CENTRO UNIVERSITÁRIO PRESIDENTE ANTÔNIO CARLOS – UNIPAC
Milena Mayra Dias Silva
NOVAS ESTRATÉGIAS DE TRATAMENTO PARA PERITONITE
INFECCIOSA FELINA: revisão de literatura
Trabalho de Conclusão de Curso
apresentado à Banca
Examinadora da Universidade
Presidente Antônio Carlos, como
exigência parcial para obtenção
do título de Bacharel em
Medicina Veterinária .
Juiz de Fora
2024
CENTRO UNIVERSITÁRIO PRESIDENTE ANTÔNIO CARLOS – UNIPAC
Milena Mayra Dias Silva
NOVAS ESTRATÉGIAS DE TRATAMENTO PARA PERITONITE
INFECCIOSA FELINA: revisão de literatura
Trabalho de Conclusão de Curso
apresentado na Universidade
Presidente Antônio Carlos, como
exigência parcial para obtenção
do título de Bacharel em
Medicina Veterinária.
Orientadora: Dra. Ana Paula
Falci Daibert.
Juiz de Fora
2024
Milena Mayra Dias Silva
NOVAS ESTRATÉGIAS DE TRATAMENTO PARA PERITONITE
INFECCIOSA FELINA: revisão de literatura
BANCA EXAMINADORA
Profª. Dra. Ana Paula Falci Daibert
Profª.Ms. Anna Marcella Neves Dias
M.V. Esp. Heloísa Detoni Oliveira
NOVAS ESTRATÉGIAS DE TRATAMENTO PARA PERITONITE
INFECCIOSA FELINA: revisão de literatura
NEW TREATMENT STRATEGIES FOR FELINE INFECTIOUS
PERITONITIS: literature review
MILENA MAYRA DIAS SILVA 1, ANA PAULA FALCI DAIBERT2,
Resumo
Introdução: O Coronavírus Felino afeta os gatos e pode causar a Peritonite Infecciosa
Felina (PIF), principalmente em animais imunossuprimidos. Diagnosticada na década
de 1960, a PIF é difícil de identificar e se manifesta com ou sem acúmulo de líquido,
com sintomas variados. Os antivirais GS-441524 e Remdesivir têm efeitos indicados no
tratamento, trazendo melhorias rápidas e sendo uma opção promissora para o controle
da doença. Objetivo: Explorar as novas estratégias de tratamento da PIF com os
antivirais GS-441524 e Remdesivir, analisando as vantagens, desvantagens,
intercorrências, protocolos e formas de administração. Métodos: Esta pesquisa foi
um estudo de revisão bibliográfica e análise crítica de trabalhos pesquisados
eletronicamente por meio dos bancos eletrônicos tais quais Google acadêmico,
Pubvet, Pubmed, Scielo, livros e dissertações. Foram adicionados trabalhos de
literatura médico veterinária em línguas inglesa e portuguesa, publicados no
período de 2004 a 2024. Revisão de literatura: A Peritonite Infecciosa Felina (PIF) é
uma doença fatal causada pelo coronavírus felino (FCoV), que se prolifera
principalmente em ambientes com muitos gatos e condições precárias de higiene. A
infecção por FCoV pode ser assintomática, mas, em alguns casos, uma mutação
permite a infecção sistêmica, causando lesão grave. A PIF se manifesta em duas
formas: efusiva, com acúmulo de líquido no abdômen, e não efusiva, com lesões nos
órgãos, podendo atingir os olhos e o sistema nervoso central. Recentemente, novos
tratamentos antivirais, como o Remdesivir e seu derivado GS-441524 (GS),
mostraram-se promissores, proporcionando uma taxa de cura superior a 90%. Apesar
do custo elevado e da dificuldade de acesso em alguns países, esses medicamentos
vêm oferecendo esperança para os gatos com PIF. Considerações finais: Concluiu-se
que os antivirais GS e Remdesivir são promissores no tratamento da PIF. A versão oral
do GS é vantajosa em relação à subcutânea por não causar lesões e dor da aplicação,
embora seu custo seja mais elevado devido à maior concentração. Em contrapartida o
Remdesivir é disponível apenas na forma injetável, e seu custo é mais elevado. A
dificuldade de acesso a esses fármacos e o alto custo do tratamento são limitantes à
sua ampla utilização.
