UNIVERSAL
JB
Por ligações familiares com esta casa, tive a felicidade de conviver com muitas das pessoas
que ajudaram a escrever uma história de quase cem anos. E por ter já entrado na casa dos
quarenta - idade em que a saudade já começa a despontar como uma companheira mais e
mais presente nos dias futuros,- já há muito a recordar.
Lembro-me dos emblemáticos Lindolfo e Gentil, apenas para citar dois entre muitos que
nada ou pouco lhes ficam a dever. Foram um retrato da dignidade e do amor com que se
exercia uma profissão. Seus exemplos de lealdade e dedicação certamente contribuíram
para a formação de tantos quantos ensinaram.
O linguajar de agora menospreza os substantivos que lhes cabem: heroísmo e santificação
no trabalho mais incógnito. Idealismo e humildade. São virtudes de pouca semeadura.
Um jornal comunitário, a retratar a vida das famílias, das escolas, das empresas, dos
políticos. Páginas que noticiam nascimentos e óbitos, espetáculos e protestos. Frustrações e
alegrias. Suas linhas podem ter noticiado o nascimento de quem hoje tem quase cem anos.
Como é parte da cidade, espaço de que esta precisa para desnudar-se em público, a
representa sem máscaras. O faz na crueza e na verdade, herdadas do início do século.
Quando a decência de hoje chamava-se pureza. Quando cada palavra ainda não perdera
seu significado.
Bem antes dos computadores e dos editores de texto, as mãos compunham o jornal.
Assentavam letra a letra as frases de outrem. E neste tempo, em que o próprio tempo
contava-se em dias, os mais modestos funcionários saboreavam as matérias publicadas e
as discutiam entre si. Conheciam os autores, os articulistas, os poetas - que frequentemente
visitavam a redação,- mas também tinham idéias próprias. E sabiam manifestá-las.
Em recente polêmica, rasgada em página de grande diário, notável cronista abordava a
diferença entre o internacional e o universal. Didático, exemplificava: Michael Jackson é
internacional, mas jamais será universal. Um poeta, numa pequena aldeia dos confins, ao
tocar as cordas da alma humana, fazendo-as vibrar - em manuscritos que talvez se percam
sem jamais terem sido publicados,- não é internacional, mas é universal.
Assim tem sido este semanário. Voltado para a região do vale do rio Caí, foi editando a
monografia estendida de Montenegro. Como quem conta a saga de ancestrais. Dos ricos
aos desafortunados, dos luminares aos quase burros, esta casa é um grande diá[Link] a
milhares de mãos, com caligrafias e estilos diversos. Tem sido universal, na exata medida
em que só tem feito cantar e chorar - em seu confim,- as dores de homens quaisquer.
Parafraseando D.Hélder Câmara numa das poesias de “O deserto é fértil” - quanta fé o
próprio título sugere e permite entrever,- o colar das pedras da história montenegrina tem a
uni-las um fio invisível, que se imola pela beleza do conjunto. Este fio, quase centenário, da
melhor tessitura, foi batizado em 1901 e responde pelo nome “O Progresso”.