SENTENÇA
SENTENÇA
TERMO DE AUDIÊNCIA
PRESENTES:
OCORRÊNCIAS:
Abertura da solenidade: aberta a audiência, constatou-se a presença das pessoas acima nominadas.
Entrevista prévia e reservada: foi assegurado ao(à)(s) acusado(a)(s) o direito de entrevista prévia e reservada com
o(a)(s) seu(sua)(s) advogado(a)(s)/defensor(a)(es)(s), por tempo adequado à sua defesa.
Gravação da solenidade: em razão de possíveis dificuldades técnicas com a operacionalização do sistema, será
feita a suspensão da gravação na ferramenta de videoconferência PJSC-Conecta a cada depoimento/interrogatório,
sem oposição das partes.
Desistência da oitiva de testemunha(s): o Ministério Público desistiu da oitiva da(s) testemunha(s) CLEIDIANA
DA SILVA DE OLIVEIRA e WALTER DE CASTRO.
Interrogatório(s): o(a)(s) acusado(a)(s) foi(ram) interrogado(s) após possibilitada entrevista reservada com o(a)(s)
seu(sua)(s) advogado(a)(s)/defensor(a)(es).
Diligências: as partes não requereram diligências (artigo 402, Código de Processo Penal).
SENTENÇA
RELATÓRIO
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Trata-se de ação penal em que o Ministério Público de Santa Catarina ofereceu denúncia contra CRISTIANO
CARVALHO ANGOLERI, brasileiro, nascido em 19/07/1987, filho de Jandira Carvalho e de Altair Angoleri, inscrito no
CPF n. 879.964.640-49, por meio da qual é imputada a prática da(s) conduta(s) criminosa(s) descrita(s) no(s) artigo(s)
217-A do Código Penal, por duas vezes, segundo o(s) fato(s) narrado(s) no EVENTO 1 (DENUNCIA1).
A denúncia foi recebida em 22/09/2022, com observância do rito ordinário (EVENTO 4).
O acusado foi citado (EVENTO 10) e apresentou resposta à acusação assistido por defensor constituído (EVENTO 16).
Foram afastadas as hipóteses de absolvição sumária (artigo 397, Código de Processo Penal) (EVENTO 25).
Na audiência de instrução e julgamento, realizada nessa data, foi(aram) inquirido(a)(s) ofendido(s) e testemunha(s), e
interrogado o acusado.
As partes não requereram diligências e apresentaram alegações finais orais, conforme gravação em audiovisual da
solenidade.
É o relatório.
FUNDAMENTAÇÃO
Tipo(s) penal(is)
Trata-se de imputação da prática de(s) conduta(s) criminosa(s) descrita(s) no(s) artigo(s) 217-A do Código Penal, que
tipifica(m) o(s) crime(s) de estupro de vulnerável.
Art. 217-A. Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos:
Materialidade e autoria
A materialidade e a autoria dos crimes estão comprovadas por meio dos elementos informativos e provas documentados
nos procedimentos vinculados 5001198-63.2020.8.24.0059 e 5001371-53.2021.8.24.0059, notadamente boletim de
ocorrência, laudo pericial n. 9402.20.01690, que atestou a ocorrência de ruptura himenal não recente [“hímen com
rotura cicatrizada (antiga) entre quadrantes laterais direito (09 horas)”], dos depoimentos colhidos na fase policial, do
depoimento da ofendida colhido sob a técnica do depoimento especial em produção antecipada de provas, bem assim da
prova oral produzida em juízo.
