
Idade

Z-score da estatura Z-score do peso Z-score do peso por estatura

Figura 6
Valores médios de Z-score da estatura por idade, do peso por idade e do peso
por estatura para o sexo feminino

Z-score
1

0,5

– 0,5

–1

– 1,5
6 7 8 9 10 11
Idade

Z-score da estatura Z-score do peso Z-score do peso por estatura

40 REVISTA PORTUGUESA DE SAÚDE PÚBLICA


Saúde infantil

Considerando a distribuição em percentagem pelas meninas. Quanto ao peso por estatura, nenhuma
várias categorias de referência (Figuras 7 e 8), criança foi classificada como tendo peso muito
observa-se que a maioria das crianças se inclui na baixo. Relativamente ao número de indivíduos simul-
média para a estatura por idade (meninos, 54,5%, e taneamente com estatura e peso muito baixos, obser-
meninas, 66,5%), para o peso por idade (meninos, varam-se 6 do sexo masculino (de 6, 7, 8 e 10 anos)
71,3%, e meninas, 68,1%) e para o peso por estatura e 1 do sexo feminino (de 11 anos) e os valores indi-
(meninos, 86,1%, e meninas, 81,1%). Nota-se ainda viduais eram ≤ –2, para ambos os Z-scores. Conside-
uma tendência oposta entre estatura e peso, havendo rando que a OMS recomenda que –2 DP para a esta-
mais indivíduos pequenos do que magros. Para a tura é o limite para indicar falta de crescimento linear
estatura por idade salienta-se o predomínio das clas- (stunting) e para o peso por estatura o limite para
ses I e II relativamente às IV e V; assim, com estatura perda de peso (wasting) (Croocks, 1994), encontra-
muito baixa e baixa observam-se, respectivamente, ram-se 8% de crianças na primeira situação e
16,6% e 22,0% nos meninos e 13,0% e 16,2% nas nenhuma na última.

Figura 7
Percentagens de ocorrência para as categorias de Z-score da estatura por
idade, do peso por idade e do peso por estatura no sexo masculino

100

80
Percentagem

60

40

20

0
I II III IV V
Categorias de Z-score
Z-score da estatura Z-score do peso Z-score do peso por estatura

Figura 8
Percentagens de ocorrência para as categorias de Z-score da estatura por
idade, do peso por idade e do peso por estatura no sexo feminino

100

80
Percentagem

60

40

20

0
I II III IV V
Categorias de Z-score
Z-score da estatura Z-score do peso Z-score do peso por estatura

VOL. 18, N.o 1 — JANEIRO/JUNHO 2000 41


Saúde infantil

Atendendo às variáveis sócio-económicas (Qua- Quando se compararam as médias da estatura e do


dro V), para a totalidade das crianças na comparação peso das crianças das duas amostras oriundas de
das médias de Z-score da estatura e do peso, os valo- meio rural, de Santa Maria e das Flores, geralmente
res são significativamente diferentes segundo o nível as diferenças não foram significativas. O mesmo
de escolaridade e a profissão do pai e o tamanho da aconteceu na comparação dos valores médios das
família. Os filhos de pai com baixo nível de escola- crianças de meio rural e suburbano, de Santa Maria
ridade, trabalhadores manuais e que pertencem a e da Buraca. As poucas diferenças significativas que
famílias numerosas têm um deficit de crescimento se notam em ambas as comparações são para o
linear mais acentuado relativamente aos filhos de pai peso. Em geral, as crianças de Santa Maria, para
com nível de escolaridade maior, profissões não ambos os sexos e por idade, não têm estatura dife-
manuais e de famílias com poucos filhos. O mesmo rente das da ilha das Flores e das da escola da
efeito negativo se observa para o peso: filhos de pais Buraca. O seu peso é semelhante ou maior do que
trabalhadores manuais e com um maior número de o das crianças da ilha das Flores e, em relação às da
crianças no agregado são menos pesados. escola da Buraca, ou é semelhante ou inferior. Pode
referir-se que os valores médios da estatura e do
peso obtidos num estudo feito nas escolas oficiais
4. Discussão da área da Grande Lisboa (Fragoso, 1996) são
muito próximos, por sexo e idade, aos verificados
No intervalo etário estudado não se encontraram na escola da Buraca.
diferenças significativas entre os sexos para as As comparações estabelecidas estão sujeitas a algu-
médias da estatura e do peso, de acordo com o que mas limitações, nomeadamente devido ao número de
geralmente acontece. indivíduos das amostras. No entanto, quer a ilha de

Quadro V
Valores médios de Z-score da estatura e do peso das crianças para as variáveis sócio-económicas

