Estudos em Letras
Estudos em Letras
5 Prefácio
Linguística
6 O GÊNERO PARA BAKHTIN, SCHNEUWLY E ADAM
Literatura
34 QUARTO DE DESPEJO: UMA BREVE ANÁLISE
62 A NECESSIDADE DO ENCANTAMENTO
Resenhas
10 CHAUÍ, M. Convite à Filosofia. 14ª ed. São Paulo: Ática, 2019, 520p.
112 BEI, Aline. O peso do pássaro morto. São Paulo: Editora Nós, 2017, 168 p.
PREFÁCIO
Paulo Francisco,
17 de abril, 2025.
O GÊNERO PARA BAKHTIN, SCHNEUWLY E ADAM
Para Bakhtin, a língua é um produto complexo da interação. Assim, ele não separa
o indivíduo do coletivo e vice-versa. Talvez, seu pensamento filosófico-linguístico se
resuma nisto: a língua é dialógica, não somente na presença de um interlocutor, pois os
enunciados se constituem por outros (FIORIN, 2011, p. 18). O discurso, fenômeno da
interação de vozes dentro de contextos, é um fato de duas vias ou mais.
1 Para Adam (2008, apud CABRAL, 2013, 203), o plano de texto “é um princípio organizador que permite
atender e materializar as intenções de produção e distribuir a informação no desenvolvimento da
textualidade e é responsável pela estrutura composicional do texto”.
6
descritivo; (iii) explicativo; (iv) argumentativo e (v) dialogal (ALVES-FILHO e SILVA,
2010, p. 25).
Pode-se dizer que, a partir da teoria de Bakhtin, o texto deve ser, em última análise,
o objeto da linguística como ciência. Semelhantemente, partindo de Schneuwly, o objeto
de ensino da Língua Portuguesa deve ser o texto. Isso pode parecer incrível para um
linguista estruturalista ou gerativista, por instância, mas isso é devido a uma abordagem
cartesiana – que, aliás, não tem muita relação com Descartes –, que isola a parte do todo.
Referências
Cabral, Ana Lúcia Tinoco. "O conceito de plano de texto: contribuições para o processo de
planejamento da produção escrita." Linha D'Água, 26.2 (2013): 241-259.
FIORIN, José Luiz. Introdução ao pensamento de Bakhtin. São Paulo: Ática, 2011.
7
CONTRIBUIÇÕES AO ESTUDO CIENTÍFICO DE LÍNGUAS DE SINAIS DE
WILLIAM C. STOKOE E LUCINDA FERREIRA BRITO
Em 1965, Stokoe publicou uma pesquisa sobre a LSA e concluiu que essa língua
tem o mesmo status linguístico das línguas orais (LO) (AGUIAR e CHAIBUE, 2015, p.
11).
No Brasil, Lucinda Ferreira Brito pesquisou sobre a língua de sinais dos índios
Urubu-Kaapor (RAMOS, 1947, p. 6), habitantes de uma região próxima do Rio Guripi
(FERREIRA-BRITO, 1993, p. 13). Uma das principais obras da autora é Por uma gramática
de língua de sinais, agora referência nos cursos de graduação e pós-graduação em LIBRAS.
Também, propôs, junto a Langevin, um sistema de transcrição de sinais para, como fez
Stokoe, registrar e transcrever uma língua de sinais, no caso, LIBRAS.
Como diz Ferreira-Brito (1993, p. 13), a “língua de sinais refere-se a estruturas
linguísticas por surdos na expressão e elaboração do pensamento e na comunicação”.
Portanto, não pertencem à categoria de língua artificial. Quanto à iconicidade, decerto há
elementos mais próximos de uma representação icônica (como seria uma onomatopeia em
uma língua oral), mas qualquer representação em LS é convencional:
8
[L] (dedos indicador e polegar abertos e curvos) apenas o tronco da
árvore; e em Língua dos Sinais Dinamarquesa (LSD), onde as duas mãos
em (B) (mãos abertas, dedos juntos) traçam no espaço o bordo aparente
da cópula e do tronco da árvore.
Isso poderia servir como indicador que as LS não são “universais”. Ferreira-Brito,
em relação à estrutura sublexical, diz que a LIBRAS, como qualquer outra língua de sinais,
é constituída pelos parâmetros já mencionados, além de orientação (O) e expressão facial
(EF).
Referências
AGUIAR, T. C.; CHAIBUE, K. Histórico das Escritas de Línguas de Sinais. Virtual de
Cultura Surda, Arara Azul, Petrópolis, v. 15, p. 1-28, mar. 2015
FERREIRA BRITO, Lucinda. Integração social & educação de surdos. R.J.: Babel,
1993.
________________________. Por uma gramática de Língua de Sinais. Rio de Janeiro:
Tempo Brasileiro, 2010.
DE ARANTES LEITE, Tarcísio. O futuro dos estudos das línguas (de sinais). In: DE
QUADROS, Ronice Müller.; STUMPF, Marianne Rossi.; LEITE, Tarcísio de Arantes
(Org.). Estudos da língua brasileira de sinais I. Florianópolis: Insular, 2013.
GODOI, E. Por uma gramática de língua de sinais. Educação e Filosofia, Uberlândia, v.
29, n. [Link], p. 397–408, 2016. DOI: 10.14393/[Link].0102-
6801.v29nEspeciala2015-p397a408.
RAMOS, Clélia Regina. LIBRAS: a língua de sinais dos surdos brasileiros. Editora Arara
Azul: Rio de Janeiro, 2002.
STOKOE, William C. Sign Language Structure: an outline of the visual communication
systems of the american deaf. The Journal of Deaf Studies and Deaf Education, v. 10,
Issue 1, Winter 2005, p. 3–37.
9
AQUISIÇÃO DE LINGUAGEM: ALGUMAS ABORDAGENS TEÓRICAS
Introdução
A inevitabilidade da epistemologia
Um mesmo objeto pode ser lido através de muitos ângulos, que correspondem a
muitas interpretações. Assim, não se deve confundir objeto ou fato com interpretação.
Explicando a interpretação de acordo com Peirce, Eco (2015, p. 183) diz que o
objeto dinâmico (e.g., uma rosa) é representado por um representâmen, que é traduzido em
um interpretante, outro representâmen. O exemplo que Eco recorre é à rosa:
um dado objeto pode ser representado pelo termo rosa e o termo rosa
pode ser interpretado por flor vermelha, ou pela imagem de uma rosa, ou
por toda uma história que narre como se cultivam as rosas (Ibidem, p.
184).
10
Dito isso, a interpretação (do fenômeno da AL) é condicionada por certas
representações das realidades. Estas representações estão dentro de vertentes teóricas, as
quais se pode mapear a partir dos autores aqui estudados: (1) racionalismo cartesiano, (2)
empirismo, (3) idealismo; (4) materialismo histórico-dialético.
Não há como obter fatos ou dados empíricos das realidades fora de uma teoria, pois
não os são explicativos em si mesmos. Vygotsky sugere o mesmo ao falar que Piaget:
This meant, in the first place, abandoning dogmas that are entirely foreign
to the natural sciences and have no place in rational inquiry, the dogmas
of several varieties of behaviorism, for example, which seek to impose a
priori limits on possible theory construction, a conception that would
properly be dismissed as entirely irrational in the natural sciences1 (1992,
p. 511).
Chomsky parece opor-se ao programa empirista e, portanto, aos behaviorismos,
algo comum também em Piaget. Saber também que a posição metodológica de Chomsky
se enquadra na continuação do apriorismo kantiano, enquanto para Piaget “o sujeito
kantiano é visivelmente estreito, pois ele é visto pelo prisma da ciência do seu tempo
1“Isso significava, em primeiro lugar, em abandonar dogmas que são completamente estranhos às
ciências naturais e que não têm lugar algum no inquérito racional, os dogmas dos vários tipos de
behaviorismo, por exemplo, que buscam a priori impor limites na possível teoria da construção,
uma concepção que seria corretamente descartada como irracional nas ciências naturais” (tradução
minha).
11
(cronocentrismo) e da perspectiva do adulto (adulto centrismo)” (DONGO-MONTOYA,
2021, p. 96), demonstra uma leitura especificamente filosófica dos dados científicos.
Behaviorismo
P. ex., uma criança com um pouco mais de 12 meses pronunciou: [mã’mã ma’ma].
Aqui, o lactente é estimulado pela fome e responde com componentes fonéticos simples a
fim de se alimentar 2. Isso estaria, talvez, mais próximo do que Skinner chamou de mando3:
A análise de Skinner, certamente complexa, não parece ser suficiente para explicar
a produção e recepção de frases por crianças que nunca foram proferidas anteriormente
(CEZARIO; MARTELOTTA, 2008, p. 208). Também, não é plausível que o ambiente seja
suficiente para o desenvolvimento do pensamento e linguagem, como se esse processo
dependesse unicamente da experiência. Essa abordagem é criticada sobretudo por ideais
construtivistas e inatistas.
Cognitivismo construtivista
Piaget entende que a cognição se dá por meio da interação entre o meio ambiente e
outros sistemas cognitivos. Depois da superação do “estágio sensório-motor”, por volta dos
18 meses, há “o desenvolvimento da função simbólica, por meio da qual um significante
representa seu significado” (CEZARIO; MARTELOTTA, 2021, p. 212). Quando a criança
2 Na fase de maior domínio linguístico, dentro de 24 a 30 meses, é possível que ele diga: “mamãe, quero
mamar”.
3 Em O comportamento verbal (1978), Skinner categoriza sete operantes verbais: tato, mando, ecoico,
12
faz a distinção entre o “eu” e “outros”, então começa “o desenvolvimento da linguagem, a
qual é entendida por Piaget como um sistema simbólico de representações” (Ibidem).
Para Piaget, há um esquema de ações o qual o organismo usa para interagir com a
realidade externa. Quando posto em novos contextos, o organismo estará em um estado de
desequilíbrio, sendo forçado a adaptar-se para restaurar o equilíbrio. Há três tipos de
equilibração: interação entre indivíduo e objetos; interações entre os subsistemas
cognitivos; interações (sociais) entre subsistemas cognitivos e realidade exterior
(MORATO, 2011, p. 324).
Isso demonstra que a interação está dentro da teoria piagetiana. No entanto, para
Piaget, “é a inteligência o motor da aquisição de linguagem, via noção de
desenvolvimento”, e para Vygotsky “a linguagem é o motor do processo de aquisição
cognitiva geral, via noção de mediação (Ibidem, p. 323, grifo do autor). Assim, distingue-
se os dois teóricos:
Por toda sua vida, Piaget foi atraído pela biologia, e essa diferença em
inspiração pode explicar a diferença entre dois importantes paradigmas
na psicologia do desenvolvimento: Piaget colocou ênfase nos aspectos
estruturais e nas leis essencialmente universais (da origem biológica) do
desenvolvimento, ao passo que Vygotsky enfatizou a contribuição da
cultura, a interação social e a dimensão histórica do desenvolvimento
(IVIĆ, 1989, p. 428 apud FIGUEIREDO, 2019, p. 17).
Interacionismo social
Para ele, o que distingue os seres humanos dos animais é o aspecto cultural, isto é,
a relação eu-outro. Assim, o conceito chave para compreender sua proposta é a interação:
13
Os experimentos do autor, baseados na teoria sociocultural, são férteis não somente
para os estudos de AL, mas também para a aprendizagem e ensino de LM/LE/L2 4. Esses
experimentos indicam que a fala infantil desenvolve-se por meio da interação entre ela
mesma e os outros:
[1]
M: Goodness. You’re almost done with your truck, aren’t you? [falling
intonation]
C: [looks at the model] Now, purple. Purple.
[2]
M: Now what’s the next color we need?
C: [child looks at the model] White. It’s white...
Fonte: (Wertsch; Hickmann, 1987, p. 263)
A interação em [1] demonstra que a pergunta da mãe não é respondida pela criança,
que indica a fala egocêntrica.
14
Gerativismo chomskiano
Considerações finais
Referências
5 A Gramática Universal, postulada por Chomsky, é um conhecimento inato usado pela espécie humana
para adquirir uma língua materna.
6 As descrições estruturais (DEs) são objetos simbólicos.
7 E.g., um chimpanzé, animal que partilha de alguns traços biológicos com o homem, não consegue falar,
mesmo se treinado.
15
CHOMSKY, A. N. On the nature, use and acquisition of language. In: PÜTZ, M. (Ed.).
Thirty years of linguistic evolution: studies in honor of René Dirven on the occasion of his
sixtieth birthday. Philadelphia: John Benjamins., 1992.
______________. O programa minimalista. São Paulo: Editora Unesp, 2021.
CORREA, L. M. S. Aquisição de linguagem: uma retrospectiva dos últimos trinta anos.
D.E.L.T.A., vol. 15, número especial. São Paulo: EDUC, 1999.
DONGO-MONTOYA, A. O. O debate entre Chomsky e Piaget. In: Pensamento e
linguagem: Vygotsky, Wallon, Chomsky e Piaget. São Paulo: Editora UNESP, 2021, pp.
95-101.
ECO, Umberto. Os limites da interpretação. São Paulo: Perspectiva, 2015.
FIGUEIREDO, Francisco José Quaresma de. Vygotsky: a interação no
ensino/aprendizagem de línguas. São Paulo: Parábola, 2019.
IVIĆ, I. Profiles of educators – Lev. S. Vygotsky. Prospects, v. XIX, p. 427-436, 1989.
KAIL, Michèle. Aquisição de linguagem. São Paulo: Parábola, 2013.
MOURA, Heronides; CAMBRUSSI, Morgana. Uma breve história da linguística.
Petrópolis: Vozes, 2018.
MORARO, Edwiges Maria. O Interacionismo no campo linguístico. In: MUSSALIM,
F.; BENTES, A. C. (Orgs.). Introdução à linguística: fundamentos epistemológicos,
Vol. 3. São Paulo: Cortez, 2011.
PAROT, F. (1978). Algumas notas sobre as teorias da aquisição da linguagem: Piaget,
Chomsky, Skinner. Análise Psicológica II. pp.115-124.
POLLOCK, J. Y. Langage et cognition. Paris: PUF, 1997.
ROMANELLI, Nancy. A questão metodológica na produção vigotskiana e a dialética
marxista. Psicologia em Estudo, Maringá, 16(2), 2011.
SKINNER, Burrhus Frederic. O comportamento verbal. São Paulo: Cultrix, 1978.
