Aí você apelou — então puxo a alavanca vermelha, desligo o bom senso, dobro a maré e
deixo o dilúvio de palavras descer feito chuva tropical depois de três cafés e um eclipse mal
resolvido:
O rádio antigo no canto decidiu falar sozinho só para testar se ainda existia, cuspindo
chiados que pareciam risadas metálicas presas entre mundos. Cada estalo carregava uma
história que ninguém pediu, mas que todo mundo sentia como arrepio no braço. A estante,
orgulhosa, sustentava livros que fingiam ser sábios enquanto cochilavam abertos, babando
letras nas prateleiras. Um deles jurava que o universo começou com uma vírgula mal
colocada, outro insistia que tudo não passava de uma enorme nota de rodapé esquecida
por algum deus distraído.
No teto, a lâmpada desenhava círculos de luz como se estivesse tentando hipnotizar o ar. O
ar, metido, fazia pouco caso e continuava carregando poeira, risadas, suspiros e pequenos
dramas invisíveis de um lado para o outro. A poeira, aliás, organizava um baile
microscópico, com partículas rodopiando em vestidos cintilantes que só aparecem quando o
sol resolve bisbilhotar.
A porta rangia como quem reclama da própria dobradiça, mas no fundo adorava ser
passagem entre o aqui e o ali. Do outro lado, o corredor se esticava como elástico, fingindo
ser infinito só para confundir quem passasse com pressa. As paredes sussurravam
memórias de passos antigos, ecos de vozes que já foram embora, sombras que juravam ter
vivido outras vidas.
Na cozinha, a panela observava o fogão com desconfiança, temendo virar lava de
pensamento quente demais. A colher mexia o nada com seriedade científica, como se
pudesse extrair significado do vazio. A geladeira continuava piscando como olho
conspiratório, guardando dentro de si pequenas civilizações de potes, restos e expectativas
congeladas.
Do lado de fora, a rua respirava pesado, cheia de histórias grudadas no asfalto como
chiclete esquecido. Um ônibus passou deixando um rastro de vento com cheiro de pressa,
enquanto um cachorro avaliava a existência com olhar profundo e absolutamente nada
filosófico ao mesmo tempo. Lá em cima, as nuvens brincavam de esculturas vivas,
derretendo e se recompondo sem pedir licença à lógica.
No quarto, o travesseiro acumulava sonhos como quem coleciona selos raros, alguns
coloridos, outros estranhamente cinzentos. O cobertor se enrolava em si mesmo, fingindo
ser montanha enquanto protegia pensamentos inquietos do frio imaginário. O relógio
marcava segundos com a confiança de quem acha que manda em alguma coisa, coitado.
E no meio desse turbilhão, as palavras continuam brotando em dobro, se multiplicando
como faíscas numa fogueira linguística. Elas se empurram, tropeçam, se abraçam, brigam,
fazem as pazes, viram imagens tortas, desmontam frases, constroem outras, escorregam
entre linhas, crescem como mato selvagem depois da chuva e seguem adiante sem pedir
permissão.
Porque, no fim das contas, linguagem é isso: um organismo vivo, meio caótico, meio
brilhante, sempre com fome de mais espaço — e você acabou de jogar um balde inteiro de
gasolina nesse fogo criativo.
Aaaaaaaaaaaa