Módulo II
Módulo II
Filosofia
Os quatro grandes períodos da Filosofia grega, nos quais seu conteúdo muda e se
enriquece, são:
Pré-socráticos
Nascimento e
Filósofo Obra
morte
Existem apenas fragmentos de sua
c. 624-556 a.C. Tales de Mileto
obra.
Anaximandro de
c. 610-547 a.C. Fragmentos
Mileto
Anaxímenes de
c. 585-528 a.C. Fragmentos
Mileto
Xenófanes de
c. 570-460 a.C. Fragmentos
Colofão
Parmênides de
c. 515-440 a.C. Fragmentos
Eléia
Filosofia clássica
Nascimento e
Filósofo Obra
morte
Filosofia helenística
Nascimento e
Filósofo Obra
morte
2ª Capítulo: Os Pré-socráticos.
O objeto de reflexão dos primeiros filósofos era a phisis, natureza, em busca do
principio que originou todas as coisas.
Esse primeiro período tem início no alvor do VI século a.C., e termina dois séculos
depois, mais ou menos, nos fins do século V.
Apesar de passar a ideia de que existiram antes de Sócrates, o termo pré-socrático
indica uma tendência de pensamento, estando relacionado também com filósofos que
viveram na mesma época de Sócrates e até mesmo depois dele. Assim, não são
denominados pré-socráticos apenas por estarem situados cronologicamente antes de
Sócrates, mas por terem uma preocupação em comum: a natureza (e não o homem).
Foram chamados de naturalistas, pois procuravam responder a questões do tipo: O que
é a natureza ou qual o fundamento último das coisas?
Foram perguntas como essas que os primeiros filósofos fizeram e para elas
buscaram respostas. Sem dúvida, a religião, as tradições e os mitos explicavam todas
essas coisas, mas suas explicações já não satisfaziam aos que interrogavam sobre as
causas da mudança, da permanência, da repetição, da desaparição e do ressurgimento de
todos os seres. Haviam perdido força explicativa, não convenciam nem satisfaziam a
quem desejava conhecer a verdade sobre o mundo.
Os denominados Pré-socráticos romperam com a visão mítica e religiosa da
natureza que prevalecia na época, adotando uma forma inovadora de pensar.
Contextualizando:
Muito pouco de suas obras está disponível, restando apenas fragmentos, que só
chegaram até nós porque foram citados ou copiados em obras de Filósofos posteriores.
Curiosidade:
O primeiro filósofo em que temos uma obra sistemática e com livros completos é
Platão, depois Aristóteles.
● Afirma que não existe criação do mundo, isto é, nega que o mundo tenha surgido
do nada (como é o caso, por exemplo, na religião judaico-cristã, na qual Deus cria
o mundo do nada). Por isso diz: “Nada vem do nada e nada volta ao nada”. Isto
significa: a) que o mundo, ou a Natureza, é eterno; b) que no mundo, ou na
Natureza, tudo se transforma em outra coisa sem jamais desaparecer, embora a
forma particular que uma coisa possua desapareça com ela, mas não sua matéria.
● O fundo eterno, perene, imortal, de onde tudo nasce e para onde tudo volta é
invisível para os olhos do corpo e visível somente para o olho do espírito, isto é,
para o pensamento.
● O fundo eterno, perene, imortal e imperecível de onde tudo brota e para onde tudo
retorna é o elemento primordial da Natureza e chama-se physis (em grego, physis
vem de um verbo que significa fazer surgir, fazer brotar, fazer nascer, produzir).
A physis é a Natureza eterna e em perene transformação.
● Afirma que, embora a physis (o elemento primordial eterno) seja imperecível, ela
dá origem a todos os seres infinitamente variados e diferentes do mundo, seres
que, ao contrário do princípio gerador, são perecíveis ou mortais.