Consta do boletim de ocorrência o seguinte relato prestado pela ofendida logo após a revelação dos fatos
(procedimento 5001198-63.2020.8.24.0059; EVENTO 1, INQ1, p. 3):
Retira-se também do laudo pericial n. 9402.20.01690 o histórico narrado pela ofendida e também a descrição do que
foi constatado pelo perito médico-legista (procedimento 5001198-63.2020.8.24.0059; EVENTO 1, INQ1, p. 7):
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I. C., ouvida sob a técnica do depoimento especial em procedimento de produção antecipada de provas, relatou que
tinha um primo de sua mãe que ia na sua casa e ficava se passando com a depoente; que não sabia que a intenção dele
era ruim; que esse primo da sua mãe somente ia na residência quando o seu padrasto estava fora; que quando a sua
mãe se separou do seu padrasto, ficou morando na casa somente a depoente e a genitora, o primo da sua genitora
começou a “vir de boa, aí eu e ele até ‘fiquemos’, mas aí eu vi que aquilo lá não estava certo, então eu falei para ele
que não queria mais”; que então ele falou que a depoente poderia estar grávida, e que precisava buscar um remédio em
uma construção abandonada; que então ele mandou a depoente ir buscar o remédio na construção, e como “estava
chapada a ponto de acreditar até no que a sua sombra dizia”, foi atrás dele; que na construção, “ele fez o que fez, sem
eu deixar”; que contou para a sua mãe o que aconteceu, e também deu o depoimento para as meninas do Conselho
Tutelar, “até porque se ele fez contra a minha vontade, já estava errado de ele fazer contra a minha vontade, sendo que
ele era adulto, bem mais velho que eu”; que seu padrasto ainda tivesse morando na casa, nunca mais deixaria ele ir lá;
que a sua mãe também, se soubesse do jeito que ele era, não ia mais deixar ele entrar lá; que esse primo que fazia umas
brincadeiras com a declarante, como passar a mão na sua bunda, tentava pegar nos seus peitos, e sempre lhe chamava
para fazer umas brincadeiras de lutinha, e nessas brincadeiras ele “me encostava do jeito que ele gostava”; que na
ocasião em que referiu que ele “fez o que fez”, ele “ficou entrando na minha mente”, “que se eu voltasse para casa
naquela hora eu ia apanhar da minha mãe”, “aí ele começou a me beijar, e eu falei que não queria, que tava errado”;
que “ele foi entrando na minha mente, falando um monte de coisas”; que “ele me convenceu, e quando chegou uma
hora em que eu pedi para ele parar, ele não parou”; que ficou com ele até o fim, teve que esperar ele dormir para pular
do segundo andar da construção e voltar para casa; que sem o seu consentimento isso ocorreu uma vez, em uma
construção em São Carlos; que o nome desse primo é Cristiano Carvalho; que quando os fatos ocorreram tinha de 12
para 13 anos; que foram duas vezes que ocorreu o abuso, sendo que a primeira vez aconteceu em casa, quando a sua
mãe estava trabalhando; que esse abuso foi ficar com ele, “fazer bebê”; que na segunda oportunidade aconteceu em
uma construção próximo da sua casa; que o acusado disse que a depoente “ia ficar grávida [...], por isso que eu falei
para a minha mãe e ela me levou no médico, e agora a gente não fala mais com ele”; que o Cristiano lhe conhece desde
pequenininha, quando ainda era um bebê, e ele tinha uns 19 anos; que no dia em que aconteceu na construção,
Cristiano apareceu em sua casa; que antes do Cristiano nunca tinha ficado com ninguém, só beijado (procedimento
5001371-53.2021.8.24.0059, EVENTO 83, entre 3min20s e 9min20s; entre 9min45s e 13mis55s; entre 23min40s e
27min50s).
Andressa Albuquerque, genitora da ofendida, contou que é prima do acusado e sempre teve muita proximidade com ele;
que certa ocasião, pela madrugada, levantou para ir ao banheiro e notou a sua filha chegando em casa; que a sua filha
I. C. lhe confidenciou que teve relação consensual duas ou três vezes com o acusado, antes dos fatos apurados, e,
quando ela não quis mais, o acusado a teria forçado a ter relação sexual; que na ocasião em que flagrou a sua filha
chegando em casa tarde da noite, I. C. lhe confidenciou que já havia mantido relação sexual com o acusado algumas
vezes, e que teria sido abusada por esse; que naquele momento contou sobre o fato ao seu então companheiro Josinei, e
então esse acionou o Conselho Tutelar; que I. C. lhe contou também que havia sido ameaçada pelo acusado de que caso
não fizesse o que ele queria [manter relação sexual], iria colocar veneno na comida da família; que sua filha, há pouco
tempo, conseguiu contar melhor sobre os fatos à depoente, mas essa nunca negou a ocorrência dos abusos praticados
por Cristiano; que tinha confiança no acusado antes de ter conhecimento sobre os fatos, e o considerava um irmão; que
o acusado frequentava a sua casa e, assim como a depoente, a sua filha I. C. também confiava no acusado.