Descritores: Felinos. Doenças infecciosas. GS-441524. Remdesivir. Coronavírus.
1
¹ Acadêmica do Curso de Medicina Veterinária do Centro Universitário Presidente
Antônio Carlos – UNIPAC – Juiz de Fora –MG
² Médica veterinária, Professora do Curso de Medicina Veterinária do Centro
Universitário Presidente Antônio Carlos – UNIPAC, doutorado
Abstract
Introduction: Feline Coronavirus affects cats and can cause Feline Infectious
Peritonitis (FIP), especially in immunosuppressed animals. First diagnosed in the
1960s, FIP is difficult to identify and can manifest with or without fluid accumulation,
presenting various symptoms. The antiviral drugs GS-441524 and Remdesivir have
shown positive effects in treatment, bringing rapid improvements and presenting a
promising option for controlling the disease. Objective: To explore new treatment
strategies for FIP using the antiviral drugs GS-441524 and Remdesivir, analyzing the
advantages, disadvantages, complications, protocols, and methods of administration.
Methods: This research involved a bibliographic review and critical analysis of studies
obtained electronically from sources such as Google Scholar, Pubvet, Pubmed, Scielo,
books, and dissertations. Veterinary literature in English and Portuguese, published
between 2004 and 2024, was included. Literature Review: Feline Infectious Peritonitis
(FIP) is a fatal disease caused by feline coronavirus (FCoV), which primarily spreads in
environments with large numbers of cats and poor hygiene conditions. FCoV infection
can be asymptomatic, but in some cases, a mutation allows systemic infection, causing
severe damage. FIP manifests in two forms: effusive, with fluid accumulation in the
abdomen, and non-effusive, with organ lesions that may affect the eyes and central
nervous system. Recently, new antiviral treatments, such as Remdesivir and its
derivative GS-441524 (GS), have shown promise, providing a cure rate above 90%.
Despite high costs and limited accessibility in some countries, these medications are
offering hope for cats with FIP. Final Considerations: It was concluded that the
antiviral drugs GS and Remdesivir are promising for FIP treatment. The oral form of GS
is advantageous over the subcutaneous form, as it does not cause injection-related
lesions and pain, although its cost is higher due to the greater concentration needed.
On the other hand, Remdesivir is only available in injectable form and is more
expensive. Limited access to these drugs and the high cost of treatment are constraints
to their widespread use.
Keywords: Felines. Infectious diseases. GS-441524. Remdesivir. Coronavirus
5
INTRODUÇÃO
O Coronavírus Felino é um vírus RNA de fita simples que acomete tanto os gatos
selvagens quanto os domésticos, podendo causar problemas respiratórios e entéricos. A
maioria dos gatos já possui esse vírus em sua microbiota, porém nem todos irão
desenvolver a Peritonite Infecciosa Felina (PIF), apenas uma pequena porcentagem sofre
a mutação do coronavírus entérico. É uma doença infecciosa comum em gatis, abrigos e
ONGs por ser um vírus altamente contagioso e de alta transmissão pelo contato com as
fezes, entretanto os mais acometidos são aqueles animais imunossuprimidos como os
mais jovens, idosos ou que são positivos para FIV/Felv.1
A PIF foi diagnosticada pela primeira vez na década de 60. Ao longo dos anos teve
um aumento importante nos casos relatados em felinos do mundo todo, e até os dias de
hoje, faltam comprovações das causas das mutações desse coronavírus entérico, assim
como provas para averiguar se o vírus da PIF vem de mutações de origem entérica ou se
existem outras linhagens. De qualquer maneira, estudos mostram diagnosticar as cepas
do coronavírus através do RT-PCR, onde apontam RNA viral no íleo, cólon, e reto dos
animais infectados.1
A PIF é uma doença viral imunomediada classificada em forma efusiva (úmida) e
