Preparação Psicologia
1. Especificidade da psicologia como ciência.
1.1. Definição e objecto de estudo da psicologia.
A Psicologia pode ser definida como o estudo científico do
comportamento e dos processos mentais.
Como disciplina ela visa essencialmente o alargamento, o
aperfeiçoamento e a compreensão à natureza interna do homem.
O seu objecto de estudo é o comportamento e os processos mentais
do homem.
1.2. Diferença entre conhecimento do senso comum e
conhecimento científico.
Conhecimento científico é a informação que analisa os factos
cientificamente comprovados. Sua base está na filosofia da ciência, em que
todas as suposições, teorias e hipóteses passam por um processo de
comprovação através de um processo de pesquisas e experimentos. Esse
conhecimento baseia-se nos princípios de sistematização, verificabilidade e
falibilidade.
Conhecimento de senso comum é um conceito fundamentado na
sabedoria e crenças populares que reflete o modo de pensar da maioria das
pessoas, adquiridos por repetições das experiências e das culturas
transmitidas de geração em geração. Este conhecimento não pode ser
testado e nem verificado ou comprovado por métodos experimentais.
2. Evolução da Psicologia como ciência: do estudo da consciência
ao estudo dos comportamentos.
2.1. Abordagem estruturalista
Teoria de Edward Titchner e William Wundt (fundador da Psicologia
moderna, 1º laboratório psicológico, 1879, Alemanha), a primeira teoria a
tornar a Psicologia autónoma em relação à Filosofia.
Esta teoria defende a ideia de que a Psicologia era o estudo científico
da consciência e da experiência consciente, e o seu objectivo era descobrir
a estrutura da consciência consciente.
Assim, o estruturalismo psicológico computa a participação primária
do indivíduo para traçar seu meio de estudo. Ela vai estudar directamente a
experiência consciente que foi construída e aplicada no momento.
Segundo Wundt a nossa mente funcionaria como o somatório de
eventos estruturais (associacionismo) e que a consciência e mente nascia
daí. buscava-se os pilares estruturais da mente, isso através da
introspecção. Com base nisso surgem três estágios de consciência: estado
afetivo, sensações e imagens.
2.2. Abordagem funcionalista
O funcionalismo ou Psicologia funcional refere-se à uma escola de
pensamento psicológica que foi uma consequência directa do pensamento
darwiniano que focaliza a atenção na utilidade e no propósito do
comportamento que foi modificado ao longo dos anos de existência
humana. Este movimento surgiu nos Estados Unidos no final do século 19
por Edward Thorndike.
O funcionalismo nega o princípio da introspecção que tende a
investigar o funcionamento interno do pensamento humano em vez de
compreender os processos biológicos da consciência humana.
2.3. Abordagem da Reflexologia
A Reflexologia é o estudo dos reflexos e corresponde à escola da
Filosofia objectiva de origem russa que teve como seus fundadores Ivan
Sechenov, Vladimir Bekhterev e Ivan Pavlov. Foi uma teoria que teve
bastante influência sobre a Psicologia Behaviorista e sobre as teorias da
aprendizagem.
Ao estudar as secreções gástricas, descobre que para além dos reflexos
inatos, se podem desenvolver, nos animais e seres humanos, reflexos
aprendidos. No decorrer de uma experiência, apercebe-se que o cão
salivava não só quando via o alimento – reflexo inato – mas também
quando se davam outros sinais associados ao alimento, como o som de uma
campainha – reflexo condicionado.
2.4. Abordagem Behaviorista/ Comportamentalista
O Behaviorismo ou comportamentalismo tem como objectivo o
estudo do comportamento. Esta teoria psicológica defende que a
psicologia humana ou animal pode ser objectivamente estudada por meio
de observação de suas acções, ou seja, observando o comportamento.
Os behavioristas acreditam que todos os comportamentos são
resultados de experiência e condicionamentos. As figuras de grande
importância nessa teoria são John Watson e Skinner.
2.5. Abordagem do Gestaltismo
Gestaltismo, Gestalt ou teoria da forma é uma doutrina que defende
que, para se compreender as partes, é preciso antes compreender o
todo. Teoria desenvolvida por Wertheimer e Koffka.
Um dos principais temas aqui trazidos é o de tornar explícito o que
está implícito, projetando na cena exterior aquilo que ocorre na cena
interior, permitindo assim que todos tenham mais consciência da maneira
como se comportam.