● Afirma que todos os seres, além de serem gerados e de serem mortais, são seres
em contínua transformação, mudando de qualidade (por exemplo, o branco
amarelece, acinzenta, enegrece; o negro acinzenta, embranquece; o novo
envelhece; o quente esfria; o frio esquenta; o seco fica úmido; o úmido seca; o dia
se torna noite; a noite se torna dia; a primavera cede lugar ao verão, que cede lugar
ao outono, que cede lugar ao inverno; o saudável adoece; o doente se cura; a
criança cresce; a árvore vem da semente e produz sementes, etc.) e mudando de
quantidade (o pequeno cresce e fica grande; o grande diminui e fica pequeno; o
longe fica perto se eu for até ele, ou se as coisas distantes chegarem até mim, um
rio aumenta de volume na cheia e diminui na seca, etc.). Portanto o mundo está
em mudança contínua, sem por isso perder sua forma, sua ordem e sua
estabilidade.
Tales de Mileto
A Escola Jônica recebe este nome por se desenvolver na colônia grega Jônia, na
Ásia Menor, local onde hoje é a Turquia. Seus principais filósofos foram: Tales de Mileto,
Anaxímenes de Mileto, Anaximandro de Mileto e Heráclito de Éfeso. Pensavam sobre o
elemento primeiro, chegando a conclusões diferentes. Para Tales, o elemento que forma
todas as coisas é a Água. Para Anaximandro, o elemento é o Ápeiron, aquilo que é
ilimitado e que possibilita a união e separação dos diferentes corpos. Para Anaxímenes,
o elemento é o Ar. De acordo com Heráclito, o elemento que representa a natureza das
coisas é o fogo. Apesar das diferenças sobre qual seria o elemento primeiro, os filósofos
da Escola Jônica pensavam o mundo como algo em movimento, a água que congela e
evapora, o ápeiron que não pode ser determinado e não é estático, o ar nada palpável e o
fogo que está sempre em movimento e transformando o que queima.
[Link]
Pitágoras de Samos
[Link]
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Contextualizando:
Embora diversos destes filósofos tenham escrito mais sobre outros assuntos do
que sobre a natureza das coisas, como é o caso de Demócrito que escreveu sobre ética, é
o questionar-se sobre a natureza das coisas que os une neste período. A partir do século
VII a.C., há uma revolução monetária da Grécia, e advêm a ela inovações científicas. Isso
colaborou com uma nova forma de pensar, mais racional.
[Link]
3ª Capítulo: Sócrates
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Sócrates (470 a 399 a.C.) nasceu e viveu em Atenas, provavelmente no ano de 470
aC, onde assistiu ao apogeu e à decadência da democracia. Filho de uma parteira e de um
escultor, o pensador teve a oportunidade de conhecer a obra de Homero, além de dominar
as doutrinas de Parmênides, Zenão e Heráclito.
Tornou-se um dos principais pensadores da Grécia Antiga. Podemos afirmar que
Sócrates fundou o que conhecemos hoje por filosofia ocidental. Seus primeiros estudos
e pensamentos discorrem sobre a essência da natureza da alma humana.
Sócrates era considerado pelos seus contemporâneos um dos homens mais sábios
e inteligentes. Em seus pensamentos, demonstra uma necessidade grande de levar o
conhecimento para os cidadãos gregos.
Sócrates e os Sofistas
Ora, para conseguir que a sua opinião fosse aceita nas assembléias, o cidadão
precisava saber falar e ser capaz de persuadir. Com isso, uma mudança profunda vai
ocorrer na educação grega.
Para dar aos jovens essa educação, substituindo a educação antiga dos poetas,
surgiram, na Grécia, os sofistas, que são os primeiros filósofos do período socrático. Os
sofistas mais importantes foram: Protágoras de Abdera, Górgias de Leontini e Isócrates
de Atenas.
Entretanto, Sócrates discordava deste grupo por não aprovar a filosofia como
instrumento de retórica e persuasão política para os cidadãos que podiam pagar por tal
conhecimento.
Para ele, a Filosofia era, por excelência, uma reflexão profunda de conceitos tidos
como inquestionáveis: a coragem, a justiça, a sabedoria, entre outros. Era preciso
combater as opiniões originárias do senso comum para se obter o verdadeiro
conhecimento.
Contextualizando:
Discordando dos antigos poetas, dos antigos filósofos e dos sofistas, o que
propunha Sócrates? Propunha que, antes de querer conhecer a Natureza e antes de querer
persuadir os outros, cada um deveria, primeiro e antes de tudo, conhecer-se a si mesmo.
A expressão “conhece-te a ti mesmo” que estava gravada no pórtico do templo de Apolo,
patrono grego da sabedoria, tornou-se a divisa de Sócrates.