Djeniffer Nogueira rememorou que era conselheira tutelar; que em certa ocasião, em uma visita de rotina à família de I.
C., que era acompanhada pelo órgão protetivo, a adolescente confidenciou às conselheiras que teria sido abusada
sexualmente pelo acusado em duas oportunidades, a primeira na residência da família, e a segunda em um imóvel em
construção nas proximidades da residência; que houve um relato de o acusado ter ameaçado a vítima de colocar
veneno na comida da família; que I. C. contou que os atos sexuais com o acusado foram consumados, bem assim que o
acusado era um parente da família.
Julimara Demling, também conselheira tutelar, disse que o órgão protetivo recebeu uma denúncia sobre possível abuso
do qual era vítima I. C.; que então I. C. foi procurada e, durante o atendimento, contou que em certa noite estava na
casa, juntamente com o acusado, e esse a chamou até o quarto, a ameaçando de que caso não fizesse o que ele queria,
colocaria veneno na comida da família; que nesse dia teria ocorrido o primeiro abuso; que I. C. contou ainda às
conselheiras tutelar que em outra oportunidade o acusado esteve na residência da família e pediu para a adolescente
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lhe acompanhar até um imóvel em construção, pois precisaria lhe dar remédios pois poderia estar grávida; que nessa
oportunidade teria ocorrido o segundo abuso; que os abusos relatados teriam ocorrido com uma ou duas semanas de
diferença.
O acusado, em seu interrogatório judicial, negou a prática dos crimes. Afirmou que I. C. inventou esses fatos em razão
de, em certa ocasião, a pedido da genitora de I. C., ter “tocado alguns pias”, inclusive o namorado da adolescente, da
residência da família; que na época que isso ocorreu I. C. tinha aproximadamente treze anos; que era bastante próximo
da família e frequentava a residência da família de I. C..
Pois bem.
A presente demanda penal trata de crimes de estupro de vulnerável praticados contra I. C., e, após a instrução
processual, restou demonstrada, de forma inequívoca, a materialidade e a autoria delitivas por parte do acusado.
A materialidade do delito foi comprovada pela prova oral produzida em juízo, notadamente nos depoimentos da vítima
I. C., da informante Andressa Albuquerque e das testemunhas Djeniffer Nogueira e Julimara Demling, bem assim pelo
laudo pericial n. 9402.20.01690, que atestou a ocorrência de ruptura himenal não recente [“hímen com rotura
cicatrizada (antiga) entre quadrantes laterais direito (09 horas)”] (procedimento 5001198-63.2020.8.24.0059;
EVENTO 1.1, p. 7), os quais são compatíveis e coerentes com a dinâmica dos fatos apurados na presente ação penal, o
que traz credibilidade e segurança à conclusão da ocorrência dos fatos conforme a sua narrativa.
No ponto, não prospera a tese defensiva de que o fato de o perito médico-legista ter atestado no laudo pericial que a
ruptura himenal não seria recente afastaria a acusação contra o acusado. Isso porque, fica claro pelos depoimentos da
ofendida e também da genitora, durante a solenidade de instrução, que I. C. e o acusado já haviam, antes dos fatos
apurados, mantido relação sexual consensual.
Quanto à autoria, a prova oral colhida em juízo revelou-se firme e coerente, e recaí sobre o acusado. Não há nenhum
indicativo de que a vítima, a informante e as testemunhas tenham algum interesse ou propósito pessoal de causar
prejuízo ao acusado, o que, de toda forma, caberia à defesa comprovar. As declarações prestadas foram corroboradas
pelas demais provas produzidas durante a tramitação processual, revelando uma narrativa consistente que dá
segurança ao julgador quanto à veracidade dos fatos criminosos.
Por outro lado, a negativa do acusado, ao ser interrogado, mostra-se frágil e dissociada de qualquer elemento
probatório que pudesse conferir credibilidade à versão por ele apresentada, haja vista que traz informações confusas e
sem referência temporal segura acerca de alegada invenção dos fatos por I. C., motivo por um desentendimento que o
interrogando teve com amigos da adolescente em certa ocasião. A defesa não conseguiu produzir prova idônea capaz de
abalar as demais evidências, e as alegações permaneceram isoladas, sem respaldo em elementos concretos obtidos sob
o crivo do contraditório e da ampla defesa.
