Quando ela finalmente conseguiu checar e guardar o desfibrilador, os oito leitos da sala de observação já estavam
ocupados, Fleur tinha concordado em receber a visita de um terapeuta ocupacional e o horário de visitas tinha acabado;
a sala estava, por fim, calma e em ordem. Assim, pelo menos, a enfermeira da noite teria um plantão tranquilo! –
Obrigada, Celeste. – Fleur sorriu quando Celeste a ajudou a vestir suas roupas de baixo limpas e secas, antes de ir para
casa. – Obrigada por todo carinho e cuidado que você teve em lavar as minhas roupas. Minha filha nunca suspeitará de
nada. – Que bom. O pessoal da cirurgia acaba de ligar para cá, avisando que em breve os cirurgiões estarão prontos para
a senhora. – E eu vou passar a noite aqui? – Se tudo correr bem sim, o que acredito que acontecerá. Eu a verei pela
manhã. – Celeste sorriu. – Estarei aqui às sete horas. – Você trabalha demais – Fleur declarou. – Eu sei que é isso que
vocês, garotas, fazem hoje em dia. Mas, ainda assim, eu espero que seu jovem marido espere por você em casa, com o
jantar pronto, assim você poderá colocar os pés para cima. – Ah, eu deveria mesmo fazer isso – Celeste sorriu e depois
ficou vermelha, quando se deu conta que Ben havia entrado na sala. – Boa noite, Fleur. Ela foi até Ben. – Não quero que
ela fique preocupada. – Desculpe, não entendi. Celeste apressou-se em explicar. – Bem, é mais fácil, às vezes, deixar que
as pessoas pensem que há um sr. Mitchell esperando por mim em casa. – Ela ficou ainda mais vermelha quando se deu
conta que ele não tinha ouvido a conversa e não se importava com a mentirinha que ela havia contado para Fleur. –
Você soube alguma coisa sobre Matthew?’ – Foi isso que eu vim lhe contar. Estou indo para casa e interfonei para a UTI.
Não tinha tido a chance até agora. Parece que as pupilas dele se dilataram durante a ressonância. Ele foi levado às
pressas para a sala de cirurgia, onde foi detectado um hematoma subdural massivo. Então, eu vim aqui para lhe dar os
parabéns. Foi um ótimo diagnóstico. Várias pessoas hesitariam com sintomas tão transitórios. – E como ele está agora?
– Celeste perguntou, feliz por ter sido elogiada por ele. Ele tivera hemorragia cerebral e a pressão intracraniana alta
estava causando os sintomas. Era isso o que havia de mais assustador sobre machucados leves na cabeça. E era por isso
também que os pacientes que passavam por tais ferimentos eram tantas vezes postos em observação. Ela já havia lido
sobre isso, estudado casos assim, aprendido sobre eles em sala de aula, mas agora tinha testemunhado como se
desenrolavam na vida real. A rotina de uma observação neurológica nunca mais seria considerada como rotina de novo.
– Ele está na unidade de tratamento intensivo. Serão 48 horas antes de sabermos de fato como ele vai ficar, mas há
esperança... O que era sempre bom. Ela passou o plantão para a enfermeira da noite e foi para casa em um carro
barulhento que a cada dia fazia ruídos mais preocupantes. Ela se aproximou dos portões e deu seta para indicar que ia
entrar no bloco de unidades à esquerda, depois desceu do carro sem desligar o motor, porque ela sabia que um dia
aquele carro não daria partida. Cansada até os ossos, ela abriu os portões e foi então que notou alguém atrás dela. – Eu
fecho para você – Ben disse, e foi o que ele fez. Ela dirigiu mais alguns metros, puxou o freio de mão e de novo, saiu do
carro deixando-o ligado para abrir o portão da garagem, porque o senhorio era muito sovina para instalar portões
automáticos. – Eu faço isso, pode deixar. – Ele veio da direção dos portões da entrada e abrindo os portões da garagem,
esperou até que ela guardasse seu carro, para depois fechá-los. Podia até não parecer muito, mas cada tarefa que ele
relizava, era uma coisa a menos para ela fazer, e ela estava tão, tão cansada, que se sentiu extremamente grata. – Muito
obrigada por isso. – Celeste estava exausta demais para sorrir. – Sem problema – disse Ben, indo até seu próprio carro e
repetindo a sequência em sua garagem. E, ainda assim, ele não passou um sermão nela. Não ficou perguntando se ela
