Universidade Federal de Santa Catarina Centro de Ciências Jurídicas Departamento de Direito Curso de Direito
Universidade Federal de Santa Catarina Centro de Ciências Jurídicas Departamento de Direito Curso de Direito
Florianópolis
2021
Thais Carolina da Cunha
Florianópolis
2021
Thais Carolina da Cunha
Este Trabalho Conclusão de Curso foi julgado adequado para obtenção do Título de
“Bacharela em Direito” e aprovado em sua forma final pelo Curso de Direito.
________________________
Prof. Dr. Luiz Henrique Urquhart Cademartori
Coordenador do Curso
Banca Examinadora:
________________________
Prof. Dr. José Sérgio da Silva Cristóvam
Orientador(a)
Universidade Federal de Santa Catarina
________________________
Msc, Poliana Ribeiro
Avaliador(a)
Universidade Federal de Santa Catarina
________________________
Ariê Ferneda
Avaliador(a)
Universidade Federal de Santa Catarina
AGRADECIMENTOS
Aos meus pais, Pedro e Lurdes, por todo o amor, dedicação e ensinamentos
indispensáveis em minha formação.
Ao meu amor, Israel, por todos os momentos de alegria compartilhados e por todo o
seu carinho, paciência e companheirismo.
Ao meu irmão, Pedro Henrique, por todas as risadas e por me mostrar a leveza da vida.
Aos meus colegas da turma 16.2, por partilharem as alegrias da graduação e por
tornarem este período tão especial.
Aos meus colegas de trabalho, por me compreenderem nesta dupla jornada.
Ao meu orientador, Professor Dr. José Sérgio da Silva Cristóvam, por me auxiliar e
me mostrar o caminho necessário à concretização deste trabalho.
À Universidade Federal de Santa Catarina, por ser uma instituição pública capaz de
transformar vidas.
RESUMO
Confronting the Covid-19 Pandemic demanded fast and efficient actions from
governments in order to increase the capacity of the public health system and halt the virus
outbreak. This effort required greater agility in public procurement, especially in terms of
bidding exemptions. In this sense, the Brazilian National Congress passed some specific laws
on direct public purchases, creating an exceptional normative system to help public
administrators to help fighting the coronavirus outbreak. In this regard, this paper aims to
investigate if the legislations on public purchases created during the pandemic will have any
normative impact beyond this specific period and, if so, which ones are the most notorious. The
basic hypothesis is that this new system generated some perennial reflexes, which contributed
to the evolution of the institute of direct public procurement in Brazil. This paper was developed
under deductive method with the use of bibliographical analysis procedure. It was concluded
that, in fact, the exceptional normative system had some impacts on the evolution of direct
public procurement, mainly because the new Public Purchase Law incorporated some of its
provisions.
1 INTRODUÇÃO ................................................................................................... 15
2 AS NORMAS SOBRE CONTRATAÇÕES PÚBLICAS DIRETAS NO
DIREITO BRASILEIRO: A EVOLUÇÃO HISTÓRICA E O PANORAMA ATUAL. . 18
2.1 A evolução histórica das normas sobre contratações públicas diretas no Brasil ... 18
5. CONCLUSÃO ...................................................................................................... 94
REFERÊNCIAS ................................................................................................... 97
15
1 INTRODUÇÃO
No final de 2019, o mundo voltou suas atenções para as notícias que chegavam da
província chinesa de Wuhan, dando conta de um novo vírus, completamente desconhecido, mas
altamente transmissível, que teria capacidade de se tornar uma pandemia. À medida que o vírus
se espalhava pelo mundo, no início de 2020, atitudes cada vez mais drásticas foram tomadas
por governos de todo o globo para evitar a contaminação interna, como a suspensão de voos e
o fechamento de fronteiras. Mesmo assim, em março de 2020, quando vírus já estava presente
em ao menos 114 países, com cerca de 5 mil pessoas mortas pela doença, a Organização
Mundial da Saúde (OMS) declarou a transmissão da Covid-19 como uma pandemia.1 Estava-
se diante do maior desafio enfrentado pela humanidade, em termos de emergência de saúde
pública, em ao menos um século.
Nesse contexto, tanto no Brasil como no restante do mundo, coube ao setor público,
primordialmente, a adoção de estratégias ostensivas para frear a transmissão do vírus, tais
como: o estabelecimento de normas rígidas de distanciamento social, reduzindo a circulação de
pessoas; o aumento da oferta de leitos de enfermaria e de tratamento intensivo, equipados com
respiradores e outros insumos específicos; e a ampliação de hospitais já existentes e construção
de hospitais de campanha. Tudo isso, por óbvio, exigia um aumento significativo dos gastos
dos governos – de todos os entes federativos – instrumentalizados principalmente pelas compras
públicas.
Coube aos administradores públicos, portanto, o dever de agir de maneira rápida e
eficiente, mas sem olvidar as regras e os princípios até então postos sobre as contratações
públicas, principalmente os dispositivos da lei n. 8.666/93 – Lei Geral de Licitação. Entretanto,
ao verificar que normas em vigor seriam insuficientes para fazer frente à situação cada vez mais
calamitosa causada pela pandemia, o Governo Federal, por meio das medidas provisórias, bem
como o Congresso Nacional, por meio de leis, aprovaram uma série de normas no intuito de
conferir maior celeridade às contratações públicas diretas, com a flexibilização de requisitos e
a facilitação dos procedimentos.
1
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. WHO Director-General's opening remarks at the media
briefing on COVID-19 - 11 March 2020. Disponível em: [Link]
general/speeches/detail/who-director-general-s-opening-remarks-at-the-media-briefing-on-covid-19---11-march-
2020. Acesso em: 02 de setem. 2021
16
2
OLIVEIRA, Olga Maria Boschi Aguiar de. Monografia jurídica: orientações metodológicas para o trabalho de
conclusão de curso. 3. ed. Porto Alegre: Síntese, 2003.
18
A compreensão dos diversos aspectos que orbitam o tema das contratações públicas
diretas exige, preliminarmente, a delimitação do próprio instituto da licitação em sua
perspectiva histórica e conceitual. Isso porque não é possível conhecer as exceções sem antes
assimilar a regra geral.
Dentro dessa perspectiva, o presente capítulo pretende analisar, sob uma
perspectiva histórica, a evolução das normas concernentes às compras públicas, mormente os
aspectos que façam referência às contratações diretas no ordenamento jurídico brasileiro. De
igual modo, ao final, almeja-se traçar um breve panorama do atual quadro normativo em vigor
sobre o tema, cotejando o entendimento doutrinário e jurisprudencial sobre o assunto.
A discussão sobre qual dever ser o tamanho do Estado — e, por conseguinte, dos
gastos públicos — perpassa todo o campo das ciências sociais e políticas, e remonta ao próprio
surgimento dos Estados modernos. Sem qualquer pretensão em adentrar no mérito de tão vasto
debate, um fato não pode passar desapercebido: por menor que seja a estrutura estatal de
determinado país, ainda assim, subsistirá a necessidade de realização de compras públicas para
a aquisição de materiais e serviços, isto é, à consecução da defesa do próprio interesse público.
A diferença, contudo, reside nos meios e nos modos pelas quais as compras públicas foram
instrumentalizadas ao longo dos anos — o que será brevemente ilustrado a seguir.
O termo licitação remonta à Antiguidade, sendo derivado do latim licitatione, que
faz alusão à lança utilizada como símbolo indicativo do local onde se realizaria o leilão público
na Roma Antiga.3 Conforme elucida Messias, desde aquela época, a licitação já servia para
caracterizar a compra e venda realizada por meio de concorrência entre os interessados em
realizar obras públicas ou arrematar os despojos de guerra.4
Já na Idade Média ficou conhecido o chamado mecanismo de “vela e pregão”,
3
MESSIAS, Liege Sabrina. A chamada pública como alternativa à licitação: seu uso na aquisição de produtos da
agricultura familiar para a alimentação escolar. 2018. 87 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Direito,
Universidade Estadual Paulista, França, 2018.
4
Ibid.
19
método utilizado por governos locais para a aquisição de bens ou construção de obras públicas,
caracterizado pela reunião dos interessados em determinado lugar onde uma vela seria fixada
para determinar o tempo concedido aos participantes à apresentação dos lances. Nesse
mecanismo, aquele que desse o menor lance no momento em que a vela se apagasse seria
proclamado o vencedor.5 Guardadas as devidas proporções e sem incorrer em anacronismos, a
essência do mecanismo de vela e pregão ainda reverbera nos dias atuais em mecanismos como
o pregão eletrônico, onde, finalizado o tempo estabelecido pelo sistema, sagrasse vencedor
aquele que ofertar o menor lance.
Prosseguindo nessa cronologia, chega-se às Ordenações Filipinas, norma em vigor
no período do Brasil Colônia (1530-1822), que também fazia alusão a métodos semelhantes aos
atuais institutos das contratações públicas.6 Segundo ressalta Messias, dentre tais mecanismos
encontram-se a dispensa de licitação para compras de menor valor, a necessidade de
publicações de editais e o registro em ata dos certames.7 Percebe-se, a partir disso, a existência
de notórias raízes do Direito Administrativo Brasileiro na tradição jurídica portuguesa, até
mesmo pela formação dos juristas brasileiros, que até meados do século XIX estudavam
majoritariamente na Universidade de Coimbra.8
Já no período do Brasil Império (1822-1889), a atuação estatal era ainda limitada a
poucos serviços públicos e à garantia da segurança interna e externa do país, seguindo a lógica
liberal preponderante à época. Foi justamente neste período, todavia, que surgiu a primeira —
ainda que incipiente — norma sistematizada dedicada a disciplinar a forma de organização das
compras públicas, o Decreto nº 2.926/18629. O diploma normativo em questão pretendia em
seus 39 artigos regulamentar as chamadas arrematações públicas vinculadas ao então Ministério
5
GONÇALVES, Luiz Manoel de Souza. A licitação: das Ordenações Filipinas à Lei do Regime Diferenciado.
2013. 73 f. Monografia (Especialização) - Curso de Direito, Universidade Candido Mendes, Rio de Janeiro, 2013.
6
Este é o trecho das Ordenações Filipinas referente ao tema: “E não se fara obra alguma, sem primeiro andar em
pregão, para se dar de empreitada a quem houver de fazer melhor e por menos preço; porém as que não passarem
de mil réis, se poderão mandar fazer por jornais, e uma e outras se lançarão em livro, em que se declare a forma
de cada uma, lugar em que se há de fazer, preço e condições do contrato. E assim como forem pagando aos
empreiteiros, farão ao pé do contrato conhecimento do dinheiro, que vão recebendo, e assinarão os mesmos
empreiteiros e o Escrivão de Câmara; e as despesas que os Provedores não levarem em conta, pagá-las-ão os
Vereadores, que as mandarem fazer.” MOTTA, Carlos Pinto Coelho. Eficácia nas Licitações e Contratos: estudos
e comentários sobre as leis 8.666/93 e 8.987/95, com redação dada pela lei 9.9648 de 27/05/98. Belo Horizonte:
Del Rey, 1999. apud GONÇALVES, op. Cit.
7
MESSIAS, op. Cit.
8
CARVALHO, José Murilo de. A construção da ordem e Teatro das sombras. 15. ed. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2003. 460 p. p. 65.
9
ALVES, Ana Paula Gross. A Evolução Histórica das Licitações e o Atual Processo de Compras Públicas
em Situação de Emergência no Brasil. Regen - Revista de Gestão, Economia e Negócios, Brasília, v. 1, n. 2, p.
40-60, jul. 2020. Semestral.
20
da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. A norma tratou sobre prazos para a apresentação
de propostas, a necessidade de fornecimento de amostras e de garantias à contratação, forma de
contratação de mão de obra, além de prever, pela primeira vez, uma expressão amplamente
utilizada até os dias atuais, qual seja, “condições reputadas mais vantajosas” aos interesses da
Administração. Nota-se, ainda, uma versão embrionária do que, futuramente, seria classificada
como cláusula exorbitante (art. 18), que garante à Administração Pública poderes contratuais
desproporcionais com relação aos particulares, a pretexto da primazia do interesse público. 10
É somente em 1922 que se inicia o que Rosilho denomina de primeira fase das
licitações públicas no Brasil, com a edição do Código de Contabilidade da União (Decreto n.
4.536 de 1922) e do Regulamento Geral de Contabilidade Pública (Decreto 15.783 de 1922).
Para o autor, o processo de transformação das licitações públicas no Brasil pode ser dividido
em quatro períodos, caracterizados conforme as continuidades e rupturas implementadas na
conjuntura da política federal de contratação pública. O primeiro período vai de 1922 até 1967,
e é caracterizado, segundo o autor, por uma maior flexibilidade e discricionariedade dada ao
administrador público no processo de contratação na esfera federal e, ainda mais, nas locais.11
O Regulamento Geral de Contabilidade Pública era aplicável ao âmbito da União,
apesar de ser modelo às demais esferas da federação. Entretanto, nesse primeiro momento
inexistia menção ao termo “licitação” propriamente; fazia alusão, na realidade, às
“concorrências”, que deveriam ser empregadas para aquisições de materiais ou execução de
serviços ou obras públicas com valores superiores aos mínimos fixados na própria legislação.12
O supracitado decreto também subdividia as concorrências em duas espécies: as
concorrências públicas e as administrativas. As concorrências públicas exigiam maiores
formalidades e publicidade, de modo que eram adstritas às contratações mais vultosas e de
maior porte. As concorrências administrativas, por sua vez, destinavam-se às contratações com
valores considerados módicos à época, e eram principalmente utilizadas para “fornecimentos
ordinários” ou “miudezas”. Por causa disso, exigia-se, nesta última modalidade, menor rigor no
que tange às formalidades e os prazos, de igual modo, eram mais exíguos.13 É latente a tentativa
do legislador, desde essa primeira fase das licitações, em racionar e sistematizar as compras
governamentais a partir da relação proporcional entre preço e procedimentos burocráticos - que
10
BRASIL. Decreto nº 2.926, de 14 de maio de 1862. Approva o Regulamento para as arrematações dos serviços
a cargo do Ministerio da Agricultura, Commercio e Obras Publicas. Coleção de Leis do Império do Brasil. . Rio
de Janeiro, RJ.
11
ROSILHO, André. Licitação no Brasil. São Paulo: Malheiros, 2013. 254 p.
12
Ibid.
13
Ibid.
21
nem sempre, ressalta-se, representa maior controle efetivo dos gastos ou prevenção à corrupção.
No que concerne às hipóteses de dispensa e inexigibilidade de licitação, a norma
apresentava um rol que possibilitava interpretação extensiva, em razão do uso de termos vagos
e imprecisos, como “circunstâncias imprevistas” ou de “interesse nacional”, além de permitir o
arrendamento ou compra de prédios ou terrenos destinados aos serviços públicos sem qualquer
procedimento de concorrência.14
Quando medidas pela régua da Lei Geral de Licitações - LGL (Lei 8.666/93), as
hipóteses descritas no decreto n. 15.783 confundem os conceitos de dispensa e inexigibilidade
de licitação — tema que será melhor abordado adiante neste trabalho —, a exemplo da alínea
“b” do art. 246, que autoriza a dispensa da concorrência para os casos de serviços realizados
por profissionais de notória especialização. Chama atenção, outrossim, a enorme margem de
discricionariedade concedida ao Presidente da República para definir as circunstâncias tidas
como imprevistas ou de interesse nacional em detrimento do atual cenário que privilegia
também o congresso nacional na caracterização das circunstancias excepcionais.15
Outro aspecto marcante neste primeiro momento diz respeito à atuação dos
Tribunais de Contas no controle dos procedimentos de compras públicas. Até 1967, os
Tribunais de Contas realizavam o controle prévio das contratações, ou seja, na maioria dos
casos, a sua aprovação era condição sine qua non para a realização de obras e contratações de
serviços.16 É notório que tal dinâmica concedia significativo poder a esses órgãos, ainda mais
quando considerado que o período de 1922 a 1967 compreende a Era Vargas, com o início da
industrialização e do nacional-desenvolvimentismo; o Plano de Metas de Juscelino Kubitschek,
marcado por exorbitante aumento dos gastos públicos; e o início da Ditadura Militar, que seguiu
a mesma tendência de expansão do Estado.17 Somente após 1967 os Tribunais de Contas passam
a exercer o controle posterior desses procedimentos, garantindo maior agilidade aos processos
e diminuindo o poder dessas instituições.
