Topologia - Notas de Aula
Segundo Semestre de 2005
Alexandre N. Carvalho
31 de agosto de 2005
1 Topologias
Seja X é um conjunto não vazio. Uma topologia em X é uma famı́lia T de subconjuntos de
X com as seguintes propriedades
i) ∅ e X ∈ T ,
ii) T é fechada por interseções finitas e
iii) T é fechada por uniões arbitrárias.
Os elementos de T são chamados abertos de X. O espaço X dotado de uma topologia T
é chamado um espaço topológico e é denotado por (X, T ) ou simplesmente X quando estiver
claro qual a topologia envolvida.
Seja (X, T ) um espaço topológico. Um subconjunto de X é dito fechado se o seu com-
plementar é aberto. É fácil ver que a famı́lia dos subconjuntos fechados de X é fechada por
uniões finitas e por interseções quaisquer. O interior Ao de um subconjunto A de X é o maior
aberto contido em A e o fecho A− de A é o menor fechado que contém A.
Se X é um conjunto não vazio e T1 , T2 são topologias em X, diremos que T2 é mais fina
que T1 se T2 ⊃ T1 .
2 Bases e Sub-Bases
Seja X um conjunto não vazio e E ⊂ 2X , a topologia menos fina que contém E é chamada
a topologia gerada por E e é denotada por T (E). Esta topologia é a interseção de todas as
topologias que contém E. Neste caso, nos referimos a E como uma sub-base para T (E).
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No que se segue vamos caracterizar a topologia T (E) em termos dos elementos de E.
Se (X, T ) é um espaço topológico e x ∈ X, uma base de vizinhanças de x é uma famı́lia
Nx ⊂ T tal que, se x ∈ U ∈ T então, existe Ux ∈ Nx tal que x ∈ Ux ⊂ U . Uma base para T
é uma famı́lia N ⊂ T tal que, N é uma base de vizinhanças para cada x ∈ X. A prova do
seguinte resultado é elementar
Proposição 2.1. Se (X, T ) é um espaço topológico e E ⊂ T , então E é uma base para T se,
e somente se, todo U ∈ T é união de conjuntos em E (∅ é união vazia de elementos de E).
Proposição 2.2. Se E ⊂ 2X , então E é uma base para uma topologia se e, somente se, as
seguintes condições se verificam
a) cada x ∈ X pertence a algum V ∈ E, e
b) se U, V ∈ E e x ∈ U ∩ V existe W ∈ E com x ∈ W ⊂ U ∩ V .
Prova: É óbvio que se E é uma base então a) e b) estão satisfeitas. Se por outro lado a) e b)
estão satisfeitas, tomamos T a famı́lia obtida tomando uniões quaisquer de elementos de E (∅
é a união vazia de elementos de E). Claramente X ∈ T e T é fechada por uniões quaisquer.
Se U1 , U2 ∈ T e x ∈ U1 ∩ U2 então existem V1 , V2 em E com x ∈ V1 ⊂ U1 e x ∈ V2 ⊂ U2 .
Segue de b) que existe W ∈ E com x ∈ W ⊂ V1 ∩ V2 ⊂ U1 ∩ U2 . Isto mostra que U1 ∩ U2 é
união de elementos de E e conclui a demonstração. ¤
Se E ⊂ 2X , a próxima proposição caracteriza os abertos de T (E) em termos dos elementos
de E.
Proposição 2.3. Se E ⊂ 2X , T (E) consiste de ∅, X e das uniões quaisquer de interseções
finitas de elementos de E.
Prova: É fácil ver que a famı́lia constituı́da pelas interseções finitas de elementos de E e X
satisfaz as condições da Proposição 2.2. Segue da Proposição 2.1 que a famı́lia das uniões
quaisquer de tais conjuntos é uma topologia que claramente está contida em T (E) e portanto
é igual a T (E). ¤
3 Topologia induzida por uma famı́lia de funções
Estaremos interessados na topologia induzida por uma famı́lia de funções que passamos a
descrever. Seja X um conjunto qualquer e ϕi : X → K, i ∈ I, uma famı́lia de funções.
