SPor ordem e comissão dos Senhores membros do Conselho Real de Sua Majestade, li e examinei a Recompilação Breve
que o Padre Frei Luís de Granada, da Ordem dos Predicadores, fez do livro que ele mesmo compôs, de Oração e
Meditação. Parece-me que, além de ser toda católica, a obra ensina, com estilo piedoso e proveitoso, como o cristão
pode cultivar a devoção e o amor a Deus. E por isso deve-se dar licença para que todos possam se beneficiar dela, etc.
Em Madri, dezenove de abril do ano de mil, quinhentos e setenta e quatro. Doutor Heredia F R E I L U Í S D E G R A N A D
A 21 À Excelentíssima Senhora Duquesa de Alba Temos antigos exemplos, Excelentíssima Senhora, não só nos autores
profanos, mas também na sagrada Escritura, que encorajam aos que somos pobres e temos pouco a oferecer a Deus,
como também aos grandes senhores, não tanto pelo que devemos a tais exemplos por sua grandeza, mas
principalmente porque nos ensinam que devemos apresentar com esperança nossas oferendas a Deus, apesar da nossa
insuficiente capacidade de dar, desde que o façamos com simplicidade e pureza de coração. Porque, afinal, se o que dá
dá tudo o que pode, não está obrigado a mais. Encontrei este tesouro, que apresento a vossa excelência, quando, a
caminho de Lisboa, estive na casa de seu autor, o Reverendo Padre TRATADO DE ORAÇÃO E MEDITAÇÃO B R E V E R E C
O M P I L A Ç Ã O 22 Frei Luís de Granada, o qual me disse que fez esta recompilação para beneficiar os pobres, que não
podem comprar suas obras completas. Perguntei-lhe se queria dedicá-la a alguém, e respondeu-me que, por ser tão
pouca coisa, não se atreveria a se abrigar sob a sombra de ninguém e muito menos a de Vossa Excelência, já que o
serviço não seria digno de tamanho favor. Eu lhe supliquei que me confiasse o livro, porque acredito que faria bem em
imprimi-lo debaixo do melhor abrigo e da melhor sombra de nosso século, e onde será melhor empregado. Assim,
suplico a Vossa Excelência que receba este pequeno serviço. Faço isso com grande zelo de servir esta insigne casa, como
sempre fiz, seguindo em tudo as pegadas de meus antecessores, que serviram a Vossa Excelência tanto quanto muitos
outros têm servido. Excelentíssima Senhora. Beija suas excelentíssimas mãos. Domingo de Portonarijs F R E I L U Í S D E
G R A N A D A 23 Ao Leitor O motivo que me levou, leitor cristão, a fazer esta breve recompilação de nosso Livro de
Oração e Meditação3 foi que algumas pessoas virtuosas e zelosas da salvação das almas resumiram esse livro,
imprimiram e publicaram seus próprios tratados4. Fizeram isso, em parte, para levar a doutrina daquele livro aos pobres
que nem sempre têm recursos para comprá-lo, ainda que tenham muito interesse no assunto; em parte também para 3
Título original: Libro de la Oración y Meditación, impresso pela primeira vez no ano de 1554, em Salamanca. 4 Refere-se,
entre outros, a São Pedro de Alcântara, que condensou o Libro de la Oración y Meditación e publicou o seu resumo
entre 1556 e 1558 (data incerta). TRATADO DE ORAÇÃO E MEDITAÇÃO B R E V E R E C O M P I L A Ç Ã O 24 resumir em
poucas palavras a essência e doutrina de todo o livro, de modo a socorrer a memória daqueles que podem adquiri-lo,
mas não dão conta de recordar todo o seu conteúdo. Essa piedosa iniciativa não me pareceu má, embora me
descontentassem um pouco o estilo e o modo como isso foi feito. Porque, lendo alguns capítulos desses resumos,
conquanto a doutrina fosse sã e boa, o estilo me desagradou em certos pontos, visto que algumas partes estão
incompletas, outras desatadas, outras imperfeitas e com demasiada brevidade. Além disso, o estilo era desigual, às
vezes elegante, às vezes rude, feito roupa remendada com muitos pedaços, como acontece numa obra que reúne
diversos autores, pois cada um tem seu próprio estilo e modo de falar. Assim, já que o dito livro tinha sido recompilado
por outros autores, pareceu-me conveniente que o próprio autor fizesse esse trabalho5, de modo que todo o texto 5
Frei Granada decidiu escrever a própria versão resumida do Libro de la Oración y Meditación, que foi impressa pela
primeira vez por Juan Blavio de Colonia, em Lisboa, no ano de 1557, sob o título Tratado de Oração e Meditação. F R E I
L U Í S D E G R A N A D A 25 apresentasse um só estilo e colorido e que a brevidade não fosse tanta que obscurecesse a
doutrina por faltarem palavras para sua perfeita compreensão, coisa que costuma acontecer àqueles que põem toda a
sua atenção apenas na brevidade6. Mas antes de começar a recompilação do livro, pareceu-me adequado acrescentar
uma breve introdução, com algumas informações úteis às pessoas que querem se dedicar ao santo exercício da oração e
de todas as virtudes. Frei Luís de Granada 6 Dada a confusão que se estabeleceu acerca da autoria da obra, debateu-se
posteriormente quem seria de fato o autor do texto original. A questão foi examinada pelo Frei Dominicano Justo
Cuervo (1859-1921) no estudo crítico Fray Luis de Granada Verdadero y Único Autor del Libro de la Oración, publicado
em Madri, no ano de 1918. TRATADO DE ORAÇÃO E MEDITAÇÃO