14
“Art. 246. Será dispensável a concorrência: a) para os fornecimentos, transportes e trabalhos públicos que, por
circunstâncias imprevistas ou de interesse nacional, a juízo do Presidente da República, não permitem a
publicidade ou as demoras exigidas pelos prazos de concorrências; b) para o fornecimento do material ou de
gêneros, ou de realização de trabalhos que só puderem ser efetuados pelo produtos ou profissionais especialistas,
ou adquiridos no lugar da produção; c) para aquisição de animais para os serviços militares; d) para arrendamento
ou compra de prédios ou terrenos destinados aos serviços públicos; e) quando não acudiram proponentes à primeira
concorrência. Neste caso, se houverem sido estipulados preços máximos ou outras razões de preferência, não
poderá ser no contrato aquele exercido ou estas modificadas, salvo nova concorrência.” BRASIL. Regulamento
Geral de Contabilidade Pública, aprovado pelo decreto n. 15.783, de 8 de novembro de 1922.
15
ROSILHO, op. Cit.
16
Ibid.
17
FAUSTO, Boris. História do Brasil. 14. ed. São Paulo: Edusp, 2019. 688 p.
22
O segundo período analisado por Rosilho inicia-se justamente 1967, com o Decreto
n. 200/67 e tem fim em 1986, sendo caracterizado pela tentativa de unificação dos
procedimentos de contratações públicas ao nível nacional para criar um arcabouço normativo
mínimo comum entre todos os entes da federação sobre o assunto.18
O Decreto n. 200/67, ainda em vigor atualmente, estabeleceu a Reforma
Administrativa levada a cabo pelos militares no âmbito do chamado Plano de Ação Econômica
do Governo (PAEG), que buscou sanear o Estado brasileiro em diferentes aspectos a possibilitar
um rápido crescimento econômico.19
Essa norma segue a mesma linha do Regulamento Geral de Contabilidade Pública
ao estabelecer o dever geral de licitar como regra para, em seguida, delinear as exceções.
Contudo, diferentemente do Regulamento de 1922, o Decreto n. 200/67 utiliza expressamente
o termo licitação ao invés de concorrência e, no intuito de dar coerência sistêmica às atividades
da Administração Pública em geral, tornou seus efeitos aplicáveis a todos os entes da federação,
ficando somente de fora do escopo da norma as sociedades de economia mista e as empresas
públicas.
Ressalta-se, ainda, a inversão entre gênero e espécie com relação às compras
públicas que o supracitado decreto causou: a concorrência, que antes era gênero, tornou-se
espécie — ou melhor, modalidade — de licitação. Além da concorrência, a referida norma
também especificou outras duas modalidades de licitação, que estão até hoje presentes no
ordenamento jurídico brasileiro: a tomada de preços e o convite. À época, a escolha das
modalidades estava adstrita exclusivamente a critérios objetivos de preço estabelecidos no
próprio diploma normativo. No entanto, o julgamento das propostas poderia ser baseado tanto
no melhor preço quanto na melhor técnica, a partir de uma análise casuística da Administração,
sem fugir das estipulações do edital.20
Neste ponto, como o Decreto n. 200/67 foi o primeiro a utilizar o termo licitação,
cabe tecer algumas considerações sobre a própria conceituação deste instituto a fim de
instrumentalizar o leitor para as próximas etapas do trabalho.
Para Di Pietro, o termo licitação se consubstancia em um procedimento
administrativo por meio do qual a Administração Pública seleciona a proposta que lhe é mais
18
ROSILHO, op. Cit.
19
ABREU, Marcelo de Paiva. A Ordem do Progresso: dois séculos de política econômica no brasil. 2. ed. São
Paulo: Atlas, 2014.
20
BRASIL. Decreto-lei nº. 200, de 25 de fevereiro de 1967. Dispõe sobre a organização da Administração Federal,
estabelece diretrizes para a Reforma Administrativa e dá outras providências. Diário Oficial da República
Federativa do Brasil, Brasília, DF.
23
conveniente dentre as ofertadas pelos interessados que estejam habilitados de acordo com as
condições pré-fixadas no instrumento convocatório.21
Meirelles, analisando as contratações públicas em geral, afirmam que a licitação é
um “antecedente necessário do contrato administrativo”, um precedente lógico da contratação.
Tal procedimento, contudo, não implica na obrigação da Administração em contratar com
aquele que apresentou a melhor proposta, criando mera expectativa de direito.22 Para o autor, a
licitação está primordialmente voltada ao alcance da contratação mais vantajosa à
Administração e, ao mesmo tempo, à concessão da igualdade de oportunidade a todos os
concorrentes.23
No mesmo sentido, Mello conceitua a licitação como um processo administrativo
obrigatório às entidades governamentais com vistas a satisfazer o interesse público por meio do
estabelecimento de relações jurídico-patrimoniais com o interessado que oferecer a proposta
mais vantajosa. Para o autor, além das finalidades já elencadas, tal processo serve também à
promoção do desenvolvimento nacional sustentável, finalidade que só seria reconhecida no ano
de 2010, com a aprovação da lei n. 12.349/10.
Já Carvalho Filho, em um viés instrumental, observa na licitação a natureza jurídica
de “procedimento administrativo com fim seletivo”, uma vez que este instituto constitui
antecedente a uma decisão administrativa, isto é, a própria perfectibilização do contrato
administrativo.24 O autor vai além e afirma que se trata de procedimento vinculado, de modo
que uma vez estabelecidas as regras licitatórias, por edital, não poderá a Administração Pública
deixar de segui-las.25
Na tentativa de deduzir um conceito operacional à licitação pública, Niebuhr afirma
que tal instituto é “um procedimento administrativo condicional à celebração de contrato
administrativo mediante o qual a Administração Pública expõe a sua intenção de efetuá-lo,
esperando que, com isso, terceiros se interessem e lhe ofereçam propostas.” Trata-se, segundo
o autor, de verdadeiro limitador ao administrador público, que tem a função primordial de
garantir o interesse público e a isonomia entre os interessados.26
21
DI PIETRO. Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo. 31. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2018. p. 755.
22
MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro. 42. ed. São Paulo: Malheiros Editores, 2015. p.
307
23
Ibid.
24
CARVALHO FILHO, José dos Santos. Manual de Direito Administrativo. 31. ed. São Paulo: Atlas, 2017. p.
182.
25
Ibid.
26
NIEBUHR, Joel de Menezes. Dispensa e inexigibilidade de licitação pública. 3. ed. Belo Horizonte: Fórum,
2011. p. 33
24
27
O texto do referido artigo teve a seguinte redação: Art. 126. As compras, obras e serviços efetuar-se-ão com
estrita observância do princípio da licitação. § 1° A licitação só será dispensada nos casos previstos nesta lei. §
2º É dispensável a licitação: a) nos casos de guerra, grave perturbação da ordem ou calamidade pública; b) quando
sua realização comprometer a segurança nacional a juízo do Presidente da República; c) quando não acudirem
interessados à licitação anterior, mantidas neste caso, as condições preestabelecidas; d) na aquisição de materiais,
equipamentos ou gêneros que só podem ser fornecidos por produtor, emprêsa ou representante comercial
exclusivos bem como na contratação de serviços com profissionais ou firmas de notória especialização; e) na
aquisição de obras de arte e objetos históricos; f) quando a operação envolver concessionário de serviço público
ou, exclusivamente, pessoas de direito público interno ou entidades sujeitas ao seu contrôle majoritário; g) na
aquisição ou arrendamento de imóveis destinados ao Serviço Público; h) nos casos de emergência, caracterizada
a urgência de atendimento de situação que possa ocasionar prejuízos ou comprometer a segurança de pessoas,
obras, bens ou equipamentos; i) nas compras ou execução de obras e serviços de pequeno vulto, entendidos como
tal os que envolverem importância inferior a cinco vêzes, no caso de compras, e serviços, e a cinqüenta vêzes, no
caso de obras, o valor do maior salário-mínimo mensal. § 3° A utilização da faculdade contida na alínea h do
parágrafo anterior deverá ser imediatamente objeto de justificação perante a autoridade superior, que julgará do
acêrto da medida e, se fôr o caso, promoverá a responsabilidade do funcionário.
25
responsabilização do funcionário quando a justificação não fosse aceita pelo superior. Não é
preciso maiores digressões para inferir que a ameaça de punição caso a justificativa fosse
negada é um claro desincentivo à utilização desse mecanismo, ou ao menos a seu uso
indiscriminado, o que corrobora a visão de Rosilho quanto à maior rigidez desse período no que
toca às compras públicas.
O Decreto n. 200/67 também inovou ao criar critérios de habilitação para os
concorrentes em certame licitatório, com a exigência de apresentação de documentos
comprobatórios de idoneidade financeira, capacidade técnica e personalidade jurídica.
Ademais, a Administração passou a ter a prerrogativa de exigir dos licitantes garantias, que
poderiam ser ofertadas em diferentes modalidades. Por ter criado esses e outros mecanismos
ainda utilizados atualmente, o Decreto n. 200/67 é visto, por conseguinte, como um antecessor
da Lei n. 8.666/93.28
Na perspectiva de Rosilho, a terceira fase das compras públicas no Brasil inicia-se
com a edição do Decreto-lei n. 2.300/86, norma aprovada ainda sob a égide da Constituição de
1967, mas já no período da redemocratização. Para o autor, o Decreto-lei n. 2.300/86 inaugura
um período de maximização das regulamentações sobre compras públicas, com o aumento da
carga procedimental, que perpassa até mesmo a promulgação da Constituição de 1988 e a
aprovação da lei n. 8.666/93.29
Conforme explica Fernandes, a legislação anterior — Decreto-lei n. 200/67 —
havia deixado diversas lacunas que ensejaram o aumento das discussões nos tribunais sobre o
tema das compras públicas. A partir desse cenário, a então Consultoria-Geral da União,
auxiliada pelo jurista Hely Lopes Meirelles, propôs o Decreto-lei n. 2.300/86, tendo como base
a jurisprudência já firmada até então sobre o tema, bem como a legislação do estado de São
Paulo, tida como modelo à época.30
A norma era aplicável integralmente à Administração Pública Federal — direta e
indireta — e, quando tratava de “normas gerais”, era também aplicável a estados e municípios.
A grande problemática gerada nesse sentido foi a distinção entre o que seria considerado norma
geral ou específica, tema até hoje latente na jurisprudência e doutrina. Há que se pontuar,
entretanto, que a submissão das fundações e das estatais ao referido regramento se daria
28
ALVES, op. Cit.
29
ROSILHO. op. Cit.
30
FERNANDES, Ciro Campos Christo. Política de compras e contratações: trajetória e mudanças na
administração pública federal brasileira. 2010. 285 f. Tese (Doutorado) - Curso de Direito, Fundação Getúlio
Vargas, Rio de Janeiro, 2010.
26
somente até que tais entidades formulassem seus regulamentos internos, que deveriam ser
aprovados pela autoridade ministerial competente. Ainda assim, conforme ressalta Fernandes,
esse fator enrijeceu os processos de compras públicas das estatais, criando reflexos adversos
para tais entidades.31
No que se refere às contratações diretas, tema que mais interessa ao objetivo deste
trabalho, o Decreto-Lei n. 2.300/86 finalmente distinguiu as hipóteses de dispensa e
inexigibilidade de licitação, além de ampliar significativamente tais casos nos incisos dos
artigos 22 e 23 da norma.
Os incisos I e II do art. 22 revelam o retorno da dispensa de licitação para obras e
serviços, inclusive de engenharia, que não ultrapassem o valor estipulado na própria legislação.
Quanto à dispensa, ganham destaque ainda os seguintes pontos: a possibilidade de dispensa
para a complementação de obra, serviço ou fornecimento anterior (inciso V); a dispensa nos
casos em que a operação envolver concessionário de serviço público e for pertinente ao objeto
da concessão (inciso VII); e quando a União tiver que intervir no domínio econômico para
regular preços (inciso VIII).
As hipóteses de inexigibilidade, como ocorre atualmente, estavam condicionadas à
inviabilidade de competição, e o art. 23 tratou de especificá-las nos seus cinco incisos. Os três
primeiros deles foram praticamente reproduzidos na íntegra na lei n. 8.666/93, como se verá a
seguir. Os incisos quarto e quinto, que tratam sobre a compra ou locação de imóveis para o
serviço público e restauração de obras de arte, passariam a ser considerados, posteriormente,
como casos de dispensa de licitação, o que denota um certo amadurecimento da discussão sobre
o tema, tanto no âmbito doutrinário quanto jurisprudencial, cujos reflexos foram sentidos na
legislação subsequente.32
Com a promulgação da Constituição Federal de 1988, o dever de licitar ganhou
status de norma constitucional, consagrado no art. 37, XXI, da Carta Magna. Segundo tal
dispositivo, “ressalvados os casos especificados na legislação, as obras, serviços, compras e
alienações serão contratados mediante processo de licitação pública que assegure igualdade de
31
Ibid.
32
Esta era a redação do art. 23 do Decreto-Lei n. 2.300/86: Art. 23. É inexigível a licitação, quando houver
inviabilidade de competição, em especial: I - para a aquisição de materiais, equipamentos ou gêneros, que só
possam ser fornecidos por produtor, empresa ou representante comercial exclusivo, vedada a preferência de marca;
II - para a contratação de serviços técnicos enumerados no artigo 12, de natureza singular, com profissionais ou
empresas de notória especialização; III - para a contratação de profissional de qualquer setor artístico, diretamente
ou através de empresário, desde que consagrado pela crítica especializada ou pela opinião pública; IV - para a
compra ou locação de imóvel destinado ao serviço público, cujas necessidades de instalação e localização
condicionem a sua escolha; V - para a aquisição ou restauração de obras de arte e objetos históricos, de
autenticidade certificada, desde que compatíveis ou inerentes às finalidades do órgão ou entidade.
27
33
ROSILHO, op. Cit
34
Ibid.
35
DI PIETRO, op. Cit
28
No que tange a análise da lei n. 8.666/93, dada a sua extensão e das muitas
alterações nela empreendidas, o presente trabalho se limitará a examinar os dispositivos que
tratam sobre contratações diretas, mormente no que se refere aos seus pressupostos e hipóteses
de incidência.
36
NIEBUHR. 2011, op. Cit
37
CRISTÓVAM, José Sérgio da Silva. O conceito de interesse público no estado constitucional de direito: o novo
regime jurídico administrativo e seus princípios constitucionais estruturantes. Tese (doutorado) - Universidade
Federal de Santa Catarina, Centro de Ciências Jurídicas, Programa de Pós-Graduação em Direito, Florianópolis,
2014. 379 p.
38
Ibid. p. 114.
29
interesse público, mas isso não significa que se confundam, ou ainda que o conjunto dos
interesses privados resulte no interesse público e vice-versa.
A jurisprudência também classifica o interesse público entre primário e secundário:
enquanto este se relaciona ao interesse patrimonial e econômico da Administração Pública;
aquele está ligado à própria razão de ser do Estado, mormente à promoção do bem-estar social
e garantia dos direitos fundamentais esculpidos na Constituição.39
Conforme explica Niebuhr, servir ao interesse público — seja na perspectiva ampla
ou restrita — é o fim último da Administração Pública no exercício de suas atividades. É
justamente por isso, aliás, que a licitação se impõe como regra geral em se tratando de compras
públicas, porquanto afasta os interesses pessoais dos administradores públicos, dando
condições igualitárias a todos aqueles capazes de contratar com a Administração. No entanto,
existem situações peculiares em que a aplicação do dever de licitar resulta em efeito oposto ao
interesse público, isto é, caso levado a cabo, implicaria esvaziamento do próprio sentido das
funções do Estado.40 São estes os casos, então, que o legislador define como dispensa de
licitação.
Nos casos de dispensa, o processo licitatório é possível de ser empregado, mas caso
fosse, colocaria em xeque outros bens jurídicos tutelados pelo ordenamento, que detêm maior
valoração legislativa. Segundo D’ávila, há, desse modo, uma presunção legal nas circunstâncias
listadas no art. 17, I e II e no art. 24 da lei n. 8.666/93 de que a competição entre os particulares
não atende ao interesse público.41
Isso não significa, por outro lado, que os princípios que regem as contratações
públicas, como o da isonomia, devem ser totalmente desconsiderados nos casos das
contratações por dispensa, mas devem ganhar importância subsidiária em face das
circunstâncias especiais postas.42
Em outro norte, as hipóteses de inexigibilidade nascem da inviabilidade da licitação
por ausência de competição, de modo que as situações elencadas no art. 25 da LGL têm natureza
exemplificativa.43 Dessa forma, como defende Mello, “o que os incisos I a III do art. 25
39
Sobre tal distinção veja-se: STJ. REsp 1.356.260/SC, 2.a T., rel. Min. Humberto Martins, j, em 07.02.2013, DJe
de 19.02.2013.
