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Módulo 2

O documento aborda o sistema político brasileiro, focando no presidencialismo e suas características, incluindo o presidencialismo de coalizão, que exige a formação de grandes coalizões para a governabilidade. Discute a dinâmica entre os Poderes Executivo e Legislativo, destacando a importância das Medidas Provisórias e o papel do Congresso Nacional na produção legislativa. O texto também analisa as disfuncionalidades do sistema e os desafios enfrentados na relação entre os diferentes níveis de governo.

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ECCOM

ESTUDOS CONSTITUCIONAIS
COMPARTILHADOS

Curso
Sistema
Político
Brasileiro
VOLUME 2

Módulo 2: Presidencialismo

ABRIL/2023
ECCOM
ESTUDOS CONSTITUCIONAIS
COMPARTILHADOS

PAINELISTAS
Isabelle Gomes Nascimento
Jorge Augusto Paiva

ORGANIZADORES
Breno Baía Magalhães
Gabriela Sena dos Santos
Amanda Pereira Reis
Isabelle Gomes Nascimento
Tânara Laíssa de Souza da Silva
ECCOM
ESTUDOS CONSTITUCIONAIS
COMPARTILHADOS

Índice

Sistema de Governo 5

Presidencialismo de Coalizão 6

Processo Legislativo 9

Reeleição 11

Impeachment 13

Bibliografia 15
ECCOM
ESTUDOS CONSTITUCIONAIS
COMPARTILHADOS

Módulo 2
Presidencialismo
Isabelle Gomes Nascimento
Jorge Augusto Paiva
5

1. Sistema de Governo
O sistema de governo pode ser compreendido como a forma que o poder político e,
consequentemente, o processo decisório se organizam em cada sistema político (que designa
as relações entre as instituições do Estado do ponto de vista ideológico). Por meio desse
sistema, se identifica os mecanismos de distribuição horizontal do poder político, assim como
o modo como se articulam os Poderes do Estado. Ao longo da história ocidental verifica-se
a adoção de vários modelos de organização do sistema de governo, sendo os principais o
secular parlamentarismo e o presidencialismo.

O parlamentarismo é produto de uma evolução histórica, cuja estrutura de poder segue a


repartição tripartite. Os aspectos principais desse modelo são: a dualidade entre o Poder
Executivo entre um chefe de Estado e um chefe de Governo e a responsabilização do chefe
de Governo perante o Poder Legislativo. No caso do Chefe de Estado, a função exercida é
predominantemente protocolar de representação simbólica, ocupada em muitos países pelos
Monarcas. O chefe de Governo, também chamado de Primeiro Ministro, é escolhido dentre
os quadros do Legislativo pelo partido que obtiver a maioria nas eleições parlamentares
(Poder Legislativo). Por essa razão, a relação entre Executivo e Legislativo tende a ser mais
harmoniosa e articulada, onde o segundo apoia o primeiro na atuação político-administrativa.

Quando ocorre a maioria do Parlamento retirar o apoio ao Governo, há a aprovação de um


voto de desconfiança e sua substituição por um novo Gabinete, que tenha obtido a maioria
do apoio parlamentar. Desse modo, em uma mesma legislatura, é possível que o Governo
seja substituído várias vezes, sem que sejam feitas novas eleições parlamentares.

O presidencialismo surge durante as Revoluções liberais do século XVIII, no contexto da


criação do Estado norte-americano. Esse sistema de governo, possui como características,
apesar de algumas variações que ocorrem nos diferentes: a concentração do Chefe de Estado
e Chefe de Governo na figura do Presidente; eleição direta do presidente com participação
dos eleitores e a impossibilidade de afastá-lo do cargo por um voto de desconfiança, tendo
em vista o prazo fixo e determinado do mandato; e o Parlamento, enquanto Poder Legislativo,
não possui ingerência na escolha dos integrantes do governo que são nomeados pelo
presidente.

