Ciência: & Saúde Coletiva
Ciência: & Saúde Coletiva
ARTIGO TEMÁTICO
Pharmaceutical Services in Brazil: an anthropological analysis
of the formulation of the National Pharmaceutical Service Policy
Resumo Este artigo analisa a evolução das políticas de medicamentos e da assistência farmacêutica no Brasil, com
ênfase na trajetória desta última, destacando as disputas políticas e as redes de influência que moldaram a governan-
ça do setor. Com base em uma etnografia de documentos, foram examinadas os percursos institucionais e os processos
decisórios envolvidos na formulação da Política Nacional de Assistência Farmacêutica, desde a promulgação da
Política Nacional de Medicamentos. O estudo evidencia que o modelo proposto para a assistência farmacêutica foi
construído sob forte influência do controle social, consolidando-se como eixo articulador de políticas intersetoriais. A
incorporação de princípios como a atenção farmacêutica, incialmente promovida pela Organização Pan-Americana
da Saúde, ressalta o papel estratégico dessa entidade na conformação da política. Essa abordagem inovadora ao cui-
dado farmacoterapêutico redefiniu o papel dos farmacêuticos, ampliando suas atribuições para além da distribuição
de medicamentos. O artigo propõe, assim, ferramentas conceituais e metodológicas capazes de aprofundar a análise
crítica das políticas públicas, contribuindo para a compreensão do processo de desenvolvimento da assistência far-
macêutica.
Palavras-chave Assistência Farmacêutica, Política Nacional de Assistência Farmacêutica, Política Pública, Política
Nacional de Medicamentos
Abstract This article analyzes the evolution of pharmaceutical policies and services in Brazil, emphasizing the deve-
lopment of the latter and the political disputes and influence networks shaping governance in the sector. Based on an
ethnography of documents, the study examines the institutional pathways and decision-making processes involved in
the formulation of the National Pharmaceutical Services Policy, tracing its development from the National Medicines
Policy. The findings reveal that the proposed model for pharmaceutical services was strongly influenced by social con-
trol mechanisms, establishing itself as a key coordinating axis of intersectoral policies. The incorporation of principles
such as pharmaceutical care, initially promoted by the Pan American Health Organization, shows the strategic role
played by this institution in shaping the policy. This new approach to pharmacotherapeutic care redefined the role
of pharmacists, expanding their responsibilities beyond the mere distribution of medicines. The article thus presents
innovative conceptual and methodological tools to theorize and analyze the functioning of public policies, offering
insights for a critical understanding of the development of pharmaceutical services.
Key words Pharmaceutical Services, National Pharmaceutical Services Policy, Public Policy, National Medicines
Policy
Resumen Este artículo analiza la evolución de las políticas de medicamentos y de la asistencia farmacéutica en
Brasil, con énfasis en la trayectoria de esta última, destacando las disputas políticas y las redes de influencia que
moldearon la gobernanza del sector. Con base en una etnografía de documentos, se examinaron los recorridos institu-
cionales y los procesos decisorios involucrados en la formulación de la Política Nacional de Asistencia Farmacéutica,
desde la promulgación de la Política Nacional de Medicamentos. El estudio evidencia que el modelo propuesto para la
asistencia farmacéutica fue construido bajo fuerte influencia del control social, consolidándose como eje articulador
1
Departamento do de políticas intersectoriales. La incorporación de principios como la atención farmacéutica, inicialmente promovida
Medicamento, por la Organización Panamericana de la Salud, resalta el papel estratégico de esta entidad en la conformación de la
Faculdade de Farmácia,
política. Este enfoque innovador del cuidado farmacoterapéutico redefinió el papel de los farmacéuticos, ampliando
Universidade Federal
da Bahia. R. Barão de
sus atribuciones más allá de la distribución de medicamentos. El artículo propone, así, herramientas conceptuales y
Jeremoabo 147, Ondina. metodológicas capaces de profundizar el análisis crítico de las políticas públicas, contribuyendo a la comprensión del
40170-115 Salvador proceso de desarrollo de la asistencia farmacéutica.
BA Brasil. Palabras clave Asistencia Farmacéutica, Política Nacional de Asistencia Farmacéutica, Política Pública, Política
thaisrpenaforte@[Link] Nacional de Medicamentos
Cien Saude Colet 2026; 31:e15032025
2
Penaforte TR
as políticas não apenas impõem condições, mas nizacional das instituições, buscou-se, por meio
também influenciam normas, práticas e con- deles, acessar pessoas, experiências e relações.
dutas individuais, de modo que estas passem a As atas das reuniões do CNS, bem como
contribuir para a operacionalização de determi- suas produções secundárias (resoluções, porta-
nado modelo ou ordem social18. Nas palavras de rias e registros das conferências), foram analisa-
Graham Burchell, trata-se da “conduct of con- das como o intuito de “encarnar” essa instância
duct”19 (p.267) deliberativa, seus atores e seus cursos de ação.