Para além disso, a palavra da vítima merece valoração especial, notadamente quando corroborada por outros
elementos [em especial laudo pericial que atesta a ocorrência dos fatos e também depoimentos testemunhais], como
ocorreu no presente caso, e constitui elemento de fundamental importância para a elucidação dos fatos, notadamente
em caso de crimes sexuais, pela própria e repugnante natureza. Por isso, é capaz de fundamentar o decreto
condenatório.
Por fim, todos os elementos de informação e provas foram obtidos legalmente e, submetidos ao contraditório, a defesa
não apresentou nenhum indício capaz de demonstrar que estariam em desacordo com a realidade.
Portanto, diante da solidez da prova produzida em juízo, com plena comprovação da materialidade e autoria, e
considerando que a negativa do acusado carece de amparo probatório mínimo, impõe-se o reconhecimento da
procedência do pedido condenatório, aplicando-se as sanções penais correspondentes, com afastamento das teses
defensivas trazidas em alegações finais.
Por tudo isso, vê-se que a conduta do acusado amolda-se objetiva e subjetivamente ao tipo penal do(s) artigo(s) 217-A
do Código Penal. Como não há causas de justificação ou de exclusão da culpabilidade, o pedido de condenação
formulado pelo Ministério Público de Santa Catarina é procedente.
Dosimetria da pena
Na primeira fase da aplicação da pena, o grau de culpabilidade da conduta do agente é elevado, haja vista que
ameaçou a ofendida de que "que caso não fizesse o que ele queria, iria colocar veneno da comida da família", o que
não só contribuiu para a consumação do delito, mas trouxe maior sofrimento e sentimento de culpa à própria vítima.
Diante disso, eleva-se a pena-base nesse vetor de 1/6 (um sexto). O acusado registra antecedentes criminais (EVENTO
2), todavia, a valoração da circunstância será feita na segunda fase da aplicação da pena, para evitar bis in idem. Não
há nada nos autos que desabone a conduta social. O exame da personalidade está prejudicado pela ausência de dados
técnicos. Os motivos são comuns ao crime. As circunstâncias são comuns ao crime. As consequências não transcendem
àquelas inerentes ao tipo penal violado. O comportamento da vítima não influencia na dosimetria da pena.
Diante disso, fixa-se a pena-base do crime em 9 (nove) anos e 4 (quatro) meses de reclusão.
Na segunda fase da aplicação da pena, ausentes atenuantes. Presente, por outro lado, a agravante da reincidência
(artigo 61, inciso I, Código Penal), haja vista que o acusado ostenta condenação transitada em julgado por fato
anterior, com extinção da pena em 23/02/2018, ou seja, dentro do período depurador de 5 (cinco) anos previsto no
inciso I do artigo 64 do Código Penal. Presente também a agravante pelo fato de o crime ter sido praticado com
prevalência de relações de hospitalidade (artigo 61, inciso II, alínea “f”, Código Penal), porquanto o acusado é primo
de segundo grau da genitora da vítima e, dessa forma, frequentava a residência familiar de I. C.. Diante desse contexto,
agrava-se a pena intermediária de 1/6 (um sexto) para cada circunstância legal agravante, de modo que fica
estabelecida em 12 (doze) anos, 5 (cinco) meses e 10 (dez) dias de reclusão.
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Na terceira fase da aplicação da pena, não há causas gerais ou especiais de aumento ou de diminuição de pena. Diante
desse quadro, torna-se definitiva a pena em 12 (doze) anos, 5 (cinco) meses e 10 (dez) dias de reclusão.
Na primeira fase da aplicação da pena, o grau de culpabilidade da conduta do agente é elevado, haja vista que para a
prática do crime o acusado atraiu a vítima sob o pretexto de que essa estaria grávida e, por isso, precisava lhe entregar
comprimidos para interromper a gravidez, o que não só contribuiu para a consumação do delito, mas trouxe maior
sofrimento e sentimento de culpa à própria vítima, que também foi envolvida por promessa que atenta contra a
preservação da vida humana e contra o próprio desenvolvimento moral, intelectual e social da criança vitimada pelo
repugnante crime de estupro. Diante disso, pela combinação de fatores no vetor analisado, eleva-se a pena-base de 1/3
(um terço). O acusado registra antecedentes criminais (EVENTO 2), todavia, a valoração da circunstância será feita
na segunda fase da aplicação da pena, para evitar bis in idem. Não há nada nos autos que desabone a conduta social.