40
NIEBUHR. 2011, op. Cit
41
D’ÁVILA, Vera Lúcia Machado. Dispensa e inexigibilidade. In: DI PIETRO et al. Temas Polêmicos sobre
Licitações e Contratos. 5. ed. São Paulo: Malheiros, 2006.
42
NIEBUHR. 2011, op. Cit
43
Nesse sentido: Hely Lopes Meirelles, Maria Sylvia Zanella di Pietro, Celso Antônio Bandeira de Mello, Carlos
Ari Sunfeld, Jorge Ulisses Jacoby Fernandes e Joel Menezes Niebuhr.
30
estabelecem é, simplesmente, uma prévia e já resoluta indicação de hipóteses nas quais ficam
antecipadas situações características de inviabilidade, nos termos ali enumerados, sem exclusão
de casos não catalogados, mas igualmente possíveis”44
Conforme elucida Justen Filho, a inexigibilidade é um conceito logicamente
anterior à dispensa, pois nesta, em tese, a competição é viável, mas não é implementada pois
conduziria a uma solução inadequada para a Administração em face das peculiaridades das
circunstâncias.
Sundfeld exprime entendimento similar, pois para ele enquanto a
inexigibilidade ocorre nos casos em que a licitação torna inviável a própria medida almejada;
na dispensa, por sua vez, verifica-se que a imposição da licitação implicaria em inconvenientes
ao próprio interesse público e, por via de consequência, aos direitos aos valores que tutela.
Traçadas as linhas gerais da contratação direta na ótica da LGL, os próximos
subitens serão dedicados ao exame mais detido das hipóteses de dispensa e inexigibilidade de
licitação, com enfoque nos dispositivos que endereçados aos casos de emergência e calamidade
pública.
44
MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de Direito Administrativo. 29. ed. São Paulo: Malheiros, 2012.
p. 566.
45
A exemplo de Hely Lopes Meirelles, Maria Sylvia Zanella di Pietro e Jorge Ulisses Jacoby Fernandes.
46
JUSTEN FILHO, Marçal. Comentários à Lei Geral de Licitações e Contratos Administrativos. 18. Ed. São
Paulo: Revista dos Tribunais, 2019.
31
Sem qualquer pretensão em adentrar nessa vasta discussão doutrinária e para fins
de simplificação metodológica, adota-se no presente trabalho a distinção entre licitação
dispensável e dispensada, conforme delineado abaixo.
As hipóteses de licitação dispensada estão previstas no art. 17, I e II da Lei
8.666/93, e se referem a determinadas situações de alienação de bens móveis e imóveis da
Administração, como a dação em pagamento, a doação ou a permuta desses bens. Conforme
explica Meirelles, nos casos previstos no dispositivo supracitado, por existirem destinatários
certos e pré-estabelecidos da contratação, a lei presume a necessidade e a justificativa da
dispensa, devendo a Administração proceder à contratação direta.47
No que diz respeito às hipóteses de licitação dispensável, compreendidas nos trinta
e cinco incisos listados no art. 24 da LGL, Di Pietro as classifica em quatro macro categorias.
São elas: a) dispensa em razão do pequeno valor; b) em razão de situações excepcionais; c) em
razão do objeto; e d) em razão da pessoa. Fugiria ao escopo do presente trabalho analisar
pormenorizadamente cada uma destas hipóteses, razão pela qual nos parágrafos seguintes serão
examinados somente os casos com maior pertinência temática ao escopo desta pesquisa.
Concernente à dispensa por pequeno valor, a lei autoriza a utilização de tal
mecanismo “para obras e serviços de engenharia de valor até 10% (dez por cento) do limite
previsto para a modalidade convite”, desde que a dispensa não sirva ao pagamento de parcelas
de uma mesma obra ou serviço ou para obras realizadas no mesmo local que poderiam ser feitas
conjuntamente.48 O mesmo se aplica aos serviços — que não de engenharia — e as compras
de pequeno valor até o limite da modalidade de convite prevista no art. 23, a, II, da LGL. Note-
se que nesses casos, o legislador presume que seria mais vantajoso à Administração dispensar
de pronto a licitação do que empreender esforço organizando o certame para compras de
pequena monta. Além disso, caso ocorressem irregularidades, a perda para o Estado não seria
tão significante, de modo que o risco ainda é compensável.
No que tange à dispensa em razão do objeto, o art. 24 da LGL, estabelece alguns
tipos de bens ou objetos que, por sua natureza singular, podem ser adquiridos por dispensa de
licitação, tais como: para compras de hortifrutigranjeiros, pão e outros gêneros perecíveis, no
tempo necessário para a realização dos processos licitatórios correspondentes, realizadas
47
MEIRELLES, op. Cit.
48
BRASIL. Lei nº 8.666, de 21 de junho de 1993. Regulamenta o art. 37, inciso XXI, da Constituição Federal,
institui normas para licitações e contratos da Administração Pública e dá outras providências. Brasília, DF, Art.
24, I.
32
diretamente com base no preço do dia (inciso XII); para a aquisição ou restauração de obras de
arte e objetos históricos, de autenticidade certificada, desde que compatíveis ou inerentes às
finalidades do órgão ou entidade (inciso XV); nas compras de materiais de uso pelas Forças
Armadas, com exceção de materiais de uso pessoal e administrativo, quando houver
necessidade de manter a padronização requerida pela estrutura de apoio logístico dos meios
navais, aéreos e terrestres, mediante parecer de comissão instituída por decreto (inciso XIX);
na contratação de instituição ou organização pública ou privada, com ou sem fins lucrativos,
para a prestação de serviços de assistência técnica e extensão rural no âmbito do Programa
Nacional de Assistência Técnica de Extensão Rural na Agricultura Familiar e na Reforma
Agrária, instituído por lei federal (inciso XXX), dentre outros.49
A dispensa em razão da pessoa, a seu turno, está vinculada às contratações
realizadas entre entidades que compõem a Administração Pública — direta ou indireta — ou
entre a Administração e pessoas jurídicas específicas, que prestam serviços públicos ou
promovam assistência social, a pesquisa, dentre outras finalidades. Um exemplo dessa
modalidade de contratação é a hipótese do inciso XX, do art. 24, que permite a dispensa de
licitação para a contratação de associação de portadores de deficiência física, sem fins lucrativos
e de comprovada idoneidade, por órgãos ou entidades da Administração Pública, para a
prestação de serviços ou fornecimento de mão de obra, desde que o preço contratado seja
compatível com o praticado no mercado. Outro exemplo recorrente de dispensa em razão da
pessoa se dá na contratação de organizações sociais para as finalidades específicas estabelecidas
nos contratos de gestão, conforme preceitua o art. 24, XXIV, da LGL. O intuito desse
dispositivo é justamente facilitar as transações entre órgãos públicos ou que prestem serviços
públicos, já que ambos têm o mesmo fim último, qual seja, a defesa do interesse público.
As dispensas realizadas em decorrência de situações excepcionais são, pela
metodologia aqui adotada, a macro categoria que mais se vincula ao objeto deste trabalho.
Contudo, antes de analisá-las, deve-se ressaltar que as dispensas efetuadas no contexto do
enfrentamento à pandemia de Covid-19 foram regidas, em um primeiro momento, por um
regime jurídico próprio e excepcional, que será analisado no segundo capítulo deste trabalho.
Ainda assim, o cotejo do entendimento doutrinário criado a partir da análise da LGL é
49
Ibid.
33
50
NIEBUHR, Joel de Menezes. Regime emergencial de contratação pública à pandemia de Covid-19. Belo
Horizonte: Fórum, 2020.
51
Brasil. Lei 8.666/93.
52
MEIRELLES, op. Cit.
53
Ibid. p. 146
54
BRASIL. Decreto nº 67.347, de 5 de outubro de 1970. Estabelece diretrizes e normas de ação para defesa
permanente contra as calamidades públicas, cria Grupo Especial e dá outras providências.. . Brasília, DF.
34
falta de medicamentos. Nesse caso, há uma situação emergencial localizada, mas que não
transborda na forma de calamidade pública.55
Nesse sentido, o conceito de emergência, para Niebuhr, traduz-se na
imprescindibilidade de “contratação que não pode aguardar os trâmites ordinários de licitação
pública, sob pena de perecimento do interesse público, consubstanciado pelo desatendimento
de alguma demanda social ou pela solução de continuidade de atividade administrativa.” 56
D’ávila, por outro lado, defende como ponto fundamental à caracterização da
situação de urgência e emergência o lapso temporal entre a necessidade da ação estatal e da
contratação do particular para execução da medida. Dessa forma, segundo a autora, se o liame
entre a necessidade de contratação e a situação caracterizadora da emergência for fluída e
permitir longo lapso temporal ao atendimento, a utilização da dispensa mostra-se incorreta. A
predominância do lapso temporal à configuração da situação de emergência levou, inclusive, a
interpretações mais radicais e isoladas, como a de Sundfeld, para quem a hipótese do art. 24,
IV, da LGL deveria ser classificada como de inexigibilidade, pois a falta de tempo para a
concretização da licitação impossibilita o certame.57
Outra importante distinção a ser pontuada no que tange às situações emergenciais
e de calamidade pública diz respeito à necessidade de reconhecimento dessas hipóteses por
meio de decretos dos executivos ou legislativos. Enquanto para caracterização de emergência
não há, a priori, necessidade de expedição de decreto; para a calamidade pública, ao contrário,
tal declaração pelo poder correspondente em nível municipal, estadual ou federal é condição
sine qua non para o deferimento da medida. Contudo, isso não significa que a situação de
emergência possa ser proclamada sem qualquer parâmetro mínimo, já que as entidades
estaduais e municipais podem também estabelecer outras exigências. Ademais, o Tribunal de
Contas da União – TCU, já sedimentou entendimento de que a dispensa de licitação por
emergência deve sempre vir acompanhada de justificativa adequada sobre a situação e sobre a
escolha da empresa e dos preços adotados.58
A doutrina também discute a possibilidade de realização de dispensa de licitação
para os casos em que a situação emergencial é resultado da própria desídia, ineficiência, ou
qualquer outra conduta culposa dos próprios administradores públicos. Para a maior parte dos
autores, mesmo que seja constatado a ocorrência de tal situação, a dispensa deve ser considerada
55
NIEBUHR, 2011, op. Cit.
56
Ibid. p. 248.
57
SUNDFELD, Carlos Ari. Licitação e Contrato Administrativo. São Paulo: Malheiros, 1994. p. 49.
58
FERNANDES, Jorge Ulysses Jacoby. Contratação direta sem licitação. [Link]. São Paulo: Fórum, 2016.
35
válida, em atendimento à primazia do interesse público. Isso não afasta, por óbvio, a posterior
responsabilização do agente público que deu causa à emergência.59 A propósito, há casos
específicos de contingenciamento de orçamento em que o TCU julgou legal a contratação direta
emergencial realizada em razão do curto lapso temporal concedido entre a liberação
orçamentária e o prazo para sua execução.60
Questão de igual modo pertinente concerne ao status precário das contratações
diretas emergenciais, uma vez que tal modalidade pode ser somente empregada para a compra
dos objetos necessários para cessar a emergência ou, no caso de obras, pelo prazo máximo de
180 para a realização de obras ou serviços, com vedação à prorrogação. 61 Essa questão ganha
relevância quando analisada à luz da calamidade pública instalada pela pandemia de Covid-19
que, no momento em que se escreve o presente trabalho, já perdura há mais de um ano e meio,
portanto, muito além dos 180 descritos no referido dispositivo. Caso não houvesse a criação de
um regime jurídico próprio ao enfrentamento da pandemia, talvez muitos serviços de
engenharia, como de montagem de hospitais de campanhas ou ampliação de leitos hospitalares,
restariam prejudicadas pelo escoamento do prazo fixado em lei. Para Niebuhr, no entanto, a
estipulação do referido prazo serve tão somente para que nesse interregno a Administração
possa preparar nova contratação, agora por meio de licitação. Ainda assim, é notória a
existência de prejuízos em decorrência da mudança de contratantes no meio da execução de
uma obra ou serviço.62
Como alternativa a essa limitação temporal, Fernandes menciona que o
administrador pode lançar mão, caso necessário, do preceito do art. 57, § 1º, da LGL, que
autoriza a renovação contratual, desde que cumpridos certos requisitos. Ademais, para
Meirelles, o prazo de 180 previsto no art. 24, IV da LGL não se reveste de caráter absoluto,
podendo ser mitigado a depender da situação fática enfrentada.63
Meirelles também chama atenção para o fato de que a declaração formal de
calamidade pública pelo chefe do poder executivo da União dá ensejo, inclusive, à abertura de
59
Nesse sentido: FERNANDES, op. Cit.; NIEBUHR, op. Cit.; DI PIETRO, op. Cit.
60
BRASIL. Tribunal de Contas da União. Decisão nº 524. Relator: Ministro Valmir Campelo, 20 de agosto de
1999. Dou. Brasilia, DF.
61
“nos casos de emergência ou de calamidade pública, quando caracterizada urgência de atendimento de situação
que possa ocasionar prejuízo ou comprometer a segurança de pessoas, obras, serviços, equipamentos e outros bens,
públicos ou particulares, e somente para os bens necessários ao atendimento da situação emergencial ou calamitosa
e para as parcelas de obras e serviços que possam ser concluídas no prazo máximo de 180 (cento e oitenta) dias
consecutivos e ininterruptos, contados da ocorrência da emergência ou calamidade, vedada a prorrogação dos
respectivos contratos;”
62
NIEBUHR, 2011, op. Cit.
63
MEIRELLES. op. Cit.
36
64
BRASIL. Agência Câmara de Notícias. Congresso promulga emenda constitucional do "orçamento de guerra".
Disponível em: [Link]
orcamento-de-guerra. Acesso em: 21 de jun. de 2021.
65
MELLO, op. Cit.
66
NIEBUHR. 2011, op. Cit
37
exemplo de Fernandes e da própria AGU, da leitura literal do inciso I infere-se que este não
engloba as situações de serviços realizados por único fornecedor, sendo limitado a materiais e
equipamentos;67 para outros, como Justen Filho e Niebuhr,68 o texto também se refere aos casos
de serviços que sejam prestados de modo exclusivo, até mesmo pela redação final do inciso,
onde o legislador explicita “devendo a comprovação de exclusividade ser feita através de
atestado fornecido pelo órgão de registro do comércio do local em que se realizaria a licitação
ou a obra ou o serviço[...]”.
Meirelles chama a atenção para o conceito de exclusividade, que, segundo ele, deve
ser distinguido entre exclusividade industrial e comercial. A exclusividade industrial refere-se
ao produtor, isto é, só existe um produtor que fabrique aquele determinado bem e, portanto,
caso necessário, é somente com ele que a Administração pode contratar. Já no caso de
exclusividade comercial, esta pode variar de acordo com abrangência espacial, de modo que
em determinada região um vendedor pode ser o único a ofertar determinado produto, mas,
quando considerado em nível nacional, há diversos outros vendedores que também
disponibilizam esse tipo de bem. A exclusividade industrial, por conseguinte, é absoluta e
sempre afasta a licitação; porém a comercial, deve ser analisada de acordo com cada
localidade.69
Para que a licitação seja inexigível, nos termos do inciso I do art. 25, também não
é lícito à Administração especificar demasiadamente o produto a ponto de se tornar exclusivo.
Deve-se descrever, portanto, o gênero do bem, na sua essencialidade, nas suas funções
primordiais, sem atentar a características que são meramente colaterais, sob pena de desvirtuar
o objetivo da norma autorizativa.
A segunda circunstância prevista no art. 25 trata sobre a contratação de serviços
técnicos especializados, dispondo da seguinte redação: “II - para a contratação de serviços
técnicos enumerados no art. 13 desta Lei, de natureza singular, com profissionais ou empresas
de notória especialização, vedada a inexigibilidade para serviços de publicidade e divulgação.”