Segundo essa teoria, não se pode ter conhecimento do todo por meio
das suas partes, pois o todo é outro, diferente da soma de suas partes.
Segundo o critério da transponibilidade, independentemente dos
elementos que compõem determinado objecto, a forma é que sobressai.
2.6. Abordagem Psicanalítica
A psicanálise é um campo clínico e de investigação teórica da psique
humana independente da Psicologia. Sigmund Freud propôs este método
para a compreensão e análise da psique humana, compreendido
enquanto sujeito do inconsciente.
Segundo Freud a psicanálise é:
Um procedimento para a investigação de processos mentais que
são quase inacessíveis por qualquer outro modo.
Um método, baseado nessa investigação, para tratamento de
distúrbios neuronais.
Uma colecção de informações psicológicas obtidas ao longo
dessas linhas, e que gradualmente se acumulou numa nova
disciplina científica.
O inconsciente é a chave da psicanálise. Tudo o que está
armazenado em nosso inconsciente afecta as nossas vidas. Essa
teoria busca as causas da infelicidade das pessoas nos esconderijos
do inconsciente.
2.7. Abordagem Cognitiva
A Psicologia cognitiva estuda a cognição, os processos mentais que
estão por detrás do comportamento. Examina questões sobre a memória,
atenção, percepção, representação do conhecimento, raciocínio,
criatividade e resolução de problemas.
Pode ser definida como a capacidade para armazenar,
transformar e aplicar o conhecimento, sendo um amplo leque de
processos mentais.
2.8. Abordagem Humanista
É considerada na Psicologia como a terceira força, junto da
psicanálise e da psicologia comportamental. A Psicologia Humanista
surgiu como uma reação ao determinismo dominante nas outras
práticas psicoterapeutas ensinando que o ser humano possui em si uma
força de autorrealização, que conduz o indivíduo ao desenvolvimento
de uma personalidade criativa e saudável.
Essa teoria defende que os transtornos mentais originam-se através do
bloqueamento do desenvolvimento natural do ser humano por factores
externos.
Defende que o ser humano tem as seguintes características:
O ser humano é mais do que a soma de suas partes tomadas
individualmente.
Ele vive em relações interpessoais.
Ele é um ser consciente e pode desenvolver sua percepção.
Ele pode decidir-se.
Ele comporta-se de maneira intencional.
O primeiro teórico a desenvolver uma teoria humanista na psicologia
foi Abraham Maslow, com a pirâmide das necessidades.
Unidade II: Desenvolvimento humano.
1. Conceito e factores do desenvolvimento humano.
Desenvolvimento é um conjunto de transformações físicas,
fisiológicas e psicológicas que marcam um indivíduo durante todo o seu
processo vital.
Psicologia do desenvolvimento estuda os aspectos da maturação de
uma pessoa. Estuda a interação dos processos físicos e psicológicos e as
etapas de crescimento de um sujeito, à partir da concepção até ao final de
sua vida.
Os factores que intervêm no desenvolvimento humano são:
Hereditariedade;
Crescimento orgânico;
Maturação neorofisiológica;
E o meio (factor social).
2. Concepção de Piaget, desenvolvimento
cognitivo.
De acordo com o foco na adaptação, Piaget acreditava que o
desenvolvimento cognitivo acompanhava-se de respostas cada vez mais
complexas ao ambiente. A seguir, Piaget propôs que, com a crescente
aprendizagem e maturação, tanto a inteligência quanto suas manifestações
tornam-se diferenciadas – mais altamente especializadas em vários
domínios.
Os princípios gerais da teoria de Piaget:
a) O desenvolvimento intelectual implica mudanças qualitativas (e
não quantitativas).
b) O conhecimento é uma construção activa do sujeito, decorrente
da iteração com o meio e a necessidade de adaptação.
c) O desenvolvimento cognitivo é descontínuo, qualitativamente
diferenciado, processando-se ao longo de momentos distintos
denominados estágios.
Estágios de desenvolvimento de Piaget
Segundo Piaget, os processos equilibradores da assimilação e da
acomodação são responsáveis por todas as mudanças associadas ao
desenvolvimento por todas as mudanças associadas ao desenvolvimento
cognitivo. Na sua concepção, é mais provável que o desequilíbrio ocorra
durante os períodos de transição entre estágios.