O exame da personalidade está prejudicado pela ausência de dados técnicos. Os motivos são comuns ao crime. As
circunstâncias são comuns ao crime. As consequências não transcendem àquelas inerentes ao tipo penal violado. O
comportamento da vítima não influencia na dosimetria da pena.
Diante disso, fixa-se a pena-base do crime em 10 (dez) anos e 8 (oito) meses de reclusão.
Na segunda fase da aplicação da pena, ausentes atenuantes. Presente, por outro lado, a agravante da reincidência
(artigo 61, inciso I, Código Penal), haja vista que o acusado ostenta condenação transitada em julgado por fato
anterior, com extinção da pena em 23/02/2018, ou seja, dentro do período depurador de 5 (cinco) anos previsto no
inciso I do artigo 64 do Código Penal. Presente também a agravante pelo fato de o crime ter sido praticado com
prevalência de relações de hospitalidade (artigo 61, inciso II, alínea “f”, Código Penal), porquanto o acusado é primo
de segundo grau da genitora da vítima e, dessa forma, frequentava a residência familiar de I. C.. Diante desse contexto,
agrava-se a pena intermediária de 1/6 (um sexto) para cada circunstância legal agravante, de modo que fica
estabelecida em 14 (quatorze) anos, 2 (dois) meses e 20 (vinte) dias de reclusão.
Na terceira fase da aplicação da pena, não há causas gerais ou especiais de aumento ou de diminuição de pena. Diante
desse quadro, torna-se definitiva a pena em 14 (quatorze) anos, 2 (dois) meses e 20 (vinte) dias de reclusão.
Concurso de crimes
No caso submetido à apreciação jurisdicional, é incabível o reconhecimento da continuidade delitiva, haja vista que
revelada no processo a habitualidade e a reiteração criminosa pelo acusado, o qual é pessoa reincidente e ainda
responde a outras ações penais (EVENTO 2), o que revela que os fatos apurados ña presente ação penal não são
isolados em sua vida.
Por conseguinte, “o que se observa, na verdade, é a prática de atos independentes, característicos da reiteração
criminosa, em que deve incidir a regra do concurso material, e não a da continuidade delitiva. E, consoante orientação
desta Corte Superior e do Supremo Tribunal Federal, a reiteração indicativa de delinquência habitual ou profissional é
suficiente para afastar a caracterização do crime continuado” (STJ, AgRg no HC n. 826.297/PR, relator Ministro
Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 14/8/2023, DJe de 17/8/2023).
Diante desse contexto, o caso é de concurso material de crimes (artigo 69, caput, Código Penal), de modo que o
somatório das reprimendas resulta em 26 (vinte e seis) anos e 8 (oito) meses de reclusão.
DISPOSITIVO
Julgo procedente o pedido formulado pelo Ministério Público do Estado de Santa Catarina e, em consequência,
condeno CRISTIANO CARVALHO ANGOLERI, brasileiro, nascido em 19/07/1987, filho de Jandira Carvalho e de
Altair Angoleri, inscrito no CPF n. 879.964.640-49, à pena de 26 (vinte e seis) anos e 8 (oito) meses de reclusão, em
regime inicial fechado, por infração ao disposto no artigo 217-A do Código Penal, por 2 (duas) vezes, com a incidência
das circunstâncias legais previstas no artigo 61, incisos I e II, alínea “f”, do Código Penal, na forma do artigo 69,
também do Código Penal.
Outras deliberações:
É incabível a substituição da pena privativa de liberdade por penas restritivas de direito, assim como a suspensão
condicional da pena, seja pelo quantitativo de pena aplicada, seja porque o acusado ostenta circunstâncias judiciais
desfavoráveis (culpabilidade e maus antecedentes) e, ainda, é pessoa reincidente, de modo que os benefícios não se
mostram suficientes para a reprovação dos crimes (artigo 44, incisos I, II e III, Código Penal; artigo 77, incisos I e II,
Código Penal).
