TÉCNICAS PROJETIVAS – CAT-A
O principal objetivo do CAT é avaliar aspectos da personalidade infantil, com
foco nas relações familiares, afetivas e sociais, explorando o modo como a criança
percebe e reage às situações cotidianas. O teste busca compreender como o sujeito
organiza seus afetos, desejos e ansiedades, permitindo ao psicólogo realizar uma leitura
da dinâmica emocional e dos vínculos que estruturam sua experiência subjetiva.
Fundamentado na psicanálise, o CAT parte do pressuposto de que, diante de um
estímulo ambíguo, o indivíduo tende a projetar seus próprios conteúdos internos,
revelando conflitos, fantasias, medos e desejos. Assim, a narrativa criada pela criança
diante das pranchas do teste é interpretada como uma forma simbólica de expressão de
seu mundo interno, oferecendo pistas sobre suas relações com as figuras parentais, o
modo de lidar com a autoridade, a agressividade, a dependência e o afeto.
1. Conceitos Fundamentais
Percepção
• Processo de captação dos estímulos sensoriais (visão, audição, tato etc.).
• Organiza elementos individuais e concretos do ambiente.
• Exemplo: ao entrar numa sala, percebe-se cadeiras, lousa, projetor e pessoas.
Apercepção
• Processo psicológico e interpretativo que dá significado subjetivo ao que é
percebido.
• Envolve experiências, emoções, cultura e mundo interno do indivíduo.
• É anterior à percepção detalhada, pois percebemos o “todo” antes das partes.
• Exemplo: ao ver uma figura com pintinhos e uma galinha, a criança cria uma
história — projeção de seu mundo interno.
Gestalt: base teórica da apercepção — “o todo é maior que a soma das partes”.
Wundt: descreve a apercepção como síntese criativa, onde os elementos mentais se
unem e produzem novas propriedades.
Aspecto Percepção Apercepção
Natureza Sensorial Psicológica e simbólica
Foco Elementos isolados Significado total e subjetivo
Processo Receber estímulos Integrar e transformar estímulos
Consciência Mais objetiva Envolve o inconsciente e emoções
Relação com testes Descrição da imagem Criação de história (projeção)
3. Relação com os Testes Projetivos
• O CAT-A (Children’s Apperception Test – Animal Figures) é um teste aperceptivo
e verbal, utilizado para avaliar a personalidade infantil.
• Estimula a criança a contar histórias a partir de imagens padronizadas de
animais.
• As histórias revelam conteúdos latentes (aspectos inconscientes) e dinâmicas
emocionais, buscando compreender a estrutura afetiva, o mundo interno e as
relações interpessoais da criança.
• Permite investigar relações interpessoais, vivências familiares, impulsos e
conflitos.
4. Aplicação do CAT
A aplicação do CAT exige formação técnica e sensibilidade clínica por parte do
psicólogo. O examinador deve seguir as orientações do manual, apresentando as
pranchas em ordem fixa e uma por vez, mantendo as demais ocultas para evitar
interferências perceptivas. O aplicador solicita que a criança invente uma história com
começo, meio e fim para cada figura apresentada.
Durante a aplicação, o avaliador deve registrar fielmente as histórias contadas e
observar comportamentos emocionais e verbais, como hesitação, ansiedade, risadas,
silêncios ou alterações na postura. Esses aspectos complementam a interpretação das
narrativas, revelando reações diante dos conflitos evocados por cada estímulo.
“Este é um jogo de histórias. São dez figuras ao todo. Eu vou mostrar uma figura
por vez, e você deve tentar criar uma história de faz de conta para ela. Diga o que está
acontecendo na figura, o que vai acontecer depois e como termina a história. Ou você
pode dizer o que acha que aconteceu antes; em seguida, o que está acontecendo na
figura e depois qual é o fim da história. O que interessa é você inventar uma história com
começo, meio e fim, da sua própria imaginação. Muito bem esta é a primeira figura”
Caso a criança apenas descreva a figura em vez de inventar uma história, o
aplicador pode estimular sua imaginação por meio de perguntas abertas e neutras —
como “o que está acontecendo aqui?”, “e o que aconteceu antes?”, “o que vai acontecer
depois?”. É fundamental que o psicólogo não sugira respostas, evitando interferir na
espontaneidade da projeção.
• Indicado para crianças de 5 a 10 anos (no Brasil, validado nessa faixa etária).
