ser eu/existir como eu sempre implicou na sensação de profundo desencontro com pessoas ao
redor. de profundo não pertencimento. de não fazer parte.
minha sensação de fracasso vinha, principalmente, por nunca ter conseguido ser como os
outros ou como qualquer pessoa.
o sentimento de inferioridade me consumia.
não importava o que eu fizesse: sempre estava deslocado demais, roendo as unhas, tremendo,
suando, checando em qualquer reflexo se eu ainda era eu, se o meu rosto não estivera mais
deformado que o de costume. preocupado demais com todos ao entorno.
era extremamente doloroso conviver com toda essa carga, com tantos pensamentos ao mesmo
tempo, com tamanha auto depreciação sem fim que parecia além do meu controle.
me matei porque não aguentava mais. não me aguentava mais.
a sensação de não pertencer, quando criança, me fez passar a odiar as coisas que todos
gostavam e a desenvolver misantropia (ódio por pessoas).
passei a ser amargurado. não porque eu queria, mas acabou se tornando uma espécie de
mecanismo de defesa pra época, pra minha mentalidade ali.
a verdade é que no fundo sempre fui mais frágil que qualquer coisa, e o mínimo insulto ou
brincadeira enchia os meus olhos de lágrimas e me fazia pensar sobre aquilo o resto do dia,
somente para então chegar em casa e chorar escondido, sozinho.
nunca me compreendi de verdade, não aprendi a lidar comigo.
sempre estive alternando entre humores: uma hora eu era carente, outra odioso, outra era
tomado por uma tristeza que ia além desse mundo.
isso impossibilitou qualquer conexão humana. sempre acabava exibindo o pior de mim e
estragava tudo.
não via saída, então comecei a planejar suicídio desde muito cedo.
aos 13 anos eu mantinha uma carta imensa em um aplicativo de notas, a qual escrevia e
reescrevia sempre que tinha pensamentos sobre acabar com tudo. mas ainda era uma criança,
pensava haver esperanças, queria acreditar.
continuei vivendo, minha timidez melhorou gradativamente, eu quase consegui.
por algum motivo, sempre esperei que de repente algo acontecesse, que eu me sentisse parte
de algo, que finalmente conseguisse me conectar com as pessoas. esperar sem tentar é
sempre em vão.
nem sequer tentei, e dizem que o verdadeiro perdedor é aquele que esteve tão preocupado em
fracassar que nem sequer tentou.
fui pra faculdade e lá senti a mais pura desconexão. a extrema diferença socioeconômica entre
os alunos era notável, triste e uma das coisas que mais me incomodavam.
não conseguia me sentir parte daquilo, não queria mesmo estar ali. me sentia burro, e sei que
sou, um idiota.
com o tempo, desisti. matava aula quase todos os dias e ia pra biblioteca municipal.
lá perdi meu tempo lendo dostoiévski, lorca, hemingway, nietzsche, camus, sartre, sylvia, kafka,
woolf, enfim, qualquer escritor(a) que fomentasse ainda mais a minha angústia, que parecesse
entender o que acontecia comigo e que parecesse ter se sentido igualmente deslocado.
no meu caso, não foi falta de compreensão, muito pelo contrário. foi totalmente culpa da minha
péssima capacidade de comunicação e expressão, e principalmente por ter acabado criando
uma barreira, nunca me permitindo ser amado ou ajudado.
fracassei em tudo o que tentei fazer.
os dias passavam e passavam, com eles eu perdia pouco a pouco de mim.
bukowski disse para sempre salvar uma pequena brasa, uma faísca, e a manter, pra sempre
poder começar uma chama maior.
a pequena brasa de esperança que eu havia guardado quando criança foi apagando aos
poucos com o passar do tempo, até não restar mais nada. crescer é cruel e todos os meus
sonhos foram esmagados.
perdi toda a fé, toda a crença na bondade das pessoas, toda a crença na justiça, toda a crença
de que qualquer coisa vá melhorar nesse mundo, toda a crença em quaisquer chance de
felicidade ou redenção, toda a expectativa de que eu pudesse melhorar.
a parte mais importante:
sinto muito pela forma a qual a notícia chegará.
sinto muito pela reação de cada um.
sinto muito por todas as pessoas que afetarei com esse ato extremo.
sinto muito por não poder ajudar com custos como o translado e o funeral.
