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Módulo II

O documento aborda a história da filosofia na Grécia, dividindo-a em períodos que refletem suas principais preocupações e indagações. Os períodos incluem o pré-socrático, socrático, sistemático e helenístico, cada um focando em diferentes aspectos da natureza e do ser humano. Os pré-socráticos, em particular, romperam com explicações míticas e buscaram entender a origem e a natureza do mundo através de uma abordagem racional.

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Módulo II

O documento aborda a história da filosofia na Grécia, dividindo-a em períodos que refletem suas principais preocupações e indagações. Os períodos incluem o pré-socrático, socrático, sistemático e helenístico, cada um focando em diferentes aspectos da natureza e do ser humano. Os pré-socráticos, em particular, romperam com explicações míticas e buscaram entender a origem e a natureza do mundo através de uma abordagem racional.

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Módulo II e III

Filosofia

Prof. Dr. Hugo Brandão

Rio Largo, 2025

1ª Capítulo: Filosofia na Antiguidade


Filosofia Grega
Acrópole de Atenas com o Partenon no topo. Atenas foi uma das mais influentes
e importantes cidades-estado grega.

A Filosofia terá, no correr dos séculos, um conjunto de preocupações, indagações


e interesses que lhe vieram de seu nascimento na Grécia.

Assim, antes de vermos que campos são esses, examinemos brevemente os


conteúdos que a Filosofia possuía na Grécia. Para isso, devemos, primeiro, conhecer os
períodos principais da Filosofia grega, pois tais períodos definiram os campos da
investigação filosófica na Antigüidade.
O Partenon

A história da Grécia costuma ser dividida pelos historiadores em quatro grandes


fases ou épocas:

1. a da Grécia homérica, correspondente aos 400 anos narrados pelo poeta


Homero, em seus dois grandes poemas, Ilíada e Odisséia;

2. a da Grécia arcaica ou dos sete sábios, do século VII ao século V antes de


Cristo, quando os gregos criam cidades como Atenas, Esparta, Tebas, Megara, Samos,
etc., e predomina a economia urbana, baseada no artesanato e no comércio;

3. a da Grécia clássica, nos séculos V e IV antes de Cristo, quando a democracia


se desenvolve, a vida intelectual e artística entra no apogeu e Atenas domina a Grécia
com seu império comercial e militar;

4. e, finalmente, a época helenística, a partir do final do século IV antes de Cristo,


quando a Grécia passa para o poderio do império de Alexandre da Macedônia, e, depois,
para as mãos do Império Romano, terminando a história de sua existência independente.
Os períodos da Filosofia não correspondem exatamente a essas épocas, já que ela
não existe na Grécia homérica e só aparece nos meados da Grécia arcaica.

Entretanto, o apogeu da Filosofia acontece durante o apogeu da cultura e da


sociedade gregas; portanto, durante a Grécia clássica.

Os quatro grandes períodos da Filosofia grega, nos quais seu conteúdo muda e se
enriquece, são:

1. Período pré-socrático ou cosmológico, do final do século VII ao final do


século V a.C., quando a Filosofia se ocupa fundamentalmente com a origem do mundo e
as causas das transformações na Natureza.

2. Período socrático ou antropológico, do final do século V e todo o século IV


a.C., quando a Filosofia investiga as questões humanas, isto é, a ética, a política e as
técnicas (em grego, ântropos quer dizer homem; por isso o período recebeu o nome de
antropológico).

3. Período sistemático, do final do século IV ao final do século III a.C., quando


a Filosofia busca reunir e sistematizar tudo quanto foi pensado sobre a cosmologia e a
antropologia, interessando-se, sobretudo, em mostrar que tudo pode ser objeto do
conhecimento filosófico, desde que as leis do pensamento e de suas demonstrações
estejam firmemente estabelecidas para oferecer os critérios da verdade e da ciência
(alguns autores que este período também faz parte do período socrático).

4. Período helenístico ou greco-romano, do final do século III a.C. até o século


VI depois de Cristo. Nesse longo período, que já alcança Roma e o pensamento dos
primeiros Padres da Igreja, a Filosofia se ocupa sobretudo com as questões da ética, do
conhecimento humano e das relações entre o homem e a Natureza e de ambos com Deus.

Pré-socráticos

Nascimento e
Filósofo Obra
morte
Existem apenas fragmentos de sua
c. 624-556 a.C. Tales de Mileto
obra.

Anaximandro de
c. 610-547 a.C. Fragmentos
Mileto

Anaxímenes de
c. 585-528 a.C. Fragmentos
Mileto

c. 580-497 a.C. Pitágoras Fragmentos

Xenófanes de
c. 570-460 a.C. Fragmentos
Colofão

c. 540-470 a.C. Heráclito de Éfeso Fragmentos

Parmênides de
c. 515-440 a.C. Fragmentos
Eléia

c. 500-428 a.C. Anaxágoras Fragmentos

c. 490-430 a.C. Zenão de Eléia Fragmentos

c. 485-415 Protágoras Fragmentos

Filosofia clássica

Nascimento e
Filósofo Obra
morte

Não escreveu. Conhecemos suas


469-399 a.C. Sócrates
idéias por meio de Platão.

O Banquete; A república, Protágoras,


427-347 a. C. Platão
Fédon

A Política, Organon, Ética a


384-322 a. C. Aristóteles
Nicômano, Retórica

Filosofia helenística
Nascimento e
Filósofo Obra
morte

341-270 a.C. Epicuro Cartas, Aforismos

334-262 a. C. Zenão de Cício República

320-230 a.C. Tímon de Flio Sátiras, Sobre as Sensações

Da República, Sobre a Velhice, Sobre


106-43 a.C. Cícero
o Destino

99-55 a.C. Lucrécio Da Natureza

Diálogos, Espístolas Morais,


4 a.C.-65 d.C Sêneca
Questões Naturais

55-135 Epícteto Discursos, Manual

121-180 Marco Aurélio Meditações

205-270 Plotino Enéadas

2ª Capítulo: Os Pré-socráticos.
O objeto de reflexão dos primeiros filósofos era a phisis, natureza, em busca do
principio que originou todas as coisas.

No estudo da história da filosofia, os primeiros filósofos são chamados de pré-


socráticos, os que vieram antes de Sócrates, considerado um divisor de águas na
filosofia, assim, a denominação cronológica de período pré-socrático, porque precede
Sócrates e os sofistas, que marcam uma mudança e um desenvolvimento e, por
conseguinte, o começo de um novo período na história do pensamento grego.

Esse primeiro período tem início no alvor do VI século a.C., e termina dois séculos
depois, mais ou menos, nos fins do século V.
Apesar de passar a ideia de que existiram antes de Sócrates, o termo pré-socrático
indica uma tendência de pensamento, estando relacionado também com filósofos que
viveram na mesma época de Sócrates e até mesmo depois dele. Assim, não são
denominados pré-socráticos apenas por estarem situados cronologicamente antes de
Sócrates, mas por terem uma preocupação em comum: a natureza (e não o homem).
Foram chamados de naturalistas, pois procuravam responder a questões do tipo: O que
é a natureza ou qual o fundamento último das coisas?

Foram perguntas como essas que os primeiros filósofos fizeram e para elas
buscaram respostas. Sem dúvida, a religião, as tradições e os mitos explicavam todas
essas coisas, mas suas explicações já não satisfaziam aos que interrogavam sobre as
causas da mudança, da permanência, da repetição, da desaparição e do ressurgimento de
todos os seres. Haviam perdido força explicativa, não convenciam nem satisfaziam a
quem desejava conhecer a verdade sobre o mundo.
Os denominados Pré-socráticos romperam com a visão mítica e religiosa da
natureza que prevalecia na época, adotando uma forma inovadora de pensar.