Método socrático
Sócrates e seus alunos, de Johann Friedrich Greuter (obra datada do século XVII).
Sua filosofia era desenvolvida mediante diálogos críticos com seus interlocutores,
divididos em dois momentos básicos: a ironia (do grego eironeia, “perguntar fingindo
ignorar”) e a maiêutica (do grego maieutiké, a “arte do parto”). O método consistia em,
por meio do diálogo, fazer um interlocutor discorrer sobre determinado assunto que ele
acreditasse dominar, para dirigi-lo à contradição e demonstrar sua real ignorância sobre o
assunto referido. Sócrates não enunciava teorias, mas fazia perguntas e analisava
respostas sucessivamente, mostrando a seu interlocutor as contradições daquilo que
estava falando. A única afirmação com certeza que ele fazia era: “só sei que nada sei”.
Dessa maneira, Sócrates procurava mostrar para seu interlocutor o quanto “pensamos”
que sabemos, quando, na verdade, sabemos muito pouco. Não interessa se falamos bonito,
mas se sabemos sobre o que estamos falando. Assim, a questão do conhecimento passava
a ser o próprio ser humano.
Sendo assim, Sócrates fazia perguntas sobre as idéias, sobre os valores nos quais
os gregos acreditavam e que julgavam conhecer. Suas perguntas deixavam os
interlocutores embaraçados, irritados, curiosos, pois, quando tentavam responder ao
célebre “o que é?”, descobriam, surpresos, que não sabiam responder e que nunca tinham
pensado em suas crenças, seus valores e suas idéias.
Filosofia de Sócrates
O que Sócrates, um homem que andava pelas ruas e praças de Atenas, pelo
mercado e pela assembléia, indagava as pessoas? “Você sabe o que é isso que você está
dizendo?”, “Você sabe o que é isso em que você acredita?”, “Você acha que está
conhecendo realmente aquilo em que acredita, aquilo em que está pensando, aquilo que
está dizendo?”, “Você diz”, falava Sócrates, “que a coragem é importante, mas: o que é a
coragem? Você acredita que a justiça é importante, mas: o que é a justiça? Você diz que
ama as coisas e as pessoas belas, mas o que é a beleza? Você crê que seus amigos são a
melhor coisa que você tem, mas: o que é a amizade?”
As pessoas esperavam que Sócrates respondesse por elas ou para elas, que
soubesse as respostas às perguntas, como os sofistas pareciam saber, mas Sócrates, para
desconcerto geral, dizia: “Eu também não sei, por isso estou perguntando”.
Por isso, Sócrates não perguntava se tal ou qual coisa era bela - pois nossa opinião
sobre ela pode variar, e sim: O que é a beleza? Qual é a essência ou o conceito do belo?
Do justo? Do amor? Da amizade? Sócrates perguntava: Que razões rigorosas você possui
para dizer o que diz e para pensar o que pensa? Qual é o fundamento racional daquilo que
você fala e pensa? Ora, as perguntas de Sócrates se referiam a idéias, valores, práticas e
comportamentos que os atenienses julgavam certos e verdadeiros em si mesmos e por si
mesmos. Ao fazer suas perguntas e suscitar dúvidas, Sócrates os fazia pensar não só sobre
si mesmos, mas também sobre a polis. Aquilo que parecia evidente acabava sendo
percebido como duvidoso e incerto.
Contextualizando:
OPINIÃO X CONCEITO
Condenação de Sócrates
Sócrates não foi muito bem aceito por parte da aristocracia grega, pois defendia
algumas ideias contrárias ao funcionamento da sociedade grega. Criticou muitos aspectos
da cultura grega, afirmando que muitas tradições, crenças religiosas e costumes não
ajudavam no desenvolvimento intelectual dos cidadãos gregos.
Sabemos que os poderosos têm medo do pensamento, pois o poder é mais forte se
ninguém pensar, se todo mundo aceitar as coisas como elas são, ou melhor, como nos
dizem e nos fazem acreditar que elas são.