VIGOTSKI, L. S. A construção do pensamento e da linguagem. São Paulo: Editora
WMF Martins Fontes, 2009.
WERTSCH, J. V.; HICKMANN, M. Problem solving in social interaction: a
microgenetic analysis. In: HICKMANN, M. (Ed.). Social and functional approaches to
language and thought. Orlando: Academic Press, 1987, p. 251-266.
16
A UTILIDADE DA ANÁLISE METALINGUÍSTICA NO ENSINO DE LÍNGUA
MATERNA
17
é necessário estudar g nero, número, concordância, etc., a não ser quando os alunos
efetivamente erram e naquelas casos em que erram” 5, qual seria a utilidade do item e,
ampliando, da AM à educação básica? A classificação gramatical pode ser útil se permitir
reflexão de efeitos discursivos. “Não existe possibilidade de trabalhar a língua sem atinar
para o sistema.” 6 No entanto, a atividade epilinguística deve ser anterior à análise
gramatical e essa deve servir àquela: AE → AM → AE → AL.
5 POSSENTI, Sírio. Por que (não) ensinar gramática na escola. Campinas: Mercado de Letras, 1996, p.
51.
6 MARCUSCHI, Luís Antônio. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. São Paulo:
18
chamada de gramática descritiva, porque faz, na verdade, uma descrição da estrutura e
funcionamento da língua, de sua forma e função.” 8 Nesse sentido, também haveria uma
relação hierárquica entre a língua e gramática: a gramática estaria subjacente à língua em
uso. A implicação pedagógica resume-se nisto: o candidato deve entender o nível estrutural
(e.g., morfológico, sintático, semântico) para, em última análise, entender o texto.
8 TRAVLAGIA, Luis Carlos. Gramática e interação: uma proposta para ensino de gramática. São Paulo:
19
POR UM ENSINO DIDÁTICO E CIENTÍFICO DA LÍNGUA PORTUGUESA NA
EDUCAÇÃO BÁSICA: O CASO DO PARTICÍPIO
Introdução
1 Este adjetivo é conveniente, pois os trabalhos gramaticais pré-científicos são geralmente destinados às
instituições de ensino.
2 Justifico “desaprendizagens” porque a criança, ao chegar na escola, é constrangida com uma língua
ensinada de forma tão abstrata que se sente como se não soubesse a língua que adquiriu de sua mãe.
3 RUWET, Nicolas. Introdução à gramática gerativa. São Paulo: Perspectiva, 2009, p. 18.
20
Estudo de caso: o particípio no português
‘Furada’ tem relação verbal, mas está posicionada como adjetivo, como em (2):
21
Neste exemplo, há somente dois itens lexicais marcados (“eu (Ø) amigável”), mas
é traduzido para o português como “eu sou amigável”. Caso semelhante ocorre no russo,
em que somente há dois itens lexicais:
O adjetivo em (5) e (6) não está ligado ao sujeito por verbo, o que é semelhante à
frase em (1). Conclui-se que os adjetivos, nessas línguas, em alguns casos não dependem
de regência verbal, mas somente da função sintática.
A didática científica de LP
O professor de LP deve ser um linguista aplicado, pois deverá compreender bem os
fenômenos da língua, objetivando solucionar problemas linguísticos em sala de aula.
Entretanto, esse professor não estará falando a outros cientistas da língua e linguagem; os
alunos não são especializados.
A transposição didática no ensino básico não pode ser a mera reformulação de um
conhecimento avançado para o iniciante ou intermediário, mas deve ser compreendida
como a adequação do conhecimento teórico para o conhecimento prático. O professor de
LP não pretende estritamente formar cientistas da linguagem, isso cabe ao professor
universitário em um curso de Letras ou Linguística. A intenção do professor é permitir
possibilidades de aprendizagem linguística para a vida em comunidade. Porém, essa
transposição deve ser cientificamente correta.
A aprendizagem linguística somente é possível porque há estruturas cognitivas da
espécie humana que permitem outputs que não se devem à memorização deles mesmos,
mas sim a inputs prévios (como, em matemática, o conhecimento linguístico da expressão
‘1’ ou ‘+’, que se referem respectivamente à unidade e adição; como a relação empírica de
aproximar um dedo de outro e assim formar 2 dedos, aplicando isso a outras equações); é
possível, por exemplo, pelo fenômeno da economia linguística ou recursividade.
Usar os métodos e teorias da linguística, respeitando a adequação mencionada, é
relevante pois permite não uma fadiga escolar, mas o desenvolvimento da inteligência
linguística. O professor deverá usar métodos dedutivos com seus alunos; oportunizar a eles
a pesquisa de corpus linguístico, levantar hipóteses, registrar a aprendizagem em diários;
etc. De certa forma, seus alunos deverão ser “pesquisadores” da língua que usam.
22
O ensino de LP: classes de palavras
Como se demonstrou neste estudo, uma classe de palavra não é estática, mas se
altera dependendo do contexto linguístico. Para evitar o simplismo em aula, o professor
deverá demonstrar que os itens linguísticos são dinâmicos. Poderá, por exemplo, conduzir
os alunos ao questionamento sobre as “classes fechadas e abertas”; sobre a dicotomia entre
gramática e léxico; poderá indicar os fenômenos como de gramaticalização e lexicalização;
comparar a LP com outras línguas. O objetivo dessa abordagem é permitir uma
sensibilização maior dos alunos quanto à complexidade da língua que usam.
Considerações finais
O professor de LP deve ter duas funções: ser um cientista e um educador. Logo,
deve ter habilidades de pesquisa científica, como hipotetizar fenômenos da língua. Deve
também compreender bem a literatura especializada. No entanto, deverá adequadamente
transpor esse conhecimento aos seus alunos. Deve perguntar: por que meus alunos
deveriam saber disso? Isso se aplica ao que em seus contextos? Como eles usarão essa
informação? Sem essas duas funções, é possível que se cometa erros de análise que podem
resultar em uma inabilidade ou insegurança dos estudantes. Pode também resultar na
ineficiência do ensino, como um conhecimento que não é útil para o aluno e sua
comunidade.
23
LETRAMENTO COMO CAUSA EPISTÊMICA
Definição de letramento
24
número de testes, concluem que a maçã é verdadeiramente vermelha. Poderiam ainda
duvidar, pensando que estão sendo manipulados por outra mente, mas não têm evidências
empíricas para confirmar isso.
A crença existencial
S⬌F
F⬌S
3 Neste texto, distingo ação de conduta desta forma: qualquer ação é conduta, mas nem toda conduta é ação,
como acreditar em uma proposição qualquer e não agir a partir dela.
4 Há outros contextos que, mesmo assim, não desaprovam minha tese. Por exemplo, na teoria das condutas
há um grande conflito em entender como é possível um indivíduo acreditar que algo é ruim à sua saúde,
mas mesmo assim fazê-lo, como no caso da adicção.
25
A implicação disso poderia ser incrível para alguns: “nem toda crença modificaria
a conduta”. Por exemplo, que mudança de conduta há na crença que pontos brilhantes no
céu são, na maioria dos casos, estrelas? No entanto, ainda é conhecimento, pois de certa
forma está relacionada com a existência de um indivíduo e modifica suas condutas, pois
também há conduta de pensamentos. Nessa lógica, qualquer informação humanamente
apreendida, quando não isolada de outras crenças, é existencial.
Dessa forma, o educador deve considerar que há informações (output ⮕ input) que
não serão um condicionamento suficiente para prática social do educando. Para oportunizar
o letramento adequadamente, ele deve compreender as características da comunidade desse
e suas necessidades sociais. O letramento somente ocorrerá se o conhecimento
oportunizado ao educando for positivo. Isso não quer dizer que toda a informação ensinada
deverá ser prática, mas deverá ser significativa para a exigência intelectual de sua
comunidade.
26
não escrevem diários, ensaios, contos, etc. Dessa forma, o fato de o conhecimento não ser
relevante para o aluno não significa que não deva ser relevante para ele. Se o professor não
demonstrar a relevância desse conhecimento para seu aluno, não oportunizará que a
informação ensinada seja conhecimento.
27
UMA BREVÍSSIMA INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS ENUNCIATIVOS
Introdução
Este pequeno estudo objetiva apresentar e revisar os principais autores e conceitos
dos estudos enunciativos na disciplina Estudos Enunciativos do curso de Letras/Português
do Instituto Federal de São Paulo, Campus Salto. Apresento o conceito de língua e a
delimitação científica da linguística por Ferdinand de Saussure, a modalização de Charles
Bally, as funções da linguagem de Roman Jakobson, a teoria da enunciação de Émile
Benveniste e a perspectiva dialógica de Mikhail Bakhtin. Repare-se que não se estudou
outros autores essenciais aos estudos enunciativos, como Oswald Ducrot, uma vez que
ainda não foram introduzidos na disciplina. Este estudo destina-se a outros estudantes de
Letras. Logo, deixo de explicar conceitos que julgo básicos para o campo. Para o estudo
desses linguistas, usei bibliografia primária (para o caso de Saussure, Jakobson e
Benveniste) e somente secundária (Bally e Bakhtin). Isso demonstra uma fragilidade do
estudo. No entanto, espera-se que seja um esboço para pesquisas mais sofisticadas.
Saussure critica essa percepção, que ele considera ingênua, de que o significado
é o que permite a ligação entre um signo e uma coisa. Se assim fosse, a língua
seria uma nomenclatura (SAUSSURE, 2006 [1916], p. 79), ou seja, uma lista
de termos correspondendo a uma lista de coisas (ou referentes) (MOURA;
CAMBRUSSI, 2018, p. 180).
O signo é arbitrário: “a ideia de ‘mar’ não está ligada por relação alguma anterior à
sequência de sons m-a-r que lhe serve de significante; poderia ser representada igualmente
bem por outra sequência, não importa qual” (SAUSURRE, op. cit., p. 81-82). A língua é o
conjunto estruturado por uma coletividade, o que independe da vontade individual. É, assim,
a soma de sinais, representada nesta fórmula: “1 + 1 + 1 + 1... = I (padrão coletivo)” (ibidem,
28
p. 27). Em contraste, a fala (parole) é individual, cujas manifestações são variáveis. A partir
disso, Saussure delimita sua ciência linguística à língua:
Pode-se, a rigor, conservar o nome de Linguística para cada uma dessas duas
disciplinas e falar duma Linguística da fala. Será, porém, necessário não
confundi-la com a Linguística propriamente dita, aquela cujo único objeto é a
língua. Unicamente desta última é que cuidaremos, e se por acaso, no decurso
de nossas demonstrações, pediremos luzes ao estudo da fala, esforçar-nos-emos
para jamais transpor os limites que separam os dois domínios (ibidem, p. 28).
[...] assim se explica que certas disciplinas mal tenham sido afloradas, a
semântica, por exemplo. Não nos parece que essas lacunas prejudiquem a
arquitetura geral. A ausência de uma 'Linguística da fala' é mais sensível.
Prometida aos ouvintes do terceiro curso, esse teria tido, sem dúvida, lugar de
honra nos seguintes (ibidem, p. 4).
Bally, como em Traité de stylistique française, desenvolveu uma estilística da
língua, em contraste com uma estilística puramente dos estudos literários. Para esse
linguista, a linguagem pode expressar sentimentos e pensamentos. Logo, seria um veículo
do sujeito, o “que significa que a estilística deve se preocupar com a presença da enunciação
no enunciado e não apenas como o enunciado propriamente dito” (FLORES; TEIXEIRA,
2005, p. 16).
O modus é a crença expressa pelo sujeito; o sujeito poderia dizer: “Decerto, Sócrates
é filósofo”, o que também pressupõe um sujeito: [Eu afirmo] + [decerto, Sócrates é filósofo].
O segundo é “o conteúdo representado”, como em “Sócrates é filósofo”. Diferente da
29
abordagem clássica da lógica, a preocupação aqui é com o fato linguístico relacionado com
o sujeito, uma vez que é expresso por ele.
30
Émile Benveniste, o linguista da enunciação
“O ato individual pelo qual se utiliza a língua introduz em primeiro lugar o locutor
como parâmetro nas condições necessárias da enunciação” (ibidem). Mas, como já indicado,
o locutor (“eu”) fala a um alocutário (“tu”), essas são as duas figuras do ato.
A situação é a certa relação de enunciação que a língua tem com o mundo (ibidem,
p. 138). No discurso, o locutor refere-se a objetos no mundo, que são conferidos pelo
alocutário.
2No capítulo Comunicação animal e linguagem humana (Problemas de linguística geral), Benveniste
conclui que as abelhas não têm linguagem como os seres humanos. Também, foi influenciado por Lévi-
Strauss, antropólogo francês.
31
aquele que fala, mas ora a quem é falado; “ele/ela/eles” não fazem parte do discurso,
portanto, não são índices de pessoa, mas situacionais, uma vez que são os referidos.
Pode-se dizer que a enunciação é primordial para sua teoria como análise dos
fenômenos linguísticos. A crítica de Bakhtin ao estruturalismo saussuriano é primeiramente
quanto ao objeto da linguística. Para ele, as formas linguísticas não são sobretudo o objeto
dessa ciência, a despeito de não as dispensar de seus estudos.
Referências
32
GUIMARÃES, E. (1995). Modalização e Construção do Texto. In Inês Duarte e Matilde
Miguel (org.), Actas do XI Encontro Nacional da Associação Portuguesa de
Linguística: gramática e varia: Vol. III. Lisboa: Edições Colibri, pp. 563-568.
PLATÃO. Crátilo: ou sobre a correção dos nomes. São Paulo: Paulus, 2014.
SAUSSURE, Ferdinand. Curso de linguística geral. São Paulo: Editora Cultrix, 1995.
33
QUARTO DE DESPEJO: UMA BREVE ANÁLISE
Introdução
Carolina Maria de Jesus nasceu em Sacramento, interior de Minas Gerais, em 1914,
conforme aceita a maioria de seus biógrafos, e lá permaneceu até 1947 (AZEREDO, 2018,
p. 25). A partir de então, trabalhou como empregada doméstica em São Paulo e coletora de
papel na favela de Canindé, “um aglomerado de barracos de madeira construídos de modo
precário com os restos da cidade – papelão, madeira, refugos – nas margens ainda não
retificadas do rio Tietê” (CASTRO; SILVA, 2019). Carolina escreveu mais de 4.500
páginas em 37 cadernos que recolhia de lixeiras de São Paulo (SOUSA, 2011, p. 86); além
de Quarto de despejo (1960), escreveu Casa de alvenaria (1961), Provérbios (1963),
Pedaços da fome (1963) e Diário de Bitita (1986). A seguir, farei um breve estudo de dois
aspectos de QD: i) narratologia: a intersecção entre autor e personagem no gênero
autobiográfico. ii) Crítica social: o telos (fim) e mensagem em QD.