Observação: Mais geralmente, poderı́amos considerar funções φi tomando valores em espaços
topológios (Xi , Ti ) em lugar de K. As provas apresentadas a seguir são para o caso em que
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(Xi , Ti ) é K mas são essencialmente as mesmas no caso geral. A razão para consideramos
a imagem das ϕi fixa e igual à K está no fato que é desta forma que estes resultados de
topologia geral se aplicam à análise funcional que será desenvolvida a seguir.
Problema: Dotar X da topologia menos fina que torna todas as funções ϕi : X → K,
∀ i ∈ I, contı́nuas.
É claro que a topologia discreta 2X torna ϕi : X → K é contı́nua ∀ i ∈ I. Também é claro
que esta topologia não é a mais econômica (com o menor número de abertos) na verdade ela
é a menos econômica.
Se θ é um aberto de K, então se cada ϕi , i ∈ I, é contı́nua, devemos ter que ϕ−1
i (θ) é
aberto. Desta forma a topologia menos fina que torna ϕi contı́nua, ∀i ∈ I, deve ser a menor
topologia que contém
E := {ϕ−1 X
i (θ) ∈ 2 : i ∈ I e θ é um aberto de K}.
A menor topologia que contém E é chamada a topologia induzida pela famı́lia de funções
{ϕi : i ∈ I}.
Proposição 3.1. Seja X um conjunto e T a topologia em X induzida pela famı́lia de funções
ϕi : X → K, i ∈ I. Se {xn } é uma seqüência em X, então {xn } converge para x (ou
abreviadamente xn → x se, e somente se, ϕi (xn ) → ϕi (x) ∀ i ∈ I.
Prova: Se xn → x, então ϕi (xn ) → ϕi (x), ∀ i ∈ I, já que cada ϕi é contı́nua.
Reciprocamente, suponha que ϕi (xn ) → ϕi (x), ∀i ∈ I. Mostremos que xn → x. Seja U uma
vizinhança de x. Seja J ⊂ I finito e Vj , j ∈ J, abertos de K tais que x ∈ ∩J ϕj−1 (Vj ) ⊂ U .
Para cada j ∈ J, ∃ Nj ∈ N tal que ϕj (xn ) ∈ Vj para n ≥ Ni . Se N = max{Nj : j ∈ J} segue
que xn ∈ ϕ−1
j (Vj ), ∀j ∈ J e portanto xn ∈ U , ∀n ≥ N e portanto xn → x. ¤
Proposição 3.2. Seja X um conjunto e T a topologia em X induzida pela famı́lia de funções
ϕi : X → K, i ∈ I. Se (Z, Σ) é um espaço topológico e ψ : Z → X é uma função então, ψ é
contı́nua se, e somente se, ϕi ◦ ψ é contı́nua de Z em K, ∀i ∈ I.
Prova: Se ψ é contı́nua, então ϕi ◦ ψ é também contı́nua, para cada i ∈ I, como composta
de funções contı́nuas. Inversamente, se ϕi ◦ ψ é contı́nua, para cada i ∈ I, seja U ∈ T e
mostremos que ψ −1 (U ) ∈ Σ. Sabemos que
[ \
U= ϕ−1
i (Vi ), Vi aberto em K.
qualquer finita
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Logo [ \ [ \
ψ −1 (U ) = ψ −1 (ϕ−1
i (Vi )) = (ϕi ◦ ψ)−1 (Vi ).
qualquer finita qualquer finita
Como ϕi ◦ ψ é contı́nua, temos que (ϕi ◦ ψ)−1 (Vi ) ∈ Σ e portanto ψ −1 (U ) ∈ Σ. Segue que
ψ : (Z, Σ) → (X, T ) é contı́nua. ¤
4 Produto Carteziano
Seja A um conjunto e uma famı́lia de conjuntos. O produto carteziano da famı́lia de conjuntos
{Xα }α∈A é o conjunto
[
X := {f : A → Xα : f (α) ∈ Xα , ∀α ∈ A}.
