GROSFOGUEL, Ramón. Desenvolvimentismo, modernidade e teoria da dependência na América Latina.
Revista Epistemologias do Sul. v. 2 n. 1 (2018): v.2, n.1, 2018. p.10-43
“Mania-feudal era um dispositivo de ‘distanciamento temporal’ (FABIAN, 1983) para
produzir um conhecimento que negava a coetaneidade entre a América Latina e os países
europeus avançados.” (p. 13)
“A originalidade de seus argumentos (Carlos Pellegrini) estava em articular uma política
econômica em apoio a um projeto de industrialização nacionalista na periferia da economia
mundial e identificar as relações com a Inglaterra como parte da fonte do
subdesenvolvimento da Argentina.” (p. 16)
“No final do século XIX, o evolucionismo de Spencer e o cientificismo comtiano uniram
forças para formar a versão latino-americana do positivismo, que forneceu a justificativa
ideológica para a subordinação econômica ao ‘império do livre comércio’ e a dominação
política das ditaduras de ‘ordem e progresso’. [...] Ambos foram usados na periferia
latino-americana para justificar a penetração de investimentos de capital estrangeiros e
promover o liberalismo econômico contra o ‘atraso’ e o ‘feudalismo’. Estagismo evolutivo,
progresso inevitável e otimismo na ciência e na tecnologia foram combinados para formar
uma visão teleológica da história humana que fortaleceu a base da ideologia
desenvolvimentista.” (p. 18)
“A revolução era um meio radical para alcançar o projeto da modernidade: desenvolvimento
nacional, controle racional da sociedade através de teoria científica (marxismo), erradicação
da ignorância e do atraso ‘feudal’. Ambos condenaram o imperialismo e a classe do senhorio,
favorecendo a reforma agrária e a industrialização como solução para o Peru (para Haya de
La Torre e Mariátegui).” (p. 19)
“Ao invés de caracterizar formas de trabalho semifeudais como parte de um modo de
produção ‘atrasado’ e ‘subdesenvolvido’, Mariátegui conceitualizou-as como produzidas pelo
sistema capitalista internacional. Nesta conceptualização, as formas semifeudais não são um
residual do passado, mas uma forma de trabalho do atual sistema capitalista mundial.” (p. 20)
“Os problemas com a balança de pagamentos que a industrialização por substituição de
importações tentou resolver foram dramaticamente agravados devido à dependência
tecnológica aos centros. Em vez de importar bens de consumo, os latino-americanos foram
obrigados a importar maquinaria, novas tecnologias, patentes e licenças para o qual
precisavam pagar ainda mais.” (p. 23)
“De acordo com o dogma marxista ortodoxo, todas as sociedades teriam que passar por
sucessivas etapas fixas para alcançar o socialismo. Seguiu-se que a América Latina, na
medida em que ainda não era capitalista, tinha que primeiro alcançar o estágio capitalista de
desenvolvimento. Poderia fazê-lo por uma aliança das classes trabalhadoras com a ‘burguesia
nacional’ para erradicar o feudalismo e criar as condições para o capitalismo; depois disso, a
luta pelo socialismo poderia começar.” (p. 24)
“[...] os dependentistas conseguiram romper completamente com as premissas eurocêntricas
de distanciamento do tempo e negação da coetaneidade pressuposta pelas teorias da
modernização e do modo de produção? Eles superaram com sucesso o desenvolvimentismo
como geocultura do sistema mundial?” (p. 27)
“O Estado-nação, apesar de ainda ser uma importante instituição do capitalismo histórico, é
um espaço limitado para transformações políticas e sociais radicais.” (p. 29)
“Desta forma, para Cardoso, a industrialização periférica depende de novas tecnologias e
máquinas avançadas dos centros. No entanto, em sua opinião, esse novo caráter de
dependência equivale ao desenvolvimento porque contribui para a expansão do capitalismo
industrial (ou seja, o crescimento das relações salariais e do desenvolvimento das forças
produtivas).” (p. 34)
“Cardoso substituiu o antigo estagismo da teoria da modernização e do modo de produção
por uma nova forma de negação de coetaneidade baseada na tecnologia utilizada no sistema
produtivo dentro de um Estado-nação.” (p. 35)
“O que está implícito na noção de colonialidade do poder é que o mundo não foi
completamente descolonizado. A primeira descolonização estava incompleta. Estava limitada
à ‘independência’ jurídico-política dos Estados imperiais europeus. A ‘segunda
descolonização’ terá de abordar as hierarquias raciais, étnicas, sexuais, de gênero e
econômicas que a ‘primeira descolonização’ deixou em vigor. Como resultado, o mundo
precisa de uma ‘segunda descolonização’ diferente e mais radical do que a primeira.” (p. 36)