• Pode ser usado em contextos clínico, educacional e jurídico:
o Clínico: psicoterapia, triagem, acompanhamento.
o Educacional: compreensão dos impactos emocionais na aprendizagem.
o Jurídico: avaliação de disputa de guarda, adoção, violência doméstica.
o Duração média de 45 minutos
Cuidados e atitudes do aplicador
Durante a aplicação, o profissional deve manter uma postura acolhedora,
empática e atenta, evitando expressar ansiedade ou pressa em relação ao tempo. É
essencial compreender que o foco não está no cumprimento rígido do tempo ou na
quantidade de histórias, mas na qualidade do material simbólico produzido pela
criança.
O ambiente também deve ser controlado, minimizando estímulos externos (sons,
figuras coloridas, roupas chamativas), pois qualquer elemento externo pode interferir
nas respostas. O aplicador deve anotar cuidadosamente as emoções expressas, as
mudanças de comportamento e as oscilações na intensidade das respostas.
• Estrutura:
• Apresentação das pranchas (figuras de animais em situações humanas). Cada
prancha foi cuidadosamente elaborada para evocar temas universais do
desenvolvimento emocional infantil, como a alimentação, rivalidade fraterna,
autoridade, proteção, medo, independência e sexualidade infantil.
• O psicólogo solicita à criança: “Conte uma história sobre o que está acontecendo
aqui”.
• A análise foca nas verbalizações: conteúdo, tom, extensão, espontaneidade,
coerência etc.
5. Considerações Técnicas e Éticas
• O psicólogo deve:
o Ter conhecimento sobre desenvolvimento infantil (marcos motores,
cognitivos e emocionais) e personalidade.
o Realizar anamnese com os pais antes da aplicação.
o Registrar integralmente o que a criança verbaliza (por escrito ou gravação
com autorização).
o Integrar as informações obtidas no teste com dados da entrevista e
observações clínicas.
Cuidados Éticos:
• Armazenar registros e gravações em local seguro e confidencial.
• Garantir sigilo profissional e consentimento informado dos responsáveis.
6. Aspectos Teóricos Importantes
• A apercepção envolve interpretação subjetiva, mas não é inconsciente no
sentido freudiano — é uma função mental automática, não deliberada.
• O conteúdo latente (inconsciente) manifesta-se nas histórias contadas.
• As diferenças individuais aparecem na maneira como cada criança atribui
significado às figuras.
• A criatividade e a capacidade de abstração são indicativos de desenvolvimento
psíquico saudável.
7. Validação e Normatização no Brasil
• Original de 1949 (EUA).
• Validado no Brasil entre 2010 – 2013 por Dery de Miguel e Leila Tardivo.
• Aprovado pelo CFP para uso até 2033.
• O manual atual padroniza o uso somente para crianças de 5 a 10 anos, com
normas brasileiras.
8. Interpretação e raciocínio clínico
A interpretação do CAT não é padronizada de forma quantitativa; ela exige
raciocínio clínico e integração teórica. O psicólogo deve analisar as histórias
considerando:
• o protagonista (ou herói) — personagem com o qual a criança mais se identifica;
• as figuras parentais e fraternas e suas relações;
• os conflitos dominantes (de dependência, rivalidade, agressividade, medo ou
abandono);
• os mecanismos de defesa e ansiedades predominantes;
• e o fio condutor das histórias — repetições, variações e desfechos simbólicos.
A leitura das pranchas deve ser feita de modo articulado, observando
recorrências e coerências narrativas. Assim, o CAT oferece uma visão compreensiva do
funcionamento psíquico infantil, permitindo inferir modos de enfrentamento e padrões
relacionais.
9. Diagnóstico compreensivo x diagnóstico nosológico
Há uma diferença entre diagnóstico compreensivo e nosológico. O diagnóstico
nosológico se baseia na classificação de sintomas segundo manuais como o DSM ou a
CID, o que, embora útil em contextos médicos, pode levar a rotulações precipitadas,
especialmente em crianças.
O diagnóstico compreensivo, por outro lado, considera a singularidade do
sujeito, sua história de vida, e o contexto social, cultural e relacional. No caso do CAT,
o objetivo é compreender como a criança vivencia e simboliza suas experiências, e não
a enquadrar em categorias patológicas. Essa postura ética é fundamental para evitar
interpretações reducionistas e patologizantes.
10. Exemplos de temas evocados nas pranchas
Cada prancha do CAT foi criada para evocar temas centrais do desenvolvimento
emocional infantil. Alguns exemplos analisados em aula incluem:
• Prancha 1 (Galinha e pintinhos): relação com a figura materna; ato de comer, ser
ou não ser alimentado, atitudes diante da alimentação, papel da comida como
recompensa ou punição; rivalidade fraterna; problemas de oralidade.