Contextualizando:

O primeiro filósofo grego que se concentrou na análise do ser humano foi


Sócrates, já no século V a.C.

Aquilo que une os filósofos pré-socráticos é a preocupação em perguntar e


compreender a natureza do mundo – a physis. Queriam entender a origem, aquilo que
originou todas as coisas, o princípio delas. Logo, O primeiro período do pensamento
grego toma a denominação substancial de período naturalista, porque a nascente
especulação dos filósofos é instintivamente voltada para o mundo exterior, julgando-se
encontrar aí também o princípio unitário de todas as coisas.

Os filósofos deste período preocuparam-se quase exclusivamente com os


problemas cosmológicos. Estudar o mundo exterior nos elementos que o constituem, na
sua origem e nas contínuas mudanças a que está sujeito, é a grande questão que dá a este
período seu caráter de unidade.

Explicar a origem do mundo de forma racional é a função da cosmologia (“estudo


do mundo”), que substituiu a cosmogonia (explicação do mundo por meio dos mitos).
Para os filósofos pré-socráticos, a grande questão era saber como por meio do caos
(desordem) foi possível a criação do cosmos (mundo). Esses pensadores acreditavam que
o princípio, em grego, arché, de todas as coisas seria a razão explicativa para a ocorrência
dessa transformação.

Muito pouco de suas obras está disponível, restando apenas fragmentos, que só
chegaram até nós porque foram citados ou copiados em obras de Filósofos posteriores.

Curiosidade:
O primeiro filósofo em que temos uma obra sistemática e com livros completos é
Platão, depois Aristóteles.

As principais características da cosmologia são:

● É uma explicação racional e sistemática sobre a origem, ordem e transformação


da Natureza, da qual os seres humanos fazem parte, de modo que, ao explicar a
Natureza, a Filosofia também explica a origem e as mudanças dos seres humanos.

● Afirma que não existe criação do mundo, isto é, nega que o mundo tenha surgido
do nada (como é o caso, por exemplo, na religião judaico-cristã, na qual Deus cria
o mundo do nada). Por isso diz: “Nada vem do nada e nada volta ao nada”. Isto
significa: a) que o mundo, ou a Natureza, é eterno; b) que no mundo, ou na
Natureza, tudo se transforma em outra coisa sem jamais desaparecer, embora a
forma particular que uma coisa possua desapareça com ela, mas não sua matéria.

● O fundo eterno, perene, imortal, de onde tudo nasce e para onde tudo volta é
invisível para os olhos do corpo e visível somente para o olho do espírito, isto é,
para o pensamento.

● O fundo eterno, perene, imortal e imperecível de onde tudo brota e para onde tudo
retorna é o elemento primordial da Natureza e chama-se physis (em grego, physis
vem de um verbo que significa fazer surgir, fazer brotar, fazer nascer, produzir).
A physis é a Natureza eterna e em perene transformação.

● Afirma que, embora a physis (o elemento primordial eterno) seja imperecível, ela
dá origem a todos os seres infinitamente variados e diferentes do mundo, seres
que, ao contrário do princípio gerador, são perecíveis ou mortais.

● Afirma que todos os seres, além de serem gerados e de serem mortais, são seres
em contínua transformação, mudando de qualidade (por exemplo, o branco
amarelece, acinzenta, enegrece; o negro acinzenta, embranquece; o novo
envelhece; o quente esfria; o frio esquenta; o seco fica úmido; o úmido seca; o dia
se torna noite; a noite se torna dia; a primavera cede lugar ao verão, que cede lugar
ao outono, que cede lugar ao inverno; o saudável adoece; o doente se cura; a
criança cresce; a árvore vem da semente e produz sementes, etc.) e mudando de
quantidade (o pequeno cresce e fica grande; o grande diminui e fica pequeno; o
longe fica perto se eu for até ele, ou se as coisas distantes chegarem até mim, um
rio aumenta de volume na cheia e diminui na seca, etc.). Portanto o mundo está
em mudança contínua, sem por isso perder sua forma, sua ordem e sua
estabilidade.

Suas teorias se contrapunham às explicações mitológicas, que se baseavam na


ideia da criação do mundo a partir do nada. Porém, é importante ressaltar que a passagem
do pensamento mítico para o racional-lógico se deu de maneira lenta, pois é possível
encontrar resquícios de mitologia nos filósofos pré-socráticos. Pois, os primeiros filósofos
percebendo as contradições e limitações dos mitos, foi reformulando e racionalizando as
narrativas míticas, transformando-as numa outra coisa, numa explicação inteiramente
nova e diferente.

Pelo modo de encarar e resolver, classificam-se os filósofos que nele floresceram


em quatro escolas: Escola Jônica, Escola Itálica, Escola Eleática, Escola Atomística; de
acordo com o local e problemas discutidos por seus pensadores.
[Link]

Tales de Mileto

A Escola Jônica recebe este nome por se desenvolver na colônia grega Jônia, na
Ásia Menor, local onde hoje é a Turquia. Seus principais filósofos foram: Tales de Mileto,
Anaxímenes de Mileto, Anaximandro de Mileto e Heráclito de Éfeso. Pensavam sobre o
elemento primeiro, chegando a conclusões diferentes. Para Tales, o elemento que forma
todas as coisas é a Água. Para Anaximandro, o elemento é o Ápeiron, aquilo que é
ilimitado e que possibilita a união e separação dos diferentes corpos. Para Anaxímenes,
o elemento é o Ar. De acordo com Heráclito, o elemento que representa a natureza das
coisas é o fogo. Apesar das diferenças sobre qual seria o elemento primeiro, os filósofos
da Escola Jônica pensavam o mundo como algo em movimento, a água que congela e
evapora, o ápeiron que não pode ser determinado e não é estático, o ar nada palpável e o
fogo que está sempre em movimento e transformando o que queima.
[Link]

Mapa da antiga Jônia, no lado oriental do mar Egeu.


[Link]

Pitágoras de Samos

A Escola Itálica se desenvolveu no sul da Itália. O filósofo principal desta escola


foi Pitágoras de Samos. Nascido na ilha de Samos, foi na península itálica, na cidade de
Crotona, onde ele desenvolveu suas ideias. Pensou serem os números as essências das
coisas. Suas investigações da física e matemática eram misturadas com misticismo. São
atribuídos aos discípulos de Pitágoras, os pitagóricos, diversas descobertas matemáticas.
Foi Pitágoras o responsável pela criação da palavra filosofia (amizade pela sabedoria) ao
chamar a si mesmo de filósofo (amigo da sabedoria).
[Link]

O pentagrama era o símbolo da Escola Pitagórica.

A Escola Eleática se desenvolveu na cidade de Eléia, ao sul da Itália. Seus


principais filósofos foram Xenófanes de Cólofon, Parmênides de Eleia e Zenão de Eleia.
Apesar de não ter nascido em Eleia, Xenófanes se estabeleceu na cidade após levar uma
vida andando de povoado em povoado. A ideia principal ensinada por Xenófanes e
posteriormente trabalhada por Parmênides é a ideia de Um. Xenófanes pensava no Um
a partir de um pensamento mais voltado à religião, dizendo que Deus é Um, não foi feito,
é eterno, perfeito e não se modifica. Em oposição à Escola Jônica, Parmênides pensa que
o mundo é formado por um Ser-Absoluto, que não foi feito, é eterno, perfeito e não se
modifica. Contra a ideia de movimento, Zenão desenvolveu argumentações que foram e
são muito discutidas. Entre elas está a ideia de que uma flecha em vôo sempre ocupa o
seu espaço de flecha, logo a flecha está em repouso e todo movimento é uma ilusão.
A Escola Atomística, ou atomismo, desenvolveu-se a partir da ideia de que são
vários os elementos que formam as coisas. A ideia de átomo (a = negação e tomos =
divisão, ou seja, aquilo que não pode ser dividido) foi desenvolvida por Leucipo de
Mileto e depois trabalhada por Demócrito de Abdera e Epicuro de Samos. Para
Leucipo, o mundo é formado a partir do choque aleatório e imprevisível de infinitos
átomos.