[Link]
Mesmo conseguindo mostrar o absurdo das acusações que lhe foram feitas, de que
ofendia os deuses e corrompia a juventude, Sócrates não fugiu de sua pena de morte, por
achar que a lei era soberana e que não podia negar tudo o que tinha defendido ao longo
de sua vida. Levado perante a assembléia, Sócrates não se defendeu; rodeado por seus
discípulos em sua cela, foi condenado a suicidar-se tomando um veneno chamado cicuta,
em 399 a.C.
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Por que Sócrates não se defendeu? “Porque ”, dizia ele, “se eu me defender, estarei
aceitando as acusações, e eu não as aceito. Se eu me defender, o que os juízes vão exigir
de mim? Que eu pare de filosofar. Mas eu prefiro a morte a ter que renunciar à Filosofia”.
O julgamento e a morte de Sócrates são narrados por Platão numa obra intitulada
Apologia de Sócrates, isto é, a defesa de Sócrates, feita por seus discípulos, contra Atenas.
Contextualizando:
Em 1964 o Brasil viveu um golpe militar, os anos que se seguirão ao golpe foi
marcado por violência intolêrancia e ausência de Direitos humanos. Para se manter no
poder uma das primeiras medidas educacionais tomadas pelos militares foi extinguir o
ensino de filosofia e sociologia nas escolas, colocando no seu lugar disciplinas como
cidadania, moral e direitos cívicos. O objetivo era claro e análogo ao que ocorreu com
Sócrates na Grécia Antiga: medo do pensamento – dificultar que as pessoas tenham
acesso ao pensamento, pois assim a dominação seria mais fácil e eficiente. Ao invés de
pensar com filosofia os estudantes seriam doutrinados a admirar os ideais dos ditadores
através de disciplinas como cidadania que incentivava há um nacionalismo inconsistente,
infundado e radical.
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4ª Capítulo: Platão e o Mundo das Ideias
Platão
Platão torna-se seguidor e discípulo de Sócrates.É devido aos seus escritos, como
A apologia de Sócrates, O banquete e A república, entre outros, que sabemos do
pensamento de Só[Link]ão foi o seu discípulo mais famoso e com ele a filosofia
passou a se preocupar ainda mais com o homem.
Contextualizando:
Após a morte de Sócrates, seus seguidores se dispersaram, pois não podiam mais
confiar na democracia ateniense como antes. Por estar desencantado com a política de
Atenas, Platão empreendeu uma série de [Link] pelo rei Dionísio, passa um
bom tempo em Siracusa, ensinando filosofia na corte. Conhecer outras cidades e outros
governos fez aumentar ainda mais o conhecimento desse jovem filósofo, que contava com
29 anos quando Sócrates foi condenado à morte.
O pensamento platônico
Platão é considerado um dos principais pensadores gregos, pois influenciou
profundamente a filosofia ocidental. Influenciado pela maiêutica de Sócrates, Platão
preocupava-se em obter a verdade e, para isso, elaborou uma teoria acerca das ideias.A
famosa "teoria das formas" – com freqüência, erradamente traduzida por teoria das
idéias – é a mais importante contribuição platônica à filosofia.
Essa teoria parte do princípio de que existem dois mundos: o sensível e o das
ideias. O mundo sensível é aquele referente aos sentidos, enquanto o mundo das ideias
se localiza na razão humana. Ou ainda, conforme o próprio Platão, o mundo sensível
refere-se ao corpo, portanto é passível de perecimento, enquanto o mundo das ideias
referia-se à alma imortal.
Perceba que a teoria elaborada por Platão há mais de dois mil anos está mais atual
do que nunca. De acordo com Platão, a educação seria a fonte principal para formar os
filósofos. Isso significa que a educação seria capaz de retirar a pessoa do “mundo das
sombras” e levá-la ao encontro da “luz do conhecimento”. E como nós nos colocamos
diante dessa questão? Será que nos esforçamos para sair do “mundo das sombras” e
procuramos conhecer as coisas como elas realmente são? Platão e Sócrates tiveram o
mérito de provocar o ser humano para a questão do conhecimento e, nesse sentido, eles
são bastante atuais.
O mito da caverna
Imaginemos uma caverna subterrânea onde, desde a infância, geração após geração,
seres humanos estão aprisionados. Suas pernas e seus pescoços estão algemados de tal
modo que são forçados a permanecer sempre no mesmo lugar e a olhar apenas para
frente, não podendo girar a cabeça nem para trás nem para os lados. A entrada da
caverna permite que alguma luz exterior ali penetre, de modo que se possa, na semi-
obscuridade, enxergar o que se passa no interior.