não efusiva (seca), essa classificação se dá com base na quantidade de líquido cavitário,
ascite (cavidade abdominal) ou hidrotórax (cavidade torácica).2 Aqueles que apresentam
uma resposta imune eficiente e que entram em contato com o coronavírus, conseguem
eliminar a infecção, já os que possuem uma resposta imune humoral e parcial podem
apresentar a forma não efusiva, assim como os que apresentam uma resposta imune
humoral forte e pouca ou nenhuma resposta imune celular podem produzir anticorpos e
desenvolvem a forma efusiva da doença.3
Os sinais clínicos são diversos e inespecíficos e a vasculite é considerada a
principal forma de lesão. Mais de 80% dos casos correspondem à forma efusiva ou úmida
que é caracterizada pela pericardite, pleurite ou peritonite, febre, anorexia, perda de peso,
icterícia, linfadenomegalia mesentérica. Já a forma não efusiva é considerada mais
desafiadora por seu difícil diagnóstico, pois seus sinais são inespecíficos, são eles:
anorexia, apatia, diarreia crônica, convulsões, alterações oculares como uveíte,
granuloma ocular, pneumonias piogranulomatosas, além de também lesões
piogranulomatosas em órgãos como intestino, fígado, rins. Geralmente os órgãos
abdominais são os mais acometidos.4
6
Em relação ao diagnóstico da PIF, ainda não há exames específicos, sendo assim,
não se encontra um diagnóstico definitivo através apenas de testes sorológicos.6 Na rotina
clínica o método mais eficaz é se basear na combinação de sinais clínicos característicos
da doença, hiperglobulinemia, diminuição da albumina e exame de imunofluorescência
indireta (IFA) quando possível.7
Os gatos sofrem de várias infecções virais muito semelhantes às dos humanos,
entretanto o desenvolvimento de medicamentos antivirais para animais com PIF se
encontra muito lento. As vacinas são ineficazes e a prevenção é extremamente difícil nos
ambientes com vários gatos, gerando uma mortalidade de 0,3%-1,4% nos felinos em todo
o mundo. Esses fatores tornam a PIF a melhor candidata para o desenvolvimento de um
medicamento antiviral. Um dos medicamentos antivirais que tem se mostrado o mais
eficaz contra o vírus de RNA é o pró-fármaco GS-5734 (Remdesivir) e seu nucleosídeo
parental GS-441524 especificamente contra a infecção pelo coronavírus felino. Pequenas
moléculas presentes no GS-441524 interferem diretamente nos processos replicativos
codificados pelo vírus.5
Aplicações subcutâneas de GS-441524 na dose de 2 a 5 mg/kg, a cada 24 horas,
durante 84 dias foi o protocolo seguido inicialmente.6 Porém é importante destacar que
para os gatos que desenvolveram sinais neurológicos durante o tratamento, há a
necessidade de melhor definição na dosagem ideal. As únicas reações adversas
relatadas pela administração do GS-441524 foram reações cutâneas locais e desconforto
após a injeção SC. Quando as dosagens apropriadas são administradas, dentro de 24 a
36 horas já é observado um avanço positivo no quadro clínico do animal acometido.7
Acredita-se que o Remdesivir seja aproximadamente equipotente ao GS-441524,
ele é fornecido em um frasco de 100 mg que é reconstituído com 9 ml de água estéril e
administrado na forma injetável de 10 mg/ml (10 mL por frasco após reconstituição).8
Sendo assim, o objetivo deste trabalho foi explorar as novas estratégias de
tratamento da PIF com os antivirais GS-441524 e Remdesivir, analisando as vantagens,
desvantagens, intercorrências, protocolos e formas de administração.
MÉTODOS
Este trabalho foi realizado por meio de revisão de literatura e busca de artigos dos
bancos eletrônicos como Google acadêmico, Pubvet, Pubmed, Scielo. Além disso, foi
realizada consulta em livros didáticos e publicações impressas periódicas, utilizando os
7
descritores “Felinos”. “Doenças infecciosas”. “GS-441524”. “Remdesivir”. “Coronavírus”.
Foram adicionados trabalhos de literatura médico veterinária em línguas inglesa e
portuguesa, publicados no período de 2004 a 2024.