[Link]
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Demócrito, maior expoente da corrente atomística.

Contextualizando:

Os pré-socráticos inspiraram a interpretação de filósofos contemporâneos como


Nietzsche, que nos iluminou com a sua obra A filosofia na época trágica dos Gregos e
Hegel, que aplicou seu sistema na história da filosofia.

Embora diversos destes filósofos tenham escrito mais sobre outros assuntos do
que sobre a natureza das coisas, como é o caso de Demócrito que escreveu sobre ética, é
o questionar-se sobre a natureza das coisas que os une neste período. A partir do século
VII a.C., há uma revolução monetária da Grécia, e advêm a ela inovações científicas. Isso
colaborou com uma nova forma de pensar, mais racional.

[Link]

Heraclito de Efeso, o obscuro.

3ª Capítulo: Sócrates
[Link]

Rosto de Sócrates exposto no Museu do Louvre.

Diferentemente dos pré-socráticos, Sócrates, interessava-se mais pelos problemas


do ser humano e da sociedade, pois considerava que explicar a origem e a verdade das
coisas através de objetos materiais era absurdo.

Sócrates (470 a 399 a.C.) nasceu e viveu em Atenas, provavelmente no ano de 470
aC, onde assistiu ao apogeu e à decadência da democracia. Filho de uma parteira e de um
escultor, o pensador teve a oportunidade de conhecer a obra de Homero, além de dominar
as doutrinas de Parmênides, Zenão e Heráclito.
Tornou-se um dos principais pensadores da Grécia Antiga. Podemos afirmar que
Sócrates fundou o que conhecemos hoje por filosofia ocidental. Seus primeiros estudos
e pensamentos discorrem sobre a essência da natureza da alma humana.

Sócrates era considerado pelos seus contemporâneos um dos homens mais sábios
e inteligentes. Em seus pensamentos, demonstra uma necessidade grande de levar o
conhecimento para os cidadãos gregos.

Conhecemos seus pensamentos e ideias através das obras de dois de seus


discípulos: Platão e Xenofontes. Infelizmente, Sócrates não deixou por escrito seus
pensamentos.

Por fazer do autoconhecimento ou do conhecimento que os homens têm de si


mesmos a condição de todos os outros conhecimentos verdadeiros, é que se diz que o
período socrático é antropológico, isto é, voltado para o conhecimento do homem,
particularmente de seu espírito e de sua capacidade para conhecer a verdade.

Sócrates e os Sofistas

Com o desenvolvimento das cidades, do comércio, do artesanato e das artes


militares, Atenas tornou-se o centro da vida social, política e cultural da Grécia, vivendo
seu período de esplendor, conhecido como o Século de Péricles.

É a época de maior florescimento da democracia. A democracia grega possuía,


entre outras, duas características de grande importância para o futuro da Filosofia. Em
primeiro lugar, a democracia afirmava a igualdade de todos os homens adultos perante
as leis e o direito de todos de participar diretamente do governo da cidade, da polis. Em
segundo lugar, e como conseqüência, a democracia, sendo direta e não por eleição de
representantes, garantia a todos a participação no governo, e os que dele participavam
tinham o direito de exprimir, discutir e defender em público suas opiniões sobre as
decisões que a cidade deveria tomar. Surgia, assim, a figura política do cidadão.
Contextualizando:

Devemos observar que estavam excluídos da cidadania o que os gregos


chamavam de dependentes: mulheres, escravos, crianças e velhos. Também estavam
excluídos os estrangeiros.

Ora, para conseguir que a sua opinião fosse aceita nas assembléias, o cidadão
precisava saber falar e ser capaz de persuadir. Com isso, uma mudança profunda vai
ocorrer na educação grega.

Busto de Sócrates no Museu do Vaticano.

Quando não havia democracia, mas dominavam as famílias aristocráticas,


senhoras das terras, o poder lhes pertencia. Essas famílias, valendo-se dos dois grandes
poetas gregos, Homero e Hesíodo, criaram um padrão de educação, próprio dos
aristocratas. Esse padrão afirmava que o homem ideal ou perfeito era o guerreiro belo e
bom. Belo: seu corpo era formado pela ginástica, pela dança e pelos jogos de guerra,
imitando os heróis da guerra de Tróia (Aquiles, Heitor, Ájax, Ulisses). Bom: seu espírito
era formado escutando Homero e Hesíodo, aprendendo as virtudes admiradas pelos
deuses e praticadas pelos heróis, a principal delas sendo a coragem diante da morte, na
guerra.

A virtude era a Arete (excelência e superioridade), própria dos melhores, os


aristoi. Quando, porém, a democracia se instala e o poder vai sendo retirado dos
aristocratas, esse ideal educativo ou pedagógico também vai sendo substituído por outro.
O ideal da educação do Século de Péricles é a formação do cidadão. A Arete é a virtude
cívica. Ora, qual é o momento em que o cidadão mais aparece e mais exerce sua
cidadania? Quando opina, discute, delibera e vota nas assembléias. Assim, a nova
educação estabelece como padrão ideal a formação do bom orador, isto é, aquele que
saiba falar em público e persuadir os outros na política.

Para dar aos jovens essa educação, substituindo a educação antiga dos poetas,
surgiram, na Grécia, os sofistas, que são os primeiros filósofos do período socrático. Os
sofistas mais importantes foram: Protágoras de Abdera, Górgias de Leontini e Isócrates
de Atenas.

Que diziam e faziam os sofistas? Diziam que os ensinamentos dos filósofos


cosmologistas estavam repletos de erros e contradições e que não tinham utilidade para a
vida da polis. Apresentavam-se como mestres de oratória ou de retórica, afirmando ser
possível ensinar aos jovens tal arte para que fossem bons cidadãos. Que arte era esta? A
arte da persuasão. Os sofistas ensinavam técnicas de persuasão para os jovens, que
aprendiam a defender a posição ou opinião A, depois a posição ou opinião contrária, não-
A, de modo que, numa assembléia, soubessem ter fortes argumentos a favor ou contra
uma opinião e ganhassem a discussão.
Os sofistas ensinavam aos cidadãos as técnicas da oratória e da retórica, ou seja,
ensinavam seus alunos a falar bem e usar essa fala para convencer seus interlocutores,
afirmando serem estes os instrumentos fundamentais do conhecimento. A preocupação
dos sofistas estava centrada na figura humana, e não na natureza humana. Protágoras
chegou o afirmar que “o homem é a medida de todas as coisas”.

Entretanto, Sócrates discordava deste grupo por não aprovar a filosofia como
instrumento de retórica e persuasão política para os cidadãos que podiam pagar por tal
conhecimento.

O filósofo Sócrates, considerado o patrono da Filosofia, rebelou-se contra os


sofistas, dizendo que não eram filósofos, pois não tinham amor pela sabedoria nem
respeito pela verdade, defendendo qualquer idéia, se isso fosse vantajoso. Corrompiam o
espírito dos jovens, pois faziam o erro e a mentira valer tanto quanto a verdade.