Z-score da estatura Z-score do peso


N
Média DP Média DP

Analfabetos 125 – 0,95 0,93 – 0,47 1,29


Escolaridade do pai 4.a classe 175 – 0,50 1,06 – 0,17 0,97
≥ ciclo preparatório 184 – 0,22 1,13 – 0,04 1,07
(F = 4,817; p = 0,0088) (F = 1,645; p = 0,1949)
Trabalhador agrícola ou pescador 124 – 0,84 1,02 – 0,52 0,97
Profissão do pai Outros trabalhadores manuais 198 – 0,70 1,17 – 0,28 1,18
Trabalhador não manual 168 – 0,25 0,99 – 0,02 0,91
(F = 7,412; p = 0,0007) (F = 3,769; p = 0,0242)
≤ 2 filhos 130 – 0,25 1,03 – 0,00 0,97
Tamanho da família 3 filhos 189 – 0,67 0,98 – 0,28 1,01
≥ 4 filhos 190 – 0,65 1,21 – 0,33 1,05
(F = 5,418; p = 0,0049) (F = 3,631; p = 0,0276)
1 195 – 0,30 1,04 – 0,06 1,00
Ordem de nascimento 2 168 – 0,53 0,96 – 0,24 0,88
≥3 175 – 0,58 1,19 – 0,25 1,25
(F = 1,733; p = 0,1790) (F = 2,386; p = 0,0942)

42 REVISTA PORTUGUESA DE SAÚDE PÚBLICA


Saúde infantil

Santa Maria, quer a ilha das Flores, são das ilhas avaliados, sugere-se que o nível de escolaridade e a
mais pequenas dos Açores e das com menos popula- actividade profissional do pai e o tamanho da família
ção. Também não se dispõe de dados antropométri- influenciaram o crescimento estato-ponderal destas
cos de referência da população portuguesa em geral, crianças. Filhos de pai com menor escolaridade, de
do continente ou das ilhas. Salienta-se, quanto à trabalhadores manuais e com maior número de
amostra da ilha das Flores, que os dados antropomé- irmãos mostram estatura e peso mais desfavorecidos.
tricos foram observados entre 1980-1988, o que pode Um melhor crescimento, uma maior estatura e matu-
levar a colocar a possibilidade de ocorrência ou não ração mais precoce são normalmente observados
de variação estato-ponderal por efeito secular da para crianças que pertencem a famílias de classe
estatura. Relativamente às crianças da escola da sócio-económica elevada (cujos pais pertencem a
Buraca, não se coloca este último aspecto, pois foram quadros médios e superiores e com escolaridade ele-
observadas em 1989. vada) e de menor número de filhos (Bielicki e
Sugere-se que a semelhança da estatura e do peso Wellon, 1982; Bogin, 1988; Eveleth e Tanner, 1976;
entre as amostras açoriana e da escola da Buraca Tanner, 1992).
talvez seja consequência de terem crescido em Uma vez que o peso por estatura é um indicador da
ambiente sócio-económico com algumas semelhan- situação de nutrição actual e a estatura por idade um
ças, pois em qualquer dos casos os pais são, na sua indicador da história nutricional e, possivelmente,
maioria, trabalhadores manuais ou trabalhadores também da privação social em geral (Waterlow et al.,
manuais não especializados e a sua escolaridade infe- 1977; GAUR e SINGH, 1994), sugere-se que, em
rior ao ciclo preparatório. Contudo, a determinação geral, as crianças observadas têm um crescimento
do papel dos factores sócio-económicos no cresci- estato-ponderal e uma situação nutricional médios;
mento estato-ponderal é por vezes complexa, pois salienta-se, contudo, o facto de ser relativamente à
nem sempre mostram o mesmo comportamento em estatura, nos indivíduos de ambos os sexos, que os
diversas populações. As diferenças entre meio rural e valores médios negativos são mais acentuados, o que
meio urbano têm sido interpretadas atendendo às talvez possa reflectir um processo de crescimento
melhores condições de vida na cidade, onde os servi- desfavorecido. Para uma melhor compreensão da
ços de saúde, a alimentação, as condições sanitárias, situação, era necessário terem sido também estuda-
a água potável e a rede de esgotos, a educação, o dos valores de massa adiposa e de massa muscular
recreio e as condições gerais de bem-estar são melho- das crianças. De acordo com Martorell (1986; 1989),
res (Bogin, 1988; Lin et al., 1992). Há, contudo, que um bom crescimento indica boa saúde e o atraso do
ter em conta que nem sempre o facto de se viver num crescimento linear é um dos melhores indicadores de
meio urbano permite usufruir dos seus benefícios. que alguma coisa não está bem. Também tem sido
Na comparação com os valores de referência ameri- constatado que, em classes sócio-económicas baixas,
canos, os indivíduos observados, de ambos os sexos as crianças têm um peso maior para uma dada
e para cada idade, mostram, na generalidade, médias estatura (Tanner, 1992). Assim, embora haja uma
do peso e da estatura por idade negativos, em parti- componente genética, as influências ambientais pre-
cular para a última, mas raramente menores do que dominam no crescimento, particularmente na pré-
–1 Z-score. Para o peso por estatura notam-se quase -adolescência (Bogin, 1988).
sempre valores positivos. Para cada sexo e para todas
as idades determinou-se que a maioria dos indivíduos
tem estatura por idade entre média e muito baixa, Agradecimentos
peso por idade entre médio e baixo e peso por esta-
Agradece-se a todos os que tornaram possível a execução deste
tura médio. trabalho, nomeadamente à Comissão Organizadora da Expedição
Atendendo aos indicadores sócio-económicos, pode- Científica Santa Maria e Formigas/1990, do Departamento de
mos considerar que a maioria das crianças pertence a Biologia da Universidade dos Açores, ao Prof. Doutor Campos
uma classe média-baixa. Atendendo aos parâmetros Fernandes e a todos os professores e crianças das escolas visitadas.