Providências finais:
Condeno o(a)(s) acusado(a)(s) ao pagamento das custas processuais (artigo 804, Código de Processo Penal), haja vista
a procedência da pretensão condenatória, não obstante defendido(a)(s) pela defensoria dativa durante parte da
tramitação processual.
Com efeito, a mera assistência jurídica prestada por defensor nomeado, embora relevante, não constitui prova
absoluta de vulnerabilidade econômica. Para a concessão do benefício da gratuidade de justiça, conforme o
artigo 5º, inciso LXXIV, da Constituição da República Federativa do Brasil, é imprescindível a comprovação de
insuficiência de recursos, ônus que recai sobre o(a)(s) interessado(a)(s). Ocorre que no presente caso não foi
apresentado nenhum documento ou indício capaz de demonstrar que a insuficiência de recursos pelo(a)(s)
acusado(a)(s) que o(a)(s) incapacita(m) de arcar com as custas processuais.
Por decorrência lógica, ausente prova idônea acerca da hipossuficiência do(a)(s) acusado(a)(s), não se mostra
aplicável a isenção do pagamento das custas processuais. Além disso, a concessão indiscriminada da gratuidade
de justiça não encontra respaldo na ordem jurídica vigente, uma vez que deve ser observada a excepcionalidade
prevista na Carta Constitucional, que impõe a demonstração efetiva da carência econômica. Dessa forma,
impõe-se a condenação do(a)(s) acusado(a)(s) ao pagamento das custas processuais, nos termos do artigo 804 do
Código de Processo Penal, como forma de garantir o equilíbrio entre o acesso à Justiça e a sustentabilidade
financeira do sistema judiciário. Fica, no entanto, ressalvado que, nos termos do artigo 98, § 3º, do Código de
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Processo Civil, aplicado subsidiariamente, o(a)(s) acusado(a)(s) poderá(ão), a qualquer tempo, postular a
suspensão da exigibilidade das custas mediante prova superveniente de sua incapacidade financeira. Além disso,
o benefício poderá ser requerido no âmbito da execução penal, de modo a assegurar que a cobrança das custas
não comprometa sua subsistência e dignidade.
Fixo a remuneração do(a) defensor(a) dativo(a) nomeado(a) no EVENTO 83 em R$ 1.608,04 (um mil seiscentos e oito
reais e quatro centavos), em conformidade com a Resolução CM n. 5/2019 e normativos atualizadores posteriores.
No ponto, conforme o artigo 22, § 1º, da Lei n. 8.906/1994), é direito do advogado receber justa remuneração
pelos serviços prestados, e cabe ao juízo a fixação de honorários quando se tratar de defensor dativo, nomeado
em processo penal. No presente caso, a atuação do defensor dativo demandou elevada dedicação e
comprometimento, em vista da natureza penal do processo e as especificidades da matéria debatida. Ademais, o
tempo de tramitação da ação, com audiência e diversas manifestações processuais, bem como o cuidado
demonstrado na elaboração de teses defensivas e diligências realizadas (artigo 8º, Resolução CM n. 5/2019),
justificam a fixação de honorários compatíveis com a relevância do trabalho desempenhado.
Dessa forma, para a compensação justa e adequada ao esforço empregado e em respeito ao princípio da
dignidade da advocacia, os honorários são arbitrados de acordo com os parâmetros estabelecidos pela tabela de
honorários vigente (anexo da Resolução CM n. 5/2019), em consonância com os critérios legais e com a
razoabilidade.
Condeno o(a)(s) acusado(a)(s) a ressarcir ao Fundo de Reaparelhamento da Justiça dos honorários da defensoria
dativa fixados anteriormente, no prazo de 10 (dez) dias contado do trânsito em julgado da presente sentença, nos
termos do artigo 10 da Resolução CM n. 5/2019, porquanto sucumbente(s).