é um ato de natureza extremamente insensível e egoísta, é como distribuir a dor que
existia em mim entre todos aqueles que me amam e essa sensação de culpa é terrível.
peço perdão de todo meu coração. nunca desejaria isso, nunca desejaria que alguém
sofresse por mim por 1 segundo sequer.
eu só não aguentava mais. doía.
quero deixar claro que não sou nenhuma vítima, e que tudo o que sinto é culpa.
penso como deve ser difícil. peço que, por favor, tentem ser fortes. espero que a dor logo
vá diminuindo conforme o tempo passar. novamente, perdão :(
nenhuma dor é pra sempre. assim esperemos.
vivi como um fantasma por anos, como uma casca vazia, como um morto-vivo.
o mundo é um lugar melhor agora.
tudo bem esquecerem do meu rosto, da minha voz, de como eu era. tudo bem.
sigam em frente, vivam, amem, arrisquem, sonhem. estarei extremamente feliz pelas
conquistas de cada um!
além de tudo isso, vale ressaltar que fui um ser humano horrível. desprezível.
como dito anteriormente, não sou nenhuma vítima. sei que a morte tende a beatificar as
pessoas, mas preciso deixar estritamente claro que nunca fui nenhum anjinho ou santo. fiz
coisas terríveis a minha vida inteira, fui abusivo e egoísta em todos os relacionamentos
(amorosos ou não) que já tive — terem acabado foi exclusivamente culpa minha.
no passado, tristemente, maltratei pessoas, plantas, animais, e basicamente todas as coisas
que hoje digo amar.
destratei boa parte das amizades que chegaram a se importar de verdade comigo.
nunca os mereci, nunca fui recíproco, nunca vou ter a chance de retribuir. nunca vou poder ver
o progresso deles, seus casamentos, seus filhos. eu menti para todos. eu fugi.
briguei com o meu pai e minha mãe inúmeras vezes. todas completamente desnecessárias,
fruto do meu próprio ego e violência. não mereciam nada daquilo.
não sei de onde veio essa conduta, esse comportamento tão péssimo que sempre partiu de
mim.
eu deveria ter me aberto, contado tudo pra minha família assim que percebi que havia algo
muito errado comigo ainda quando criança. nunca fui normal.
tem muitas coisas que nunca contei pra ninguém, como ter sofrido abuso durante a infância.
além de muitas outras situações que me mudaram e me traumatizaram pra sempre. a única
maneira de talvez ter me tornado melhor teria sido com acompanhamento e tratamento desde
os primeiros anos da minha vida.
conforme eu cresci, a necessidade de um acompanhamento psicológico foi sendo
negligenciada por mim mesmo ao longo da vida, até o ponto em que os problemas se tornaram
irreversíveis e enraizados.
fui criado majoritariamente com amor e, mesmo assim, nunca conseguia sequer abraçar
alguém de verdade, ou sentir o conforto que deveria nos braços dos meus pais. nada. eu era
naturalmente indiferente, naturalmente repleto de nada. sozinho.
apesar de tudo, acredito que o erro sempre esteve em mim, o mundo não errou comigo.
hoje consigo ao menos enxergar o quão cruel fui por toda a minha vida. consigo ver
nitidamente o que causei. consigo finalmente sentir empatia. consigo finalmente chorar até
soluçar, finalmente sentir doer dentro de mim.
consigo amar, do meu jeito vergonhoso e defeituoso, como alguém que tenta pela primeira e
ultima vez. o peso de toda a culpa finalmente está onde sempre deveria ter estado: em mim.
sou um covarde, um idiota.
meu karma é ter sido quem fui.
meu desejo é que do meu corpo germinem flores, plantas, vida. qualquer tipo de beleza,
qualquer tipo de coisa que sempre faltou em mim.
outro ponto crucial: sou um criminoso.