Particularmente, Piaget dividiu o desenvolvimento cognitivo nos
quatro estágios principais resumidos aqui: os estágios sensório-motor, pré-
operatório, operatório concreto e operatório formal.
O Estágio Sensório-Motor
O primeiro estágio de desenvolvimento, o estágio sensório-motor,
envolve aumentos no número e na complexidade de capacidades sensoriais
(input) e motoras (output) durante a infância – aproximadamente do
nascimento a cerca de 18-24 meses de idade -. Segundo Piaget, as
primeiras adaptações do bebê são reflexivas. Gradualmente, os bebês
obtêm controle consciente e intencional sobre suas ações motoras. A
princípio, eles agem assim para manter ou repetir sensações interessantes.
Mais tarde, entretanto, exploram ativamente seu mundo físico e buscam
com afinco novas e interessantes sensações.
Ao longo das primeiras fases do desenvolvimento cognitivo sensório-
motor, a cognição infantil parece focalizar-se apenas no que eles podem
perceber imediatamente, pelos seus sentidos. Os bebês nada concebem que
não lhes seja imediatamente perceptível. De acordo com Piaget, eles não
têm um senso de permanência do objeto, pela qual os objetos continuam a
existir, mesmo quando imperceptível aos bebês. Por exemplo, antes de
aproximadamente 9 meses de idade, os que observam um objeto quando
está sendo escondido de sua vista não o procurarão, uma vez escondido. Se
um bebê de 4 meses de idade estivesse observando você esconder um
chocalho debaixo de um cobertor, esse bebê não tentaria encontrar o
chocalho sob o cobertor, enquanto um de 9 meses tentaria.
Seus pensamentos estão concentrados apenas em percepções
sensoriais e comportamentos motores. No fim do período sensório-motor
(18-24 meses de idade), as crianças começaram a mostrar sinais
de pensamento representativo – representações internas de estímulos
externos. Nessa transição para o estágio pré-operatório, a criança começa a
ser capaz de pensar sobre pessoas e objetos que não são necessariamente
perceptíveis naquele momento.
Outro padrão característico do desenvolvimento cognitivo envolve a
passagem progressiva das crianças de um foco sobre si próprias a um
interesse nos outros. Isso é, à medida que ficam mais velhas, elas se tornam
menos egocêntricas – menos concentradas em si próprias. Por exemplo, as
primeiras adaptações que ocorrem durante a infância referem-se todas ao
próprio corpo do bebê (por exemplo, os reflexos de sucção podem ser
adaptados para abranger a sucção de um polegar ou de um dedo do pé). As
adaptações posteriores, entretanto, envolvem também objetos do ambiente
externo ao corpo do bebê. Similarmente, as primeiras representações
mentais envolvem apenas a criança, mas as subsequentes abrangem
também outros objetos.
Piaget considerava essa tendência inicial indicativa de uma tendência
mais ampla para as crianças de todas as idades tornarem-se
progressivamente conscientes do mundo externo e de como os outros
podem perceber esse mundo.
O Estágio Pré-Operatório
No estágio pré-operatório, da idade aproximada de 1 1/2 ou 2 anos a
cerca de 6 ou 7 anos, a criança começa a desenvolver ativamente as
representações mentais internas, que se iniciaram no fim do estágio
sensório-motor. Segundo Piaget, o aparecimento do pensamento
representativo, durante o estágio pré-operatório, abre o caminho para o
desenvolvimento subsequente do pensamento lógico, durante o estágio de
operações concretas. Com o pensamento representativo, chega a
comunicação verbal. Entretanto a comunicação é amplamente egocêntrica.
Uma conversação pode parecer sem qualquer coerência. A criança diz o
está em sua mente, sem considerar muito o que outra pessoa disse. À
medida que as crianças se desenvolvem, no entanto, levam cada vez mais
em consideração o que os outros disseram, quando criam seus próprios
comentários e respostas.
A capacidade para manipular os símbolos verbais para objetos e ações
– ainda que egocentricamente – acompanha a capacidade para manipular
conceitos, e o estágio pré-operatório caracteriza-se por acréscimo no
desenvolvimento conceitual. Todavia, a capacidade infantil para manipular
conceitos ainda é bastante limitada durante este estágio. Por exemplo,
durante esta fase as crianças exibem centração – uma tendência para
focalizar somente um aspecto especialmente observável de um objeto ou
uma situação complicada. Piaget fez uma série de experimentos que
mostravam a centração das crianças. Ele representava a elas dois
exemplares de trens em dois trilhos paralelos diferentes, conforme é
mostrado na figura abaixo. Usava horários distintos de partida e de parada
para cada trem e fazia-os seguirem seus trajetos em velocidades diferentes.