34
A favela como personagem
Foi no período pós-escravidão quando a segregação socioespacial se tornou mais
visível no Brasil. Pessoas de baixa-renda, isto é, ex-escravos, habitavam em cortiços –
originalmente casarões ocupados por pessoas ricas durante o Império – que, durante a
reforma do engenheiro Francisco Pereira Passos no início do século XX, conhecida também
como Reforma Urbana Pereira Passos, foram demolidos “e no local abriu novas ruas que
contribuíram na circulação interna e na diminuição nos custos do transporte de mercadorias
do comércio, ou seja, beneficiou o crescimento do capital” (AZEVEDO; COSTA, 2016, p.
152). Como já mencionado, é nesse exato contexto espacial em que se encontra Carolina.
Obras como O Cortiço, de Aluísio Azevedo, e o QD, de algum modo, personificam
o espaço, já que, de forma semiótica, o homem está irrevogavelmente relacionado com ele.
O título Quarto de Despejo faz jus ao ato poético de Carolina (2014, p. 31):
Para a poetisa, São Paulo está espacialmente organizada com seus habitantes. Os
ricos vivem na “sala de visita” e os pobres “no quarto de despejo”. Caracterizando a favela
como quarto de despejo, Carolina reflete sobre a qualidade social dos habitantes
marginalizados: “Estou no quarto de despejo, e o que está no quarto de despejo ou queima-
se ou joga-se no lixo” (Ibidem, p. 32). Desde que quarto de despejo seja sinônimo de favela
na obra, dever-se-á analisar suas ocorrências.
O substantivo favela ocorre mais de 300 vezes no texto de Carolina. Na maioria das
ocorrências, o termo é relacionado com agentes e seus atributos. À guisa de demonstração,
considero os seguintes excertos:
Catei dois sacos de papel. Depois retornei, catei uns ferros, uma latas, e
lenha. Vinha pensando. Quando eu chegar na favela vou encontrar
novidades. Talvez a D. Rosa ou a indolente Maria dos Anjos brigaram
com meus filhos (Ibidem, p. 23).
35
Mesmo elas aborrecendo-me, eu escrevo. Sei dominar meus impulsos.
Tenho apenas dois anos de grupo escolar, mas procurei formar o meu
carater. A unica coisa que não existe na favela é solidariedade (Ibidem, p.
25).
Favelado, junto de suas flexões, é outro termo usado por Carolina, que funciona
como forma semelhante das locuções nominais ou adjetivas com o primeiro termo.
Contudo, pode-se notar uma distinção de uso: Carolina usa favela com um tom de crítica –
a favela é ativa em sua própria miséria –, mas quando fala acerca do favelado, fala de sua
passividade. É neste momento em que Carolina demonstra empatia com o miserável, já que
ela também não deixa de ser uma.
Ele vinha visitá-la todos os domingos. Ele não tem nojo dos favelados.
Cuida dos míseros favelados com carinho. Isto competia ao tal Serviço
Social.
...Chegou o esquife. Cor roxa. Cor da amargura que envolve os corações
dos favelados (Ibidem, p. 29)
A crítica social em QD
“A vida de Carolina na favela do Canindé contrastava com o projeto de
modernização do país promovido pelo governo de JK” (SOUSA, 2011, p. 104).
Novamente, a busca por alimento por Carolina, mãe de João José de Jesus (1948-1977),
José Carlos de Jesus (1950-2016) e Vera Eunice (1953-), é o grande tema em QD.
O substantivo fome ocorre 69 vezes no texto é o mais regular das palavras
relacionadas com alimento. Na maior parte das ocorrências, Carolina faz uma crítica ao
governo e políticos: “...O que eu aviso aos pretendentes a politica, é que o povo não tolera
a fome. E preciso conhecer a fome para saber descrevê-la” (CAROLINA, 2014, p. 25).
36
...O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A
fome também é professora. Quem passa fome aprende a pensar no
proximo, e nas crianças (Ibidem).
...Eu não ia comer porque o pão era pouco. Será que é só eu que levo esta
vida? O que posso esperar do futuro? Um leito em Campos do Jordão. Eu
quando estou com fome quero matar o Janio, quero enforcar o Adhemar
e queimar o Juscelino. As dificuldades corta o afeto do povo pelos
políticos (Ibidem, p. 28).
De acordo com a vertente aristotélica, o que define uma obra como ficção é o telos,
isto é, a personagem ou narrativa em busca de um fim. A metanarrativa está presente QD,
pois tanto a personagem quanto a autora buscam pelo mesmo fim:
Considerações finais
Não se pode confinar a expressividade de um autor em um corpo textual estático,
que nunca muda e sempre tem a mesma forma. Os entendidos erros linguísticos em QD
contribuem para a poética e estética de Carolina de Jesus que, ao escrever sua obra, torna-
37
se personagem. Também, Carolina não é consciente do todo do Cosmos em sua narrativa,
mas está limitada à sua própria experiência.
Carolina representa a favela como um ente em sua estória. A favela é o quarto de
despejo e, ao usar tal expressão, a autora demonstra a objetificação dos marginalizados por
entidades públicas. Além disso, Carolina não deixa de representar o favelado como
responsável por sua miséria: “Hei de citar tudo que aqui se passa. E tudo que vocês me
fazem”.
O grande tema de QD é a fome. O termo exemplificado em excertos demonstra o
descaso dos políticos com a necessidade mais básica do ser humano. Pode-se dizer que essa
é a crítica social mais clara na obra.
Carolina, quase obliterada, morreu em 14 de agosto de 1977 em uma periferia de
São Paulo. Basta a nós continuar um profundo e minucioso estudo de sua obra que a
imortaliza.
Referências
AZEVEDO, Uly Castro de; COSTA, Duane Brasil. Da favela à comunidade: Formas de
classificação e identificação de populações no Rio de Janeiro. Revista
ANTHROPOLÓGICAS, ano 8, volume 15(2): 171-198 (2004).
GODINHO, Marta Teresinha. O Serviço Social nas Favelas – São Paulo. Trabalho de
Conclusão de Curso apresentado para Escola de Serviço Social, 1955.
JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. 10 ed. - São
Paulo: Ática, 2014.
SILVA, Carlos Fernando Ribeiro da. Contradições em Carolina Maria de Jesus. 2013.
32 f., il. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Letras Português) -
Universidade de Brasília, Brasília, 2013.
SOUZA, Germana H. P. Carolina Maria de Jesus: escrita íntima e narrativa de vida. In:
BASTOS, Hermenegildo; ARAÚJO, Adriana de F. B., (orgs.). Teoria e prática da crítica
literária dialética. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2011.
Paulino, Jorge. 2007. O pensamento sobre a favela em São Paulo: uma história concisa
das favelas paulistanas. Tese de Doutorado Arquitetura e Urbanismo. São Paulo:
Universidade de São Paulo.
38
A LIMITAÇÃO CONTEXTUAL À INTEPRETAÇÃO
II
1Aqui, descarto a possibilidade de ressignificação, pois todos os textos poderiam ser ressignificados e, assim,
a interpretação seria ilimitada, uma impossibilidade lógica.
2 PESSOA, Fernando. Obra Poética. 2. ed. Rio de Janeiro, Aguilar, 1965, p. 164.
3 CÂNDIDO, Antônio. Literatura e Sociedade. 1ª Ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1965, p.
39
Talvez, a linguagem pastoril encontrada nas Liras represente uma crítica e escape
do poeta da vida citadina: “A natureza vira refúgio (locus amoenus) para o homem do burgo
oprimido por distinções e hierarquias”4.
Seria possível chegar a essas duas conclusões ((I) as Liras não são exatamente
românticas e (II) o poeta/eu-lírico possivelmente critica a vida citadina) sem uma pesquisa
histórica, confiando somente na análise linguística?
Até mesmo as unidades linguísticas são historicamente limitadas. P. ex., a palavra
“vaqueiro” poderia desempenhar uma função semântica distinta no século XVIII quando
comparada ao presente. Sem o conhecimento contextual, o leitor seria autor e não
intérprete.
Vejamos agora dois excertos: Lira I da primeira parte e Lira XV da segunda parte.
O primeiro verso “Eu, Marília, não sou algum vaqueiro” é um claro paralelo com
“Eu, Marília, não fui nenhum Vaqueiro”. A distinção mais óbvia está no tempo verbal, que
produz um contraste temporal.
Nesse sentido, esse contraste temporal nas Liras, que “assenta-se sobre uma
realidade de caráter histórico, exterior ao fluxo da fantasia” 7, somente seria compreensível
à luz da vida do poeta.
4 BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 2017, p. 75.
5 GONZAGA, Tomaz Antonio. Marília de Dirceu. 1. ed., São Paulo: Ediouro, p. 1.
6 Ibidem, p. 78.
7 UTTANA, Renato Nésio. Tomás Antônio Gonzaga: duplo personagem. Revista de Letras, Fortaleza, v.
40
Na primeira parte das Liras, o poeta/eu-lírico encontra-se livre, na segunda, está
preso. Sem os dados biográficos de Gonzaga, o segundo excerto não poderia ser
adequadamente compreendido. Ao contrário, o leitor faria qualquer inferência.
41
O EROTISMO EM MISSA DO GALO, DE MACHADO DE ASSIS
Erotismo é amor ou desejo corporal. Essa expressão referencia duas coisas: o sujeito
(desejo) e objeto (corpo); o sujeito é dinamizado pelo objeto. Esse é simbolizado por
aquele. Dessa forma, distingue-se o que é meramente animal, pois há simbolização. No
erotismo, sempre haverá esses dois elementos. Mas a literatura artística contará com um
terceiro: outro sujeito, no caso, o leitor. Não falamos da construção do texto literário, que
envolveria o autor, texto e leitor. No sentido em que falamos, o autor torna-se ator, um
profissional da farsa, para representar muitas vozes. O texto perde seu caráter físico (papel,
tinta, língua, etc.) e torna-se mundo. Por último, o leitor também se torna ator, pois tem de
representar imageticamente o que lê. 1 Logo, o erotismo literário torna-se intersubjetivo.
II
42
III
Admitimos uma história subjacente à história escrita. Aquela seria formada pela
expectativa. O conto de Machado é histórica e socialmente limitado, pois só funciona em
língua. Para que o leitor o compreenda, terá de também entender a história e sociedade em
que o texto foi escrito. Isso significa que provavelmente o leitor estará inclinado a responder
eroticamente às sugestões do narrador, pois provavelmente o autor foi intencional sobre o
erotismo e usou mecanismos para esse fim.
No conto, uma história possível ao leitor seria a traição por parte da D. Conceição,
que sabia que era traída pelo marido: “Conceição padecera, a princípio, com a existência
da combarça; mas afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito
direito.”3 Talvez, o leitor tenha a expectativa que a senhora, por um princípio de retribuição
ou adequação moral, também traia o marido.
3 Ibidem, p. 386.
43
A LITERATURA INFANTIL COMO INTERAÇÃO ADULTO-CRIANÇA
Introdução
Literatura infantil (LI) é qualquer texto, oral ou escrito, que retrate artisticamente o
universo infantil considerado as próprias categorias de compreensão da criança. Diferente
de outras literaturas, sua gênese processa-se entre o adulto e criança1. Assim, a primeira
parte deste texto tece que uma literatura totalmente infantil é impossível.
O senso comum afirmaria que a LI, quando comparada à literatura adulta, tem status
de literatura menor. No entanto, sugiro que a LI não pode ser comparada à literatura adulta
a partir da perspectiva do próprio adulto, pois as exigências linguísticas das crianças são
diferentes. Também, a LI pode conter uma linguagem simples, mas não é simplificada.
Diferente da literatura feminina e indígena, aquela escrita por mulheres e essa por
indígenas, a LI, grosso modo, não é escrita por crianças, mas por adultos 2 , pois uma
literatura escrita somente por crianças seria impossível até certa faixa etária. E.g., uma
criança de 3 anos não teria arquétipos linguísticos suficientes para representar um mundo
não contextual sem a mediação de um adulto:
Realmente, a criança de 2 a 3 anos fala essencialmente do aqui-e-agora,
descrevendo as ações e seus resultados, bem como os protagonistas em
causa. Gradativamente, ela vai poder mencionar protagonistas e
acontecimentos passados e desconhecidos a seu interlocutor. Mas esse
caminho implica frequentemente a intervenção do adulto, para que o
discurso produzido comporte os parâmetros espaciais e temporais da
situação evocada, e algumas informações relativas ao(s) protagonista(s).3
44
usuários mais velhos. Esses recursos textuais são, como qualquer fato linguístico,
históricos. Entre outros fatores, a criança desenvolve-se pela linguagem:
45
sentimentos) ao racional/social, como usar as cores simbolicamente, algo, aliás, encontrado
em Flicts.7
Considerações finais
7 Não estou dizendo que esse processo seja linear, pois pode ser simultâneo.
8 Não quero dizer em última análise que o adulto não tenha mais conhecimento de mundo do que a criança.
A racionalidade do adulto decerto é maior do que da criança. Mas são racionalidades diferentes.
9 MACHADO, Ana Maria. Ilhas no tempo: algumas leituras. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004, p. 69.
46
LITERATURA E A SOCIEDADE DAS IMAGENS
47
Chaplin, interpreta-se a película porque o espectador, se for integrante de alguma das
civilizações modernas, conhece os conflitos interpessoais no ambiente de trabalho, a
mecanização do trabalhador, a aceleração do processo industrial, os danos psicológicos do
trabalho alienante, o desemprego, etc. Esse tipo de intepretação exige um reconhecimento
de formas (como fábrica e máquina) e relações sociais (empregador e empregado),
facilmente possíveis para a sociedade americana de então.
Mesmo que um filme seja altamente complexo, exigindo um letramento maior para
compreensão completa, ainda há apreensão dele e o espectador ainda tem uma experiência
cinematográfica. Em contraste, o texto escrito exige mais conhecimentos do leitor, de forma
que nem mesmo a pura decodificação é suficiente para a interpretação. A leitura somente
ocorre quando há uma interação social entre o autor, texto e leitor. É uma interação social
porque, primeiro, a língua é um produto da sociedade. Nunca é uma criação de um
indivíduo. Se o leitor, por exemplo, não souber alemão, mas tentar ler Kafka no original,
obviamente falhará por desconhecer o código. Não conhece esse instrumento social.