• Prancha 2 (Ursos puxando corda): conflito edípico (com quem o filho se alia);
competitividade, alianças familiares, segurança/insegurança; luta, que
pressupõe agressividade e medo desta, ou brincadeira; preocupação com castigo
ou medo da castração (simbolicamente) podem aparecer em histórias que
mencionem uma ruptura da corda.
• Prancha 3 (Leão e rato): figura paterna (benigna ou ameaçadora), poder,
autoridade, submissão ou medo; a bengala pode ser vista como instrumento de
agressividade ou de depreciação; O ratinho costuma ser a figura de identificação,
em alguns casos também pode haver alternância (conflito de papeis); avaliar o
tipo de relação leão-ratinho: ameaçadora, amizade, ajuda mútua, consolo.
• Prancha 4 (Canguru com filhotes): lazer; relação materna; rivalidade fraterna e
preocupação com a origem dos bebês; desejo de autonomia
(ênfase/identificação com o canguru de bicicleta), ou desejo de regressão para
ficar mais próximo da mãe (identificação com o bebê); a cesta pode sugerir temas
relacionados a alimentação; fuga ou perigo.
• Prancha 5 (Ursinhos na cama): cena primária; medos noturnos, fantasia de
abandono e segurança emocional; temas relacionados às necessidades orais
(ursinhos têm fome ou são alimentados)
• Prancha 6 (Ursos – filhote e pais – na caverna): cena primária, os estudos
percebem que ele tende a ampliar o que ficou retido no cartão anterior; ciúmes
e/ou castigos; necessidades orais; ameaças (fantasmas ou lobos) e necessidade
de proteção; medo de perder a mãe.
• Prancha 7 (tigre e macaco): figura que ataca, geralmente masculina, hostil,
persecutória e ameaçadora, pode remeter à autoridade paterna e pode
simbolizar o complexo de castração freudiano, revelando o modo como a criança
lida com figuras de poder; favorece a expressão do medo da agressividade e de
modos de lidar com ela; Defesas contra ansiedade que envolvam a agressividade
podem se revelar pela rejeição do cartão, histórias inócuas (ignoram o caráter
agressivo do cartão) ou irrealistas (o macaco sendo mais forte que o tigre).
Geralmente essa prancha causa mais ansiedade na criança.
• Prancha 8 (família de macacos): temas ligados à dinâmica familiar, acolhimento
e integração. O adulto representado é interpretado como uma figura parental
protetora, associada à segurança e pertencimento; papel dos segredos
familiares à luz da teoria sistêmica, em que informações omitidas criam tensões
e alianças inconscientes dentro do grupo familiar; costuma revelar o papel da
criança na constelação familiar, assim como aspectos da dinâmica familiar.
• Prancha 9 (coelho no quarto escuro): evoca temas de medo, abandono, solidão
e castigo; histórias que minimizam o medo ou distorcem a situação (por exemplo,
o coelho não está sozinho porque os pais estão no outro quarto) indicam
mecanismos de defesa contra a ansiedade; também pode surgir o tema do
crescimento e autonomia, quando a criança representa o coelho como capaz de
lidar sozinha com o ambiente; pesadelo, agressividade e castigo também foram
tema eliciados.
• Prancha 10 (cachorros no banheiro): mobiliza conteúdos ligados à moralidade,
higiene, castigo e controle de impulsos; a prancha é útil para avaliar o superego
infantil: o tipo e a severidade da punição revelam a estrutura moral da criança
(se é rígida, frágil ou adequada); histórias regressivas, de punição
desproporcional ou de ausência de culpa indicam fragilidades no controle do ego
e mecanismos de defesa imaturos; histórias sobre treinamento de esfíncteres e
controle de impulsos podem ser observadas; temas de carinho e cuidado entre
as personagens podem estar relacionados a associação com relações
gratificantes ou a defesas contra a ansiedade mobilizada pelo estímulo
(agressividade e punição).
11. Protocolo de Avaliação
Contém:
Análise de conteúdo:
Pontuação geral da análise de conteúdo;
Pontuação geral dos mecanismos de defesa.
Sua função é ajudar a identificar os relatos que mais se destacam, dado o
predomínio evidente de aspectos positivos ou negativos em cada uma das dimensões,
além da qualidade e variedade dos mecanismos de defesa.