REVISÃO DE LITERATURA
Peritonite Infecciosa Felina
O coronavírus SARS-CoV 2 mundialmente conhecido durante a pandemia global
de COVID-19 está relacionado com um vírus específico de felinos, conhecido como
coronavírus felino (FCoV). O FCoV é um vírus considerado onipresente em todo o mundo,
de RNA de fita simples da família coronaviridae, é o agente causador de uma doença fatal
denominada Peritonite Infecciosa Felina (PIF).9,10
O FCov é comumente encontrado em gatos que vivem em condições de
superlotação como em gatis, abrigos para adoção, grupos de resgate, situações de
acumulação de animais. Portanto, se torna comum quando as condições de vida são
lotadas e precárias onde as caixas sanitárias e tigelas para alimentação são
compartilhadas diariamente, pois esse vírus é altamente contagioso e se espalha
facilmente por transmissão fecal-oral. Estudos realizados em gatos, antes e após serem
colocados em abrigos na Califórnia, EUA, revelaram, após a admissão, uma prevalência
global de eliminação de FCoV de 33% em todos os gatos e 90% em gatos jovens com
menos de 56 semanas de idade. 11
Gatos filhotes em ambientes onde o FCoV é endêmico geralmente são infectados
nas primeiras semanas de vida e esses gatos filhotes eliminam cargas virais mais
elevadas do que comparados aos gatos mais velhos, isso é explicado pelo seu sistema
imunológico imaturo, permitindo então que o vírus se replique de forma mais eficiente. O
vírus se replica dentro das células epiteliais colunares apicais maduras das pequenas
vilosidades intestinais, do duodeno distal ao ceco.11
A PIF surge de uma forma mutada do FCoV em aproximadamente 5% dos gatos e
mata cerca de 0,3 a 1,4% dos gatos em todo o mundo anualmente.9 As mutações
conferem uma mudança de tropismo celular de enterócitos para monócitos e macrófagos,
facilitando a distribuição sistêmica do coronavírus, os gatos infectados apenas com o
vírus FCoV geralmente não apresentam sinais clínicos ou terão apenas uma
gastroenterite leve auto limitada que comumente gera a diarreia. Mutações no gene que
codifica o receptor de superfície viral Spike (S) estão associadas a uma expansão do
8
tropismo dos enterócitos para os macrófagos, que são as células de defesa do corpo,
resultando em disseminação viral sistêmica que irá causar a perivasculite imunomediada
e inflamação piogranulomatosa,10 ou seja, a resposta imune do gato também desempenha
um papel na patogênese da PIF.12
É importante ressaltar que gatos quando infectados pelo FCoV e vivenciando
momentos de constante estresse como, por exemplo, cirurgia, visita a um gatil, mudanças
na rotina, entre outros, ficam predispostos ao desenvolvimento da PIF. A gestão do
estresse é, portanto, uma tarefa crucial para o controle da doença. Após a infecção, o
vírus FCoV é disseminado nas fezes em uma semana e a eliminação persiste por
semanas, meses, até para a vida toda. Esses são denominados de portadores.13 Apesar
de o FCoV ser altamente infeccioso, o vírus da PIF (PIFV) raramente se dissemina de
forma horizontal. Os PIFV estão fortemente ligados às células e tecidos, o que torna sua
eliminação pelas fezes geralmente improvável.14
A patologia da PIF foi classificada em duas formas: PIF efusiva (úmida)
caracterizada por polisserosite torácica, derrame abdominal e vasculite; e uma PIF não
efusiva (seca) caracterizada por lesões granulomatosas em órgãos. Essas duas formas
refletem em extremos clínicos e são importantes apenas para fins de diagnóstico, pois
não são duas entidades de doenças distintas.11,13
Acerca dos sinais clínicos da doença, a vasculite é a lesão principal, seja na forma
efusiva ou na forma seca, pela disseminação viral sistêmica. Filhotes de gatos com PIF
geralmente são subdesenvolvidos e estão em baixo peso se comparados a ninhadas
normais, em geral também apresentam febre, inapetência, icterícia (em ambas as
formas), na palpação revela-se alças intestinais espessadas, linfadenopatia mesentérica
ou superfícies serosas irregulares de órgãos abdominais. Na forma efusiva, apresentam
