Nós deveríamos avisar a família dele? – Celeste perguntou. – Eles acabaram de sair.
– Vamos nos concentrar no
paciente agora – Belinda disse rispidamente, e Celeste ficou vermelha. – Vou avisar a eles assim que puder – Ben disse.
– É provável que ele vá direto para a ressonância. Levou dez, talvez 15 minutos até que Matthew, completamente
contido e entubado, e conectado ao monitor cardíaco, fosse levado à ressonância e depois à cirurgia. Quando todos
saíram, a sala de observação era um caos de relatórios por preencher e de material usado nos procedimentos. O
equipamento de sucção ainda estava ligado e funcionando, e teria que ser limpo, os cilindros de oxigênio e as máscaras
tinham que ser substituídos, a cabeceira da cama hospitalar tinha sido jogada do outro lado da sala, e havia embalagens
abertas por toda parte. O desfibrilador estava uma baderna e havia seringas e frascos espalhados. Tudo aquilo tinha que
ser arrumado e inventariado, depois substituído e inventariado de novo. – E eu pensando que aqui você teria uma tarde
tranquila! – Meg deu um sorriso solidário para Celeste, mas então seu pager tocou e ela teve que atender, sem ter tido
a chance de ajudar na arrumação. Respirando fundo e se obrigando a continuar, Celeste se virou e viu o rosto
preocupado de Fleur. – Ele vai ficar bem? – ela perguntou, aflita. – Eu acho que sim – disse Celeste, para em seguida
sentir-se mortificada quando aquela senhora orgulhosa e digna começou a chorar e a pedir desculpas sem parar. – Eu
molhei minhas calças! – Ah, por favor, me desculpe! – Era Celeste quem se desculpava agora. – Foi culpa minha não ter
levado a senhora ao banheiro! Ben estava na escrivaninha da sala de observação, ligando para a família para dar a infeliz
notícia sobre a piora de Matthew, e Celeste e Fleur estavam agora no banheiro. Ela havia tirado as roupas molhadas de
Fleur e protegido a mão machucada, que estava sendo mantida no alto. A velha senhora estava sentada em uma cadeira
própria para banho. – Que tal se nós duas parássemos de pedir desculpas? – Muito mais velha e bem mais sábia, Fleur
olhou dentro dos olhos de Celeste e sorriu. – Você não poderia simplesmente ter abandonado o rapazinho, não é? – Eu
sei. – Só não quero que minha filha saiba que eu tive esse probleminha. Ela vai pensar que eu estou ficando senil. – É
claro que não está ficando senil! – Celeste disse. Ela também estava envergonhada, então sugeriu: – Por que não lavo as
suas roupas? Elas estavam manchadas de sangue, de qualquer forma. Direi à sua filha que foi por isso que eu as lavei. –
E meus tênis? – Vou lavá-los e colocá-los para secar no respiradouro. – Ainda que, às vezes, fosse um pouco avoada,
Celeste era também muito prática. – Eles estarão secos antes do final do meu plantão. E ninguém nunca saberá o que
aconteceu. – Você é muito gentil. “Não sou não”, pensou Celeste. Todo mundo deveria fazer aquilo. Ela ainda
estremecia de horror quando via as outras enfermeiras enfiando roupas sujas dos pacientes nas malas deles, sem
pensarem que poderia ser com elas. Bem, ela não podia mudar o mundo, só cuidar de suas próprias atitudes. Assim, ela
encheu a pia com água... – Sangue precisa ser lavado com água fria – disse Fleur, e foi assim que Celeste fez. Depois deu
banho na paciente. Elas eram amigas de verdade agora, e Celeste sorriu quando Fleur pediu o que, certamente, era um
favor incomum: – Você se importaria de lavar minhas costas? – ela pediu. – Eu nunca as alcanço. – Claro. – As costas de
Fleur realmente estavam meio sujinhas, resultado de anos de negligência, já que sua artrite não permitia que ela as
alcançasse. – Eu comprei uma escova na farmácia – disse Fleur, enquanto Celeste esfregava suas costas. – É daquelas
escovas com o cabo bem longo, própria para banho, mas mesmo assim eu não consigo alcançar minhas costas. –
Enquanto dava banho na velha senhora, Celeste imaginava como abordar um assunto com aquela mulher tão orgulhosa.