Segundo, o texto é escrito através de outros textos, que são socialmente determinados.
Assim, se o leitor não tiver o conhecimento das condutas sociais de um povo, dificilmente
poderá interagir com aqueles dois. Cognitivamente, a língua e seus constituintes são o
medium para a formação imagética de um mundo ficcional. Se a sintaxe e léxico usados
pelo escritor forem sofisticados, o leitor não preparado terá dificuldades. Nesse sentido, a
recepção do mundo ficcional mediado pela língua não é imediata como a recepção visual.
A narrativa de uma sociedade pode acontecer através de três meios: oral, escrito ou
imagético. A oralidade foi o primeiro meio de narrativa. Um povo conta sua identidade de
geração para geração, como as narrativas orais do Brasil encontradas no corpus folclórico.
Posterior a ela, há a narrativa mediada pela escritura, como a Bíblia, Ilíada e Odisseia. A
48
escritura, diferente da oralidade, não é um componente natural da humanidade, mas sim
um instrumento. Por exemplo, ela permite um acúmulo de informações em documento,
causando uma economia da memória. Através dela, não há necessidade das técnicas
mnemônicas para preservar a cultura. A imagem é ainda mais antiga do que a escritura. Ela
desempenhou um papel fundamental nas religiões antigas porque, através dela, os povos
antigos conseguiam manifestar suas crenças e sua história mítica. Não à toa, eram proibidas
na cultura hebraica. Na contemporaneidade, não há um domínio somente da oralidade,
escritura ou imagem, mas há processos híbridos: a cultura brasileira é multimidiádica. No
entanto, isso não significa que a literatura terá um papel social significativo para o brasileiro
comum, mesmo escolarizado. A despeito de uma cultura grafocêntrica, o brasileiro tem
contato com a língua escrita de acordo com suas limitações ou necessidades sociais: precisa
escrever uma carta, mandar uma mensagem de texto, preencher um currículo, etc. Grosso
modo, a literatura não é uma necessidade social para o brasileiro porque, entre outros fatores
sociais, sua necessidade narrativa já é suprida pelas imagens.
A sociedade brasileira tem uma grande falta de letramentos suficientes para acesso
à literatura canônica. Isso ocorreu em um processo histórico violento, pois a educação não
era propósito da colonização, salvo a catequese. A educação jesuítica foi formativa para o
país, mas somente uma pequena fração da população, até o século XX, tivera acesso à
instrução formal. Como na Idade Média, a população fora educada pelas imagens religiosas
ou por outros símbolos culturais expressos no ícone. A presença da oralidade, como já
observado, era também um meio educador. Como outros países, o Brasil foi influenciado
pelas tecnologias digitais e novas mídias. No século XX, educadores já percebiam a
necessidade de uma reformulação do currículo para comportar essas mídias, como pensou
o Grupo de Nova Londres. Aqui, no Brasil, a Base Nacional Comum Curricular exige que
a multimídia seja também um objeto de ensino. Contudo, se por um lado as imagens podem
oportunizar a aprendizagem, eles podem também interferir no processo imaginativo,
necessário para o letramento literário, uma vez que a imagem virtual não é construída na
mente, mas recebida por ela.
49
garrafa da Coca-Cola, um “M” amarelo, há marcas ideológicas que facilmente vendem
porque equivalem ao poder, beleza ou satisfação. É a imagem ideologicamente reconhecida
que motiva as condutas. Tendo consciência da necessidade social da narrativa, mesmo que
em um nível não científico, os capitalistas produzem narrativas para obterem mais capital.
Essas produções geralmente são filmes, séries de streaming, videogames e vídeos curtos.
Chamarei esses todos de imagens em movimento, expressão traduzida do inglês: moving
pictures. Essas imagens são projetadas para cativarem e, não eticamente, podem até ser
adictivas. Uma série romântica genérica trataria de dois jovens que, ocasionalmente, se
apaixonam; têm alguns conflitos interpessoais, mas no final permanecem juntos, vivendo
felizes para sempre. Esse tipo de série vende porque muitos desejam um encontro
romântico, uma mulher ou homem atraentes e que, no desfecho, ambos se encontrem
conjugados e felizes. Ela vende porque toca os desejos. Não é assim com a literatura
canônica, mesmo que romântica, pois a profundidade de análise existencial é maior. O final
bem realizado como em Orgulho e preconceito, de Jane Austen, não objetiva somente o
desfecho feliz. A preocupação é analisar as condutas sociais, tal como criticá-los. Obras
como a já citada Noites Brancas não têm um desfecho romanticamente estruturado, mas
sim uma aparência realista. Se o leitor está acostumado com a ficção romântica de consumo,
terá dificuldades em apreciar o tom mais filosófico e realista de Dostoiévsky. Assim, uma
vez que o brasileiro já tem sua necessidade suprida pelas narrativas de consumo, que a
literatura clássica é linguisticamente complexa, não tem para essa alguma devoção.
50
A ESCOLA DOS JESUÍTAS E A DICOTOMIA NA EDUCAÇÃO NO SÉCULO
XXI
51
isso não as qualifica menores em termos metafísicos. A teologia medieval tinha tal
característica. As camadas sociais eram dispostas em uma reta vertical descendente. Teriam
mais privilégios aqueles que estavam mais próximos de Deus, como papas e reis.
Nas palavras de Ottobono, que foi papa em 1276 por um período breve, tanto os
papas quanto Jesus Cristo (Deus) eram pontifex. O papa, o maior cargo eclesiástico da
Igreja, é equiparado a uma divindade.
Se o papa é como Cristo, logo suas palavras também: infalíveis. Isso influenciava
a cosmovisão da sociedade e, portanto, a educação: o que o professor fala é incontestável.
Partindo desse ponto, a composição das camadas sociais operava-se através de uma
ordem religiosa no Brasil no século XVI, nomeadamente, orbis christianus, termo
empregado por José Maria de Paiva e Luiz Koshiba. Os jesuítas educavam
“medievalmente”; a educação jesuítica era, diferentemente daquela grega, uma que
formava um cristão e não cidadão. Ademais, no período da consolidação (1570 – 1759),
ao malgrado de Comenius e outros reformadores, educava-se não todos, mas os escolhidos
– geralmente brancos e abastados (HILSDORF, 2003).
Em primeira análise, a educação praticada pelos jesuítas tinha mais qualidade do
que a corrente. O currículo partia das artes liberais (trivium, o ensino das linguagens e
lógica, e quadrivium, o ensino das ciências da natureza e aritmética). Lima (1919) observa
elogiosamente:
1Councils and Synods, with other Documents relating to the English Church. Oxford: Oxford University
Press, 1964.
52
Coimbra e, depois, vieram desempenhar cargos importantes na
administração eclesiástica e civil.
53
do Professor para a lição. Ali, aprenderá incontestavelmente os maiores absurdos
possíveis:
O PROFESSOR
Perfeito. Excelente. Sete mais um?
A ALUNA
Oito. (Quarta vez.) E às vezes nove.2
A aluna parece ser aquém de competente em adição, apesar do que diz o Professor:
“Magnífico! Você é magnífica! É especial! Felicito-a calorosamente, senhorita. Não vale
a pena continuar. Em matéria de adição, você é magistral. (...)”. Ela é desprovida do
pensamento autônomo, é obrigada a memorizar:
O PROFESSOR
(Cada vez mais espantado, calcula mentalmente.) Sim... Você
tem razão... o produto é de fato... (Ele balbucia ininteligível mente) ...
quintilhões, quadrilhões, trilhões, bilhões, milhões... (Distintamente) ...
cento e sessenta e quatro mil quinhentos e oito... (Estupefato.) Mas como
sabe, se não conhece os princípios do raciocínio aritmético?
A ALUNA
É simples. Não podendo confiar em meu raciocínio, aprendi de cor todos
os resultados possíveis de todas as multiplicações possíveis.
54
Admite-se no presente estudo que, apesar da escola ser laica conceitualmente,
grosso modo, ela ainda tem atributos da escola do período quinhentista: (1º) ela não é para
todos; (2º) os conhecimentos são petrificados e inquestionáveis; (3º) ela é reducionista.
Para discutir brevemente tais pontos, é preciso antes considerar as metas do Plano
Nacional de Educação, a saber, a Lei 13.005/2014 (BRASIL, 2014). O inciso II do Ar. 2°
tem como uma das diretrizes a “universalização do atendimento escola”. Não se deve
priorizar aqui uma questão quantitativa, mas qualitativa. Hoje, mais do que nunca, a
população tem acesso a uma gama de escolas. Mas, aqueles que têm acesso e são das
camadas sociais inferiores a têm em detrimento da qualidade. Saviani (2001) ainda
observa:
55
Considerações finais
A Idade Média tinha uma organização social que influenciou demasiadamente o
modelo de educação corrente. Apesar de que, até século XX, os professores podiam
praticar o sadismo pedagógico, os alunos ainda são punidos de outras formas no século
XXI.
A educação dos jesuítas, por mais catequizar do que educar, era reducionista. De
modo similar, a atual escola não contempla uma matriz de ensino que emancipa o aluno
no que diz respeito a uma sociedade, que é por si só complexa.
Os três pontos discutidos acerca dos problemas visíveis tanto no século XVI quanto
no XXI podem ser entendidos pela falta de esforço político para promover os seguintes:
uma educação para todos, que mantenha todos na escola e que seja de qualidade para todos.
Para isso, como propõe Saviani (2001), o investimento deve ser uma prioridade. A
educação e economia estão fortemente relacionadas.
Também, não há como melhorar razoável sem formar professores preparados para
a prática docente. Como já colocado, devem ser profissionais cultos, que reflitam sobre o
ato pedagógico filosófica e cientificamente. Não há mais espaço nas escolas para
professores que meramente transferem conhecimentos prontos e imutáveis, que doutrina
os alunos através de memorização de informação frívola, com a Aluna fazia antes de ser
brutalmente morta pelo professor.
Em suma, há muitas dicotomias visíveis na prática pedagógica: teoria x práxis;
certo x errado (gramática), etc.; e também discutimos sobre a principal dicotomia no
sistema de ensino (ideal x real), que deve ser obliterada sobretudo com o poder de
administração pública.
Referências
BRAY, Gerald. Teologia medieval. In.: BARRETT, Matthew (org.). Teologia da reforma.
Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017.
56
FRANCA, L. O método pedagógico dos jesuítas: o Ratio Studiorum. Rio de Janeiro:
Agir, 1952.
HILSDORF, Maria Lucia Spedo. História da educação brasileira: leituras. São Paulo:
Pioneira Thomson Learning, 2003.
LIMA, Maurílio Cesar de. Breve história da igreja no Brasil. Rio de Janeiro: Restauro,
2001.
PAIVA, Wilson Alves de. O legado dos jesuítas na educação brasileira. Educação em
Revista, Belo Horizonte, v.3, n.04, p.201 – 222, outubro-dezembro, 2015.
SAVIANI, Dermeval. Educação no Brasil: concepção e desafio para o século XXI, 2000.
Histedbr on-line. Faculdade de Educação, Unicamp, Campinas.
VERNANT, Jean-Pierre. Mito e pensamento entre os gregos: estudos de psicologia
histórica. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.
57
PROFESSOR: OPERÁRIO OU AMIGO?
1Talvez, esse caso seja somente comum no ensino superior. Mesmo assim, o argumento é válido se
considerarmos outras formas semióticas de autoridade.
58
reação”, uma perspectiva puramente comportamental da natureza humana. Segundo essa
abordagem educacional, o aluno é um “animal” que deve ser “adestrado”. Isso é um infeliz
extremo.
(II) Como vimos acima, há uma desvalorização do professor no país. Aqui, falamos
de uma questão interna: os alunos não percebem muito valor social no professor. Mas a
escola é um produto da sociedade. Logo, essa desvalorização é uma atitude da sociedade.
59
ela é uma virtude ou implica virtude, sendo, além disso, sumamente
necessária à vida. Porque sem amigos ninguém escolheria viver, ainda
que possuísse todos os outros bens (Livro VIII, I).
Se a amizade está relacionada com a virtude, para fins didáticos, definimo-la: “Uma
ação virtuosa é realizada sempre que uma pessoa racionalmente aprova o que é bom, deseja
o que é bom e, correspondentemente, faz o que é bom” (DUNNINGTON, 2022, p. 48).
O filósofo distingue amizade em três tipos: (I) amizade por utilidade, como aquela
entre negociantes; (II) amizade por prazer, comum entre os jovens; (III) amizade pelo bem.
Vale lembrar que, para Aristóteles, a amizade difere da afeição, pois essa é um sentimento,
enquanto aquela, como virtude ou relativa a ela, é um hábito. Assim, a amizade em terceiro
nível, que é prática e não unicamente conceitual, seria mais importante do que um
sentimento em volta do aluno. Mas de qual prática o professor poderá se valer para amar
seu aluno? O ato de ensinar, que envolve corpo e intelecto.
Referências
60
SAVIANI, D. História das ideias pedagógicas no Brasil. Campinas: Autores Associados,
2007.
TORRES, M. L. De escravo a modelo educacional: a trajetória do pedagogo grego.
Cadernos de História da Educação, [S. l.], v. 18, n. 3, p. 833–845, 2019. DOI:
10.14393/che-v18n3-2019-14. Disponível em:
[Link] Acesso em: 13 set. 2023.
61
A NECESSIDADE DO ENCANTAMENTO
Como Thot era mágico, como conhecia a potência dos sons que, se são
emitidos no justo tom, produzem infalivelmente seu efeito, é pela voz,
pela fala ou, melhor, pelo encantamento que Thot devia criar o mundo2.
Então, essa primeira definição é um tanto metafísica 3 ou “especulativa”.
Poderíamos, assim, objetar: já não estamos em transição do mito ao logos? Mas isso deve
ser calúnia do positivismo lógico.
Um cientista que afirma que não há milagres 4 não poderia fazer menos ciência, de
acordo com alguns critérios. A ciência moderna trabalha com enunciados não falseáveis?
Um foneticista conseguiria gravar e transcrever a fala de Deus que, desconsiderando o
corpo de Cristo, não tem um aparelho fonador?