α∈A
Q
Denotaremos este conjunto por α∈A Xα ou por X A quando todos os conjuntos forem
idênticos.
Exemplo 4.1.
• RR é o conjunto das funções reais com valores reais.
• CN é o conjunto das seqüências de números complexos.
Y
Um elemento de Xα é denotado por w = (wα )α∈A .
α∈A
Se cada Xα é dotado de uma topologia Tα , α ∈ A, podemos colocar em X a topologia
induzida pela famı́lia de aplicações {ϕα }α∈A definida por
ϕα
w 7−→ wα (as projeções sobre cada Xα ).
Q
Esta topologia é denominada topologia produto e é denotada por α∈A Tα .
5 O Teorema de Tychonoff
Uma famı́lia de conjuntos C = {Cλ ∈ 2X : λ ∈ Λ} é dita uma cobertura de A ⊂ X se
A ⊂ ∪λ∈Λ Cλ (diremos que C cobre A) e qualquer subconjunto de C que ainda cobre A é
chamado uma subcobertura e se todos os conjuntos Cλ são abertos diremos que C é uma
cobertura aberta. Um subconjunto K de X é compacto se toda cobertura aberta de K
possui subcobertura finita.
Em espaços de dimensão finita, compactos são abundantes e caracterizados de forma bas-
tante simples. Infelizmente, este não é o caso em espaços de dimensão infinita. Qualquer
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resultado que caracterize esses compactos é extremamente útil já que compactos desem-
penham um papel fundamental em análise. Quase todos os resultados que caracterizam os
compactos em espaços de dimensão infinita são obtidos dos Teoremas de Tychonoff e do
Teorema de Arzelá-Ascoli. Em particular, a introdução das topologias fraca e fraca∗ com o
objetivo de aumentar o número de compactos nos espaços vetoriais normados de dimensão
infinita estudados se inspira no teorema de Tychonoff que demonstramos a seguir.
Teorema Ã5.1 (de Tychonoff).
! Se Xα , α ∈ A são espaços topológicos compactos, então
Y Y
(X, T ) := Xα , Tα é compacto.
α∈A α∈A
Prova: Para mostrar que (X, T ) é um espaço topológico compacto, mostraremos que, se
T
F ⊂ 2X tem a propriedade da interseção finita, então {F : F ∈ F} 6= ∅.
Seja Λ a famı́lia de todas as F ⊂ 2X com a propriedade da interseção finita. Se Λ é
ordenada pela inclusão então toda cadeia em Λ tem um limitante superior (a união). Pelo
lema de Zorn toda F ⊂ 2X com a propriedade da interseção finita está contida em uma
coleção maximal com a propriedade da interseção finita. Logo, basta provar que, se F ∈ Λ é
T
maximal então, {F : F ∈ F} 6= ∅.
Para cada F ∈ F e β ∈ A seja Fβ a projeção de F em Xβ ; isto é, Fβ = {wβ : w =
(wα )α∈A ∈ F }. Então a coleção Fβ = {Fβ : F ∈ F} tem a propriedade da interseção finita.
Como Xβ é compacto existe xβ ∈ ∩{F β : Fβ ∈ Fβ }. Seja (xα )α∈A ∈ X tal que, ∀α ∈ A,
T
xα ∈ {F α : Fα ∈ Fα }. Resta apenas mostrar, (xα )α∈A ∈ F . Para isto, dado β ∈ A, seja Gβ
um aberto de Xβ com xβ ∈ Gβ . Então, se G = {(yα )α∈A : yβ ∈ Gβ }, a união da famı́lia F
com {G} continua a ter a propriedade da interseção finita. Como F é maximal G ∈ F. Além
disso, toda interseção finita de tais G também pertence a F . Mas estas interseções finitas
formam uma base de vizinhanças de (xα )α∈A na topologia de X. Isto implica que qualquer
F ∈ F encontra todo aberto de X que contém (xα )α∈A . Logo,
(xα )α∈A ∈ F , ∀F ∈ F
e, consequentemente,
\
(xα )α∈A ∈ F.
F ∈F