Análise de Conteúdo:
As histórias recebem um ponto positivo ou negativo, de acordo com os
elementos identificados no esquema de interpretação.
Ao final, é obtido um total de pontos positivos e um total de pontos negativos
para o protocolo, indicando o predomínio de aspectos favoráveis ou desfavoráveis
associados à autoestima da criança, às suas concepções de mundo e a sua capacidade
de lidar com ansiedades e conflitos mobilizados.
O uso desse esquema auxiliar contribui para a organização da análise, facilitando
a identificação de padrões recorrentes.
Elaboração da Síntese:
• No contexto clínico, o objetivo último da análise é chegar a uma compreensão
global do funcionamento da criança, que articule as evidências dos recursos
de que ela dispõe e suas dificuldades, de modo a fundamentar o
encaminhamento recomendado.
✓ Aspectos intelectuais:
• Considerar a amplitude do vocabulário, a riqueza do discurso, a diversidade
de temas abordados, levando em conta a idade e o nível sociocultural do
examinando.
• Essa apreciação depende de conhecimento de Psicologia do
Desenvolvimento e se volta para a produção como discurso.
• São particularmente úteis as informações da dimensão Integração do ego
✓ Autoimagem:
• Abordar como a criança se percebe e o quanto confia em sua própria
capacidade de resolver as dificuldades que enfrenta (adequação e
participação do herói nos desenlaces; tipo de desenlace).
✓ Concepção do ambiente e relações objetais
• Indicar como a criança percebe o ambiente e as pressões que este exerce
sobre ela, assim como suas interrelações de modo geral.
• Particular atenção deve ser dedicada às representações das figuras parentais
em suas interações com os heróis dos relatos.
✓ Principais necessidades, conflitos e ansiedades:
• Apontar quais são as necessidades e os conflitos mais recorrentes.
• Particular atenção deve ser dada aos que levam à queda na qualidade da
produção (seja pelo empobrecimento, seja pela desorganização do
discurso).
✓ Defesas e elaboração dos conflitos:
• Identificar quais são as defesas mais usadas e suas consequências em termos
de facilitar ou dificultar a elaboração dos conflitos expressos nos relatos.
• Considerar aqui dados referentes ao superego e ao grau de integração do
ego.
✓ Encaminhamento:
• Considerar a necessidade (ou não) de intervenções e possíveis alternativas
que ajudem a criança no enfrentamento de suas dificuldades, seja em
relação à família ou ao ambiente em geral (orientação para os pais, por
exemplo), ou em relação à própria criança (psicoterapia, atividades em
grupo ou outras).
• São particularmente úteis as informações das categorias Integração do ego
e Total da Ficha CAT-A: Análise de Conteúdo.
12. Fundamentos da interpretação
A interpretação do C.A.T.–A não se baseia apenas no conteúdo verbal manifesto
das histórias contadas pela criança; ela requer uma análise multidimensional,
integrativa e clínico-dinâmica, que articule:
O examinador deve realizar uma leitura integrada entre:
• o conteúdo das histórias: o que a criança narra (conteúdo manifesto);
• o que a narrativa revela inconscientemente (conteúdo latente);
• as observações comportamentais durante o teste (tempo de latência,
ansiedade, resistência, silêncio);
• e os dados obtidos na anamnese e em outros instrumentos.
O processo de interpretação segue um raciocínio helicoidal, no qual cada nova
observação aprofunda o entendimento do funcionamento psíquico da criança, indo
além da simples soma de dados.
✓ Isso significa que o avaliador:
• amplia hipóteses conforme avança
• busca coerência e padrões repetitivos
• integra novas informações às anteriores
• nunca tira conclusões precipitadas por uma única prancha
O sentido emerge do conjunto.
Integração Horizontal e Vertical
• Horizontal: observar uma mesma dimensão em todas as pranchas;
• Vertical: examinar todas as dimensões dentro de uma única prancha.
Exemplo:
• Vertical: na prancha 7 → autoimagem, ansiedades, mecanismos de defesa etc.
• Horizontal: em todas as pranchas → como aparece a autoimagem
Esse cruzamento permite observar constância, contradições, lacunas e defesas.
✓ Busca-se compreender:
• Como a ansiedade interfere em cada produção;
• Quando os conteúdos pessoais são expressos ou omitidos;
• Quando o examinando se solta, se retrai, se perturba;
• Quando o impacto de determinado cartão interfere no relato seguinte.