Nesse modelo, o Presidente governa com o auxílio de seus ministros e demais cargos de
instituições públicas, escolhidos de forma discricionária, independente da maioria no
Parlamento e de suas concepções. Nesse sentido, existe uma maior legitimidade e
estabilidade administrativa, por conta da autonomia dada pela escolha direta do povo e dos
períodos fixos de mandatos. Outra característica do presidencialismo são os poderes
conferidos ao Poder Executivo como a emissão de medidas legais, a sanção e promulgação
de leis aprovadas pelo Legislativo e a indicação de membros para compor as instâncias
superiores do Poder Judiciário.
6

2. Presidencialismo de Coalizão

A expressão "presidencialismo de coalizão” foi utilizada como título do trabalho do cientista


político Sérgio Abranches, em 1988, cujo objetivo era analisar o novo arranjo institucional
brasileiro com foco na relação institucional entre as tensões políticas do Poder Legislativo e
do Poder Executivo. Para o autor, o conflito entre esses Poderes seria a peça chave para
compreender o cenário instável da democracia brasileira nas fases do período repúblicano.
As causas desse estado de conflito permanente seriam a agenda inflacionada de problemas e
demandas impostas ao Executivo e a composição fragmentada do Congresso.

Desse modo, para sustentar a conjuntura formada pelo sistema multipartidário, o voto
proporcional e um presidencialismo com muitos poderes, seria necessário compor o Poder
Executivo por meio de grandes coalizões de sustentação político-parlamentar. Esse arranjo
ficou conhecido como “presidencialismo de coalizão”, sendo, posteriormente, revisitado e
analisado por Virgílio Afonso da Silva, que considerou o modelo como uma espécie híbrida,
com a fusão de características presidencialistas e parlamentaristas, forjada no Brasil.

A gênese dessa situação estaria na Assembleia Nacional Constituinte, onde ocorreu uma
inflexão nos trabalhos. Na etapa das Comissões foi germinado um sistema de governo
parlamentarista ou semipresidencialista, que, posteriormente, foi alterado, por meio de
emenda de Plenário, para o sistema de governo presidencialista. Nesse sentido, não houve a
repactuação da correlação entre os Poderes Legislativos e Executivos, que foram
inicialmente pensados para um sistema parlamentarista, não ocorrendo, por exemplo, a
redistribuição de competências federativas e nem a reorganização dos sistemas eleitoral e
partidário.

Embora a Constituição de 1988 tenha avançado na descentralização com o processo de


redemocratização, ela deixou de promover o equilíbrio federativo, não assegurando, na
prática, principalmente, a autonomia financeira e orçamentária de Estados e Municípios.
Nesse sentido, a União manteve sob sua guarda diversas competências privativas e
concorrente, assegurando aos cofres públicos federais a maior parcela de recursos públicos e
discricionariedade para o seu gasto, em detrimento dos demais entes federativos. Tal situação
é importante para o presidencialismo de coalizão, pois a partir dessa concentração excessiva
de competências e de recursos na União é possível entender uma das bases do arranjo
institucional brasileiro, cujas disfuncionalidades repercutem no desempenho dos entes
federativos, na promoção de políticas públicas e na própria relação entre os Poderes.

Outro fator que contribuiu para esse arranjo é o desequilíbrio entre os Poderes, a partir do
aumento de competências, instrumentos e atribuições nas mãos do Poder Executivo. Um
desses instrumentos concedido ao Presidente da República é a sua competência privativa
para propor leis que tratem sobre a organização da administração pública federal, os
servidores públicos e sua remuneração, bem como dispor sobre matérias tributárias e as peças
orçamentárias. Conforme os seguintes artigos da Constituição:
7

“Art. 84. Compete privativamente ao Presidente da República:


(...)
III - iniciar o processo legislativo, na forma e nos casos previstos nesta Constituição;
IV - sancionar, promulgar e fazer publicar as leis, bem como expedir decretos e
regulamentos para sua fiel execução;
(...)
V - vetar projetos de lei, total ou parcialmente;
(...)
XXIII - enviar ao Congresso Nacional o plano plurianual, o projeto de lei de
diretrizes orçamentárias e as propostas de orçamento previstos nesta Constituição;
(...)
XXV - prover e extinguir os cargos públicos federais, na forma da lei;
XXVI - editar medidas provisórias com força de lei, nos termos do art. 62;”

“Art. 60. A Constituição poderá ser emendada mediante proposta:


(...)
II - do Presidente da República;”

Art. 61. A iniciativa das leis complementares e ordinárias cabe a qualquer


membro ou Comissão da Câmara dos Deputados, do Senado Federal ou do
Congresso Nacional, ao Presidente da República, ao Supremo Tribunal Federal,
aos Tribunais Superiores, ao Procurador-Geral da República e aos cidadãos, na
forma e nos casos previstos nesta Constituição.