Para ele, a Filosofia era, por excelência, uma reflexão profunda de conceitos tidos
como inquestionáveis: a coragem, a justiça, a sabedoria, entre outros. Era preciso
combater as opiniões originárias do senso comum para se obter o verdadeiro
conhecimento.

Como homem de seu tempo, Sócrates concordava com os sofistas em um ponto:


por um lado, a educação antiga do guerreiro belo e bom já não atendia às exigências da
sociedade grega, e, por outro lado, os filósofos cosmologistas defendiam idéias tão
contrárias entre si que também não eram uma fonte segura para o conhecimento
verdadeiro.

Contextualizando:

Historicamente, há dificuldade para conhecer o pensamento dos grandes sofistas


porque não possuímos seus textos. Restaram fragmentos apenas. Por isso, nós os
conhecemos pelo que deles disseram seus adversários - Platão, Xenofonte, Aristóteles -
e não temos como saber se estes foram justos com aqueles. Os historiadores mais recentes
consideram os sofistas verdadeiros representantes do espírito democrático, isto é, da
pluralidade conflituosa de opiniões e interesses, enquanto seus adversários seriam
partidários de uma política aristocrática, na qual somente algumas opiniões e interesses
teriam o direito para valer para o restante da sociedade.

Discordando dos antigos poetas, dos antigos filósofos e dos sofistas, o que
propunha Sócrates? Propunha que, antes de querer conhecer a Natureza e antes de querer
persuadir os outros, cada um deveria, primeiro e antes de tudo, conhecer-se a si mesmo.
A expressão “conhece-te a ti mesmo” que estava gravada no pórtico do templo de Apolo,
patrono grego da sabedoria, tornou-se a divisa de Sócrates.

Método socrático

De que maneira o homem pode atingir o verdadeiro conhecimento foi a grande


meta de Sócrates. Seu método de transmissão de conhecimentos e sabedoria consistia na
dialética – diálogo. Através da palavra, o filósofo tentava levar o conhecimento sobre as
coisas do mundo e do ser humano.
[Link]

Sócrates e seus alunos, de Johann Friedrich Greuter (obra datada do século XVII).

Sua filosofia era desenvolvida mediante diálogos críticos com seus interlocutores,
divididos em dois momentos básicos: a ironia (do grego eironeia, “perguntar fingindo
ignorar”) e a maiêutica (do grego maieutiké, a “arte do parto”). O método consistia em,
por meio do diálogo, fazer um interlocutor discorrer sobre determinado assunto que ele
acreditasse dominar, para dirigi-lo à contradição e demonstrar sua real ignorância sobre o
assunto referido. Sócrates não enunciava teorias, mas fazia perguntas e analisava
respostas sucessivamente, mostrando a seu interlocutor as contradições daquilo que
estava falando. A única afirmação com certeza que ele fazia era: “só sei que nada sei”.
Dessa maneira, Sócrates procurava mostrar para seu interlocutor o quanto “pensamos”
que sabemos, quando, na verdade, sabemos muito pouco. Não interessa se falamos bonito,
mas se sabemos sobre o que estamos falando. Assim, a questão do conhecimento passava
a ser o próprio ser humano.

Sendo assim, Sócrates fazia perguntas sobre as idéias, sobre os valores nos quais
os gregos acreditavam e que julgavam conhecer. Suas perguntas deixavam os
interlocutores embaraçados, irritados, curiosos, pois, quando tentavam responder ao
célebre “o que é?”, descobriam, surpresos, que não sabiam responder e que nunca tinham
pensado em suas crenças, seus valores e suas idéias.

Filosofia de Sócrates

O que Sócrates, um homem que andava pelas ruas e praças de Atenas, pelo
mercado e pela assembléia, indagava as pessoas? “Você sabe o que é isso que você está
dizendo?”, “Você sabe o que é isso em que você acredita?”, “Você acha que está
conhecendo realmente aquilo em que acredita, aquilo em que está pensando, aquilo que
está dizendo?”, “Você diz”, falava Sócrates, “que a coragem é importante, mas: o que é a
coragem? Você acredita que a justiça é importante, mas: o que é a justiça? Você diz que
ama as coisas e as pessoas belas, mas o que é a beleza? Você crê que seus amigos são a
melhor coisa que você tem, mas: o que é a amizade?”

As pessoas esperavam que Sócrates respondesse por elas ou para elas, que
soubesse as respostas às perguntas, como os sofistas pareciam saber, mas Sócrates, para
desconcerto geral, dizia: “Eu também não sei, por isso estou perguntando”.

A consciência da própria ignorância é o começo da Filosofia. Assim, Sócrates,


procurava a definição daquilo que uma coisa, uma idéia, um valor é verdadeiramente.
Procurava a essência verdadeira da coisa, da idéia, do valor. Procurava o conceito e não
a mera opinião que temos de nós mesmos, das coisas, das idéias e dos valores.

Por isso, Sócrates não perguntava se tal ou qual coisa era bela - pois nossa opinião
sobre ela pode variar, e sim: O que é a beleza? Qual é a essência ou o conceito do belo?
Do justo? Do amor? Da amizade? Sócrates perguntava: Que razões rigorosas você possui
para dizer o que diz e para pensar o que pensa? Qual é o fundamento racional daquilo que
você fala e pensa? Ora, as perguntas de Sócrates se referiam a idéias, valores, práticas e
comportamentos que os atenienses julgavam certos e verdadeiros em si mesmos e por si
mesmos. Ao fazer suas perguntas e suscitar dúvidas, Sócrates os fazia pensar não só sobre
si mesmos, mas também sobre a polis. Aquilo que parecia evidente acabava sendo
percebido como duvidoso e incerto.

Contextualizando:
OPINIÃO X CONCEITO

Qual a diferença entre uma opinião e um conceito? A opinião varia de pessoa


para pessoa, de lugar para lugar, de época para época. É instável, mutável, depende de
cada um, de seus gostos e preferências. O conceito, ao contrário, é uma verdade
intemporal, universal e necessária que o pensamento descobre, mostrando que é a
essência universal, intemporal e necessária de alguma coisa.

Condenação de Sócrates

Sócrates não foi muito bem aceito por parte da aristocracia grega, pois defendia
algumas ideias contrárias ao funcionamento da sociedade grega. Criticou muitos aspectos
da cultura grega, afirmando que muitas tradições, crenças religiosas e costumes não
ajudavam no desenvolvimento intelectual dos cidadãos gregos.

Em função de suas ideias inovadoras para a sociedade, começa a atrair a atenção


de muitos jovens atenienses. Suas qualidades de orador e sua inteligência, também
colaboraram para o aumento de sua popularidade. Temendo algum tipo de mudança na
sociedade, a elite mais conservadora de Atenas começa a encarar Sócrates como um
inimigo público e um agitador em potencial.

Sabemos que os poderosos têm medo do pensamento, pois o poder é mais forte se
ninguém pensar, se todo mundo aceitar as coisas como elas são, ou melhor, como nos
dizem e nos fazem acreditar que elas são.
[Link]

Para os poderosos de Atenas, Sócrates tornara-se um perigo, pois fazia a juventude


pensar. Por isso, eles o prenderam e o acusaram de desrespeitar os deuses, corromper
os jovens e violar as leis.