12. As nove dimensões interpretativas
A padronização brasileira do C.A.T.-A propõe nove dimensões de análise:
1. Autoimagem – percepção de si mesmo projetada no personagem
principal.
2. Relações objetais – qualidade das relações com figuras parentais,
fraternas e sociais.
3. Concepção de ambiente – percepção do ambiente como acolhedor,
ameaçador, hostil ou indiferente.
4. Necessidades – desejos e impulsos expressos nas histórias.
5. Conflitos – obstáculos e tensões entre desejos e realidade.
6. Ansiedades – afetos e medos associados aos conflitos.
7. Mecanismos de defesa – estratégias usadas para lidar com a ansiedade.
8. Superego – noção de certo e errado, punição e culpa.
9. Integração do ego – capacidade de síntese e coerência entre percepção,
emoção e realidade.
A décima categoria, complementar, é o tema principal, que sintetiza o conteúdo
latente de cada história — aquilo que está subjacente ao relato manifesto.
Dimensão: TEMA PRINCIPAL
O tema principal é estruturado em três níveis:
▪ Descritivo (conteúdo manifesto): resumo objetivo e cronológico da
história;
▪ Interpretativo (conteúdo manifesto): construção de hipóteses de sentido
(ex.: “se eu desobedeço, então sou punido”);
▪ Diagnóstico (conteúdo latente): tradução do conteúdo latente em
termos teóricos (ex.: “superego rígido” ou “fragilidade no controle dos
impulsos”).
✓ Também se avalia:
• a temática frequentemente evocada (se corresponde aos temas
esperados da prancha);
• o teste de realidade (se os elementos perceptivos foram compreendidos
adequadamente).
Exemplo prático
Análise de história contada por uma criança de 9 anos sobre a prancha 7 (tigre e
do macaco):
Nível descritivo: síntese da sequência narrativa. (“O macaco provocou o tigre; o tigre
quis pegá-lo; o leão o castigou deixando-o preso por um mês.”)
Nível interpretativo: se eu provoco, então sou punido; se sou ameaçado, então alguém
me protege.
Nível diagnóstico: presença de superego frágil (punição desproporcional e parcial) e
expectativa de proteção paterna (figura do leão).
Temática: (proximidade do tema da narrativa à demanda da prancha): frequentemente
evocada (o tigre ameaça o macaquinho).
Percepção dos elementos do estímulo (teste de realidade): (verificar se os estímulos da
prancha são percebidos adequadamente, se há omissão de elementos): adequada.
Dimensão: AUTOIMAGEM
A autoimagem é a primeira dimensão analisada no C.A.T.–A e corresponde à
forma como a criança se percebe, se representa e se vivencia internamente, projetando
esses aspectos no herói (protagonista) das histórias.
Personagens menos parecidas com o narrador poderia apresentar aspectos
menos conscientes e mais latentes de sua personalidade.
O personagem principal da narrativa representa a criança. Esse protagonista
pode refletir:
• características reais do self
• aspectos idealizados (o que ela gostaria de ser)
• conteúdos reprimidos ou negados (o que ela teme ser)
• partes divididas da personalidade (ideal vs. temido)
Autoimagem positiva x negativa
Autoimagem positiva Autoimagem negativa
Confiança Sentimento de inferioridade
Perseverança Falha, incapacidade
Reconhecimento de erros Vergonha excessiva
Sensação de ser amado Sensação de rejeição
Autonomia adequada Dependência extrema
Capacidade de resolução Inibição, paralisia
O que analisar na autoimagem: na narrativa, buscamos os traços atribuídos ao
protagonista:
Caráter moral
• obediente × desobediente
• culpado × inocente
• bom × mau
Capacidade egoica
• forte × frágil
• capaz × impotente
• ativo × passivo
Regulação emocional
• consegue lidar com frustração × desorganiza
• tolera medo × paralisa
Posicionamento nas relações
• dependente × autônomo
• submisso × agressivo
• protegido × abandonado
Exemplo prático
Análise de história contada por uma criança de 9 anos sobre a prancha 7 (tigre e
do macaco):
• herói: macaco, sexo masculino;
• traços: astuto, provocador, desafia autoridade, usa esperteza para sobreviver;
• emocionalidade: ansiedade sob ameaça, mas sensação de capacidade;
• defesa: humor, fuga ativa
A criança pode estar sinalizando:
• recursos adaptativos para lidar com situações tensas
• mas também possível dificuldade com regras e limites
• O fato de serem projetadas em um herói do sexo oposto ao do examinando pode
indicar uma certa dificuldade em aceitar esses comportamentos.