Conforme explica Niebuhr, os serviços a que se refere o inciso II, não se confundem com os do
inciso I, pois aqueles não demandam exclusividade, mas sim especialização técnica singular,
ou seja, dizem respeito a “traço eminentemente subjetivo”.70
67
FERNANDES, op. Cit.
68
NIEBUHR, 2011, op. Cit.; JUSTEN FILHO. op. Cit.
69
MEIRELLES. op. Cit.
70
NIEBUHR. 2011, op. Cit. p. 161
38
Ademais, apesar de o dispositivo fazer expressa alusão aos serviços listados no art.
13 da mesma lei, não há impedimento para que outros serviços sejam também enquadrados na
mesma hipótese legal, pois deve prevalecer a máxima delineada no caput do art. 25, segundo a
qual onde não há viabilidade de licitação deve prevalecer a inexigibilidade. Justen Filho, aliás,
defende a existência de uma função normativa autônoma do caput do art. 25 com relação aos
seus incisos, “de modo que uma contratação direta poderá nele se fundar direta e
exclusivamente. Não se impõe que a hipótese seja enquadrada em um dos incisos do referido
art. 25, os quais apresentam natureza exemplificativa.”71
No tocante ao inciso II do art. 25, Niebuhr aponta a necessidade de observância a
dois pressupostos: o objetivo e o subjetivo. O primeiro diz respeito à natureza singular do
serviço a ser contratado, pois não é qualquer serviço que se enquadra na inexigibilidade. Não
podem ser serviços rotineiros ou que podem ser prestados por qualquer pessoa, mas sim, aqueles
de notória especialidade. O segundo pressuposto, por sua vez, relaciona-se com as qualidades
do profissional a ser contratado, que deve possuir experiência e estudos aprofundados sobre o
tema objeto da contratação, não bastando a inexigibilidade a contratação de profissional
desconhecido.72
O inciso III do art. 25, que dispõe sobre “a contratação de profissional de qualquer
setor artístico” não possui maiores implicações no presente trabalho, tanto pela sua
impertinência com relação ao objeto, quanto pelo contexto que se apresenta atualmente, onde
as manifestações artísticas voltaram-se, majoritariamente, ao ambiente virtual com o
cancelamento de eventos, festas e shows antes promovidos por entidades da Administração
Pública.
71
JUSTEN FILHO, op. Cit., p. 598.
72
NIEBUHR. 2011, op. Cit.
39
73
BRASIL. Congresso. Câmara dos Deputados. Decreto Legislativo nº 06, de 20 de março de 2020. Reconhece,
para os fins do art. 65 da Lei Complementar nº 101, de 4 de maio de 2000, a ocorrência do estado de calamidade
pública. Brasília, 2020.
74
NIEBUHR, 2020, op. Cit.
41
O primeiro texto normativo a tratar sobre o tema dispôs sobre “as medidas para
enfrentamento da emergência de saúde pública de importância internacional decorrente do
75
coronavírus, responsável pelo surto de 2019” e abordou, de forma geral, diversos aspectos
relevantes ao enfrentamento da situação calamitosa, como, por exemplo, a possibilidade de
imposição de isolamento social, restrição de eventos, uso de máscaras, dentre outros.
Especialmente no tocantes às compras públicas, a legislação foi inicialmente
sucinta, trazendo apenas um único artigo destinado a regulamentar o tema e criando, com isso,
uma nova hipótese de dispensa de licitação, expressada no art. 4º: “Art. 4º Fica dispensada a
licitação para aquisição de bens, serviços e insumos de saúde destinados ao enfrentamento da
emergência de saúde pública de importância internacional decorrente do coronavírus de que
trata esta Lei.” 76
A positivação da possibilidade de dispensa de licitação para a aquisição de bens e
serviços destinados ao enfrentamento da situação calamitosa, conforme elucida Lins, revelou a
intenção do legislador em possibilitar a rápida ação do gestor público em situações em que “o
custo temporal da realização da licitação poderia ser extremamente prejudicial ao interesse
público.” 77
Como mencionado no capítulo anterior, a dispensa de licitação ‒ em tese ‒ é a
exceção ao processo licitatório previsto no art. 37, inciso XXI da CF 88. Ao regulamentar o
tema, contudo, o art. 24, inciso IV, da lei n. 8.666/93 - LGL, já previa ser dispensável a licitação
nas situações de emergência e calamidade pública, desde que observados alguns requisitos.
Questionou-se, então, qual era a necessidade da criação de novos institutos
destinados a tratarem sobre a mesma temática, isto é, a dispensa de licitação nas situações de
calamidade pública. A resposta foi no sentido de que a previsão já existente na lei n. 8.666/93
- LGL era insuficiente para atender as demandas excepcionais criadas durante tamanha situação
75
BRASIL. Lei nº 13.979, de 6 de fevereiro de 2020. Dispõe sobre as medidas para enfrentamento da emergência
de saúde pública de importância internacional decorrente do coronavírus responsável pelo surto de 2019. . Brasília,
DF.
76
LINS, Bernardo Wildi. Regime Especial de Contratações Públicas em tempos de pandemia de Covid-19. In:
OLIVEIRA, André Rodrigues de et al (org.). Implicações da Covid-19 no Ordenando Jurídico Brasileiro.
Florianópolis: Emais, 2020. p. 123-148.
77
Ibid., p. 128
42
78
NOBRE, Emily Solon Marquinho; AGUIAR, Simone Coêlho. Lei nº 13.979/2020 e o regime emergencial da
dispensa de licitação do coronavírus. Revista Controle: Doutrinas e artigos, v. 18, n. 2, p. 77-108, 2020.
79
CASTROVIEJO, Gabriela Gomes Acioli. Coronavírus (COVID-19) e Dispensa de Licitação: análise sob à
ótica da Lei 13.979/2020. 2020. Disponível em: [Link]
administrativo/coronavirus-covid-19-e-dispensa-de-licitacao-analise-sob-a-otica-da-lei-13-979-2020/. Acesso
em: 01 jul. 2021.
80
Ibid.
43
81
BRASIL. Altera a Lei nº 13.979, de 6 de fevereiro de 2020, para dispor sobre procedimentos para a aquisição
ou contratação de bens, serviços e insumos destinados ao enfrentamento da emergência de saúde pública de
importância internacional decorrente do coronavírus responsável pelo surto de 2019. Brasília, DF.
82
BRASIL. Exposição de Motivos nº 19, de 20 de março de 2020. Brasília, DF, Disponível em:
[Link] Acesso em: 25 jul. 2021.
44
dispensa.
A previsão do art. 4º-B não configura, porém, presunção absoluta de emergência
apta a autorizar toda e qualquer dispensa de licitação, é preciso que o objeto da contratação
guarde correlação lógica com a situação emergencial de saúde pública vivida no país e no
mundo. Do contrário, o dispositivo não poderá ser aplicado83. Sobre o tema, Marçal Justen Filho
assevera que é preciso que a contratação guarde pertinência com o atendimento da emergência
de saúde pública, o que implica em duas questões: a urgência da contratação e a duração do
contrato somente pelo prazo necessário ao atendimento da questão emergencial. 84
Niebuhr, por sua vez, ao tratar sobre a presunção de emergência prevista no art. 4-
B, aponta que além da necessidade de o objeto da contratação guardar, necessariamente,
relação lógica com o enfrentamento da situação de emergência, a própria emergência em si
também poderá, casuisticamente, ser revista pelos órgãos de controle, pois, segundo o autor,
atribuir presunção absoluta à situação emergencial, em verdade, é medida contrária à ampla
sindicabilidade do direito administrativo e ao próprio Estado Democrático de Direito em que
os agente públicos devem ser responsabilizados pelos seus próprios atos.85 Em razão disso, para
o autor, o art. 4-B da lei 13.979/20, com a redação dada pela lei n. 14.035/20, não foi visto
como uma espécie de carta branca, mas tão só como uma forma de auxiliar os gestores públicos
no processo de justificação da contratação direta emergencial, presumindo-se a situação de
emergência, mas não de forma absoluta.86
Outra alteração promovida no caput do art. 4º foi a inclusão da possibilidade de
dispensar a licitação para aquisição de serviços de engenharia e insumos destinados ao
enfrentamento da pandemia como um todo, modificando a redação original que previa tão
somente a dispensa para a compra de “insumos de saúde”.
Neste aspecto, é importante destacar que a legislação autorizou somente a
contratação de serviços de engenharia, mas não de obras de engenharia. A fim de compreender
a diferença entre os conceitos, faz-se necessário retornar à LGL: Para a norma, a obra é toda
construção, reforma, fabricação, recuperação ou ampliação, realizada por execução direta ou
indireta. Já o serviço, este autorizado expressamente pela lei n. 13.979/2020, é toda atividade
destinada a obter determinada utilidade de interesse para a Administração, tais como:
83
NIEBUHR, 2020, op. Cit.
84
JUSTEN FILHO, Marçal. Efeitos jurídicos da crise sobre as contratações administrativas. Disponível em:
[Link] Acesso em 25 de jun. de 2021.
85
NIEBUHR, 2020, op. Cit.
86
Ibid.
45
Além das alterações promovidas no caput do art. 4º, a lei n. 14.035/2020, oriunda
da medida provisória n. 926/2020, também inseriu diversos dispositivos na configuração
originária da lei n. 13.979/2020, dentre os quais merece destaque a possibilidade de contratação
de produtos usados, desde que o fornecedor se responsabilize pelas condições de funcionamento
dos bens adquiridos (art. 4ª-A), e a possibilidade de contratação com empresas declaradas
inidôneas ou impedidas de contratar com a Administração Pública, desde que se trate de
fornecedor exclusivo (art. 4º, § 3º).90
Nesse sentido, Nobre e Aguiar descrevem a possibilidade de compra de
equipamentos usados como uma inovação positiva trazida pelo microssistema normativo
excepcional desenvolvido durante a pandemia, sobretudo porque tal autorização apontaria para
87
BRASIL. Lei n. 8.666/93.
88
LIMA, Edcarlos Alves. Contratação de obras de engenharia: inaplicabilidade da Lei nº 13.979/2020 e
instrumentos possíveis de serem adotados. 2020. Disponível em: [Link]
obras-de-engenharia-inaplicabilidade-da-lei-n-13-979-2020-e-instrumentos-possiveis-de-serem-adotados. Acesso
em: 23 jun. 2021
89
TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO DO AMAZONAS. ORIENTAÇÃO TÉCNICA COVID-19:
Contratação de Obras e Serviços de Engenharia Emergenciais Sem Licitação Durante O Período da
Pandemia de Covid-19. 1 ed. Manaus: TCE-AM. 2020. 14 p. Disponível em: [Link]
content/uploads/2020/05/Nota-t%C3%A9cnica-Contrata%C3%A7%C3%A3o-de-Obras-e-Servi%C3%A7os-de-
[Link]. Acesso em: 20 jun. 2021
90
NOBRE, Emily Solon Marquinho; AGUIAR, Simone Coêlho. Lei nº 13.979/2020 e o regime emergencial da
dispensa de licitação do coronavírus. Revista Controle: Doutrinas e artigos, v. 18, n. 2, p. 77-108, 2020
46
91
Ibid.
92
LINS, op. Cit.
93
MEIRELLES. op. Cit.
94
PINTO, João Inácio Ribeiro; PINTO, Raissa Natascha Ferreira. Regimes jurídicos excepcionais nas
contratações públicas e compliance em tempos de pandemia. Revista Controle: Doutrinas e artigos, v. 19,
n. 1, p. 296-333, 2021.
95
§ 3º Na situação excepcional de, comprovadamente, haver uma única fornecedora do bem ou prestadora do
serviço, será possível a sua contratação, independentemente da existência de sanção de impedimento ou de
suspensão de contratar com o poder público
96
JUSTEN NETO, Marçal. A contratação de sancionadas durante a emergência do coronavírus. 2020.
Disponível em: [Link]
emergencia-do-coronavirus. Acesso em: 26 jul. 2021
47
97
Ibid.
98
Ibid.
99
Ibid.
48
Nada obstante aos apontamentos doutrinários no sentido de esta ser uma inovação
positiva do regime excepcional, desde que melhor atenda ao interesse público, fato é que ainda
se trata de exceção e, como tal, deve vir acompanhada da devida justificativa, representada,
neste caso, pela comprovação acerca da exclusividade da fornecedora.
O § 3º do art. 4º da Lei n. 13.979/20, entretanto, não apontou de que forma seria
feita a comprovação sobre a exclusividade da contratada. Como consequência, buscou-se na
LGL, na doutrina e jurisprudência a resposta sobre como deveria ser feita a justificativa apta a
autorizar a contratação com empresa sancionada. Sobre essa temática, Niebuhr cita que é
possível fazer uma analogia, com as devidas ressalvas, ao inciso I do art. 25 da lei n. 8.666/93,
que trata sobre a inexigibilidade de licitação para os casos de contratação de produtor, empresa
ou representante comercial exclusivo, justamente porque em ambos os dispositivos ‒ art. 25, I,
da lei n. 8.666/93 e § 3º, art. 4º da lei n. 13. 979/20 ‒, o eixo central pressupõe a existência de
somente um fornecedor, ainda que se tratem de modalidades distintas de contratação direta.100
Com efeito, a parte final do inciso I do art. 25 da lei n. 8.666/93 prevê que a
comprovação acerca da exclusividade da fornecedora será promovida mediante “atestado
fornecido pelo órgão de registro do comércio do local em que se realizaria a licitação ou a obra
ou o serviço, pelo Sindicato, Federação ou Confederação Patronal, ou, ainda, pelas entidades
equivalentes”
O entendimento do Tribunal de Contas da União, contudo, aponta que a utilização
do inciso I do art. 25 da lei n. 8.666/93 pode não ser a opção mais adequada à comprovação de
exclusividade, tendo em vista que poderão ser emitidas certidões desatualizadas ou
equivocadas, razão pela qual editou a Súmula n. 255/2010101, a seguir transcrita:
Nas contratações em que o objeto só possa ser fornecido por produtor,
empresa ou representante comercial exclusivo, é dever do agente público responsável
pela contratação a adoção das providências necessárias para confirmar a veracidade
da documentação comprobatória da condição de exclusividade.
100
NIEBUHR, 2020, op. Cit.
101
BRASIL. Tribunal de Contas da União. Súmula nº 255. Brasília, DF, 31 de março de 2010. .. Disponível em:
[Link]
line=1. Acesso em: 26 jun. 2021
49
102
NIEBUHR, 2020, op. Cit.
103
§ 3º-A. No caso de que trata o § 3º deste artigo, é obrigatória a prestação de garantia nas modalidades previstas
no art. 56 da Lei nº 8.666, de 21 de junho de 1993, que não poderá exceder a 10% (dez por cento) do valor do
contrato.
104
FURTADO, Taís Paula do Carmo. O Impacto da Pandemia Causada Pela COVID-19 Nas Contratações
Públicas No Brasil – Comentários à Lei nº 13.979/2020 Alterada Pela Lei nº 14.035/2020. 2021. Disponível em:
[Link]
nas-contratacoes-publicas-no-brasil-comentarios-a-lei-no-13-979-2020-alterada-pela-lei-no-14-035-2020/.
Acesso em: 28 jul. 2021.
50
105
FERNANDES, op. Cit.
106
Art. 337-E. Admitir, possibilitar ou dar causa à contratação direta fora das hipóteses previstas em lei: Pena -
reclusão, de 4 (quatro) a 8 (oito) anos, e multa.
107
FERNANDES, op. Cit.
108
BRASIL. Instrução Normativa nº 5, de 26 de maio de 2017. Dispõe sobre as regras e diretrizes do procedimento
de contratação de serviços sob o regime de execução indireta no âmbito da Administração Pública federal direta,
autárquica e fundacional. Brasilia, DF, Disponível em: [Link]
/asset_publisher/Kujrw0TZC2Mb/content/id/20239255/do1-2017-05-26-instrucao-normativa-n-5-de-26-de-
maio-de-2017-20237783. Acesso em: 27 jul. 2021.
51
109
Ibid.
110
BRASIL. Tribunal de Contas da União. Termo de referência ou projeto básico. 2019. Disponível em:
[Link] Acesso em: 28 jul. 2021.