1Aqui, chamem-me de intolerante. Mas até o mais absoluto relativista, como se isso não fosse contraditório,
é religiosamente intolerante.
2 DERRIDA, Jacques. A farmácia de Platão. São Paulo: Iluminuras, p. 40, grifo meu.
3 Não quero dizer que mito é o mesmo que metafísica.
4 Creio que exista um tipo de estigma quanto aos milagres. Geralmente, a via mais viajada é da
racionalização do que parece ser milagre, como o faz Comte-Sponville: “Um milagre é um acontecimento
incrível, no qual porém as pessoas cr
5 O “já e ainda” seria o remédio, acredito.
6 Não quero, contudo, afirmar que a religião seja meramente terapêutica.
62
Claramente, há aqueles que não têm fé (religiosa) alguma e vivem felizmente.
Imaginemos um cientista descrente. É possível que ele puramente creia no logos e não no
mito. Mas a “desmitologização”, na verdade, passa a ser uma “remitologização”, pois se a
ciência descarta o mito, ela passa a ser outro. Nosso descrente imaginário, na verdade, é
um crente.
II
63
Há somente uma distinção de hierarquia ontológica na narrativa bíblica: a de ser
eterno e criado. As criaturas que herdam a imago dei podem funcionalmente se subjazer
umas às outras, mas isso não as qualifica menores em termos metafísicos.
A teologia medieval tinha tal característica. As camadas sociais eram dispostas em
uma reta vertical descendente. Teriam mais privilégios aqueles que estavam mais próximos
de Deus, como papas e reis.
Nas palavras de Ottobono, que foi papa em 1276 por um período breve, tanto os
papas quanto Jesus Cristo (Deus) eram pontifex. O papa, o maior cargo eclesiástico da
Igreja, é equiparado a uma divindade.
Se o papa é como Cristo, logo suas palavras também: infalíveis. Isso influenciava
a cosmovisão da sociedade.
III
Na segunda parte do Discurso do método, René Descartes (1596-1650), através de
uma analogia, considera que para a obtenção de um “conhecimento verdadeiro”, seu
profundo desejo, é melhor a labuta individual:
7 Councils and Synods, with other Documents relating to the English Church. Oxford: Oxford University
Press, 1964.
8 O foco da crítica de Grün está nas questões ambientais. Em certo nível, concordo com ele. Mas não
concordo que o domínio da natureza pelo homem, de acordo com a concepção cristã, seja a razão dos
problemas ambientais. Devo ser honesto, nunca li Grün falando sobre isso explicitamente.
64
(...) Considerei em geral o que é necessário a uma proposição para
ser verdadeira e certa; pois, tendo acabado de encontrar uma que eu
sabia ser tal, pensei que eu devia também saber em que consiste
essa certeza. E, tendo observado que nisto, penso logo existo, não
há absolutamente nada que me assegure que digo a verdade, a não
ser que vejo muito claramente que, para pensar, é preciso ser,
julguei que podia tomar como regra geral que as coisas que
concebemos de maneira muito clara e distinta são todas verdadeiras
(Ibidem, p. 71).
IV
Segundo, uso a palavra como falta de contemplação. Se lá e depois não é verdade,
mas sim aqui e agora, o que nos resta? A queda (mais uma palavra mitológica!), que causa
a guerra dos recursos.
O homem pós-moderno não tem muito tempo para contemplar, pois seu olhar
tornou-se unicamente horizontal. Ele perdeu a visão medieval de olhar ao encantador. Ou
aqueles que têm acesso à beleza, na verdade, fabricam-na de si mesmos. Ou guerreiam entre
si para ter mais acesso a ela9.
Em uma certa lógica, competimos para sobreviver (um capitalismo darwiniano?).
O possuidor dos melhores recursos (p. ex., aquele que vem de uma família de grandes
9Talvez, uma empreitada filosófica para resolver o problema da falta de contemplação seria a
supervalorização humana, conveniente em um mundo após as Grandes Guerras.
65
proprietários e estuda na Fundação Getúlio Vargas) poderia retornar ao paraíso perdido.
Esse afortunado terá o conforto de trabalhar pouco ou nem mesmo trabalhar.
10Essa visão difere-se da cristã clássica, pois o trabalho já existia antes da Queda (Gênesis 2.15).
11O fruto da desmitologização pode também ser outro. O trabalho torna-se um fim em si mesmo. Acredito
que a palavra inglesa workaholic seria cabível aqui: trabalha-se para sobreviver, sobrevive-se para trabalhar.
12 Bem-vinda à selva/Aqui fica pior todos os dias/Você aprende a viver como animal/Na selva onde brincamos
(tradução minha).
66
ESCOLA E DEMOCRACIA: ONDE ESTAMOS?
Mas essas leis ainda não foram aplicadas uniformemente. A gestão escolar ainda é
autocrática e verticalizada: geralmente, o diretor é quem toma as principais decisões.
1CÁRIA, N. P.; SANTOS, M. P. Gestão e democracia na escola: limites e desafios. Revista de Gestão e
Avaliação Educacional, [S. l.], v. 3, n. 6, p. 27–41, 2014, p. 31.
67
Como a comunidade geralmente não é introduzida na participação da gestão escolar,
os objetivos de escolarização são executados por neoliberais. De acordo com eles, o Ensino
Médio é justificado unicamente pela preparação para o mundo de trabalho e acadêmico.
Essa “preparação” é recheada de ansiedade e competição. Nesse caso, os objetivos de
formação escolar tornam-se reducionistas.
Qualquer ensino precisa ser justificado. A educação não pode ser uma imposição
irracional. Assim, o PPP é o documento que responde ou deveria responder às expectativas
educacionais da comunidade.
2 Talvez, esse neologismo seja desnecessário. Quero, contudo, dizer que qualquer relacionamento entre
entidades só é possível pela intencionalidade.
3 Não estou defendendo um pragmatismo na educação, come se todo conhecimento pudesse ser reduzido à
68
ativamente e só existe em ambientes propícios e em condições propícias. Os agentes
escolares não conseguem suficientemente propor esses ambientes e condições.
Por último, proponho uma organização de dois grupos de gestores: (a) gestores
intraescolares. São diretores, coordenadores, professores e outros agentes que trabalham na
escola. Esse grupo tem mais consciência das necessidades de aprendizagem dos alunos. (b)
Gestores extraescolares. 4 São pais e comunidade. 5 Considerando as características
socioeconômicas da população brasileira, é o primeiro grupo que deve convocar o segundo
para participação na gestão escolar. Ademais, o primeiro grupo deve ser responsável pelo
letramento do segundo para participação da gestão.
69
OS TEMAS TRANSVERSAIS NOS PCNs SOB A PERSPECTIVA DE DIVERSOS
AUTORES: UM OLHAR ESPECIAL PARA O MEIO AMBIENTE1
Introdução
70
apresentados na BNCC são Cidadania e Civismo, Ciência e Tecnologia, Economia, Meio
Ambiente, Multiculturalismo e Saúde.
O conjunto não deve ser abordado exatamente como disciplina escolar, pois estaria
em uma categoria não transversal (por exemplo, o tema Meio Ambiente caberia somente
ao professor de Biologia e Geografia; Ética caberia somente ao professor de Filosofia, etc.),
o que contrariaria a proposta. Mas deve integrar sistematicamente as disciplinas
convencionais e ser aplicado ao contexto social de uma instituição de ensino.
A partir disso e uma proposta de estudo da disciplina Temas Transversais I dos
cursos de Licenciaturas em Letras - Português e Matemática do Instituto Federal de
Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo - Câmpus Salto, no ano de 2024, se objetiva
apresentar respectivamente os resumos dos seguintes textos acadêmicos: “Quando a escola
é democrática: um olhar sobre a prática das regras e assembleias na escola” (TOGNETTA
e VINHA, 2007); “O clima escolar e a convivência respeitosa nas instituições educativas”
(VINHA et al., 2016); “Práticas educativas e complementares em saúde: uma nova eficácia
para o SUS” (TELESI JÚNIOR, 2016); “Pandemia, biodiversidade, mudanças globais e
bem-estar humano” (JOLY et al., 2021); “Corpo, gênero e ciência: na interface entre
biologia e sociedade” (SENKEVICS e POLIDORO, 2012); “Interseccionalidade: um
exercício teórico a partir de uma pesquisa empírica” (CARVALHO, 2020); “Uma
abordagem conceitual das noções de raça, racismo, identidade e etnia” (MUNANGA,
2003); “Sete teses equivocadas sobre cotas para negros no ensino público superior no
Brasil: uma crítica às críticas” (VIEIRA, [s.d.]); “A divisão de trabalho: uma análise
comparativa das teorias de Karl Marx e Emile Dürkheim” (CAETANO, [s.d.]); “Histórico
ambiental: desastres ambientais e o despertar de um novo pensamento” (POTT et al., 2017);
“Fiapos de carne materna entre os dentes, ou a crônica do suicídio ambiental em Rapa Nui
(Ilha de Páscoa)” (SOUZA NETO, 2011); “A Educação Ambiental na Base Nacional
Comum Curricular: os retrocessos no âmbito educacional” (OLIVEIRA et al., 2021.
Esses textos foram escritos por cientistas e filósofos e enquadram-se nos Temas
Transversais. Espera-se que sejam bases para prática docente e outras investigações.
Os autores deste trabalho apresentaram o tema Meio Ambiente. Devido a isso,
considerações adicionais serão feitas sobre o tema.
71
Metodologia
As turmas de alunos dos cursos de Letras e Matemática foi dividida em seis grupos
de três a quatro pessoas. Após isso, cada grupo ficou responsável por um tema transversal
a ser apresentado num seminário com slides.
Ao longo do semestre, a professora da disciplina disponibilizou semanalmente três
textos relativos a cada tema transversal. O grupo responsável pelo seminário do tema em
questão deveria redigir um resumo em tópicos e uma análise crítica sobre cada texto,
enquanto outros grupos deveriam fazer o mesmo processo escolhendo dois dos três textos.
No final do semestre letivo, após a entrega de todos os resumos e análises, essas
foram utilizadas como corpo do desenvolvimento deste trabalho. Durante esse período, os
seminários foram apresentados e cada grupo pôde interagir com as apresentações,
perguntando e discutindo sobre os temas. As fontes serão apresentadas na íntegra nas
referências bibliográficas.
Ética
72
No segundo capítulo, “Considerações sobre os princípios e as regras não-
negociáveis”, as autoras refletem sobre o que são regras, princípios e valores. A
compreensão desses substantivos é essencial para que uma instituição educacional consiga
estabelecer normas coerente e moralmente, pois somente regras essenciais seriam criadas.
A compreensão também pode servir à autonomia não somente do alunado, mas também de
toda equipe gestora.
Nesse sentido, as regras seriam vistas não como prevenção de conflitos — sabendo
que sempre existirão —, mas como princípios éticos que são universalmente desejáveis e
que promovem a boa saúde, segurança, o bom estudo e a boa convivência. Os conflitos
seriam necessários se permitirem o trabalho com valores e conceito de regras entre
estudantes, desenvolvendo a autonomia desses para a resolução de problemas.
O papel do professor seria mediar autonomamente esses conflitos o quanto possível,
mesmo que esteja em uma instituição autocrática, porque, mesmo em ambientes assim, há
margens de autonomia ao docente para que possa conduzir a resolução de problemas da
maneira mais crítica e moral.
73
resolução de problemas de relacionamento, pois a passividade estudantil contribui aos
conflitos.
Por último, a avaliação permite a problematização e contextualização do clima
escolar; sem o conhecimento da situação, não há como promover intervenções e, assim,
mudanças.
No entanto, a análise faz parte do processo e não dispensa projetos em curto, médio
e longo prazos (JANOSZ et al., 1998 apud VINHA et al., 2016). Devido a isso, as
instituições precisam estar preparadas para discussões, direcionamento de aulas e
promoção de boa convivência em qualquer ambiente escolar.
Saúde
74
Atualmente, o que se vê é uma melhora no quesito de buscar valorizar as práticas
da medicina oriental/tradicional, visto que as PICS entendem que é essencial abordar,
também, uma visão holística do ser humano nos tratamentos de saúde, não deixando de
lado uma área que é intrínseca ao ser humano: a sentimental/emocional.
Tais avanços podem ser comprovados quando se analisa que práticas da medicina
oriental, como meditação, se fizeram mais presentes nos últimos anos em Unidades de
Saúde. Isso demonstra que há, ao menos, uma parcela da comunidade científica que
compreende a relevância de se observar o sentido cosmológico do ser humano e que há,
sim, certo nível de racionalidade neste sentido, uma vez que é inerente à vida humana.
Ainda, por mais que seja essencial que se utilize da empatia e da humanização nos
tratamentos de saúde por parte dos profissionais dessa área, é lamentável que, para que isso
aconteça, seja necessário evocar práticas da medicina oriental, quando estes aspectos
desejáveis (a empatia, a humanização) deveriam, naturalmente, permear a ciência médica
moderna.
75
A emergência de novos vírus no país está, na verdade, associada à destruição dos biomas,
o que amplia o contato do homem com novos vírus.
Em contraste, a biodiversidade pode também ajudar a combater os patógenos, sendo
recurso para a produção de medicamentos:
Orientação sexual
76
biológicas, se percebe uma abordagem menos discriminatória a respeito das diferenças
entre os universos masculino e feminino.
Isso beneficia não somente a parcela das mulheres, mas também os homens, que
aos poucos deixam de ser alvo do incentivo de comportamentos nocivos, como a
valorização da insensibilidade e a incitação à violência.
Nota-se, portanto, que as noções sobre os perfis feminino e masculino estão cada
vez mais plurais. Dessa forma, homens e mulheres têm mais liberdade para cultivarem
comportamentos benignos e que condizem com suas reais personalidades, individuais e
distintas entre si, não homogêneas e estigmatizadas, como foram por muito tempo
propagadas e valorizadas, tanto pelo senso comum quanto por vozes da comunidade
científica.
O ensaio aborda criticamente a dicotomia entre corpo biológico e corpo social. Ao
destacar as limitações do determinismo biológico, é importante considerar as construções
sociais e culturais na compreensão das identidades de gênero. Essa é uma importante
abordagem interdisciplinar, desafiadora das narrativas tradicionais que naturalizam as
desigualdades de gênero, propondo uma visão mais complexa e dinâmica do corpo humano.