Então entabulava perguntas sobre quem viajava mais lenta ou mais
rapidamente.
Descobriu que as crianças com 4 a 5 anos de idade tendiam a
concentrar-se em uma única dimensão, geralmente o ponto no qual os trens
paravam. Especificamente, tais crianças diriam que o trem que percorrera
maior distância nos trilhos também se deslocara mais rapidamente e por
mais tempo, sem levar em conta o momento em que os trens tinham
começado ou parado. Assim, no estágio pré-operatório, elas concentram-se
em uma dimensão particular de um problema – tal como a posição final dos
trens -, ignorando os outros aspectos da situação, mesmo quando eles são
relevantes.
O Estágio Operatório Concreto
No estágio de operações concretas, aproximadamente dos 7 ou 8 anos
ate os 11 ou 12 anos de idade, as crianças tornam-se capazes de manipular
mentalmente as representações internas que formaram, durante o período
pré-operatório. Em outras palavras, eles agora não só têm ideias e
memórias dos objetos, mas também podem realizar operações mentais com
essas ideias e memórias. Entretanto, podem agir assim apenas quanto a
objetos concretos (por exemplo, ideias e memórias de carros, alimentos,
brinquedos, e outras coisas tangíveis) – daí a denominação de “operações
concretas”.
Talvez, a evidência mais forte da mudança do pensamento pré-
operatório para o pensamento representativo do estágio operatório concreto
seja vista nos experimentos clássicos de Piaget sobre conservação da
quantidade. Na conservação, a criança é capaz de conservar mentalmente
(lembrar-se) uma dada quantidade, embora observe modificações na
aparência do objeto ou da substância
Inicialmente elas contam com suas percepções imediatas de como as
coisas parecem ser; gradualmente, começam a formular regras internas em
relação a como funciona o mundo e, finalmente usam essas regras internas
para orientar o seu raciocínio, em vez de apenas as aparências.
O que a criança operatória concreta pode fazer que a pré-operatória
não pode? Ela pode manipular representações internas de objetos e de
substâncias concretas, conservando, mentalmente, a noção de quantidade e
concluindo que, apesar das aparências físicas diferentes, as quantidades são
idênticas.
Estágio Operatório Formal
O estágio operatório formal, aproximadamente dos 11 ou 12 anos de
idade em diante, envolve operações mentais sobre abstrações e símbolos
que podem não ter formas concretas ou físicas. Além do mais, as crianças
começam a compreender algumas coisas que elas mesmas não tinham
experimentado diretamente. Durante o estágio de operações concretas, elas
começam a ser capazes de ver a perspectiva dos outros, se a perspectiva
alternativa pode ser manipulada concretamente. Por exemplo, elas podem
imaginar como outra criança pode ver uma cena (por exemplo, a pintura de
uma cidade) quando sentam em lados opostos de uma mesa onde a cena é
exibida. Durante as operações formais, entretanto, finalmente elas são
completamente capazes de adotar outras perspectivas além das suas
próprias, mesmo quando não estão trabalhando com objetos concretos.
Além disso, no estágio de operações formais, as pessoas procuram
intencionalmente criar uma representação mental sistemática das situações
com as quais se deparam.
A capacidade para usar a lógica formal e o raciocínio matemático
também cresce durante essa época. Além disso, a sofisticação do
processamento conceitual e linguístico continua a crescer.
Resumindo, a teoria do desenvolvimento cognitivo de Piaget
envolve estágios. Para ele, tais estágios ocorrem em quase as mesmas
idades para as diferentes crianças e cada um se constrói sobre o estágio
precedente. Eles ocorrem em uma ordem fixa e são irreversíveis: uma
vez que uma criança entre em um novo estágio, ela pensa nos aspectos
que caracterizam esse estágio, independentemente do domínio da
tarefa, da tarefa específica ou mesmo do contexto no qual a tarefa é
apresentada. Ela jamais pensa nos aspectos que caracterizam um
estágio anterior do desenvolvimento cognitivo.