Mesmo conseguindo mostrar o absurdo das acusações que lhe foram feitas, de que
ofendia os deuses e corrompia a juventude, Sócrates não fugiu de sua pena de morte, por
achar que a lei era soberana e que não podia negar tudo o que tinha defendido ao longo
de sua vida. Levado perante a assembléia, Sócrates não se defendeu; rodeado por seus
discípulos em sua cela, foi condenado a suicidar-se tomando um veneno chamado cicuta,
em 399 a.C.
[Link]

"A Morte de Sócrates", por Jacques-Louis David (1787)

Por que Sócrates não se defendeu? “Porque ”, dizia ele, “se eu me defender, estarei
aceitando as acusações, e eu não as aceito. Se eu me defender, o que os juízes vão exigir
de mim? Que eu pare de filosofar. Mas eu prefiro a morte a ter que renunciar à Filosofia”.
O julgamento e a morte de Sócrates são narrados por Platão numa obra intitulada
Apologia de Sócrates, isto é, a defesa de Sócrates, feita por seus discípulos, contra Atenas.

Contextualizando:

Os poderosos temem o conhecimento

Em 1964 o Brasil viveu um golpe militar, os anos que se seguirão ao golpe foi
marcado por violência intolêrancia e ausência de Direitos humanos. Para se manter no
poder uma das primeiras medidas educacionais tomadas pelos militares foi extinguir o
ensino de filosofia e sociologia nas escolas, colocando no seu lugar disciplinas como
cidadania, moral e direitos cívicos. O objetivo era claro e análogo ao que ocorreu com
Sócrates na Grécia Antiga: medo do pensamento – dificultar que as pessoas tenham
acesso ao pensamento, pois assim a dominação seria mais fácil e eficiente. Ao invés de
pensar com filosofia os estudantes seriam doutrinados a admirar os ideais dos ditadores
através de disciplinas como cidadania que incentivava há um nacionalismo inconsistente,
infundado e radical.

Exemplo propício ao nosso entendimento encontra-se na nossa infância; não tão


distante éramos “obrigados” a cantar o hino nacional em pátios ou em salas com postura
de respeito e olhos, normalmente, fixos no astiamento da bandeira nacional. Isso é um
exemplo de uma prática comum que é reflexo da política ideológica dos militares,
objetivando a doutrinação e aceitação por parte das crianças ao regime militar –
fortalecendo os ideais nacionalistas e, assim, mantendo o poder nas mãos daqueles que
praticaram diversos crimes contra a democracia e os direitos humanos, com praticas de
torturas e perseguição política.

[Link]
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Crianças cantando o hino nacional em escola brasileira.

Os ditadores anulavam a reflexão, proibindo o ensino de filosofia e sociologia, e


doutrinavam as crianças e adolescentes a aceitarem as práticas desumanas do regime
militar sobre o pretexto do amor a naca, incentivando a um nacionalismo radical e
imaturo como foi demonstrado no exemplo acima.
O pensamento sempre foi o temor dos poderosos, basta por exemplo conferir a
história da Revolução Chinesa onde ocorreu a Revolução Cultural, demonstrando a
preocupação do ditador com os rumos da educação e sua eficiência para manutenção do
poder.

=
4ª Capítulo: Platão e o Mundo das Ideias

Platão

Este importante filósofo grego nasceu em Atenas, provavelmente em 427 a.C. e


morreu em 347 [Link] de uma família de aristocratas – uma das mais tradicionais
famílias dessa cidade-estado – começou seus trabalhos filosóficos após estabelecer
contato com outro importante pensador grego: Sócrates.

Platão torna-se seguidor e discípulo de Sócrates.É devido aos seus escritos, como
A apologia de Sócrates, O banquete e A república, entre outros, que sabemos do
pensamento de Só[Link]ão foi o seu discípulo mais famoso e com ele a filosofia
passou a se preocupar ainda mais com o homem.

Contextualizando:

Praticamente todos os escritos de Platão foram feitos em forma de diálogo, à maneira


de seu mestre. Sócrates, inclusive, é o personagem principal de muitos desses diálogos.
Além de Sócrates, Platão teve outras influências, como por exemplo, os
pitagóricos, Heráclito e Parmênides. Sua filosofia contém, basicamente, dois elementos:
o metafísico e o moral.

Após a morte de Sócrates, seus seguidores se dispersaram, pois não podiam mais
confiar na democracia ateniense como antes. Por estar desencantado com a política de
Atenas, Platão empreendeu uma série de [Link] pelo rei Dionísio, passa um
bom tempo em Siracusa, ensinando filosofia na corte. Conhecer outras cidades e outros
governos fez aumentar ainda mais o conhecimento desse jovem filósofo, que contava com
29 anos quando Sócrates foi condenado à morte.

Retornando posteriormente a Atenas, fundou nos arredores da pólis uma escola


chamada Academia – uma escola de filosofia com o propósito de recuperar e desenvolver
as idéias e pensamentos socráticos – onde escreveu e ensinou até a sua morte. Foi na
Academia que Platão recebeu o mais importante dos seus discípulos, Aristóteles de
Estagira.

O pensamento platônico
Platão é considerado um dos principais pensadores gregos, pois influenciou
profundamente a filosofia ocidental. Influenciado pela maiêutica de Sócrates, Platão
preocupava-se em obter a verdade e, para isso, elaborou uma teoria acerca das ideias.A
famosa "teoria das formas" – com freqüência, erradamente traduzida por teoria das
idéias – é a mais importante contribuição platônica à filosofia.

A principal característica do pensamento platônico encontra-se na sua teoria do


conhecimento. Segundo Platão, o mundo sensível (o que se apreende pelos sentidos),
variado e mutável, é apenas um aspecto do mundo real, constituído por formas puras,
fixas e imutáveis que só podem ser conhecidas intelectualmente, através da razão pura.

Essa teoria parte do princípio de que existem dois mundos: o sensível e o das
ideias. O mundo sensível é aquele referente aos sentidos, enquanto o mundo das ideias
se localiza na razão humana. Ou ainda, conforme o próprio Platão, o mundo sensível
refere-se ao corpo, portanto é passível de perecimento, enquanto o mundo das ideias
referia-se à alma imortal.

Sendo assim, Platão afirmava ser necessário ao filósofo desvendar a fundo o


mundo das ideias, também conhecido como mundo inteligível, pois ele é que comporta a
verdade. Para o verdadeiro conhecimento humano, pouco importa aquilo que é
apreendido pelos sentidos, pois é a razão a única e exclusiva fonte de sabedoria, todavia
que os sentidos são falsos e fonte de enganos.
Reminiscência das almas
Platão, como os pitagóricos, acreditava que a alma já existia antes do corpo,
continuava a existir após a morte e posteriormente entrava em novo corpo prestes a
nascer. Em estado puro, era a alma capaz de contemplar sem obstáculos o Mundo das
Formas ou Ideias; ao adentrar um novo corpo, porém, ocorria um choque e produzia-se
o esquecimento. Mas, traços dessa contemplação permaneciam no espírito e podiam ser
eventualmente reativados. Para conhecer, portanto, era preciso relembrar.
Pitágoras, pormenor d'A escola de Atenas de Raffaello Sanzio (1509).

A forma suprema é a do Bem, capaz de tornar compreensíveis todas as demais. O


verdadeiro conhecimento é o conhecimento do Bem. O filósofo, de todos o mais apto a
adquirir esse conhecimento, é consequentemente o mais apto a governar a pólis ideal.
Platão, em detalhe da Escola de Atenas, de Rafael Sanzio (c. 1510). Satanza della
Segnatura. Palácio Apostólico, Vaticano.