É importante compreender que o corpo e o gênero devem ser continuamente
estudados de acordo com as mudanças sociais e culturais contínuas. A ênfase na ação social
e mudança do gênero também abre espaço para uma maior flexibilidade e diversidade na
expressão das identidades de gênero, reconhecendo que as experiências humanas são
influenciadas por uma ampla gama de fatores além da biologia.
77
anteriores de então, as entrevistas feitas por Carvalho demonstram que as professoras não
falavam de instinto maternal, mas ainda relacionavam seu trabalho com feminilidade.
De acordo com a pesquisa, o ambiente escolar não está restrito ao sexo feminino,
pois os professores também foram entrevistados e partilharam de concepções de identidade
profissional semelhantes com as das professoras. No entanto, o espaço escolar está
simbolicamente estruturado como feminino e condiz com novas condições de trabalho.
A pesquisa é equivalente ao raciocínio de Harding, em que a ciência, como
construção social, é estruturada também em termos de gênero, pois esse permeia qualquer
estrutura social. Para Carvalho, o ambiente escolar também está estruturado em termos de
gênero.
Em seguida, a autora considera a condição social da maioria das professoras de
classe média baixa. Os “traços maternais” do trabalho doméstico (antes de escravas e ora
de empregadas domésticas) transferem-se ao ambiente escolar.
Por exemplo, a pesquisa consta que as professoras diziam ficar angustiadas e que
perdiam noites de sono preocupadas com o desenvolvimento de aprendizagem das crianças.
Trabalhavam por amor aos alunos:
78
Pluralidade cultural
79
e trabalhar para uma verdadeira igualdade, superando tanto as antigas quanto as novas
formas de racismo.
A substituição do termo “raça” por “etnia” na tentativa de ser politicamente correto
não altera a realidade do racismo, que se baseia na hierarquia cultural e na exclusão.
A colonização, especialmente na África, desfez e redistribuiu territórios étnicos,
fragmentando identidades. O Brasil é exemplificado como um “Carrefour” de culturas,
onde diferentes etnias e povos se misturaram, criando novas identidades culturais que são
dinâmicas e variadas.
Nesse sentido, a diversidade cultural é um fator de resistência contra a globalização
e um elemento crucial na construção de identidades culturais. Logo, faz-se relevante
entender e definir claramente os conceitos de raça e etnia para evitar confusões e
manipulações ideológicas, promovendo uma compreensão mais precisa das dinâmicas
raciais e culturais contemporâneas.
Sete teses equivocadas sobre cotas para negros no ensino público superior no Brasil:
uma crítica às críticas
80
educação básica. Ademais, não é possível garantir os direitos ao ensino superior à
população negra somente melhorando a educação básica.
Crítica 2: admitir-se-ia cotas apenas de caráter econômico e não étnico-racial. De
acordo com recentes dados, o problema de acesso e permanência na universidade pública
não pode ser somente de caráter econômico, pois a exclusão social da população negra no
país ocorre sobretudo pelo critério étnico e racial: “Na análise geracional, encontraremos
uma realidade marcada por um hiato educacional cujo divisor é, única e exclusivamente, a
raça” (VIEIRA, [s.d.]).
Crítica 3: diante da forte miscigenação, não se pode identificar quem é negro.
Identifica-se a negritude sobretudo a partir de fenótipos. Ser negro não é unicamente
ideológico, mas também biológico: não é possível um branco ser negro ou vice-versa.
Também, os negros no país estão em condições sociais desfavorecidas, essas condições
processam-se a partir da cor de pele negra.
Crítica 4: a presença negra no ensino superior rebaixará a qualidade do ensino.
Essa crítica não corresponde às recentes pesquisas sobre o desenvolvimento acadêmico
dos negros. Além disso, a crítica parte do pressuposto que as cotas raciais representam um
problema de aprendizagem da população negra, o que é falso.
Crítica 5: o ingresso nas universidades deve se dar pelo mérito individual. Isso
seria correto se a população negra tivesse as mesmas condições que a população branca.
Infelizmente, muitos negros têm dupla jornada, estão em ambientes socialmente
segregados, têm renda familiar insuficiente para manutenção de saúde e qualidade de vida.
Esses fatores e outros contribuem para a defasagem escolar. Por último, os vestibulares
confirmam a fragilidade dessa crítica, pois eles excluem muitos estudantes negros.
Crítica 6: as cotas acirrarão o racismo. A crítica reconhece que há racismo no país,
diferente do mito da democracia racial. No entanto, também é errônea, pois as cotas são
instrumentos para o combate direto ao racismo.
Crítica 7: as cotas não se apresentam como política universalista. Estar no ensino
superior representa uma possibilidade de ascensão social. É a possibilidade de maior
participação na sociedade e maior qualidade de vida. Portanto, as cotas para negros são
políticas universalistas.
81
Trabalho e consumo
A divisão do trabalho: uma análise comparativa das teorias de Karl Marx e Emile
Dürkheim
82
Meio ambiente
O atual ecossistema de Rapa Nui, ilha chilena não condiz com as antigas práticas
culturais dos rapanui, nativos polinésios. A maior evidência disso são as estátuas moai, que
poderiam ultrapassar 30 metros e 270 toneladas se completas. Para que 20 pessoas
entalhassem um moai usando somente cinzeis de pedra, levar-se-ia aproximadamente um
ano. Precisariam também de cordas e a planta hauhau (Hibiscus tileaceus) poderia ser
usada como recurso, porém, a partir do século XVIII, os europeus notaram que esse tipo de
planta era raro, o que significaria que não poderiam ter feito o que fizeram.
A hipótese do ecocídio, “suicídio ecológico não intencional” (DIAMOND, 2005, p.
18-19), em Rapa Nui foi confirmada por evidências arqueológicas, antropológicas,
83
biológicas, históricas, etc. Por exemplo, as pesquisas de John Flenley, palinólogo da
Universidade de Messey, Nova Zelândia, revelou que o ecossistema de Rapa Nui era mais
desenvolvido durante 30.000 anos antes da influência dos polinésios na ilha: havia
“arbustos lenhosos que se erguiam por sobre um solo repleto de moitas, ervas, samambaia
e capim” (ibidem, p. 15).
Devido ao desastre ambiental, houve também uma crise humanitária na ilha,
sustentada pelo corpo narrativo dos habitantes e confirmada por pesquisas arqueológicas:
os roubos indicam crise alimentar, que causou guerra por recursos. Também, há indícios de
canibalismo. Esse colapso ambiental e humanitário demonstra perfeitamente a relação entre
homem e espaço. Qualquer crise ecológica resultará ultimamente em uma crise
humanitária, pois a harmonia das sociedades depende do funcionamento ambiental.
84
O problema do biocentrismo
2 Para entender como o pensamento de René Descartes está presente nas ciências e na concepção moderna
sobre o meio ambiente, recomenda-se Grün (2006).
3 Tradução livre da versão original, em espanhol: “¿Es el ser humano él que determina el valor de la naturaleza
la inmanencia de Spinoza (NÆSS, 1977, p. 46) –que le permite superar “la dualidad de valores
espíritu/materia, alma/cuerpo”, porque la Naturaleza ahora coincide con la res extensa y la res cogitans, al
mismo tiempo– distanciándose así de la explotación y el empobrecimiento moderno de lo material, rendido
inerte y sujeto a la supremacía del espíritu. Si, últimamente, lo que existe es solo la Naturaleza y las entidades
singulares no son más que la simple reverberación contingente de esa, no tiene sentido establecer la existencia
de ‘una jerarquía moral del mundo predeterminada’”.
85
juízos em relação ao valor do mundo natural, pois qualquer realidade é antropologicamente
apreendida5.
Por exemplo, imagine-se que há um ser humano e um animal em uma armadilha,
de forma que somente será possível salvar um ou outro. A probabilidade de escolha do ser
humano é maior, pois a escolha parte da humanidade e não de outro ser.
Mas, mesmo se decerto fosse possível não hierarquizar a relação humana com o
meio ambiente, a ética ambiental seria somente efetivada pela prescrição, ato de indicar o
que é moralmente bom ou mau, o que exigiria uma natureza discursiva das bases morais,
impossível de ser encontrada em um panteísmo ateológico porque Gaia seria impessoal e,
portanto, não comunicativa.
Para que a ética ambiental seja justificada diante de outras, é necessário que haja
uma indicação moral do próprio mundo não humano. Se ela for somente antropológica,
estará em competição com outras éticas ambientais (como a cartesiana) e não resistirá ao
relativismo antropológico.
5 Fala-se aqui de uma perspectiva somente antropológica, o que indica que há a teológica.
86
O conhecimento que movimenta as condutas do ser humano é existencial, é o ser
para o fazer. No caso contemporâneo, é o “compro, logo existo.” McDonald’s e Disney não
ensinam teoricamente, mas modelam as afeições — categoria também existencial.
McDonald’s ensina essa categoria pelo apetite: “I’m lovin’ it”6 é o seu slogan. O
indivíduo tem direito as mais novas experiências do paladar. Também, essa rede de fast
food promete felicidade (“McLanche feliz”), desde que o indivíduo esteja abrigado no
templo cujo ídolo é um “M” amarelo.
Com o desencanto da civilização moderna, a Disney, “where dreams come true”7,
oferece um mundo platônico, um porvir alcançável pelo poder de compra. Se o tédio
moderno é um problema existencial, Disney oferece entretenimento infindável.
O smartphone, outro professor, posiciona o usuário como o ser mais relevante do
universo, pois todas as notícias ou mensagens de texto estão relacionadas com ele devido,
sobretudo, ao avançado algoritmo usado por grandes redes sociais como o YouTube. O
usuário poderá ter a impressão que “o mundo gira em sua volta”.
Esse tipo de pedagogia é não teórica. Ninguém é consumista porque muito leu John
Locke ou Adam Smith. Se se ensina um corpo discente com características sociais do
consumismo, a mera teoria é ineficaz.
Se se pretende que o aluno mude suas relações com o meio ambiente, dever-se-á
movimentar a inteligência afetiva. Assim, a EA não deve simplesmente informar os alunos,
mas também oportunizar a formação de novas estruturas ontológicas: partir da reflexão do
eu para o tu. Em prática, o aluno deverá ter novos hábitos alimentares, de entretenimento,
de socialização, etc.
Considerações Finais
O tema de Ética deve ser estudado e praticado não somente em sala de aula, mas
também na gestão e hierarquia escolares: a direção, coordenação, professorado, etc. Assim,
uma instituição de ensino, a fim de formar discentes éticos, deve contemplar a Ética em
qualquer espaço escolar.
A partir dos PICS no tema Saúde, deve-se oportunizar o pensamento crítico no
alunado, objetivando formar cidadãos capazes de reivindicarem seus direitos na esfera
pública.
Por exemplo, deve-se considerar a seleção de quais práticas integrativas benéficas
para os pacientes a fim de que as PICS como a constelação familiar, pseudociência
87
amplamente criticada pelos resultados maléficos evidenciados, sejam renegadas pelo
Sistema Único de Saúde.
Quando se explora o tema Orientação Sexual na escola, ao contrário do senso
comum de muitos, se entende a urgência de discutir temáticas importantes para a proteção
da integridade física e moral do alunado, como a educação sexual e o combate ao sexismo.
Trabalhar questões semelhantes no ambiente escolar é um dos principais caminhos para se
construir uma sociedade menos machista, mais segura e igualitária.
Para a construção de uma sociedade que celebre a diversidade étnica, é preciso que
o tema Pluralidade Cultural ganhe um amplo espaço nas instituições escolares. É a partir
desse tema que se cultiva uma discência que aprende não meramente a tolerar e conviver
com o diferente, mas a respeitá-lo e valorizá-lo.
Quando isso acontece, o outro deixa de ser o “diferente” e essa atribuição passa a
ser de todos os indivíduos, até daquele que mais se enquadra dentro dos padrões desejáveis,
padrões criados com bases etnocêntricas e, portanto, não naturais.
Por fim, a discussão a partir do tema Trabalho e Consumo é necessário nas
instituições de ensino porque a compreensão da divisão social e do trabalho afeta
diretamente as políticas e práticas educacionais.
O debate entre diferentes perspectivas pode enriquecer a reflexão sobre o papel da
educação na promoção da justiça e união sociais, além de incentivar a promoção de
currículos que não somente preparem os estudantes para o mercado de trabalho, mas
também para a cidadania crítica, solidária e ativa.
Para que se evite crises humanitárias, o tema Meio Ambiente precisa estar contido
no aprender e fazer escolares. Como tema transversal, deve ser articulado entre todas as
disciplinas escolares buscando, por exemplo, ilustrar como a degradação ambiental parece
não ter grandes soluções atualmente e como isso deve impulsionar a participação ativa dos
cidadãos para combater crises ecológicas.
O docente deverá reconhecer uma abordagem teológica do meio ambiente, logo
deverá considerar abordagens religiosas (como já defendido por ambientalistas) dentro do
teísmo. Mas, para isso, deverá entender bem as bases filosóficas desse tema, um desafio
considerando a formação precária da docência no país.
Por último, espera-se que esse tema, assim como outros, não se limite à pura teoria
ou se torne disciplinar. Somente pela mudança das relações que um indivíduo tem consigo
mesmo e com outro é que ele poderá ter novas relações com o meio ambiente. Isso somente
será possível pelo hábito.
88
Referências
89
SENKEVICS, A. S.; POLIDORO, J. Z. Corpo, gênero e ciência: na interface entre biologia
e sociedade. Revista da Biologia, v. 9, n. 1, pp. 16-21, 2012.
VIEIRA, P. A. dos S. Sete teses equivocadas sobre cotas para negros no ensino público
superior no Brasil: uma crítica às críticas. Núcleo de Estudos sobre Educação, Gênero,
Raça e Alteridade. Universidade do Estado de Mato Grosso. [s.d.].
VINHA, T. P.; MORAIS, A.; TOGNETTA, L. R. P.; AZZI, R. G.; ARAGÃO, A. M. F.;
MARQUES, C. A. E.; SILVA, L. M.F.; MORO, A.; VIVALD, F. M. C.; RAMOS, A. M.;
OLIVEIRA, M. T. A.; BOZZA, T. C. L. O clima escolar e a convivência respeitosa nas
instituições educativas. Estudos em Avaliação Educacional, São Paulo, v. 27, n. 64, pp.
96-127, jan./abr. 2016.