Isso porque, embora o(a)(s) acusado(a)(s) tenha(m) sido defendido(a)(s) pela defensoria dativa, tal
circunstância, por si só, não isenta a parte condenada do dever de ressarcir o Estado pelos honorários arcados
em razão dessa nomeação. A Constituição da República Federativa do Brasil, em seu artigo 5º, inciso LXXIV,
garante assistência jurídica gratuita apenas àqueles que comprovarem insuficiência de recursos e, no caso em
apreço, não foram apresentados elementos que atestem a hipossuficiência do(a)(s) interessado(a)(s), seja
documentalmente ou por meio de prova colhida durante a instrução. Assim, não se vislumbra fundamento legal
que justifique a isenção de ressarcimento dos honorários pagos pelo Estado ao defensor dativo.
Como decorrência lógica, após o trânsito em julgado, caso o acusado, mesmo intimado, deixe de ressarcir o
valor dos honorários da defensoria dativa ao Fundo de Reaparelhamento da Justiça, deverá ser promovido o
lançamento do crédito judicial, em conformidade com a Resolução CM n. 21/2023.
Por fim, caso comprovada de forma superveniente a incapacidade financeira, poderá o acusado postular a
suspensão da exigibilidade da referida verba honorária a qualquer tempo, inclusive no âmbito da execução
penal.
Fixação de valor mínimo para reparação dos danos causados pela(s) infração(ões):
Haja vista o disposto no artigo 387, inciso IV, do Código de Processo Penal, que prevê a fixação de valor mínimo
para reparação dos danos causados pela infração, é cabível a imposição de tal quantia para compensar os danos
morais sofridos pela vítima. O fato apurado no processo revela que o acusado praticou, de forma deliberada, o
crime de estupro de vulnerável contra I. C., causando-lhe sofrimento psíquico significativo e grave violação de
seus direitos fundamentais à segurança e à integridade física e emocional. Assim, com base no dispositivo legal
referido, com atenção aos primados da razoabilidade e proporcionalidade, fixa-se o valor mínimo para a
reparação dos danos morais a ser pago em favor da vítima no importe de R$ 10.000,00 (dez mil reais). A
definição desse montante considera não apenas a gravidade e a quantidade das condutas criminosas, mas
também o caráter compensatório e pedagógico da indenização, visando atenuar os danos causados e inibir
futuras práticas semelhantes. A reparação ora arbitrada busca assegurar que o sofrimento psicológico
experimentado seja compensado de forma justa e adequada, reafirmando a intolerância do ordenamento jurídico
com condutas dessa natureza, especialmente no contexto familiar.
Após o trânsito em julgado, serve a presente sentença como título executivo judicial (artigo 515, inciso VI,
Código de Processo Civil) para execução em desfavor de CRISTIANO CARVALHO ANGOLERI.
Transitada em julgado a presente sentença: (a) lance-se o nome do(s) condenado(s) no rol dos culpados; (b) promovam-
se as anotações e as comunicações recomendadas pela Corregedoria-Geral da Justiça de Santa Catarina; (c)
comunique-se à Justiça Eleitoral (artigo 15, inciso III, Constituição Federal); (d) expeça-se guia definitiva e, se for o
caso, forme-se processo para a execução das penas impostas; (e) intime(m)-se o(s) condenado(s) para o pagamento
da(s) pena(s) de multa, no prazo de 10 (dez) dias (artigo 50, Código Penal), se for o caso; (f) intime(m)-se o(s)
acusado(s) para ressarcir o valor dos honorários da defensoria dativa ao Fundo de Reaparelhamento da Justiça, no
prazo de 10 (dez) dias; decorrido o prazo para o pagamento, promova-se o lançamento do crédito judicial, em
conformidade com a Resolução CM n. 21/2023; e (g) arquive-se o processo eletrônico.
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Encerramento: os presentes ficam cientes do conteúdo do presente termo e de que eventuais gravações digitais
produzidas neste ato se destinam única e exclusivamente para a instrução processual, vedada expressamente a
utilização ou divulgação por qualquer meio. O documento é assinado digitalmente pelo magistrado presidente, na
forma do artigo 36, § 1º, da Resolução Conjunta n. 3/2013-GP/CGJ, do Tribunal de Justiça de Santa Catarina. E,
para constar, foi determinada a lavratura do presente termo.
Documento eletrônico assinado por EDIPO COSTABEBER, Juiz de Direito, na forma do artigo 1º, inciso III, da Lei 11.419, de 19 de dezembro de
2006. A conferência da autenticidade do documento está disponível no endereço eletrônico
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