ascite abdominal significativa, que pode até mesmo ser confundida com prenhez pelos
tutores de gatas pela distensão abdominal. Também pode ocorrer efusão no tórax e/ou no
saco pericárdico, gerando sinais como dispneia, taquipneia, respiração com a boca aberta
e mucosas cianóticas. 14
Na forma não efusiva não há efusões torácicas ou abdominais. Podem ocorrer
alterações oculares como lesões granulomatosas, alterações da retina, uveíte,
precipitados ceráticos, congestão aquosa, entre outros. As manifestações oculares podem
ser as únicas ou combinadas com acometimento do sistema nervoso central (SNC) ou
abdominal. O acometimento do SNC pode ser com lesões únicas ou multifocais,
envolvendo a medula espinhal, nervos cranianos ou meninges, podendo causar crises
9
epiléticas, tremores, ataxia, nistagmo, depressão, alterações no comportamento ou na
personalidade, paralisia, oscilação da cabeça, marcha em círculos, hiperestesia ou até
mesmo incontinência urinária. A ocorrência de crises epiléticas indica dano cerebral
extenso e prognóstico desfavorável.14
O diagnóstico da PIF é desafiador e é realizado pelo histórico do animal, sinais
clínicos característicos da doença, alterações clínicas graves em conjunto a achados
laboratoriais anormais sugestivos e exames de imagem, como a ultrassonografia.15
Apenas a sorologia ou um teste de RT-PCR constando positivo não são suficientes
para tal diagnóstico. Portanto, os testes mais importantes não são laboratoriais, mas sim a
anamnese e análise dos derrames pleurais e peritoneais (quando presentes), pois
possuem valores preditivos positivos muito mais altos do que aqueles que usam sangue.
Além disso, outros achados laboratoriais podem ajudar, como a leucocitose com
neutrofilia e linfopenia, a hiperglobulinemia, a anemia não regenerativa, a
hipoalbuminemia e o fibrinogênio elevado. O médico veterinário deve considerar tudo isso
a fim de elaborar a suspeita e o diagnóstico de PIF “tijolo por tijolo”.11,15
Novas modalidades de tratamento
A PIF já foi considerada um diagnóstico terminal, no entanto, atualizações recentes
demonstram eficácia de novos antivirais no tratamento da doença. Esses antivirais ainda
não estão legalmente disponíveis em muitos países, portanto, por enquanto, os médicos
veterinários são incentivados a revisar a literatura e manter-se atualizados acerca dos
ensaios clínicos e das aprovações das novas medicações.11
A urgência para o tratamento de doenças como o Ebola, síndrome respiratória do
Oriente Médio e a síndrome respiratória aguda grave nas pessoas levou a intensos
estudos sobre medicamentos que inibam a replicação do vírus de RNA. Através desses
estudos se descobriu um dos antivirais mais promissores, o pró-fármaco GS-5734
(Remdesivir) de nucleosídeo monofosfato de adenosina. Ele se mostrou eficaz na
prevenção do Ebola experimental em macacos e na inibição de coronavírus epidêmicos e
zoonóticos. Assim iniciou-se a pesquisa sobre seu nucleosídeo parental GS-441524 (GS)
contra a infecção por PIF nos gatos. O GS possui cerca de 1 nanômetro de tamanho e,
por seu tamanho reduzido, consegue entrar facilmente nas células e interferir diretamente
nos processos replicativos codificados pelo vírus.5
10
Essa interferência ocorre quando o GS é incorporado à fita de RNA viral nascente,
resultando no término prematuro da síntese deste RNA viral, ou seja, interrompendo a
replicação do vírus logo no início do processo. O GS insere uma adenina no RNA viral em
desenvolvimento, assim inibindo a replicação do vírus da PIF tanto em células infectadas
quanto em macrófagos peritoneais infectados naturalmente, por transcrição de RNA ou
bloqueio da clivagem de poliproteínas virais.6,10
Um estudo publicado em 2019 envolvendo o GS conseguiu trazer um prognóstico
melhor para animais com PIF, pois demonstrou uma taxa de sobrevivência significativa.
Os resultados desse estudo superaram as expectativas e indicaram que a PIF,
independente das manifestações clínicas, das formas da doença e da idade dos animais
acometidos, é uma doença considerada tratável utilizando os análogos de nucleosídeos.