3. Psicanálise de Freud (ver acima)
4. Teoria cognitiva de Piajet (ver acima)
5. Teoria psicossocial de Erikson.
Um avanço da teoria freudiana que é, sem dúvida, da maior
importância para o estudo do humano no século XX, é o foco no ego. Em
Freud, o ego aparece como sistema muitas vezes subserviente ao id. Anna
Freud, filha de Sigmund Freud, dando continuidade aos seus estudos,
atribuiu ao ego uma característica de mais autonomia, com um maior poder
de decisão e de atuação. Anna também ampliou os mecanismos de defesa
de sete para dez., atribuindo a eles um caráter menos patológico do que
Freud o fizera. Com sua teoria, Anna Freud também transformou os
estágios psicossexuais de seu pai em estágios de busca de domínio do ego,
dando a base para os estudos de Erik Erikson. Esta fase na Psicanálise ficou
conhecida como época da “Psicologia do Ego”, onde se diminuía a ênfase
no inconsciente (Hall, et. al., 2000).
Em meados do século XX, Erikson começa a construir sua teoria
psicossocial do desenvolvimento humano, repensando vários conceitos de
Freud, sempre considerando o ser humano como um ser social, antes de
tudo, um ser que vive em grupo e sofre a pressão e a influência deste. A
partir desta consideração, Erikson formula sua teoria de forma a deixar
duas importantes contribuições à Psicanálise, segundo Hall e colaboradores
(2000): deixa uma teoria na qual o ego tem uma concepção ampliada e
realiza estudos psico-históricos, exemplificando sua teoria psicossocial no
curso de vida de algumas figuras famosas.
Sem negar a teoria freudiana sobre desenvolvimento psicossexual,
Erikson mudou o enfoque desta para o problema da identidade e das crises
do ego, ancorado em um contexto sociocultural. O estudo da identidade
tornou-se estratégico para o autor, que viveu em uma época onde a
Psicanálise deslocava o foco do id e das motivações inconscientes para os
conflitos do ego.
Assim como Freud, Piaget, Sullivan, entre ouras figuras da época,
Erikson optou por distribuir o desenvolvimento humano em fases. Porém,
seu modelo detém algumas características peculiares (Rabello, 2001):
• Desviou-se o foco fundamental da sexualidade para as relações
sociais;
• A proposta os estágios psicossociais envolvem outras artes do ciclo
vital além da infância, ampliando a proposta de Freud. Não existe uma
negação da importância dos estágios infantil (afinal, neles se dá todo um
desenvolvimento psicológico e motor), mas Erikson observa que o que
construímos na infância em termos de personalidade não é totalmente fixo
e pode ser parcialmente modificado por experiências posteriores;
• A cada etapa, o indivíduo cresce a partir das exigências internas de
seu ego, mas também das exigências do meio em que vive, sendo portanto
essencial a análise da cultura e da sociedade em que vive o sujeito em
questão;
• Em cada estágio o ego passa por uma crise (que dá nome ao estágio).
Esta crise pode ter um desfecho positivo (ritualização) ou negativo
(ritualismo);
• Da solução positiva, da crise, surge um ego mais rico e forte; da
solução negativa temos um ego mais fragilizado;
• A cada crise, a personalidade vai se reestruturando e se reformulando
de acordo com as experiências vividas, enquanto o ego vai se adaptando a
seus sucessos e fracasso.
Erikson criou alguns estágios, que ele chamou de psicossociais, onde
ele descreveu algumas crises pelas quais o ego passa, ao longo do ciclo
vital. Estas crises seriam estruturadas de forma que, ao sair delas, o sujeito
sairia com um ego (no sentido freudiano) mais fortalecido ou mais frágil,
de acordo com sua vivência do conflito, e este final de crise influenciaria
diretamente o próximo estágio, de forma que o crescimento e o
desenvolvimento do indivíduo estaria completamente imbricado no seu
contexto social, palco destas crises.
Confiança Básica x Desconfiança Básica
Esta seria a fase da infância inicial, correspondendo ao estágio oral
freudiano. A atenção do bebê se volta à pessoa que provê seu conforto, que
satisfaz suas ansiedades e necessidades em um espaço do tempo suportável:
a mãe. A mãe lhe dá garantias de que não está abandonado à própria sorte
no mundo. Assim se estabelece a primeira relação social do bebê. E
justamente sentindo falta da mãe que a criança começa a lidar com algo que
Erikson chama de força básica (cada fase tem a sua força característica).