111
ALMEIDA, Daniel da Silva et al. Termo de Referência ou Projeto Básico Simplificado para
Enfrentamento da Covid-19 –Teoria e Prática. 2020. Disponível em:
[Link]
TERMO_DE_REFERENCIA_SIMPLIFICADO_covid-19_teoria_e_pratica.pdf. Acesso em: 29 jul. 2021.
52
Com relação à definição do objeto (inciso I), deverão ser observadas as diretrizes
gerais já consolidadas na lei n. 8.666/93, que prevê que a definição do item a ser contratado
deve ser precisa, suficiente e clara, sendo vedadas as especificações irrelevantes ou
desnecessárias.113 Isso porque é por meio da definição precisa do objeto da aquisição que a
Administração Pública garantirá a eficácia da compra ao fim de que destina, atendendo, em
última análise, ao interesse público perseguido. 114 Também é nesta fase que deve ser definido
o quantitativo do objeto pretendido, sendo necessário, no caso do quadro normativo excepcional
decorrente da pandemia de Covid-19, observar o disposto no art. 4-B, inciso IV, da lei n. 13.
979/20, segundo o qual somente poderão ser adquiridos por meio de dispensa de licitação os
quantitativos estritamente necessários ao enfrentamento da situação calamitosa.
A fundamentação simplificada da contratação (inciso II), por sua vez, decorre do
fato de que todo o ato administrativo deve ser motivado, conforme regra insculpida no art. 50
da lei n. 9.784/1999115. Com efeito, sabe-se que toda a contratação direta fundamentada na lei
13.979/20 visa atender as necessidades excepcionais criadas diante pela pandemia. Assim, ao
fundamentar de forma simplificada a contratação, caberá ao gestor público fazer a correlação
lógica entre o objeto pretendido e qual sua necessidade diante da situação de calamidade pública
a ser enfrentada. 116
A descrição resumida da solução apresentada, prevista no inciso III do art. 4º - E da
lei n. 13.979/20, é o documento que deve acompanhar o termo de referência ou o projeto básico
simplificado para demonstrar quais eram as soluções disponíveis no mercado para o
entendimento daquela demanda. No quadro normativo geral, esse estudo mercadológico é
frequentemente efetuado na fase dos Estudos Técnicos Preliminares. No entanto, diante da
dispensa destes, por meio do que prevê o art. 4º - C da lei n. 13.979/20 ‒ item já tratado neste
capítulo ‒, caberá ao gestor público a indicação resumida e a análise sucinta da relação custo-
benefício para a solução escolhida. Não se trata da definição do preço, mas sim, da escolha do
objeto adequado, como, por exemplo, saber qual o melhor respirador a ser adquirido para
112
BRASIL, Lei nº 13.979/2020.
113
BRASIL, Lei n. 8.666/93.
114
ALMEIDA, op. Cit.
115
Art. 50. Os atos administrativos deverão ser motivados, com indicação dos fatos e dos fundamentos jurídicos,
quando: IV - dispensem ou declarem a inexigibilidade de processo licitatório;
116
ALMEIDA, op. Cit.
53
Também é por meio dos requisitos para a contratação que serão estabelecidos os
critérios necessários para a habilitação da empresa contratada. Neste aspecto, o art. 4ª - F da lei
n. 13.979/20 trouxe, novamente, flexibilizações frente ao quadro normativo regular: a lei previu
que, na hipótese de haver restrição de fornecedores, a autoridade competente, mediante
justificativa, poderá deixar de exigir a apresentação da documentação relativa à regularidade
fiscal ou, ainda, o cumprimento de um ou mais requisitos de habilitação, ressalvada à exigência
de apresentação de prova de regularidade com a seguridade social e a vedação à contratação de
menores de dezoito anos para o exercício de atividades consideradas perigosas ou insalubres.119
Neste ponto, Justen Filho conceitua a habilitação como a “titularidade das
condições do direito de licitar” e visa apurar a idoneidade e a capacidade do sujeito para
contratar com a Administração Pública.120 Os requisitos para a habilitação, regra geral, são
aqueles exigidos pelo art. 27 da lei n. 8.666/93, a saber: habilitação jurídica; qualificação
técnica; qualificação econômico-financeira; regularidade fiscal; regularidade fiscal e trabalhista
e o cumprimento do disposto no inciso XXXIII do art. 7o da Constituição Federal, que se refere
à proibição de contratação de menores de dezoito anos para atividades insalubres e perigosas.
121
117
Ibid.
118
Ibid.
119
BRASIL. Lei nº 13.979/2020.
120
JUSTEN FILHO, 2010, op. Cit. p. 535.
121
BRASIL, lei n. 8.666/93.
54
122
NIEBUHR, 2020, op. Cit. p. 114.
123
BRASIL, Lei n. 8.666/93.
124
OLIVEIRA. Rafael Sérgio de; PÉRCIO. Gabriela; TORRES. Ronny Charles Lopes de. A Dispensa de
Licitação para Contratações no Enfrentamento ao Coronavírus. 2020. Disponível em:
[Link]
55
125
Ibid.
126
BRASIL. Lei nº 13.979/2020.
127
BRASIL. Lei nº 8.666/1993.
56
legislador tão somente por fazer com o gestor demonstre que o preço da compra se amoldava
aquele praticado no mercado naquele momento, o que seria mais facilmente evidenciado por
meio da estimativa de preços, e não por meio da justificativa de preços.128
Para Niebuhr, contudo, a redação do inciso VI, apesar de integrar o microssistema
normativo excepcional, não apresenta grandes inovações quando comparada às regras para
estimativas de preços no quadro normativo regular. Isso porque, segundo o autor, a redação do
dispositivo é inspirada na Instrução Normativa (IN) n. 05/2014129, da antiga Secretaria de
Logística e Tecnologia da Informação do Governo Federal, que prevê exatamente os mesmos
critérios para as pesquisas de valores de mercado, sendo que a diferença entre os diplomas
normativos estaria no fato de que a IN n. 05/2014 é mais complexa e detalhista do que a lei n.
13.979/20, prevendo, por exemplo, que a estimativa de preços obtida a partir a partir do Portal
de Compras do Governo Federal e em contratações similares de outros órgãos e entidades
públicas deve ser priorizada face às demais opções elencadas, bem como a necessidade de
instrução do processo administrativo com pelo menos três orçamentos distintos, a fim de melhor
demonstrar as reais condições do mercado.130
Nesse sentido, o autor pontua que os procedimentos e pontos da IN n. 05/2014 que
não sejam conflitantes com as prescrições da lei n. 13.979/20 ‒ como a priorização da estimativa
por meio do portal do Governo Federal e obtenção de pelo menos três orçamentos ‒, devem ser
aplicados, inclusive, para a obtenção da estimativa de preços para as compras decorrentes da
pandemia de Covid-19, tendo em vista que a lei n. 13.979/20 não excluiu a aplicação da IN. 131
Caminhando em outro sentido, o parecer n. 00002/2020/CNMLC/CGU/AGU
aponta que a IN n. 05/2014 não é de aplicabilidade obrigatória para as estimativas de preços
baseadas na lei n. 13.979/20. Segundo o documento, caso fosse da intenção do legislador a
aplicação na norma, simplesmente teria silenciado, mas ao optar por inserir na lei disposições
específicas sobre a forma de obtenção da estimativa de preços, a obrigatoriedade da IN foi
afastada.132
128
NÓBREGA, Marcos; CAMELO, Bradson; TORRES, Ronny Charles L. de. Pesquisa de Preços nas
Contratações Públicas, em Tempos de Pandemia. 2020. Disponível em:
[Link]
PREC%CC%A7OS-NAS-CONTRATAC%CC%A7O%CC%83ES-PU%CC%81BLICAS-EM-TEMPOS-DE-
[Link]. Acesso em: 29 jul. 2021.
129
BRASIL, Instrução Normativa n. 05/2014.
130
NIEBUHR, 2020, op. Cit.
131
Ibid.
132
BRASIL. Alyne Gonzaga de Souza. Advocacia Geral da União. PARECER n.
00002/2020/CNMLC/CGU/AGU. Brasília: Agu, 2020. 19 p. Disponível em:
[Link] Acesso em: 30 jul. 2021.
57
133
Ibid.
134
BRASIL, Lei n. 13.979/2020.
135
NIEBUHR, 2020, op. Cit., p. 110.
136
Ibid.
137
NÓBREGA; CAMELO; TORRES, op. Cit.
58
138
Os preços obtidos a partir da estimativa de que trata o inciso VI do § 1º deste artigo não impedem a contratação
pelo poder público por valores superiores decorrentes de oscilações ocasionadas pela variação de preços, desde
que observadas as seguintes condições: I – negociação prévia com os demais fornecedores, segundo a ordem de
classificação, para obtenção de condições mais vantajosas; e II – efetiva fundamentação, nos autos da contratação
correspondente, da variação de preços praticados no mercado por motivo superveniente.
139
FERNANDES, Jorge Ulysses Jacoby; FERNANDES, Murilo Jacoby; TEIXEIRA, Paulo; TORRES, Ronny
Charles Lopes de. Direito provisório e a emergência do coronavírus. Belo Horizonte: Fórum, 2020.
140
Art. 4º-H. Os contratos regidos por esta Lei terão prazo de duração de até 6 (seis) meses e poderão ser
prorrogados por períodos sucessivos, enquanto vigorar o Decreto Legislativo nº 6, de 20 de março de
2020, respeitados os prazos pactuados.
59
141
NIEBUHR, 2020, op. Cit.
142
Art. 4º-I. Para os contratos decorrentes dos procedimentos previstos nesta Lei, a administração pública poderá
prever que os contratados fiquem obrigados a aceitar, nas mesmas condições contratuais, acréscimos ou supressões
ao objeto contratado de até 50% (cinquenta por cento) do valor inicial atualizado do contrato.
143
NIEBUHR, 2020, op. Cit.
60
equipamento, o contratado fica obrigado a aceitar acréscimos e supressões de até 50%, tal como
o previsto no art. 4º-I da lei n. 13.979//2020. A justificativa apontada pela doutrina para o
percentual para “reformas” ser superior ao percentual para as demais modalidades contratuais
reside no fato de que toda reforma apresenta imprevistos e situações inesperadas 144 e, na lei n.
13.979/20, embora o contexto fático seja outro, o surgimento de necessidades imprevisíveis e
não planejadas também se faz presente, o que revela a coerência lógica da medida.
Além disso, para Pércio, outra diferença entre as previsões legislativas acerca da
alteração contratual unilateral encontra-se na necessidade de comprovação de fato
superveniente. Enquanto, para a autora, no quadro normativo regular a alteração contratual
necessite de justificação por meio da apresentação de fato novo, no microssistema excepcional
a existência de nova circunstância não é necessária, visto que a simplificação das fases de
planejamento, com a apresentação de projetos básicos e termos de referência simplificados,
além da possibilidade de dispensa de estudos preliminares, apensar de acelerar o processo de
dispensa, poderá prejudicar as análises quantitativas, de modo que a poderão ocorrer alterações
nos quantitativos contratuais sem a necessidade de maiores fundamentos.145
Contudo, embora a Administração Pública detenha essa prerrogativa de alterar
unilateralmente os contratos, o que deriva diretamente das chamadas cláusulas exorbitantes146,
Pércio ressalta que deverá prevalecer a consensualidade, não cabendo à Administração a
imposição de obrigações exageradas sem que consiga o contratado cumprir com o acréscimo
ou com supressão prevista, ainda que mantido o equilíbrio contratual. Deverá ser observado,
então, o contexto fático e a viabilidade da medida e, ainda, quais as vantagens dela para a
consecução do interesse público, atentando-se sempre para o equilíbrio econômico-financeiro
dos contratos. 147
144
MEIRELLES. op. Cit.
145
PÉRCIO, Gabriela. Alterações Contratuais Durante a Pandemia de Covid-19. 2020. Disponível em:
[Link]
contrato-durante-a-pandemia-COVID_dd1.pdf. Acesso em: 01 ago. 2021.
146 MEIRELLES. op. Cit.
147
PÉRCIO, op. Cit.
61
148
§ 2º Todas as aquisições ou contratações realizadas com base nesta Lei serão disponibilizadas, no prazo
máximo de 5 (cinco) dias úteis, contado da realização do ato, em site oficial específico na internet, observados, no
que couber, os requisitos previstos no § 3º do art. 8º da Lei nº 12.527, de 18 de novembro de 2011 , com o nome
do contratado, o número de sua inscrição na Secretaria da Receita Federal do Brasil, o prazo contratual, o valor e
o respectivo processo de aquisição ou contratação, além das seguintes informações: I – o ato que autoriza a
contratação direta ou o extrato decorrente do contrato II – a discriminação do bem adquirido ou do serviço
contratado e o local de entrega ou de prestação; III – o valor global do contrato, as parcelas do objeto, os montantes
pagos e o saldo disponível ou bloqueado, caso exista IV – as informações sobre eventuais aditivos contratuais; V
– a quantidade entregue em cada unidade da Federação durante a execução do contrato, nas contratações de bens
e serviços.
149
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: 1988.
150
BRASIL. Lei n.12.527, de 18 de novembro de 2011. Regula o acesso a informações previsto no inciso XXXIII
do artigo 5º, no inciso II do & 3º do art. 37 e no & 2º do art.216 da Constituição Federal; altera a Lei n.8.112, de
11 de dezembro de 1990; revoga a lei n.11.111, de 5 de maio de 2005, e dispositivos da Lei n. 8.159,de 8 de janeiro
de 1991; e dá outras providências. Brasília, 19 nov. 2011
151
MEDEIROS, Simone Assis; MAGALHÃES, Roberto; PEREIRA, José Roberto. Lei de acesso à informação:
em busca da transparência e do combate à corrupção. Informação & informação, v. 19, n. 1, p. 55-75, 2014.
62
14.035/20 o legislador facultou aos gestores a publicação da compra no prazo de até 5 dias
úteis.
A concessão do prazo de até 5 dias úteis equiparou, de certa forma, a legislação
extraordinária com a previsão do art. 26 da LGL, visto que naquela lei também há previsão no
sentido de que os casos de dispensa e inexigibilidade deverão ser publicados neste mesmo
prazo152. A diferença entre os dois quadros normativos reside, basicamente, em dois pontos: no
microssistema normativo desenvolvido em razão da pandemia há necessidade de publicação
em sites específicos, enquanto na LGL o legislador apontou tão somente a necessidade de
publicação na imprensa oficial. Além disso, na LGL, a publicação da compra afigura-se como
condição de eficácia da contratação, enquanto que na lei n. 13.979/20 o contrato poderá ser
imediatamente cumprido, haja vista que o legislador não mencionou tal restrição.
Sobre o tema, Niebuhr aponta que não houve grandes alterações em termos de
transparência, visto que a LAI já exigia a publicação das contratações na rede mundial de
computadores153 154. Apesar da visão do autor, a previsão da lei n. 13.979/20 é mais específica,
pois exige a criação de site próprio destinado tão somente às contratações emergenciais
decorrentes da situação de calamidade pública causada pelo Coronavírus, a exemplo do site
desenvolvido pelo Governo do Estado de Santa Catarina, onde, em portal específico, há o
detalhamento das contratações feitas para o enfretamento da pandemia e a informação de que
aproximadamente 64% das compras públicas efetuadas neste período ocorreram por meio da
contratação direta.155
Inclusive, visando facilitar a aplicabilidade do § 2º do art. 4º da 13.979/20, a
Transparência Internacional no Brasil, em conjunto com o Tribunal de Contas da União,
elaborou um guia de recomendações “para a transparência de contratações emergenciais em
resposta à Covid-19”156, documento por meio do qual reforçam a importância da criação de
domínios próprios e apontam requisitos mínimos a serem seguidos por todos os entes federados
152 Art. 26. As dispensas previstas nos §§ 2o e 4o do art. 17 e no inciso III e seguintes do art. 24, as situações de
inexigibilidade referidas no art. 25, necessariamente justificadas, e o retardamento previsto no final do parágrafo
único do art. 8o desta Lei deverão ser comunicados, dentro de 3 (três) dias, à autoridade superior, para ratificação
e publicação na imprensa oficial, no prazo de 5 (cinco) dias, como condição para a eficácia dos atos.
153
NIEBUHR, 2020, op. Cit.
154
§ 2º Para cumprimento do disposto no caput, os órgãos e entidades públicas deverão utilizar todos os meios e
instrumentos legítimos de que dispuserem, sendo obrigatória a divulgação em sítios oficiais da rede mundial de
computadores (internet).