O perfil de segurança do GS foi impressionante, não apresentando nenhum sinal
sistêmico de toxicidade com base em hemograma completo e valores bioquímicos que
foram avaliados entre 12º a 30º semanas de tratamento.5
O GS-441524 tem sido o medicamento de escolha para o tratamento de gatos com
PIF neurológica. Nos últimos anos ele tratou milhares de gatos com PIF em todo o
mundo, com uma taxa geral de cura de mais de 90%.19
Acerca das vias de administração do tratamento com o GS, a principal via é a
subcutânea, administrada na maioria das vezes pelos próprios tutores. No entanto, os
proprietários devem se atentar às feridas na pele que podem ser causadas pelas
aplicações/medicação que devem ser realizadas diariamente. É aconselhada a mudança
dos locais de injeção regularmente e também evitar a região entre os ombros. Para
auxiliar e proporcionar um melhor conforto ao gato, pode ser administrado antes das
injeções a Gabapentina (50 a 100 mg por gato) para reduzir a dor e estresse.16
A medicação injetável do GS é oferecida por um grande número de marcas como:
Mutian, SAK, Pine, Kitty Care, Capella entre outros. A dose inicial recomendada para
gatos com PIF úmida ou seca e sem sinais oculares ou neurológicos é de 4 a 6 mg/kg,
por via subcutânea (SC), a cada 24 horas (q24h), por no mínimo 84 dias. Para gatos com
sinais oculares, a dose aumenta para 8 mg/kg, SC, q24h, e para aqueles com sinais
neurológicos a dose inicial é de 10-12 mg/kg, SC, q24h.18
Em agosto de 2021, o GS na forma oral tornou-se disponível legalmente como um
produto veterinário regulamentado na Austrália, e desde novembro de 2021 no Reino
Unido e em alguns outros países, dependendo de seus regulamentos de importação.12
Não há diferença significativa no sucesso do tratamento com GS de acordo com a sua
11
forma de administração. O que muda é a quantidade real (mg) de medicamento
administrado oralmente em cada dose, que é até o dobro da quantidade contida na
mesma dose de GS injetável.19
Essa forma oral foi desenvolvida por algumas marcas como a Aura/Sparky, Mutian
ou Sortey. No site da Mutian é possível ter acesso às dosagens dos comprimidos
formulados, que são de 50, 100 ou 200 mg com dose recomendada de 100 mg/kg/dia
para aqueles que não apresentam sinais oculares ou neurológicos, 150 mg/kg/dia para os
que apresentam os sinais oculares e 200 mg/kg/dia para os gatos que apresentam os
sinais neurológicos. Esse aumento na concentração de GS nos comprimidos interfere no
seu preço, que é de 20 a 40% mais caro que a forma injetável.18
Entretanto ainda estão sendo explorados diferentes dosagens de GS. Busca-se
estabelecer doses compatíveis com a biodisponibilidade e que apresentem respostas
clínicas adequadas.5,7 O que faz com que em algumas abordagens sejam prescritas doses
mais altas (50-200 mg/kg), com o propósito de compensar a absorção mais limitada,
enquanto dosagens menores (6-10 mg/kg), são alternativas focadas em produtos ou
formulações mais biodisponíveis.17,18
É frequentemente recomendado pelas marcas que oferecem a forma oral o jejum
de 30 minutos antes e após a administração do medicamento. Apesar do custo mais alto,
ela está sendo cada vez mais utilizada para todo ou parte do tratamento, pois possui a
vantagem de evitar os efeitos colaterais das aplicações SC, como as feridas locais. Uma
das únicas contraindicações da administração oral é a possibilidade de distúrbios
digestivos como diarreia e/ou vômito.18
Embora os estudos experimentais iniciais do GS tenham sido realizados em
colaboração com pesquisadores da Gilead Sciences e da UC Davis, a relação do