Nesta, a força que nasce é a esperança.
Quando o bebê vivencia positivamente estas descobertas, e quando a
mãe confirma suas expectativas e esperanças, surge a confiança básica, ou
seja, a criança tem a sensação de que o mundo é bom, que as coisas podem
ser reais e confiáveis. Do contrário, surge a desconfiança básica, o
sentimento de que mundo não corresponde, que é mau ingrato.
Autonomia x Vergonha e Dúvida
Nesta fase eriksoniana, que corresponde ao estágio anal freudiano, a
criança já tem algum controle de seus movimentos musculares, então
direciona sua energia às experiências ligadas à atividade exploratória e à
conquista da autonomia. Porém, logo a criança começa a compreender que
não pode usar sua energia exploratória à vontade, que tem que respeitar
certas regras sociais e incorporá-las ao seu ser, fazendo assim uma equação
entre manutenção muscular, conservação e controle (Erikson, 1976).
A aceitação deste controle social pela criança implica no aprendizado
– ou no início deste – do que se espera dela, quais são seus privilégios,
obrigações e limitações. Deste aprendizado surge também a capacidade e as
atitudes judiciosas, ou seja, surge o poder de julgamento a criança, já que
ela está aprendendo as regras
De um sentimento de autocontrole sem perda de autoestima resulta um
sentimento constante de boa vontade e orgulho; de um sentimento de perda
do autocontrole e de supercontrole exterior resulta uma propensão
duradoura para a dúvida e a vergonha. (Erikson, 1976, p.234)
Na aprendizagem do controle, seja do autocontrole o do controle
social, temos o nascimento da força básica da vontade, que, manifestada na
livre escolha, é o precedente essencial para o crescimento sadio da
autonomia.
Neste estágio, o principal cuidado que os pais tem que tomar é dar o
grau certo de autonomia à criança. Se é exigida demais, ela verá que não
consegue dar conta e sua autoestima vai baixar. Se ela é pouco exigida, ela
tem a sensação de abandono e de dúvida de suas capacidades. Se a criança
é amparada ou protegida demais, ela vai se tornar frágil, insegura e
envergonhada. Se ela for pouco amparada, ela se sentirá exigida além de
suas capacidades.
Quando ela já se sente capaz de planejar e realizar, ou seja, ela tem um
propósito, ela tende a duas atitudes: numa delas, a criança pode ficar fixada
pela busca de determinadas metas. Freud descreveu uma destas fixações a
qual chamou de Complexo de Édipo, onde a criança nutre expectativas
genitais com o pai do sexo oposto. Geralmente, as metas que se
estabelecem – como no modelo freudiano – são impossíveis. Quando a
criança se empolga na busca de objetivos além de suas possibilidades, ela
se sente culpada, pois não consegue realizar o que desejou ou sabe que o
que desejou não é aceitável socialmente, e precisa de alguma forma conter
e reinvestir a carga de energia que mobilizou. Então, ela fantasia (muitas
vezes magicamente) para fugir da tensão.
Nesta fase, as crianças querem que os adultos lhes deem
responsabilidades, como arrumar a casa, varrer o quintal ou ajudar a
consertar algo. É muito importante que os adultos lhes mostrem também
que há certas coisas que ainda não podem fazer, embora possam permitir
ajudas em algumas atividades.
Quando a criança se dá conta de que realmente existem coisas que
estão fora de suas capacidades (ainda), ela se contenta, não em fantasiar,
mas sim em realizar uma espécie de “treino”, o que, na verdade, se
constitui num teste de personalidade que a criança aplica em si. Para isso,
ela utiliza jogos, testando sua capacidade mental, dramatizações, testando
várias personalidades nela mesma, e brinquedos, que proporcionam uma
realidade intermediária. Tudo isso é o que faz a conexão sadia do mundo
interno e externo da criança nesta fase. Erikson alerta ainda para o perigo
da personificação. Quando a criança, tentando escapar da frustração de ser
incapaz para algumas coisas, exagera na fantasia de ter outras
personalidades, de ser totalmente diferente do que é várias vezes, ela pode
se tornar compulsiva por esconder seu verdadeiro “eu”; nesse caso, pode
passar a sua vida desempenhando “papéis”, e afastar-se cada vez mais do
contato consigo mesmo.