Portanto, uma investigação ancorada nesse Conforme argumenta Hull21, os documentos
enquadramento teórico-metodológico requer não são meros instrumentos administrativos,
situar a PNAF como um contexto empírico mas constituem e são constituídos por ideolo-
privilegiado, capaz de evidenciar os encontros, gias, saberes, práticas, subjetividades, objetos e
disputas e articulações que se pretende analisar. pelas próprias instituições. Ao transformá-los
em estruturas de significados, torna-se possível
alcançar a inteligibilidade das relações que os
Métodos atravessam.
Com o objetivo de elucidar as associações
Para Shore e Wright18, as políticas públicas são, e deliberações que compuseram a PNAF e seus
por natureza, fenômenos antropológicos. Elas elementos constitutivos, o corpus da pesquisa
não apenas codificam normas e valores sociais, buscou reconstruir o espírito de governança que
articulando princípios fundamentais de organi- orientou o CNS no período analisado. Os recor-
zação da sociedade, como também expressam tes empíricos, por sua vez, visaram reconstituir
modelos implícitos (e, por vezes, explícitos) de as trilhas de formulação dos conceitos, princí-
ordenamento social. pios e diretrizes que compõem a PNAF.
Com base nessa perspectiva, este artigo A constituição do corpus documental ba-
propõe-se a aprofundar a análise das condições seou-se na análise das atas de reuniões ordiná-
de emergência das políticas públicas enquanto rias e extraordinárias do CNS, realizadas entre
composições progressivas do mundo comum14. 1999 e 2004, intervalo compreendido entre a
Reconhece-se, assim, que a formulação de po- publicação da PNM e a formulação da PNAF.
líticas constitui uma atividade sociocultural Todo o material foi obtido em arquivos públi-
profundamente enraizada nos processos sociais cos, disponíveis nos sítios eletrônicos oficiais do
cotidianos, nas conexões de sentido atribuídas CNS. A identificação das reuniões analisadas e
por seus atores e nos elementos culturais que suas respectivas atas encontra-se representada
sustentam esses mundos17. no Quadro 1.
Dessa forma, este estudo tem como objetivo Também foram analisados documentos
compreender a evolução dos desenhos institu- complementares produzidos pelo CNS, como as
cionais e dos objetos de interesse entre a PNM6 Resoluções nº 280 e nº 311, os relatórios da 11ª
e a PNAF9. Considerando que, sob a ótica da e 12ª Conferência Nacional de Saúde, o relatório
antropologia da política, toda categoria política da 1ª Conferência Nacional de Medicamentos e
é, por definição, etnográfica18, a estratégia meto- Assistência Farmacêutica (1ª CNMAF) e a ata
dológica adotada buscou reconstituir os cami- da 3ª reunião da Comissão Intergestores Tripar-
nhos por meio dos quais a PNAF foi forjada. tite (CIT). Ademais, incluiu-se a entrevista com
Ao concentrar-se nos movimentos, esta in-
vestigação não pretende elaborar um balanço
sistemático dos conteúdos normativos, mas
sim acompanhar os acontecimentos, rastreando
seus ordenamentos, suas múltiplas configura- Quadro 1. Distribuição e identificação das atas de
ções e as intenções subjacentes. reuniões do CNS incluídas na investigação.
Nessa direção, os encontros etnográficos Ano Total de atas Identificação das reuniões
que fundamentaram o estudo foram conduzi- 1999 2 84ª, 92ª.
dos por meio da análise documental. A etnogra- 2000 5 98ª, 100ª, 101ª, 102ª, 103ª.
fia de documentos, enquanto tecnologia cientí- 2001 5 108ª, 109ª, 110ª, 113ª, 115ª.
fica, tem contribuído tanto para problematizar 2002 3 116ª, 117ª, 118ª.
concepções tradicionais acerca dos limites e 2003 5 127ª, 128ª, 130ª, 135ª, 137ª.
contornos da etnografia, quanto para ampliar 2004 1 142ª
suas bases empíricas20. Considerando que os Total 21
documentos são artefatos cruciais na vida orga- Fonte: Autora.