Remdesivir com o GS e o início da pandemia de COVID-19 em 2019 levaram a Gilead
Sciences a reter a permissão de desenvolvimento do GS para os gatos, alegando que ele
poderia interferir no desenvolvimento do Remdesivir para uso humano.19 O que levou a
uma alta demanda por GS pelos proprietários de gatos diagnosticados com PIF,
resultando na fabricação do composto por fabricantes de medicamentos não licenciados
(mercado negro) e sendo vendidos pela internet. Evoluindo para uma rede de tratamento
e suporte de PIF online e de grande escala nunca vista na medicina veterinária.9
Existem vários grupos nas redes sociais que ajudam os donos de gatos com PIF, e
a maior parte desse medicamento ainda continua sendo produzida, comprada,
administrada e monitorada muitas vezes sem supervisão de médicos veterinários.9
12
Através de dados obtidos para pesquisa com proprietários de gatos, foi observado
que apenas 8,7% desses donos receberam auxílio do seu médico veterinário para
administrar o tratamento do seu gato com PIF. A maior parte obteve informações sobre o
tratamento através da internet. Isso ocorre devido à dificuldade no uso veterinário de
formulações não regulamentadas, pois em muitos países a prescrição por veterinários
ainda é ilegal, podendo levar à remoção da licença do profissional. 12
O GS é a forma metabolizada do antiviral Remdesivir utilizado para tratar pessoas
com infecções por SARS-CoV-2 e ambos produzem o mesmo metabólito ativo na célula
hospedeira e possuem eficácia equivalente na supressão da replicação do FCoV.6,10
Atualmente a Austrália é o único país onde o Remdesivir está disponível para
prescrição para uso veterinário. Alguns outros países como a Índia, África do Sul e alguns
na Europa permitem que os médicos veterinários prescrevam produtos licenciados para
uso em humanos, como o Remdesivir, para o tratamento da PIF nos gatos. Ao contrário
do GS, o Remdesivir não pode ser administrado por via oral em razão da sua baixa
biodisponibilidade quando ingerido dessa forma.12,20
O Remdesivir injetável (10 mg/ml) é eficaz no tratamento da PIF e é recomendado
para aqueles gatos que não podem ser medicados por via oral. Seu uso é restrito para as
seguintes situações: graves sinais neurológicos, intolerância ou incapacidade de engolir
medicação, gatos extremamente desidratados e gatos que não podem ser medicados por
via oral por outras razões. Ele também pode ser usado em conjunto com o GS oral,
quando o animal em uso deste apresentar falta de apetite e precisar ser hospitalizado.
Então o Remdesivir pode ser administrado por via intravenosa por 48 horas e
posteriormente iniciar a administração oral do GS.17
Gatos com PIF tratados com Remdesivir geralmente apresentam uma melhora
significativa nos primeiros 2-3 dias durante a terapia intravenosa (IV) preliminar. No
primeiro dia de hospitalização é administrado 10 mg/kg diluídos em 10 ml de solução
salina e feito lentamente por 20-30 minutos ou mais. A desidratação, se presente, irá ser
corrigida e uma vez que o cateter IV esteja implantado, as injeções diárias não irão causar
nenhuma dor ou desconforto.20
O GS oral possui algumas vantagens em relação ao Remdesivir, pois além de
evitar a dor das injeções, ele também é mais barato. As doses dessas medicações devem
ser ajustadas de acordo com o estado clínico, a resposta do paciente e também de
acordo com seu peso. Ou seja, tudo dependerá da gravidade da doença no gato.17
(Quadro 1)
13
Quadro 1- Comparação das dosagens do GS-441524 oral com o Remdesivir IV ou SC de
acordo com cada sinal clínico.