Idéias de Platão para a educação


Platão valorizava os métodos de debate e conversação como formas de alcançar o
conhecimento. De acordo com Platão, os alunos deveriam descobrir as coisas superando
os problemas impostos pela vida. A educação deveria funcionar como forma de
desenvolver o homem moral. A educação deveria dedicar esforços para o
desenvolvimento intelectual e físico dos alunos. Aulas de retórica, debates, educação
musical, geometria, astronomia e educação militar. Para os alunos de classes menos
favorecidas.

Perceba que a teoria elaborada por Platão há mais de dois mil anos está mais atual
do que nunca. De acordo com Platão, a educação seria a fonte principal para formar os
filósofos. Isso significa que a educação seria capaz de retirar a pessoa do “mundo das
sombras” e levá-la ao encontro da “luz do conhecimento”. E como nós nos colocamos
diante dessa questão? Será que nos esforçamos para sair do “mundo das sombras” e
procuramos conhecer as coisas como elas realmente são? Platão e Sócrates tiveram o
mérito de provocar o ser humano para a questão do conhecimento e, nesse sentido, eles
são bastante atuais.

O mito da caverna
Imaginemos uma caverna subterrânea onde, desde a infância, geração após geração,
seres humanos estão aprisionados. Suas pernas e seus pescoços estão algemados de tal
modo que são forçados a permanecer sempre no mesmo lugar e a olhar apenas para
frente, não podendo girar a cabeça nem para trás nem para os lados. A entrada da
caverna permite que alguma luz exterior ali penetre, de modo que se possa, na semi-
obscuridade, enxergar o que se passa no interior.
A luz que ali entra provém de uma imensa e alta fogueira externa. Entre ela e os
prisioneiros - no exterior, portanto - há um caminho ascendente ao longo do qual foi
erguida uma mureta, como se fosse a parte fronteira de um palco de marionetes. Ao longo
dessa mureta-palco, homens transportam estatuetas de todo tipo, com figuras de seres
humanos, animais e todas as coisas.
Por causa da luz da fogueira e da posição ocupada por ela, os prisioneiros enxergam na
parede do fundo da caverna as sombras das estatuetas transportadas, mas sem poderem
ver as próprias estatuetas, nem os homens que as transportam.
Como jamais viram outra coisa, os prisioneiros imaginam que as sombras vistas são as
próprias coisas. Ou seja, não podem saber que são sombras, nem podem saber que são
imagens (estatuetas de coisas), nem que há outros seres humanos reais fora da caverna.
Também não podem saber que enxergam porque há a fogueira e a luz no exterior e
imaginam que toda luminosidade possível é a que reina na caverna.
Que aconteceria, indaga Platão, se alguém libertasse os prisioneiros? Que faria um
prisioneiro libertado? Em primeiro lugar, olharia toda a caverna, veria os outros seres
humanos, a mureta, as estatuetas e a fogueira. Embora dolorido pelos anos de
imobilidade, começaria a caminhar, dirigi ndo-se à entrada da caverna e, deparando
com o caminho ascendente, nele adentraria.
Num primeiro momento, ficaria completamente cego, pois a fogueira na verdade é a luz
do sol e ele ficaria inteiramente ofuscado por ela. Depois, acostumando-se com a
claridade, veria os homens que transportam as estatuetas e, prosseguindo no caminho,
enxergaria as próprias coisas, descobrindo que, durante toda sua vida, não vira senão
sombras de imagens (as sombras das estatuetas projetadas no fundo da caverna) e que
somente agora está contemplando a própria realidade.
Libertado e conhecedor do mundo, o prisioneiro regressaria à caverna, ficaria
desnorteado pela escuridão, contaria aos outros o que viu e tentaria libertá-los. Que lhe
aconteceria nesse retorno? Os demais prisioneiros zombariam dele, não acreditariam em
suas palavras e, se não conseguissem silenciá-lo com suas caçoadas, tentariam fazê-lo
espancando-o e, se mesmo assim, ele teimasse em afirmar o que viu e os convidasse a
sair da caverna, certamente acabariam pómatá-lo. Mas, quem sabe, alguns poderiam
ouvi-lo e, contra a vontade dos demais, também decidissem sair da caverna rumo à
realidade. O que é a caverna? O mundo em que vivemos. Que são as sombras das
estatuetas? As coisas materiais e sensoriais que percebemos. Quem é o prisioneiro que
se liberta e sai da caverna? O filósofo. O que é a luz exterior do sol? A luz da verdade.
O que é o mundo exterior? O mundo das idéias verdadeiras ou da verdadeira realidade.
Qual o instrumento que liberta o filósofo e com o qual ele deseja libertar os outros
prisioneiros? A dialética. O que é a visão do mundo real iluminado? A Filosofia. Por que
os prisioneiros zombam, espancam e matam o filósofo (Platão está se referindo à
condenação de Sócrates à morte pela assembléia ateniense)? Porque imaginam que o
mundo sensível é o mundo real e o único verdadeiro.
Convite à Filosofia

Mito da Caverna
[Link]
5ª Capítulo: Aristóteles

Aristóteles

Período sistemático
Com Aristóteles tem início o período sistemá[Link] período tem como principal
nome o filósofo Aristóteles de Estagira, discípulo de Platão. Passados quase quatro
séculos de Filosofia, Aristóteles apresenta, nesse período,uma verdadeira enciclopédia de
todo o saber que foi produzido e acumulado pelos gregos em todos os ramos do
pensamento e da prática considerando essa totalidade de saberes como sendo a Filosofia.
Esta, portanto, não é um saber específico sobre algum assunto, mas uma forma de
conhecer todas as coisas,possuindo procedimentos diferentes para cada campo de coisas
que conhece.

Além de a Filosofia ser o conhecimento da totalidade dos conhecimentos e


práticas humanas, ela também estabelece uma diferença entre esses conhecimentos,
distribuindo-os numa escala que vai dos mais simples e inferiores aos mais complexos e
superiores. Essa classificação e distribuição dos conhecimentos fixou, para o pensamento
ocidental, os campos de investigação da Filosofia como totalidade do saber humano. Cada
saber, no campo que lhe é próprio, possui seu objeto específico, procedimentos
específicos para sua aquisição e exposição, formas próprias de demonstração e prova.

Cada campo do conhecimento é uma ciência (ciência, em grego, é episteme).


Aristóteles afirma que, antes de um conhecimento constituir seu objeto e seu campo
próprios, seus procedimentos próprios de aquisição e exposição, de demonstração e de
prova, deve, primeiro, conhecer as leis gerais que governam o pensamento,
independentemente do conteúdo que possa vir a ter.O estudo das formas gerais do
pensamento, sem preocupação com seu conteúdo,chama-se lógica, e Aristóteles foi o
criador da lógica como instrumento do conhecimento em qualquer campo do saber.

A lógica não é uma ciência, mas o instrumento para a ciência e, por isso, na
classificação das ciências feita por Aristóteles, a lógica não aparece, embora ela seja
indispensável para a Filosofia e, mais tarde, tenha se tornado um dos ramos específicos
dela.

Os campos do conhecimento filosófico

Vejamos, pois, a classificação aristotélica:

● Ciências produtivas: ciências que estudam as práticas produtivas ou as técnicas,


isto é, as ações humanas cuja finalidade está para além da própria ação, pois a
finalidade é a produção de um objeto, de uma obra. São elas: arquitetura (cujo fim
é a edificação de alguma coisa), economia (cujo fim é a produção agrícola, o
artesanato e o comércio, isto é, produtos para a sobrevivência e para o acúmulo de
riquezas), medicina (cujo fim é produzir a saúde ou a cura), pintura,escultura,
poesia, teatro, oratória, arte da guerra, da caça, da navegação, etc. Em suma, todas
as atividades humanas técnicas e artísticas que resultam num produto ou numa
obra.

