atribuída.
Constatamos hoje, para nosso verdadeiro terror, diante de
nossos
vizinhos franceses até aqui tão poderosos, como é difícil a toda
uma nação
o justo conhecimento de si mesma: devemos retirar desse
exemplo uma
séria oportunidade para um exame de si próprio, em vista do
qual temos
felizmente a possibilidade de retomar os sérios esforços de
nossos grandes
poetas alemães, cuja aspiração fundamental era, consciente ou
inconscientemente, esse autoexame.
Deve ter-lhes parecido questionável que a natureza alemã,
constituindose
de modo tão desajeitado e pesado, pudesse afirmar-se
vantajosamente
perante seus vizinhos de origem romana, de formas tão
graciosas e leves.
Mas como, por outro lado, o espírito alemão distinguia-se pela
inegável
qualidade, que lhe era própria, de conceber profunda e
intimamente o
mundo e seus fenômenos, a questão era saber como essa
qualidade
conduziria a uma formação auspiciosa do caráter nacional e, a
partir daí, a
uma influência favorável sobre o espírito e o caráter dos povos
vizinhos,
considerando que até aquele momento era evidente que as
influências desse
tipo, vindas de fora, haviam agido de modo mais prejudicial do
que propícia
sobre nós.
Se compreendermos, agora, corretamente as duas tendências
poéticas
fundamentais que atravessam, como grandes artérias, a vida
de nosso maior
poeta, encontraremos o melhor guia para o exame desse
problema que se
apresentou ao mais livre homem alemão logo no início de sua
incomparável
carreira poética. Sabemos que a concepção do Fausto e do
Wilhelm Meister
ocorre justamente na época do primeiro e completo
desabrochar do gênio
poético de Goethe. O mais profundo ardor do pensamento o
impeliu, a
princípio, para o desenvolvimento do primeiro esboço do
Fausto; porém,
espantado, por assim dizer, com o caráter gigantesco de sua
própria
concepção, substituiu provisoriamente o grandioso projeto pela
forma mais
tranquila de abordagem do problema em Wilhelm Meister. Foi
no período
de maturidade que ele elaborou esse romance leve e fluente.
Seu herói é um
jovem burguês alemão em busca de uma situação estável e
agradável que,
passando pelo teatro e pela sociedade aristocrática, é levado a
um
cosmopolitismo proveitoso; a ele se une um gênio que ele
compreende
apenas superficialmente – assim como Goethe outrora
compreendia a
música, Wilhelm Meister conhece Mignon. O poeta nos faz
claramente
sentir que um crime revoltante é cometido contra Mignon;
entretanto, faz
seu herói superar tal sentimento, a fim de proporcionar-lhe, em
uma esfera
livre de toda violência e excentricidade trágica, uma bela
formação. Ele o
deixa em uma galeria para que possa contemplar quadros.
Compõe-se
música na ocasião da morte de Mignon, e tal música foi
realmente
composta mais tarde por Robert Schumann. Parece que
Schiller ficou
revoltado com o último livro de Wilhelm Meister; não soube,
entretanto,
como ajudar seu grande amigo a corrigir seu estranho erro.
Isso por julgar
que Goethe, ao criar Mignon e dar vida com essa criação a um
maravilhoso
mundo novo, mergulhara profundamente em um estado de
dispersão do
qual o amigo não poderia despertá-lo. Somente Goethe poderia
despertar de
tal estado – e despertou, pois em idade avançada compôs o
seu Fausto.
Tudo o que o dispersara é agora reunido no protótipo da
beleza: a própria
Helena, o ideal antigo, em sua plenitude e totalidade, é por ele
afastada do
reino das sombras para desposar o seu Fausto. Mas não é
possível reter a
sombra; ela se dissolve em uma bela nuvem que se distancia e
que Fausto
segue com o olhar melancólico e meditativo, mas sem tristeza.
Somente
Gretchen podia redimi-lo; do mundo dos bem-aventurados
aquela que foi
sacrificada, mas que sem ser percebida continuou eternamente
a viver nele,
em seu mais profundo íntimo, lhe estende a mão. E se assim
como
recorremos ao longo de nossa investigação a imagens
analógicas, a partir da
filosofia e da fisiologia, fosse possível dar agora à mais
profunda obra
poética uma interpretação significativa para nós, veríamos na
frase “Todo o
efêmero é somente uma alegoria” o espírito das artes plásticas
que Goethe
buscou durante tanto tempo e com tanta intensidade. E na
frase “O eterno
feminino nos atrai” veríamos o espírito da música que, se
elevando da
profunda consciência do artista, paira agora sobre ele e o guia
no caminho
da redenção.
É nesse caminho, a partir daquela profunda vivência íntima,
que o
espírito alemão deve guiar o seu povo se quiser, como é sua
missão, tornar
os povos abençoados. Não importa que zombem de nós por
darmos uma
imensa importância à música alemã; não nos deixemos
enganar, do mesmo
modo que o povo alemão não se deixou enganar quando seus
inimigos
tentaram ofendê-lo pondo em dúvida, de um modo bem-
calculado, sua
unânime capacidade. Nosso grande poeta sabia disso quando,
procurando
um consolo para o fato de os alemães parecerem tão pueris e
vazios em seu
mau jeito de imitar maneiras e gestos, observou: “O alemão é
bravo.” E
isso é alguma coisa!
Que o povo alemão seja bravo também na paz, preservando
seu
verdadeiro valor e afastando de si a falsa aparência; que ele
jamais queira
passar por aquilo que não é, procurando, ao contrário,
encontrar aquilo em
que é único. A ele foi recusada a arte do que é agradável, mas
seus
verdadeiros feitos e criações são efusivos e sublimes. E nada
poderá ser
colocado, de maneira mais elevada, nesse maravilhoso ano de
1870, ao lado
das vitórias de sua bravura senão a memória do nosso grande
Beethoven,
que nasceu há precisamente 100 anos para o povo alemão. Lá
onde
penetram agora nossas armas, na sede de origem da “moda
insolente”, seu
gênio já iniciou a mais nobre conquista; o que nossos
pensadores, nossos
poetas transmitiram com esforço e imprecisamente, como em
um balbucio,
a sinfonia de Beethoven soube despertar em seu íntimo mais
profundo: a
nova religião, a anunciação da redenção do mundo da mais
sublime
inocência pode ser a partir dela compreendida como em nós
mesmos.
Festejemos, pois, o grande precursor no deserto de um paraíso
desacreditado! Mas devemos festejá-lo dignamente, não
menos dignamente
do que a vitória da bravura alemã, pois o benfeitor do mundo
pode