Dimensão: RELAÇÕES OBJETAIS
No contexto do C.A.T.–A, relações objetais dizem respeito à forma como a
criança:
• percebe e representa figuras importantes em sua vida (pais, irmãos, cuidadores,
pares)
• vivencia vínculos afetivos e suas qualidades
• internaliza e simboliza relações
Em psicanálise, “objeto” significa objeto de investimento afetivo — ou seja,
figuras emocionalmente significativas, não objetos materiais.
O modo como o protagonista interage com outros personagens revela como a
criança experiencia e internaliza suas relações reais e fantasiadas.
• Relações objetais positivas → vínculos afetivos, consistentes e protetores.
• Relações objetais negativas → vínculos frágeis, conflituosos, negligentes,
rejeitantes ou ameaçadores.
O que observamos nessa dimensão
Quando analisamos relações objetais, investigamos:
Qualidade das relações
• amorosas × hostis
• protetoras × ameaçadoras
• próximas × distantes
• estáveis × instáveis
Tipo de vínculo e dinâmica relacional
• dependente × autônomo
• cooperativo × competitivo
• terno × agressivo
• simétrico × hierárquico
Posicionamento do protagonista na relação
• busca apoio?
• teme abandono?
• provoca e desafia?
• cuida ou é cuidado?
Complexidade emocional
• relações integradas (ambivalência tolerada)
• relações dicotômicas (tudo bom × tudo mau)
• relações persecutórias (ambiente sentido como perigoso)
• vínculos securizantes (base afetiva estável)
Exemplo prático
Análise de história contada por uma criança de 9 anos sobre a prancha 7
(tigre e do macaco):
“Tem um tigre que quer pegar o macaco. O macaco está pensando: ‘Será que esse tigre
quer me comer?’, sentindo medo. O tigre está nervoso, pensando em pegar o macaco. (O
que aconteceu antes?) O macaco estava pirraçando ele e o tigre ficou nervoso e foi pra
cima. (O que aconteceu depois?) O leão, rei, deixou o tigre um mês sem sair de casa.”
• A figura paterna atua como protetor e reparador
• A criança parece aceitar bem a figura
Dimensão: CONCEPÇÃO DO AMBIENTE
Concepção do ambiente é uma dimensão analisada no CAT que busca
compreender como a criança percebe o mundo ao seu redor, incluindo tanto o contexto
físico quanto as pessoas que o compõem (com exceção do protagonista). Trata-se de
identificar se o ambiente é vivido como seguro, acolhedor e responsivo, ou como
ameaçador, negligente e insuficiente para atender às necessidades emocionais do
personagem.
Exemplo prático
Análise de história contada por uma criança de 9 anos sobre a prancha 7 (tigre e
do macaco):
• O ambiente aparece como ameaçador ou punitivo (tigre), mas também fonte de
proteção e possibilidade de reparação (leão), assegurando que, ao final, os
problemas serão resolvidos.
Dimensão: NECESSIDADES E CONFLITOS
A dimensão necessidades e conflitos no CAT se refere à forma como a criança
expressa seus desejos, impulsos, frustrações e contradições internas, além de como lida
com eles na narrativa. Essa análise permite observar o que mobiliza emocionalmente a
criança e a capacidade que ela tem de simbolizar, elaborar e enfrentar tensões psíquicas.
Quando a criança não consegue expressar ou elaborar os conflitos, e eles
aparecem como:
• Histórias empobrecidas;
• Ausência de emoção ou ação;
• Dificuldade de ligar causa e consequência;
• Rupturas na narrativa;
• Soluções mágicas sem enfrentamento.
Características de exemplos de respostas positivas:
• Conflito aparece claramente;
• Emoções são reconhecidas;
• Há tentativa de resolução ou elaboração;
• A criança simboliza e não apenas descreve.
Dicas para reconhecer padrões na hora da prova
Pergunte-se:
• A criança sentiu algo na história?
• O personagem pensou, decidiu, tentou resolver?
• Existe causa e consequência lógica?
• Há fantasia com sentido emocional (não só descrição)?
• Há negativa de conflito ou simplificação excessiva?
Se SIM → provável positivo
Se NÃO → provável negativo
Exemplo prático
Análise de história contada por uma criança de 9 anos sobre a prancha 7 (tigre e
do macaco):
• O herói transgride (provoca o tigre), indicando necessidade de contestar, agredir,
transgredir;
• Observa-se que há conflitos relativos à necessidade de expressão de impulsos de
natureza agressiva que se opõem ao superego e às expectativas do ambiente e à
necessidade de expressão dos impulsos e de proteção e reparação.