A luz que ali entra provém de uma imensa e alta fogueira externa. Entre ela e os
prisioneiros - no exterior, portanto - há um caminho ascendente ao longo do qual foi
erguida uma mureta, como se fosse a parte fronteira de um palco de marionetes. Ao longo
dessa mureta-palco, homens transportam estatuetas de todo tipo, com figuras de seres
humanos, animais e todas as coisas.
Por causa da luz da fogueira e da posição ocupada por ela, os prisioneiros enxergam na
parede do fundo da caverna as sombras das estatuetas transportadas, mas sem poderem
ver as próprias estatuetas, nem os homens que as transportam.
Como jamais viram outra coisa, os prisioneiros imaginam que as sombras vistas são as
próprias coisas. Ou seja, não podem saber que são sombras, nem podem saber que são
imagens (estatuetas de coisas), nem que há outros seres humanos reais fora da caverna.
Também não podem saber que enxergam porque há a fogueira e a luz no exterior e
imaginam que toda luminosidade possível é a que reina na caverna.
Que aconteceria, indaga Platão, se alguém libertasse os prisioneiros? Que faria um
prisioneiro libertado? Em primeiro lugar, olharia toda a caverna, veria os outros seres
humanos, a mureta, as estatuetas e a fogueira. Embora dolorido pelos anos de
imobilidade, começaria a caminhar, dirigi ndo-se à entrada da caverna e, deparando
com o caminho ascendente, nele adentraria.
Num primeiro momento, ficaria completamente cego, pois a fogueira na verdade é a luz
do sol e ele ficaria inteiramente ofuscado por ela. Depois, acostumando-se com a
claridade, veria os homens que transportam as estatuetas e, prosseguindo no caminho,
enxergaria as próprias coisas, descobrindo que, durante toda sua vida, não vira senão
sombras de imagens (as sombras das estatuetas projetadas no fundo da caverna) e que
somente agora está contemplando a própria realidade.
Libertado e conhecedor do mundo, o prisioneiro regressaria à caverna, ficaria
desnorteado pela escuridão, contaria aos outros o que viu e tentaria libertá-los. Que lhe
aconteceria nesse retorno? Os demais prisioneiros zombariam dele, não acreditariam em
suas palavras e, se não conseguissem silenciá-lo com suas caçoadas, tentariam fazê-lo
espancando-o e, se mesmo assim, ele teimasse em afirmar o que viu e os convidasse a
sair da caverna, certamente acabariam pómatá-lo. Mas, quem sabe, alguns poderiam
ouvi-lo e, contra a vontade dos demais, também decidissem sair da caverna rumo à
realidade. O que é a caverna? O mundo em que vivemos. Que são as sombras das
estatuetas? As coisas materiais e sensoriais que percebemos. Quem é o prisioneiro que
se liberta e sai da caverna? O filósofo. O que é a luz exterior do sol? A luz da verdade.
O que é o mundo exterior? O mundo das idéias verdadeiras ou da verdadeira realidade.
Qual o instrumento que liberta o filósofo e com o qual ele deseja libertar os outros
prisioneiros? A dialética. O que é a visão do mundo real iluminado? A Filosofia. Por que
os prisioneiros zombam, espancam e matam o filósofo (Platão está se referindo à
condenação de Sócrates à morte pela assembléia ateniense)? Porque imaginam que o
mundo sensível é o mundo real e o único verdadeiro.
Convite à Filosofia
Mito da Caverna
[Link]
5ª Capítulo: Aristóteles
Aristóteles
Período sistemático
Com Aristóteles tem início o período sistemá[Link] período tem como principal
nome o filósofo Aristóteles de Estagira, discípulo de Platão. Passados quase quatro
séculos de Filosofia, Aristóteles apresenta, nesse período,uma verdadeira enciclopédia de
todo o saber que foi produzido e acumulado pelos gregos em todos os ramos do
pensamento e da prática considerando essa totalidade de saberes como sendo a Filosofia.
Esta, portanto, não é um saber específico sobre algum assunto, mas uma forma de
conhecer todas as coisas,possuindo procedimentos diferentes para cada campo de coisas
que conhece.