Diligência x Inferioridade
Erikson deu um destaque a esta fase que, contraditoriamente, foi a
menos explorada por Freud (no esquema freudiano, corresponde à fase de
Latência, por julgá-la um período de adormecimento sexual). Podemos
dizer que este período é marcado, peara Erikson, pelo controle, mas um
controle diferente do que já discutimos. Aqui, trata-se do controle da
atividade, tanto física como intelectual, no sentido de equilibrá-la às regras
do método de aprendizado formal, já que o principal contato social se dá na
escola ou em outro meio de convívio mais amplo do que o familiar.
Com a educação formal, além do desempenho das funções
intelectuais, a criança aprende o que é valorizado no mundo adulto, e tenta
se adaptar a ele. Da ideia de propósito, ela passa à ideia de perseverança, ou
seja, a criança aprende a valorizar e, até mesmo, reconhece que podem
existir recompensas a longo prazo de suas atitudes atuais, fazendo surgir,
portanto, um interesse pelo futuro.
Nesta fase, começam os interesses por instrumentos de trabalho, pois
trabalho remete à questão da competência. A criança nesta idade sente que
adquiriu competência ao dedicar-se e concluir uma tarefa, e sente que
adquiriu habilidade se tal tarefa foi realizada satisfatoriamente. Este prazer
de realização é o que dá forças para o ego não regredir nem se sentir
inferior. Se falhas seguidas ocorrerem, seja por falta de ajuda ou por
excesso de exigência, o ego pode se sentir levemente inferior e regredir,
retornando às fantasias da fase anterior ou simplesmente entrando em
inércia.
Identidade x Confusão de Identidade
Nos estudos de Erikson, esta é a fase onde ele desenvolveu mais
trabalhos, tendo dedicado um livro inteiro à questão da chamada crise de
identidade.
Em seus estudos, Erikson ressalta que o adolescente precisa de
segurança frente a todas as transformações – físicas e psicológicas – do
período.
Essa segurança ele encontra na forma de sua identidade, que foi
construída por seu ego em todos os estágios anteriores. Esse sentimento de
identidade se expressa nas seguintes questões, presentes para o adolescente:
sou diferente dos meus pais? O que sou? O que quero ser? Respondendo a
essas questões, o adolescente pretende se encaixar em algum papel na
sociedade. Daí vem a questão da escolha vocacional, dos grupos que
frequenta, de suas metas para o futuro, da escolha do par, etc.
Toda a preocupação do adolescente em encontrar um papel social
provoca uma confusão de identidade, afinal, a preocupação com a opinião
alheia faz com que o adolescente modifique o tempo todo suas atitudes,
remodelando sua personalidade muitas vezes em um período muito curto,
seguindo o mesmo ritmo das transformações físicas que acontecem com
ele.
Erikson lembra que o se humano mantém suas defesas para
sobreviver. Ao sinal de qualquer problema, uma delas pode ser ativada.
Nesta confusão de identidade, o adolescente pode se sentir vazio, isolado,
ansioso, sentindo-se também, muitas vezes, incapaz de se encaixar no
mundo adulto, o que pode muitas vezes levar a uma regressão. Também
pode acontecer de o jovem projetar suas tendências em outras pessoas, por
ele mesmo não suportar sua identidade. Aliás, este é um dos mecanismos
apontados por Erikson como base para a formação de preconceitos e
discriminações
Intimidade x Isolamento
Ao estabelecer uma identidade definitiva e bem fortalecida, o
indivíduo estará pronto para uni-la à identidade de outra pessoa, sem se
sentir ameaçado. Esta união caracteriza esta fase. Existe agora a
possibilidade de associação com intimidade, parceira e colaboração.
Podemos agora falar na associação de um ego ao outro. Para que essa
associação seja positiva, é preciso que a pessoa tenha construído, ao longo
dos ciclos anteriores, um ego forte e autônomo o suficiente para aceitar o
convívio com outro ego sem se sentir anulado ou ameaçado.
Quando isso não acontece, ou seja, o ego não é suficientemente
seguro, a pessoa irá preferir o isolamento à união, pois terá medo de
compromissos, numa atitude de “preservar” seu ego frágil.