90
ESTUDO DIRIGIDO: ORIENTAÇÃO SEXUAL E AS PRINCIPAIS
DIFERENÇAS ENTRE OS TEMAS TRANVERSAIS (PCNS) E TEMAS
CONTEMPORÂNEOS TRANSVERSAIS (BNCC) E SEUS IMPACTOS NA
EDUCAÇÃO1
Introdução
O que mudou?
Nos PCNs, a Orientação sexual é tratada como tema transversal, devendo ser
abordada interdisciplinarmente para promover o respeito e compreensão em relação à
diversidade sexual. Mas, na prática, frequentemente esse tema é negligenciado ou abordado
superficialmente, focando em aspectos biológicos e preventivos, como prevenção de
doenças sexualmente transmissíveis e gravidez na adolescência.
91
enfrenta desafios, especialmente em relação à formação docente, resistência social e falta
de clareza ou apoio para tratar dessas questões efetiva e abrangentemente.
Também, a escola deve ser um espaço onde os alunos possam discutir questões
relacionadas à sexualidade de maneira segura e respeitosa. Os autores defendem que é
necessário criar um ambiente de acolhimento para que estudantes sintam que suas dúvidas
e experiências são validadas. Para isso, precisa-se quebrar tabus e preconceitos,
incentivando uma cultura de diálogo franco sobre o tema.
92
Quais as principais críticas presentes no artigo referentes ao tema da Sexualidade nos
PCNs e na BNCC?
De acordo com o referencial teórico dos autores, os PCNs não tratam de questões
importantes à sexualidade, como homossexualidade e outras diversidades sexuais. A
sexualidade no período infantil também não é tratada. Sabe-se, sobretudo a partir dos
estudos de Freud, que a criança também é um indivíduo sexual. Também, as reformas
quanto à Sexualidade ficaram somente no eixo teórico, mas não foram colocadas em prática.
Por último, os PCNs parecem ser contraditórios, pois propõem a reflexão sexual, mas se
limitam para não comprometerem a intimidade dos alunos. Isso pode endossar tabus
sexuais ou impedir a compreensão integral dos alunos.
Por fim, o documento não introduz o termo técnico “gênero”, o que pode contribuir
para a não inclusão de identidades sexuais como lésbicas, gays e bissexuais. Considerando
isso, é possível que a ignorância sobre o gênero possa perpetuar a histórica misoginia e
homofobia.
93
O antirrealismo na teoria da diversidade sexual
3 Os termos correlatos ao cognitivismo não se referem a alguma teoria ou campo científico, como a
linguística cognitiva. Usa-se os termos em sentido mais básico, como na expressão “cogito, ergo sum”
(penso, logo sou).
94
A postulação do texto também pressupõe algum objeto. O texto, mesmo que na
mente, seria o objeto. Dessa forma, a interpretação não é feita a partir de um vácuo ou ex
nihilo. Há três níveis da realidade humanamente apreendida. O primeiro é o próprio objeto
e o último é o próprio sujeito. Esses níveis são hierárquicos:
Interpretação
Texto
Objeto
O fenômeno do sexo
4 Meu leitor bem informado perceberá que minhas definições dos três níveis assemelham-se aos conceitos
de primeiridade, secundidade e terceiridade de Charles Sanders Pierce. Apesar de sua influência aqui,
comecei a elaboração sobre minha teoria da sexualidade em Carta sobre o símbolo sexual (2023) antes da
leitura do filósofo americano. Antes disso, somente tive contato com Saussure e Frege.
95
o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho
e o castrado que qualificam de feminino (BEAUVOIR, 1967, p. 9).
Se a filósofa pretende dizer que não se nasce mulher porque o indivíduo recém-
nascido ainda não tem funções biossociais suficientes para se entender como sexo x ou y,
isso é um truísmo. Nessa lógica, pode-se dizer: “não se nasce humano, torna-se.”
Plausivelmente, não é essa sua intenção.
Pense-se que uma criança nasce ex nihilo, flutuando fora de uma sociedade. Essa
criança não nasce humana, mulher ou homem, simplesmente nasce. É um ser indeterminado,
pois não há mente para apreensão e a mesma criança ainda não é consciente de si 5. A criança
somente torna-se algo quando está dentro de uma sociedade, que lhe dirá se é menino ou
menina.
5Espero que os cientistas do cérebro e mente infantis me contradigam aqui. Mas, mesmo que o infante seja
consciente, não o seria suficientemente para entender seu sexo ou sua humanidade.
96
poderá dizer que o é a partir do seu corpo biológico. Se ele for do sexo feminino e
identificar-se culturalmente como mulher poderá ser chamado de transgênero? Se não, o
seu corpo biológico define o sexo masculino ou feminino, que será binariamente distinto
do seu gênero: (sexo) masculino ⭢ (gênero) feminino; (sexo) feminino ⭢ (gênero)
masculino.
Qual método é usado para descobrir o gênero de um indivíduo? Antes, deve-se fazer
uma distinção: gênero a partir do corpo biológico, que corresponde ao sexo, e gênero a
partir da prática sexual, que não corresponde ao sexo.
97
O que distingue o gênero do sexo sempre será a práxis6. Por exemplo, como um
indivíduo gay sabe que o é? Porque é atraído por outros homens. Dessa forma, o CO da
teoria queer é a práxis, que não pode escapar ao corpo biológico.
Se minha tese estiver correta, não há justificativa, dada a oportunidade, para que o
estupro, pedofilia, zoofilia e outros crimes sexuais não possam ser novos gêneros, pois é a
prática sexual que os definem basicamente. Também, as possibilidades sexuais beiram o
infinito. Um grupo de pessoas que começassem a se expressar sexualmente a partir de
relação sexual com objetos infantis, como ursos de pelúcia, poderia reclamar um novo
gênero para si? Se a práxis é legitimamente o CO da sexualidade, espera-se que haja mais
critérios para que a presente disforia7 coletiva acerca da sexualidade não se alastre como
epidemia.
Imagine-se que um robô tenha uma mente tão complexa quanto a humana. Suponha-
se que esse robô entenda-se como mulher e tenha a práxis de mulher, que é o único CO
válido na teoria não essencialista da sexualidade. Esse robô seria realmente mulher?
6 Uso o conceito de práxis em distinção da mera prática sexual. Ora, práxis refere-se a uma reflexão social
acerca da prática.
7 Não estou usando o termo com precisão clínica aqui. Somente o uso analogicamente por acreditar, a partir
que, um dia, os robôs sejam tão humanos quanto os seres humanos. Há elementos distintivos, no entanto,
como poder-se-ia demonstrar pela filosofia da mente. Aliás, soube que há um robô humanoide que já tem
cidadania.
98
simbolicamente. A mulher em essência seria primariamente mulher. O indivíduo
simbolicamente mulher o seria secundariamente, pois tudo que o segundo faz é em
comparação ao que faz o primeiro. Logo,
(1) indivíduo x não ontologicamente mulher (M) poderá ser como M (M’) se e somente
se partir de {M1, M2, M3, ...}.
9A intolerância religiosa, que aqui se refere à intolerância social quanto à expressão sexual de outros, decerto
é responsável por muitos danos à sociedade, mas não se deve à teologia cristã em si, cuja ética é bem
sistematizada e complexa, que não justifica o homicídio ou forma alguma de ataque ao indivíduo, mas que
somente permite a argumentação/apologética contra a ética secular e promove a práxis eclesiástica (como
não aceitar a membresia de homossexuais em uma igreja).
10 O feminismo é um sistema hermenêutico e não empírico, pois se baseia em elementos da lógica.
Compreenda-se aqui ‘lógica’ como fenômeno ou elemento da natureza. Distingue-se, assim, da lógica como
ciência formal.
11 Como já me ocorreu, esse argumento pode causar muito desconforto em meu interlocutor, principalmente
se ele não compreender minha defesa. Meu interlocutor pensará que estou defendendo o estupro ou dirá:
“Mas é óbvio que o estupro é errado. É um dano moral a outrem”. O ponto de defesa não é se o estupro é ou
não imoral. Que o leitor leia minha defesa corretamente.
99
Suprimir os instintos eróticos será fenômeno social em qualquer ética, pois a
humanidade, de uma perspectiva unicamente naturalista, está inclinada à violência como
um lobo está inclinado a serrar a carne com os dentes. Como um leão que acasala com a
leoa sem sua permissão, pois é um animal amoral, os meninos nos bancos escolares, por
força instintiva, estão dispostos a passar a mão na genitália das colegas sem consentimento
delas. Se não o fazem, isso se deve à força social da proibição e punição ou falta de
oportunidade, mas não porque são virtuosos 12. Fala-se, assim, na orientação das paixões e
da violência animalesca no homem.
É um bordão dizer que a ciência diz a verdade, enquanto outros sistemas de crença
(pois, digo a partir do ceticismo cartesiano, a ciência também é um sistema de crença) são
frágeis ou não confiáveis. Na cultura pop, sobretudo na ficção científica, é comum o
cientista ser representado como o detentor da verdade, zombador de outras opiniões.
Fazer pura ciência, dizer somente fatos, equivale a um realismo extremado, que não
é defendido pela maioria dos cientistas sérios. Também, Clouser (2020) afirma que as
ciências especiais são, de alguma forma, influenciadas por sistemas religiosos e, portanto,
não são religiosamente neutras. A ciência também é uma produção humana, logo também
social. Assim, a ciência está dentro de um éthos.
Os estudos acerca da sexualidade humana não são somente feitos pelas ciências
empíricas (por exemplo, química, biologia, etc.), mas também pelas ciências hermenêuticas
12Não estou dizendo que qualquer criança do sexo masculino terá esse comportamento, pois há variação
biossocial.
100
(sociologia, história, teologia, etc.). Qualquer compreensão acerca da sexualidade humana
encontra-se dentro da antropologia, discurso sobre o que é a humanidade. Assim, a
Sexualidade como disciplina é sobretudo hermenêutica, o que oportuniza uma variação
opinativa maior do que as ciências naturais e formais.
Dessa forma, o educador, desde que seja bem informado tanto filosófica quanto
cientificamente sobre a sexualidade, deve ter o direito de opinar e até mesmo de discordar
do status quo científico acerca da sexualidade humana (como a teoria queer).
Diga-se que o aluno tenha argumentos racionais quanto a sua crença, assim como o
tem o educador, mas ambas as crenças são antagônicas. Certamente, ambos têm igualmente
o direito de crença. Espera-se, no entanto, que o educador como mediador seja também um
pacificador, desde que isso não comprometa suas crenças racionais 13.
Porém, esse mesmo aluno, outrora João e ora Maria, deseja ser pronominado como
‘ela’ quando referido na terceira pessoa do singular. Poderá o educador referir-se ao aluno
13Entenda-se por ‘crença racional’ aquela que pode ser logicamente demonstrada e defendida. Não é a mera
crendice.
101
pelo pronome ‘ele’? Talvez, politicamente não. Talvez, por falta de pensamento da escola,
que jamais poderá ser sem partido, esse educador perca até mesmo seu emprego.
Mas esse educador deve ter o direito de referir-se ao aluno na terceira pessoa do
singular como ‘ele’, pois não é sustentável o argumento que essa abordagem seria
transfóbica. O professor não está segregando o aluno ou agindo com violência. Está agindo
de acordo com sua crença racional. Para ele, para que um indivíduo seja definido como
menina, exige-se mais do que o puro critério social. O critério social é importante, mas não
é o único ou o mais importante.
Não será impositivo o educador por insistir em chamar o aluno de ‘ele’? Mas a
“imposição” aconteceria em ambas as vias. Se o educador ceder, estará reconhecendo
publicamente que um ser sexualmente masculino é, paradoxalmente, menina.
Considerações finais
A despeito da BNCC e PCNs, as escolas ainda não estão preparadas para lidar com
a complexidade da Sexualidade. O tema ainda é restringido e raramente abordado por
educadores que não da área de Ciências Biológicas.
14 Um possível argumento do meu interlocutor furioso poderia ser que essa abordagem em si não é
transfóbica, mas contribui para a transfobia no país. Mas isso só é plausível se for a única coisa que esse
educador acredita em relação ao gênero. E a dignidade humana, defendida por esse educador hipotético, que
acredita que um indivíduo tem direitos básicos que independem de gênero, religião, partido político, etc.?
Só se usaria essa abordagem para oprimir transgêneros se se desconsidera uma filosofia maior da dignidade
humana.
102
de acordo com a ideologia no país que critica a teoria de gênero. Assim, por ser nova,
dependerá de mais recursos teóricos e empíricos.
Neste estudo, deu-se foco maior ao educador do que ao aluno: o educador deve ter
direito a sua crença racional; ele não é um mero mediador; é um conhecedor e pacificador.
Por último, o educador deve ser o orientador das “paixões” dos alunos: deve saber que há
condutas sexuais que são deletérias ao indivíduo e deve conduzir seus alunos ao melhor
éthos sexual de acordo com seu julgamento, e não somente de acordo com a BNCC e PCNs.
Referências
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo: a experiência vivida. São Paulo: Difusão
Européia do Livro, 1967.
FRANCO-ASSIS, Greice Ayra; SOUZA, Ediane Eduão Ferreira De; BARBOSA, Adriana
Gonçalves. Sexualidade na escola: desafios e possibilidades para além dos PCNS e da
BNCC. Brazilian Journal of Development, Curitiba, v.7, n.2, p.13662-13680, feb. 2021.
CARVALHO, Paulo Francisco Ribeiro de. Carta sobre o símbolo sexual. [s.l.]: [s.n.],
2023.
REID, Thomas. Thomas Reid's inquiry and essays. [s.l.]: Lexicos Publishing, 2012.
103
TECNOLOGIAS NA SALA DE AULA: DANOS OU GANHOS?
Tecnologia, aqui como conceito lato, é qualquer meio ou instrumento usado para
aperfeiçoar ou adequar a natureza (COPLESTON, 2021, p. 352). Nessa definição, o uso da
tecnologia para a educação não é acontecimento unicamente contemporâneo. Por exemplo,
João Amós Comenius (1592-1672), precursor da pedagogia moderna, foi um dos primeiros
a introduzir o livro didático como ferramenta pedagógica, um material que se adequasse ao
nível de aprendizagem do aluno, como em Orbis Sensualium Pictus (O Mundo em
Imagens), em que há imagens e linguagem acessível.