§ 1º São de iniciativa privativa do Presidente da República as leis que:


I - fixem ou modifiquem os efetivos das Forças Armadas;
II - disponham sobre:
a) criação de cargos, funções ou empregos públicos na administração direta e
autárquica ou aumento de sua remuneração;
b) organização administrativa e judiciária, matéria tributária e orçamentária, serviços
públicos e pessoal da administração dos Territórios;
c) servidores públicos da União e Territórios, seu regime jurídico, provimento de
cargos, estabilidade e aposentadoria;
d) organização do Ministério Público e da Defensoria Pública da União, bem como
normas gerais para a organização do Ministério Público e da Defensoria Pública dos
Estados, do Distrito Federal e dos Territórios;
e) criação e extinção de Ministérios e órgãos da administração pública, observado o
disposto no art. 84, VI;
f) militares das Forças Armadas, seu regime jurídico, provimento de cargos,
promoções, estabilidade, remuneração, reforma e transferência para a reserva.

A Constituição também lhe concedeu a prerrogativa de propor emendas à constituição, leis


complementares e leis ordinárias sobre quaisquer assuntos de sua competência, de editar leis
sob requerimento de delegação perante o Congresso (as leis delegadas), de impor restrições
às emendas orçamentárias e de requerer sempre que necessário o regime de urgência para
apreciação de matérias de seu interesse (art. 64, § 1º da CRFB).
Art. 64. A discussão e votação dos projetos de lei de iniciativa do Presidente da
República, do Supremo Tribunal Federal e dos Tribunais Superiores terão início na
Câmara dos Deputados.
§ 1º - O Presidente da República poderá solicitar urgência para apreciação de projetos
de sua iniciativa.
8

Além da proposição das leis, o Presidente da República tem em mãos a possibilidade de


edição de Medidas Provisórias (MPs) (art. 62, CRFB). Esse instrumento é um dos mais
importantes, pois assegura ao Poder Executivo a prerrogativa para editar normas, quando
constatada a relevância e urgência, que assumem força de lei a partir de sua publicação, antes
mesmo de serem enviadas ao Congresso Nacional.
Art. 62. Em caso de relevância e urgência, o Presidente da República poderá
adotar medidas provisórias, com força de lei, devendo submetê-las de imediato ao
Congresso Nacional.

§ 1º É vedada a edição de medidas provisórias sobre matéria:

I - relativa a:
a) nacionalidade, cidadania, direitos políticos, partidos políticos e direito eleitoral;
b) direito penal, processual penal e processual civil;
c) organização do Poder Judiciário e do Ministério Público, a carreira e a garantia de
seus membros;
d) planos plurianuais, diretrizes orçamentárias, orçamento e créditos adicionais e
suplementares, ressalvado o previsto no art. 167, § 3º;

A importância das MPs pode ser visualizada quando se observa que muitas políticas públicas
importantes da República pós 1988, a começar pelos planos econômicos destinados a
controlar a inflação, foram implementadas por meio desse instrumento. Comparando os
dados obtidos quanto à proposição das demais com os dados obtidos relativos às Medidas
Provisórias, é possível constatar que o Poder Executivo vem ocupando papel preponderante
na condução da agenda legislativa, pautando a atuação do Congresso Nacional e provocando
os parlamentares a se manifestarem sobre a agenda de Estado e de governo. A ação legislativa
do Executivo domina o processo legislativo, influenciando decisivamente seus resultados.

Em contrapartida, a Constituição concedeu ao Congresso Nacional instrumentos de freios e


contrapesos que haviam sido usurpados no período ditatorial, possibilitando ao Poder
Legislativo voltar a exercer seu poder de veto à atuação e às proposições do Executivo, o
fiscalizando e controlando. Nesse sentido, o presidencialismo de coalizão é o termo utilizado
para descrever a conjuntura paradoxal brasileira que coloca em prática um presidencialismo
onde o Presidente, eleito pelo voto majoritário, tem a necessidade de adotar a prática,
comumente associada ao parlamentarismo, de formar e manter uma coalizão multipartidária
e majoritária que dê sustentação ao governo no Congresso e evite crises políticas como a que
ocorreu no governo Collor e Dilma.