Dimensão: ANSIEDADES
A dimensão ansiedades no CAT analisa que tipo de angústias aparecem na
narrativa da criança e como elas são vivenciadas — se são proporcionais, organizadas e
manejadas, ou se surgem de forma intensa, persecutória, desorganizada ou evitada.
Quando a ansiedade é considerada positiva
A ansiedade é marcada como positiva quando:
• Pode ser expressa simbolicamente;
• Aparece em nível adequado ao conflito;
• O protagonista mantém alguma organização emocional;
• Há capacidade de nomear sentimentos, reconhecer medo, perda, ciúmes etc.;
• A criança consegue enfrentar as tensões da história.
Quando a ansiedade é negativa
A ansiedade é marcada como negativa quando:
• É muito intensa ou sem proporção;
• Leva a colapso da narrativa (truncamento, confusão);
• Há evitação total do afeto;
• Surge perseguição, terror, catástrofe;
• O protagonista não consegue enfrentar ou nomear emoções;
• Há solução mágica para escapar da angústia;
Alguns tipos comuns de ansiedade no CAT
Tipo Indicação Sinal
medo de perda, culpa, preocupação
Depressiva tristeza, busca de reparação
com o outro
Paranoide sensação de ameaça externa perseguição, catástrofes
personagens sozinhos, medo de ficar
De separação medo de abandono
sem adulto
Oral / “ele queria tudo pra ele”, roubar
medo de fome, carência, disputa
voracidade comida
medo de fogo, chuva, bichos,
Fóbica medo de objetos/forças externas
monstros
Resumo Ansiedades:
Positiva Negativa
Reconhece medo e conflito Evita ou colapsa frente ao medo
Expressa emoções com sentido Caos, confusão, terror sem forma
Busca apoio/solução realista Soluções mágicas sem elaboração
Ansiedade na medida do conflito Angústia desproporcional ou inexistente
Como avaliar na prova ou prática
Pergunte:
• A criança nomeia e expressa sentimentos?
• O medo está proporcional?
• A narrativa suporta tensão ou foge?
• Há fantasia organizada ou caos?
Se a ansiedade aparece e é manejada → positiva
Se a ansiedade é negada, explode ou desmonta a narrativa → negativa
Exemplo prático
Análise de história contada por uma criança de 9 anos sobre a prancha 7 (tigre e
do macaco):
• Ansiedades relativas à expressão da agressividade (provocar o tigre), punição (ser
comido pelo tigre), medo de falta de apoio e de perda do objeto de amor (perda
de proteção);
• Sua intensidade, porém, é suportável para a criança, que mantém um discurso
organizado.
Dimensão: MECANISMOS DE DEFESA
Mecanismos de defesa no CAT dizem respeito a como a criança tenta lidar com
suas ansiedades e conflitos nas histórias que cria. São estratégias inconscientes que
visam proteger o psiquismo — e podem aparecer de forma mais madura/adaptativa ou
mais imatura/desorganizada.
Os mecanismos de defesa revelam:
• Como a criança gerencia conflitos internos e externos.
• Seu nível de maturidade emocional.
• A presença de ansiedades mais profundas.
• A qualidade da integração do ego.
Mecanismos de defesa adaptativos (ponto positivo)
São defesas mais maduras, que ajudam a controlar a ansiedade e permitem que
o conflito apareça na história.
Formação Reativa; Anulação ou Ambivalência; Isolamento; Repressão e Negação;
Falseamento; Simbolização; Projeção e Introjeção.
Mecanismos de defesa imaturos (ponto negativo)
São defesas que não conseguem controlar a ansiedade e indicam fragilidade
psíquica e pouca elaboração.
Medo e Ansiedade; Regressão; Controles frágeis ou ausentes
Resumo prático
Tipo Indício Exemplo
Adaptativo Controla ansiedade e Teimosia, oposição, pequenas
(positivo) permite simbolizar distorções, metáforas (chuva = perigo)
Imaturo Não controla ansiedade, Monstros, pânico, regressão, confusão,
(negativo) caos, medo excessivo soluções mágicas
Exemplo prático
Análise de história contada por uma criança de 9 anos sobre a prancha 7 (tigre e
do macaco):
• Formação reativa:
o Atitudes de oposição, rebeldia, teimosia: "O macaco estava pirraçando
ele."