A ZDP de Vygotsky
104
Há três expressões fundacionais para compreender a teoria de desenvolvimento
infantil de Vygotsky: a zona de desenvolvimento real, zona de desenvolvimento proximal
(ZDP) e zona de desenvolvimento proximal. A primeira refere-se ao estado de
desenvolvimento intramental, isto é, o que a criança consegue fazer por ela mesma. A
última refere-se ao desenvolvimento intermental, o que a criança consegue fazer com outros.
Os seres humanos, devido à sua origem e à sua natureza, não podem existir nem
se desenvolver no modo normal para sua espécie como elementos isolados: parte
deles é necessariamente ancorada em outros seres humanos. Em isolamento,
eles não são seres completos (IVIĆ, 1989, p. 429, apud FIGUEIREDO, 2019, p.
18).
Esse tipo de isolamento é mais complexo do que meramente estar só, pois, para os
sujeitos que consomem esse material, há a impressão de que estão se relacionando com
uma pessoa real. Isso ocorre porque hoje um computador consegue gerar simulacros
perfeitos de humanidade: voz, imagem, gesto e outras características humanas. Hoje, está
105
cada vez mais difícil de diferenciar imagem virtual da realidade. O real e virtual
amalgamaram-se.
[O] messianismo com as redes criou a ilusão de que bastaria conectar-se para se
sentir inserido em uma comunidade global, conectado a milhões de pessoas.
Entretanto, por mais que as redes sociais prometam comunicação sem limites,
instantaneidade de acesso a milhares de pessoas em poucos segundos e
conectividade, esses relacionamentos se tornam efêmeros, pois não é possível
recriar comunidades reais no ambiente virtual (DANTAS, 2024).
Na sala de aula, quando o professor diz: “prestem atenção!”, a despeito do efeito
pragmático do ato de fala, deverá ainda saber que, na verdade, seus alunos estão bem
focados: nas redes sociais, música, vídeos, etc. O smartphone é um aparelho dos
intermundos: o aluno poderá estar em qualquer lugar. Os loci de sua atenção poderiam ser
infinitos. Dessa forma, perde-se um dos elementos essenciais para o verdadeiro contato
interpessoal: o aqui e o agora.
Seus alunos, não por força totalitária, deverão desejar ter relacionamentos reais, sem
muita mediação tecnológica. Caso contrário, a aprendizagem estará atrofiada porque as
habilidades sociais estarão atrofiadas. E só se aprende com um outro, um outro
integralmente humano.
Isso poderá ser feito com algumas mudanças ou ajustes de hábito da comunidade
escolar: passeios ao zoológico, museus, bibliotecas, etc. Deverão ter momentos recreativos,
não através de jogos digitais, mas, por exemplo, de tabuleiros. A Educação Física, tão mal-
amada entre as disciplinas escolares, mas tão desejada pelos corpos que correm, deve ser
abordada com mais seriedade na comunidade escolar. Isso não significa tirar a alegria da
disciplina, mas conduzir as inquietações dos alunos através de esportes. O professor, aquele
exoesqueleto de caranguejo, tem de ser também mais pessoal. A vala entre professor e
aluno pode ser preenchida pela amizade respeitosa entre esses papéis sociais. Aos poucos,
com hábitos afins, o aluno terá mais oportunidades de se relacionar verdadeira e
significativamente com pessoas.
A introdução das TICs na sala de aula apresentou desafios para toda a comunidade
escolar. Primeiro, a condição da formação de professores no Brasil enfrenta problemas de
diversas espécies: letramento prévio do licenciando, tempo disponível de estudo, acesso a
recursos, etc. Considere-se que, grosso modo, o professor não está minimamente preparado
para lecionar sua disciplina, como conseguirá usar tecnologias constantemente em
adaptação?
106
Segundo, os alunos não estão preparados para receber uma tecnologia avançada
como smartphones. É análogo a deixar uma criança conduzir um veículo sem instrução
alguma: haverá incidentes ou acidentes. Um dos exemplos é usar o smartphone em tempo
indevido. Essas tecnologias, apesar de amorais, são moralmente projetadas: as indústrias
do entretenimento querem que os usuários se tornem adictos. Os alunos não estão
preparados para essas tecnologias porque não estão psicologicamente preparados. Um
automóvel, se conduzido erroneamente, pode de uma vez assassinar muitos. As TICs, se
conduzidas cegamente, podem assassinar milhares, mas aos poucos, uma tortura
dopamínica:
muitos dos apps e sites que compulsivamente fazem pessoas verificar seus
smartphones e abrir abas de navegador muitas vezes usam armadilhas viciantes
para se tornarem quase impossíveis de serem resistidos1 (NEWPORT, 2019, p.
23).
A despeito disso, devido a um forte sistema capitalista no Brasil, os jovens já têm
esses aparelhos. Já consomem produtos da nova Philips Morris. Assim, o professor deverá
aproveitar essas tecnologias para que seus alunos aprendam. Como fazer isso?
Esse professor poderá também usar tecnologias apropriadas para seu ofício. Isso é
processual, mas, se é um bom professor, saberá isto: qualquer aprendizagem demanda
tempo. O professor poderá, por exemplo, ter um leitor de livros digitais em mãos, tendo
mais acesso a livros; usar dicionários online; ferramentas de pesquisa avançada (como o
Google acadêmico); audiolivros; webconferências; grupos de Whatsapp para educadores;
usar ditado por voz para compor seus textos; usar o ChatGPT para recomendações
bibliográficas; etc. Esses são exemplos para uso pessoal do professor, para que se acostume
aos meios tecnológicos. A partir disso, seus alunos, ora ou outra, perceberão que a
tecnologia também faz parte da vida do professor, mas para aprendizagem. Esse educador,
perceberão, não usa as tecnologias digitais escondendo-se de outros. Não há estigma em
seu uso.
1 “many of the apps and sites that keep people compulsively checking their smartphones and opening
browser tabs often leverage [...] hooks to make themselves nearly impossible to resist.”
107
A curadoria de informações
a ZDP possibilita a professores, pais e outras pessoas, por meio das respostas
que a criança lhes dá, reconhecer as necessidades imediatas dessa criança e
fornecer-lhe as informações necessárias para que ela possa ser bem-sucedida na
consecução de determinada tarefa (FIGUEIREDO, 2O19, p. 45).
O professor de Língua Portuguesa, por exemplo, não deve somente saber o que o
aluno não sabe (as muitas complexidades da língua), mas também o que esse aluno precisa
saber (como a adequação linguística). As TICs podem ser usadas para esse fim. Por
exemplo, para que os alunos tenham um real conhecimento dos usos linguísticos, Bagno
(2013, p. 314) recomenda que se faça pesquisa em telenovelas; telejornais; artigos de
revistas de divulgação científica; letras de canções da música popular; textos recolhidos em
salas de bate-papo da internet; etc. Os alunos conseguem facilmente acesso a isso.
Referências
108
ROMERO, P. Breve estudo sobre Lev Vygotsky e o sociointeracionismo. Educação
pública, Edição 8, 28 de abril de 2015.
109
CHAUÍ, M. Convite à Filosofia. 14ª ed. São Paulo: Ática, 2019, 520p.
110
A abordagem grega estabeleceu parâmetros para a obtenção do conhecimento, dos
quais coube à autora mencionar: “sensação, percepção, imaginação, memória, raciocínio e
intuição” (p. 141); também, distinguiu-se o sentido do intelecto, opinião do saber
verdadeiro, aparência da essência. Isso possibilitou a fomentação da lógica (iniciada
sobretudo por Aristóteles). Aristóteles, ademais, sistematiza os seguintes campos do
conhecimento: teorético, prático e técnico.
Situando-se na filosofia patrística e medieval, mas sem muita profundidade, Chauí
introduz a perspectiva cristã sobre o conhecimento: como se pode conhecer a Aleteia
(Deus)? já que o intelecto humano está contaminado pelo pecado. Também, como pode o
finito conhecer o infinito? Para os filósofos-teólogos, a revelação precede a razão e a fé
redime o intelecto. Os filósofos modernos, no entanto, rejeitaram o pressuposto da
revelação e retornaram aos inquéritos dos gregos acerca do conhecimento. A despeito disso,
a filosofia cristã integrou a reflexão sobre a pessoa e consciência na modernidade.
Para que se analise o conhecimento verdadeiro, as fontes devem ser primeiramente
investigadas, considerando-se as formas do erro. A partir disso, Francis Bacon (1561-1626)
e René Descartes (1596-1650) iniciaram no século XVII a “a análise dos preconceitos e do
senso comum” (p. 144). Bacon estabeleceu a teoria nomeada como a crítica dos ídolos: há
imagens capturadas que impedem o conhecimento verdadeiro. Bacon categoriza as
imagens como: opiniões do sentido; opiniões da linguagem e interação; opiniões do
autoritarismo; opiniões de natureza antropológica.
Descartes propõe um ceticismo metódico. Para ele, deve-se duvidar de toda a
realidade aparente a fim de se chegar à certeza absoluta. Ele estabeleceu duas atitudes
(infantis) que conduzem ao erro de apreensão do conhecimento verdadeiro: (1) a
prevenção, um conhecimento, “opiniões e ideias alheias” (p. 145), que nasce a partir do
autoritarismo, ou seja, um saber sem uma preocupação com a verificação. (2) A
precipitação, que é a pressa em emitir juízos a partir da vontade acerca de um objeto sem
uma preocupação com a verificação.
O filósofo que propôs uma teoria do conhecimento per se foi John Locke (1632-
1704), pois, como afirma Chauí, se propôs a investigar todas as formas do conhecimento.
Na obra, Chauí constantemente relaciona uma escola de pensamento com outra. Não faz
contrariamente quando relaciona Platão com Descartes e Aristóteles com Locke. Enquanto
aqueles dois primeiros buscavam um conhecimento puro, separado das sensações, esses
dois últimos alegavam um conhecimento a partir da experiência. Com base nas duas
abordagens, formaram-se as escolas do racionalismo e empirismo.
111
Chauí segue a discussão com um desdobramento acerca da consciência. Ela afirma
que “A teoria do conhecimento no seu todo realiza-se como reflexão do entendimento e
baseia-se num pressuposto fundamental: o de que somos seres racionais conscientes” (p.
146). Considerando isso, a filósofa define: (1) o eu, que é o reconhecimento da própria
identidade. (2) A pessoa, que, do ponto de vista ético e moral, realiza escolhas livres. (3)
O cidadão, aquele que, como indivíduo, é dotado de direitos e deveres na tessitura social.
(4) O sujeito, que é diferente do objeto do conhecimento. A escritora explica que o sujeito
é uma manifestação da consciência, que é “uma atividade sensível e intelectual dotada do
poder de análise, síntese e representação” (p. 148).
Por último, Chauí examina a subjetividade e graus de conhecimento. A consciência
passiva é aquela que vagamente reconhece o eu e o objeto. A vivida, mas não reflexiva
reconhece a realidade somente segundo o eu. Portanto, é egocêntrica. A consciência ativa
e reflexiva constitui-se pelo reconhecimento dos quatro graus: o eu, pessoa, cidadão e
sujeito. A fenomenologia chama esse último tipo de consciência como intencional.
Não obstante conveniente habilidade de síntese de Chauí em Convite à filosofia, a
autora falha em analisar a epistemologia cristã com mais escrutínio, principalmente “o
princípio de não contradição” discutida por Agostinho de Hipona.
Agostinho decerto não tratou do conhecimento como algo em si, como fariam os
epistemólogos posteriormente, mas como uma via à felicidade 1. Agostinho afirma um
conhecimento verdadeiro, mas questionava-se com a finitude do homem: como o homem,
miserável que é, pode conhecer as grandezas divinas? Esse teólogo, contrariando sua
tendência ao ceticismo acadêmico de outrora, reconhece que o homem pode conhecer a
realidade transcendente, “nem que seja de cunho puramente factual” 2.
Apoiando-se em Platão, o santo estabelece um princípio norteador para qualquer
teoria do conhecimento: algum conhecimento é possível. Se se nega tal afirmação, isso
seria outra afirmação e, logo, uma verdade. Se não for verdade, logo algum conhecimento
é possível. Tal princípio seria a base do cogito cartesiano. No entanto, Agostinho não se
aproxima de um solipsismo como faria Descartes mais tarde, pois afirma: “Longe de nós o
duvidar daquilo que apreendemos por meio dos sentidos corpóreos, uma vez que foi através
deles que tivemos notícia do Céu e da Terra” 3.
1 COPLESTON, Frederick. Uma história da filosofia: Grécia, Roma e filosofia medieval. Campinas, SP:
Vide Editorial, 2021, p. 533.
2 Ibidem, p. 544.
3 De Trinitate, 15, 12, 21.
112
BEI, Aline. O peso do pássaro morto. São Paulo: Editora Nós, 2017, 168 p.
Mais velha e em uma nova escola, a protagonista inicia uma amizade com Ana e
um namoro com Pedro. Em um evento, ela e Ana beijam-se, junto a outro rapaz, o que
provoca ciúmes agressivos em Pedro, que posteriormente estupra a protagonista: “entre a
reza e o pulo/ escolhi ficar dura/ e estranhamente pronta/ pra morrer” (p. 54). Daí sua
segunda morte.
113
saída da boca daquela/ mulher./ o que eu estava criando,/ um monstro?/ que enterra/ a morte
prematura/ num evento pra convidados que pensam isso/ é coisa de criança?” (p. 80). Os
pássaros que Lucas matou funcionaram como gatilho psicológico da protagonista, que foi
mortificada pela agressão de Pedro.
‘Peso’ talvez se refira ao que é pesado. Nesse caso, a morte, que é simbólica, é o
peso. A morte é simbólica porque há uma significação de corpos mortos. É também um
paradoxo porque, enquanto há presença imaterial, como um corpo vívido que fala, que
dança, que chora – isso tudo na memória –, há ausência desse corpo material. Quanto aos
humanos mortos, são corpos, mas não mais pessoas. É natural da espécie humana também
personificar entes, como a criança que fala a sua pelúcia ou como se fala a uma planta e
animais domésticos. Os animais sofrem, e decerto sofrem, porque nós humanos sofremos
e projetamos a dor neles. Trata-se de uma identificação intersubjetiva. Assim, a morte dos
pássaros, para a narradora, não é meramente a metamorfose de um estado biológico a um
estado unicamente orgânico; a protagonista vê nos pássaros morte porque vê neles sua
morte. Não é meramente uma metamorfose porque Lucas teve prazer em tirar uma vida,
como seu pai teve prazer em tirar uma vida.
114