155
[Link] “Este painel apresenta os contratos emergenciais firmados pelos
órgãos do Poder Executivo Estadual referentes ao enfrentamento da Covid-19, conforme estabelecido pela Lei
Federal nº 13.979”
156
Disponível em: [Link]
contratacoes-emergenciais-covid19?stream=1.
63
157
TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO; TRANSPARÊNCIA INTERNCIONAL. Recomendações Para a
Transparência de Contratações Emergenciais em resposta à Covid-19. Disponível em:
[Link]
covid19?stream=1 . Acesso em: 01 de ago. 2021.
158
§ 3º Os sítios de que trata o § 2º deverão, na forma de regulamento, atender, entre outros, aos seguintes
requisitos: I - conter ferramenta de pesquisa de conteúdo que permita o acesso à informação de forma objetiva,
transparente, clara e em linguagem de fácil compreensão; II - possibilitar a gravação de relatórios em diversos
formatos eletrônicos, inclusive abertos e não proprietários, tais como planilhas e texto, de modo a facilitar a análise
das informações; III - possibilitar o acesso automatizado por sistemas externos em formatos abertos, estruturados
e legíveis por máquina; IV - divulgar em detalhes os formatos utilizados para estruturação da informação; V -
garantir a autenticidade e a integridade das informações disponíveis para acesso; VI - manter atualizadas as
informações disponíveis para acesso; VII - indicar local e instruções que permitam ao interessado comunicar-se,
por via eletrônica ou telefônica, com o órgão ou entidade detentora do sítio; e VIII - adotar as medidas necessárias
para garantir a acessibilidade de conteúdo para pessoas com deficiência, nos termos do art. 17 da Lei nº 10.098,
de 19 de dezembro de 2000, e do art. 9º da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, aprovada
pelo Decreto Legislativo nº 186, de 9 de julho de 2008.
159
BRASIL. Medida Provisória nº 928, de 23 de março de 2020. Altera a Lei nº 13.979, de 6 de fevereiro de 2020,
que dispõe sobre as medidas para enfrentamento da emergência de saúde pública de importância internacional
decorrente do coronavírus responsável pelo surto de 2019, e revoga o art. 18 da Medida Provisória nº 927, de 22
de março de 2020.. . Brasília, DF.
64
tornar-se medica inócua e servir tão somente como uma ferramenta informativa,
desconsiderando a participação ativa da população na atuação do estado e no controle aos gastos
públicos.
Em vista disso, o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil propôs a
ADin n. 6.347 reclamando a inconstitucionalidade da MP. O Supremo Tribunal Federal, por
unanimidade, julgou procedente a demanda para suspender os efeitos da MP. O relator,
Ministro Alexandre de Moraes, ressaltou que em tempos em que vários contratos são
formalizados por meio da dispensa de licitação, "é uma obrigação prestar melhor ainda as
informações" 160.
160
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. ação direta de inconstitucionalidade – ADI n. 6.347. Relator: Min.
Alexandre de Moraes. Brasília, DF, 30 de abril de 2020.
161
BRASIL. Lei nº 14.065, de 30 de setembro de 2020. Autoriza pagamentos antecipados nas licitações e nos
contratos realizados no âmbito da administração pública; adequa os limites de dispensa de licitação; amplia o uso
do Regime Diferenciado de Contratações Públicas (RDC) durante o estado de calamidade pública reconhecido
pelo Decreto Legislativo nº 6, de 20 de março de 2020; e altera a Lei nº 13.979, de 6 de fevereiro de [Link]ília,
DF.
65
promoveu alterações na lei n. 13.979/2020 para fazer constar a autorização para a utilização dos
Sistema de Registro de Preços – SRP no caso de dispensa e dispôs brevemente sobre a atuação
dos Tribunais de Contas.
Assim, com vistas a promover o debate entorno do sistema normativo excepcional,
nos próximos tópicos deste trabalho serão abordados os principais pontos desta legislação e as
principais discussões entorno do tema.
162
LINS, op. Cit.
163
Art. 1 º A administração pública dos entes federativos, de todos os Poderes e órgãos constitucionalmente
autônomos fica autorizada a: I - dispensar a licitação de que tratam os incisos I e II do caput do art. 24 da Lei nº
8.666, de 21 de junho de 1993 , até o limite de: a) R$ 100.000,00 (cem mil reais), para obras e serviços de
engenharia, desde que não se refiram a parcelas de uma mesma obra ou serviço, ou para obras e serviços da mesma
natureza e no mesmo local que possam ser realizados conjunta e concomitantemente; e b) R$ 50.000,00 (cinquenta
mil reais), para outros serviços e compras, desde que não se refiram a parcelas de um mesmo serviço ou de compra
de maior vulto, que possam ser realizados de uma só vez;
66
164
Art. 1 º A administração pública dos entes federativos, de todos os Poderes e órgãos constitucionalmente
autônomos fica autorizada a: II - promover o pagamento antecipado nas licitações e nos contratos, desde que:
a) represente condição indispensável para obter o bem ou assegurar a prestação do serviço; ou b) propicie
significativa economia de recursos;
165
§ 2º A liquidação da despesa por fornecimentos feitos ou serviços prestados terá por base: I - o contrato, ajuste
ou acôrdo respectivo; II - a nota de empenho; III - os comprovantes da entrega de material ou da prestação efetiva
do serviço.
166
LINS, op. Cit.
167
§1º Os contratos de obras, de fornecimento para a entrega futura de bens ou de serviços, especialmente os de
serviços técnicos especializados que utilizem mão-de-obra intensiva, poderão prever adiamentos de pagamentos,
desde que não superiores ao valor de cada etapa em que se subdividir a sua execução, e desde que seja prestada
garantia numa das modalidades previstas no art. 56 desta Lei, sem o limite estabelecido no §2º daquele artigo.
168
LINS, op. Cit.
169
BRASIL. Tribunal de Contas da União. Acórdão nº 1565/2015. Brasília, DF, 24 de junho de 2015.
67
Tratava-se, contudo, de medida excepcional cuja utilização demandava justificativas por parte
dos gestores, o que, via de regra, gerava situação de evidente insegurança jurídica. 170
Com a pandemia de Covid-19, houve um rápido aumento na demanda de insumos
médicos e a escassez de produtos passou a ser um problema a ser resolvido pela Administração.
Inclusive, o Estado da Bahia havia adquirido ventiladores pulmonares de fornecedor Chinês,
mas a compra foi cancelada pois as fábricas só estavam aceitando pagamento antecipado e o
governo do Estado não tinha condições jurídicas de fazê-lo.171
Neste contexto, sensível à questão, a lei n. 14.065/20 regulamentou a possibilidade
de antecipação do pagamento e previu que a adoção de tal prática seria admissível quando a
forma de pagamento antecipado configurasse condição para assegurar a compra do bem ou
quando propiciasse significativa economia de recursos para a entidade contratante. A
implicação lógica do dispositivo legal é no sentido de que o pagamento antecipado, portanto,
deve ser justificado dentro dessas duas hipóteses, sob pena de ser considerado inadequado.
Apesar de a interpretação da TCU já vir apontando avanço nesse sentido ao longo
dos anos, foi a primeira vez que tal possibilidade restou tão claramente positivada no
ordenamento jurídico, o que revela a importância da pandemia de Covid-19 para o
aprimoramento das discussões entorno do tema.
A previsão acerca da possibilidade de pagamento antecipado veio acompanhada,
basicamente, de dois requisitos: I – a antecipação de pagamento deve estar prevista em edital
ou em instrumento formal de adjudicação direta e II – deve ser exigida a devolução integral do
valor antecipado na hipótese de inexecução do objeto, atualizado monetariamente.172
Muito antes de tal previsão legislativa, Justen Filho já asseverava que “o pagamento
antecipado pode ser admitido, em situações excepcionais. Mas sua previsão deverá constar no
edital de licitação”.173
Além da observância a esses dois requisitos básicos, o legislador também incluiu
algumas cautelas a serem tomadas pela Administração, como, por exemplo, a execução parcial
antes do total pagamento e emissão de título de crédito pelo contratado, o que visa,
170
ARAÚJO, Fabiano Figueiredo. Antecipação de Pagamentos em Contratos Administrativos. In: FERNANDES,
Ricardo Vc et al (org.). Licitações, Contratos e Convênios Administrativos. Belo Horizonte: Fórum, 2013. p.
335-353.
171
ANDRADE, Ricardo Barretto de. O pagamento antecipado sem garantia nas contratações públicas
durante a pandemia. 2020. Disponível em: [Link]
antecipado-sem-garantia-nas-contratacoes-publicas-durante-a-pandemia. Acesso em: 02 ago. 2021.
172
BRASIL, 14.065/2020.
173
JUSTEN FILHO, 2019, op. Cit., p. 754
68
174
§ 2º Sem prejuízo do disposto no § 1º deste artigo, a Administração deverá prever cautelas aptas a reduzir o
risco de inadimplemento contratual, tais como: I - a comprovação da execução de parte ou de etapa inicial do
objeto pelo contratado, para a antecipação do valor remanescente; II - a prestação de garantia nas modalidades de
que trata o art. 56 da Lei nº 8.666, de 21 de junho de 1993 , de até 30% (trinta por cento) do valor do objeto; III -
a emissão de título de crédito pelo contratado; IV - o acompanhamento da mercadoria, em qualquer momento do
transporte, por representante da Administração; ou V - a exigência de certificação do produto ou do fornecedor
175
Art. 15. As compras, sempre que possível, deverão: II - ser processadas através de sistema de registro de preços;
176
BRASIL. Decreto nº 7.892, de 23 de janeiro de 2013. Regulamenta o Sistema de Registro de Preços previsto
no art. 15 da Lei nº 8.666, de 21 de junho de 1993. Brasília, DF.
177
NIEUBUHR. 2020, op. Cit.
178
Ibid.
69
Inclusive, é isso que prevê o art. 3º do Decreto n. 7.892/2013, que regulamenta o tema em
âmbito federal. 179
No tocante ao microssistema normativo, autorizou-se, pela primeira vez, a
utilização do SRP para as contratações diretas, isto é, para as contratações realizadas sem
licitação. 180
A inovação legislativa condicionou a possibilidade de utilização do SRP para a
dispensa de licitação quando se tratar de compra ou contratação por mais de um órgão ou
entidade. A utilização conjunta do SRP já era prevista no Decreto n. 7.892/2013 e funcionava
da seguinte maneira: um órgão gerenciador registrava do Sistema de Serviços Gerais – SISG a
intenção de contratação de determinado bem e serviço e a partir disso qualquer outro órgão ou
entidade interessada poderia manifestar sua intenção de futura ata de registro de preços. 181
Nesse sentido, em tempos de pandemia, a alteração pareceu bem vinda, visto que
facultou aos gestores à centralização das demandas, a possibilidade de economia de escala e
ainda a realização de uma única dispensa para atender as mais diversas demandas existentes no
país. Ademais, a forma utilizada no SRP permite a não contratação caso cesse a demanda, o
que também parece acertado frente às incertezas existentes durante o estágio de calamidade
pública. 182
No mais, a centralização das dispensas de licitação também permite um maior
controle das contrações tanto por parte dos Tribunais de Contas e Ministérios Públicos quanto
por parte da própria população, que, certamente, teria mais facilidades em encontrar as
informações necessárias para o devido acompanhamento da compra.
A crítica que se faz, contudo, está na forma de divulgação da intenção de
composição da ata pelos demais órgãos ou entidades. Com efeito, a lei n. 14.065/2020, embora
179
Art. 3º O Sistema de Registro de Preços poderá ser adotado nas seguintes hipóteses: I - quando, pelas
características do bem ou serviço, houver necessidade de contratações frequentes; II - quando for conveniente a
aquisição de bens com previsão de entregas parceladas ou contratação de serviços remunerados por unidade de
medida ou em regime de tarefa; III - quando for conveniente a aquisição de bens ou a contratação de serviços para
atendimento a mais de um órgão ou entidade, ou a programas de governo; ou IV - quando, pela natureza do objeto,
não for possível definir previamente o quantitativo a ser demandado pela Administração.
180
§ 4º Na hipótese de dispensa de licitação a que se refere o caput deste artigo, quando se tratar de compra ou de
contratação por mais de um órgão ou entidade, poderá ser utilizado o sistema de registro de preços, previsto
no inciso II do caput do art. 15 da Lei nº 8.666, de 21 de junho de 1993
181
NIEUBUHR, 2020, op. Cit.
182
REIS, Luciano Elias; ALCÂNTARA, Marcus Vinícius Reis de. Sistema de Registro de Preços na Covid-19.
2020. Disponível em: [Link]
Pre%C3%A7os-na-COVID-19-Cartilha-Luciano-Elias-e-Marcus-Vin%C3%[Link]. Acesso em: 02
ago. 2021.
70
tenha previsto prazo para a manifestação de vontade em compor a ata de registro de preços 183,
nada dispôs sobre como seria operacionalizada essa questão. No sistema federal já existia a
Intenção de Registro de Preços, documentos por meio do qual as partes interessadas registravam
a intenção de participação. No entanto, em âmbito estadual ou municipal, não havendo
mecanismos nesse sentido, “incumbe aos demais órgãos e entidades, dentro da sua realidade
normativa e operacional, que se utilizem dos meios disponíveis, a exemplo dos diários oficiais
e portais dos respectivos órgãos ou entidades na internet”.184
Por fim, no que tange ao escopo deste trabalho, a última alteração promovida por
meio da lei n. 14.065/2020 refere-se à atuação dos órgãos de controle interno e externo. As
modificações promovidas por meio da norma incluíram no microssistema dispositivo legal
expresso no sentido de reforçar a atuação dos Tribunais de Contas e demais instituições
destinadas ao controle da Administração para que priorizassem a análise e a manifestação
quanto aos contratos formalizados em razão da calamidade pública. 185
Embora os órgãos de controle já desempenhassem o papel de acompanhamento das
contratações públicas, a inserção do dispositivo revela que a intenção do legislador era de
indicar a necessidade maior presença dessas instituições no momento de enfretamento da
situação calamitosa, não somente com a atuação repressiva, mas também com a contribuição
de ordem consultiva, fornecendo maior segurança jurídica e preservando o interesse público
diante do quadro normativo excepcional.186
Nesse sentido, a inclusão do art. 4º-K releva a importância de incentivar a função
orientativa dos Tribunais de Contas, pois “melhor do que apenas apontar as falhas de gestão,
ou do que sancionar pelo cometimento de irregularidades, é orientar o agente público a evitar o
183
§ 6º O órgão ou entidade gerenciador da compra estabelecerá prazo entre 2 (dois) e 8 (oito) dias úteis, contado
da data de divulgação da intenção de registro de preço, para que outros órgãos e entidades manifestem interesse
em participar do sistema de registro de preços realizado nos termos dos §§ 4º e 5º deste artigo.
184
REIS, ALCÂNTARA, op. Cit., p. 6
185
Art. 4º-K. Os órgãos de controle interno e externo priorizarão a análise e a manifestação quanto à legalidade,
à legitimidade e à economicidade das despesas decorrentes dos contratos ou das aquisições realizadas com
fundamento nesta Lei. Parágrafo único. Os tribunais de contas devem atuar para aumentar a segurança jurídica na
aplicação das normas desta Lei, inclusive por meio de respostas a consultas
186
BOAVENTURA, Carmen Iêda Carneiro. A lei n. 14.065/2020 e o novo cenário das contratações públicas.
2020.
71
187
SANTOS, José Anacleto Abduch. Novidades da Lei nº 14.065/2020: contratações públicas durante o estado
de calamidade pública. 2020. Disponível em: [Link]
contratacoes-publicas-durante-o-estado-de-calamidade-publica/. Acesso em: 05 ago. 2021
188
Art. 11. Esta Emenda Constitucional entra em vigor na data de sua publicação e ficará automaticamente
revogada na data do encerramento do estado de calamidade pública reconhecido pelo Congresso Nacional.
189
Art. 1º Durante a vigência de estado de calamidade pública nacional reconhecido pelo Congresso Nacional em
razão de emergência de saúde pública de importância internacional decorrente de pandemia, a União adotará
regime extraordinário fiscal, financeiro e de contratações para atender às necessidades dele decorrentes, somente
naquilo em que a urgência for incompatível com o regime regular, nos termos definidos nesta Emenda
Constitucional.