(nada que eu tenha enfrentado na minha vida justifica quaisquer atos que cometi).
em 2022, expus fotos e contei calunias pro irmão de uma ex namorada.
ela me amava, e em troca eu cometi o ato mais hediondo e repulsivo possível.
sinto profundo nojo e desgosto de mim só de pensar em como ela deve ter se sentido
assustada, em como a fiz se sentir, em tudo o que ela teve de passar por minha causa. eu
merecia a cadeia. merecia o sofrimento.
isso é o quão doentio eu fui. penso nisso todos os dias. me puno todos os dias. me desculpo
em pensamentos todos os dias.
não consigo me considerar digno de coisas humanas. de, por exemplo, ter uma família tão
amorosa. de viver em um mundo, que, mesmo doloroso, ainda é repleto de esperança e
pessoas boas.
nada que eu possa dizer pode ajudar quem machuquei. fui adentro demais. cruel demais. eu
destruí tudo, quaisquer chance.
só espero que a minha morte possa trazer para todos algum tipo de alívio ou conforto, algo que
nunca consegui proporcionar enquanto estive vivo.
saibam que eu escolheria nunca ter nascido se isso implicasse ser quem fui. se isso implicasse
fazer as coisas que fiz.
saibam que eu trocaria meus membros ou cada átomo do meu corpo pelas suas felicidades.
no final de tudo, só restou culpa e vergonha.
espero que conseguir expor quem sou com palavras claras tenha sido um grande passo.
saibam que me arrependo. saibam que me arrependo todos os dias da minha vida.
pessoas de verdade, diferentes de mim, merecem e devem ser amadas.
por fim
sou feliz por ter crescido e nascido nesse mundo. por ter feito parte. pelas minhas memórias.
nunca mudaria nada a não ser a mim mesmo.
o lugar onde nasci, a casa onde cresci, minha família, as pessoas. acredite, penso em tudo
com muito afeto.
apesar do meu temperamento odioso, no cerne da minha existência, do meu jeito, tentei amar
como pude, com a pouca inteligência emocional que tive e tenho.
se fosse possível mudar a mim mesmo de maneira intrínseca e definitiva, eu mudaria. e
nasceria e viveria exatamente no mesmo lugar, cresceria exatamente naquela mesma casinha,
faria parte da mesma exata família, conheceria as mesmas pessoas, sem nenhuma mudança
nelas.
apesar do sofrimento ser onipresente em toda forma viva; a vida é linda. o mundo é lindo. viver
é lutar e sofrer. é a única luta que vale a pena.
em contrapartida, acredito que não valha a pena existir sendo o eu quem sou. mas isso em
nenhum momento diz a respeito da vida em si! acreditar que a minha única vida não valha a
pena ser vivida não significa que a vida humana não seja algo lindo e milagroso. temos artes,
temos música, natureza, animais. temos as ondas reverberando nos oceanos, temos pessoas.
o universo vai continuar em expansão, o vento vai continuar a balançar as folhas das árvores e
o sol vai continuar a nascer, há algo mais tocante do que isso?
pai e mãe, amo vocês. eu com certeza seria seu filho em qualquer realidade a qual eu fosse
capaz de escolher.
minha irmãzinha, eu vou pra sempre te amar, você será brilhante. nada poderia ter sido melhor
que você. obrigado por ter sido luz na minha vida desde o seu nascimento.
me arrependo profundamente de tudo. perdão por ser assim, perdão por eu ter sido desse jeito,
tudo sempre esteve muito errado comigo. perdão por tantos erros. eu sinto muito. :(
nunca vou descobrir a razão de tudo isso. de eu ter sido assim. se sequer havia algum
propósito na minha existência. parece que tudo o que fiz foram coisas negativas. acho que
nunca fiz ninguém feliz de verdade, nem nunca compreendi verdadeiramente alguém.
tudo o que fiz foi machucar, e mesmo que o mundo seja completamente indiferente a minha
vida ou não-vida, encerrar tudo aqui talvez torne ele um tantinho melhor.
todos tentaram me ajudar como podiam. não há culpados senão eu.
em memória de katelyn nicole davis, vinicius gageiro marques, amanda todd, e tantas outras
pessoas de infeliz mesmo fim que, diferente de mim, foram vítimas e sofreram injustiças.
a toda a minha família, amigos e pessoas que conheci, muito obrigado! amo vocês.
paz, amor e empatia.
adeus.
nunca deixem de tentar ajudar quem está lidando com problemas ou transtornos
psíquicos/emocionais. a depressão é como o câncer em estágio terminal, é um profundo
estágio de sofrimento. é uma alteração química em áreas em atividade do cérebro, até
onde compreendo, mais especificamente nas áreas responsáveis pela produção de
hormônios relacionados ao prazer/felicidade.
acompanhamento profissional é necessário para todo mundo. todos lidam com traumas,
pensamentos negativos ou marcas do passado.
busquem ajuda, queiram ser ajudados, convençam quem amam a buscar ajuda.