5
de vistas, provocando fortes reações em figuras Nesse sentido, a atenção farmacêutica pas-
históricas do movimento sanitário e do campo sou a ser defendida como a estratégia central
farmacêutico. para a reorientação do campo farmacêutico, o
Castilhos narra que, após analisar o relatório que demandava a sua inclusão nas agendas prio-
ponto a ponto, elaborou uma proposta substi- ritárias das políticas públicas do setor.
tutiva crítica, que apresentava uma abordagem Paralelamente a essas discussões, circulava
alternativa para o setor. Ao reapresentar o novo no Congresso Nacional uma Medida Provisória
texto na reunião seguinte, enfrentou nova resis- que propunha um novo modelo de distribuição
tência do relator. Mesmo assim, a proposta de de medicamentos. Na 115ª reunião do CNS31, a
Castilhos foi aprovada por ampla maioria (19 conselheira Clair Castilhos alertou para a exis-
votos a 4), consolidando sua liderança no tema tência de duas mesas de discussão simultâneas
e impulsionando a realização da 1ª CNMAF. Em na Câmara dos Deputados, ambas tratando da
suas palavras: prestação da AF, porém com propostas de pro-
Comecei a reivindicar que deveríamos nos jetos distintos.
contrapor a essa barbaridade [que é a política] de Durante uma mesa-redonda sobre a Políti-
medicamentos no Brasil, que tínhamos que fazer ca Nacional de Medicamentos e de Assistência
uma conferência nacional de medicamentos e de Farmacêutica, na 116ª reunião do CNS32, as
assistência farmacêutica. Fizemos, então, uma dúvidas anteriormente levantadas por Castilho
Conferência – que eu coordenei –, a Primeira foram confirmadas. No debate sobre a regu-
Conferência Nacional de Medicamentos e Assis- larização da AF, a Secretaria de Investimentos
tência Farmacêutica de 200322 (p.13). em Saúde apresentou diretrizes para o setor
Diversos outros elementos também contri- pautadas na atenção farmacêutica, enquanto a
buíram para a consolidação da 1ª CNMAF e Associação Brasileira da Indústria Farmacêuti-
para a formulação da futura PNAF. Em abril de ca (ABIFARMA) propôs um programa de re-
2001, na CIT28, os avanços na questão do acesso embolso para compra de medicamentos pelos
aos medicamentos eram impulsionados (e ce- usuários do SUS.
lebrados) pelo processo de descentralização e Ainda durante o evento, Gonçalo Vecina
pela regularidade do financiamento. Entretanto, Neto, diretor da ANVISA, manifestou preocu-
persistiam preocupações quanto à gestão dos pação com a desorganização da dispensação de
recursos públicos. Nesse contexto, destacou-se medicamentos no país, marcada pela ausência
a necessidade de implantação de um sistema de regulamentação e fiscalização. Segundo ele:
de informação que possibilitasse o acompanha- “a causa disso era a falta de uma Política de As-
mento tanto a política de medicamentos quanto sistência Farmacêutica [...]” 32 (p.14).
da gestão local da AF. Esse cenário evidenciava a sobreposição de
A 11ª Conferência Nacional de Saúde29 tam- arenas decisórias e a disputa por hegemonia
bém produziu recomendações relevantes para na definição dos rumos da AF. Ainda assim, a
a qualificação da AF. Dentre elas, destaca-se a organização da 1ª CNMAF avançava. Na mes-
proposta de: “Revisar a Política de Assistência ma 116ª reunião do CNS32, o então secretário
Farmacêutica, ampliando a discussão e a imple- de Políticas de Saúde, Claudio Duarte, reiterou
mentação da assistência farmacêutica com in- o empenho do MS em garantir a realização da
corporação das ações inerentes ao conjunto das conferência ainda no ano de 2002. Na ocasião,
ações desenvolvidas pelo SUS, e consequente foram indicados os nomes de Jorge Bermudez
inclusão do profissional farmacêutico”29 (p.142). para a coordenação geral e de Clair Castilhos
Com o objetivo de viabilizar a realização da para a coordenação do Comitê Executivo.
1ª CNMAF, o CNS estabeleceu articulação es- Por fim, foram discutidos os desdobra-
tratégica com a Assessoria de Assistência Far- mentos da Resolução nº 31133, que previa: i) a
macêutica da OPAS. Assim, o termo de referên- constituição de grupos de trabalho para a arti-
cia “Atenção Farmacêutica no Brasil: trilhando culação de estratégias nos eixos programáticos
caminhos”30, elaborado durante oficina realiza- “pesquisa e desenvolvimento tecnológico do se-
da em setembro de 2001, em Fortaleza (CE), foi tor farmacêutico” e “reorientação da assistência
incorporado como documento orientador da farmacêutica”; e ii) a promoção da realização 1ª
conferência. Esse texto propunha a construção CNMAF.
de um “pré-consenso para a promoção da Aten- Nas reuniões subsequentes (117ª34 e 118ª35),
ção Farmacêutica”30 (p.7), com o intuito de har- a pauta do CNS concentrou-se na organização
monizar conceitos relacionados às práticas e ao da conferência. O evento foi adiado para 2003,
exercício profissional do farmacêutico. a pedido do Conselho Nacional de Secretários
7
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conselho-nacional-de-saude/pt-br/reunioes-do- Editores-chefes: Maria Cecília de Souza Minayo, Romeu
-conselho/atas/2001/ata-da-115a-reuniao-ordina- Gomes, Antônio Augusto Moura da Silva, Vania de Matos
ria-do-cns/view. Fonseca
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