Parte II: O Eco dos Reinos Esquecidos
Após a partida de Elara da Montanha Oca, o mundo de Aethelgard não foi o único a
sentir o tremor da mudança. Nas profundezas do Oceano de Mercúrio, as Cidades
Submersas de Zinco começaram a ressonar com um som que não era ouvido há eras:
o Canto das Baleias de Cristal. Essas criaturas, cujas barbatanas eram feitas de
prismas que decompunham a luz da água em cores inexistentes no espectro visível,
eram as verdadeiras guardãs da biblioteca biológica do planeta. Kaelen, um
mergulhador de profundidade equipado com um traje de couro de leviatã reforçado
com placas de bronze alquímico, foi o primeiro a notar que a pressão das águas
estava mudando. Onde antes havia o peso esmagador do abismo, agora havia uma
leveza quase etérea, como se a própria gravidade tivesse decidido tirar um dia de
folga.
Kaelen buscava a "Pérola do Pensamento", um objeto que, segundo os mapas de
navegação estelar, continha a consciência coletiva de todos os poetas que já haviam
naufragado naquelas coordenadas. A descida foi perigosa; ele teve que desviar de
recifes de coral que se moviam como mãos gigantes tentando capturar a luz das
lanternas. Ao chegar às ruínas de uma catedral subaquática, Kaelen deparou-se com
um cardume de peixes-lanterna que formavam padrões fractais no escuro. Cada
movimento dos peixes escrevia uma frase em uma língua morta. Ele percebeu que a
biblioteca não era composta por livros, mas por seres vivos. Para acessar o
conhecimento, ele não precisava de força, mas de silêncio.
Ao meditar no centro da nave da catedral, Kaelen sentiu a água entrar em seus
pulmões, mas não para afogá-lo. O líquido fora transmutado pelo Éter Azul de Elara
em oxigênio puro. Ele viu a história do mundo passando por seus olhos: a criação das
montanhas, a separação dos mares e o momento exato em que a primeira estrela
aprendeu a brilhar. Ele compreendeu que Aethelgard era um organismo vivo, e que
os humanos eram apenas os glóbulos brancos tentando protegê-lo de uma infecção
de apatia. Kaelen emergiu três dias depois, não com uma pérola na mão, mas com
uma canção na voz que poderia curar qualquer doença da alma.