– Bem, a senhora vai precisar de alguma ajuda, agora que está com a mão machucada. – Não vou, não! – disse Fleur,
enquanto Celeste a enrolava em uma toalha. – Eu vou dar conta de tudo com apenas uma de minhas mãos. – Ah, eu
acredito que sim – disse Celeste. – Mas a senhora vai precisar de alguns cuidados, de algo que mantenha o chuveirinho
alto enquanto a senhora toma banho. E existem escovas para as suas costas com o cabo curvado. Não tenho certeza
que tudo isso será de grande ajuda, mas talvez pudéssemos obter algum tipo de ajuda extra para a senhora. – Eu gosto
de ser independente. – Bem, isso tudo vai ajudá-la a manter-se independente. Celeste encolheu os ombros. – Enquanto
a senhora está aqui, pode pensar nisso. Fleur estava certa, Ben pensou. Sentado na escrivaninha por um momento,
experimentando certa dificuldade em telefonar para a mãe de Matthew e ainda sem estar pronto para sair dali, ele
havia escutado a conversa entre as duas mulheres. Celeste era gentil, muito gentil mesmo. Era tão fácil tornar-se ríspido
trabalhando na Emergência. Ele vira acontecer muitas vezes. Era quase necessário se você quisesse sobreviver naquela
área. Ele mesmo tinha endurecido, era como se estivesse meio amortecido, porque, às vezes, era mais fácil lidar com
um paciente do que com uma pessoa, mais fácil não pensar sobre as famílias e os amigos que iriam sofrer, e os planos
que não se realizariam. Preocupar-se apenas com o problema que se apresentava, sem olhar para o quadro geral,
poupava o profissional. Mas observar Celeste empurrar a cadeira de rodas de uma sorridente Fleur, feliz e bem cuidada,
com sua dignidade intacta, deixou Ben cheio de sentimentos conflitantes. Afinal, gravidez era a sua grande questão.
Uma das muitas questões que o faziam parar para pensar ultimamente, coisa que ele tentava muito não fazer. A maioria
das pessoas tinha algo assim em suas vidas. Belinda tinha acabado de contar a ele enquanto voltavam da ressonância,
como o irmão mais novo dela quase morrera de um ferimento na cabeça. Os empregados não tinham notado a piora
dele e tinha sido a própria Belinda quem reconhecera os sinais, quando foi visitá-lo. Sim, todos tinham suas próprias
questões. E gravidez era a de Ben: o assunto que ele tinha tentado pôr de lado, preferindo sempre lidar com fetos, e
não com bebês, olhando para números e dados médicos e nunca para pessoas. Ele não queria ser uma pessoa de
coração duro, amarga... mas era isso que ele era. Ainda observando Celeste, que esfregava as costas depois de ter
instalado Fleur em sua cama, ele relutava em reconhecer suas formas, o formato de sua barriga. Ele resistiu à sua
necessidade de sair correndo dali, em dar as costas e não se preocupar mais com ela. Ela não era uma enfermeira, ou
um monte de dados em uma ficha hospitalar, ou uma mulher grávida, ela era Celeste, uma pessoa gentil, que estava um
pouco cansada, que tinha tido um começo difícil em seu plantão de hoje, e que tinha uma sala toda bagunçada para
arrumar. – Eu falei com a família de Matthew... – Enquanto falava com ela, ele recolhia do chão a cabeceira da cama e
recolocava no lugar, para depois guardar o cilindro. Eram coisas que ele não precisava fazer, mas que ele fazia por ela,
assim como Celeste tinha feito por Fleur. Ela jamais saberia do imenso esforço que cada uma dessas delicadezas
significava para ele, porque ficar perto dela estava se tornando insuportável para ele. – Eles estão voltando para cá. Eu
lhes disse para irem direto para a recepção, mas se eles vierem parar aqui, me chame. – Claro, farei isso. – Ela pegou um
lençol limpo e começou a arrumar a cama. – Você acha que ele vai ficar bem? – Ele está em cirurgia neste exato
momento – Ben disse. – Então, vamos torcer pelo melhor. Se eu souber de alguma coisa, aviso você. O plantão calmo e
sossegado que ela deveria ter ali, foi tudo, menos isso