● Ciências práticas: ciências que estudam as práticas humanas enquanto ações que
têm nelas mesmas seu próprio fim, isto é, a finalidade da ação se realiza nela
mesma, é o próprio ato realizado. São elas: ética, em que a ação é realizada pela
vontade guiada pela razão para alcançar o bem do indivíduo, sendo este bem as
virtudes morais (coragem, generosidade, fidelidade, lealdade,
clemência,prudência, amizade, justiça, modéstia, honradez, temperança, etc.); e
política, em que a ação é realizada pela vontade guiada pela razão para ter como
fim o bem da comunidade ou o bem [Link] Aristóteles, como para todo
grego da época clássica, a política é superior à ética, pois a verdadeira liberdade,
sem a qual não pode haver vida virtuosa, só é conseguida na polis. Por isso, a
finalidade da política é a vida justa, a vida boa e bela, a vida livre.

● Ciências teoréticas, contemplativas ou teóricas: são aquelas que estudam coisas


que existem independentemente dos homens e de suas ações e que, não tendo sido
feitas pelos homens, só podem ser contempladas por eles. Theoria, em grego,
significa contemplação da verdade. O que são as coisas que existem por si mesmas
e em si mesmas, independentes de nossa ação fabricadora (técnica) e de nossa
ação moral e política? São as coisas da Natureza e as coisas divinas.

Aristóteles, aqui, classifica também por graus de superioridade as ciências


teóricas, indo da mais inferior à superior: ciência das coisas naturais submetidas à
mudança ou ao devir: física, biologia, meteorologia, psicologia (pois a alma, que em
grego se diz psychê, é um ser natural, existindo de formas variadas em todos os seres
vivos, plantas, animais e homens); ciência das coisas naturais que não estão submetidas
à mudança ou ao devir: as matemáticas e a astronomia (os gregos julgavam que os
astros eram eternos e imutáveis); ciência da realidade pura, que não é nem natural
mutável, nem natural imutável, nem resultado da ação humana, nem resultado da
fabricação humana.

Trata-se daquilo que deve haver em toda e qualquer realidade, seja ela natural,
matemática, ética, política ou técnica, para ser realidade. É o que Aristóteles chama de
ser ou substância de tudo o que existe. A ciência teórica que estuda o puro ser chama-
se metafísica; ciência teórica das coisas divinas que são a causa e a finalidade de tudo o
que existe na Natureza e no homem. Vimos que as coisas divinas são chamadas de
theion e, por isso, esta última ciência chama-se teologia. A Filosofia, para Aristóteles,
encontra seu ponto mais alto na metafísica e na teologia, de onde derivam todos os
outros conhecimentos.

A partir da classificação aristotélica, definiu-se, no correr dos séculos, o grande


campo da investigação filosófica, campo que só seria desfeito no século XIX da nossa
era, quando as ciências particulares se foram separando do tronco geral da Filosofia.

[Link]

Alexandre e Aristóteles.

Aristóteles (384-322 a.C.) nasceu em Estagira, atual Macedônia, e foi o mais


ilustre discípulo de Platão. Seu pai, Nicômaco, foi médico do rei Filipe da Macedônia
que, por sua vez, era o pai de Alexandre, o Grande (realizador de um dos maiores
impérios da história da humanidade), de quem Aristóteles foi professor. Em 340 a.C.,
alguns anos após a morte de seu mestre, Aristóteles fundou em Atenas a sua própria
escola, chamada Liceu. Em 323 a.C., ano da morte de Alexandre Magno, Aristóteles foi
levado ao tribunal por motivos religiosos. Foi condenado, mas, ao contrário de Sócrates,
aceitou o banimento e morreu no ano seguinte.

Esse pensador, que era extremamente sistemático e metódico, filosofou


basicamente sobre todos os assuntos já pensados por seus antecessores (os pré-
socráticos, Sócrates e Platão). Estudou sobre a natureza do homem, pesquisou as formas
de governo e as razões da política e pensou até sobre a poesia, que, segundo ele, é o
gênero literário mais próximo da filosofia, além de estabelecer as primeiras regras para
o estudo da lógica. Contudo, nesse primeiro momento vamos nos concentrar na sua
teoria do conhecimento.

A importância dos sentidos para o conhecimento


O ponto de partida para conhecermos a filosofia de Aristóteles vem de sua
discordância em relação à teoria do conhecimento proposta por Platão, que afirmava ser
necessário ao filósofo ater-se ao estudo do mundo das ideias (mundo inteligível). Para
Aristóteles, a “alma” não está separada do “corpo”, mas é um componente dele.
Colocando de outra forma: o conhecimento é percebido pelos sentidos e, então, elaborado
pela razão. Existe uma interação entre os sentidos e a razão. Aristóteles achava que Platão
tinha virado tudo de cabeça para baixo.

[Link]

(...) Para Platão, o grau máximo de realidade está em pensarmos com a razão. Para Aristóteles,
ao contrário, era evidente que o grau máximo de realidade está em percebermos ou sentirmos
com os sentidos. Platão considera tudo o que vemos ao nosso redor na natureza meros reflexos
de algo que existe no mundo das ideias e, por conseguinte, também na alma humana. Aristóteles
achava exatamente o contrário: o que existe na alma humana nada mais é do que reflexos dos
objetos da natureza. Para Aristóteles, Platão foi prisioneiro de uma visão mítica do mundo, que
confundia as ideias dos homens com a realidade do mundo.
O mundo de Sofia. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p. 122-123.

Assim sendo, o filósofo deve buscar o conhecimento daquilo que realmente existe
partindo de conceitos que exprimem nossas ideias sobre o mundo sensível. E, para não
cair no mesmo jogo de palavras que os sofistas faziam, faz-se necessário realizar uma
classificação das palavras, pois elas formam as afirmações que conduzem ao
conhecimento.

As palavras são classificadas por categorias e estas são cerca de 10: substância,
quantidade, qualidade, ação, paixão, relação, lugar, tempo, posição e estado.

A substância é “aquilo que é em si mesmo”, ou, em termos gramaticais, é o sujeito


de uma oração, enquanto as outras categorias seriam os predicados da mesma. As
categorias são divididas em dois grupos: as essenciais (são inerentes à substância, pois,
sem elas, a substância deixa de ser o que é) e as acidentais (qualificam uma substância
temporariamente, mas sem modificá-la). Exemplo: “Pedro é racional, mas está gordo”.
Esta afirmação contém uma substância (Pedro), uma essência (racional), pois todo
homem é racional, e um acidente (gordo), que não afeta a sua substância. Segundo
Aristóteles, o mais importante é a essência do ser, pois ela diz aquilo que o ser realmente
é, em qualquer circunstância.

Contudo, Aristóteles observou que a questão da transformação era muito


importante e elaborou as noções de ato e potência. O ato seria o estado atual do ser,
enquanto a potência seria aquilo em que o ser se transforma (“devir”), sem que deixe de
ser o mesmo. Assim, uma criança é um ato enquanto criança, mas enquanto potência será
um adulto, sem deixar de ser um humano.