72
da edição da EC, visto que o art. 10 da EC trata justamente sobre a convalidação dos atos de
gestão praticados a partir de 20 de março de 2020, desde que compatíveis com EC.190 191
Outro ponto da EC n. 106/2020 com efeitos no sistema de compras públicas é o
parágrafo único do art. 3º, que prevê ser dispensável, durante a vigência da calamidade pública
nacional, o disposto no § 3º do art. 195 da CF88192, que versa sobre a contratação de empresas
com débitos relativos à seguridade social.
Conforme mencionado em momento anterior neste trabalho, o art. 4º-F da lei n.
13.979/20 já havia previsto ser possível dispensar alguns dos requisitos de habilitação para as
empresas fornecedores, desde que mediante justificativa por parte do gestor. A lei havia
ressalvado, contudo, o cumprimento do disposto no § 3º do art. 195 e no inciso XXXIII do caput
do art. 7º da CF88, sob pena de caracterizar inconstitucionalidade. Com a edição da EC n.
106/2020, o requisito do no § 3º do art. 195 foi também flexibilizado, de sorte que somente
restou exigível o cumprimento do disposto inciso XXXIII do caput do art. 7º da CF88, que trata
sobre a proibição de contratação de menores para atividades noturnas, insalubres ou perigosas.
193
190
LINS, op. Cit.
191
Art. 10. Ficam convalidados os atos de gestão praticados a partir de 20 de março de 2020, desde que compatíveis
com o teor desta Emenda Constitucional.
192
§ 3º A pessoa jurídica em débito com o sistema da seguridade social, como estabelecido em lei, não poderá
contratar com o Poder Público nem dele receber benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios.
193 LINS, op. Cit.
194 Art. 8º Esta Lei vigorará enquanto perdurar o estado de emergência internacional pelo coronavírus responsável
pelo surto de 2019.
73
195
“Art. 8º Esta Lei vigorará enquanto estiver vigente o Decreto Legislativo nº 6, de 20 de março de 2020 ,
observado o disposto no art. 4º-H desta Lei.
196
Art. 65. Na ocorrência de calamidade pública reconhecida pelo Congresso Nacional, no caso da União, ou pelas
Assembléias Legislativas, na hipótese dos Estados e Municípios, enquanto perdurar a situação: I - serão suspensas
a contagem dos prazos e as disposições estabelecidas nos arts. 23 , 31 e 70; II - serão dispensados o atingimento
dos resultados fiscais e a limitação de empenho prevista no art. 9o.
197
CORRÊA, Ronaldo. Quais são os reflexos da decisão do STF em relação à Lei nº 13.979, de 2020? 2021.
Disponível em: [Link]
de-2020/. Acesso em: 05 ago. 2021.
198
Art. 1º Esta Lei dispõe sobre as medidas que poderão ser adotadas para enfrentamento da emergência de saúde
pública de importância internacional decorrente do coronavírus responsável pelo surto de 2019. § 2º Ato do
Ministro de Estado da Saúde disporá sobre a duração da situação de emergência de saúde pública de que trata esta
Lei
74
199
G1. Dezembro tem maior número de mortes por Covid-19 no Brasil desde setembro, indicam secretarias de
Saúde. Disponível em: [Link]
[Link]. Acesso em: 07 de
ago. 2021
200
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Medida Cautelar nº 6.625. Relator: Min. Ricardo Lewandowski. Brasília,
DF, 30 de dezembro de 2020.
75
estatísticas sobre evolução da doença, com base em dados das secretarias estaduais de
saúde, apurou que, em 28 de dezembro de 2020, chegou-se ao impressionante total de
7.5 milhões de infectados e 191.6 mil mortos.
Pois bem. Goffredo Telles Junior, ao estudar o fenômeno da vigência
das leis, no plano doutrinário, ensina que o seu término ocorre ou por
autodeterminação ou por revogação. Esta última se dá quando uma lei posterior
revoga a anterior. É o que normalmente acontece no dia-a-dia legislativo. Já a situação
sob exame nestes autos enquadra-se na segunda hipótese, desdobrável em distintos
casos, dentre os quais se destaca o fim da vigência resultante “da volta à normalidade
de uma situação de crise, conjuntura anormal que a lei acudiu com medidas de
exceção”.9 A título exemplificativo, cita “a lei sobre providências especiais, para um
estado de emergência ou de calamidade pública”. Assim, conclui que: “Superada a
crise, as medidas de exceção deixam de ser necessárias: a própria lei as suprime, e sua
vigência se exaure”.
[...]
Na espécie, embora a vigência da Lei n° 13.979/2020, de forma
tecnicamente imperfeita, esteja vinculada àquela do Decreto Legislativo n° 6/2020,
que decretou a calamidade pública para fins exclusivamente fiscais, repita-se,
vencendo em 31 de dezembro de 2020, não se pode excluir, neste juízo precário e
efêmero, próprio da presente fase processual, a conjectura segundo a qual a verdadeira
intenção dos legisladores tenha sido a de manter as medidas profiláticas e terapêuticas
extraordinárias, preconizadas naquele diploma normativo, pelo tempo necessário à
superação da fase mais crítica da pandemia, mesmo porque à época de sua edição não
lhes era dado antever a surpreendente persistência e letalidade da doença. Tal fato,
porém, segundo demonstram as evidências empíricas, ainda está longe de
materializar-se. Pelo contrário, a insidiosa moléstia causada pelo novo coronavírus
segue infectando e matando pessoas, em ritmo acelerado, especialmente as mais
idosas, acometidas por comorbidades ou fisicamente debilitadas. Por isso, a prudência
- amparada nos princípios da prevenção e da precaução,14 que devem reger as
decisões em matéria de saúde pública - aconselha que as medidas excepcionais
abrigadas na Lei n° 13.979/2020 continuem, por enquanto, a integrar o arsenal das
autoridades sanitárias para combater a pandemia. Em face do exposto, defiro
parcialmente a cautelar requerida, ad referendum do Plenário desta Suprema Corte,
para conferir interpretação conforme à Constituição ao art. 8° da Lei n° 13.979/2020,
com a redação dada pela Lei 14.035/2020, a fim de excluir de seu âmbito de aplicação
as medidas extraordinárias previstas nos arts. 3°, 3°-A, 3°-B, 3°-C, 3°-D, 3°-E, 3°-F,
3°-G, 3°-H e 3°-J, inclusive dos respectivos parágrafos, incisos e alíneas.
de mortes em razão do coronavírus no ano de 2021 foi muito superior ao de 2020201 e, além
disso, 2021 ficou marcado como o ano em que a população começou a ser vacinada em massa.
Exatamente no ano em que eram necessários maiores esforços para o enfrentamento
da pandemia, seja com relação à estrutura de hospitais e etc, seja com relação a necessidade de
ampla vacinação, o gestor se viu, novamente, desorientado sobre como proceder as compras
públicas. Inclusive, diversos foram os pareces de procuradorias estaduais e municipais
esclarecendo questionamentos acerca da aplicabilidade ou não da lei n. 13.979/2020 já no de
2021.202 Tamanha insegurança jurídica em momento tão delicado é questionável, sobretudo
porque já havia todo um o arcabouço jurídico desenvolvido, pronto para ser aplicado e com o
qual os gestores já haviam passado o primeiro ano da pandemia.
Além disso, outras implicações indiretas do término da vigência da lei n.
13.979/2020 dificultaram a participação da população no acompanhamento da pandemia, a
exemplo da obrigatoriedade de publicação das compras e contratos celebrados em site
específico, conforme o que era previsto no §2º do art. 4º da norma. Isto é, as compras para o
enfrentamento da pandemia continuavam, mas a população deixou de ter uma ferramenta de
fácil acesso para consultá-las. O Portal da Transparência do Governo Federal, por exemplo, na
parte especifica dos contratos firmados para o enfrentado da pandemia, apresenta somente
dados atualizados até 31/12/2020203. Alguns estados, por outro lado, mesmo com o fim da
vigência da lei n. 13.979/2020, mantiveram seus portais da transparência destinados tão
somente à pandemia, como é o caso do portal da transparência do Governo do Estado de Santa
Catarina204, visto que também havia legislação estadual neste sentido. 205
Mas a principal questão posta após a caducidade da lei n. 13.979/2020 é sobre como
os gestores fariam para atender as demandas que fossem surgindo sem perder a celeridade e de
modo a garantia a segurança jurídica das contratações.206
201
G1. Covid-19 já matou mais brasileiros em 4 meses de 2021 do que em todo ano de 2020. Disponível em:
[Link]
[Link]. Acesso em: 07 de ago. 2021
202
A exemplo cita-se o parecer n. 18.577/2021 da Procuradora Geral do Estado do Rio Grande do Sul, disponível
em:
[Link]
203
Disponível em:
[Link]
204
[Link]
205
SANTA CATARINA. Lei nº 17.945, de 25 de maio de 2020. Dispõe sobre a transparência nos contratos
emergenciais firmados pela Administração Pública Estadual em razão da vigência do estado de calamidade pública
em decorrência do coronavírus (COVID-19). Florianópolis, SC,
206
LIMA, Edcarlos Alves. Contratações Públicas Necessárias Ao Enfrentamento Da Covid-19: O Que Fazer
Após O Término Da Vigência Da Lei Nº 13.979/2020? 2021. Disponível em: [Link]
77
associado/contratacoes-publicas-necessarias-ao-enfrentamento-da-covid-19-o-que-fazer-apos-o-termino-da-
vigencia-da-lei-n-13-979-2020. Acesso em: 10 ago. 2021.
207
Ibid.
208
Cita-se, por exemplo, o extrato do diário oficial da cidade de São Paulo, onde há diversas contratações por meio
de dispensa com base na hipótese geral do art. 24 da LGL. Disponível em:
[Link]
0_07_2021_p%C3%[Link]. Acesso em: 10 ago. 2021
78
casos, a centralização das compras e a economia de escala, tendo em vista que somente na lei
n. 13.979/2020 havia previsão no sentido de autorizar a compra centralizada por mais de um
órgão ou entidade por meio do sistema de registro de preços, mesmo nos casos de dispensa.
Sendo assim, o término da vigência da lei n. 13.979/2020 no tocante às contratações
públicas aparenta ter sido medida prejudicial aos gestores públicos e ao enfretamento da
pandemia em si.209 As razões de decidir do Ministro Ricardo Lewandowski, inclusive,
facilmente poderiam ser estendidas ao art. 4º da norma, de modo a manter em vigor toda a
legislação até aqui estudada, mesmo no caso de inércia do poder legislativo em alterar a lei para
prorrogar sua vigência, o que, certamente, conferiria a celeridade necessária exigida pela
pandemia e não faria com quem houvessem dúvidas sobre qual regramento aplicar.
209
LIMA, op. Cit.
79
210
CAMARÃO, Tatiana. et al. Impacto da Covid-19 nas contratações públicas. Belo Horizonte: Fórum, 2020.
81
por parte da doutrina, anteriormente desenvolvidos com o fito de preservar o interesse público
e evitar casos de corrupção, conforme o que foi abordado no primeiro capítulo deste trabalho211.
Com efeito, a tônica das normas desenvolvidas neste período era justamente a de conferir maior
celeridade aos processos administrativos e isso implicava, consequentemente, em conferir
maior dinamismo aos ritos previamente estabelecidos.
Em termos práticos, houve, por exemplo, a simplificação do termo de referência e
do projeto básico, facultando aos responsáveis pela compra a apresentação tão somente dos
elementos considerados indispensáveis, quais sejam: declaração do objeto; fundamentação
simplificada da contratação; descrição resumida da solução apresentada; requisitos da
contratação; critérios de medição e pagamento e estimativas dos preços. A previsão
desenvolvida durante a pandemia de covid-19 contrasta com o dispositivo correspondente na
LGL212, que exige diversos outros elementos cuja importância é agora questionada.
Nesse sentido, ressalvados os casos de contratação de obras públicas, que não foram
objeto da lei n. 13.979/20, percebeu-se que a elaboração do termo de referência ou do projeto
básico simplificado atendeu as demandas da Administração Pública, de modo que tal previsão
legislativa poderia ser incorporada, ao menos para os casos de emergência e calamidade
pública, na nova lei de licitações.213
Outro ponto da lei n. 13.979/20 que revelou a ineficácia da hipótese geral de
dispensa de licitação prevista na LGL, conforme já abordado neste trabalho, foi a previsão
acerca de um prazo determinado de duração das contratações, sendo vedada a prorrogação. Com
a advento da pandemia de covid-19, viu-se que uma situação de emergência ou de calamidade
pública poderá durar muito mais do que 180 dias. Embora parte da doutrina214 já reconhecesse
211
Ibid.
212
X - Projeto Básico - conjunto de elementos necessários e suficientes, com nível de precisão adequado, para
caracterizar a obra ou serviço, ou complexo de obras ou serviços objeto da licitação, elaborado com base nas
indicações dos estudos técnicos preliminares, que assegurem a viabilidade técnica e o adequado tratamento do
impacto ambiental do empreendimento, e que possibilite a avaliação do custo da obra e a definição dos métodos e
do prazo de execução, devendo conter os seguintes elementos: a) desenvolvimento da solução escolhida de forma
a fornecer visão global da obra e identificar todos os seus elementos constitutivos com clareza; b) soluções técnicas
globais e localizadas, suficientemente detalhadas, de forma a minimizar a necessidade de reformulação ou de
variantes durante as fases de elaboração do projeto executivo e de realização das obras e montagem; c)
identificação dos tipos de serviços a executar e de materiais e equipamentos a incorporar à obra, bem como suas
especificações que assegurem os melhores resultados para o empreendimento, sem frustrar o caráter competitivo
para a sua execução; d) informações que possibilitem o estudo e a dedução de métodos construtivos, instalações
provisórias e condições organizacionais para a obra, sem frustrar o caráter competitivo para a sua execução; e)
subsídios para montagem do plano de licitação e gestão da obra, comprendendo a sua programação, a estratégia
de suprimentos, as normas de fiscalização e outros dados necessários em cada caso; f) orçamento detalhado do
custo global da obra, fundamentado em quantitativos de serviços e fornecimentos propriamente avaliados;
213
CAMARÃO, Tatiana. et al. op. Cit.
214
MEIRELLES, op. Cit.
82
que o respeito ao prazo mencionado no art. 24 da LGL não se tratava de medida absoluta, certo
é que a utilização da hipótese de dispensa fora do prazo previsto na lei poderia causar forte
insegurança jurídica.
Sobre o tema, Camarão aponta que a adoção de um prazo fixo é inapropriada
“porque não se pode, tanto quanto ocorre com a situação atual, criar artifícios desconectados da
realidade. Se há emergência ou calamidade pública, a contratação mais célere há de perdurar
pelo prazo necessário à satisfação das carências”215
Dessa forma, a fim evitar que seja necessária a formulação de novas leis, caso
surjam outras situações de emergência ou de calamidade pública, aparenta ser mais adequada a
vinculação da contratação emergencial ao uma situação fática ou a um instrumento normativo
próprio e temporário, como, por exemplo, a um decreto reconhecendo a calamidade pública ou
a um contexto comprovadamente emergencial, sendo possível a renovação destes contratos
enquanto melhor atenderem ao interesse público. Neste ponto, adianta-se, houve uma pequena
modificação na nova lei de licitações, mas não exatamente da forma como apontada neste
trabalho, conforme o que será demonstrado no subtópico seguinte.
Situação também desenvolvida no microssistema normativo e que estaria apta à
incorporação na nova lei de licitações, especialmente nos casos de contratação direta
emergencial, é a possibilidade de contratação com empresas consideradas inidôneas. Isso
porque, conforme elucida Justen Neto, é mais razoável que se atenda a uma situação de
emergência de saúde pública do que se respeite eventual sanção aplicada em razão de infrações
anteriormente cometidas.216 Evidentemente, não há porque privar o Estado do fornecimento de
um bem ou serviço essencial quando o único obstáculo for de ordem jurídica, como é o caso
das sanções administrativas.
Importante considerar, sobre este ponto, que não se está a defender a flexibilização
das sanções ou ainda a promover um incentivo ao cometimento destas. O que se defende é que,
em situações excepcionais em que só haja uma empresa apta ao atendimento de uma demanda
temporária, algumas penalidades, sobretudo aquelas consideradas menos graves, sejam
desconsideradas, momentaneamente, com o objetivo último de melhor atender ao interesse
público. E a adoção dessa medida em nada incentivaria o cometimento de infrações, pois
situações de calamidade pública ou de emergência não acontecem diuturnamente a ponto de ser
vantajoso às empresas o desrespeito às regras atinentes às licitações e contratos administrativos.