O partido do Presidente da República, isoladamente, não deteria o número de cadeiras


suficientes para oferecer o necessário apoio parlamentar, assim como adquirir o apoio de
50% dos parlamentares mais um seria ineficaz. Por essa razão, entende-se ser necessário a
obtenção da maioria absoluta ou “supermaioria” de parlamentares.
9

Contudo, todo apoio político tem um custo. Para compatibilizar sua agenda governamental
com os múltiplos interesses dos partidos políticos e dos parlamentares que o apoiam no
Congresso, o chefe do Executivo necessita fazer concessões políticas, orçamentárias,
financeiras e até mesmo institucionais. No período de 1988 à 2018, os instrumentos mais
utilizados para arcar com esses custos foram às nomeações em Ministérios e órgãos públicos
e a liberação de emendas parlamentares.

3. Processo Legislativo
O Congresso Nacional é a representação nacional do Poder Legislativo do Brasil, possuindo
a tarefa principal de conduzir a produção legislativa do país em âmbito federal. Devido ao
federalismo bicameral adotado pela Constituição de 1988, a organização desse Poder em
âmbito federal também é bicameral, sendo a Câmara dos Deputados a Casa que compõem-
se de representantes do povo, eleitos pelo sistema proporcional, e o Senado Federal a Casa
composta pelos representantes dos Estados-membros e do Distrito Federal, eleitos pelo
sistema eleitoral majoritário simples. Os projetos de lei iniciados e aprovados pela Câmara
são sempre revisados pelo Senado, bem como uma proposta apresentada e aprovada pelos
senadores precisa passar pela votação dos deputados antes de ser enviada à sanção da
Presidência da República e virar lei.

Existem no ordenamento jurídico brasileiro várias espécies legislativas que têm


características próprias, função e tramitação diferenciada: Proposta de Emenda à
Constituição (PEC), Projeto de Lei Complementar; Projeto de Lei Ordinária; Projeto de Lei
Delegada; Medida Provisória (MP); Projeto de Decreto Legislativo e Projeto de Resolução.

A Medida Provisória (MP)1 é um ato unipessoal do presidente da República, com força de


lei, editada sem, a princípio, a participação do Poder Legislativo, que somente será chamado
a discuti-la e aprová-la em momento posterior. A utilização das MPs é possível em caso de
urgência e relevância (conceitos abertos), como delimita o art. 62 da CF.
Art. 62. Em caso de relevância e urgência, o Presidente da República poderá adotar
medidas provisórias, com força de lei, devendo submetê-las de imediato ao
Congresso Nacional.

A MP deve passar pelo Congresso Nacional (CN) para que seja convertida, ou não, em lei
no prazo de 60 dias, prorrogável por igual período. Caso não seja apreciada no prazo devido
ou receba votos desfavoráveis, ela perderá eficácia desde sua edição, tornando necessária a
regulamentação das relações jurídicas consolidadas por meio de decretos legislativos.

1
O projeto elaborou um verbete da Wikipédia didático que trata sobre as Medidas Provisórias, que pode ser
encontrado no link
[Link]
ová-la%20em%20momento%20posterior.
10

Art. 62. § 3º As medidas provisórias, ressalvado o disposto nos §§ 11 e 12 perderão


eficácia, desde a edição, se não forem convertidas em lei no prazo de sessenta dias,
prorrogável, nos termos do § 7º, uma vez por igual período, devendo o Congresso
Nacional disciplinar, por decreto legislativo, as relações jurídicas delas decorrentes.

O texto normativo deve ser encaminhado ao CN no mesmo dia de publicação da MP no


Diário Oficial da União (DOU). Em seguida, caberá à mesa da Presidência do Congresso, no
prazo de 48 horas, publicar e distribuir a matéria, assim como designar uma comissão mista
(deputados e senadores) para emitir parecer sobre ela. Caso entendam que a MP é
inconstitucional, poderão devolver seu texto à presidência da República.