As transformações e o movimento são os responsáveis pelo modo no qual as


potências se tornam atos. E para Aristóteles isso não ocorre por acaso, pois sempre há
uma causa. Consequentemente, existem quatro causas: material, formal, motriz (ou
eficiente) e final. Assim, tomemos como exemplo uma estátua: o mármore seria a causa
material; um modelo para o artista realizar o seu trabalho de esculpir a estátua seria a
causa formal; o escultor, a causa motriz (ou eficiente); e, por fim, exibir a estátua seria a
causa final. Lembramos que esta causa é a mais importante para que a potência se
transforme em ato.
[Link]

Michelangelo: David, 1501 - 1504. Galleria dell'Accademia, Florença

Texto complementar:

Davi, de Michelangelo: o corpo como Ideia

Havia em Florença um gigantesco bloco de mármore que havia sido esboçado por
Agostino de Duccio, mas que foi abandonado antes de se transformar em escultura. Dois
artistas disputavam a honra de esculpir o bloco para transformá-lo em uma obra de arte:
Leonardo da Vinci e Andrea Sansovino. Mas seria Michelangelo quem ficaria
responsável pela tarefa, devido à sua já consagrada fama de genial escultor por causa
de seu Baco e de sua Pietà (esculpida aos vinte e três anos).

Michelangelo esculpiu Davi nesta enorme rocha de mármore, entre os anos de 1501-
1504, como uma das mais belas representações do corpo humano da história da arte. A
escultura, um colossal adolescente de mais de quatro metros e meio de altura, foi
colocado no centro da cidade de Florença para admiração pública. A nudez do Davi
acabou despertando a ira pudica dos Florentinos que várias vezes o apedrejaram.
Aretino, que criticou a indecência e as liberdades anticlássicas do Juízo Final, pediu ao
artista, em 1545, que cobrisse com folhas de parra em ouro as partes vergonhosas do seu
belo colosso.

Se para os outros a escultura era uma imagem pagã, para Michelangelo tratava-se da
mais perfeita forma criada por Deus: o corpo masculino. Como anotou Romain Rolland,
"para este criador de formas admiráveis, que era simultaneamente um piedoso crente,
um belo corpo era algo de divino ― um belo corpo era o próprio Deus surgindo sob o
véu da carne".

Essa crença do artista na ideia de que é no corpo humano que a beleza divina melhor se
manifesta é comprovada nos versos que Michelangelo dedicou a seu amante Cavaliere,
quando diz que: "em nenhum lugar Deus se mostra mais a mim em sua graça do que em
alguma bela forma humana; e só isso amo, pois nisso Ele se espelha".

Mais do que a simples representação de um adorável corpo adolescente nu, a obra de


Michelangelo trazia para dentro de si as proposições máximas da estética e da filosofia
do Renascimento. Superando o imperativo da Antiguidade da "semelhança com a
natureza", contida na ideia de imitação, o que se pode ver é outra concepção, a de um
triunfo da arte sobre a natureza, que se realiza graças à imaginação e à inteligência do
artista que pode recriar a beleza absoluta que se acha incompleta no mundo natural, mas
que está guardada perfeita na sua alma.

Para o Renascimento o grande escultor seria aquele que pela habilidade técnica
produzisse o simulacro, a ilusão de que a vida habitava o mármore.

Jardel Dias Cavalcanti

Feito o estabelecimento dos conceitos e de como ocorrem suas mudanças, o passo


seguinte é como utilizar os conceitos de forma a produzir o verdadeiro conhecimento.
Assim, os conceitos devem se relacionar gerando proposições (afirmações) que, por sua
vez, geram os silogismos (em grego, “cálculo” ou “reunião de raciocínio”), ou seja, o
verdadeiro conhecimento. Voltaremos aos silogismos quando falarmos sobre a lógica.

A obra na qual Aristóteles tratou de classificar os conceitos abstratos como


“pensamento”, “piedade” e “bem”, entre outros, ficou conhecida como Metafísica, ou
seja, “aquilo que vem depois da física”. Lembre-se de que a grande questão para ele era
conseguir apreender o “Ser enquanto Ser”, isto é, apreender o Ser em sua substância, e
não lhe dar um sentido meramente transcendental.

Uma última questão: Platão e Aristóteles, cada qual à sua maneira, desenvolveram
a ideia de que existe uma essência humana universal e, portanto, todas as pessoas tendem
a fazer aquilo que é inerente ao ser humano; quando, por alguma razão, isso não acontece,
a explicação possível é que ocorreu um acidente que, aliás, deve ser consertado. Segundo
afirmam Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins,
Para Platão (...), a verdadeira realidade encontra-se no mundo das ideias, lugar da
essência imutável de todas as coisas. Todos os seres são apenas cópias de tais arquétipos
e se aperfeiçoam à medida que se aproximam desse modelo ideal. Assim, mesmo existindo
inúmeros tipos de pessoas, a ideia de humanidade é uma e imutável.

Para Aristóteles (...), todo ser tende a tornar atual a forma que tem em potência. Por
exemplo: a semente, quando enterrada, transforma-se no carvalho que era apenas em
potência. Quando essa ideia é transposta para os seres humanos, conclui-se que também
eles têm formas em potência a serem atualizadas, ou seja, a sua natureza essencial se
realiza aos poucos, em direção ao pleno desenvolvimento daquilo que eles devem ser.
Tanto para Platão como para Aristóteles, a plenitude humana coincide com o
aperfeiçoamento da razão.
Temas de Filosofia. 3. ed. rev. São Paulo: Moderna, 2005, p. 38.

Chamamos essa filosofia de essencialista, sendo ela uma corrente muito presente nos
dias atuais.

A Escola de Atenas, de Rafael Sanzio

Este afresco é um dos clássicos do Renascimento. Pintado por Rafael, entre 1509 e 1510,
retrata os principais filósofos da Antiguidade Clássica, tendo ao centro Platão (apontando para
o alto, isto é, para o “mundo das ideias”) e Aristóteles (apontando para o chão, ou seja, para o
mundo material perceptível pelos sentidos). As posições diferentes das mãos dos personagens
centrais da obra indicam a divergência que havia entre eles quanto à questão do conhecimento
verdadeiro.
Período helenístico
Trata-se do último período da Filosofia antiga, quando a polis grega desapareceu
como centro político, deixando de ser referência principal dos filósofos, uma vez que a
Grécia encontra-se sob o poderio do Império Romano. Os filósofos dizem, agora, que o
mundo é sua cidade e que são cidadãos do mundo. Em grego, mundo se diz cosmos e
esse período é chamado o da Filosofia cosmopolita.

Essa época da Filosofia é constituída por grandes sistemas ou doutrinas, isto é,


explicações totalizantes sobre a Natureza, o homem, as relações entre ambos e deles
com a divindade (esta, em geral, pensada como Providência divina que instaura e
conserva a ordem universal). Predominam preocupações com a ética -pois os filósofos
já não podem ocupar-se diretamente com a política -, a física, a teologia e a religião.

Datam desse período quatro grandes sistemas cuja influência será sentida pelo
pensamento cristão, que começa a formar-se nessa época: estoicismo, epicurismo,
ceticismo e neoplatonismo. A amplidão do Império Romano, a presença crescente de
religiões orientais no Império, os contatos comerciais e culturais entre ocidente e oriente
fizeram aumentar os contatos dos filósofos helenistas com a sabedoria oriental.
Podemos falar numa orientalização da Filosofia, sobretudo nos aspectos místicos e
religiosos.
REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

CHARLOT, B. Da relação com o saber: elementos para uma teoria. Trad. B. Magne.
Porto Alegre: Artmed,
2000.
CHAUÍ, M. Primeira filosofia: aspectos da história da filosofia. São Paulo: Brasiliense,
1987.
CYRINO, H. & PENHA, C. Filosofia hoje. 2. ed. Campinas: Papirus, 1992.
Os pré-socráticos. São Paulo: Abril Cultural, 2000. p. 96. Coleção “Os pensadores”.

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