Fonte: Taylor 17
A transição do Remdesivir IV ou SC para o GS oral pode ser entre o 7º e 14º dias
após o início do tratamento. Ao usar tanto um quanto o outro, as opções de tratamento
incluem um tempo de no mínimo 12 semanas, sendo essas utilizando: o Remdesivir
injetável apenas, transição de Remdesivir injetável para GS oral ou um protocolo
completo com GS apenas oral. Os gatos devem ser reexaminados após 1-2 semanas, ou
mais cedo se não houver melhora ou piora e a dosagem deve ser reajustada dependendo
do monitoramento neste momento.16,17
Se o gato estiver em tratamento com prednisolona, este deve ser interrompido
durante o tratamento com Remdesivir ou GS a menos que seja necessário para o
tratamento de curto prazo de uma doença imunomediada específica decorrente de PIF,
como anemia hemolítica por exemplo. Terapias de suporte como antieméticos,
estimulantes de apetite, fluidoterapia e analgésicos podem ser administrados juntamente
com Remdesivir ou GS conforme a necessidade.16
Uma pesquisa de campo foi realizada a partir de um questionário online em um
grupo da rede social Facebook denominado “FIP Warriors”. Esse grupo é dedicado
especialmente ao tratamento da PIF com GS, garantindo a distribuição da medicação aos
proprietários. Através dessa pesquisa foi constatado que o custo médio do tratamento é
14
de 4.920 dólares (aproximadamente 28.088 no real brasileiro). Ainda de acordo com a
pesquisa 88,2% dos proprietários notaram melhora clínica importante em apenas uma
semana após o início do tratamento e 96,7% dos gatos estavam vivos no momento da
pesquisa (54% curados, 43,3% em período de observação e 12,7% dos gatos tiveram
recaídas).18
Terapia de Resgate
A resistência ao GS foi confirmada em uma proporção de gatos com PIF e tratados
com esse antiviral nos últimos anos, principalmente entre gatos com PIF neurológica. A
resistência é superada de duas maneiras: aumentando progressivamente a dosagem do
antiviral já utilizado, para atingir níveis do medicamento em fluidos corporais que excedam
o nível de resistência, ou usando outra medicação antiviral que tenha um mecanismo de
resistência diferente, por si só ou em combinação.22
Em casos de recidivas após a conclusão do tratamento, é recomendado
primeiramente reiniciar o tratamento com o Remdesivir ou GS em uma dosagem mais
alta, tipicamente de 3-5 mg/kg a mais por dia, do que a dosagem utilizada anteriormente,
por mais 12 semanas. A dose aumentada depende da dosagem que o gato estava
tomando no momento da recaída. A recidiva pode ocorrer apresentando sinais clínicos e
sem qualquer anormalidade bioquímica e hematológica significativa. É possível que
alguns gatos respondam a nova dosagem em menos de 12 semanas, porém, o ideal é
manter o tratamento pelo tempo previsto para impedir uma nova recaída. 16,18
Quando a resistência é tão alta que não é possível aumentar a dose, o Molnupiravir
(não licenciado) é usado como tratamento de resgate. Em um estudo, 26 gatos receberam
esse medicamento, principalmente da marca Aura, com uma dose média de 14,7 mg/kg,
duas vezes ao dia, durante cerca de 12 semanas. Todos os gatos sobreviveram, e os
donos notaram melhora em mais de 92% dos casos após três semanas.21
Poucos efeitos colaterais foram relatados naqueles gatos que receberam as doses
mais altas (23 mg/kg três vezes ao dia e 30 mg/kg duas vezes ao dia). Concluiu-se que o
Molnupiravir é eficaz como terapia de resgate, com bons resultados para os 26 gatos
tratados com doses de 10-15 mg/kg duas vezes ao dia por 12 semanas, apresentando
poucos efeitos colaterais nessa dosagem e ajudando na remissão clínica dos sinais da
PIF.21
15
Não há um teste simples e preciso para saber quando uma cura é obtida. Como
visto, alguns gatos demoram mais que 84 dias, e a decisão de interromper o tratamento é
baseada no retorno total da saúde do animal avaliado na ausência de todos os sinais
clínicos e na normalização das atividades, apetite e exames de sangue, como o
hemograma e bioquímicos.6,19
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Concluiu-se que os antivirais GS e Remdesivir estão se mostrando cada vez mais
eficientes no tratamento da PIF. A forma oral do GS possui vantagens em relação à SC
pelo fato de não causar lesões na pele e evitar a dor da aplicação, em contrapartida seu
valor é mais alto, pois sua concentração (mg) é maior. Já o Remdesivir pode ser utilizado
apenas na forma injetável (IV ou SC) e possui custo mais alto do que o GS. Apesar
dessas drogas terem mostrado resultados promissores para o tratamento de PIF, fatores
como a dificuldade de obtenção dos fármacos e o alto custo do tratamento são limitantes
à sua ampla utilização.
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