215
CAMARÃO, Tatiana. et al. op. Cit.
216
JUSTEN NETO, op. Cit.
83
Apesar disso, a nova lei de licitações não trouxe essa possibilidade, de sorte que
continua sendo considerado crime a contratação com empresas consideradas inidôneas, sem
que haja qualquer ressalva.217
Outra medida adotada no microssistema normativo e que teria potencial para ser
incorporada na nova regulamentação relativa a licitações e contratos é a possibilidade de
aquisição de bens, em situações emergenciais, em valores acima do que aqueles previamente
estipulados, desde que haja justificativa para tanto. Isso porque, embora em uma primeira
análise a adoção dessa medida possa parecer indevida sob o viés da economicidade, o que se
verificou com a pandemia de Covid-19 é que, por vezes, a existência uma alta demanda em
nível mundial tem o potencial de elevar consideravelmente os preços de determinado produto
ou serviço em curto lapso temporal. Ainda que seja feita a pesquisa de preço, é possível que,
no momento da efetiva contratação, o custo daquele produto ou serviço já tenha se elevado. 218
Dessa forma, a fim de que não sejam perdidas todas as etapas já desenvolvidas com
a desclassificação das proponentes cujos preços estejam acima do orçado, bem como para que
a contratação seja célere, a possibilidade de aquisição de bens e serviços com valores mais
elevados do que aqueles inicialmente estimados, desde que haja justificativa, poderia ser
medida compatível com o novo sistema de dispensa de licitação inaugurado na lei n.
14.133/2021.
Imperioso ressaltar que a justificativa apta a autorizar a contratação com preços
superiores aos estimados não poderia derivar tão somente do aumento arbitrário de lucros diante
da alta demanda, comportamento que, inclusive, constitui infração à ordem econômica219. O
aumento apto a justificar a contratação com valores superiores deveria vir acompanhado da
demonstração de que, de fato, houve uma elevação efetiva nos custos daquele produto ou
serviço e o ônus dessa justificação poderia ser atribuído ao particular interessado em firmar o
contrato com a Administração.
Neste aspecto, também não houve grandes modificações na nova lei de licitações.
A única mudança verificada, adianta-se, foi a de que a desclassificação da empresa cujos preços
ficarem acima do orçado não será automática, sendo possível ao licitante a negociação com o
217
Art. 337-M. Admitir à licitação empresa ou profissional declarado inidôneo: Pena - reclusão, de 1 (um) ano a
3 (três) anos, e multa. § 1º Celebrar contrato com empresa ou profissional declarado inidôneo: Pena - reclusão, de
3 (três) anos a 6 (seis) anos, e multa.
218
CAMARÃO, Tatiana. et al. op. Cit.
219
Art. 36. Constituem infração da ordem econômica, independentemente de culpa, os atos sob qualquer forma
manifestados, que tenham por objeto ou possam produzir os seguintes efeitos, ainda que não sejam alcançados: III
- aumentar arbitrariamente os lucros;
84
particular interessado220. No âmbito das contratações diretas, nada foi previsto sobre essa
possibilidade.
Avançando no tema, um ponto sobre o qual também já havia grande discussão
doutrinária e cuja previsão legislativa era inexistente na LGL era sobre possibilidade de
pagamento antecipado. Com efeito, a LGL nada previa a respeito do tema, restringindo-se a
discussão acerca dessa possibilidade ao âmbito das Cortes de Contas e manuais de direito
administrativo.
O microssistema normativo excepcional aproveitou-se das discussões e
entendimentos já firmados para incluir no ordenamento jurídico a possibilidade de pagamento
antecipado, desde que representasse condição indispensável para obter o bem necessário ou
assegurar a prestação do serviço desejado ou caso propiciasse significativa economia de
recursos.
A modificação, desde que acompanhada das devidas cautelas, já era bem vista por
alguns doutrinadores que defendiam a modernização das licitações e contratos221 e havia grande
potencial para a incorporação do dispositivo na nova lei de licitações, sobretudo porque já eram
diversos entendimentos do TCU a facultar o pagamento antecipado em algumas situações
específicas.222 E de fato, com a aprovação da nova lei de licitações, houve a inclusão dessa
possibilidade de forma duradoura no ordenamento, conforme o que será melhor abordado no
próximo subtópico.
Ainda no que se refere às modificações implementadas durante a pandemia de
Covid-19, merece destaque a possibilidade de utilização do SRP nos casos de dispensa. Como
mencionado no capítulo anterior, não havia, até a pandemia, a possibilidade de utilização do
SRP para os casos de dispensa de licitação. A inclusão dessa alternativa no ordenamento
possibilitou a centralização das compras públicas e ainda uma possível economia de escala por
parte da administração, visto que facultou aos gestores a elaboração de uma única ata de registro
de preços para atender às demandas enfrentadas em todo o país, o que pareceu uma boa
alternativa ao enfrentamento de situações como a retratada neste trabalho. Inclusive, conforme
o que será abordado no próximo tópico, a previsão legal foi incorporada à nova lei de licitações.
220
Art. 61. Definido o resultado do julgamento, a Administração poderá negociar condições mais vantajosas com
o primeiro colocado. § 1º A negociação poderá ser feita com os demais licitantes, segundo a ordem de classificação
inicialmente estabelecida, quando o primeiro colocado, mesmo após a negociação, for desclassificado em razão
de sua proposta permanecer acima do preço máximo definido pela Administração.
221
Como, por exemplo, Marçal Justen Filho.
222
Acórdão n. 1565/2014, TCU.
85
223
TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO; TRANSPARÊNCIA INTERNCIONAL. op. Cit.
86
Muito embora o envio do projeto que daria origem à lei n. 14.133/2021 — nova lei
de licitações — tenha ocorrido antes da pandemia de Covid-19, boa parte de sua tramitação
ocorreu no transcurso de tal evento. À vista disso, a indagação inicial deste trabalho perpassou
sobre a possibilidade de o microssistema normativo desenvolvido na excepcionalidade do
coronavírus ter produzido algum efeito direto na redação final da nova legislação destinada a
regulamentar aspectos gerais de licitações e contratos no país.
Não se pode deixar de observar que o legislador estava atento às mudanças que
estavam ocorrendo em concomitância a tramitação do projeto da nova lei, visto que
224
NAVES, Fernanda de Moura Ribeiro. O controle da transparência das contratações públicas durante a
pandemia. Controle Externo: Revista do Tribunal de Contas do Estado de Goiás, Belo Horizonte, v. 3, n. 2,
p. 35-48, jun. 2020. Anual. Disponível em: [Link]
Acesso em: 10 ago. 2021.
225
CAMARÃO, Tatiana. et al, op. Cit.
87
226
Art. 75. É dispensável a licitação: VIII - nos casos de emergência ou de calamidade pública, quando
caracterizada urgência de atendimento de situação que possa ocasionar prejuízo ou comprometer a continuidade
dos serviços públicos ou a segurança de pessoas, obras, serviços, equipamentos e outros bens, públicos ou
particulares, e somente para aquisição dos bens necessários ao atendimento da situação emergencial ou calamitosa
e para as parcelas de obras e serviços que possam ser concluídas no prazo máximo de 1 (um) ano, contado da data
de ocorrência da emergência ou da calamidade, vedadas a prorrogação dos respectivos contratos e a recontratação
de empresa já contratada com base no disposto neste inciso;
227
BRASIL. Projeto de Lei nº 6814, de 03 de fevereiro de 2017. Institui normas para licitações e contratos da
Administração Pública e revoga a Lei nº 8.666, de 21 de junho de 1993, a Lei nº 10.520, de 17 de julho de 2002,
e dispositivos da Lei nº 12.462, de 4 de agosto de 2011. Brasília, DF, Disponível em:
[Link] Acesso em: 12 ago. 2021.
88
228
Art. 75. É dispensável a licitação: I - para contratação que envolva valores inferiores a R$ 100.000,00 (cem mil
reais), no caso de obras e serviços de engenharia ou de serviços de manutenção de veículos automotores; II - para
contratação que envolva valores inferiores a R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais), no caso de outros serviços e
compras;
229
OLIVEIRA, Rafael Carvalho Rezende de. Nova lei de licitações e contratos administrativo: comparada e
comentada. São Paulo: Forense, 2021.
89
uma flexibilização do entendimento, inclusive por parte dos órgãos de controle, como o TCU,
para permitir, excepcionalmente, a adoção dessa modalidade de pagamento.
Com o advento da pandemia de covid-19 a questão tornou-se ainda mais latente,
visto que alguns fornecedores de suprimentos básicos somente aceitavam firmar contratos cujos
pagamentos ocorressem antecipadamente, conforme o abordado no capítulo anterior.
Neste contexto, por meio da lei n. 14.065/20, admitiu-se que as compras firmadas
durante a pandemia de Covid-19 pudessem se utilizar do pagamento antecipado, desde que
representasse condição indispensável para obter o bem ou assegurar a prestação do serviço ou
propicie-se significativa economia de recursos. Com efeito, a redação da nova lei de licitações
é muito próxima daquela prevista na lei n. 14.065/20 e a pandemia de covid-19 parece ter sido
uma excelente oportunidade, em meio a uma situação fática trágica, para verificar a
aplicabilidade do dispositivo agora incorporado de forma permanente no ordenamento jurídico.
230 231
Por fim, alteração também muito bem vista na nova lei de licitações foi a
possibilidade de utilização do sistema de registro de preços - SRP para os casos de dispensa e
inexigibilidade. 232 Como mencionado no capítulo anterior, a possibilidade de utilização do SRP
para os casos de contratação direta foi prevista pela primeira vez somente com o advento da lei
n. 14.065/2020 e adoção desse mecanismo como ferramenta para o enfrentamento da pandemia
proporcionou uma série de vantagens à Administração, como a centralização das compras e
promoção da economia de escola, de modo que a inclusão dessa possibilidade de forma
permanente na nova lei de licitações concede uma ótima ferramenta para futuras crises a serem
enfrentadas pelos gestores públicos.
230
Art. 145. Não será permitido pagamento antecipado, parcial ou total, relativo a parcelas contratuais vinculadas
ao fornecimento de bens, à execução de obras ou à prestação de serviços. § 1º A antecipação de pagamento somente
será permitida se propiciar sensível economia de recursos ou se representar condição indispensável para a obtenção
do bem ou para a prestação do serviço, hipótese que deverá ser previamente justificada no processo licitatório e
expressamente prevista no edital de licitação ou instrumento formal de contratação direta.
231
OLIVEIRA, op. Cit.
232
Art. 82. O edital de licitação para registro de preços observará as regras gerais desta Lei e deverá dispor sobre:
§ 6º O sistema de registro de preços poderá, na forma de regulamento, ser utilizado nas hipóteses de inexigibilidade
e de dispensa de licitação para a aquisição de bens ou para a contratação de serviços por mais de um órgão ou
entidade.
90
de covid-19. O quadro abaixo sistematiza quais foram os principais pontos incorporados pela
nova lei de licitações:
Nesse cenário, por meio da verificação de que, de fato, a pandemia de covid-19 trouxe
impactos para o aprimoramento do sistema de licitações e contratos, as discussões apresentadas
até esse momento revelam que houve a confirmação da hipótese básica dessa pesquisa, visto
91
que pandemia de covid-19 trouxe diversos impactos para o sistema de contratações públicas
diretas.
Os resultados obtidos demonstraram que os impactos sentidos podem ser divididos em
duas categorias: os temporários e os permanentes. Com relação aos impactos temporários, viu-
se que pandemia de Covid-19 possibilitou o desenvolvimento de um microssistema normativo
destinado a conferir maior segurança jurídica, transparência e possibilitar maior fiscalização às
contratações públicas emergenciais. As diversas modificações sentidas pelo ordenamento
jurídico serviram também para imprimir celeridade na formalização dos contratos e garantir o
atendimento da situação emergencial.
Já os resultados permanentes puderam ser sentidos com o advento da nova lei de
licitações, que incorporou diversos dos mecanismos do quadro excepcional ao ordenamento
regular, à exemplo dos valores para dispensa de licitação e a possibilidade de antecipação dos
pagamentos. Também não se pode deixar de considerar os impactos indiretos resultantes da
pandemia, como, por exemplo, o aprofundamento dos debates entorno do tema, a significativa
produção doutrinária e, ainda, a capacitação e o treinamento dos gestores públicos para o
enfretamento de novas situações semelhantes à atual.
A visto disso, a pandemia de Covid-19 aparenta ter trazidos efeitos positivos para o
aprimoramento do sistema de contratações públicas diretas e, como resultado, entende-se que
o país estará mais preparado para futuras crises que demandem ampla atuação da Administração
Pública.
pesquisa do Banco Mundial, realizada nos meses de maio a agosto de 2020, que contou com
136 contribuições cobrindo 103 países.233
O estudo revelou que os países entrevistados já tinham, em média, 56% dos
procedimentos emergenciais considerados necessários ao enfrentamento da pandemia em vigor,
enquanto que apenas 19% deles não tinham nenhuma previsão legislativa de compras
emergenciais. Os países que tinham maior percentual de normas desse tipo já em vigor foram
também os que fizeram as menores adaptações.234
Os pesquisadores também demonstraram que os países que foram mais afetados por
epidemias anteriores, como de Ebola, SARS ou MERS, estavam mais preparados, em termos
legislativos, para a realização de compras públicas de emergência ao enfrentamento da
pandemia, o que mostra a importância de saber tirar proveito das experiências pretéritas para se
prevenir contra situações similares no futuro.235
Outro fator importante para dar maior agilidade às compras públicas foi a utilização
dos serviços digitais. Isso porque, de acordo com o estudo, os países que já contavam com um
sistema preexistente de compras virtuais tiveram menor dificuldade para adaptar os sistemas de
compras públicas às situações resultantes da pandemia. Contudo, verificou-se que cerca de 59%
dos países investigados ainda não dispunham de sistemas eletrônicos de compras públicas.236
A pesquisa também mostrou que boa parte dos países analisados adotaram medidas
consideradas inéditas e com certo potencial de riscos, tais como: permissão de pagamentos
adiantados, sem contraprestação de garantias (24% dos países); utilização de contratos verbais
(14%); flexibilizações quanto ao volume a data de entrega de mercadorias (38%); menor
conferência das qualificações técnicas ou histórico dos fornecedores (31%); compras realizadas
fora do sistema formal ou regulamentações de compras públicas (27%). Além disso, de maneira
geral, concluiu-se que a transparência e o accountability diminuíram no mundo todo de maneira
geral com relação às compras públicas no período da pandemia, dando espaço para maior
chance de corrupção e fraudes.237
Dentre as principais conclusões da pesquisa, portanto, estão a necessidade de
implementação de medidas perenes para o enfrentamento de situações como a de Covid-19; a
233
BANCO MUNDIAL. Opportunities and Challenges for Public Procurement in the First Months of the COVID-
19 Pandemic: Results From an Experts Survey. Disponível em:
[Link] Acesso em: 15 ago. 2021
234
Ibid.
235
Ibid.
236
Ibid.
237
Ibid.
93
busca pelo aperfeiçoamento dos sistemas de compras públicas para a diminuição de medidas
de alto risco; maior utilização de sistemas eletrônicos (e-government) para dar maior agilidade
às compras públicas; e aumentar a transparência com relação às compras públicas emergenciais
e também a utilização de guias ou treinamentos para capacitação dos administradores
públicos.238
Com as conclusões da pesquisa, verificou-se a importância do aprimoramento do
sistema de contratações públicas para situação de crise e da existência de normativas
permanentes aptas à regulamentarem possíveis e futuras situações de emergência de saúde
pública.
Nesse sentido, demonstrou-se que os países que já possuíam acervo normativo e
regras destinadas a este fim ou que já haviam passado por experiência semelhante foram os que
tiveram melhores resultados nas contratações emergenciais, desdobramento que, em última
análise, evidencia que as lições aprendidas durante a pandemia de covid-19 poderão ser
utilizadas como importante experiência para situações futuras.
238
Ibid.
94
5. CONCLUSÃO
sociedade nos mais diversos campos, inclusive no direito, que é fenômeno em constante
transformação.
97
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99
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