A lógica não é uma ciência, mas o instrumento para a ciência e, por isso, na
classificação das ciências feita por Aristóteles, a lógica não aparece, embora ela seja
indispensável para a Filosofia e, mais tarde, tenha se tornado um dos ramos específicos
dela.
● Ciências práticas: ciências que estudam as práticas humanas enquanto ações que
têm nelas mesmas seu próprio fim, isto é, a finalidade da ação se realiza nela
mesma, é o próprio ato realizado. São elas: ética, em que a ação é realizada pela
vontade guiada pela razão para alcançar o bem do indivíduo, sendo este bem as
virtudes morais (coragem, generosidade, fidelidade, lealdade,
clemência,prudência, amizade, justiça, modéstia, honradez, temperança, etc.); e
política, em que a ação é realizada pela vontade guiada pela razão para ter como
fim o bem da comunidade ou o bem [Link] Aristóteles, como para todo
grego da época clássica, a política é superior à ética, pois a verdadeira liberdade,
sem a qual não pode haver vida virtuosa, só é conseguida na polis. Por isso, a
finalidade da política é a vida justa, a vida boa e bela, a vida livre.
Trata-se daquilo que deve haver em toda e qualquer realidade, seja ela natural,
matemática, ética, política ou técnica, para ser realidade. É o que Aristóteles chama de
ser ou substância de tudo o que existe. A ciência teórica que estuda o puro ser chama-
se metafísica; ciência teórica das coisas divinas que são a causa e a finalidade de tudo o
que existe na Natureza e no homem. Vimos que as coisas divinas são chamadas de
theion e, por isso, esta última ciência chama-se teologia. A Filosofia, para Aristóteles,
encontra seu ponto mais alto na metafísica e na teologia, de onde derivam todos os
outros conhecimentos.
[Link]
Alexandre e Aristóteles.
[Link]
(...) Para Platão, o grau máximo de realidade está em pensarmos com a razão. Para Aristóteles,
ao contrário, era evidente que o grau máximo de realidade está em percebermos ou sentirmos
com os sentidos. Platão considera tudo o que vemos ao nosso redor na natureza meros reflexos
de algo que existe no mundo das ideias e, por conseguinte, também na alma humana. Aristóteles
achava exatamente o contrário: o que existe na alma humana nada mais é do que reflexos dos
objetos da natureza. Para Aristóteles, Platão foi prisioneiro de uma visão mítica do mundo, que
confundia as ideias dos homens com a realidade do mundo.
O mundo de Sofia. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p. 122-123.
Assim sendo, o filósofo deve buscar o conhecimento daquilo que realmente existe
partindo de conceitos que exprimem nossas ideias sobre o mundo sensível. E, para não
cair no mesmo jogo de palavras que os sofistas faziam, faz-se necessário realizar uma
classificação das palavras, pois elas formam as afirmações que conduzem ao
conhecimento.
As palavras são classificadas por categorias e estas são cerca de 10: substância,
quantidade, qualidade, ação, paixão, relação, lugar, tempo, posição e estado.
Texto complementar:
Havia em Florença um gigantesco bloco de mármore que havia sido esboçado por
Agostino de Duccio, mas que foi abandonado antes de se transformar em escultura. Dois
artistas disputavam a honra de esculpir o bloco para transformá-lo em uma obra de arte:
Leonardo da Vinci e Andrea Sansovino. Mas seria Michelangelo quem ficaria
responsável pela tarefa, devido à sua já consagrada fama de genial escultor por causa
de seu Baco e de sua Pietà (esculpida aos vinte e três anos).
Michelangelo esculpiu Davi nesta enorme rocha de mármore, entre os anos de 1501-
1504, como uma das mais belas representações do corpo humano da história da arte. A
escultura, um colossal adolescente de mais de quatro metros e meio de altura, foi
colocado no centro da cidade de Florença para admiração pública. A nudez do Davi
acabou despertando a ira pudica dos Florentinos que várias vezes o apedrejaram.
Aretino, que criticou a indecência e as liberdades anticlássicas do Juízo Final, pediu ao
artista, em 1545, que cobrisse com folhas de parra em ouro as partes vergonhosas do seu
belo colosso.