VOL. 18, N.o 1 — JANEIRO/JUNHO 2000 43


Saúde infantil

Bibliografia Summary
ANTUNES, M. A. — Ilha das Flores, estatura e peso em crianças HEIGHT AND WEIGHT OF CHILDREN 6-11 YEARS FROM
dos 6 aos 11 anos : Relatórios e comunicações do Departamento de SANTA MARIA ISLAND, AZORES
Biologia da Universidade dos Açores. Ponta Delgada: Departa-
mento de Biologia. Universidade dos Açores, 1990, pp. 21-27.
The height and weight of 379 schoolchildren, of both sex, 6 to 11
ANTUNES, M. A. — Estatura e peso : crianças portuguesas e years old, living in Santa Maria island, were studied. There were
caboverdianas de uma escola suburbana de Lisboa : provas de no significant means height, weight and body mass index differ-
aptidão pedagógica e capacidade científica. Lisboa: Faculdade de
Ciências da Universidade de Lisboa. Departamento de Zoologia e ences between girls and boys. The means height and weight, for
Antropologia, 1994. Santa Maria girls and boys, were compared to others schoolchil-
dren, from Flores island and from one school of Lisbon suburban
BIELICKI, T.; WELON, Z. — Growth data as indicators of social
inequalities : the case of Poland. Yearbook of Physical area, and generally there were no significant differences, except for
Anthropology. 25 (1982) 153-167. weight in some cases. The height for age, weight for age and
BOGIN, B. — Patterns of human growth. Cambridge: Cambridge height/weight for age were compared with reference data
University Press, 1988. NHANES I and II. The means Z-scores were frequently negative
for height and weight and positive for height/weight. The majority
CROOKS, D. — Growth status of school-age Mayan children in
Belize, Central America. American Journal of Physical of children for height and weight were classified as average or
Anthropology. 93 (1994) 217-227. below average. There were more children with low height than low
weight. Significant height and weight differences, for socioeco-
EVELETH, P.; TANNER, J. — Worldwide variation in human
growth. Cambridge: Cambridge University Press, 1976. nomic factors, father’s education, father’s occupation and family
dimension, were found. It’s suggest that Santa Maria children stud-
FRAGOSO, M. I. — Desenvolvimento morfológico : indicadores
biossociais e variação morfológica entre os 3 e os 11 anos. Lisboa: ied are more shorter and thin when living in large family, father’s
Universidade Técnica de Lisboa. Faculdade de Motricidade have low education and manual occupation.
Humana, 1996 (dissertação de doutoramento apresentada na Facul-
dade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa).
FRISANCHO, A. — Anthropometrics standards for the assessment
of growth and nutritional status. Michigan: The University of
Michigan Press, 1990.
GAUR, G.; SINGH, N. — Nutritional status among rural Meiti
children of Manipur, India. American Journal of Human Biology.
6 (1994) 731-740.
HEALY, M. J., et al. — The individual and the group. In WEINER,
J. S., LOURIE, J. A. (ed.) — Pratical human biology. London:
Academic Press, 1981, p.11-23.
HENNEBERG, M.; LOUW, G. L. — Cross-sectional survey of
growth to urban and rural «Cape Coloured» schoolchildren :
anthropometry and functional tests. American Journal of Human
Biology. 10 (1998) 73-85.
LIN, W., et al. — Physical growth Chinese schoolchildren 7-18
years, in 1985. Annals of Human Biology. 19 : 1 (1992) 41-56.
MARTOLELL, R. — Body size, adaptation and function. Human
Organization. 48 (1989) 15-20.
MARTOLELL, R.; HABICHT, J. P. — Growth in early childhood
in development countries. In FALKNER, F., TANNER, J. M., ed.
lit. — New York: Plenum Press, 1986, pp. 241-262 (Human
Growth).
NOURISIS, M. J. — SPSS/PC+ for the IBM PC/XT/AT SPS, Inc..
Chicago: SPSS, 1988.
TANNER, J. — The human growth and constitution. In
HARRISON; TANNER; PILBEAM; BAKER, ed. lit. — Human
biology : an introduction to human evolution, variation, growth and
adaptability, 3rd ed. Oxford: Oxford Science Publications, 1992,
pp. 339-432.
VALE, A. — A robustez da criança rural em idade escolar. Coim-
bra: Coimbra Editora, [Link], 1936.
WATERLOW, J. C. — Metabolic adaptation to low intakes of
energy protein. Annual Review of Nutrition. 6 (1986) 495-526.

44 REVISTA PORTUGUESA DE SAÚDE PÚBLICA

Você também pode gostar