Generatividade x Estagnação
Nesta fase, o indivíduo tem a preocupação com tudo o que pode ser
gerado, desde filhos até ideias e produtos. Ele se dedica à geração e ao
cuidado com o que gerou, o que é muito visível na transmissão dos valores
sociais de pai para filho.
Esta é a fase em que o ser humano sente que sua personalidade foi
enriquecida – e não modificada – com tais ensinamentos. Isso acontece
porque existe uma necessidade inerente ao homem de transmitir, de
ensinar. É uma forma de fazer-se sobreviver, de fazer valer todo o esforço
de sua vida, de saber que tem um pouco de si nos outros. Isso impede a
absorção do ser em si mesmo e também a transmissão de uma cultura.
Caso esta transmissão não ocorra, o indivíduo se dá conta de que tudo
o que fez e tudo o que construiu não vale a pena, não teve um porquê, já
que não existe como dar prosseguimento, seja em forma de um filho, um
sócio, uma empresa ou uma pesquisa.
Integridade x desespero
Agora é tempo do ser humano refletir, rever sua vida, o que fez, o que
deixou de fazer. Pensa principalmente em termos de ordem e significado de
suas realizações. Essa retrospectiva pode ser vivenciada de diferentes
formas. A pessoa pode simplesmente entrar em desespero ao ver a morte se
aproximando. Surge um sentimento de que o tempo acabou, que agora resta
o fim de tudo, que nada mais pode fazer pela sociedade, pela família, por
nada. São aquelas pessoas que vivem em eterna nostalgia e tristeza por sua
velhice. A vivência também pode ser positiva. A pessoa sente a sensação
de dever cumprido, experimenta o sentimento de dignidade e integridade, e
divide sua experiência e sabedoria. Existe ainda o perigo do indivíduo se
julgar o mais sábio, e impor suas opiniões em nome de sua idade e
experiência.
Unidade III: Psicologia social
1. O homem como ser social
Este tópico é estudado pela Psicologia social, e esta por sua vez é
definida como, o estudo científico da interação social, isto é, do modo
como influenciamos e somos influenciados pelos outros. Esta interação dá-
se entre indivíduos, entre indivíduos e o grupo em que se inserem, e entre
grupos.
No entanto, o homem como ser social tem a necessidade inata de criar
laços com outros seres humanos, interagir e se adaptar à um determinado
grupo social para garantir a sua sobrevivência na perpetuação da linhagem,
e um desenvolvimento sadio.
2. Socialização
Definimo-nos como seres humanas em virtude de uma herança
genética recebida no momento da concepção, ma sobretudo em virtude de
uma herança cultural que nos vai ser transmitida pelo processo de
socialização, imediatamente após o nascimento.
A cultura é um ponto crucial quando se fala de sociedades.
A socialização é, em termos gerais, o processo responsável pela
integração de um indivíduo na cultura de uma determinada sociedade. É
um processo contínuo que, durante toda a vida, se divide em duas grandes
fases:
A socialização primária: é o primeiro período da vida de um
individuo, em que este passa de simplesmente ser biológico
para um ser cultural, é o período da assimilação de atitudes,
valores e comportamentos do meio em que se está a integral, e
por fim a formação da personalidade.
A socialização secundária: é o processo de adaptação à
situações novas que implicam modificações significativas na
nossa condição social. Após a adolescência, ex.:
paternidade/maternidade, primeiro emprego/reforma, etc.
3. Agentes da socialização
Os agentes da socialização são estruturas sociais cuja função é inserir
o indivíduo no seu meio sociocultural, adaptando-o às suas normas.
Os principais agentes da socialização são:
A família;
A escola;
Os grupos de pares;
E os meios de comunicação social.
4. As atitudes
As atitudes são crenças e sentimentos que nos predispõem para
responder à objectos, pessoas e situações de forma positive ou negative. As
atitudes não são comportamentos, mas sim predisposições para agir em
base com certas crenças e determinados sentimentos.
As atitudes são relactivamente estáveis e duráveis.
As atitudes influenciam o comportamento das pessoas.
As atitudes são aprendidas.
A persuasão é uma tentativa de modificação de atitude.
A consistência das atitudes dependem da dissonância cognitiva, que por sua
vez é definida como um estado psicológico desagradável que pode viver-se
quando tomamos consciência da discrepância entre as nossas atitudes ou
entre as nossas atitudes e o nosso comportamento.