SHACKLETON
Concluída a leitura do notável “A incrível viagem de Shackleton”, de Alfred Lansig, que a
todo e qualquer humano recomendo, fiquei a refletir sobre a mais extraordinária aventura
de que já tive conhecimento.
Nem mesmo o melhor e mais imaginativo roteirista ousaria propor as peripécias vividas
por Shackleton e sua tripulação.
Provação após provação, este notável irlandês - que errou muito mas redimiu-se pela
extremada coragem e infinita lealdade a seus comandados,- viveu meses de Jó.
Deus a prová-lo. Shackleton a resignar-se. Sofrimentos terríveis. A morte mais que por
perto, colada, com suas garras a envolvê-los, à beira do gélido abraço. A morte por assim
dizer descuidou-se inúmeras vezes. Logo ela, que é tão eficiente e sempre leva a melhor.
Mas a mão de Deus apareceu em momentos decisivos, após infindáveis e torturantes
horas.
Um lobo marinho abatido a tiros na banquisa quando a fome era certa. Saído do nada,
com seus quinhentos quilos de carne e gordura, que prorrogaram decisivamente suas
chances.
Na passagem de Drake, o Caird, qual minúsculo comprimido na língua de um dragão,
circundado por assustadoras paredes de águas, sob ventos e frio inclementes. O
naufrágio certo e esperado. E então, na última hora, uma calmaria ou um vento favorável,
salvador.
Na reta final, além da exaustão, além dos limites humanos, em meio ao desânimo que
poderia ter sido fatal, o luar - numa região em que o céu encoberto e o mau tempo são a
regra,- qual candieiro divino a orientá-los na caminhada pelas montanhas da Geórgia do
Sul. No rumo da baia Stromness, numa corrida contra o tempo, o frio, o fim das provisões
e a desesperança.
Deus permitiu - como permitira ao diabo que maltratasse Jó,- aos deuses que comandam
o vento, as nuvens, o frio e as águas que os castigassem com todos os requintes que
dominassem em suas artes, desde que não os matassem.
O epitáfio do grande líder bem poderia ser "Shackleton, um pequeno Jó fora das
Escrituras".