estava bem, não perguntou se ela achava mesmo que devia trabalhar. Se ele tivesse perguntado, pensou Celeste
enquanto entrava em seu apartamento minúsculo, ela teria caído no choro. Era preciso que ela comesse, mas estava
cansada demais para cozinhar, então, se serviu de uma tigela de cereais. Depois disso, um banho rápido. Ela sabia que
se arrependeria amanhã de manhã se não tomasse banho agora. Então, separou um uniforme limpo para o dia seguinte,
ajustou o despertador e caiu na cama, cansada demais para se preocupar, para chorar ou mesmo para pensar. Ela teria
que estar de volta ao hospital às dez para as sete da manhã! CAPÍTULO 3 BEN NÃO se preocupava. Ele ficava apreensivo
por seus pacientes de vez em quando, mas preocupação não era com ele. O pior dia da vida dele acontecera havia
muito tempo, e ele sabia que as coisas jamais poderiam ficar tão ruins novamente; consequentemente, ele apenas
seguia em frente. Não se afligia, nem ficava se remoendo ou se preocupava. Ele não se preocupava fazia anos. Mas
agora havia alguma coisa lhe incomodando, e, ainda que tentasse ignorar o fato, o incômodo persistia. Era apenas o
segundo dia dele no Hospital Bay View, e haviam aberto a porteira. Uma pessoa afogada havia sido trazida às pressas,
assim como as vítimas de um engavetamento na estrada à beira-mar. Estava fazendo mais de 40 graus, e as pessoas
estavam desmaiando por toda a parte. Era mais um daqueles dias em que todos se esforçavam para dar conta do
trabalho, e trabalhavam até o limite e além. Inclusive Celeste. Ele podia ver os tornozelos dela inchando à medida que o
plantão prosseguia, a observava expirando pesadamente pela boca e suas faces vermelhas, enquanto ela esvaziava mais
um carrinho e o preparava para a interminável lista de recipientes; podia ver o esforço nos movimentos dela, e, então,
finalmente, a expressão de puro alívio em seu rosto às 3:30 da tarde, quando o plantão dela acabou. Enquanto a
observava caminhar trêmula, gostando ou não, Ben estava preocupado. – O que você vai fazer esta noite? – Belinda
estava digitando rapidamente em seu computador. No final da casa dos 30, e absolutamente estonteante, ela era
também inteligente. Com cabelos negros compridos, tinha olhos castanhos amendoados, lábios vermelhos e grossos, e
se vestia como se tivesse acabado de sair de uma capa de revista. Felizmente, felizmente mesmo, Ben não se sentia nem
um pouco atraído por ela, o que significava que não havia problemas em dividir uma sala minúscula e que eles podiam
conversar com facilidade sobre as coisas, o que faziam naquele momento, enquanto Ben encerrava seu expediente e
arrumava sua maleta. Era apenas o segundo dia de trabalho dele, e a papelada já estava se acumulando. – Eu vou dar
uma parada no escritório do corretor de imóveis, e então vou até a delicatessen para comprar uma salada de galinha
em vez de um hambúrguer – Ben pensou por um momento –, e depois eu vou me obrigar a ir correr esta noite. E você?
– Eu vou te mostrar… – Ela sorriu maliciosamente. – Venha cá. Curioso, Ben foi até a mesa dela e olhou para a tela do
computador, deparando-se com a imagem de um homem de aparência bem comum. – Clínico geral, perto dos 40, tem
filhos, mas não quer envolvê-los ainda... – Como? – Ben não fazia ideia do que ela estava falando. – Isso é bom – disse
Belinda. – O último cara com quem eu saí levou os filhos no segundo encontro! Nós conversamos pelo telefone –
Belinda explicou para um divertido Ben –, e ele parece ótimo; nós vamos sair para tomar um café esta noite. – Você tem
um encontro com ele? – Café. – Belinda riu. – Você deveria tentar, faria o maior sucesso! Ben sacudiu a cabeça. –
Namoro via internet não é para mim. – Não descarte a possibilidade antes de tentar. – Tome cuidado. – Ben franziu as
sobrancelhas. – Você não deveria levar alguém quando for encontrá-lo? Ele pode ser qualquer tipo de pessoa! – Ele é
exatamente quem diz ser. – Belinda deu uma piscadinha. – Eu verifiquei a ficha dele. – Bem, boa sorte. O corretor de
imóveis estava sendo gentil com Ben novamente; ele havia ficado um tanto chateado no começo quando Ben não
comprara o apartamento, mas obviamente havia