• Isolamento:
o Detalhes específicos, nomes ou falas: "O macaco está pensando: 'Será
que esse tigre quer me comer?"
Dimensão: SUPEREGO
A dimensão superego no CAT diz respeito à forma como a criança expressa, nas
histórias, sua capacidade de diferenciar certo e errado, lidar com culpa, reparar atos e
aceitar consequências. Avalia tanto a presença quanto a qualidade dessa instância
psíquica.
Superego positivo
Indícios:
• Reconhecimento de certo e errado
• Punições justas e proporcionais
• Reparação (tentar consertar algo)
• Mediação cooperativa e diálogo
• Culpa saudável
Superego negativo
Pode aparecer como:
1) Superego frágil
• Ato errado sem consequência
• Regras não se aplicam ao protagonista
• Culpa ausente
2) Superego rígido
• Culpa excessiva
• Punições desproporcionais
• Sofrimento exagerado diante do erro
Em termos teóricos
• Superego saudável = internalização funcional das regras, capacidade de culpa
sem paralisar;
• Superego frágil = pouco senso moral, dificuldade de aceitar limites;
• Superego rígido = hiperexigência, culpa exagerada, punições severas.
Resumo Superego:
Tipo Sinais Exemplo
Adequado (+) Consequências justas, reparação, diálogo Pede desculpa e repara
Frágil (–) Sem consequências, sem culpa “Bateu e ficou tudo bem”
Rígido (–) Culpa exagerada, punições extremas “Erro → castigo severo”
Ausente (0) Nenhuma situação moral Histórias sem conflito moral
Exemplo prático
Análise de história contada por uma criança de 9 anos sobre a prancha 7 (tigre e
do macaco):
• Há consciência de "certo e errado", na medida em que os personagens que
apresentam comportamento agressivo ou inadequado são punidos.
• Pode-se suspeitar que se trate de um superego frágil, pois a punição é aplicada a
um personagem secundário (o tigre).
Dimensão: INTEGRAÇÃO DO EGO
A dimensão integração do ego no CAT avalia o grau de organização psíquica da
criança — ou seja, sua capacidade de integrar emoções, impulsos, relações e realidade
em uma narrativa coerente e com resolução possível. É uma leitura do quanto o ego
consegue funcionar de forma coesa, adaptada e capaz de elaborar conflitos.
🔍 Para avaliar essa dimensão olhamos principalmente:
• Qualidade da narrativa
• Coerência e organização
• Lógica interna da história
• Capacidade de chegar a um desfecho
• Conciliação entre desejo, realidade e regras (superego)
✅ Integração positiva (ego integrado)
Indicadores:
• Narrativa com começo, meio e fim
• Desfecho realista dentro da lógica da história
• Personagens expressam sentimentos e conflitos
• Solução construída (não mágica)
• Continuidade e ordem temporal
❌ Integração negativa (ego pouco integrado)
Indicadores:
• História confusa, fragmentada, sem lógica
• Solução mágica ou sem participação do herói
• Quebra de sequência narrativa
• Ausência de afeto ou excesso desorganizado
• Encerramento abrupto da história
O que significa clinicamente
• Ego integrado → capacidade de pensar, simbolizar e suportar realidade.
• Ego pouco integrado → dificuldade em organizar sentimentos e experiências,
uso de defesas primitivas, possível sofrimento psíquico maior.
Integração do ego é a capacidade da criança de organizar a narrativa e chegar
a uma solução coerente para o conflito, conciliando desejo, realidade e regras.
Resumo
Integração do ego Características Exemplo
Coerência, fluidez, desfecho realista, Conflito → estratégia →
Positiva
elaboração solução plausível
Caos, fragmentação, solução mágica,
Negativa Comida cai do céu; fim abrupto
ruptura do discurso
Exemplo prático
Análise de história contada por uma criança de 9 anos sobre a prancha 7 (tigre e
do macaco):
• Observa-se integração apenas parcial dos conteúdos próprios;
• Apresenta sensibilidade aos temas que costumam ser eliciados pelos estímulos,
associada a conteúdos pessoais, dado que a história apresenta um
desenvolvimento completo;
• As defesas não são excessivas, pois permitem a expressão dos conflitos, sendo
suficientes para manter o discurso organizado;
• A presença de punições indica interferência do superego, mas os desenlaces
positivos pela ação de outra figura, apontam dificuldade de conter os impulsos
e em lidar efetivamente com os conteúdos expressos, o que sugere uma
integração de ego razoável.