Se para os outros a escultura era uma imagem pagã, para Michelangelo tratava-se da
mais perfeita forma criada por Deus: o corpo masculino. Como anotou Romain Rolland,
"para este criador de formas admiráveis, que era simultaneamente um piedoso crente,
um belo corpo era algo de divino ― um belo corpo era o próprio Deus surgindo sob o
véu da carne".
Essa crença do artista na ideia de que é no corpo humano que a beleza divina melhor se
manifesta é comprovada nos versos que Michelangelo dedicou a seu amante Cavaliere,
quando diz que: "em nenhum lugar Deus se mostra mais a mim em sua graça do que em
alguma bela forma humana; e só isso amo, pois nisso Ele se espelha".
Para o Renascimento o grande escultor seria aquele que pela habilidade técnica
produzisse o simulacro, a ilusão de que a vida habitava o mármore.
Uma última questão: Platão e Aristóteles, cada qual à sua maneira, desenvolveram
a ideia de que existe uma essência humana universal e, portanto, todas as pessoas tendem
a fazer aquilo que é inerente ao ser humano; quando, por alguma razão, isso não acontece,
a explicação possível é que ocorreu um acidente que, aliás, deve ser consertado. Segundo
afirmam Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins,
Para Platão (...), a verdadeira realidade encontra-se no mundo das ideias, lugar da
essência imutável de todas as coisas. Todos os seres são apenas cópias de tais arquétipos
e se aperfeiçoam à medida que se aproximam desse modelo ideal. Assim, mesmo existindo
inúmeros tipos de pessoas, a ideia de humanidade é uma e imutável.
Para Aristóteles (...), todo ser tende a tornar atual a forma que tem em potência. Por
exemplo: a semente, quando enterrada, transforma-se no carvalho que era apenas em
potência. Quando essa ideia é transposta para os seres humanos, conclui-se que também
eles têm formas em potência a serem atualizadas, ou seja, a sua natureza essencial se
realiza aos poucos, em direção ao pleno desenvolvimento daquilo que eles devem ser.
Tanto para Platão como para Aristóteles, a plenitude humana coincide com o
aperfeiçoamento da razão.
Temas de Filosofia. 3. ed. rev. São Paulo: Moderna, 2005, p. 38.
Chamamos essa filosofia de essencialista, sendo ela uma corrente muito presente nos
dias atuais.
Este afresco é um dos clássicos do Renascimento. Pintado por Rafael, entre 1509 e 1510,
retrata os principais filósofos da Antiguidade Clássica, tendo ao centro Platão (apontando para
o alto, isto é, para o “mundo das ideias”) e Aristóteles (apontando para o chão, ou seja, para o
mundo material perceptível pelos sentidos). As posições diferentes das mãos dos personagens
centrais da obra indicam a divergência que havia entre eles quanto à questão do conhecimento
verdadeiro.
Período helenístico
Trata-se do último período da Filosofia antiga, quando a polis grega desapareceu
como centro político, deixando de ser referência principal dos filósofos, uma vez que a
Grécia encontra-se sob o poderio do Império Romano. Os filósofos dizem, agora, que o
mundo é sua cidade e que são cidadãos do mundo. Em grego, mundo se diz cosmos e
esse período é chamado o da Filosofia cosmopolita.
Datam desse período quatro grandes sistemas cuja influência será sentida pelo
pensamento cristão, que começa a formar-se nessa época: estoicismo, epicurismo,
ceticismo e neoplatonismo. A amplidão do Império Romano, a presença crescente de
religiões orientais no Império, os contatos comerciais e culturais entre ocidente e oriente
fizeram aumentar os contatos dos filósofos helenistas com a sabedoria oriental.
Podemos falar numa orientalização da Filosofia, sobretudo nos aspectos místicos e
religiosos.
REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
CHARLOT, B. Da relação com o saber: elementos para uma teoria. Trad. B. Magne.
Porto Alegre: Artmed,
2000.
CHAUÍ, M. Primeira filosofia: aspectos da história da filosofia. São Paulo: Brasiliense,
1987.
CYRINO, H. & PENHA, C. Filosofia hoje. 2. ed. Campinas: Papirus, 1992.
Os pré-socráticos. São Paulo: Abril Cultural, 2000. p. 96. Coleção “Os pensadores”.