As atividades da comissão somente iniciarão mediante a presença de 1/3 dos membros de


cada casa legislativa que a integram. Com isso, será feita a análise dos pressupostos
constitucionais, do mérito e da questão orçamentária da medida, sendo emitido ao final, um
parecer que poderá ser: a) pela aprovação total ou parcial; b) pela alteração; ou c) pela
rejeição da MP. Em seguida, o parecer aprovado é encaminhado à Câmara dos Deputados,
em conjunto com o processo e o projeto de lei de conversão ou de decreto legislativo, se for
o caso.

Na Câmara, o plenário analisará o preenchimento dos pressupostos constitucionais e a


adequação orçamentária, podendo arquivar a MP ou passar para a análise de mérito, inclusive
com a possibilidade do oferecimento de emendas e elaboração de projeto de lei de conversão.
O mesmo procedimento se repetirá no Senado. Na hipótese de alterações no Senado, o texto
voltará à Câmara, que terá 3 dias para decidir sobre as mudanças. Por fim, se o texto for
aprovado em sua integralidade nas duas casas, será remetido à promulgação como lei pelo
Presidente do CN. Em caso de alterações ao seu texto original, o projeto de lei será
encaminhado para sanção ou veto presidencial.

Após 45 dias sem apreciação, a MP entra em regime de urgência na casa legislativa em que
se encontra. Com isso, todas as demais deliberações do plenário da Câmara ou do Senado
ficam sobrestadas até que haja a votação, com exceção das deliberações legislativas que
tenham prazo constitucional determinado, conforme previsão constitucional (art. 62, § 6º,
CF). Esse “trancamento” de pauta só foi possível a partir da Emenda Constitucional (EC) nº
32/2001, que modificou o rito de tramitação das Medidas Provisórias.

art. 62. § 6º Se a medida provisória não for apreciada em até quarenta e cinco dias
contados de sua publicação, entrará em regime de urgência, subseqüentemente, em
cada uma das Casas do Congresso Nacional, ficando sobrestadas, até que se ultime
a votação, todas as demais deliberações legislativas da Casa em que estiver
tramitando.

Outra mudança trazida pela EC nº 32/2001 foi a vedação à “reedição, na mesma sessão
legislativa, de medida provisória que tenha sido rejeitada ou que tenha perdido sua eficácia
11

por decurso de prazo”, fixada no art. 62, parágrafo 1º. Apesar da tentativa de frear o excesso
de reedições das MPs, a quantidade de edições e reedições, no período de 1988 à 2018,
totalizou 6.947 medidas provisórias, sendo propostas 1.486 MPs originárias e 5.461
reeditadas.

4. Reeleição
A reeleição é instituto que permite ao Chefe do Poder Executivo a recondução ao cargo por
um único período subsequente (art. 14, §5°, da CF/88).

Art. 14, §5°. O Presidente da República, os Governadores de Estado e do Distrito


Federal, os Prefeitos e quem os houver sucedido, ou substituído no curso dos
mandatos poderão ser reeleitos para um único período subsequente. (Redação
dada pela Emenda Constitucional nº 16, de 1997)

O tema se encontra diretamente relacionado com o princípio republicano e a consectária


exigência de alternância dos membros de poderes, de modo que deve restar evidente a não
perpetuação do titular do mandato no exercício do poder.

Oportuno lembrar, com o reforço da doutrina que a República “consiste no regime jurídico
em que os exercentes de funções políticas o fazem: a) em caráter representativo; b) com
periodicidade; e c) com responsabilidade política, que se traduz em todo mecanismo
constitucional de responsabilização, do qual avulta especialmente a constante necessidade
de renovação dos mandatos, expressando a confiança dos eleitores” (Ataliba, 1981).

Ressalte-se que a previsão do §5° do art. 14 da CF/88 é dispositivo que não contemplava a
possibilidade da reeleição, ao revés a vedava. A reeleição foi inserida no texto constitucional
somente em 1997, por via da Emenda Constitucional 16/97, durante o mandato do então
Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso.

À essa época, muito se falou sobre os arranjos políticos e interesses pessoais dos
parlamentares na aprovação da Emenda Constitucional, o que deixou evidente o real intento
político do instituto.
12

A reeleição apresenta disfunções quando se apresenta como meio apto a favorecer grupos
político-familiares que, utilizando-se do poderio político e econômico proporcionado pelo
cargo já ocupado, alternam o exercício de mandatos eletivos, comprometendo os estamentos
republicanos e isonomia do pleito eleitoral.

Observa-se que o instrumento tem se mostrado como forma de perpetuação de governos


totalitários na América Latina, vulnerando preceitos de democracia, utilizando-se a possível
recondução ao cargo político como moeda de troca junto aos demais agentes políticos.

Também, sob a ótica da governabilidade, há prejuízo quando o titular do poder passa a


dedicar esforços para campanha eleitoral de reeleição à míngua das atividades e
compromissos do atual mandato que continua a exercer durante a campanha eleitoral.

Talvez por esses motivos, o ex presidente Fernando Henrique Cardoso já declarou


publicamente que foi um erro aprovar a emenda da reeleição, assumindo mea culpa, como
consta do texto publicado em [Link]
compra-de-votos-a-favor-da-emenda-da-reeleicao-em-1997//.

Noutro passo, estudiosos afirmam que a reeleição seria um importante instrumento de


concretização de um plano de governo de maior durabilidade, favorecendo a estabilidade na
implementação das políticas estatais, pois ao se possibilitar que o Chefe do Executivo
permaneça no cargo por 8 anos (tempo do mandato com reeleição), se permite a execução de
projetos e políticas mais duradoras que necessitariam de muito mais que 1 mandato (4 anos).
13

5. Impeachment
O impeachment é instrumento por meio do qual o mandato conferido ao agente político é
revogado, mediante controle do Legislativo, em virtude da prática de conduta indevida
qualificada como crime de responsabilidade, conforme definido no art. 85 da CF/88 e
regulamento pela lei 1.079/50.

Art. 14 da Lei 1.079/50. É permitido a qualquer cidadão denunciar o Presidente da


República (...) por crime de responsabilidade, perante a Câmara dos Deputados.

Art. 85 da CF/88. São crimes de responsabilidade os atos do Presidente da


República que atentem contra a Constituição Federal e, especialmente, contra:
I - a existência da União;
II - o livre exercício do Poder Legislativo, do Poder Judiciário, do Ministério
Público e dos Poderes constitucionais das unidades da Federação;
III - o exercício dos direitos políticos, individuais e sociais;
IV - a segurança interna do País;
V - a probidade na administração;
VI - a lei orçamentária;
VII - o cumprimento das leis e das decisões judiciais.
Parágrafo único. Esses crimes serão definidos em lei especial, que estabelecerá as
normas de processo e julgamento.

O processo de impeachment possui natureza político-jurídica e tem regular tramitação no


âmbito do Poder Legislativo, revelando-se como importante instrumento de controle político-
democrático sobre a conduta do mandatário que infringir deveres funcionais, incorrendo em
crime de responsabilidade.

A doutrina informa que os crimes de responsabilidade se dividem infrações políticas e


infrações funcionais:
As Infrações políticas são os atos que violam a Constituição Federal, a autonomia das
entidades federativas e a separação dos poderes, bem como o exercício dos direitos políticos,
individuais e sociais e a segurança interna do País (art. 85, I a IV da CF/88). Já as infrações
funcionais são aquelas que atentam contra a probidade da Administração Pública, a lei
orçamentária e o cumprimento das leis e decisões judiciais (art. 85, V a VII da CF/88).

O impeachment se diferencia do instituto do recall político que tem origem norte-americana


e consiste na possibilidade de destituição do mandatário político por iniciativa da própria
comunidade política, mediante votação popular.

No recall não há necessidade de que o agente político tenha praticado qualquer infração
política, bastando que haja perda de legitimidade do governante diante do eleitorado.

No plano federal, o processo do impeachment se inicia com um juízo de admissibilidade


realizado pela Câmara dos Deputados, mediante voto de 2/3 de seus membros, e uma vez
14

aceito processamento, a ação segue para julgamento do mérito no Senado Federal, com nova
votação no quórum de 2/3 dos membros, tudo explicitado no art. 86 da CF/88.

Art. 86. Admitida a acusação contra o Presidente da República, por dois terços da
Câmara dos Deputados, será ele submetido a julgamento perante o Supremo
Tribunal Federal, nas infrações penais comuns, ou perante o Senado Federal, nos
crimes de responsabilidade.

§ 1º O Presidente ficará suspenso de suas funções:


I - nas infrações penais comuns, se recebida a denúncia ou queixa-crime pelo
Supremo Tribunal Federal;
II - nos crimes de responsabilidade, após a instauração do processo pelo Senado
Federal.
§ 2º Se, decorrido o prazo de cento e oitenta dias, o julgamento não estiver
concluído, cessará o afastamento do Presidente, sem prejuízo do regular
prosseguimento do processo.

§ 3º Enquanto não sobrevier sentença condenatória, nas infrações comuns, o


Presidente da República não estará sujeito a prisão.

§ 4º O Presidente da República, na vigência de seu mandato, não pode ser


responsabilizado por atos estranhos ao exercício de suas funções.

Nesse particular, importante registrar entendimento firmado pelo STF quando do julgamento
do impeachment da ex presidente Dilma Rousseff no qual se estabeleceu- de modo inovador-
que a autorização da Câmara dos Deputados não vincula a atuação do Senado Federal que
não está obrigado a receber a denúncia, devendo realizar novo juízo de admissibilidade, como
consta do teor da ADPF 378.

Como consequência da condenação em processo de impeachment, o agente político terá seu


mandato cassado com declaração da inabilitação para o exercício da função pública,
conforme previsão do art. 52 da CF/88.

Art. 52. Parágrafo único. Nos casos previstos nos incisos I e II, funcionará como
Presidente o do Supremo Tribunal Federal, limitando-se a condenação, que
somente será proferida por dois terços dos votos do Senado Federal, à perda do
cargo, com inabilitação, por oito anos, para o exercício de função pública, sem
prejuízo das demais sanções judiciais cabíveis

Durante o processamento, após exercido o juízo de inicial pela Câmara dos Deputados e
admitida a acusação pelo Senado Federal, o Presidente da República ficará afastado do cargo
por período de 180 dias, aguardando o julgamento.

Permite-se o controle do Judiciário quanto à legalidade do procedimento adotado nas


deliberações legislativas, somente sendo possível o impeachment se o agente ainda estiver
no exercício cargo.
15

Na história brasileira, há duas experiências de utilização do impeachment, notadamente os


casos do Presidente Fernando Collor de Mello e da Presidente Dilma Rousseff.

De todo o ver, os institutos aqui analisados revelam-se como importante instrumento de


governabilidade, permitindo ao Executivo maior trânsito político junto ao Poder Legislativo
(como acontece no caso do veto presidencial ou da reeleição) ou ainda permitindo ao
Legislativo controle, fiscalização e barganha política junto ao Poder Executivo, como se dá
com o instrumento do impeachment.

Bibliografia

FIGUEIREDO e LIMONGE e AMORIN NETO -Governos de Coalizão e Mecanismos de


Alarme de incêndio.

Guimarães, Luís Gustavo Faria O presidencialismo de coalizão no Brasil / Luís Gustavo Faria
Guimarães. – 1. ed. – São Paulo : Blucher Open Access, 2020.

PALERMO, Vicente (2000), “Como se governa o Brasil? O debate sobre instituições políticas
e gestão de governo”. Dados [online]. 2000, vol.43, n.3, pp. 521-557.

FIGUEIREDO, Argelina e LIMONGI, Fernando (2007). “Instituições Políticas e


Governabilidade. Desempenho do governo e apoio legislativo na democracia brasileira” in
MELO, Carlos R. & SAEZ, Manuel A. A democracia brasileira: balanço e perspectivas para o
século 21. Belo Horizonte: Editora UFMG. Págs. 147-198.

ALMEIDA, Acir. Informação, Delegação e Processo legislativo: A Política das Medidas


Provisórias. Texto para Discussão, n. 1933, Rio de Janeiro: Ipea, 2014.

Mendes, Gilmar Ferreira Curso de direito constitucional / Gilmar Ferreira Mendes, Paulo
Gustavo Gonet Branco. – 13. ed. rev. e atual. – São Paulo : Saraiva Educação, 2018

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